pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
Powered By Blogger

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Le Monde Diplomatique: "É preciso revolucionar as cidades"


E não tem problema se as revoluções forem pequenas. O geógrafo David Harvey, principal teórico do direito à cidade, mostra que estudar Marx ainda faz sentido e provoca as “vizinhanças” a se transformarem no centro dos movimentos políticos, que devem evitar o “fetiche da horizontalidade”
por André Deak, Lucas Pretti

Desde A urbanização do capital, de 1985, até o brilhante Rebel cities (Penguin, 2012, sem tradução no Brasil), passando por dezenas de livros sobre marxismo, David Harvey encara as grandes cidades como o amálgama social que produz e produzirá o novo. Não há nada mais fervilhante, diz ele, do que as “zonas de aculturação”, bairros em que o abandono do Estado se mistura a populações imigrantes, artistas e jovens profissionais liberais. Alguma semelhança com o movimento cultural que ocupou as ruas do Baixo Centro de São Paulo em abril com atividades culturais gratuitas e autogestionadas?
Geógrafo de 77 anos, professor emérito da City University of New York (Cuny), ele esteve no Brasil para o debate de lançamento de seu novo livro, Para entender O capital (Boitempo, 2013), em que disseca a obra-prima de Marx e se propõe a criar um “guia de leitura” para quem pretende mergulhar pela primeira vez naquele oceano. Na verdade, ele é mais apaixonado do que isso. “Todas as pessoas precisam ler um livro chamado O capital.”

