segunda-feira, 31 de julho de 2017

Editorial: Os ovos da serpente


Machado
Práticas de cunho fascista já são verificadas em nosso cotidiano social. Em certa medida, o fascismo já está entre nós, se considerarmos os constantes ataques sofridos por grupos sociais minoritários no país, nos últimos anos. Outro dia, o editor deste blog foi virulentamente atacado nas redes sociais por partidários de um grupo de direita aqui do Estado, apenas por ter publicado um artigo sobre o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Tive a curiosidade de observar a página e, para a nossa surpresa, lá estava a apologia explícita a atores políticos emblemáticos do regime militar instaurado no país com o golpe civil-militar de 1964, acusados de tortura e outros crimes. O mais surpreendente, no entanto, é a presença de jovens nesses movimentos, alguns deles sem a menor noção do que ocorreu no país por aqueles idos. A onda "fascista" - que, nesta crise institucional encontra  um terreno bastante fértil para o seu crescimento -, parece turvar o raciocínio dessa gente. Quem quiser que se atreva a fazer algum questionamento a este cidadão quando de sua presença na capital pernambucana.  
Esta semana, o deputado entrou em rota de colisão com alguns veículos de comunicação impressa que avaliaram sua performance nas redes sociais. Ele naturalmente, em sua réplica, provocou as polêmicas de sempre. O fato concreto é que, com o apoio de abnegados seguidores, o deputado Jair Bolsonaro vai muito bem nas redes sociais. Também ali, uma vez que em todas as pesquisas de intenção de votos realizadas até o momento, igualmente, ele tem aparecido muito bem. Como se sabe, Jair Bolsonaro surfa em ondas favoráveis, como o desprestígio de políticos tradicionais; a crise institucional aliada à crise econômica; uma plataforma política direitista, com ingredientes perigosos, com os quais ele se identifica, como o combate duro á violência. Não deve ser por acaso que ele está ali, entre os primeiros colocados na corrida presidencial de 2018, somente abaixo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje um político completamente encrencado com os rolos da Operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro aceitou mais uma denúncia contra ele, desta vez envolvendo as reformas do sítio de Atibaia. 
É profundamente lamentável que o nosso sistema político tenha atingido este estágio tão deplorável, o que o torna incapaz de interditar atores políticos com este perfil. Outro dia, pelas redes sociais, alguém estava comentando que o "Fenômeno Bolsonaro" não se resume tão somente a este personagem da política nacional, mas se estende aos seus familiares, hoje muito bem colocados nas pesquisas para o Governo de São Paulo, assim como para representar aquele Estado na Câmara Alta. Os filhos do deputado aparecem muito bem nas pesquisas. O arguto sociólogo português, Boaventura de Souza Santos, fez outro dia uma das previsões das mais preocupantes, ou seja, a que sugere a possibilidade de referendarmos, através das urnas, um regime fascista, elegendo um candidato com esta plataforma.
De fato, não se pode nutrir muitas expectativas em torno de num sistema político necrosado como o nosso, que direciona suas ações consoantes os interesses e motivações mais vis, absolutamente dissociada do interesse público. Embora, segundo pesquisa recente, mais de 80% da população advogue que os deputados devem votar a favor da aceitação da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer, sabe-se que os operadores do Palácio do Planalto já consideram essa denúncia enterrada. A charge do cartunista Renato Machado - publicada no dia de hoje no jornal Folha de São Paulo e aqui reproduzida - ilustra bem essa nossa preocupação. Na realidade, todo o sistema político brasileiro está na frigideira. O problema é que não sabemos qual será o ponto certo dessa fritura ou se ela, de fato, algum dia acordará, uma vez cessaram as mobilizações de ruas e os famosos panelaços, gentilmente financiados pela elite para apear do poder uma presidente legitimamente eleita, sob o argumento, pasmem, de combater a corrupção.    

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