domingo, 25 de junho de 2017

Editorial: Constrangimentos aqui e alhures.




O presidente Michel Temer recentemente visitou a Rússia e a Noruega. Como observa o jornalista Josias de Souza, talvez essa informação seja importante para aqueles leitores que já desistiram de acompanhar a agenda do Palácio do Planalto, hoje transformada num Boletim de Ocorrências, muito mais próxima de uma delegacia de polícia do que propriamente de uma rotina de trabalho exercida pelo mandatário maior do nosso Executivo. Neste intervalo da viagem, a Polícia Federal concluiu a perícia técnica sobre os áudios gravados pelo empresário Joesley Batista, do Grupo J&F, recebido em audiência pouco republicano, no Palácio do Jaburu, pelo presidente Temer. A perícia realizada pela Polícia Federal concluiu não haver absolutamente nenhuma edição do áudio ou qualquer indício que aponte para a ausência de autenticidade. Ou seja, não há adulterações, o que compromete ainda mais o presidente.
 
Acuado, o sistema político se auto-protege como pode. Um aliado do ex-presidente José Sarney, João Alberto Souza, que preside o Conselho de Ética do Senado Federal, acaba de salvar o pescoço do senador Aécio Neves., recusando uma representação contra ele, por quebra do decoro parlamentar. Essa manobra faz parte de um acordão político maior, que implica na permanência dos tucanos no Governo Temer, assim como o apoio do partido nas tessituras que visam rejeitar o pedido de investigação do presidente, acusado do crime de corrupção passiva, na Câmara dos Deputados. Não se sabe até que ponto os políticos vão segurar as pontas desses acordos de bastidores. As acusações contra o presidente se avolumam, crescem as insatisfações populares e fica cada vez mais difícil ir rejeitando esses pedidos de investigações, assim como ignorar os pleitos de impeachment encaminhados à Câmara dos Deputados. Setores fortes da engrenagem golpista - não por algum pudor republicano ou democrático, que isso eles nunca tiveram - já abandonaram a carruagem política do Planalto.
 
A visita do presidente Michel Temer à Rússia e a Noruega foi o que se poderia chamar de um fiasco diplomático, com ingredientes de constrangimentos. Na Rússia, um tratado de combate à corrupção, assinado por um dos países mais corruptos do mundo, o que se constitui numa anedota. Na Noruega, além dos protestos de ambientalistas, uma dura reprimenda da primeira-ministra Erna Solberg, de olho no andamento das investigações da Operação Lava Jato e no afrouxamento das medidas que visam preservar a Amazônia brasileira, cujos fundos são financiados por aquele país, que acaba de cortar 50% dos recursos destinados a este objetivo. Se as coisas já não iam muito bem, agora, então...
 
Ontem, mais um dado revelador de que este governo anda batendo cabeça. Depois das noticiais que davam conta de uma possível saída de Leandro Daiello do comando da Polícia Federal, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, a quem aquele órgão fica subordinado, convocou a imprensa para uma coletiva, desmentindo a notícia, mas saindo pela tangente quando inquirido pelos repórteres acerca da permanência de Daiello no cargo. Cremos haver uma intenção no sentido de se pedir a cabeça de Daiello. O grande problema é que o ônus a pagar parece ser muito alto nesse momento de instabilidade institucional, com um governo que ostenta apenas 7% de aprovação popular, um índice até mesmo inferior ao da ex-presidente Dilma Rousseff nos seus estertores.
 
 

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