DIPLOMATIQUE– O Brasil vem se preparando para realizar a Copa e a Olimpíada. E a preparação para esses eventos tem provocado remoções de pessoas e injustiças econômicas, entre vários outros absurdos. O que devemos fazer?
DAVID HARVEY – As pessoas deveriam estar atentas desde o primeiro momento quando alguém diz: “Teremos Jogos Olímpicos aqui”. Em geral, interesses comerciais e financeiros do Estado o farão remover pessoas e trabalhar na “revitalização” de locais. Eu acho que, antes mesmo de um anúncio como esse ocorrer, as pessoas deveriam estar preparadas para dizer: “Não quero que isso aconteça no meu país”. Um exemplo interessante foi a tentativa de levar os Jogos Olímpicos a Nova York. A população não concordou. Quando toda a propaganda em torno do grande evento começou, os nova-iorquinos já estavam preparados para dizer: “Não queremos”.
DIPLOMATIQUE– Não sei se isso é possível entre os brasileiros hoje. A maioria está empolgada. A propaganda oficial é muito grande, todos amam futebol e as pessoas sentem que querem a Copa, querem a Olimpíada.
HARVEY – Sim, isso é difícil. A vantagem de Nova York é que há o encontro das Nações Unidas. Todos os anos, por uma semana em outubro, todo o lado leste da cidade é completamente fechado. Você não pode se movimentar, e todos ficam de saco cheio. Aí, quando alguém fala em Jogos Olímpicos, as pessoas já rechaçam.
Quando a cidade-sede da Copa ou da Olimpíada já está escolhida, deve-se trabalhar muito para minimizar as consequências ruins. Mas é quase impossível, não dá para pensar em algo revolucionário.
A maioria das cidades que já receberam Copa ou Olimpíada perdeu muito dinheiro. Se você analisar as condições financeiras da Grécia hoje, boa parte dos problemas remonta aos Jogos Olímpicos, quando gastaram uma quantia enorme de dinheiro para construir coisas completamente inúteis. Houve apenas um projeto muito útil, a construção de um novo sistema de metrô, cujos benefícios são permanentes. O que se vê normalmente é violência de Estado, sem qualquer compensação. Vocês devem lutar por benefícios definitivos, mas sabendo que é impossível parar os Jogos.
DIPLOMATIQUE– O Brasil agora está sob holofotes em todo o mundo. E você já esteve na maioria dos países da América Latina. Há novos modelos de organização ocorrendo nesta parte do mundo?
HARVEY – Uma coisa consistente que já existe por toda a América do Sul é um tipo de rejeição às políticas neoliberais em suas formas puras. Isso não quer dizer que todos sejam anticapitalistas, mas há um antagonismo contra as estruturas da globalização: Banco Mundial, FMI e as políticas austeras que estão dominando a Europa.
Há também uma série de experimentações políticas ocorrendo, mas que tipo de políticas econômicas vai funcionar? Há diferenças entre o que Chávez fez na Venezuela, Morales na Bolívia, Correa no Equador, mas em geral a América Latina é hoje um lugar onde os movimentos sociais são ativos e muitas pessoas da esquerda sabem que esta é uma parte muito interessante do mundo hoje. Estou certo de que, já que não há como romper com o capitalismo, há um novo tipo de capitalismo que vem sendo construído.
Em O capital, Marx mostra isso claramente. Quando qualquer pessoa chega e diz: “A solução para a pobreza é mais desenvolvimento capitalista”, você deve dizer imediatamente: “Não! O capitalismo criaessa pobreza”. Acontece o mesmo com o meio ambiente. Quando alguém diz que o capitalismo pode ser sustentável para o planeta, Marx faz um bom trabalho ao mostrar a tendência eterna de o capitalismo destruir a principal fonte de recursos: a terra. Marx admirava de diversas formas as consequências positivas do desenvolvimento capitalista, mas dizia que precisamos ter controle e criar uma alternativa ao “lado negro”.
DIPLOMATIQUE− Vê-se cada vez mais no mundo, e em São Paulo também, a proliferação de hubsque pretendem ser lugares de liberdade e criatividade em vez do controle de horas. Isso é uma alternativa ao capitalismo tradicional?
HARVEY – A mudança tecnológica está criando um sentimento de redundância. O que devemos fazer em um mundo em que os trabalhadores são redundantes? Temos taxas de desemprego em crescimento em todo o mundo, e o tipo de emprego que ainda existe não está satisfazendo o trabalhador criativo. Portanto, vemos pessoas por toda parte tentando ter um estilo de vida diferente, criando sistemas alternativos de produção, economias solidárias e outras coisas do tipo. Porque, afinal, é a vida deles que está em jogo.
DIPLOMATIQUE– Cooperação em vez de competição...
HARVEY – Sim. Há diversos grupos espalhados pelo mundo tentando fazer algo, de formas bem diferentes, mas usualmente em escalas pequenas. Essas pequenas iniciativas devem ser reprodutíveis para se transformar em um movimento de massa ou precisam permanecer pequenas? É uma das grandes questões sem resposta.
DIPLOMATIQUE– Essa reorganização do espaço de trabalho pode ser considerada anticapitalista de alguma forma?
HARVEY – Pode ser parte de uma tentativa anticapitalista. Mas veja o que acontece, por exemplo, nas fábricas recuperadas na Argentina. Elas existem como ilhas dentro de um oceano capitalista, mas no fim se transformam em um centro de autoexploração por causa das pressões comerciais, financeiras etc.
Por um lado se diz que a passagem para o socialismo necessita de autogestão e trabalhadores associados no controle da produção, mas isso não sobrevive sem uma reconfiguração radical dos papéis do dinheiro, do sistema financeiro, dos mercados. Se esses elementos não mudarem, você ainda estará na prisão do capitalismo. Por outro lado, tomar a fábrica é um primeiro passo – e isso é bom. Então vem a questão: quais são o segundo, o terceiro, o quarto passos desse movimento?
DIPLOMATIQUE– Para além dos trabalhadores criativos, existe uma massa imensa de trabalhadores tradicionais, e ainda há os sindicatos, que não conseguem dialogar com os trabalhadores e não têm a importância que já tiveram. Como os trabalhadores devem se organizar nestes novos tempos?
HARVEY – Não acho que os sindicatos de trabalhadores estejam completamente mortos. Há partes do mundo em que eles ainda são significantes e muito fortes. A dificuldade dos sindicatos sempre foi conseguir benefícios para seus membros e, em sua maioria, nunca se viram como movimentos trabalhistas de vanguarda. Alguns partidos políticos fetichizaram o trabalhador da fábrica como a pessoa que iria liderar a revolução – e sempre achei que havia algo errado nessa formulação. É por isso que, no Rebel cities, eu digo que é preciso redefinir o proletariado de hoje para incluir todas as pessoas que produzem e reproduzem a vida urbana – e que, portanto, revolucionar a cidade é tão importante quanto revolucionar o local de trabalho.
Quando você analisa a Comuna de Paris e os movimentos revolucionários de 1848, há evidências históricas de que eles tinham como propósito recapturar a vida urbana para a massa da população. Esses movimentos urbanos não foram levados a sério por muitos setores da esquerda, mas deveriam. Há 34 anos eu tento, sem muito sucesso, persuadir meus colegas marxistas a levar a urbanização a sério. As pessoas nas ruas, como vimos nas revoltas do Cairo, tomando conta de regiões simbólicas das cidades, são uma força política muito significante, mesmo quando as revoluções não são exatamente anticapitalistas. Precisamos encarar as cidades como centros de legitimação política e potenciais para revoluções e transformações. Daí a necessidade de redefinir teoricamente o que são movimentos de massa ou revolucionários.
DIPLOMATIQUE– Unindo suas ideias, podemos dizer que esses trabalhadores devem então fazer coisas em pequena escala?
HARVEY – Sim. Gramsci tem uma formulação interessante sobre isso, quando escreveu sobre a organização dos trabalhadores. Ele disse que, claro, é preciso se organizar em torno das fábricas (não exatamente em sindicatos, mas em conselhos fabris), mas é preciso também organizar as vizinhanças. Porque nos bairros estão as condições como um todo da vida da classe trabalhadora. Neles estão os garis, os taxistas, os garotos de recado e tantos outros que precisam ser integrados nos movimentos políticos – e essa ideia de organizar a vizinhança está passando a ser central nos processos políticos de hoje. Gramsci via muitas vantagens na união da organização das fábricas e das vizinhanças, principalmente porque, naquela época, isso significava dar poder às mulheres, já que nas fábricas a imensa maioria dos trabalhadores era formada por homens. Isso é muito interessante. Se você analisar a estrutura dos sindicatos tradicionais, a liderança é toda masculina. Ao contrário, boa parte das lideranças comunitárias é ocupada por mulheres. Essa discrepância de gêneros tem sido uma barreira muito grande para a organização anticapitalista.
DIPLOMATIQUE– James Carville e Stan Greenberg, no livro It’s the middle class, stupid!, sustentam que, hoje, um tema só adquire potencial revolucionário quando ganha a paixão e a revolta da classe média. Qual é sua opinião sobre isso?
HARVEY – Nos Estados Unidos há uma tendência em dizer que a grande maioria do país é de classe média – mas na verdade é classe trabalhadora. Acho que existe de fato uma classe média significativa – formada por advogados, juízes, diretores de corporações e outros profissionais desse tipo –, mas muito menor do que se imagina. Em pesquisas de autoidentificação, cerca de 60% a 70% dos norte-americanos se colocam como parte da classe média. No entanto, se você faz a pergunta de outra forma, com enunciados mais sofisticados, a mesma proporção se considera classe trabalhadora. Eles trabalham, têm determinadas condições no emprego, um chefe que decide coisas, gastam xhoras por dia trabalhando etc.
DIPLOMATIQUE– O Le Monde Diplomatique Brasil, em janeiro, comparou os movimentos Tea Party e Ocupar Wall Street. O primeiro conseguiu eleger representantes no Congresso, enquanto o Ocupar não tinha esse propósito. Você acha que movimentos como esses deveriam tentar a via política tradicional?
HARVEY – Em primeiro lugar, é muito importante ressaltar que o Tea Party recebeu financiamento alto de bancos, grandes corporações etc. Já o Ocupar não teve nenhum apoio parecido. É verdade que o objetivo do Ocupar não era lutar pelo poder político – nem mesmo influenciá-lo. Mas aí é que está: influenciou. Eles ocuparam um papel muito importante na reeleição de Obama porque mudaram a pauta. Antes dos movimentos Ocupar, ninguém nos Estados Unidos estava falando sobre igualdade social. Quando eles vieram com o argumento do 1% versus99%, trouxeram a discussão sobre desigualdade – e também a necessidade de um presidente que falasse sobre isso.
DIPLOMATIQUE– Mas eles deveriam tentar espaço no Congresso?
HARVEY – Acho que não, na verdade.
DIPLOMATIQUE– Deveriam reivindicar algo específico?
HARVEY – Eles fazem pedidos: queremos democracia real, igualdade social, diminuir o gap entre os 99% e o 1%... É interessante observar que o poder político não reagiu com violência da polícia ou do Exército contra o Tea Party, mas sim contra o Ocupar. Todos em Wall Street sabem que fazem coisas ilegais todos os dias e que deveriam estar na cadeia. Eles sabem disso! Por isso ficaram aterrorizados, principalmente se Obama se elegesse e houvesse um movimento popular como na Islândia, em que os banqueiros foram todos presos. Então veio o Furacão Sandy, e a maioria das pessoas no Ocupar se organizou num processo de comunicação muito eficiente, levando comida, produtos de primeira necessidade etc. Aí o Ocupar começou a ganhar atenção positiva da imprensa, elogios do New York Times e, como dizem muitos amigos meus que estavam envolvidos, a política desapareceu. Tudo virou um caso humanitário, mas que tinha por trás um novo processo de organização de extrema importância política.
DIPLOMATIQUE– Em 2001, na Argentina, ocorreu algo similar, com o “corralito”. Todos foram para as ruas, ocuparam a Praça de Maio, se organizaram de forma diferente. Mas logo tudo passou e os partidos políticos seguem iguais. Por quê? Vai ser sempre assim?
HARVEY – Nos últimos quinze anos, os movimentos sociais têm sofrido de muita volatilidade. Os movimentos de massa, que envolvem milhões de pessoas, emergem com rapidez impressionante. Um grande exemplo é o de fevereiro de 2003, o protesto global contra a possibilidade de guerra no Iraque. Maravilhoso! Milhões de pessoas no mundo todo! E então desapareceu. Se esses milhões de pessoas de repente decidissem ficar nas ruas, o que aconteceria? Vemos muito esse tipo de política hoje, que é muito volátil.
DIPLOMATIQUE– Também vemos muito hoje o conceito da horizontalidade: milhares ou milhões de pessoas sem líder. Em Rebel cities, você levanta o problema da “fetichização da horizontalidade”.
HARVEY– Esse é um problema real. Muitas pessoas envolvidas são simpatizantes da ideia de que mais democracia significa menos lideranças. Mas o próprio exemplo do Ocupar-Sandy mostra que a centralização foi necessária para fazer as coisas que precisavam ser feitas. Organizações políticas precisam da combinação entre horizontalidade e algum conceito de verticalidade. Se você fetichiza a horizontalidade e a autonomia, acaba colocando a si mesmo em uma caixa fechada, sem poder nenhum. Um exemplo ao contrário são os zapatistas, uma organização militar que obviamente não era horizontal, tinha uma estrutura de controle. Parece mais simples usar o modelo de assembleias para tudo, mas não é. Algum senso de controle é necessário.
André Deak
Pós-Jornalista, professor, mestre em Teoria da Comunicação pela Universidade de São Paulo e cofundador da Casa da Cultura Digital


Lucas Pretti Pós-jornalista, ator, produtor cultural e idealizador do Festival BaixoCentro.


Ilustração: Manohead
01 de Maio de 2013
Palavras chave: David Harvey, marxismo, cidades, metrópoles, capital, horizontalidade, orçamento participativo, O Capital, Brasil, Marx, revolução, paradigma, teoria, América Latina, Occupy Wall Street, New York Times, Congresso, Tea Party, classe média, trabalhadores, Estados Unidos, EUA, trabalho, operários, política, cooperação, Copa do Mundo

Carrascos voluntários, artigo de Michel Zaidan Filho



Por Michel Zaidan

Estamos vivendo uma época de franco retrocesso das conquistas garantistas e protetivas dos direitos humanos. A lei Maria da Penha, o RPDD e a tentativa de antecipação da maioridade penal dos adolscentes e infantes, na opinião dos especialistas, acrescentando-se a equivocada tentativa de mudança do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma prova disso. Tempos duros e difíceis: a lei e os direitos são responsabilizados pela delinquência infanto-juvenil. E outras leis são apontados como a solução para os crimes e a violência. Se a solução para a criminalidade violenta (e cada vez mais precoce), o país de maior população carcerária do mundo (os EE.UU.) teria diminuido o número de crimes e de criminosos, com o apoio do rigor e a dureza da legislação penal. E no entanto, só aumentam os crimes e os criminosos e a periculosidade dos crimes.

Talvez o enfoque devesse ser outro: pesquisar as causas, não as consequencias. O horror das consequencias tem sido bom para vender jornais, aumentar a audiencia, ajudar a gestores em crise de popularidade e cortejar o sentimento de vingança e retaliação da classe média urbana brasileira. Mas não ajuda a entender o que se passa nas grandes cidades brasileiras, onde a crise da família, a crise da escola e as disfunções do mercado de trabalho estão presentes. O crime é uma metáfora social, como disse muito bem uma colunista da Folha de São Paulo, a propósito do rumoroso sequestro do publicitário W. Olivetto. É uma metáfora porque o "instinto maligno" ou a personalidade criminosa não são inatos ou hereditários, como alguns desinformados costumam pensar. Por outro lado, há muito tempo que a origem do direito penal está associada à vindinta ou a retaliação, desde os costumes bárbaros dos god os e visigodos no início da era cristã. Sendo a legislação moderna uma racionalização dessa vindinta ou retaliação. O filósofo alemão Nietzsche também disse o mesmo em "a genealogia da moral", justificando a violência dos fortes contra os fracos.

De toda maneira, a ética cristã é que inaugurou a idéia, não da vingança mas do perdão, da compreensão, da sublimação do ódio em face da dor de uma perda de um ente querido ou familiar. E outro grande reformador do direito, Beccaria, foi quem instituiu a gradação racional dos delitos e das penas. O passo seguinte foi pensar o castigo e a prisão como espaço de ressocialização das atitudes humanas, no sentido na reinserção produtivo dos apenados à sociedade. De toda maneira, quando se compara a chamada "era dos direitos" e a universalização da dignidade humana como valor, em lugar da honra e do status, a sensação que fica é que todo o avanço na compreensão do crime e do criminoso ficou para atrás. A impotência da sociedade (e do seu aparelho de segurança) diante do desajuste social e de suas instituições de controle (a família, a escola, a igreja e o trabalho), conduziu a uma pato logização e criminalização do desajuste social,sem querer colocar em causa os valores, a mentalidade, a forma de vida, os padrões de sucesso e realização pessoal das pessoas. Que sociedade é essa que condena crianças e adolescentes ao encaceramento precoce, sem se perguntar por que deliquem, por que roubam ou matam?

Talvez porque seja mais fácil e mais cômodo acusar as vítimas do que apontar as causas sociais. Talvez não se queira admitir, em função de um perverso mecanismo de defesa, que há muita coisa errada na organização desta sociedade, sempre pronta a punir pobres, pretos, homossexuais e prostitutas, do que a aceitar que a desigualdade, o efeito de demonstração da sociedade de consumo e os modelos de exito e reconhecimento social estão errados. Que as políticas públicas não estão produzindo os efeitos desejados e o discursos de políticos, psiquiatras, desembargadores, publicistas e outros em torno da maioridade penal, são muito semelhantes ao dos carracos voluntários, da Alemanha nazista. Sejam claros e direitos e defendam abertamente a faxina social, a limpeza étnica ou o extermínio dos pobres e miseráveis, para ver se dormem em paz durante a noite, sem ouvir os gritos e os apelos dos que sof rem, dos que não têm onde dormir ou o que comer.

Dilma e o PMDB: O domador e o leão, artigo de Carlos Chagas


Por Carlos Chagas
Continuam num duelo de espadas  florentinas, mas sabendo  da impossibilidade de ser vibrado o derradeiro  golpe, já que a um interessa a preservação do outro, e vice-versa. Falamos das atuais relações entre  Dilma e o PMDB. Ela precisa do partido e o partido, dela, caso contrário a reeleição de 2014 pode ir para as profundezas. O problema é que a presidente imagina manter a legenda subserviente a seus interesses, e a legenda procura tirar o máximo da presidente em termos de espaços de poder.   Por isso batem de frente, numa disputa que transcende questões pontuais como a MP dos Portos. Trata-se de uma tertúlia que vem da  eleição de 2010 e permanecerá até  2018, se tiverem sucesso na conquista do segundo mandato para Dilma e para Michel Temer.
                                               Fica evidente que não são para valer as  exigências e as ameaças de parte a parte. O PMDB inseriu Eduardo Cunha na liderança da Câmara, sabendo que ele se constituía numa pedrinha no sapato de Dilma, que de seu turno limita as liberações de verbas para emendas individuais peemedebistas.  É mais ou menos como no circo, onde o domador estala o chicote e o leão ruge, sabendo ambos que toda noite tem espetáculo. No trapézio,  torcendo pelo leão,  o PT gostaria que Dilma liquidasse ou ao menos  se indispusesse   em termos definitivos com seu maior aliado, tornando-se a única base parlamentar do governo que teoricamente é dele, mas na prática está aberto a outros personagens circenses, inclusive os palhaços.
                                               Ouve-se com  insistência que falta um diretor de cena no picadeiro, pois qualquer um que seja testado acaba fracassando, de Ideli Salvatti e Gleise Hoffmann. Mas enquanto o dono do circo permanecer na bilheteria, faturando e  selecionando as próximas cidades para onde se deslocará a troupe, as coisas permanecerão como estão. O diabo é se o Lula resolver que o leão está velho e desdentado, devendo ser substituído por outro bicho...

Seminário Avançado de Museologia Social

    Inscrições: museudohomemdonordeste@fundaj.gov.br

terça-feira, 14 de maio de 2013

Garotinho:PSDB conhece bem o Daniel Dantas

247 - O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) acaba de colocar mais lenha na fogueira da guerra dos portos. O líder do PR subiu à tribuna para questionar a postura do PSDB, que usou suas denúncias, sobre um suposto assédio de lobistas a parlamentares, para obstruir a votação da MP dos Portos. "O PSDB está obstruindo, mas por outras razões", disse ele. "Eu só estive com o empresário Daniel Dantas uma única vez em toda a minha vida, quando ele era dono do consórcio Opportrans, do metrô do Rio de Janeiro", afirmou Garotinho. "Eu não tenho o telefone dele, mas o PSDB tem. Se quiserem saber o que está acontecendo aqui no Congresso, peguem o telefone e liguem para ele, que sabe mais do que a maioria dos parlamentares". 
Como Dantas é um dos sócios da Santos Brasil, que administra o maior terminal de contêineres do Brasil, Garotinho insinuou que o empresário pode estar por trás do assédio a parlamentares. Sua provocação não ficou sem resposta. Citado na fala de Garotinho, o líder do PSDB, Carlos Sampaio (PSDB-SP) também foi à tribuna. "Eu só estive com o senhor Daniel Dantas em CPIs em que decidi investigá-lo", afirmou. "Essa é a relação do PSDB com este empresário". Segundo Sampaio, a "espada da suspeição" hoje paira sobre todos os parlamentares e ele voltou a defender a obstrução.
Fora do Congresso, a disputa dos portos tem sido retratada entre uma disputa entre os grupos que administram concessões nos portos públicos, como o Opportunity, e os que pretendem entrar no setor, como a Odebrecht.

A triste sina da democracia brasileira

LUIZ WERNECK VIANNA* - O Estado de S.Paulo
 

As ruas estão, há tempo, silenciosas e mal têm notícias dos feitos do nosso Estado e das nossas grandes empresas, aqui e lá fora, com seus consultores e suas elites dirigentes imersos em cálculos de macroeconomia e artes afins, empenhados em realizar um projeto de País às nossas costas, no qual só há lugar para as razões instrumentais que nos elevem ao estatuto de grande De fato, para quem é leitor da mídia eletrônica e de alguns notáveis do colunismo econômico da grande imprensa, se vale o que é dito, parece que estamos em meio a mais uma floração do nacionalismo tanto nos rumos atuais da política interna quanto nos da externa, embora não se precisem a sua natureza nem as forças contra as quais se opõe. Nesse vasto material, nas citações abundantes dos colunistas de maior renome, em suas interpretações sobre o estado de coisas no mundo, uma ausência pode ser considerada sintomática, a de Jürgen Habermas, tido - o que ninguém lhe nega - como um dos maiores pensadores contemporâneos.

Faz sentido, Habermas, a seu modo, um herdeiro das tradições libertárias da filosofia clássica alemã, é um cosmopolita e, como tal, refratário à estatolatria, patologia que encontra terreno fértil nos contextos nacionais de capitalismo politicamente orientado, aberto ou encapuzado, como aqui. De outra parte, e em igual medida, é também refratário às concepções sistêmicas que confiam ao mercado o destino das sociedades, na crença de que ele conhece mecanismos de autoajuste. Tudo contado, sua obra monumental se aplica na valorização da política, da democracia como prática de homens dotados de autonomia para agir e pensar livremente, e não à toa ele se voltou, em plena maturidade, para o estudo do Direito e dos direitos, com ênfase especial nos direitos humanos, seara propícia à sua perspectiva universalista.

Nossos maîtres à penser, senhores da língua franca dos economistas - hoje, dominante na comunicação -, na contramão das correntes intelectuais que sondam as possibilidades de evasão dessa gaiola de ferro que construímos para nós mesmos, sem controlar o alcance das nossas micro e macrodecisões, reagem ao cenário da globalização numa aceitação tácita do mundo tal como ele se nos apresenta. Diante dela, o esforço concentra-se na busca de janelas de oportunidade para uma inscrição com grandeza na economia-mundo, sob a pilotagem de peritos nas navegações de longo curso exigidas pelas peripécias do mercado. Nos dias que correm, sob a condução geral da presidente Dilma Rousseff, ela mesma uma economista, falante da língua franca dessa grei, por livre escolha em diálogo permanente com alguns dos seus membros mais eminentes.

Mas, além desses personagens, há outros, no caso, os maiores interessados no sucesso dessa navegação de longo curso, os empresários das grandes empresas, nem sempre inteiramente nacionais, das finanças, das empreiteiras e do agronegócio. Para eles franqueia a cornucópia dos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do financiamento estatal a fim de alavancarem os seus empreendimentos no País e fora dele, como na África e na América do Sul, quando, especialmente estes últimos, são revestidos do manto de aura que os identifica como portadores do interesse nacional, parceiros na política de projeção do poder estatal.

Com essa manobra ideológica, tais personagens são alçados, sob a mediação do Estado, da dimensão da economia para a da política, apresentados como "campeões", heróis-empresários que desbravam o mundo em torno, não na busca de território, como na atuação de um barão do Rio Branco e suas motivações ibéricas, mas como novos bandeirantes que levam à frente o capitalismo brasileiro em nome da representação de presumidos interesses gerais da sociedade.

Nessa roupagem, o nacional é subsumido à lógica da modernização econômica, que, na nova tradução que lhe concede o governo Dilma, passa a ser um processo conduzido condominialmente pelo poder político, pela tecnocracia e pelo grande empresariado, novo ator ativo na tomada de decisões, ao contrário dos surtos modernizantes anteriores, em que o poder político agia monocraticamente. Sob esse estatuto de acento bismarkiano, o nacional se apresenta sem vínculos com a agenda da sociedade civil, que se tem orientado, desde a democratização do País, em torno da agenda de direitos. Nesse registro, quando muito, a sociedade civil é vista como uma beneficiária indireta dos êxitos da acumulação capitalista resultante dos empreendimentos econômicos bem-sucedidos no interior de nossas fronteiras e fora delas.

Trata-se, pois - e isso precisa ser declarado em alto e bom som - de um projeto nacional grão-burguês, que manipulações ideológicas ora em curso pretendem aproximar retoricamente da configuração do ideário nacional-popular.

O ideário nacional-popular começou a tomar forma a partir dos últimos meses do segundo governo Getúlio Vargas, encontrou sua expressão nos últimos anos da democracia de 1946 e foi sustentado por intensa participação popular em favor de mudanças sociais de largo alcance até ser varrido do léxico político brasileiro pelo regime militar. Não há o nacional-popular sem a presença e a voz da sociedade e dos seus setores subalternos.

Dez anos atrás, em seu belo discurso de posse, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, logo depois de evocar - sem o citar - as lições de Gilberto Freire sobre o sincretismo e a mestiçagem como a contribuição original potência mundial, triste sina que, mais uma vez, acomete a democracia brasileira.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cortesia com chapéu alheio, artigo de Michel Zaidan Filho

  

Existe no direito tributário brasileiro, uma longa e profunda controvérsia sobre a tributação do gás e do petróleo pelo estado brasileiro nas refinarias. Isto porque, segundo os especialistas, o cálculo de base para essa imposição tributária é feita numa especulação sobre a quantidade de gasolina e gás que os potenciais consumidores (que são os verdadeiros contribuintes, mal chamados de "contribuintes indiretos") compraram dos postos e locais de abastecimento do combustível. Com base nisso, alguns estados da federação brasileira, incluindo-se aí o de Pernambuco, entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal para receber a diferença do pagamento tributário, caso o quantum efetivamente pago seja menor do que o especulado. Não se cogitou, na ação, da devolução da diferença aos contribuintes finais. Dos itens da carga tributária do ICMS, o maior incremento é dos combustíveis, o das telecomunicações e o da energia elétrica. Qualquer redução nesse departamento tem um efeito sensível no bolso dos consumidores. Ninguém gosta de pagar impostos. Sobretudo, impostos indiretos, que são os repassados pelas empresas aos consumidores. Dai o nome "imposição tributária". O nome é antipático, e a coisa ainda pior. O ICMS é o principal imposto da federação brasileira, que resiste a qualquer tentativa de federalização. Pois os estados temem em perder receitas para a União.
Pior, no entanto, é os serviços que não temos em contrapartida da carga tributária (37% do PIB), e a renúncia unilateral de impostos pelo agente público responsável pela arrecadação como cortesia eleitoral, em época de campanha eleitoral. E isso vale para as diversas esferas de governo. Se fosse sincera a preocupação com a carga tributária sobre os combustíveis, os estados se preocupariam em devolver à população a diferença entre o valor arbitrado na cobrança do imposto nas refinarias e a efetiva venda nos postos de gasolina e gás. Infelizmente, se trata apenas de um gesto, uma manobra, um faz de conta para agradar consumidores incautos e confiscados, que não estão inteirados dos meandros da política fiscal e tributária brasileira. Bastaria a pergunta: qual é o fato gerador da imposição tributária que justifique a cobrança e o valor arbitrário do imposto sobre os combustíveis nas refinarias? - Ora, o fato gerador se dá no consumo do combustível nos postos, mas não por um valor arbitrado hipoteticamente, mas pelo consumo real de gasolina e gás por cada consumidor individual.
Entretanto, aqueles que arrecadam o tributo não estão preocupados com a desoneração efetiva dessa injusta imposição tributária. Estão preocupados em fazer caixa com o dinheiro do consumidor e em fazer gestos populistas e demagógicos com o chapéu alheio. Por que não se aplicam na reforma do sistema tributário, para combater a sua regressividade? A obediência ao comando constitucional da capacidade contributiva e ao princípio da equidade. outra questão importante: onde foram parar os efeitos extra e parafiscais das taxas e contribuições arrecadadas pela União?
Por que os serviços públicos - juridicamente tutelados pelo Estado - estão em péssimas condições ou estão sendo terceirizados para fundações e Oscips? Afinal de contas, qual é a destinação prioritária da receita tributário do Estado brasileiro? - Pagar os 14% de juros sobre a dívida mobiliária da União (todo mês, 20 bilhões de reais)?
Há alguma coisa de errado sobre essas campanhas periódicas de isenção, diminuição ou renúncia fiscal, mesmo quando bem intencionadas. Elas deseducam a sociedade, desviam a atenção do que é essencial e concentram geometricamente renda nos bolsos de quem já tem muito dinheiro. Mas tem o efeito colateral de produzir na cabeça do contribuinte incauto uma descarga psicológica de alívio. Coitado!
Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Cuidados que os quatro precisam tomar, artigo de Carlos Chagas.

Por Carlos Chagas

Por enquanto, nessa precipitada antecipação da campanha sucessória, quatro candidatos lançam-se na disputa: Dilma Rousseff, Aécio Neves, Marina Silva e Eduardo Campos. O número pode aumentar, se Joaquim Barbosa aceitar o desafio.  Vale, enquanto é tempo, alinhar um elenco  de cuidados que precisam  tomar, entre outros, se pretendem sustentar suas pretensões:“Ver a floresta e não as árvores.
Evitar a pregação das desvantagens do socialismo esquecendo suas vantagens e, ao mesmo tempo, os inconvenientes do capitalismo sem seus benefícios.
Dirigismo sem direção não leva a lugar algum.
Longas omissões superam súbitas conversões.
Ouvir apenas o coro das louvações é fatal.
Não saber misturar os temperos na panela não impede verificar  se a comida está ou não bem temperada, assim como não é necessário ser cozinheiro para apreciar uma boa refeição.
Impedir que oscile o pêndulo da paixão política.
Abandonar  a inocuidade do grito que pretende assustar alguns e comprometer  outros.
Os cemitérios estão cheios de insubstituíveis.
Melhor enfrentar do que contornar.
Perceber que a  roda da fortuna é  caprichosa.”
Faz quase cinqüenta anos que esses e  outros avisos   para quantos pretendem lançar-se na disputa presidencial foram alinhados por um  candidato, numa série de cartas que escreveu a quem pretendia e  conseguiu obstar-lhe o caminho até a presidência da República. Ironicamente, era o  melhor dos candidatos, quando cotejado com os concorrentes daquele momento. Talvez pelo brilho de sua personalidade,  criou muito mais adversários e desafetos do que conquistou aliados, vendo frustrado seu sonho de governar o país.
Falamos de  Carlos Lacerda, que nos idos de 1965 buscava disputar uma eleição que, conforme vaticinou Hélio Fernandes, não  ia acontecer. Suas cartas, muitas, eram dirigidas ao primeiro general-presidente, por sinal marechal, Castello Branco. A leitura atenta de todas revela a obstinação do signatário em sustentar uma  candidatura que começava a ser  vetada pelos chefes militares.  No final, chegaram  ao rompimento e até ao destempero, sendo Carlos Lacerda atropelado pela própria resistência  diante da política econômica do primeiro governo dito revolucionário, comandada por Roberto Campos.
Estes comentários devem-se à continuação de um trabalho que venho desenvolvendo há décadas, a respeito da História do Brasil contada por jornais e  jornalistas. Dois volumes já foram publicados pela Editora Record, no ano Dois Mil, sob o título geral de “O Brasil Sem Retoque”, abrangendo o período de 1808 a 1964. Encontram-se quase terminados mais dois, referentes aos 21 anos do regime militar. A sacrificada e obviamente incompleta pesquisa  tem-me levado a lembranças  e a descobertas singulares. De quando em quando não resisto à  tentação de adiantar nesta coluna  detalhes e  coincidências que reafirmam  a  mesma conclusão  milenar de nada de novo acontecer  sob o sol. Se quiserem, também,  de que o passado é o nosso maior tesouro, não porque nos dirá o que fazer, mas precisamente pelo contrário: sempre mostrará o que evitar...

domingo, 12 de maio de 2013

Cid Gomes afirma que permanecerá no PSB e apoirá o projeto de reeleição de Dilma Rousseff






Já comentamos aqui que o governador Eduardo Campos teria um "triângulo das bermudas" de dificuldades para serem ultrapassadas se deseja ser um nome viável como candidato presidencial nas eleições de 2014. Lula recomendou que ele refletisse melhor sobre o tema. O cacique petista tem lá suas razões. O governador do Ceará, Cid Gomes, que vivia numa saia justíssima - dividido entre o Planalto e o Campo das Princesas - num diálogo franco, teria dito ao morubixaba socialista o seguinte: permanece no PSB e apóia o projeto de reeleição de Dilma Rousseff. Ponto final. O que os dirigente socialistas fariam numa situação como essa? Expulssariam os Ferreiras Gomes da agremiação ou teriam que conviver com uma dissidência aberta nas hostes socialistas? A tese da dificuldade de reeleição dos governadores socialistas vem ganhando corpo no PSB nos últimos dias. Os mais otimistas dizem que o repentino silêncio de Eduardo Campos teria algo a ver com isso. Não acreditamos.

Charge!Paixão! Gazeta do Povo!

Paixão

Charge!Aroeira! Folha de São Paulo

Brava gente, a brasileira, artigo de Elio Gaspari

Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual "a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta". Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.
A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: Em uma década, o programa Bolsa Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais. Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que de cada 100 famílias amparadas, 12 foram à prefeitura e informaram que não precisavam mais do dinheiro.
A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia. Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimulará o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimulará a inadimplência.
Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde estima-se que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do produto interno.
A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: Um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que num universo de 168 mil alunos que concluíram treze cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas. Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6 e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.
Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque dava-se de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos. Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6 e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.
As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a abolição da escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Admita-se que a frase atribuída a San Tiago Diante é apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: "Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas".
Maus ventos
O comissariado petista conformou-se com a possibilidade de atravessar a campanha eleitoral de 2014 com mais um pibinho.
Nosso Guia
Em março passado, a doutora Dilma tomou um chá de cadeira de mais de uma hora em Durban, quando o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, deixou-a esperando porque continuava reunido com o presidente russo Vladimir Putin. Com toda a razão, Dilma deixou a sala onde estava, no andar de cima, e voltou ao seu hotel.
Na quinta-feira, em Brasília, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deu-lhe outro chá de cadeira. Ela esperou por 1h40min pelo visitante, que estava reunido com Lula na embaixada da Venezuela.
Desta vez, a doutora esperou. Novamente, fez bem, pois era a dona da casa.
Nosso Guia não deveria submeter os outros a esse tipo de demonstração de poder.

Lula teria "enquadrado" Eduardo Campos?


Que nos perdoem os eduardistas, mas parece não restar nenhum dúvida de que ele anda tirando o pé do acelerador. Evitou exposições públicas nas festividades organizadas pela Força Sindical, por ocasião do 1º de Maio, não compareceu à Expozebu, em Uberaba, Minas Gerais, reduto de um dos concorrentes ao Palácio do Planalto. Inaugurou e inspecionou uma série de obras no interior do Estado e, como se não bastasse, agora faz elogios rasgados ao ex-presidente Lula, além de ter silenciado sobre uma virtual candidatura à Presidência da República, advertindo que não é o momento nem oportuno antecipar o debate. Formalmente mantém a independência e o direito do seu partido, o PSB, decidir sobre uma eventual candidatura, mas a ênfase é apenas uma figura de retórica. Se, de fato, como afirma a jornalista Tereza Cruvinel, Eduardo teria recebido uma mensagem de Lula, daríamos tudo para fazer uma análise de discurso desse documento, capaz de esfriar o ânimo do "Moleque" dos Jardins da Fundação Joaquim Nabuco.

O fator Lóssio nas eleições de 2014



Hoje só se fala no fator Lóssio, mas foi o nosso blog quem primeiro chamou atenção para a sua projeção política, principalmente depois das duas derrotas infringidas ao Palácio do Campo das Princesas. Cidade do chamado "Triângulo das Bermudas", Petrolina exerce uma influência política importante no Estado de Pernambuco. A oligarquia Coelho, apesar de cindida ao meio, continua exercendo seu poderio - guardada as devidas proporcões - desde a época do coronel Quelé. Petrolina irradia sua influência para além da microrregião do Sertão do São Francisco. Lóssio - que já afirmou que se Fernando Bezerra Coelho entrar no PMDB ele sai pela outra porta - é aliado de uma ala dos Coelhos.O prefeito vem fazendo uma gestão muito bem avaliada no município, inclusive com projetos estruturadores na área de educação. Prestigiado pela cúpula da legenda do PMDB em Brasília - caso de Raupp e Temer - ele está motivado para entrar no jogo. Da "turma do cozido", sua principal liderança, Jarbas Vasconcelos, pelas últimas declarações, apesar de fechado com a candidatura de Eduardo Campos, sinaliza que estaria susceptível à possibilidade de uma candidatura própria do PMDB, como deseja a Direção Nacional da legenda. Vamos aguardar os próximos lances desse jogo, mas Lóssio tornou-se uma jogada possível no tabuleiro da política pernambucana.

sábado, 11 de maio de 2013

Flagrante Tumblr!!!



Garoa sobre Garanhuns, Agreste Meridional de Pernambuco.

Roberto Damatta: Fracasso & sucesso

Fracasso & sucesso

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo

Vencer ou perder, governar ou desgovernar, poupar ou gastar, trabalhar ou dormir, honrar os cargos ou vilipendiá-los, enfim: ser ou não ser seriam - como variantes possíveis de fracasso e sucesso - as duas faces de uma mesma moeda?
No Brasil, sucesso e fracasso têm se constituído em moedas diferentes. A do sucesso pertence ao nosso grupo ou partido; a dos outros é a do fracasso. Ou, dito de modo mais familiar, a moeda do sucesso é a do governo (que tudo gasta de modo irresponsável); a do povo, porém, está sempre em falta. Ou, pior que isso, inexiste. Porque como diz a fórmula malandra: não há verbas para o nosso projeto de poder.
E qual é o projeto de poder dos governos? É melhorar o trânsito e liquidar gargalos em setores críticos? Não! O projeto do governo, como revelam os noticiários e as tentativas de inventar fracassos com uma crise entre poderes, é permanecer no poder.
Essa é a lei de ferro que faz com que, no Brasil, os elos entre sucesso e fracasso permaneçam sem reflexão, como se um lado nada tivesse com o outro quando, no fundo, há um laço íntimo entre o ir pra frente e o seguir decididamente para trás.
Como ironiza Joseph Heller na figura do Coronel Cargill, um personagem intrigante do livro Ardil 22. Cargill, um ex-marqueteiro, agia como um político - ele era especialista em fracasso. Ele sabia - por isso ele merece reflexão - que o fracasso é tão difícil quanto o sucesso!
O fracasso do Brasil não é exclusivo nem obtido de graça. Tal como o nosso sucesso, ele não é tampouco espontâneo. Tem sido planificado por gerações de imperadores e barões e com a plêiade do que hoje - com a abolição da escravatura e a proclamação da República - chamamos de secretários, ministros, aspones, diretores, parlamentares e presidentes. Esse "poder público" que continuamos a tratar com um misto de sacralidade, respeito, hipocrisia e extremada covardia, o qual é uma esfera em pleno processo de encontro com a sociedade que ele controla, comanda e, no meu humilde entender, explora brutalmente.
Exagero? Sem dúvida. Mas impressiona ao jovem antropólogo dentro do velho professor, cronista, avô, péssimo escritor e eventual cantor ridículo de canções fora de moda, perceber com nitidez fotográfica, como o "poder público" está em toda parte e em todo lugar, deve quase sempre tudo à sociedade mas sempre erra e fracassa redonda e irritantemente onde se mete. Nós, o povo (ou, para sermos mais precisos, a sociedade) não podemos fracassar e, num certo sentido, continuamos invisíveis e anônimos. Mas os sócios do tal "poder público", são as celebridades inimputáveis que embora tenham tudo, saibam tudo e controlem tudo, não são - nem nas crises e denúncias - responsáveis por coisa alguma. A nós, pobres anônimos sem poder, cabe existir como "povinho carente" e sem rosto mas somente para os demagogos. E, de quebra, somos responsáveis pelo fracasso do Brasil.
Ainda estamos longe de conceber, saindo da velha e grossa casca escravista, que o "povo" é o conjunto de cidadãos que concede autoridade administrativa a uns poucos que, por sua vez, recusam (a não ser em casos extremos) a colocar suas caras a tapa. Ou seja: a assumir com todas as letras o que fazem para seus Estados, cidades ou país.
De um lado, há os grande atores; e, do outro, os chamados "merdas". Todos nós, leitores, que pagamos impostos e que, ao contrário dos nossos gerentes, não podemos errar debaixo das penas da lei. Conheci, graças a Deus, de longe, poderosos que se pensavam imortais e só viraram povo quando sofreram perdas, quando enfrentaram a doença ou quando descobriram com horror que eram mortais, embora o cargo que ocupavam não fosse.
Sucesso e fracasso, atraso e progresso ainda se dividem de modo crasso e reacionário no Brasil. O povo é ignorante e atrasado, o Estado - porém - é sábio e avançado. Ele entende tanto de sociologia que, quando decide mudar um costume estabelecido, inventa uma lei! O problema é que como as coisas estão interligadas, logo ele próprio é vítima das leis que promulga. Entre as autoridades e a sociedade, há um fato curioso e absurdo: até hoje, quem se investe como parte do "poder público" esquece imediatamente depois da "posse" que ele (ou ela) faz parte da sociedade e que esse tal de "poder público" deve algo a essa mesma sociedade e não o contrário. Eis um fato notável do poder à brasileira.
Um outro fato diz respeito ao seguinte: a força da autoridade é sempre aplicada com mais consistência contra o "outro" como agora testemunhamos nessa briga irresponsável de incêndio entre o Congresso e o Supremo. Um conflito sintomático do desejo óbvio de vingança por parte de parlamentares que foram condenados e que, cedo ou tarde, a prevalecer algum senso de justiça, devem pagar o que devem à lei e ao povo. Esse povão sem rosto feito de vozes desarticuladas mas que hoje falam muito e batem num ponto básico: como ter autoridade sem cara? Como ter cidades onde vivemos e morremos sem um dono - um responsável a quem a população concedeu pelo voto um tempo para gerenciá-las com decência? Não se pode culpar costumes por ausência de trabalho administrativo público decente, responsável e eficiente. Se há erro, mudemos a "cultura".
No fundo, trata-se de tirar os caras dos palácios e colocá-los na rua, ao nosso lado. Penando em inomináveis engarrafamentos e filas de hospitais e escolas. Como dizia meu velho amigo Richard Moneygrand, o brasilianista mais brasileiro que conheci: "DaMatta, o problema de vocês é o palácio. Vocês lutam pela democracia, elegem os caras e depois os colocam em palácios. E aí, meu caro, vocês voltam às velhas deferências - mas com o dinheiro do povo".


Charge!Amarildo!Carga Perigosa

Caminhao do leite Contaminado Icones carga perIgosa

Campos volta e diz que não quer "antecipar debate".

247 – Após semanas de reclusão do cenário político nacional, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, voltou a falar com jornalistas neste sábado 11, durante evento em Goiânia (GO). Seu discurso, porém, foi na defensiva. Campos voltou a dizer que ainda é cedo para discutir as eleições presidenciais e que teremos muito tempo para isso em 2014. O presidente do PSB é possível candidato contra a presidente Dilma Rousseff no ano que vem.
"Não é um ano de eleitoralizar o debate, antecipar o debate sucessório de 2014. Vamos ter muito tempo para isso em 2014. O PSB vai tomar a decisão que cabe ao PSB tomar com companheiros do PSB participando, escutando a base do partido no Brasil inteiro, no tempo certo que é 2014, como sempre fizemos", declarou Campos, que reafirmou seu compromisso com o governo federal, negando qualquer ruptura com Dilma.
No evento de Goiânia, o governador pernambucano também voltou a dizer que o PSB não é "satélite de nenhum partido" e que sua legenda não tem "relação de submissão" com ninguém. "Nós temos opinião própria sobre a vida brasileira. Nós somos um partido, não somos um satélite de nenhum partido. Nós temos massa crítica, temos história, temos um pensamento, preocupações com o Brasil, não temos relação de submissão com ninguém".
Seu sumiço abrupto do cenário nacional, sem mais participações em grandes eventos nem discursos com críticas à gestão de Dilma Rousseff, deu vazão a interpretações de que ele desistiria de sua candidatura à presidência. Até o ex-presidente Lula começou a trabalhar com essa hipótese (leia mais em Lula trabalha com desistência de Campos). Sobre isso, porém, Campos não quis falar: "Não comento teria dito".

(Jornal Brasil 247)

Por que, afinal, Eduardo Campos recuou?



A notícia saiu na coluna da jornalista Tereza Cruvinel e se esepalhou como um vírus, ganhando repercussão na crônica política da semana: o surpreendente recuo do governador Eduardo Campos, que passou a ocupar-se da agenda estadual, minimizando suas exposições como virtual candidato à Presidência da República. Há várias hipóteses em jogo, uma delas, confirmada pela jornalista, dando conta que o recuo seria em consequência de uma mensagem enviada ao governador pelo ex-presidente Lula. Nesta mensagem, cheia de entrelinhas, Lula teria pedido que Eduardo refletisse mais sobre uma eventual candidatura. Logo se concluiu que, numa eventual dificuldade de Dilma, Lula poderia entrar em campo, motivo mais do que suficiente para um recuo de Eduardo. Recentemente, Lula teve um encontro reservado com Dilma Rousseff. Curiosamente, saiu afirmando não acreditar numa candidatura do governador Eduardo Campos, reproduzindo o mantra petista da inviabilidade de sua postulação em 2014. Há outras hipóteses em jogo, como uma recomendação dos seus assessores no sentido de evitar a "saturação' de tanta exposição pública. Responder ao que resta da oposição em Pernambuco - que estaria criticando bastante sua ausência na província, também está entre as hipóteses aventadas. Façam suas apostas.

Adriano Diego, sobre Ustra: " Ele tirou o capuz e falou: Acabei de mandar Minhoca para a Vanguarda Popular Celestial"


publicado em 10 de maio de 2013 às 23:58
por Luiz Carlos Azenha

O agora deputado estadual Adriano Diogo era estudante de Geologia da Universidade de São Paulo quando foi preso pela Operação Bandeirante em 23 de março de 1973.
Estávamos na ditadura militar, no governo do general Garrastazu Médici. Na rua Tutóia, em São Paulo, sede da OBAN/Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), reinava o major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Dias antes da prisão de Diogo, o estudante de Geologia da USP Alexandre Vannuchi Leme, de 22 anos de idade, tinha sido levado ao centro de torturas.
Do livro Direito à Memória e à Verdade, escrito pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos:
“O universitário Alexandre Vannucchi Leme, conhecido como Minhoca, foi enterrado sem caixão em uma cova rasa do cemitério de Perus, forrada com cal para acelerar o processo de decomposição e encobrir as marcas de tortura que motivaram sua morte. As versões contraditórias de suicídio com lâmina de barbear, apresentada pelos agentes do DOI-CODI aos outros presos políticos, e a de atropelamento durante fuga, divulgada publicamente, foram desmascaradas. Um grupo de nove presos políticos testemunhou na própria Justiça Militar as torturas a que foi submetido o estudante, nos dias 16 e 17/03/73, por uma turma de pelo menos 13 agentes daquele órgão”.
Segundo Adriano Diogo, quem supervisionava tudo era Ustra. Revoltado contra os protestos de estudantes da USP, que ajudaram a organizar uma missa de sétimo dia para o colega Vannucchi Leme, rezada pelo cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns — um dos principais adversários da ditadura, então — Ustra mandou prender outros 40 estudantes da universidade, dentre os quais o hoje deputado estadual do PT paulista, que era colega de classe de Alexandre.
Diogo diz que encontrou Ustra muito nervoso: “Tirou o capuz e falou: Acabei de mandar o Minhoca para a Vanguarda Popular Celestial. Você vai ser o próximo”. Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) era o nome de um dos grupos da resistência (Vannucchi era ligado à ALN, Ação Libertadora Nacional).
“Ele é um assassino confesso, ele é um dos maiores verdugos da História do Brasil”, diz o deputado que preside a Comissão da Verdade Rubens Paiva na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Ivan Seixas, ex-preso político, também torturado pessoalmente por Ustra, confirma que encontrou Adriano Diogo em condições deploráveis na OBAN.
O próprio Diogo diz que deu entrada às duas da tarde na chamada cela forte e foi torturado na cadeira de dragão até as quatro da manhã do dia seguinte.
Amarrado, recebeu choques elétricos em todo o corpo.
Ao depor ontem na Comissão Nacional da Verdade, em Brasília, o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra disse que combateu o terrorismo, que evitou a instalação do comunismo no Brasil e citou quatro grupos dos quais teria participado a hoje presidente Dilma Rousseff. Ustra foi confrontado pelo vereador paulistano Gilberto Natalini, do PV, outra de suas vítimas.
– Eu não faço acareação com terrorista.
O presidente da Comissão da Verdade [da Câmara Municipal] de São Paulo, que estava na plateia, prontamente se levantou, apontou o dedo para Ustra e gritou:
– Eu não sou terrorista. Terrorista é você!
No vídeo acima, Adriano Diogo dá detalhes da tortura a que foi submetido e fala sobre o papel de Ustra. O vídeo termina de forma abrupta quando o deputado listava as mortes que aconteceram enquanto estava preso e que podem ser diretamente atribuídas a Ustra: teriam sido pelo menos cinco apenas naquele período, incluindo a de Alexandre Vannuchi Leme.
Na entrevista, Adriano Diogo lamenta apenas que a convocação de Ustra não tenha sido precedida de um levantamento completo de todas as ações criminosas que podem ser atribuídas a ele.
A OBAN, que formalmente antecedeu o DOI-CODI, foi financiada e apoiada por empresários brasileiros e aglutinou órgãos de repressão de diversas esferas, que aplicaram técnicas de tortura difundidas pelos Estados Unidos para defender a ditadura militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart em 1964.
Leia também:

Dora Kramer: Sem folga na direção.

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Volta e meia sai uma pesquisa registrando índices de popularidade inéditos para a presidente Dilma Rousseff, em geral seguida de outra informando que, "se a eleição fosse hoje", ela estaria reeleita. No primeiro turno.
A mais recente, encomendada pelo PSDB, coincide com os dados divulgados pelo Ibope em março: Dilma tem 53% das intenções de voto. Isso em cenário de múltiplas candidaturas adversárias. Segundo o Ibope, a presidente teria 58% enfrentando três oponentes e 60% se os desafiantes forem apenas dois, Marina Silva e Aécio Neves.
Visto assim do alto, o quadro é extremamente favorável à presidente. Ainda mais se considerados dados do Ibope sobre as intenções de voto de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva em 1998 e 2006, anos das respectivas reeleições.
FH tinha 25% na pesquisa espontânea e Lula, 27%. Nesse tipo de consulta em que não é apresentada ao pesquisado uma lista de nomes, Dilma apareceu com 35% em março último.
Mas há diferenças significativas. A antecedência da consulta, por exemplo. O índice de Lula foi medido seis meses antes da eleição, o de Fernando Henrique, três meses e o de Dilma, um ano e meio antes.
Na época, Lula estava às voltas com o escândalo do mensalão. FH enfrentava turbulências sérias na economia e na política, pois perdera a majestade com o esforço para aprovar a emenda da reeleição no ano anterior e sua base de sustentação no Congresso dava sinais graves de desgaste que viria a se consolidar depois no afastamento do então PFL (hoje DEM) e na dispersão do PMDB.
Ainda assim foram reeleitos. O tucano em primeiro turno com 53,06% dos votos e o petista no segundo, com 60,83%. Ponto a favor de Dilma? Não necessariamente.
A presidente em tese vive circunstâncias mais vantajosas: não tem oposição forte como tinha o tucano, não está na administração de um escândalo das proporções do mensalão, vive em campanha eleitoral aberta no pleno uso da máquina estatal, em suma: joga sozinha e com as "brancas".
Nessas condições, 53% de intenções de voto não é grande coisa: o jogo ainda não começou para valer, a economia patina, as insatisfações se explicitam nos setores mais diretamente interessados (empresariado e políticos) e a imagem de grande gestora e governante austera vai batendo de frente com a realidade de resultados parcos e fisiologismo deslavado.
Se o cenário não sinaliza perda do favoritismo, tampouco desenha vitória no primeiro turno.
Ética temporã. A Comissão de Ética Pública da Presidência da República vai examinar o caso do acúmulo de funções do ministro da Micro e Pequena Empresa, o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, no próximo dia 20.
Duas semanas depois de oficializada a escolha. O natural seria que a questão tivesse sido analisada (e resolvida) antes da nomeação e não depois da enxurrada de questionamentos.
Para lembrar dois exemplos em que isso foi feito a tempo e a hora em governo do PT. Gilberto Gil só aceitou o ministério da Cultura mediante sinal verde da Comissão de Ética em relação às suas atividades artísticas. Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, passou a administração de seus bens para uma instituição financeira e se desfez das cotas de seu escritório de advocacia, em operação aprovada previamente pela Comissão.
A propósito: a presidente disse ontem que Afif é a pessoa certa no lugar certo. Pode até ser, mas do jeito errado.

Fotografia: O último abraço, a última lágrima.






por Antonio Carlos Prado e Thaís Botelho
Chama-se Taslima Akhter o autor desta foto feita em Blangladesh na madrugada de 25 de abril, 18 horas após o desabamento de um prédio que causou a morte de aproximadamente 1.050 pessoas – o edifício abrigava sobretudo confecções. A imagem do casal que se abraçou para morrer tornou-se, na semana passada, o símbolo da luta dos trabalhadores da indústria têxtil de Bangladesh contra as precárias e inseguras condições de trabalho. “Sangue saía dos olhos do homem como lágrimas”, diz Akhter. “É como se esse homem e essa mulher me alertassem de que eles não eram vidas baratas, mas seres humanos.” A foto integra um ensaio da revista “Time”. Na sexta-feira 10, o mundo ganhou uma alegria: milagrosamente, após 16 dias soterrada, uma mulher foi resgatada com vida.
(Matéria publicada na revista IstoÉ).