segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Editorial: O duro golpe na pesquisa científica




Machado

A pesquisa científica é uma dessas áreas onde os bons resultados não aparecem assim do dia para a noite. É preciso um longo período de investigaçoes e investimentos, preferencialmente de forma contínua, sem solução de continuidade, como é da natureza exigida do próprio campo investigativo. Entre os anos de 2003 e 2015 - coincidência ou não durante a gestão dos governos de coalizão petista - o país conheceu avanços significativos em termos de produtividade científica. Pulamos de 1,39% para 2,57%, ou seja, de 19 mil artigos para 63 mil artigos científicos publicados em periódicos legitimados pelo campo acadêmico internacional. Os cortes previstos no orçamento público - em razão da grave crise econômica que atravessamos - podem colocar todas essas conquistas a perder. Há, aqui, igualmente, alguns componentes políticos inegáveis, como resultado da agenda neoliberal imposta pelas forças políticas que assumiram o poder depois da deposição da presidente Dilma Rousseff.

 
O quadro é desalentador para o país, para os pesquisadores, para as instituições de pesquisas e para os órgãos de fomento, como o CNPq, por exemplo, cujos recursos só suportam o próximo mês, de acordo com Gilberto Kassab, ministro da Ciência e Tecnologia. De acordo com dados apontados pelo Jornal Folha de São Paulo, o órgão precisa de recursos da ordem de 570 milhões, uma verdadeira "miragem" diante dos contingenciamentos impostos pelo Palácio do Planalto. Estamos tomando como referência os órgãos de fomento, mas a crise já atinge em cheio a estrutura universitária pública federal e de institutos técnicos também no âmbito federal, alguns deles funcionando no limite de suas possibilidades. No Governo de Fernando Henrique Cardoso, as coisas chegaram a um tal nível que até papel higiênico os alunos precisavam levar de casa. Penso que já estamos retroagindo a este estágio. 

As forças que movem essa "agenda" neoliberal são tão poderosas que para "tocá-las" eles subestimam até o fato de o ator político está sob suspeita de cometimento de ilícito no exercício do mandato. Tudo por essa agenda nefasta, imposta pelas forças de uma elite econômica nacional consorciada com corporações político/financeiras internacionais. Para tanto, basta o ator político sujeitar-se à mesma. É um "Washington Consensus" com alguns ajustes impostos pelas necessidades dos novos tempos políticos. Observem que, mesmo diante de tantos ajustes, cortes e retrocessos os resultados alcançados continuam pífios, insignificantes. Os arrochos deverão continuar por um longo tempo, solapando todos os ativos públicos e levando a classe trabalhadora ao maior sacrifício de toda a sua história. O grande capital continua protegido. Agora mesmo, por ocasião das negociações em torno da votação na Câmara Federal, em torno do acatamento ou não da denúncia formulada pela PGR, a bancada ruralista recebeu mais um desses afagos. Terão seus débitos com o INSS negociados a perder de vista. 

O editorialista da Folha de São Paulo recomenda austeridade e cautela dos gestores no gasto dos parcos recursos. Claro que nenhum gestor, nas atuais circunstâncias, pode prescindir desses cuidados, estabelecendo aquelas prioridades das prioridades. O fato concreto é que não se faz pesquisas sem recursos e estes estão minguando gradativamente. Não há austeridade que resista a este torniquete aplicado ao campo das pesquisas no país. Infelizmente. Por vezes, o que há é uma verdadeira esquizofrenia entre os governantes e a sociedade. No Rio de Janeiro, por exemplo, diante do quadro caótico em que se encontra as finanças públicas daquele Estado - com universidades quebradas e servidores públicos sem salários - o atual governador resolveu abrir uma licitação para a contratação de serviços de voos de aeronaves particulares a serviço do Estado.


Eles continuam não dando um bom exemplo ao cidadão. O cara gasta 02 bilhões para escapar da degola e, logo em seguida, extingue o programa de Farmácias Populares, além de promover uma redução substantiva dos benefícios do Programa Bolsa Família. Realmente, como observa o editorialista do jornal da família Frias, é preciso reorientar essas prioridades, talvez num contexto meramente especulativo e ideativo. Há aqui talvez um pouco de ingenuidade. Na realidade, diante desse choque neoliberal, como observa a filósofa Marcia Tiburi, em seu novo livro - numa evidente reminiscência ao filósofo francês Michel Foucault - este governo age de uma maneira biopolítica, ou seja, calculando quem vai morrer e quem vai viver. 

A charge que ilustra este editorial é do cartunista Renato Machado, publicada originalmente no jornal Folha de São Paulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário