pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Le Monde Diplomatique: O fascismo faz escola: avança a militarização da educação pública.

O que tem levado mais e mais governadores a proclamarem as virtudes da educação militarizada e firmarem convênios com as PMs de seus estados para a gestão de escolas? Trata-se de uma tática eleitoreira tipicamente fascista: a manipulação do medo
Mãos para trás, andando em fila; cabelos bem cortados para os meninos e presos para as meninas; códigos rígidos de vestimenta; senhor e senhora para professores e inspetores; nenhuma contestação da autoridade da direção ou coordenação; nada de debates ou discussões, só aula e prova; advertências, suspensões e expulsões a rodo.
Já imaginaram isso tudo acontecendo numa escola particular com mensalidades caras, destinada aos brasileiros endinheirados? Sim, até os anos 1980, ainda encontrávamos colégios de elite com alguns desses mecanismos disciplinares. Hoje, nem pensar. Muitos, aliás, especializaram-se em mimar playboys e em obedecer a papais e mamães que querem demitir o professor de história comunista, ou proibir aquele livro sobre cultura afro-brasileira.
O Brasil infelizmente cultivou uma classe dirigente mandonista e autoritária, que não mais se curva a professores ou à cultura em geral.
Mas é também verdade que os habitantes do andar de cima perceberam algumas coisas: o mundo mudou, o trabalho mudou, a economia mudou. Muitos mandaram seus filhos para temporadas de intercâmbio em colégios na Europa e nos Estados Unidos, e lá experimentaram outra organização escolar. Testes padronizados, aulas expositivas e atividades de treinamento repetitivo ficaram fora de moda.
Eles também ouviram falar de escolas no Vale do Silício em que as turmas são multisseriadas, o currículo é organizado em projetos de pesquisa e atividades lúdicas são cada vez mais valorizadas. Também leram em alguma revista no cabelereiro sobre uma tal “cultura maker”, por meio da qual o aluno aprende na prática, muitas vezes fora da sala de aula. Aliás, espantaram-se em saber que, em algumas escolas do “primeiro mundo”, nem carteiras enfileiradas existem!
Mais por admirarem tudo que os gringos fazem que por qualquer convicção filosófica, hoje os muito ricos procuram colégios onde cooperação, empatia, trabalho em equipe, inclusão e discussão coletiva são a tônica do trabalho pedagógico. O mercado já percebeu a tendência e aposta muitos milhões na construção de grandes colégios destinados ao público first class. A educação básica, assim como o ensino universitário antes dela, foi parar nas páginas das revistas de negócios e nos índices da bolsa de valores.
A realidade dos brasileiros pobres é bem outra. Escolas sucateadas, professores mal remunerados e ausência de planejamento pedagógico adequado são a triste recorrência da educação pública e gratuita. A alternativa que vem surgindo no horizonte, porém, é igualmente trágica. E ela nada tem a ver com a renovação de conceitos e práticas que se nota nos estabelecimentos particulares.
Veio do governador da Bahia, Rui Costa, um grão-petista, a mais recente adesão ao novo “projeto” para a educação pública brasileira: a militarização da administração escolar, terceirizada ao Exército ou à polícia. Em sua justificativa, o político baiano mencionou os resultados dos colégios militares, cuja performance em exames como o Enem é notável. Assim, sem mais, afirmou ser sua intenção levar esse desempenho aos alunos da rede pública.
O discurso de Sua Excelência é altamente contestável. Colégios militares são poucos e fazem vestibular, aplicam testes de seleção rigorosos para quem pleiteia uma vaga. Os resultados são derivados em grande medida da seletividade na porta de entrada. Além disso, a disciplina de seus alunos nem sempre nasce dentro da escola, mas fora dela. Afinal, a maioria provém de famílias de militares e quer, a princípio, seguir carreira nas Forças Armadas. Nesse sentido, estão obtendo a formação apropriada.
Evidentemente, o milagre não se repetirá em outros contextos, com outros alunos e sem seleção prévia dos mais aptos. Por lei, os governos devem garantir o acesso universal à educação básica. Ainda.
Então, o que realmente tem levado mais e mais governadores a proclamarem as virtudes da educação militarizada e firmarem convênios com as PMs de seus estados para a gestão de escolas públicas?
Trata-se de uma tática eleitoreira tipicamente fascista: a manipulação do medo.
A violência vitima crescentemente a população periférica das grandes cidades brasileiras; o avanço do tráfico de drogas e as promessas abundantes de ascensão social pelo crime seduzem parcelas dos jovens pobres. Diante do desespero de pais e mães (mais mães que pais, dada a formação atual dos lares em regiões mais humildes), o apelo à disciplina e ao regramento mais estreito é muito forte. Escolas administradas por militares parecem ser a salvação. “Lá meu filho não vai fumar maconha, lá não tem bandido.”
Processo similar vivemos com a intervenção federal no Rio de Janeiro, ou com as pautas no estilo “lei e ordem” que surgem vez ou outra no Congresso Nacional. O discurso político fascista pretende “endireitar” as escolas brasileiras, em todos os sentidos do termo.
No debate sobre educação, a manipulação do medo tem propósitos certeiros: o que se deseja de verdade é eliminar qualquer vestígio de pensamento crítico nos jovens pobres, adestrá-los como mão de obra servil, imprimir-lhes a obediência como princípio fundamental.
Tal é a finalidade da militarização de escolas públicas: confinar a juventude das periferias ao curral bovino da subserviência.

*José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do CORE (Comunidade Reinventando a Educação) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

(Publicado originalmente no site do Jornal Le Monde Diplomatique Brasil)


 

Lula na prisão: à espera do espetáculo televisionado

Lula na prisão: à espera do espetáculo televisionado
Marcia Tiburi

Lula na prisão: à espera do espetáculo televisionado
Hoje a mídia não apenas influencia, mas “decide” pelos outros poderes (Arte revista CULT)
Sabemos que o maior de todos os poderes em nossa época é o do que chamamos de MÍDIA. Legislativo, executivo e judiciário são poderes menores perto do poder dos meios de comunicação. O conteúdo produzido pela televisão, por exemplo, funciona como uma prótese de pensamento para o cidadão alienado, mas também para magistrados, procuradores e outros atores políticos, que se demitem do dever de refletir para julgar.
No Brasil, chamamos de “mídia” o que os portugueses chamam de média, palavra que vem do latim, media (meios), plural de medium (meio). Pronunciamos “mídia” como efeito da influência americana no senso comum brasileiro. E, como todos sabemos, basta olhar, por exemplo, para a destruição das empresas brasileiras a partir da Lava-Jato para se perceber que a influência dos EUA em nossa nação não se limita ao vernáculo.
Sabemos que a influência da mídia é imensa em nosso país, mas a própria questão dessa influência já ultrapassou todos os limites dos jogos de poder que conhecemos até aqui. Hoje, podemos dizer que a mídia não apenas influencia, mas “decide” pelos outros poderes. A própria espetacularização das versões produzidas pela mídia são repetidas em atos espetacularizados pelos agentes dos poderes menores que também querem aparecer e ser elogiados na televisão e nos jornais.
Vimos o que aconteceu nesta semana. Um general usou a rede social do Twitter para mandar recados à população. Certamente ele não estava apenas trocando ideias com amigos em público. O tom do que ele disse era ambíguo, podia ser interpretado de vários modos. Aliás, no Brasil, atualmente, há uma espécie de “interpretacionismo” a céu aberto que de um lado parece apenas fruto da incompetência de quem fala, mas de outro revela que a ambiguidade no discurso é um jogo de poder que se beneficia com o efeito do caos produzido pelo emissor. Naquela mesma noite, no Jornal Nacional, o apresentador, um dos personagens mais mecânicos da cena brasileira, falava como um robô a partir do tuíte do general. Quem tem algum sentimento cívico ou visão democrática sentiu uma profunda vergonha alheia.
Há uma continuidade visível entre essa pequena cena midiática de terça-feira, 3 de abril, e a cena de ontem, dia 4 de abril, no STF, em que os ministros que votavam contra a constituição faziam um discurso populista e, muitas vezes, incompreensível. Ninguém conseguia entender o que dizia um Fachin, que chegou a citar doutrinadores que imediatamente vieram a público declarar que o ministro não havia entendido o que eles escreveram, ou uma Rosa Weber, que dizia ceder a uma maioria, que só era maioria por causa do voto dela. Discursavam mal escondendo, atrás de palavras confusas e argumentos sem pé nem cabeça, a finalidade político-midiática dos seus votos.
Um detalhe: o melhor jeito de acabar com o poder dos poderosos é não lhes dar poder. Assim, se não acabamos com o poder da televisão no dia em que nos negarmos a ser sua audiência, pelo menos somos capazes de relativizá-lo e colocá-lo assim no seu devido lugar, um lugar que deveria ser menor do que dos demais poderes. É claro que o Estado já deveria ter se ocupado de regulamentar os meios de comunicação – como fizeram a França, a Inglaterra e até os Estados Unidos -, mas os detentores do poder econômico que tomaram o Estado brasileiro sempre se beneficiaram destes meios. Uma atitude institucional precisa ser tomada (e nunca será com o governo do golpe que depende da televisão), mas a atitude pessoal também é pragmaticamente necessária. Essa atitude implica a dignidade que falta a muitos agentes em todos os cenários. Não uso o termo “dignidade” em sentido moralista: uso-o em sentido ético-pragmático.
Lembremos de Eichmann em Jerusalém e que não se negue que o pessoal é político, que o lugar que cada um ocupa como cidadão ou funcionário produz efeitos. A construção de uma outra sociedade, querendo ou não, passa pelo lugar de cada pessoa, de cada singularidade que ocupa seu lugar político no mundo, sobretudo como cidadão. Dignidade tem a ver com coragem. Falar de dignidade em uma hora como essa pode parecer ingenuidade. Quem vai esperar respeito à dignidade por parte de agentes que estão presos ao poder midiático? Mas há resistência, como ontem demonstraram alguns poucos ministros.
Sabemos desde o Golpe de 2016, que depôs Dilma Rousseff, para o qual ingenuamente não estávamos preparados, que há um jogo armado, programado. Toda a “programação” do Golpe foi bem montada. Programaticamente montada como um espetáculo. Como em uma série de televisão, o roteiro está dado. Cada ator tem o seu papel. Direitos e garantias fundamentais devem ser afastados para não impedir o final desejado pelos diretores e patrocinadores do show. Há muitos capítulos que já vimos e todos esperam pelo capítulo final em que Lula será preso.
Um final adequado para uma audiência sádica, que sente prazer com o sofrimento e com a humilhação. Uma perversão que uma manifestante antes do julgamento deixou explícita ao declarar que seria “sexy” pedir a prisão do ex-presidente Lula da Silva.
Lula preso será um espetáculo de prazer visual para aqueles que o odeiam, e será um momento de desprazer para aqueles que o respeitam. Sem esse espetáculo, o papel exercido pelo juiz Sérgio Moro perderia o sentido e ele seria relegado à insignificância a que estava antes de ser escalado como um dos protagonistas da trama.
Com o espetáculo, esses atores canastrões conseguem uma sobrevida pelo menos com aquela parte da população alimentada com a ração envenenada do ódio produzido há tempos pela mídia.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

Editorial: O cara que mais fez pela democracia no país.


 
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Numa celeridade impressionante, o juiz Sérgio Moro determinou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já estamos sob a vigência de um regime ditatorial no Brasil. Discutir as eleições de 2018, neste contexto - como bem observou um amigo professor, do Estado Maranhão - torna-se secundário. As sutilezas desse novo tipo de autoritarismo precisam ser bastante estudadas, se as forças do campo progressistas pretendem, de fato, retomarem as rédeas de um Estado de Direito e a normalidade democrática, mesmo nas circunstâncias em que a experimentamos no Brasil, com as suas conhecidas fragilidades estruturais. O aparato midiático e jurídico do golpe, por exemplo, estão sob rígido controle dos seus operadores. Portanto, #NãoVaiTerGolpe, #NãoVaiTerCondenação, #NãoVaiTerPrisão, #EleiçãoSemLulaé Fraude, hoje, se configuram apenas como uma espécie de “descompressão” da panela de pressão golpista, como bem observou um internauta. Salva as “aparências”, traduzidas na fala de um Raul Jungmann, Ministro da Segurança Nacional, quando afirma que inexiste a possibilidade de um golpe no país. Talvez ele tenha razão. Já houve. O que está ocorrendo agora é um protagonismo militar mais evidente.
O golpe segue cumprindo suas etapas, uma a uma, como num script previamente traçado, sob a influência da “banca internacional”, com seus operadores locais. Ontem, um candidato mais sujo do que poleiro de pato, aproveitou a deixa da decretação da prisão de Lula para fazer um discurso de “moralidade pública”, quiçá no anseio de constituir-se como ator confiável ao establishment golpista. Apenas numa circunstância “segura” - entendam esse “segura” como os senhores desejarem - é que as eleições presidenciais de 2018 serão realizadas. O “ungido” nem precisa preparar o seu programa de governo. A “agenda” já está pronta, preparada pelos mesmos operadores do golpe que afastou a presidente Dilma Rousseff da Presidência da República, em 2016. Em termos de análises comparativas, quando se toma como referência a situação do campo em países como Honduras - também vítima de um golpe desse “novo” tipo - e o Brasil, logo se apecerbe as digitais de poderosos organismos internacionais na sua concepção, execução e "aperfeiçoamento".   
O julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula entrou pela madrugada, depois de 11 horas de sessão no Superior Tribunal Federal. No final, por 6 votos a 5, o HC foi indeferido, o que implica, de imediato, no impedimento do ex-presidente em participar das próximas eleições presidenciais e, consequentemente, a inevitável prisão, que  ocorreu em tempo recorde, pegando até os petistas de surpresa, que esperavam esse desfecho dentro de mais alguns dias. É lamentável que a história tenha reservado este destino ao ex-presidente Lula. Nos últimos anos, foi fomentado um ódio visceral aos petistas e, em particular ao ex-presidente. Antes se dizia que, no Brasil, só ia para cadeia pobres, pretos e prostitutas. Agora, entra nesta galeria os petistas.  Não pelos possíveis equívocos cometidos no exercício do cargo, mas, sobretudo em razão de olhar para o andar de baixo da pirâmide social de um país construído sob o signo do trabalho escravo. A luta contra a corrupção foi mais uma dessas jogadas de marketing, alimentada por uma mídia poderosa, que exigiu sistematicamente o seu cadáver, finalmente entregue na tarde do dia de hoje, sob protestos de alguns ministros, que ora criticaram aspectos ou “manobras” ardilosas durante o julgamento,  ora reagiram veementemente às ameaças pretorianas, como observou o decano daquela corte, Celso Mello.
Lá atrás, quando discutíamos as manobras que se desenrolavam no sentido de afastar a ex-presidente Dilma Rousseff da Presidência da República, já antevíamos que o país poderia mergulhar numa profunda crise institucional e política. Forças poderosas - nem tão ocultas assim - certamente desejavam criar exatamente este ambiente em que nos encontramos, que se constitue num terreno fértil para aventuras autoritárias e fascistas, que já se tornaram rotineiras no país, como as declarações indevidas do estamento militar, tanto quanto aqueles episódios registrados no sul do país, onde foi ateado fogo em bonecos que representavam os ministros da Suprema Corte, numa inequívoca demonstração de que a semente do fascismo já brotou entre nós.  
Conforme já afirmamos em editoriais anteriores, não se espere muito coisa de nossa incipiente experiência democrática. Nove fora os equívocos de gestão de governo - e de algumas conduta - os governos da coalizão petista foram os que mais contribuíram para o avanço da democracia entre nós, notadamente no sentido de diminuir o hiato entre democracia política e democracia substantiva, ao retirar 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza. Nos últimos 500 anos, o único indicador do racismo estrutural da sociedade brasileira que apresentou alguma melhoria diz respeito ao ingresso de jovens negros no ensino superior, o que ocorreu justamente nos governos da coalizão petista. Nem enumero aqui os avanços que tivemos no tocante ao reconhecimento de direitos de minorias como grupos LGBTs, comunidades quilombolas e indígenas.  Num país onde a polícia foi criada para perseguir negros rebeldes e fugidios e a oligarquia permitiu a “libertação” dos escravos sob a premissa de que seus interesses não seriam atingidos, esse foi um avanço dos mais significativos. A rigor, a alforria institucional, como observava Joaquim Nabuco, não significou escolas, habitação, terra e trabalho digno para os ex-escravos.
Paga-se um preço alto por essas ousadias e, certamente, o linchamento ao qual Lula foi submetido, culminando com a sua prisão, é um desses reflexos. Em razão da nossa “imprevisibilidade” - como apontou o editor  do El País - numa hipótese de as eleições se realizarem, Lula dela participar e voltar à Presidência da República, áulicos golpistas já declararam que os tanques voltariam às ruas - já estão no Rio de Janeiro - e o golpe seria consolidado, desta vez com um protagonismo militar mais efetivo. Nossa democracia é tão frágil que não resiste a uma simples e justa distribuição de renda, inclusão social e o reconhecimento de direitos de exercício da cidadania de quem ocupa o andar de baixo da pirâmide.  Já pensaram?

domingo, 25 de março de 2018

Intervenção traz risco altíssimo à democracia", diz historiadora Dulce Pandolfi

                                           
Luís Costa
                                                                                

‘Intervenção traz risco altíssimo à democracia’, diz historiadora Dulce Pandolfi           
 
Dulce Pandolfi, historiadora, pesquisa regimes autoritários no Brasil e na América Latina (Foto Luís Costa)

Às vésperas de completar 70 anos, a historiadora Dulce Pandolfi deixou a sala de aula – à sua revelia. Demitida em janeiro deste ano do CPDOC/FGV (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas), ela agora ocupa a agenda atendendo a convites de universidades para colóquios, seminários e aulas magnas. “É uma maneira de dar um troco. É como se dissessem: vocês estão jogando fora pessoas que nós consideramos fundamentais.”
Pandolfi é a veterana de quatro professoras do CPDOC demitidas entre janeiro e fevereiro deste ano. Além dela, Luciana Heymann, Verena Alberti e Mônica Kornis foram desligadas da instituição. Heymann, novata entre elas, tinha 32 anos de casa. Pandolfi, a decana, contava 42 anos de trabalho. “Nós quatro somos as últimas que fizemos toda a formação acadêmica integradas ao CPDOC”, diz.
O caso gerou uma reação imediata. Um abaixo-assinado na internet contra as demissões reunia, até o momento em que este texto é escrito, mais de 2.900 assinaturas, entre elas a de nomes como José Murilo de Carvalho, Lilia Moritz Schwarcz e Daniel Aarão Reis. O antropólogo Roberto DaMatta dedicou artigo em O Estado de S. Paulo para condenar as demissões, também criticadas em nota pela Associação Nacional de História (Anpuh).
Quando foi demitida, Pandolfi orientava seis alunos de pós-graduação e se preparava para oferecer mais uma versão do curso Democracia e Ditadura no Brasil e na América Latina, que havia ministrado no segundo semestre de 2017.
Em carta aberta divulgada nas redes sociais, Pandolfi considerou as demissões “desprezo, por parte da direção do CPDOC, pela liberdade de pensamento, pelo funcionamento democrático das instituições, pelo caráter público do conhecimento”. Ela chegou a falar em “destruição” da instituição, que guarda um dos mais importantes acervos de história contemporânea brasileira.
“Falou-se em crise, que havia necessidade de cortes. A direção nunca se dirigiu a nós, a despeito de um grande movimento da academia cobrando uma explicação”, diz Pandolfi, que fala em “sangria” após, segundo ela, um processo de seguidos desligamentos de professores com mais tempo de casa, a partir de 2010. “O CPDOC é hoje um centro em que não se debate minimamente as coisas. São decisões monocráticas da direção”.
‘Um pé na academia, outro na militância’
Filha do professor de direito Luiz Pandolfi, Dulce cresceu em uma casa frequentada por intelectuais. Menina ainda, conviveu com personalidades como o artista plástico Francisco Brennand, o escritor Ariano Suassuna e o designer gráfico Aloísio Magalhães. O ambiente doméstico combinava-se, aliás, com a agitação política e cultural daquele Recife dos anos 1960.
Pernambuco era então um estuário de nomes que formariam o cânone da esquerda no Brasil: era o tempo do governo socialista de Miguel Arraes, da liderança campesina de Francisco Julião, da pedagogia da autonomia de Paulo Freire, da pregação rebelde de Dom Helder Câmara.
Em plena efervescência do movimento estudantil em oposição à ditadura, Pandolfi entrou no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1967. Eleita secretária-geral do DCE da universidade, militou na resistência ao regime. “A gente não teve a passeata dos 100 mil, mas tivemos a dos 50 mil”, brinca. No ano seguinte, ingressou nos quadros da Ação Libertadora Nacional, a ALN, um dos principais grupos da esquerda armada no Brasil. Procurada pela polícia pernambucana, fugiu para o Rio.
Foi presa e levada, em agosto de 1970, ao quartel da Polícia do Exército, onde funcionava o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), no bairro da Tijuca. Naquelas instalações, sofreria três meses de tortura, entre afogamentos, choques elétricos e – uma invenção brasileira – a suspensão no pau de arara, quando serviu como cobaia para uma aula de tortura.
A história de horror foi contada em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, em 2013. “Há uma disputa de memórias e estamos perdendo”, afirma a professora, autora de Camaradas e Companheiros: Memória e História do PCB, lançado em 1995. “A ditadura no Brasil teve essa faceta de manter alguns aparatos da democracia, como a existência de eleições e partidos, e ficou muito disfarçada. A gente conseguiu pouco desmascarar essa ditadura”.
Para a historiadora, a fragilidade da memória da ditadura e a inexistência, segundo ela, de uma justiça de transição de fato na redemocratização, permitiram a permanência de um desprezo pelos direitos humanos em setores da sociedade brasileira. “Existe conivência com a tortura no Brasil”, diz a professora. “A cidadania no Brasil é muito frágil, os direitos humanos, muito precários. Por um lado, há uma elite predadora e, por outro, uma parte da população pré-cidadã, pouco consciente dos seus direitos, que são percebidos como benefícios, privilégios.”
Quando saiu da prisão, Dulce voltou à universidade, desta vez no Rio, no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi ainda na graduação que ela soube de uma vaga de estágio no recém-criado CPDOC. À época, o centro recrutava estudantes para trabalhar na pesquisa para o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, que se tornaria uma referência no estudo de fatos e personagens da história política do Brasil contemporâneo.
Entre o estágio, a pesquisa e a docência, foram 42 anos de CPDOC, interrompidos pelo aviso de desligamento em janeiro passado (em 2013, Dulce já havia sido demitida, mas foi logo readmitida após pressão da comunidade acadêmica). Nesse tempo, com “um pé na academia e outro na militância”, como ela diz, aproximou-se do sociólogo Betinho e foi convidada para ser diretora do Ibase, função que ocupou entre 2004 e 2011.
Pesquisadora de regimes autoritários no Brasil e na América Latina, Pandolfi entende que há muita diferença entre o atual quadro institucional brasileiro e aquele de 50 anos atrás. Entretanto, segundo ela, há um “risco altíssimo”, por exemplo, na intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, sob controle das Forças Armadas desde fevereiro. “Temo que o Rio esteja sendo um laboratório para uma intervenção militar em outros estados, quiçá no Brasil como um todo”.
Ela aponta que, mesmo nas ditaduras, é possível haver arremedos de instituições democráticas em funcionamento, como eleições e partidos políticos, mas sob tutela autoritária. Foi o que teria acontecido com a ditadura de 1964-1985, na qual o autoritarismo era disfarçado por meio do funcionamento formal das instituições. Pandolfi acredita que é esse o risco por que a passa hoje o país. “Podemos até não ter uma ditadura naqueles moldes, mas um cerceamento da democracia cada vez maior”.

