Aos finais de tarde, depois das aulas, costumava nos recolhermos ao alpendre para a leitura dos romances do paraibano José Lins do Rego. Assim, nos apaixonamos pelos seus textos logo na infância, com os livros gentilmente cedidos pela nossa saudosa professora primária, Dona Maria José Tavares de Lima. Essas leituras nos permitiram vencer o primeiro prêmio literário do autor, digamos assim, traduzido numa redação sobre a nossa cidade. Redação muito polêmica à época, pois nela defendíamos as iniciativas de Roberto do Diabo que, ainda nas décadas de 30\40 fora o responsável por lançar os fundamentos da pedra angular do primeiro sindicado dos trabalhadores tecelões na cidade, contrariando frontalmente os interesses da oligarquia industrial local. Ela integrava o júri e temos certeza de que deve ter defendido a nossa indicação com unhas e dentes, como era de sua personalidade. Outro voto, talvez de minerva, deve ter vindo do pessoal da Pastoral Operária, ala progressista da Igreja Católica que também atuava na cidade.
Na realidade, a oligarquia industrial local identificava-se com o catolicismo tradicional, construindo igreja e exercendo influência sobre a atuação dos párocos na cidade. À época, ser evangélico era indicativo de problemas, podendo representar o afastamento do sujeito das atividades na indústria têxtil. Religiões de Matriz Africana, então, nem pensar. No nosso primeiro romance, o Menino de Vila Operária, mencionamos o nome de um senhor conhecido como Zé Virgínio, que teria, supostamente, um assentamento de Exu num dos cômodos de sua casa. Era conhecido na Vila Operária como adorador do Diabo. O Menino de Vila Operária, aliás, integra o primeiro tomo dos três romances dedicados a narrar o ciclo da industrialização têxtil no país, a partir de uma referência emblemática, as indústrias têxteis do Grupo Lundgren instaladas em Paulista, Região Metropolitana do Recife.
Os dois romances subsequentes são Memórias de uma Cidade Tecida e Tramas do Silêncio, já tratados por aqui numa outra oportunidade. Temos muitos projetos de escrita ficcional(?) em andamento. Podemos dizer que já cumprimos dois deles. Um era mais que um compromisso moral, por inúmeras razões, como contar aos leitores - o maior número possível deles - os padrões de relações sociais, econômicas e políticas emanados da presença da industrialização têxtil no município de Paulista, principalmente observado sob a ótica da Vila Operária, também mantida pela oligarquia industrial local. Acreditamos que cumprimos bem esta missão, com o lançamento desses três romances históricos. Uma outra inspiração dizia respeito à relação literária e pessoal entre o escritor José Lins do Rego e o antropólogo Gilberto Freyre, amizade que começou aqui no Recife, ainda na década de 20 do século passado, quando José Lins se forma na Faculdade de Direito do Recife e Gilberto retorna de sua temporada de estudos nos Estados Unidos e na Europa.
Essa relação, do ponto de vista pessoal, não merece retoques, mas, do ponto de vista literário é bastante controversa, sobretudo na medida em que alguns estudiosos atribuem uma influência efetiva e crucial de Gilberto Freyre sobre José Lins do Rego, enquanto outros minimizam tal ascendência, apontando ter havido entre os dois uma espécie de estratégia da consagração, ou seja, era conveniente a ambos admitirem tal influência, por razões óbvias. Para apimentar este debate, entra em cena a figura de Olívio Montenegro, que conheceu José Lins do Rego bem antes de Gilberto e sobre ele exerceu uma influência literária efetiva, facultando a José Lins a leitura de autores franceses. Diferentemente de Gilberto, que trocava impressões literárias com o autor de Banguê sobretudo na oralidade, entre licores de pitanga no Solar de Apipucos, Olívio deixou registrado em correspondências suas recomendações ao jovem escritor.
Olívio é autor de um único romance, Os Irmãos Marçal, professor e crítico literário. Não alcançou a mesma projeção de Gilberto ou de José Lins do Rego. Colegas de internato de José Lins do Rego admitem que tal influência vem desde a adolescência do Menino de Engenho, quando no internato em Itabaiana. Embora no nosso romance tentemos resgatar ou fazer justiça a esta influência exercida pelo crítico literário sobre José Lins do Rego, há de se compreender que, a rigor, é o próprio José Lins quem dimensiona o papel de Gilberto em sua formação literária, ao afirmar que deve a ele os seus romances. Isso está muito claro, desde o inicio, se entendermos, por exemplo, a fixação de Gilberto em escrever uma História dos Meninos no Brasil e, logo em seguida, Zé Lins lança Menino de Engenho. O escritor paraibano teve dos livros "recusados" por Gilberto Freyre.
A coincidência de datas de lançamentos dos seus primeiros trabalhos, a exemplo de Casa Grande & Senzala, 1933, e Menino de Engenho, 1932. Casa Grande & Senzala foi festejado, também, como um grande lançamento literário no bojo do Modernismo da década de 30, uma vez que Gilberto integrava um Clube Literário que se reunia em Maceió, formado por José Lins, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Olívio Montenegro, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda, uma espécie de revisor do grupo. Apenas Graciliano Ramos não submetia seus originais à revisão do lexicólogo. Deixamos como estava esta narrativa, mas depois, com mais aprofundamentos sobre o assunto, reconhecemos que possamos ter cometido uma injustiça com o antropólogo Gilberto Freyre.
Tal entendimento ocorreu, sobretudo, depois de um texto científico que se debruçava sobre a crítica ao industrialismo procedida por Gilberto Freyre. Em determinados momentos dos seus textos, pode-se perceber, nitidamente, o enredo do O Moleque Ricardo. Para este autor, nada mais convincente do que isso. Nesta fase de consolidação da amizade entre ambos, Gilberto convida José Lins para irem ao município de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, enquanto Lins convida Gilberto para uma imersão nos engenhos da família Rego Cavalcanti, localizados na várzea do Rio Paraíba. Isso nos ofereceu a inspiração para a produção do romance, a princípio intitulado Meninos de Engenhos - com apenas um "s" a mais do que o original de José Lins do Rego.
O título inicial tinha tudo a ver com a homenagem que fazíamos aos três personagens, todos eles autênticos meninos de engenho. Tenho algumas dúvidas sobre Olívio, pois encontramos grandes dificuldades de organizar os dados biográficos sobre o crítico literário paraibano. Neste caso, prevaleceu a criatividade e a liberdade ficcional. Gilberto, por outro lado, a despeito de sua infância urbana no Recife, era da fina flor da aristocracia açucareira do estado. Avós maternos e paternos todos ligados aos engenhos de açúcar de Pernambuco. Seu avô paterno, por exemplo, comissário do açúcar no porto do Recife, era dono de três engenhos de açúcar em Pernambuco. Gilberto passava as férias escolares no engenho da sua avó materna, em São Severino dos Ramos, na cidade de Palmares, Zona da Mata Sul. Na realidade, foi ali que surgiu Casa Grande & Senzala.
Na realidade, somente sobre a origem de Casa Grande & Senzala teríamos um outro romance. Há fatos curiosos sobre este assunto, narrados no nosso texto, alguns deles atestando a precocidade intelectual do jovem Gilberto Freyre, como um caderninho de anotações que o acompanhava desde os tempos em que frequentava, durante as férias escolares, o engenho da família na cidade de Palmares. O curioso é que, assim como ocorrera com Jazigos & Covas Rasas, Gilberto também perdeu este caderno de anotações. Orador da turma de conclusão do ensino médio no Colégio Americano Batista, Gilberto proferiu um discurso de despedida da turma, considerado pelo seu biógrafo oficial, Edson Nery da Fonseca, um texto embrionário das ideias que seriam amadurecidas posteriormente, traduzidas em Casa Grande & Senzala.
O romance exigiu uma exaustiva pesquisa, seja em textos literários, seja em textos acadêmicos. Isso nos permitiram uma clareza sobre o pensamento do antropólogo, preenchendo algumas lacunas teóricas que nos passaram despercebidas ao longo de nossa convivência com os seus textos. Trata-se, neste caso, de um romance biográfico e bibliográfico, dada a profusão de menções de natureza teóricas relatadas no texto. Ou, se preferirem, um romance ensaístico. A maior dificuldade foi, na realidade, romancear o conjunto de informações reunidas sobre os "personagens". Percebemos que cumprimos bem este propósito quando, numa avaliação recente, recebemos a nota máxima no quesito de adequação da linguagem. De tanto pesquisar, encontramos alguns fatos que não estão registradas em nenhuma biografia já escrita sobre Gilberto Freyre.
