quinta-feira, 22 de junho de 2017

Editorial:Brasil, um país improvável.



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Aguarda-se para as próximas horas a sentença que será proferida pelo juiz federal Sérgio Moro, no contexto das investigações da Operação Lava-Jato, envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta ação em particular diz respeito ao caso do tríplex do Guarujá, onde o ex-presidente é acusado de receber o imóvel como uma espécie de pagamento por ter beneficiado o grupo OAS, em contratos pouco republicanos com a estatal Petrobras, em seu governo. A defesa alega não haver provas materiais que indiquem que Lula é o verdadeiro proprietário deste imóvel, mas ontem o executivo da empreiteira, Léo Pinheiro, voltou a afirmar que o imóvel "sempre" esteve reservado para Lula. Os advogados do ex-presidente também alegam que o prédio onde se situa o imóvel teria sido dado como garantia à Caixa Econômica Federal, como resultado de transações da OAS com aquele banco - o que impediria a venda dos apartamentos - mas a assessoria de comunicação do banco já informou que as cláusulas não impediriam a comercialização do imóvel. A tendência é a de que o e presidente seja mesmo condenado, como parte da estratégia de isolá-lo politicamente. 

Ando meio absorto, tentando entender o que se passa no país. Nestes momentos, quase sempre, uma série de reflexões de personagens nacionais, dos mais diversos campos de atuação, nos veem à mente. A última delas é de um pernambucano, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, que dizia que o Brasil é um país improvável. De fato é mesmo. Aliás, convém fazer aqui o registro de que estamos falando do maior frasista do país. O argumento utilizado pelo ministro Gilmar Mendes, ao conceder o seu voto de minerva pela aprovação das contas de campanha da chapa Dilma/Temer foi no sentido de não aprofundar a crise institucional que o país passou a atravessar após o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Pelo o andar da carruagem política, a crise não apenas não foi estancada, mas agrava-se a cada dia, com a cadeira da Presidência da República ocupada por um presidente sem legitimidade, sem apoio popular, com fortes indícios - apontados pela Polícia Federal - de ter cometido crime de corrupção passiva no exercício do mandato. 

Estamos prolongando o sofrimento de toda uma nação em razão de um sistema político que ainda encontra mecanismos de auto-sobrevivência, aliado a setores do judiciário que parecem fazer vistas grossa para a gravidade do problema. Em nada contornaremos a crise sendo geridos por um governante com este perfil, que vem adotando um programa de medidas  extremamente danosas para a classe trabalhadora. Ontem, diante dos impasses que impedem que o governo controle sua base aliada, a reforma trabalhista sofreu uma refrega numa das comissões da Câmara Federal. Nada assim tão definitivo, mas que representa um certo alento para a oposição. Em conversa, no dia de hoje, com o cientista político Michel Zaidan, ele afirmou acreditar que a única saída possível para Michel Temer é deixar de ocupar a cadeira de Presidente da República. Cumpre aqui, no entanto, fazer o registro nada alvissareiro de que a orquestração golpista, certamente, pretende encontrar um ator disposto a cumprir o plano de metas do "Consenso de Washington", ou seja, alguém talvez com um perfil jurídico ou burocrático, de preferência que não esteja arrolado nas investigações da Lava-Jato. Como disse antes, não se dá um golpe para devolver o poder à soberania popular dois anos depois.

O sistema político, no entanto, protege-se como nunca antes. Rodrigo Maia recusa-se a acatar os diversos pedidos de impeachment que foram encaminhados à Câmara Federal, inclusive o da OAB. Se o governo cair, cai com ele uma penca de agentes públicos, que deverão perder o tal foro privilegiado, como é o caso do ministro Moreira Franco, seu genro. Rodrigo Maia também tem pressa em submeter à Câmara Federal um possível pedido de investigação do presidente, formulado pelo Procuradoria-Geral da República. O tempo urge, pois está difícil assegurar o apoio de uma base de sustentação cada vez mais precária. O governo aponta os tucanos como os responsáveis pelas últimas defecções que resultou nesta derrota. O suposto dilema dos tucanos já foi discutido por aqui em mais de uma ocasião. Uma das motivações, como sempre, refere-se igualmente a uma espécie de auto-proteção. Há muitos tucanos com as asas sujas. O grão-mestre Fernando Henrique Cardoso, que defendia a permanência no governo, voltou a reavaliar a situação. 

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