Luís Costa é jornalista e doutorando em história pela UFRJ

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

sábado, 24 de março de 2018

Le Monde: Os exilados de Mangabal

Lideranças ribeirinhas são ameaçadas de morte ao desafiarem o crime organizado da madeira, a garimpagem e a extração ilegal de recursos em seu território. Ações de proteção territorial são frutos de aliança histórica com os índios Munduruku

                                                                 O ribeirinho Chico Caititu uniu-se às lideranças indígenas. Foto: Ailen Vega

Francisco Firmino precisou sair às pressas de sua casa, no beiradão do Rio Tapajós, no Pará, quando a notícia chegou aos seus ouvidos: chefes de garimpo e de esquemas de saqueio de madeira e palmito tinham colocado a sua cabeça a prêmio. As recentes ações de proteção territorial no Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Montanha e Mangabal, onde Francisco vive, tinham atingido os bolsos daqueles sujeitos, impactando expressivamente o conflito na região. Era uma questão de tempo; a intimidação ganhava corpo numa rapidez ímpar, e o que antes eram rumores sobre “dar um jeito” nos ribeirinhos, logo se transformou em planos mais concretos, ouvidos diretamente por conhecidos de Francisco. E não se trata de um, mas de três alvos: junto com ele, outras duas lideranças de Montanha e Mangabal estão em risco – Ageu Lobo e Pedro Braga, presidente e vice-presidente da comunidade, respectivamente.
Chico Caititu (como Francisco é mais conhecido) atravessou o rio e foi se refugiar na terra indígena Sawre Muybu, do povo Munduruku: estratégia improvável, não fosse a parceria que ele estabeleceu com os indígenas nos últimos anos, em face das ofensivas aos povos e comunidades do Tapajós e às suas terras. E não foi apenas guarida que recebeu de seus vizinhos, mas oportunidade de saída: juntou-se ao grupo de noventa homens, mulheres e crianças munduruku que desciam o rio em três grandes canoas para protestar na cidade de Itaituba (PA) sobre as condições dos serviços de saúde e educação nas aldeias. Ele era o único não indígena presente. Em seguida, partiu para Santarém.
Já são dois os exilados de Montanha e Mangabal. (Isto é: duas pessoas que não sabem quando poderão retornar às suas casas e famílias, e como poderão se manter longe do trabalho e da garantia de vida.) Ageu teve que deixar a sua comunidade logo que soube de uma emboscada que o esperava no porto de Buburé, por onde sempre passava. Não fora a primeira nem a segunda vez que homens armados o aguardavam ali, segundo testemunhou um conhecido seu que trabalha no local. Foi avisado por esse homem que Ageu deixou de frequentar o porto – reconhecendo que as intimidações aumentaram em frequência e intensidade depois que a autodemarcação do PAE (realizada pela sua comunidade, em aliança com os Munduruku) impactou diretamente os esquemas de garimpagem e de retirada de madeira e palmito do território.
Já no início da atividades, em setembro de 2017, um grupo de garimpeiros armados ameaçou os beiradeiros, aumentando a tensão que enfrentam há décadas. Notificado pela comunidade, que seguiu com as ações de proteção territorial, o Ministério Público Federal recomendou a paralisação das atividades exploratórias dentro do PAE – em avisos que foram fixados pela Polícia Federal no trecho da Transamazônica que separa Itaituba de Jacareacanga. Em seguida, o Incra iniciou o georreferenciamento da área, que precede a fixação de marcos nos perímetros do assentamento, a certificação e a expulsão de invasores.
        Ageu Lobo, presidente da comunidade de Montanha e Mangabal. Foto: Adeline Laval

