quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Editorial: República do boi



Resultado de imagem para Temer com a bancada ruralista


No dia de ontem,primeiro de agosto, o presidente Michel Temer reuniu-se com integrantes da bancada ruralista e deputados do chamado baixo clero, fechados com ele sobre a rejeição da denúncia formulada pela Procuradoria Geral da República, que o acusa do crime de corrução passiva no exercício do cargo. Estamos em vias de nos tornarmos uma república do tipo ruralista - ou do boi - dada as prerrogativas estatais concedidas aos representantes do agro-negócio, conforme enfatizamos em editoriais anteriores. Não vou enumerar essas benesses, uma vez que elas são bem conhecidas, mas alerto para um dos resultados concretos dessas medidas, como o recrudescimento dos conflitos no campo, com o registro de mortes de assentados, quilombolas e indígenas. A ultima concessão do Governo Temer aos ruralistas foi a aceitação em negociar o débito que eles possuem junto ao INSS. Enquanto eles são favorecidos, a Reforma da Previdência avança.  

Em artigo publicado aqui no blog, o cientista político e professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, Michel Zaidan Filho, chama a nossa atenção para três fatos dos mais preocupantes, nesse momento de instabilidade política que atravessa o país: o primeiro deles diz respeito à falência do nosso sistema político, onde um simulacro de democracia representativa, cumpre, hoje, apenas o papel de executar uma agenda neoliberal catastrófica para os interesses dos trabalhadores, distanciando-se tanto quanto possível, do pulso das ruas, do sentimento do povo, da soberania popular, portanto; o segundo fato se refere aos ardis montados pelo Palácio do Planalto no sentido de cooptar os parlamentares no sentido de que eles votem a favor da rejeição da denúncia contra o presidente. Creio que na história recente de nossa combalida democracia, nunca se tenha liberado tantas emendas de parlamentares. Prática corriqueira do nosso sistema político, a rigor, conforme observa o cientista político, o ato ultrapassa os trâmites legais das negociações políticas pata traduzir-se como prática criminosa, caracterizada como obstrução de justiça; Certamente, como observa Michel, caso a denúncia contra Michel Temer não seja aceita, isso se deve, em muito, à desmobilização popular, que assista passiva a todos esses desmandos na condução dos negócios públicos.  

O mínimo de decência republicana não aconselha o presidente Michel Temer na condução do Executivo brasileiro. Conforme observava, outro dia, um editorialista do jornal Folha de São Paulo, há indícios muito fortes contra o presidente, o que aconselharia seu afastamento da Presidência da República. Infelizmente, no entanto, um sistema político necrosado, mantido por uma elite cruel, não será capaz de realizar essa clivagem. Ele deverá ser mantido, para cumprir uma agenda concebida sob medida para atender aos interesses dessa elite, conforme observa o professor da UFPE. Hoje se sabe que o golpe institucional perpetrado contra a ex-presidente Dilma Rousseff foi muito bem urdido e contou com fartos financiamentos de setores dessa elite, inclusive ligadas ao agronegócio, de acordo com as planilhas divulgadas recentemente pelo empresário Joesley Batista, do Grupo J&F. Coincidentemente, o marqueteiro do atual presidente participou de campanhas publicitárias a favor do impeachment. Mas é só uma mera coincidência...nada mais do que isso.

Pesquisa de opinião recentemente realizada indica que o presidente não passaria pela clivagem das ruas. Um percentual superior aos 80% dos eleitores advogam que os parlamentares deveriam votar em favor do acatamento da denúncia da Procuradoria Geral da República contra ele. É mais ou menos o mesmo índice de brasileiros que o rejeitam ou desaprovam a sua gestão. Hoje pela manhã, os dirigentes tucanos resolveram aconselhar seus parlamentares a votarem pela aceitação da denúncia. Se essa decisão fosse tomada antes, é possível que fosse capaz de alterar significativamente o resultado do jogo, uma vez que provocaria o fortalecimento das forças contrária à manutenção de Michel Temer na Presidência da República. Tomada agora, aos 49 minutos do segundo tempo, é possível que não surta os efeitos esperados. Os tucanos,como sempre, em cima do muro. Não quiseram largar o osso dos ministérios. Não vale o sacrifício pelo país. Espírito público é coisa que não existe no dicionário desses senhores.  


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