segunda-feira, 8 de maio de 2017

Editorial: #OcupaCuritiba



Logo esta hashtag deverá ocupar o primeiro lugar entre os trend topics do Microblog Twitter. Tem fôlego para isso, em virtude do acirramento entre "coxinhas" e "mortadelas", cada dia mais evidente, nessas horas que antecedem o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato. Sou do tipo que coloca panos mornos, acalma, lança uma ducha de água fria na fervura. Não sou do tipo que "atiça", como alguns garotos de nossa infância, que adoravam provocar uma briga entre a galera. Portanto, vejo como prudentes tanto aqueles que desaconselharam a presença da militância petista naquela praça de guerra, assim como o pronunciamento do juiz responsável pela audiência, Sérgio Moro, que teria pedido que os apoiadores da Operação Lava Jato evitassem ir ao local. A princípio, a audiência de Lula estava marcada para o dia 03, mas foi adiada para o dia 10, a pedido da Polícia Federal. O pedido deveu-se ao aparato de segurança que seria montado no local, antecipando-se a possíveis distúrbios entre os dois grupos. 

Como disse, os ânimos estão acirrados e, neste clima, inútil o pedido de cautela a ambas as partes. A cidade de Curitiba está repleta de outdoors com termos pouco elogiosos ao ex-presidente Lula, numa clara torcida antecipando uma possível condenação. Os advogados de Lula pediram que a Ordem dos Advogados do Brasil enviassem um representante à audiência, algo já acordado. Solicitaram, igualmente,  a gravação do depoimento de Lula, algo já negado pelo juiz Sérgio Moro, que não gostaria de ver por perto nem os aparelhos celulares entre os presentes. Os partidários do ex-presidente teriam divulgado uma espécie de programação do evento aos seus militantes, tratando o caso como uma festa da democracia, numa remissão inevitável a mais uma dualidade: democratas e golpistas. As forças de segurança montaram um forte aparato preventivo, com restrições, inclusive, de acesso ao local, mas, é quase inevitável um possível enfrentamento. Nosso "correspondente" nos informou sobre a existência de carros de som convocando a população para o local, financiados pelos "coxinhas".  

Como afirmamos antes nos editoriais, Lula já foi julgado. Foi julgado pelo andar de baixo da pirâmide social, que o coloca em primeiro lugar em todas as sondagens de intenções de voto realizadas até o momento, numa espécie de gratidão ao presidente que tirou mais de 40 milhões de brasileiros da extrema pobreza; colocou filhos de pais analfabetos nas universidades públicas; ampliou a participação política e as garantias de direitos de comunidades indígenas e quilombolas. O andar de cima, por sua vez, rompeu com um pacto de conciliação de classes que, em nenhum momento tocou nos seus privilégios históricos, mas eles se sentiram profundamente incomodados com o simples fato do reconhecimento do direito de exercício de cidadania do andar de baixo. Para esta elite -a mais cruel e insensível do mundo - Lula deve ser jogado na fogueira da inquisição, seja ou não provada alguma coisa contra ele. 

Não entendo porque a militância petista vem tratando este assunto como uma festa da democracia. Na realidade, trava-se ali um embate duro, já com alguns comprometimentos evidentes dos princípios que regem um Estado Democrático de Direito. Não imagine essa militância que Lula sairá ileso desse processo, como disse antes, um julgamento que tem alguns componentes políticos determinantes. Seria presunçoso -e também ingênuo - imaginar Lula livre dessas amarras; costurando uma reedição de uma conciliação de classes com a elite; sagrando-se vitorioso nas urnas; em eleições livres em 2018. Conforme já antecipamos, convém às forças do campo progressista deste país trabalharem com a hipótese de alternativas ao nome de Lula, porque o projeto de inviabilizá-lo politicamente hoje parece ser algo absolutamente sob o controle dos seus adversários. Infelizmente. 

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