Aliança histórica
É certo que nas ameaças aos beiradeiros de Montanha e Mangabal ecoam padrões da violência que por anos seguidos coloca o Brasil no topo do ranking de assassinatos de ambientalistas e lideranças do campo – como o recente assassinato de Paulo Nascimento, em Barcarena, faz lembrar (e antes dele, tantos: Valdemir ResplandesJosé Cláudio e MariaNicinha). Mas a história de Chico, Ageu e Pedro é também marcada por uma singularidade que não pode passar despercebida: eles foram protagonistas de uma aliança histórica na região, que reverberou não apenas nos recônditos da Transamazônica, por onde circulam as ameaças de morte, como também no alto escalão do governo federal, nos escritórios de multinacionais interessadas na exploração da bacia Tapajós-Teles Pires e na imprensa nacional e internacional.
Desde que Chico Caititu se juntou à ocupação do canteiro de obras de Belo Monte em 2013 – ação que enfureceu o Planalto e que promoveu significativos efeitos no debate (e na luta) sobre megaprojetos na Amazônia –, a relação entre as comunidades de Montanha e Mangabal e o povo Munduruku mudou. E, no ano seguinte, ao lado dos Munduruku, Caititu adentrava a floresta com Ageu e outros beiradeiros para marcar os perímetros da terra indígena Sawre Muybu, cujo processo de regularização fundiária se encontrava paralisado por motivos de “força maior” – isto é, de pressão do setor elétrico sobre a Funai, como à época admitiu a presidência do órgão indigenista. A autodemarcação dessa TI foi, sem dúvida, fundamental para oarquivamento do licenciamento ambiental da maior das 43 usinas hidrelétricas (UHEs) projetadas para a bacia do Tapajós – o projeto que já foi a “menina dos olhos do governo federal” e de investidoreschineses. Depois dessa ação não se poderia mais fazer de conta que não havia indígenas habitando a região, como a presidência da Empresa de Pesquisa Energética costumava repetir, reproduzindo o velho discurso de vazio populacional da Amazônia, que tambémincidira sobre os moradores de Montanha e Mangabal.
Mas a pressão sobre os povos e as comunidades dali não se resumia à UHE São Luiz do Tapajós – e não é apenas essa usina que os está mirando: a construção da UHE Jatobá (que teve recentemente os estudos de viabilidade aceitos pela Aneel) está prevista para o exato centro da área de Montanha e Mangabal. Além dos megraprojetos logísticos que já estão sendo colocados em prática ou que estão projetados para a região (portos, hidrovias, ferrovias), outras frentes de destruição preocupam indígenas e beiradeiros. O garimpo de ouro, potencializado pela mecanização da última década, tem promovido uma verdadeira devassa nas margens e nas águas do Tapajós – como Chico Caititu insistentemente expôs ao participar do Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama), 17 e 22 de março de 2018, em Brasília. Além disso, tanto a área das comunidades de Chico, Ageu e Pedro como a terra dos seus vizinhos Munduruku vêm sofrendo maciças investidas do crime organizado da madeira e da extração de palmito.
Em resposta a essas investidas, a aliança entre beiradeiros e indígenas foi mobilizada novamente para demarcar por conta própria um território: desta vez, o de Montanha e Mangabal. Refletindo sobre esse processo (e os seus efeitos) em palestra na Universidade de Brasília, Chico Caititu concluiu: “nós fomos buscar direitos e encontramos a morte”.
*Luísa Pontes Molina é doutoranda em Antropologia pela Universidade de Brasília e membro do Laboratório de Antropologias da T/terra.
Com a colaboração de Arthur Serra Massuda e Maurício Torres.
 
(Publicado originalmente no site do jornal Le Monde Diplomatique Brasil)

Marielle Franco e o mal radical

                                           
Marcia Tiburi

Marielle Franco e o mal radical                                       A vereadora Marielle Franco em encontro do PSOL (Foto: Mídia NINJA)
O assassinato de Marielle Franco é um acontecimento político limítrofe. Um divisor de águas na história da política nacional. Sua morte torna visível um tipo de luta à qual as classes dominantes, as corporações e a mídia convencional parecem ter pavor: a luta antirracista, anticapitalista, a luta contra o machismo, a luta pelo direito à cidade, a luta pelos direitos fundamentais das pessoas sem os quais não há vida justa em sociedade.
Mais que isso. As mulheres negras se tornaram as representantes de um poder totalmente outro, de um poder que aparece como ameaça real ao status quo. Nesse sentido, se olharmos do ponto de vista da história de um país racista e escravagista como é o nosso, de um país misógino, de um país em que aos pobres se reserva a morte por fome e abandono, a morte de Marielle Franco surge como uma espécie de fato dedutível em um longo processo de genocídio da população negra, antes usada como escrava, depois como mão de obra barata e, sempre, como descartável.
Combinando todas as características da indesejabilidade, todas as formas de ódio caíram contra ela: racismo, misoginia, ódio ao intelectual, à ativista, à socialista, mas também ódio ao fato de que Marielle, embora fosse uma pessoa meiga e amorosa, não andava de cabeça baixa, não se escondia, não tinha uma imagem “dócil” como se espera de mulheres, de pretos e pobres. Marielle não tinha medo e, também por isso, ela foi morta. A lógica do neoliberalismo implica que os cidadãos para sobreviverem nele devem curvar-se ao medo do que ele pode fazer com cada um simbólica e economicamente, e ela nunca se curvou. Foi morta também para nos dar o exemplo de que, ativistas e mulheres, negros e pobres, todos temos um novo “dever cívico”, o de “temer”. A lei não escrita que subjaz à nação do Estado de exceção na qual se transformou o Brasil define que será morto aquele que não temer.
De certa forma, configurando tantos aspectos em si mesma, dentro da lógica assassina do sistema que sobrevive da administração de afetos tais como o ódio (acrescentemos também a inveja e a avareza), não é um exagero dizer que seu assassinato vai ao encontro da racionalidade neoliberal que torna pessoas descartáveis, em especial os inimigos políticos desse projeto. E é, nessa mesma medida, lógico que, depois de morta, queiram usá-la para fundamentar o jargão assassino da extrema-direita: “bandido bom é bandido morto”. Agora é preciso transformar Marielle em algo de “bandido”.
As fake news que surgem em profusão visam a conspurcação de sua memória e de suas lutas nas redes sociais, nos jornais impressos e na televisão. Nesse momento, distorcer sua luta contra a intervenção militar no Rio de Janeiro faz parte de um jogo cínico que já se tornou tradicional em termos de relação entre política e mídia. O jogo retórico dos donos do poder, das classes favorecidas ou dos odiadores profissionais, humanos ou robôs é evidente, mas está ameaçado pela própria população que luta pelo respeito à sua memória.
Se Marielle não for transformada em “bandido”, o que só se consegue manipulando o imaginário da população e contando com aqueles que, sem ética, já tem um ódio bem desenvolvido, ela será transformada em heroína, como já vem sendo promovido pela maior parte da população que se identifica com ela, seja porque era jovem, negra e empoderada, ou porque admirava a sua causa, a da ativista e parlamentar que lutava por direitos humanos.
O perigo de sua condição de heroína está em seu potencial revolucionário. Essa condição também torna seu assassinato inútil. Uma espécie de tiro no pé que os donos do poder dão em si mesmos. Pois como símbolo Marielle vive e a maior parte da população brasileira, composta de mulheres negras e de jovens negros que ela defendia, não deixará de ressuscitá-la a cada dia como símbolo de luta.
A morte de Marielle Franco faz ver que o ódio aos negros e às mulheres negras é um ódio fascista, ou seja, um ódio que não se contenta em matar. Na linha desse tipo de ódio, é preciso “exterminar” e é isso o que se faz quando se tenta usar sua memória e sua morte para conspurcar sua própria luta.
Marielle representava uma luta contra o que podemos chamar de mal radical, esse mal que visa o extermínio do outro. Esse mal aparece em momentos, tais como quando os nazistas deixaram claro seu desejo de que os judeus nunca tivessem existido. O exercício do mal radical está claro em todas as mortes de líderes campesinos e indígenas (de 2014 até março de 2018, mais de 20 líderes foram assassinados no Brasil e não são noticiados pela televisão), na morte de cada menino negro nas favelas cariocas, e da população LGBT. Há um projeto de extermínio que se confunde com a história passada e presente.
O mal radical tem a dimensão de um projeto. Nele há um prazer em destruir. Um verdadeiro gozo perverso. Os donos do poder, governos e corporações, são seus sacerdotes. O cidadão comum faz parte desse projeto como uma espécie de “lacaio” que serve a um senhor. Ele é como o escravo digital que faz o mesmo papel do qual um robô é capaz, mas só o faz porque foi capturado por discursos orquestrados que o atingem no vazio previamente forjado pelos meios de subjetivação capitalistas, exímios esvaziadores de subjetividades. Nos espanta que haja alguém que possa aplaudir qualquer tipo de assassinato e que possa se utilizar politicamente disso. Mas não é de espantar quando pensamos nos fins administrativos e governamentais, os fins do poder que “educa” pessoas para serem replicante de ideias prontas que não pensam no que dizem e no que fazem ao dizer.
Nesse momento, não devemos nos esquecer das manifestações nas ruas em 2013. Assim que os meios de comunicação hegemônicos perceberam que o povo estava de outro lado, resolveram “capitalizar” sobre o fato. Fazem isso quando percebem que há “capital simbólico” em disputa e que podem perder muito, basicamente audiência e lucros relacionados a elas, sem tocar em determinados assuntos. O destaque ao assassinato de Marielle Franco tem fins específicos nesse momento.
O Rio de Janeiro tem sido usado para “dar exemplo” por todos aqueles que se colocaram como donos do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro. O assassinato de Marielle Franco tem um alto impacto simbólico que cancela a vida de uma guerreira admirável, aquela pessoa que queríamos na política, em todos os lugares, como vereadora, como senadora, como deputada, como prefeita e que sonhávamos um dia, seria nossa Presidenta. Seu assassinato é uma prova da abjeção governamental e se insere na política de terror de Estado que atinge a todos. Mas atinge sobretudo o povo da favela, marcado pra morrer em uma economia-política de extermínio que já se tornou natural no Brasil.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

