Há poucos dias concluímos um romance sobre um personagem ancestral das matas do Litoral Norte de Pernambuco, líder do Quilombo do Catucá, conhecido como Malunguinho. No mês de agosto nas matas do Engenho Pitanga, em Abreu e Lima, Região Metropolitana do Recife, há uma grande festa em sua homenagem, reunindo integrantes de religiões afro-brasileiras, notadamente os praticantes da Jurema Sagrada. Tombada recentemente como patrimônio imaterial do estado, a festa é uma das mais pungentes dos povos de religiões afro-brasileiras. Tivemos que remontar toda a história desse líder quilombola, que se transformou em entidade depois de morto, cultuado pela Jurema Sagrada, o Candomblé e a Umbanda.
Sempre auxiliado pelo professor Marcus Carvalho, da UFPE, profundo conhecedor deste tema, assim como pelo antropólogo argentino Néstor Garcia Canclini, o texto ficou demasiadamente denso, talvez mais próximo de um ensaio do que um romance, algo que precisamos rever no sentido de não prejudicar os elementos de narrativa inerentes a um texto com as característica de romance. Num determinado momento, fazermos referência ao abolicionista pernambucano, Joaquim Nabuco, que integrava um estirpe de abolicionistas preocupados com a construção de um projeto para os negros recém-libertos da escravidão, assim como o engenheiro de Cachoeira, André Rebouças.
Muito afinados com esses autores, um outro pernambucano, Cristóvam Buarque, observa que, no Brasil, ainda existem escolas para alunos da Casa Grande e escolas para os alunos da Senzala. Isto nos veio à mente quando líamos recentemente que a Prefeitura de São Paulo, quando soube que uma escola tradicional mantida por instituição religiosa, que funcionava junto à Cracolândia, iria fechar, propôs que eles se mantivessem em atividade, mas passassem a receber os alunos da rede pública municipal. Assim foi feito, segundo dizem, com excelentes resultados. A escola é o Liceu Coração de Jesus, com 137 anos de existência, conhecida por formar boa parte da elite do estado de São Paulo.
De família humilde, mas bancado por um padrinho, Lima Barreto foi aluno da mesma Politécnica onde se formou André Rebouças. Era um grande desejo do pai que ele se formasse na Politécnica, mas ele não conseguiu chegar ao final do curso, exatamente em função dos problemas enfrentados pela família. André Rebouças talvez se configurasse naquela biotipo tratado pelo antropólogo Gilberto Freyre dos mulatos embranquecidos em razão de sua ascensão social. Ele tomava essas referências para concluir que, no Brasil, não haveria um preconceito de raça, mas de condição social do indivíduo. Esta digressão aqui, leitores, é apenas porque líamos recentemente uma biografia de Lima Barreto onde há várias referências a André Rebouças. Não tem uma relação direta com o episódio do Liceu Coração de Jesus.

