terça-feira, 6 de junho de 2017

Crônicas do cotidiano: Estão de marcação com o Lula


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José Luiz Gomes da Silva


Dos tempos em que este blogueiro ainda era um ilustre peladeiro dos campos de várzea da praça Monte Castelo, de nossa saudosa Paulista, uma lembrança ficaria muito nítida. Sempre que alguém era muito perseguido – dentro ou fora de campo - dizia-se que a turma estava de “marcação” com o sujeito. Só pode ser marcação era uma das expressões mais comuns por aqueles idos. Naquelas várzeas existia um jogador de futebol inigualável, conhecido pela rapaziada como “Nego Tom”, diretamente responsável por nossa felicidade naquelas tardes de domingo, de tempos que não voltam mais. Nego Tom era um craque de qualidades excepcionais. Um desses raros jogadores cujas habilidades podem ser percebidas nos quatros cantos do campo. 

Conseguia realizar aquelas proezas apenas reservadas a craques como Maradona ou Ronaldinho Gaúcho, capazes de dribles impossíveis,desconcertantes, em quadrados minúsculos, como se conduzissem a pelota colada aos pés. Seus tiros ao gol lembravam um Reinaldo ou um Rivelino, com força ou bem colocados, sempre indefensáveis, obrigando os arqueiros, cabisbaixos, a buscarem a redonda na canto das redes. Se movimentava em campo assim como um Dirceu Lopes, do Cruzeiro daqueles tempos. Reinava absoluto na pequena área. Depois do Nego Tom, só o "Baixinho" Romário recuperaria a coroa, consolidando-se naquele espaço como nenhum outro.  

Suas cobranças de falta lembravam um Marcelinho Carioca, com  toques sutis, de trivela, com aquele  “pezinho de anjo”, colocando a bola onde exatamente desejava, para desespero dos “Velosos” e delírio da massa corintiana. Jogando no mesmo time, a este escriba competia a espinhosa tarefa de “arrumar” a casa na meia-cancha, ajeitar a pelota e fazer aqueles passes – sempre magistrais, sem falsa modéstia – para que o Nego Tom desse o seu show particular na pequena área, tirando muita gente da jogada apenas com uma parada de peito, deixando seus marcadores com a bunda no chão, deslizando como um muçum ensaboado por entre os adversários, fincando a bola nas redes, para alegria dos torcedores do Uberaba Futebol Clube. Dentro e fora de campo, nosso entrosamento era absoluto. Dizia-se que eu já sabia onde o Nego Tom iria se posicionar em campo.Bobagem. Era tudo combinado antes, nas fugidas do grupo escolar para os campos de várzea da Mata do Frio, com uma bola "Canarinha" adquirida com o montante de uma "vaquinha", após juntarmos o dinheiro do lanche escolar. Era uma estripulia pueril, repetida com frequência, até a adolescência, quando já treinávamos com as cobiçadas bolas de "couro". 

Quando a cidade, finalmente, conseguiu formar o seu time e colocá-lo numa das divisões do campeonato pernambucano, lá estava escalado o Nego Tom, para atrair multidões ao estádio e estufar o peito de todos os paulistenses, num indisfarçável orgulho. Caçado dentro e fora de campo, queixava-se ao amigo de que a turma sempre estava de “marcação” com ele. Não escondia as dificuldades de lidar com as demonstrações de preconceito de alguns colegas.Aqueles tempos se passaram e hoje lembrei desta expressão quando li o relatório do Ministério Público que pede a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – em regime fechado, a princípio – além do pagamento de uma multa exorbitante, no valor de 86 milhões, que o ex-presidente deverá devolver aos cofres públicos, sob o argumento de vantagens indevidas auferidas por ocasião em que exerceu os mandatos de presidente da República Federativa do Brasil. 

O andamento da carruagem política todos já perceberam, mas, por vezes, ainda surpreende-nos alguns desses procedimentos. Durante o depoimento do senhor Léo Pinheiro ao juiz Sérgio Moro, no nosso modesto entendimento, faltou fazer uma perguntinha básica ao ilustre sócio da construtora OAS: Quais as circunstâncias e em que momento aquele tríplex do Guarujá estaria “reservado” para o ex-presidente Lula. Lula não nega que a sua ex- esposa, Dona Marisa, interessou-se pelo apartamento; que ela chegou a comprar uma cota da Bancoop; que ele tenha visitado o apartamento na companhia de Léo Pinheiro e que, de alguma forma, a venda do apartamento tenha ficado em stand by, até ele decidir-se sobre a sua aquisição, o que acabou nunca ocorrendo, em função das limitações espaciais do imóvel, assim como em razão de sua localização - numa praia – que o ex-presidente só poderia frequentar numa segunda-feira ou uma quarta-feira de cinzas. 

Durante a sua audiência, Lula sugeriu que o MPF apresentasse, no momento oportuno, algum documento que, de fato, provasse que ele era o verdadeiro proprietário daquele imóvel. Este documento não apenas não foi apresentado, mas se produziu uma espécie de contorcionismo inimaginável numa peça jurídica, como aquela que informa que a esperteza do ex-presidente foi tamanha que ele teria armado tudo no intuito de encobrir os vestígios de suas ações, ou seja, se não há nenhum documento que comprove a propriedade do imóvel em seu nome, é porque ele agiu de má-fé, mas o imóvel é dele e pronto. Assim mesmo. Nós afirmamos ontem - e voltamos a repetir - que Lula já está literalmente condenado. Ainda o vejo com aquele entusiasmo característico, animando os encontros do PT, mas a estratégia do stablishment é mesmo a de isolá-lo, evitando os possíveis embaraços de um líder popular pelos próximos anos. Afinal, não se arquiteta um golpe para devolver o poder popular dois anos depois, como observou o editor do Le Monde Diplomatique, Sílvio Caccia Bava. Não se entenda, portanto, as tecituras anti-Temer como uma volta à recomposição política de nossa democracia. 

Há muitas críticas à defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula, até mesmo nos meios jurídicos. Este blogueiro tem todo o respeito pela assessoria jurídica do ex-presidente Lula. O problema, no entanto, é que eles estão contingenciados pelas circunstâncias políticas, que parece dá pouca importância às questões técnicas, de fato jurídicas, do processo que envolve o ex-presidente. Fala-se que eles já emitiram mais de duzentas notinhas à imprensa, numa conclusão óbvia, de que há, nitidamente, um problema de comunicação que extrapola as questões de natureza jurídica. Todo o cidadão precisa, necessariamente, ser acompanhado por um advogado. Caso contrário, com todo o respeito que mantenho pela assessoria jurídica do ex-presidente, ela seria perfeitamente dispensável, num julgamento de natureza política, onde os argumentos técnicos estão sendo solenemente ignorados pela acusação. Intuitivo, em certo momento, o ex-presidente já teria reconhecido o problema, informando que o que estaria sendo julgado era o seu Governo. Como diria o Nego Tom, estão de "marcação" com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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