Seminário: Karl Marx: 200 anos depois

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Editorial: A caserna mais consequente


 
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Nos últimos dias, o país conheceu alguns apagões. Um de natureza técnica - segundo o ministro das Minas e Energias, Fernando Filho, provocado por falha de um disjuntor - atingiu 13 Estados da federação, notadamente nas regiões Norte e Nordeste. Em sessão no STF, uma troca de entreveros entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso ganhou manchete nas primeiras páginas dos jornais impressos, além de alguns preciosos minutos nos principais noticiosos televisivos. Considerando-se os ritos daquela Corte, pode-se concluir por um comportamento talvez não muito condizente com o seu perfil. Um apagão de equilíbrio e bom senso, por assim dizer. Outras leituras são possíveis, até mesmo aquela que nos afasta das trevas e nos aproxima da luz, informando que um dos interlocutores precisava, de fato, ouvir algumas verdades. Na sessão do dia 23, entrou na pauta a apreciação de um habeas corpus preventivo requerido pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A votação ficou adiada para o dia 04 de abril, concedendo-se uma liminar que impede a prisão do ex-presidente antes do julgamento do habeas corpus.
Em meio a esses apagões, no entanto, ficamos atentos a uma fala do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Como se sabe, não foram poucos os setores da caserna que discordaram da intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro. Motivos não faltam para isso. A discussão, no momento, é o custo dessa intervenção, hoje  calculada pelos interventores em R$ 3,1 bilhões. A quantia, além de alta, tem causado urticárias, uma verdadeira dor de cabeça entre os homens do planejamento, dando a entender que é preciso fazer uma verdadeira ginástica para se conseguir tal verba. De concreto, depreende-se que a intervenção foi uma decisão política, sem alguns respaldos, entre os quais uma abordagem sobre o seu financiamento. Embora seja cedo para se concluir algo acerca dos seus resultados concretos no sentido de arrefecer a onda de violência naquele Estado, uma premissa, a princípio nada alvissareira, é que algumas modalidades de delitos até aumentaram, além de não se verificar queda na taxa de crimes violentos letais intencionais contra a vida, cujo cadáver de Marielle Franco é uma das referências mais emblemáticas. 
A princípio, a Vila Kennedy seria o espaço escolhido para servir de modelo sobre o que a intervenção pretende realizar no Estado, de acordo com seus coordenadores. No dia de ontem, resolveram retirar a presença ostensiva dos militares daquela área, assim como continuar o processo de desmonte das UPPs, com a extinção de duas delas. Todos esses “desencontros” talvez explique o pronunciamento do general Eduardo Villas Bôas, Comandante do Exército, que demonstrou sua preocupação sobre as expectativas e os resultados concretos da intervenção. Ressalte-se aqui a franqueza do general sobre um assunto nevrálgico. Em certo momento de sua fala ele observa que a violência é a consequência de demandas não atendidas da população, uma ponderação das mais sensíveis, uma vez que a violência sistêmica cometida pelo aparelho de Estado, que não supre aquela população das suas condições básicas de exercício de cidadania, de fato, seria o ponto "X" da questão, para muito além de novos efetivos, investimentos em equipamentos, inteligência e coisas do gênero. Aqui enfrentamos uma agenda regressiva, sem nenhum compromisso com a garantia dos direitos individuais e coletivos, essencialmente excludente.  

Em certo sentido, os interventores seguem uma política de desmonte das UPPs, que o Governo do Estado já vinha adotando. O que deve ser combatido nas favelas cariocas, na realidade, é uma espécie de racismo estrutural, que passa ao largo das reflexões, exceto por atores da academia. Recomendaria a leitura da dissertação de mestrado da ativista Marielle Franco, onde é possível observar porque as UPPs acabaram fracassando. O que o país precisa é enfrentar o problema das desigualdades sociais e econômicas, da infame distribuição de renda e de uma exclusão secular de determinados segmentos sociais. Essa questão não será enfrentada com mais fuzis ou  construção de novos presídios. A fala do general Eduardo Villas Bôas sugere que ele entende a dimensão do problema, ao observar que essas demandas reprimidas elevam as estatísticas de violência.  

Charge! Renato Machado via Folha de São Paulo

segunda-feira, 19 de março de 2018

Charge! Duke via O Dia

Editorial: As violências contra Marielle Franco


 
 
 CONTEXTO POLÍTICO
 
Há poucos dias publicamos por aqui um desenho do carturnista Renato Aroeira, onde ele explica para os leitores o tipo de violência do qual foi vítima a vereadora Marielle Franco e o seu motorista, Anderson Gomes. A caricatura é também uma forma do chargista homenageá-la. Como observa Aroeira, a violência atinge a todos nós, com índices talvez nunca registrados no país, um fenômeno que se alastra para muito além das fronteiras do Estado de Sítio(Ops! Rio de Janeiro). A ativista política, no entanto, foi vítima de todas as violências, mas tombou, em especial, vítima de uma violência “planejada”com “método”, “treinamento” e “objetivo”. Há aqui, no caso de Marielle, um razoável entendimento sobre o emprego da violência para solucionar conflitos políticos. Em espaços democráticos - sob a égide do Estado de Direito e, portanto, menos "turvos" - há canais para dirimir tais conflitos. Em Estados de Exceção... 

Não há, até aqui, indícios suficientes para tirarmos alguma conclusão, mas já se sabe, por exemplo, que as balas que a mataram foram subtraídas de lotes negociados para a Policia Federal, muito difíceis de serem rastreados, posto que desviados desde 2006, e identificados com a morte de outras tantas pessoas, sempre associados à crimes de execução. O crime contra a vereadora Marielle Franco foi rigorosamente planejado, com o objetivo de dificultar enormemente a sua elucidação. Um dos possíveis carros utilizados pelos criminosos foi encontrado no Estado de Minas Gerais. Quem acompanhou as investigações em torno da chacina de Osasco, sabe, por exemplo, que a identificação dos cartuchos pouco ajudou na elucidação daquele crime. No caso de Marielle, creio que também não possa ajudar muito, embora a Polícia Federal tenha acionado o seu melhor perito em impressões digitais, com o propósito de identificar alguma pista nas impressões digitais encontradas nos cartuchos. 

