sábado, 8 de julho de 2017

Editorial: Os últimos dias de Michel Temer


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Guindado ao poder através de uma engrenagem golpista, sempre acreditei que esta mesma engrenagem golpista poderia salvar o pescoço do presidente Michel Temer(PMDB), a despeito da desaprovação popular que o governo ostenta. Mas, aos poucos, percebe-se que setores importantes dessa mesma engrenagem demonstram a intenção de abandonar a nau governista. Três fatores parece-nos determinantes para o esfacelamento dessa base de sustentação do Governo Temer. Um dos fatores são as eleições previstas para 2018, onde os políticos que desejam reelegerem-se temem o julgamento das urnas, em decorrência do apoio a um presidente tão fragilizado pelas denúncias que pesam contra  ele e seus assessores. Alguma raposa política já disse, no passado, que político algum comete suicídio. 
Daí nossa dificuldade de entender o estreitamento da aliança do governador de Pernambuco, Paulo Câmara(PSB) ao PMDB do Estado - como afirmamos em artigo recente sobre aquelas eleições - mesmo entendendo o fato de o Deputado Federal Jarbas Vasconcelos ter declarado que votaria em favor da liberação de Michel Temer para a abertura de inquérito junto ao STF. Setores importantes da mídia - que ajudaram a construir a narrativa discursiva em torno do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff - hoje se colocam plenamente em defesa do afastamento do presidente Michel Temer. A elite econômica, por sua vez, que poderia festejar os indicadores que apontam para a recuperação da economia, por sua vez, passaram a ver com reservas que o fato de que esses índices auspiciosas possam ser conduzidos por um presidente tão fraco e acossados de denúncias de conduta pouco republicana.
 
Segundo dizem, em conversas com os tucanos, Rodrigo Maia já teria acenado que manteria a equipe econômica caso seja conduzido à Presidência da República, num eventual afastamento de Michel Temer. A fala do senador Tasso Jereissati(PSDB-CE), dirigente interino da legenda, apontam nitidamente para um rompimento com o Governo Temer. De acordo com artigo do professor Michel Zaidan, aqui publicano, toda essa manobra conta com o aval do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo partido deverá ampliar sensivelmente sua participação no futuro governo. Os sinais e os movimentos do Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, por sua vez, indicam que ele já não age como aquele leão de chácara do Planalto como outrora.
 
Neste caso em particular, Botafogo -era assim que ele era tratado nas planilhas da Odebrecht - parece ser mesmo o grande termômetro político do Governo Temer. Sua decisão em acatar a proposição da oposição no sentido de que o pedido de investigação da Procuradoria Geral da República seja apreciado em votação aberta, segundo alguns, pode ter significado o golpe de misericórdia nas esperanças do Planalto no sentido de estancar a sangria na Câmara dos Deputados. Reuniões se sucedem, a caneta continua funcionando, emendas estão sendo liberadas num ritmo alucinante, mas os ventos desfavoráveis ao Governo Temer também se avolumam. Política tem lá suas circunstâncias e a expectativa de poder passou a animar o deputado Rodrigo Maia desde o início. Manobrou em favor de Michel Temer o quanto pode, mas lembrou que é um Presidente do Poder Legislativo muito bem-azeitado entre seus pares e que poderia conduzi-lo em defesa de seus projetos pessoais.
 
O jornalista Josias de Souza lembrou, com razão, que o presidente Michel Temer está provando do seu próprio veneno. Nos estertores das tecituras para derrubar a presidente Dilma Rousseff(PT), Michel Temer articulava-se para sucedê-la, enquanto Dilma se recolhia aos seus aposentos, resignada. A resignação não parece ser um traço da personalidade do presidente Michel Temer, mas seus assessores mais diretos já admitem que o presidente está abatido. Os gestos - traduzidos naquele balançar frenético de mãos - já não podem ser lidos apenas como uma forma de ênfase ao discurso, mas como uma demonstração de ira, rancor e desapontamento. Golpes, notadamente os institucionais, demandam algum tempo de planejamento. As condições políticas precisam estar "amadurecidas".
 
No caso da presidente Dilma Rousseff, desde 2014 que seus algozes perceberam os flancos por onde poderiam atuar para minar o seu governo, a partir, inclusive, da complacência de auxiliares com o perfil do senhor Michel Temer, que ingenuamente chegou a ser indicado pela ex-presidente como seu articulador político. Imaginem o disparate. Mas, felizmente, a vida dá algumas voltas e hoje é o próprio Michel Temer, conhecido por sua competência como articulador político, que se vê minado pelas circunstâncias. Como observa o cientista político Michel Zaidan, não há registro de bancada pior do que aí está. O que poderá sair deste futuro arranjo político, infelizmente, também não deve ser favorável à ampliação dos diretos de cidadania da sociedade brasileira, posto que reformas perniciosas já estariam acordadas entre nos novos ocupantes dos espaços de poder.  

Não deixe de ler o artigo do Cientista Político Michel Zaidan


Governabilidade sem governo

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