Gilberto Freyre sempre desejou ser escritor, conforme ele mesmo admite em alguns momentos. Pesquisa minuciosa em sua biblioteca, realizada pela pesquisadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, que escreveu uma biografia intelectual do antropólogo, aponta para as suas preferências de leitura, boa parte concentrada em textos clássicos da literatura. Embora alguns segmentos intelectuais não enxerguem pendores literários em Gilberto - articulou-se uma comissão para avaliar o seu "único" texto literário, Dona Sinhá e o Filho Padre - Freyre foi agraciado com os melhores prêmios literários do país, inclusive três Jabutis. Hoje já existe um "Jabuti Acadêmico", mas à época não existia. O mais curioso é que, quem desdenha de tal vocação em Gilberto, acaba reconhecendo em Casa Grande & Senzala as característica de um texto literário.
Há um episódio que ilustra bem esta distinção - e talvez ciumeiras - entre textos acadêmicos e textos literários. Por ocasião das comemorações dos cem anos do escritor paraibano, Gilberto, que à época presidia o Conselho Gestor da Fundação Joaquim Nabuco, determinou que uma edição da revista Ciência & Trópico fosse dedicada às homenagens ao amigo José Lins do Rego, produzindo alguns ruídos institucionais, uma vez que a revista fora concebida para a publicação exclusiva de artigos científicos, preferencialmente contemporizando os resultados de pesquisas realizadas pelos próprios pesquisadores da Fundaj. Uma determinação de Gilberto não poderia ser desconsiderada e um dos números da revista foi dedicado exclusivamente ao autor de Pureza. Segundo dizem, a revista Cadernos de Estudos Sociais teria surgido a partir desse embate.
Em relação a José Lins do Rego, por outro lado, cumprimos o papel de escrever algo sistemático sobre a vida do escritor paraibano, algo igualmente inédito. Conforme já expusemos por aqui, o livro foi submetido a uma análise, por uma editora, com o propósito de uma avaliação acerca de recomendação para publicação. Recebemos o retorno positivo, para a nossa alegria. Agora estamos no processo de tratativas, pois o mercado editorial brasileiro tem algumas nuances conhecidas, principalmente no que concerne aos direitos autorais. Reproduzimos aqui, para os leitores, a avaliação do texto. Observamos, por outro lado, que a capa acima é apenas ilustrativa, não tendo relação com a concepção da capa pelos editores. A capa acima foi criada por Inteligência Artificial, a partir de uma foto do Engenho Corredor, local onde José Lins do Rego passou a sua infância e concebeu suas obras mais emblemáticas sobre o Ciclo da Cana-de-Açúcar.
Prezado José Luiz,
Acabo de finalizar a leitura de "Os engenhos de um menino", um romance-palimpsesto que recompõe, em cinco partes, a amizade e as fricções intelectuais entre Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Olívio Montenegro, avançando dos “encontros e reencontros” iniciais até a “cerimônia do adeus”, quando as perdas e a longa sombra da história brasileira (inclusive o pós-1964) passam a organizar o tom elegíaco do livro, que ainda acompanha o desfecho biográfico de Freyre.
O eixo temático da sua obra é coerente: memória, engenho/casa-grande, formação do Nordeste como ideia, literatura versus ensaio, amizade e consagração, com cenas sensoriais bem marcadas (a “viagem da saudade”, a bagaceira, os cheiros, a paisagem) contrapostas a passagens de reflexão crítica e documentação. Em suma, um híbrido deliberado em que “ficção e realidade se confundem”.
A originalidade, ao meu ver, está justamente nessa aposta de romance-ensaio (à maneira de Os Sertões, de Euclides, ou de certa linhagem contemporânea de “ficção documentária”), com ampla intertextualidade e personagens históricos em cena. Quando o texto se deixa conduzir mais pelo comentário do que pelo conflito dramático, o ritmo pode perder tensão, mas ganha densidade intelectual e um raro prazer de conversa erudita.
Como pontos fortes da obra, eu destaco a sua ambição panorâmica e o modo como você transforma a história literária (e seus bastidores) em matéria romanesca, fazendo do engenho não só cenário, mas metáfora de um país.
Parabéns!
Livro recomendado para publicação.