Sobre o crime, por enquanto, é o que se tem, além das justas homenagens recebidas pela ex-vereadora em todo o país e também no exterior. Mas, apesar da dor da família e do sentimento dos brasileiros com a sua morte prematura - um dano para o avanço das lutas sociais e da própria democracia no país - Marielle Franco passou a ser vítima de um outro tipo de violência - talvez simbólica, não sou especialista no assunto - através das redes sociais, com o propósito de denegrir a sua imagem. Aliás, denegrir a imagem dos adversários tornou-se recorrente nos país pós-golpe institucional de 2016. Não vou aqui perder tempo com as infâmias dirigidas à ex-vereadora, que chegam ao cúmulo de ligá-la ao Comando Vermelho. O que espanta, neste caso, é que, mais uma vez, como observa o chargista Aroeira, Marielle não é vitima de algum fofoqueiro de turno, mas de agentes diretamente ligados ao aparelho de Estado. Espantoso, não? Todos nós sabemos que a injúria, a calúnia e a difamação integram o arsenal utilizado para “desacreditar” os agentes sociais que se colocam como denunciantes de arbítrios ou falcatruas cometidas pelo poder público, por vezes. em parcerias com agentes privados. Hoje isso tem um nome pomposo: Fakes New, mas, a rigor, trata-se aqui das mesmas campanhas de disseminação do ódio, como um dos componente da engrenagem golpista do golpe institucional de 2016.

O país seria levado a esta situação em razão do ódio disseminado por setores da mídia, movida por um conjunto de interesses escusos, de caráter anti-democrático,e, porque não dizê-lo, anti-petista, já que o inimigo que precisava ser combatido, naquele momento, atendia pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva. A corporificação desse ódio, por consequência, atingiria igualmente os grupos sociais identificados com o petismo; aqueles para os quais as políticas públicas de corte inclusivo da era Lula foram dirigidas e a militância política identificada com essas bandeiras - mesmo que de outro partido - como foi o caso de Marielle Franco. Com Marielle, chegamos àquele cabo de guerra decisivo. Ou a onda autoritária arrefece ou embrutece de uma vez, como o episódio envolvendo o senhor Alfredinho, do Bar Bitbip, "conduzido" a uma delegacia tão somente por prestar uma homenagem a Marielle Franco.  

Michel Zaidan Filho: Síntese da evolução política e cultural de Garanhuns

  
Para os propósitos dessa breve apresentação, iremos sintetizar a evolução político-cultural da Cidade de Garanhuns em cinco períodos – que correspondem grosso modo à própria evolução política do País e particularmente, a evolução das relações entre a União e seus entes subnacionais, em diversas conjunturas críticas da história nacional.



-Primeiro período, das origens até a hecatombe de 1917.


-Segundo período, da hecatombe de 1917 até o golpe do Estado Novo.


-Terceiro período, do golpe do Estado Novo (e a chegada de Agamenon Magalhães ao poder) à redemocratização.


-Quarto período, da redemocratização até o Golpe de 1964.


-Quinto período, da redemocratização até hoje, passando naturalmente pelo fim do regime militar, os prefeitos eleitos nessa época, a luta pela volta do estado de Direito etc.                                                              1





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O que chamamos aqui de primeiro período é aquele que remonta às origens do povoado de Santo Antônio ou a vila de Cimbres, que deu início ao município de Garanhuns. Ou seja, o imenso latifúndio agropastoril que formava então os domínios territoriais de Simoa Gomes, a donatária destas terras. Inicialmente, Garanhuns (ou a vila de Cimbres) fazia parte da imensidão territorial de uma casa de Fidalgos, os Garcia da Torre, que se estabeleceram Penedo, às margens do rio São Francisco, e por doação da Coroa portuguesa, passaram à condição de donatários feudais, cujo domínio se estendia desde as terras da Bahia até a Paraíba. Nesta imensidão territorial é que se recortou o território que viria a ser Garanhuns, a partir do latifúndio de Simoa Gomes. Como região geográfica e climática de transição, essas terras correspondem à economia pastoril e algodoeira do nordeste brasileiro. Assim, o que caracteriza em seus inícios a atividade econômica do lugar é uma pecuária extensiva e culturas de subsistência voltadas para o abastecimento das fazendas e vilarejos circunvizinhos. O que se pode assinalar de culturalmente importante nesse período são as tradições, rituais e cerimônias de seus primeiros habitantes, os indígenas da etnia Cariri, cujo principal traço psicossocial era uma permanente tristeza ou melancolia, que se expressava nas atitudes, nas músicas e danças e rituais. Estes primeiros habitantes da região foram objeto de inúmeras caçadas e perseguições de bandeirantes e aventureiros, entre eles, se sobressaí a figuras de Domingos Jorge Velho, como grande predador dos nossos indígenas locais, depois da campanha movida contra o quilombo de Zumbi dos Palmares. Da parte dos colonos, é de se destacar a influência do Catolicismo patriarcal e familiar, que deixou suas marcas no assistencialismo e na filantropia de Simoa Gomes em relação à pobreza local. A origem mesma do município deve-se a uma ação caridosa dessa donatária rural, depois que essas terras foram expropriadas pelo saque e a escravidão das nações indígenas ali residentes. É de interesse notar que Garanhuns também foi reduto de quilombolas – escravos africanos que fugiam das fazendas e engenhos da redondeza e construíam redutos nas terras da então vila de Cimbres, como é o caso do quilombo do castanhinho (até hoje existente). Neste ponto, é possível reconhecer uma rica e diferenciada herança multicultural, formada pela contribuição dos índios Cariris, em especial da mulher, dos escravos fugitivos e do colonizador português e seus descendentes.                                                                 





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O segundo período dessa evolução vai até o trágico acontecimento chamado a “hecatombe de 1917”, que aliás já mereceu um estudo detalhado, a partir do processo judicial, do historiador garanhuense Mario Márcio de Almeida. Ele coincide com um momento de intensa urbanização do novo município. A “hecatombe” pode ser interpretada como um grande conflito social e político entre senhores de terra (os coronéis da antiga Guarda Nacional) que então mandavam na região e os novos senhores do comércio, dos serviços e atividades urbanas. Embora, muitos desses chefes políticos locais fossem também grandes comerciantes estabelecidos na praça ou núcleo urbano. A luta de famílias – tão comum no interior do Brasil – não deve obscurecer o significado mais profundo desses trágicos acontecimentos. Tratou-se de uma grande ruptura no padrão dominantemente agrário e rural da política local, rumo à hegemonia dos coronéis urbanos, assentados na cidade, grandes exportadores, beneficiadores de produtos agrários ou simplesmente comerciantes. Com a vitória destes últimos, a cidade ganhou um novo impulso urbanístico que coincide com a chegada de muitos imigrantes estrangeiros: holandeses, sírio-libaneses, italianos, franceses etc; com a chegada da estrada de ferro (Great Western) e naturalmente com o estupendo crescimento e apogeu da cafeicultura na região, em razão do clima temperado e do solo fértil. O auge desse período é o ano 1936, com uma multiplicidade de jornais, grupos dramáticos, correntes políticas, teatros, orquestras e uma onda de modernização das atitudes, os comportamentos sociais, a fala, a roupa, o lazer, a ostentação de bens de consumo duráveis etc. (ver o Almanaque de Garanhuns, de 1936, com ricas ilustrações de Ruber Van Der Linden). A figura ímpar desse momento de exuberância social, econômica e cultual da cidade foi o engenheiro e animador cultural Ruber Van Der Linden. Homem dotado de muitas qualidades intelectuais e de viva curiosidade foi ele o autor de inúmeras iniciativas importantes, como o parque ecológico, o grêmio cultural, os almanaques de Garanhuns, os primeiros esboços históricos da cidade e muito mais. Nunca mais experimentaria a nossa cidade um tal desenvolvimento cultural, a par do auge da cafeicultura e da influência modernizadora da infra-estrutura urbana que ela nos legou.




