A dinâmica da política é algo interessante. A velha raposa Magalhães Pinto já nos aconselhava observar as nuvens, que mudavam constantemente no céu, numa analogia ao processo político. Conta-se que, certa vez, numa única pergunta, o ex-presidente Jânio Quadros sepultou de uma vez por todas as pretensões políticas do empresário Sílvio Santos. Num almoço servido a ambos, Jânio perguntou a Sílvio Santos como ele lidaria com os vereadores casa fosse eleito prefeito de São Paulo. O apresentador veio com aquelas explicações genéricas, baseadas em idealismo, o que levou Jânio a pedir que o almoço fosse servido. Nunca mais se falou numa abertura do sistema político para o apresentador. Não lavava jeito. Inteligente e experiente, Jânio havia matado a charada numa única pergunta.
Aqui no estado, quando a governadora Raquel Lyra convidou o deputado federal Túlio Gadelha para mudar de legenda e juntar-se ao seu projeto político, a eventualidade de uma aproximação com a candidatura à reeleição de Lula era ainda possível. Essa possibilidade não está completamente descartada, mas hoje tonar-se muito improvável. Ontem o PT afastou o vereador Osmar Ricardo da direção do PT no Recife, exatamente porque ele se manifestou em apoio ao projeto de reeleição da governadora Raquel Lyra(PSD-PE), quando existe uma resolução da executiva da legenda em apoio institucional ao nome do ex-prefeito do Recife, João Campos(PSB-PE). Outras atividades partidárias do parlamentar foram preservadas, mas ele sai da direção municipal da legenda.
Tem repercutido bastante nas redes sociais um vídeo onde o deputado Túlio Gadelha faz um discurso exaltado, tentando atrelar tanto o projeto de reeleição de Raquel Lyra consorciado ao projeto de reeleição de Luiz Inácio Lula de Silva. Torna-se um discurso descontextualizado, onde a vice-governadora, Priscila Krause, lança um olhar indicando uma ponderação crítica ou uma desaprovação para a governadora Raquel Lyra. Não dá para ser exata acerca do que poderia ter se passado pela cabeça da vice-governadora naquele momento, mas compreende-se, no mínimo, algum estranhamento à fala. O que se presume é que Túlio seja mesmo confirmado como concorrente ao Senado Federal na chapa montada pela governadora, que não fecha as portas ao presidente Lula.
Ocorre, porém, um alinhamento cada vez maior do Palácio do Campo das Princesas com atores do centro-direita do espectro político local, tornando o seu discurso algo "esquizofrênico" neste contexto. Mesmo tentando atrair aquele eleitor identificado com Lula e que poderia votar nele e na governadora Raquel Lyra, ainda assim, ele vai precisar fazer algumas modulações em sua fala ou, em última análise, construir uma outra narrativa discursiva, considerando-se a necessidade de uma sintonia com o seu potencial eleitorado.


