Há quinze anos iniciamos as atividades deste blog, de forma menos compromissada, pautando assuntos diversos, sem uma identidade clara definida. Ao longo dos anos, o blog tornou-se um canal de discussões políticas relevantes no estado, suscitando, em casos pontuais, indisposições naturais com atores políticos das mais distintas ideologias, contrariados com os nossos posicionamentos. Isso seria até natural, se compreendermos as circunstâncias de se fazer política num ambiente como o nosso. Quando releio alguns dos editorais antigos percebo o quanto já perdemos em termos de liberdade de expressão no país. Escrevíamos mais soltos, sem alguns constrangimentos impostos pelos novos tempos. Pelo andar da carruagem política, isso ainda pode piorar daqui para a frente.
Pernambuco é um estado com alguns características preocupantes, herdadas ainda do Período Colonial, forjado em núcleos familiares que controlam várias esferas públicas, identificando algumas variáveis apontadas nos estudos do cientista político americano, Edward Banfield, que as define como "familismo amoral". Curioso que um estudo realizada em séculos passados, numa aldeia italiana, possa transmitir grandes lições sobre a política pernambucana. Criticar gestões da máquina, um procedimento legítimo, democrático e republicano, em algumas situações pode ser tornar um grande problema. Jornalistas são sumariamente afastados de suas funções em razão do exercício da tal "liberdade de expressão". Um controle secular da máquina pública por esses clãs familiares não poderia resultar noutra coisa.
A esfera pública é literalmente loteadas entre esses núcleos familiares e seus apaniguados, estabelecendo-se relações promíscuas entre agentes públicos e privados. Num ambiente assim, não estranha nenhum pouco a instrumentalização de órgãos do aparelho de Estado para perseguir desafetos dessas oligarquias familiares. Em Pernambuco houve um caso de uma família que mantinha uma senhora em condições análogas à escravidão. O fato foi denunciado, chegou à imprensa, mas nunca o nome dessa família foi revelado. As lições sobre o verdadeiro jornalismo, preconizadas pelo George Orwell, nunca foram aplicadas na terrinha. Quando observamos um site com duras críticas a determinado político, pode-se depreender que tal prática esconde interesses particulares. Nunca foi este o nosso caso, pois este blog não recebeu, durante toda a sua existência, um centavo de quem quer que fosse.
Quem transpõe a linha movido pelo interesse público pode aguardar as consequências, como se os pagadores de impostos não pudessem se pronunciar acerca da gestão da máquina pública que ele financia. Em termos de Brasil, já faz algum tempo que entramos numa seara perigosa, onde uma renitente polarização política vem gradativamente corroendo o tecido de nossas instituições democráticas. Até a nossa Constituição Cidadã de 1988 passa a ser questionada e há atores políticos com propósito de modificá-la. O que precisaria ser retirado de nossa Constituição, na realidade, são os entulhos autoritários que ali ainda foram mantidos em função das circunstâncias políticas em que a mesma foi concebida, envolvendo uma correlação de forças em transição de regime.
Com as suas atividades iniciadas em 2011, ao longo dos anos, o blog foi assumindo uma identidade própria, tratando de assuntos da política pernambucana e do Brasil, não raro realizando incursões pela literatura, uma paixão do editor depois de aposentado. São milhares de matérias publicadas ao longo desses anos, algumas delas relativas às eleições, constituindo num verdadeiro repositório sobre a política municipal, estadual e do país. Temos vários livros organizados, mas nunca publicados, a exemplo dos textos sobre o Governo Temer, Governo Dilma Rousseff, Governo Bolsonaro, Lula, Geraldo Júlio, Eduardo Campos, João Campos, Raquel Lyra. Sempre que havia alguma eleição, abríamos um espaço específico no blog para acompanhá-la, a aba "o xadrez político das eleições", onde publicávamos artigos específicos acerca do assunto.
A partir de um determinado momento, ampliamos sensivelmente a nossa audiência, numa média de quatro mil acesso diários, chegando, em alguns momentos, a picos de 45 mil acessos num único dia. Um editorial recente acerca da polêmica em torno da discussão sobre um eventual "algoritmo bolsonarista", talvez em função do memento, gerou uma quantidade enorme de acessos, quem sabe impulsionado pelo "Exército de Lula". O aperfeiçoamento se dá pela constância, pela disciplina. Fazemos este blog sozinho e, mesmo assim, havia dias em que publicávamos uma média de 12 matérias, cada uma delas entre 3 e 4 páginas. Tudo no pulso, uma competência muito valorizada, num mundo onde tudo agora é feito através das IAs.
Um outro dado relevante é que todas as matérias do blog, a partir de um determinado momento, passaram a ser uma produção própria, não publicando nenhuma matéria de outro órgão. Nem local, nem nacional. Por falar em IA, enveredamos pelos mesmos problemas dos robôs que roubam conteúdos. Há alguns acessos que o Google não consegue identificar a origem e, em consulta às próprias IAs, elas admitiram o "delito". Não há, a rigor, nenhum problema aqui. Sempre realizamos este blog movido pelo interesse público. Que bom que o conteúdo esteja sendo encaminhado aos estudantes e pesquisadores, prática já adotada por este editor através das consultas que nos são dirigidas.
Nossa experiência na escrita de sites tem um percurso não necessariamente positivo, principalmente, conforme enfatizamos antes, por estarmos num estado com as nossas características. Pontualmente, há os invejosos e, institucionalmente, há os constrangimentos inevitáveis. No início, alimentávamos um site institucional com os nossos artigos, onde chegamos a ser até censurados. Isso numa época de "democracia plena". Imaginem os senhores se a tormenta voltar a cair sobre nós. No início de 2016, publicamos um artigo sobre os dias sombrios que poderiam advir sobre o país. Uma trupe da pesada passou a perseguir este blogueiro, com aqueles métodos sórdidos conhecidos. Fomos perseguidos até pelos "laranjinhas", que escalaram um Secretário de Estado para rebater-nos pelas redes sociais. Acreditamos que o rapaz tinha mais o que fazer.
No final, nossos agradecimentos à plataforma Blogger, que nos hospedou durante todos esses anos e que vai continuar hospedando agora esse repositório. Na foto acima, o editor, na condição de professor universitário, realizando um trabalho de campo da Comunidade Quilombola de São Lourenço, ao lado do senhor José do Nascimento, seu Jipe, o "Homem Caranguejo" de Josué de Castro. O apelido não foi dado por mim, mas por uma equipe de jornalistas da revista Época, que passaram um período na comunidade por ocasião do relançamento da obra do sociólogo pernambucano. Ao seu lado, Dona Sebastiana, hoje já falecida. A comunidade se tornou tema de romance deste editor, tendo seus moradores como personagem.
Agradecemos imensamente aos leitores e leitoras que nos acompanharam por aqui ao longo desses 15 anos de existência. Informamos aos focas, humildemente, que, nem sempre tivemos a capacidade de produzir dezenas de matérias por dia. Isso vem com a prática, com a constância, com a disciplina. Foram poucos os dias em que deixamos de publicar algo por aqui. Nos últimos dias reduzimos as publicações exatamente me função da transição que estava em andamento. Como mentores, Sílvio Caccia Bava, Villas Boas Correa e, aqui na província, Mariza Gibson, do Diário de Pernambuco. Um abraço e um agradecimento todo especial ao filósofo, historiador e cientista político Michel Zaidan Filho, durante anos, um dos principais colaboradores do blog. Gratidão não se expira. Migrem agora para o www.contextopolitico.com.br