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Este último período se encerra com o Golpe do Estado Novo, em 1937, e a chegada em Pernambuco do “agamenonismo” – o interventor de Getúlio Vargas em nosso estado. Esse acontecimento provoca uma nova ruptura na história da cidade, pela inaudita centralização política trazida pelo interventor e pela rede de apoio dos coronéis interioranos a Agamenon Magalhães, que funda o PSD. É também o período das interventorias municipais, com prefeitos indicados e nomeados em função das alianças locais e estaduais. Curiosamente, a cidade teve a sorte de contar com a ação de homens que foram verdadeiros empreendedores urbanos, embora a vida política e cultural tenha sido abafada pelo clima policial e arbitrário do novo regime. Nomes como Mário Lira, Celso Galvão Euclides Dourado e outros contribuíram muito para o desenvolvimento urbanístico da cidade, com grandes obras públicas, melhoramentos urbanos, novos bairros, parques, logradouros e avenidas.

                                                               




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Essa fase se conclui com a redemocratização, em 1946. Abre-se então uma época marcada pela disputa eleitoral e partidária e uma intensa ideologização da política, como aliás em todo o Brasil. É o período do nacional-desenvolvimentismo, com uma grande mobilização de massas; de estudantes, trabalhadores rurais, operários, profissionais liberais, trabalhadores urbanos e partidos políticos. Garanhuns foi sacudido pela tempestade política da época, com suas lideranças locais tomando posição a favor e contra os partidos nacionais e seus líderes. Aqui, é preciso fazer justiça a dois nomes, o alfaiate Amaro da Costa, corajoso líder comunista, que muito sofreu com as inúmeras prisões, e o deputado José Cardozo, do PTB. Outros renegaram suas antigas ideias e aderiram aos golpistas de 1964, para serem aceitos como pessoas de bem (e de bens) pela comunidade e receberam as benesses dos vários governadores indiretos ou nomeados. Estes dois valorosos políticos acima mencionados pagaram caro pela coerência ideológica e a firmeza de suas posições. Aliás, algumas lideranças sociais e políticas de hoje são originárias dessa época de agitação social, entre elas o ex-vice-prefeito da cidade, Marcio Quirino.                                                          





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Chegamos, assim, ao quinto período dessa síntese histórica, que corresponde à vigência da ditadura civil-militar no Brasil e a um momento de extrema centralização político-administrativa. É a fase do bipartidarismo oficial e ou das sublegendas partidárias – onde não foi possível organizar uma oposição legal. A multiplicidade de correntes ideológicas foi eliminada e substituída por uma camisa de força de dois partidos oficiais. A vida política e cultural da cidade sofreu um enorme esvaziamento em razão da censura, do autoritarismo, da falta de autonomia local, da prisão, do exílio e o absenteísmo de importantes lideranças. Os próprios colégios, a imprensa local, os grêmios estudantis e as igrejas deixaram de ser fontes de animação cultural e política da cidade. A política passou a ser hegemonizada pelos novos coronéis urbanos, grandes comerciantes, latifundiários, exportadores e beneficiadores de produtos agrícolas e donos de grande parte da riqueza gerada na região. O caráter acanhado das lideranças econômicas se refletiu nas limitações culturais do munícipio, até a pouco tempo sem representação estadual ou federal. Forasteiros e aventureiros empolgaram a vida política da cidade, fazendo carreira, primeiro de empreendedores, depois de lideranças políticas. Para isso muito contribuiu, sem dúvida, a influência cosmopolita da formação dada pelas instituições escolares e o conservadorismo das igrejas, produzindo uma emigração de jovens talentos e lideranças em potencial. Este período foi caracterizado pela hegemonia de um partido único em Garanhuns, a Arena; sendo sufocadas outras alternativas de participação. A única exceção foi o rápido e difícil governo de Souto Dourado, ligado ao MDB, advogado, vivendo fora da cidade há muito tempo, que fez uma administração voltada para a cultura, a recuperação urbanística da cidade, a moralidade administrativa e a valorização do serviço público, mas que – infelizmente – não foi compreendido nem valorizado pelos munícipes da região.

                                                                




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Finalmente, chegamos aos dias de hoje. A consideração de um modelo político-cultural adequado para uma cidade como Garanhuns não pode prescindir, primeiro, do processo de esvaziamento econômico da cidade, marcado pela extrema concentração de renda e o monopólio da atividade comercial do município. A acanhada estrutura econômica da cidade (que parece dar sinais de mudança) pesa naturalmente sobre a riqueza ou a pobreza da vida cultural. A opção por transformar a cidade numa estância hidromineral de vocação turística e comercial, com um calendário de eventos musicais anual, financiado pelo governo do estado, no bojo de uma incapacidade fiscal e tributária dos municípios brasileiros, a falta de autonomia administrativa em que vivem grande parte das pequenas e médias cidades, faz de Garanhuns uma região de vida cultural induzida e artificial, ao contrário de outros municípios pernambucanos. É como se a nossa cidade não tivesse uma identidade cultural definida, bem demarcada, a despeito dos inúmeros valores humanos e intelectuais, das inúmeras faculdades, excelentes colégios confessionais, igrejas, clubes etc. A nossa cidade ainda é tributária de uma programação hegemonizada pela capital do estado e outras cidades de porte médio de Pernambuco.







Essa fraqueza pode e deve ser combatida: primeiro por iniciativas da própria sociedade civil e suas organizações, seus intelectuais, seus artistas, seus professores, seus líderes comunitários, religiosos e econômicos. Ou seja, não se deve esperar do governo ou de outros essa valorização da autoestima da cidade. Mas isso só pode ser feito com o fim desse cosmopolitismo estéril, vazio, empobrecedor das elites que dominam a cidade. Este descompasso entre este nefasto papel descivilizador e descomprometido das elites e as nossas potencialidades locais é responsável por uma cultura de alienação e pouco respeito e reconhecimento dos nossos valores. A tarefa política e cultural de consertar tal desequilíbrio é de todos quanto almejam o desenvolvimento urbano integrado local, com um viés distributivo, justo, inclusivo, mais voltado para a recuperação da autoestima dos cidadãos e cidadãs garanhuenses. Há muito que fazer neste terreno. É tarefa das faculdades, das escolas, das igrejas, dos clubes, das organizações não governamentais, dos líderes comunitários, dos partidos políticos, dos artistas e intelectuais, dos animadores culturais, do povo de Garanhuns.
                                             




Historiografia


O primeiro livro escrito sobre a nossa história é o do professor João de Deus, da Universidade Rural de Pernambuco. Traz fotos das índias cariris e outras informações importantes. Mas não é obra de historiador. O segundo e de um diletante chamado Alfredo Leite e tem uma importância documental muito grande. Mas está muito longe de ser uma história da cidade. O primeiro livro nesse gênero é o do historiador Mario Marcio e é sobre a hecatombe de 1917, não tem a abrangência necessária. Uma leitura dos almanaques, organizados por Ruber Van Der Linden é importante. O vídeo feito sobre a hecatombe por Clóvis Manfredini é muito interessante.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE.