pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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terça-feira, 27 de maio de 2014

Ronaldo: o com vergonha e o sem vergonha

Há quem diga que o sincericídio de Ronaldo tem a ver com o fato de que, no mesmo dia, declarou apoio à candidatura de Aécio Neves.



Antonio Lassance (*)
Arquivo

Ronaldo foi um fenômeno do futebol e é, até hoje, um fenômeno na arte de ganhar dinheiro. É difícil atravessar um intervalo comercial sem ver sua cara e ouvir sua voz vendendo alguma coisa.


Desde que se aposentou dos gramados, sua fortuna cresce alimentada por sua boca. Cada frase de Ronaldo vale ouro e é ensaiada para render dividendos para algum patrocinador.


Por isso, não custa nada perguntar o que Ronaldo ganha com sua declaração de que está envergonhado com os preparativos da Copa.


A pergunta precisa ser feita, pois a declaração acabrunhada é estranha. Vem não só de alguém que, até então, era só elogios e otimismo. Vem de quem é do Conselho de Administração do Comitê Organizador Local da Copa.


Faltando poucos dias para o início da competição, o que devemos achar de quem resolve, simplesmente, lavar as mãos e fingir que não tem nada a ver com a coisa?


A vergonha de Ronaldo tem o efeito bumerangue sobre sua própria imagem, pois mostra alguém que, como se diz no jargão do futebol, "pipocou", fugiu da bola dividida. Alguém que deveria ter usado seu prestígio, desde o início, para ser parte da solução, preferiu tirar o corpo fora e ser parte do problema.


Como organizador, Ronaldo poderia ter dedicado seu tempo a ajudar a que algumas coisas ganhassem mais atenção. Preferiu gastá-lo gravando anúncios publicitários.


Enquanto era tempo, poderia ter pedido mais empenho e rapidez nas obras, tanto as dos estádios quanto as de mobilidade - por que não? 


Poderia ter pedido paz às torcidas e aos manifestantes. Preferiu posar com um terno dourado no Carnaval e, depois, envergonhar-se.


Os preparativos para a Copa já estiveram por um triz, em vários momentos e sob vários aspectos. Ronaldo poderia ter dito, com muita antecedência, por exemplo, que se sentia envergonhado com o abandono a que a Arena da Baixada foi submetida pelo governador do Paraná e pelo prefeito de Curitiba.


De todas, foi a situação mais absurda e que quase comprometeu uma cidade como sede. Ronaldo nunca esteve entre os que correram atrás para cobrar providências, e nem para se mostrar envergonhado. Nenhuma declaraçãozinha.


Também não expressou qualquer sentimento, indignado ou envergonhado, quando da morte do torcedor atingido por uma latrina, no estádio Recife, em uma briga de torcida.


Nada disso. Ronaldo esperou os estádios serem construídos e entregues, os ingressos serem vendidos, as seleções serem convocadas; esperou ter feito todas as propagandas possíveis e imagináveis que poderia para esta Copa. Só então se fez de envergonhado.


Há quem diga que o sincericídio de Ronaldo tem a ver com o fato de que, no mesmo dia, declarou apoio à candidatura de Aécio Neves.


Difícil acreditar que ele, que hoje vive de emprestar sua imagem a vender produtos, esteja entrando nessa, ao lado de Aécio, por pura convicção, e não como garoto propaganda.


Sua vergonha não transpira nada de autêntica. Parece ensaiada e feita sob medida para um comercial, como aqueles com textos decorados e de péssima interpretação, em que o "Fenômeno" vende carros da Fiat, chuteiras da Nike e planos de telefonia da Claro.


Ronaldo, com vergonha ou sem vergonha, é a mesma pessoa. É aquele que vemos todos os dias na tevê e nos outdoors.


Já faz tempo que esse é o mundo do "Fenômeno". Não tem mais nada a ver com  futebol, nem com indignação, nem com um pingo de vergonha.


(*) Antonio Lassance é cientista político.

Documentário: "O complexo de Vira-latas" apresenta visão dos inimigos do Brasil.

Documentário “O Complexo de Vira-latas” apresenta visão dos inimigos do Brasil

publicada terça-feira, 27/05/2014 às 11:54 e atualizada terça-feira, 27/05/2014 às 11:57
Por Eliézer Giazzi, jornalista e um dos criadores do blog Candeia
Com os dias contados para o início da Copa do Mundo no Brasil, a presidente Dilma Rousseff rebateu as críticas do ex-jogador Ronaldo sobre os atrasos na entrega dos estádios prometidos e ao possível vexame em relação aos outros países na organização do evento.
A presidente reafirmou que o país está bem preparado para receber a todos e que os brasileiros não devem ter “complexo de vira-latas”. Mas o que você entende sobre o termo criado por Nelson Rodrigues nos anos 50 e tão repetido nos últimos dias? Seguindo a publicação anterior sobre o assunto, o Candeia apresenta um esclarecedor documentário com a participação de especialistas que fará com que você reflita sobre o tema. Afinal, por que tudo tem que ser feito para mostrar para os outros e não exclusivamente para o prestígio do nosso próprio povo?
O documentário “Complexo de Vira-latas” é uma produção de Cabrueira Filmes e Sem Cortes. Direção de Leandro Caproni; participação de Bruno Aranha, Bruno Silveira, Diego Silva, Nathália Bomfim, Priscila Chibante e Wallace Soares

(Publicado originalmente no site O Escrevinhador)

Perry Anderson: Para quem acha que o Brasil tem o monopólio da corrupção.

publicado em 26 de maio de 2014 às 23:48


Corrupção branca de olhos azuis? Imagina…
Da Redação
O artigo abaixo, que reproduzimos parcialmente graças à tradução de Heloisa Villela, não trata de justificar a corrupção no Brasil. Demonstra, apenas, que a corrupção está intimamente ligada a um modelo de democracia, que cabe reformar com mais democracia, aquela que efetivamente esteja subordinada ao controle popular. O objetivo do artigo foi demonstrar que, contrariamente ao que diz a opinião pública fora da Itália, a corrupção italiana não é excepcional, mas mediana para os padrões europeus. Ou seja, nada de culpar os mediterrâneos, como se fossem corruptos em relação aos nórdicos. No nosso caso, trata-se acima de tudo de um alerta aos simplistas, que acham que a democracia dos outros, “europeia”, está livre dos problemas que enfrentamos aqui simplesmente por ser “europeia”. Viralatas, acordem!
O Desastre Italiano
Perry Anderson, no London Review of Books
A Europa está doente. A gravidade e o motivo da doença são temas nem sempre fáceis de julgar. Mas entre os sintomas, três são conspícuos e se relacionam. O primeiro, e mais conhecido, é a flutuação degenerativa da democracia através do continente, da qual a estrutura da União Europeia (UE) é ao mesmo tempo causa e consequência.
A casta oligarca e seus arranjos constitucionais, concebida inicialmente como andaime provisório para uma soberania popular de escala supranacional que viria depois, se enrijeceu ao longo do tempo.
Os referendos são derrubados regularmente se contrariam a vontade dos governantes.
Eleitores cujas visões são desprezadas pelas elites ignoram as assembleias que em tese os representam; com isso, o comparecimento às urnas diminui sucessivamente a cada eleição.
Burocratas que nunca foram eleitos policiam os orçamentos de parlamentos nacionais desprovidos até mesmo do poder de gastar.
Isso reflete, assim como aprofunda, tendências de longo prazo dentro. A nível nacional, virtualmente em toda parte, executivos domesticam ou manipulam legisladores com muita facilidade; partidos perdem membros; eleitores deixam de acreditar que eles contam, enquanto as opções políticas se estreitam e promessas de mudança nas plataformas políticas desaparecem quando chegam ao poder.
Com essa involução generalizada veio também uma corrupção dominante da classe política, tópico sobre o qual a ciência política, eloquente o suficiente a respeito do que, na linguagem dos contadores, é chamado de déficit democrático da União, tipicamente se cala.
As formas dessa corrupção ainda não encontraram uma taxonomia sistemática.
Existe a corrupção pré-eleitoral: o financiamento de pessoas ou partidos por fontes ilegais – ou algumas legais – mediante promessa, explícita ou tácita, de favores futuros.
Existe a corrupção pós-eleitoral: o uso do cargo para obter dinheiro com a malversação das receitas, ou propinas em contratos.
Existe a compra de vozes ou votos no legislativo.
Existe o roubo direto do bolso público.
Existe a falsificação de credenciais para ganho político.
Existe o enriquecimento através do cargo público depois do evento, como também durante ele.
O panorama desta malavita é comovente. Um afresco dele poderia começar com Helmut Kohl, governante da Alemanha por 16 anos, que amealhou cerca de dois milhões de marcos alemães em fundos lamacentos de doadores ilegais cujos nomes, quando ele foi exposto, se recusou a revelar, com medo de que os favores que eles receberam fossem revelados.
Atravessando o Reno, Jacques Chirac, presidente da República Francesa por 12 anos, foi condenado por desfalcar fundos públicos, abuso do cargo e conflito de interesse, quando sua imunidade terminou.
Nenhum dos dois sofreu qualquer penalidade. Esses eram os políticos mais poderosos de seus tempos na Europa. Uma olhada na cena desde então é suficiente para afastar qualquer ilusão de que eles foram fora do comum.
Na Alemanha, o governo de Gerhard Schröder garantiu um empréstimo de um bilhão de euros à Gazprom para a construção de um oleoduto do Báltico, poucas semanas antes de deixar o cargo de chanceler e entrar na folha de pagamento da Gazprom com um salário mais alto do que o que recebia para governar o país.
Desde que partiu, Angela Merkel viu dois sucessivos presidentes da República serem forçados a renunciar envoltos em controvérsia: Horst Kohler, ex-chefe do FMI, por admitir que o contingente do exército alemão no Afeganistão estava protegendo interesses comerciais da Alemanha; e Christian Wulff, ex-chefe da democracia cristã na Baixa Saxônia, por conta de um empréstimo questionável de um amigo empresário para a casa de Wulff.
Dois ministros de destaque, um da Defesa e o outro da Educação, tiveram que sair quando seus doutorados foram anulados – uma credencial importante para a carreira política na República Federal – por furto intelectual.
Quando essa última, Annette Schavan, íntima de Merkel (que expressou total confiança nela) ainda se agarrava ao cargo, o diário Bild-Zeitung afirmou que ter uma ministra da Educação que falsifica sua pesquisa era como ter um ministro das Finanças que tivesse uma conta secreta na Suíça.
Nem bem se falou, se viu. Na França, o ministro socialista do Orçamento, o cirurgião plástico Jérôme Cahuzac, cuja causa era cobrar probidade fiscal e igualdade, foi flagrado com algo entre 600 mil e 15 milhões de euros escondidos em depósitos na Suíça e em Cingapura.
Nicolas Sarkozy, enquanto isso, é acusado por testemunhas de ter recebido algo em torno de US$ 20 milhões de Kadaffi [o assassinado presidente da Líbia] para a campanha eleitoral que o levou à presidência.
Christine Lagarde, sua ministra das Finanças que agora dirige o FMI, está sendo interrogada por seu papel no pagamento de uma “compensação” de 420 milhões de euros para Bernard Tapie, um conhecido bandido com passagem pela prisão, mais tarde amigo de Sarkozy.
A proximidade tranquila com o crime é bipartidária. François Hollande, atual presidente da República, manteve encontros secretos com sua amante no apartamento da prostituta de um gângster da Córsica morto em uma troca de tiros na ilha, no ano passado.
Na Grã-Bretanha, mais ou menos ao mesmo tempo, o ex-premier Tony Blair estava assessorando Rebekah Brooks, ameaçada de ir para a cadeia por cinco acusações de conspiração criminosa (“Tenha comprimidos para dormir fortes. Isso vai passar. Fique firme”), e recomendou insistentemente que ela “publicasse um relatório estilo Hutton”, como ele havia feito para limpar qualquer participação que seu governo pudesse ter tido na morte de uma pessoa que denunciou sua guerra no Iraque.
Uma invasão com a qual Blair ganhou – claro, para sua Faith Foundation – várias gorjetas e negócios pelo mundo, entre eles, proeminente, o dinheiro de uma empresa de petróleo da Coréia do Sul dirigida por um criminoso condenado que tem interesses no Iraque e na dinastia feudal do Kuwait.
Que recompensa Blair pode ter recebido um pouco mais ao leste, por conselhos profusos dados à ditadura de Nazarbayev ainda não se sabe (“As realizações do Cazaquistão são incríveis. Entretanto, Sr. Presidente, o senhor ressaltou novos desafios em sua mensagem à Nação”. Literalmente).
Em casa, em uma troca de favores sobre a qual ele mentiu ao Parlamento sem o menor escrúpulo, a mão de Blair estava escorregadia, recebendo um milhão de libras para os cofres do partido do magnata das corridas de automóvel, Bernie Ecclestone, atualmente indiciado na Bavária por propinas no valor de 33 milhões de euros.
Na cultura do Novo Trabalhismo, figuras de destaque do círculo de Blair, um dia ministros do governo – Byers, Hoon, Hewitt – poderiam se colocar à venda em seguida. No mesmo período, independentemente de partido, a Câmara dos Comuns foi exposta como uma cloaca de desfalques mesquinhos do dinheiro do contribuinte.
Enquanto isso, na Irlanda, Bertie Ahern, líder do Fianna Fáil [o Partido Republicano], tendo desviado mais de 400 mil euros em pagamentos inexplicáveis, votou para si mesmo o salário mais alto de um primeiro-ministro europeu – 310 mil euros, mais do que o do presidente dos EUA –, um ano antes de pedir demissão em desonra por desonestidade generalizada.
Na Espanha, o atual primeiro ministro, Mariano Rajoy, liderando um governo de direita, foi flagrado com a mão em recibos de propinas de empreiteiras e de outros negócios no valor de um quarto de milhão de euros em uma década, entregues a ele por Luis Bárcenas.
Secretário do Tesouro de Rajoy por dois anos, Bárcenas está preso agora por ter acumulado 48 milhões de euros em contas não declaradas na Suíça. Os registros escritos à mão das transferências de Rajoy para outros notáveis do Partido Popular – incluindo Rodrigo Rato, outro ex-dirigente do FMI – apareceram à vontade em fac-símiles na imprensa espanhola.
Quando o escândalo veio à tona, Rajoy enviou uma mensagem de texto a Bárcenas com palavras virtualmente idênticas às de Blair para Brooks: “Luis, eu entendo. Fique firme. Eu te chamo amanhã. Um abraço”. Enfrentando descaradamente um escândalo no qual 85% do público espanhol acredita que ele está mentindo, Rajoy continua firme no Palácio de La Moncloa.
Já na Grécia, Akis Tsochatzopoulos, sucessivamente ministro do Interior, da Defesa e do Desenvolvimento pelo Pasok, que uma vez chegou muito perto de liderar a democracia social grega, teve menos sorte: foi condenado no outono passado a vinte anos de cadeia por uma formidável carreira de chantagens e lavagem de dinheiro.
Do outro lado da água, Tayip Erdogan, por muito tempo apontado pela mídia europeia e pelo establishment intelectual como o grande estadista da democracia turca, cuja conduta virtualmente deu ao país o direito de membro honorário da UE, mostrou que ele tem valor para ser incluído no ranking de lideranças da União de uma outra forma: em uma conversa gravada, instruindo seu filho sobre onde esconder dez milhões em dinheiro vivo, em outra aumentando o preço da propina em um contrato de construção.
Três ministros do governo caíram depois de revelações semelhantes, antes que Erdogan expurgasse a força policial e o Judiciário para ter certeza de que o assunto não seguiria em frente.
Enquanto ele fazia isso, a Comissão Europeia divulgou seu primeiro relatório sobre a corrupção na União, cujo extensão o comissário autor do trabalho descreveu como “de tirar o fôlego”: uma estimativa, por baixo, de que custa à UE tanto quanto o orçamento total da União, em torno de 120 bilhões de euros por ano – sendo que o montante real “deve ser bem mais alto”. Prudentemente, o relatório cobriu apenas estados-membros. A UE, cuja Comissão inteira, em um passado recente, foi obrigada a entregar o cargo sob uma nuvem negra, foi excluída.
Comum em uma União que se apresenta ao mundo como tutora da moral, a poluição do poder pelo dinheiro e pela fraude se segue à filtragem da substância ou do envolvimento na democracia.
Elites libertas ou da real divisão no topo ou de cobrança significativa de baixo podem se enriquecer sem distração ou castigo.
A exposição deixa de ter tanta relevância, já que a impunidade se torna regra. Assim como os banqueiros, lideranças políticas não vão para a cadeia.
Dessa fauna toda, apenas um grego idoso sofreu essa indignidade.
Mas a corrupção não é apenas uma função do declínio da ordem política.
Ela é também, claro, sintoma do regime econômico que tomou conta da Europa desde os anos 80. No universo neoliberal, no qual os mercados são a medida de valor, o dinheiro se torna, mais diretamente do que nunca, a medida de tudo.
Se hospitais, escolas e presídios podem ser privatizados como empreendimentos com fins lucrativos, por que não também os cargos públicos?

(Publicado originalmente no site Viomundo)

Eduardo Campos no Roda Viva - entrevista completa


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Governo de Pernambuco irá investigar possíveis causas dos saques e vandalismos em Abreu e Lima


Assim que se elegeu governador do Estado de Pernambuco, o hoje candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, buscou apoio na academia. O Pacto pela Vida, apresentado como uma das principais vitrines do seu Governo, é um exemplo disso.Aos poucos, por diversas razões, essa lua-de-mel foi se exaurindo, até a consolidação de um hiato profundo. Hoje, encontra-se na UFPE um dos principais focos de oposição ao ex-governador, inclusive no centro onde ele estudou quando mais jovem. Não raro, a arrogância cega os governantes. A soberba se encarrega de completar o serviço. Um pouco de humildade faria muito bem aos nossos gestores. Os problemas do Pacto pela Vida, por exemplo, quase todos os dias, estão sendo postos pelos acadêmicos. Agora ficamos sabendo que o Governo do Estado estaria contratando uma empresa para realizar um amplo levantamento sobre as causas dos saques e vandalismos que ocorreram na cidade de Abreu e Lima há duas semanas atrás. O objetivo seria o de evitar ou prevenir possíveis ocorrências similares. Ficamos bastante preocupados com os vieses dessas intervenções. Outro dia, o Estado fez questão de alardear que iria "punir com rigor" os envolvidos naqueles episódios.É impressionante como tudo se encaixa naquela diretriz de proteção do capital, ou seja, em nenhum momento observa-se uma preocupação do Estado em atender as legitimas demandas daquela população no que concerne às políticas públicas de saúde, educação, segurança cidadã, mobilidade, habitação, trabalho, renda etc. Desde de junho de 2013 que a população pede mudanças nessa agenda pública. Eles continuam fazendo ouvidos de moucos. Qualquer dias desses a porca torce o rabo novamente. É essa "seletividade" de ações de programas como o Pacto pela Vida - orientado para a defesa dos cidadãos-consumidores e incluídos socialmente, além do comércio - que estão levando à ruína esse Governo. O conceito de segurança pública deve contemplar as questões postas acima e não se limitar, unicamente, "punir" os transgressores, por vezes, com a morte. Há quem não curta muito a ideia de levar o sociólogo polonês Zygmunt Bauman para visitar Abreu e Lima, mas ele tem razão ao observar que esse apelo demasiado ao consumismo esgarça os laços comunitários, além de proporcionar enormes frustrações entre aqueles cidadãos induzidos/privados desse consumo. Posso assegurar que ele ficaria muito bem por aqui, saboreando as mangas Maranhão e comendo as castanhas de caju torradas com palhas de bananeiras do nosso sítio. Se chegar na invernada, ainda terá poderá experimentar as deliciosas bundas de tanajuras com farinha. Numa sociedade onde o que vale como critério de cidadania é o "ter" acesso ao consumo, aquelas hordas que não conseguem atingir esse objetivo - que também é um direito deles - certamente, terão que ser "contida" através de um Estado policialesco e repressor. Como essas contradições estão no DNA capitalista, faz sentido a observação do filósofo Slavoj Zizek, quando ele se refere à tendência de fortalecimento autoritário do exercício do poder político.Tanto aqui em Pernambuco como em outros Estados da Federação, as políticas de segurança pública estão sendo orientadas por alguns vieses profundamente equivocados, quase sempre pautadas pelo "endurecimento" das ações contras os mais vulneráveis, notadamente os contingentes populacionais mais empobrecidos, moradores das periferias, de cor negra. O que está em jogo é o novo conceito de  "cidadão", ou seja, o cara que tem acesso aos bens de consumo capitalista, que desfila com seus carrões, moram em bairros nobres, almoçam em restaurantes chiques e compram suas guloseimas nas delicatessen  nos finais de tarde. Quem não cumpre esse rito não merece o status de "cidadão". É more or less isso o que vem ocorrendo. Talvez seja o momento de rediscutir "valores" e "agenda pública". Os maiores "saqueadores" estão inseridos no aparelho de Estado, alguns sob o manto da impunidade, com uma ampla rede de proteção. Basta observar os dados mais recentes, informados pelo TCE, envolvendo prefeitos e servidores públicos "pegos" em maracutaias com o dinheiro de nossos impostos. Os rebelados, excluídos do consumo, acabaram devolvendo, em sua maioria, as mercadorias saqueadas nas lojas durante a greve da Polícia Militar. Qual o montante que esses políticos devolverão ao erário? Não vale o argumento de que uma situação poderia justificar a outra. Em certos aspectos, ambas estão equivocadas. Mas, o exemplo dos que nos governam, possivelmente, surtiria um efeito pedagógico enorme. Exemplo e sensibilidade para entender a origem do ovo da serpente, senhor governador. Vamos deixar de maquiagens. Política de segurança pública orientada quase que exclusivamente para defender o patrimônio e os cidadãos-consumidores? Isso não pode dar certo.


Eduardo Campos no Roda Viva. Mas que Roda Viva?



Já houve um tempo em que acompanhávamos com mais assiduidade o Programa Roda Viva, da TV Cultura. Tratava-se de um programa mais isento, dirigido por jornalistas que pautavam sua atuação com mais profissionalismo. De um certo tempo para cá, deliberadamente, o programa passou a adotar uma linha editorial de corte mais conservador, para alguns alinhavado com interesses tucanos. Pois bem. O programa hoje receberá o ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos. A sabatina começará às 22h:00 e será transmitido, em Pernambuco, pela TV Nova Nordeste, Canal 22, que retransmite o sinal da TV Cultura. Há quem informe que eles não pegarão leve com Eduardo Campos. É bem possível. Mas, em todo caso, se isso ocorrer, não significa um grande problema para o pernambucano. Afinal, Eduardo hoje adota uma estratégia orientada pelo distanciamento do senador mineiro. Quando selaram o acordo de não-agressão, cada um se via disputando um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2014 com a presidente Dilma Rousseff. Ainda há chances de Dilma liquidar essa fatura ainda no primeiro turno.Se tivermos um segundo turno, o mineiro leva mais chance de disputá-lo com a presidente Dilma. Dificilmente Eduardo Campos quebrará essa polarização entre PT/PSDB. Não com esse discurso e nem com esse perfil.

E se o PT tivesse tentado comprar o Aécio Bolado por 500 mil reais...

Por Redação maio 21, 2014 19:00
E se o PT tivesse tentando comprar o Aécio Bolado por 500 mil reais…

Na história da compra da Dilma Bolada, o PSDB, que foi citado como comprador do perfil, simplesmente se dá o direito de não se manifestar sobre o fato. E não é cobrado pela doce mídia a fazê-lo
Por Renato Rovai, em seu blogue. Foto de capa: Instagram/Palácio do Planalto

Dilmabolada
Ontem de madrugada Jeferson Monteiro, criador e administrador do personagem Dilma Bolada, escreveu um relato em que afirma que foi procurado para vender seu personagem por 500 mil reais. Deu nomes, sobrenomes e detalhes da negociação. Entre os citados, o publicitário mineiro Pedro Guadalupe, que atua para o PSDB nas redes sociais e que teria ligação com o atual governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho (PP).
Monteiro apresentou a conversa que ambos tiveram e que segue no pé da matéria. Este blogue, além de ter ouvido Monteiro, conversou com Guadalupe e a agência citada na história, a AMA.
Guadalupe diz o seguinte: “Em 29 de abril de 2014, recebi da empresa denominada AMA, que representa personalidades e canais na internet, a informação de que a Dilma Bolada participava de seu casting e fui indagado se tinha interesse em contratá-la”.
No relato publicado na noite de ontem, Jeferson Monteiro também fala da ação da AMA na sua contratação. “Há algumas semanas uma agência de publicidade (a AMA) entrou em contato comigo para conversar. Eu naturalmente aceitei porque é normal as agências procurarem blogueiros e influenciadores para parcerias, eventos, etc. Então, um dos diretores marcou uma reunião por videconferência e me explicou do que se tratava: a agência que administra diversas páginas aqui no Facebook disse que estava interessada em me convidar para o “casting” deles pois viam em mim um “potencial muito grande”.
Mesmo com o contratante e contratado confirmando a operação, a empresa AMA emitiu uma nota hoje ao final da tarde dizendo que “nunca ofereceu valor nenhum pela página Dilma Bolada, pois não trabalhamos dessa forma”. E que “a AMA não tem nenhum contrato ou oferece serviço para partido político”. Arthur Eickmann, da equipe comercial da AMA, contatado pela Fórum, disse também que “ainda não trabalhamos com a Dilma Bolada e esta parceria ainda não existiu.”
Procurado pelo blogue, Jeferson Monteiro enviou um fac-simile (imagem acima) de uma conversa com Marcio Calheiros, que se apresenta como da AMA no twiter de Jeferson. Se a AMA nunca tratou com Dilma Bolada, poderia ao menos explicar quem é Marcio Calheiros e que cargo ele tem na empresa?
Segundo Jeferson foi Márcio quem fez o contato inicial pela empresa que desembocou nos 500 mil reais que seriam pagos pelo PSDB e cujo interlocutor era Pedro Guadalupe.
Essa história da compra da Dilma Bolada é algo pra lá de alopadrado e o PSDB que foi citado como comprador do perfil simplesmente se dá o direito de não se manifestar sobre o fato. E não é cobrado pela doce mídia a fazê-lo (nós da Fórum procuramos o partido). Será que se por acaso um perfil do tipo Aécio Bolado tivesse sofrido assédio de petistas e recebido uma proposta de 500 mil reais para se vender o caso teria esse mesmo tratamento midiático?
PS: Dica do leitor Carlos. Marcio Calheiros no Linkedin: http://www.linkedin.com/pub/marcio-calheiros/31/743/85a
No Facebook: https://www.facebook.com/marciocalheirossm?fref=ts
E no Twitter: https://twitter.com/marciocalheiros
Em todos esses perfis ele aparece como diretor da AMA.
PS2: No dia 5 de fevereiro o diretor da AMA publicou a seguinte nota sobre a Dilma Bolada em seu Facebook. O que será que ele quer? Qual será a força de um personagem fictício diante de tantas informações que recebemos diariamente na internet? Sair em matéria no O GLOBO, mostra que alguma coisa a mais eles tem.#amamosinternet #internetlimpa. E dá link para essa matéria de O Globo sobre a Dilma Bolada (http://oglobo.globo.com/cultura/megazine/criador-da-dilma-bolada-pode-tirar-personagem-das-redes-sociais-11510352)
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domingo, 25 de maio de 2014

Michel Zaidan: Eduardo Campos e a sucessão estadual



Haverá, na próxima sucessão estadual, dois graduados cabos eleitorais em ação no nosso estado: o ex-presidente Lula e o ex-governador de Pernambuco. Qual terá mais sucesso na empreitada de transferir votos de seus eleitores   a seus candidatos?

                          Quem anda pelo interior do estado constata que o prestígio do ex-presidente é enorme. O eleitor do Lula é o mesmo de Eduardo Campos. Deve haver, em algum momento, um conflito de lealdades entre a preferência de um ou outro. No momento, quem vem perdendo apoio é o ex-governador. O PC do B e o PDT já declararam apoio a Armando Monteiro e a Dilma Rousseff. Os partidos evangélicos provavelmente marcharão com a presidenta. Curiosamente, foi o DEM que hipotecou o seu apoio a Eduardo Campos. Mas esse partido é residual e, por não apresentar nomes à candidatura majoritária, vai se acabando aos poucos na memória política do eleitor. Já a situação do PSDB é incerta e duvidosa. Teria mais a ganhar se lançasse candidatura própria em PE, quem sabe a do deputado Daniel Coelho, que teve um bom desempenho eleitoral na eleição municipal. Mas esta decisão depende de uma sinalização nacional do partido tucano. E a disputa de hegemonia entre o PSB e o PSDB pode levar sim a candidaturas próprias nos estados.

                           Caso melhore o ambiente econômico do país e as costumeiras denúncias de corrupção ou má administração dos negócios públicos vá se apagando da lembrança do eleitor (se banalizando, na verdade), é possível que o desempenho da presidente melhore nas pesquisas, e com o início do horário gratuito e o corpo-a-corpo da campanha eleitoral, com a presença de Lula, as chances de uma vitória no primeiro turno podem aumentar para Dilma.

                            Chama a atenção a dificuldade que tem a candidatura do ex-governador de Pernambuco de nacionalizar seu nome, ao contrário de Aécio Neves. O ex-mandatário do estado ainda é muito identificado com o NE, e pior ainda: com as oligarquias políticas do NE. Daí não ter ainda ultrapassado os 11% das intenções de voto.

                             O risco - para ele - é o de uma polarização entre Aécio e Dilma. O que levaria sua candidatura para baixo e transferiria votos para um dos dois primeiros colocados. O fato que até agora - mesmo com o apoio de Marina Silva - esta candidatura não empolgou (ou convenceu) ninguém. E quanto mais o discurso do candidato se aproxima de FHC e sua agenda gerencial, o medo dos fantasmas de passado aumenta.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Tijolaço: Quando se cai na real, a conversa sobre a Copa é outra

23 de maio de 2014 | 08:55 Autor: Fernando Brito

graficocopa
Com anos de atraso, a Folha publica hoje um levantamento feito pelos repórteres Gustavo Patu, Dimmi Amora e Filipe Coutinho que, como e diz nas conversas informais, “baixa a bola” dos “gastos absurdos com a Copa do Mundo”.
É o que dá ter raros momentos de jornalismo correto na mídia brasileira, porque não é nenhum “furo”, mas apenas a compilação de dados que são e sempre foram públicos.
A começar pela abertura do texto escrito pelos três:
Mesmo mais altos hoje do que o previsto inicialmente, os investimentos para a Copa representam parcela diminuta dos orçamentos públicos.
Alvos frequentes das manifestações de rua, os gastos e os empréstimos do governo federal, dos Estados e das prefeituras com a Copa somam R$ 25,8 bilhões, segundo as previsões oficiais.
O valor equivale a, por exemplo, 9% das despesas públicas anuais em educação, de R$ 280 bilhões.
Em outras palavras, é o suficiente para custear aproximadamente um mês de gastos públicos com a área.
E eles próprios se encarregam de dizer que nem sequer é assim, porque estes gastos diluíram-se pelos últimos sete anos e, sobretudo, porque uma parte ( a maior parcela, 32%) é feita com financiamentos de bancos públicos (quase toda do BNDES) e vai retornar.
Adiante falarei dela.
Bem, do gráfico publicado, conclui-se que o Governo Federal gastou R$ 5,8 bi diretamente com a Copa: R$ 2,7 bi na modernização e ampliação dos aeroportos, R$ 1,9 em segurança pública – quase tudo equipando, a fundo perdido, as polícias estaduais -, R$ 600 mil em portos, R$ 400 mil em telecomunicações  e R$ 200 milhões em gastos diversos.
Aeroportos e portos, além de serem serviços públicos essenciais ao desenvolvimento econômico, geram receitas de tarifas e concessões.
Nenhum tostão, como você vê, em estádios.
Do dinheiro dos estádios, um total de R$ 8 bilhões, perto da metade veio de financiamentos federais, através do BNDES, de duas formas: debêntures e empréstimos.
Debêntures são “letras” financeiras e, no caso do estádio, seus tomadores pagam 6,2%% de juros mais a inflação do período.
No caso dos empréstimos, os tomadores, além de oferecer garantias, têm de pagar  TJLP (taxa de juros de longo prazo), que de 2009 para cá variou entre 6,25% e 5%, mais  1,4% (taxa  BNDES + intermediação financeira), mais risco de crédito (até 4,18%), além da taxa que o o tomador pagará a o banco operar o crédito. No total, portanto, pagam juros muito semelhantes (em geral um pouco maiores, em alguns momentos frações de centésimo menores) que a taxa de juros com que o Governo capta dinheiro no mercado.
Isso quer dizer que não houve empréstimo subsidiado pelo Governo Federal?
Sim, houve,  maiores. E continuam existindo, independente de Copa.
São os recursos para obras de mobilidade urbana que, só nos empreendimentos ligados à Copa, receberam  R$ 4,4 bilhões.
Como é isso: o BNDES financia contrando TJLP + 2% no caso de o empréstimo ser tomado por Estados e Municípios ou por TJLP + 1% + risco de crédito de até 4,18% no caso do financiamento ser feito por empresa privada.
Convenhamos que  é uma forma muito mais adequada de o banco usar seus recursos em favor da população do que, como fez em 2002, aplicar R$ 281 milhões (R$ 1 bilhão, hoje, corrigidos pela taxa Selic) na Net, então propriedade dos Marinho (a família mais rica do Brasil), que estava enforcada de dívidas.
No caso dos Estados e Municípios, a grande maioria, boa parte dos gastos vem  das contrapartidas locais para obras de mobilidade (R$ 2,4 bi, ou 41%) e os restantes R$ 3,3 bilhões em gastos diretamente com obras dos estádios e com as do seu entorno (ruas, praças, pátios, passarelas).
Os números insuspeitos publicados pela Folha vêm na mesma linha daquilo que ontem se comentou aqui.
Tirando os gastos imprevistos de três governos estaduais (Sérgio Cabral , com o Maracanã, Agnelo Queiroz, com o Mané Garrinha e Aécio Neves-Anastasia como Mineirão, que começou as obras ainda na gestão do atual candidato do PSDB à Presidência), os outros dois estádios que custaram muito mais do que o inicialmente previsto, o Beira-Rio e o Itaquerão, foram  tocados pela iniciativa privada.
Há uma hidrofobia de direita implantada na mídia e em parte da classe média que eclipsa qualquer capacidade de exame racional dos fatos.
Se eu fosse um obtuso irracional, que não reconhecesse o direito de uma categoria profissional essencialíssima , como a dos professores, poderia dizer que se gastou muito mais que aquele “um mês”  de Educação que a Copa custou com as greves e paralisações (em geral, justas) do magistério.
E isso seria uma apelação, porque eu estaria colocando nos direitos dos professores a “culpa” das nossas históricas carências no setor.
Colocar na Copa a “culpa” pelos problemas da educação, da saúde, da assistência social, da habitação é, igualmente, uma estupidez.
Que só tem um fundamento, embora a maioria dos que fazem isso não o percebam: as eleições.

(Escrito por Fernando Brito, publicado originalmente no Tijolaço)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dilma vence no primeiro turno, aponta nova pesquisa IBOPE

Números extraoficiais, vazados pela coluna Radar, de Lauro Jardim, apontam a presidente Dilma Rousseff com 40%, contra 20% de Aécio Neves e 11% de Eduardo Campos. Os três teriam crescido em relação à pesquisa anterior, reduzindo o percentual de indecisos, brancos e nulos

dilma campos aécio eleições 2014
Os números da pesquisa Ibope, que será divulgada nesta noite, acabam de vazar. Os dados, extraoficiais, foram divulgados pela coluna Radar, e apontam vitória da presidente Dilma Rousseff em primeiro turno. Leia abaixo:
A pesquisa que o Ibope divulga hoje à noite dará alegria a todos os candidatos. Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos sobem em relação à última pesquisa Ibope, do dia 29 de abril.
Nela, Dilma aparecia com 37%, Aécio com 14% e Campos com 6%. Agora, Dilma surgirá na faixa dos 40%, Aécio no patamar de 20% e Eduardo Campos sobe aos dois dígitos, em torno dos 11%.
Em comparação com o Datafolha de duas semanas atrás, poucas mudanças. Aécio e Campos, quando se coteja as duas pesquisas, estão do mesmo tamanho. E Dilma teria crescido um pouco, fruto do momento em que as entrevistas foram feitas – imediatamente após os programas de TV do PT e no auge da supreexposição de uma campanha publicitária em que o governo exibia suas obras.
De agora até o fim da Copa, é mais do que improvável que estes números mudem – exceto, claro, se acontecer algo muito significativo durante o evento. Ou seja, é com esses números que os três principais candidatos começarão a disputa em agosto, quando sobe a temperatura de campanha.
Com os números já tornados públicos, o dia será de intensa movimentação no mercado financeiro. Ao contrário do Sensus e do Datafolha, o Ibope não chancela a possibilidade de segundo turno.
A julgar pelas movimentações anteriores, que provocaram altas das ações quando a presidente caiu, a tendência, nesta quinta-feira, seria de baixa na BM&FBovespa.
Em nome da prudência, e do respeito aos investidores, o Ibope, de Carlos Augusto Montenegro, deveria confirmar – ou não – os resultados, antecipando a divulgação da pesquisa. Caso contrário, dará margem à interpretação de que permitiu que a pesquisa fosse usada por especuladores.
247 e Radar Online
(Publicado originalmente no Pragmatismo Político)

Cais José Estelita: O urbanista do Recife é o capital



(Isso corre o risco de acabar...pode?)

Na calada da noite, a construtura Moura Dubeux iniciou o processo de demolição dos armazéns do Cais José Estelita, para inicio de um mega projeto imobiliário. Aconteceu de tudo. "Carteirada" de vereador; agressões aos militantes que para lá se dirigiram com o intuito de protestarem; especulações sobre a lisura do alvará que autoriza a demolição; a evidente promiscuidade entre poder público e iniciativa privada quando está em jogo investimentos imobiliários no Recife e, pasmem, até mesmo aqueles que estão batendo palmas para o ocorrido, festejando um Novo Recife que vem por ai. A atitude do vereador Raul Jungmann - muito elogiada até mesmo por militantes de esquerda - não merece a nossa aprovação, posto que se trata de uma atitude de puro oportunismo político. Na realidade, como bem descreveu um colega, Raul é uma espécie de personagem à procura de alguém que o leve a sério. Impressionante o contorcionismo político desse cidadão. Sua "carteirada", observo, está sendo muito criticada pelas redes sociais. O "cale a sua boca" - dirigido, segundo dizem, pelo vereador a um segurança que trabalhava no local, em qualquer circunstância, não pega bem. A advogada do grupo "Direitos Urbanos", Liane Cerne, já  estaria tomando as providências atinentes ao militante do grupo que teria sido agredido pelos seguranças da Construtora Moura Dubeux. Fica escancarada uma relação profundamente lesiva ao interesse público, estabelecida entre iniciativa privada e poder público. A engenharia é perversa, passando por cima de ideologias e qualquer coisa que o valha. Agora se discute, como se isso fizesse muito sentido, o fato de que essas negociações foram iniciadas pela gestão do PT, passando pelo PSB. Na realidade, trata-se, lembrando Gilberto Freyre (com Y) de uma inhaca residual presente na gestão pública brasileira. Difícil de remover. São licitações viciadas, nomeação de pessoas de confiança desses grupos privados para os chamados "conselhos", indicações de DAS para atuarem na administração pública, além de outros expedientes que preferimos nem comentar. Soma-se a isso os "coxinhas" de plantão, que ocupam seus espaços na imprensa para aplaudirem essas atitudes. Logo, logo, Recife será reservada apenas para aqueles cidadãos-consumidores, com acesso aos bens de consumo, protegidos pelo Pacto pela Vida. No contexto de uma política higienista, sua população mais empobrecida, gradativamente, vem sendo "tangida" para a periferia. É profundamente lastimável que o poder público - que deveria zelar pelos cidadãos consumidores ou não-consumidores - faça esse jogo nojento dessa nova face imposta pelo capital. Bem afirmou aquele grafiteiro, num muro do Hospital Ulisses Pernambucano: O urbanista do Recife é o capital.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sartori: Quando a direção sindical não representa a categoria; secretário de Hadda fala em "sabotagem".

publicado em 21 de maio de 2014 às 12:37
Foto Nelson Antoine
terça-feira, 20 de maio de 2014
Sindicatos comandados por pelegos cada vez menos representativos
Motoristas cruzam os braços em São Paulo sem apoio do sindicato da categoria.
Na semana passada os motoristas e cobradores de ônibus do município do Rio de Janeiro fizeram dois dias de greve. Foi um movimento não encampado pelo sindicato da categoria, que já tinha negociado com os proprietários das empresas de ônibus e inclusive aprovado em assembléia um índice de aumento que uma parte significativa da categoria não aceitou e resolveu se organizar em uma greve paralela, utilizando-se de piquetes, fechamento de vias de acesso, terminais e garagens.
Esta situação também se repetiu ontem, 20/05, em São Paulo, depois que uma parte dos trabalhadores não concordou com o acordo firmado entre trabalhadores e patrões e partiu para uma paralisação organizada em um movimento espontâneo paralelo, que acabou por causar um verdadeiro caos no município.
Em ambas situações as autoridades municipais foram “pegas” de surpresa.
Alguns anos atrás acompanhei uma eleição para o sindicato dos condutores em Campinas. A oposição estava muito bem organizada, só era possível ver a campanha eleitoral deles na rua, não aparecia nada da situação, tudo parecia indicar que a oposição seria vitoriosa.
Depois fiquei sabendo pelos motoristas e cobradores da chapa de oposição que nos dias da eleição apareceram motoristas e até mesmo pessoas se dizendo motoristas, que eles nem sabiam que existiam. Resultado: a situação saiu vencedora.
Os membros da oposição denunciaram aquilo que seria a fraude, mas não aconteceu nada. Faz tempo que a imprensa faz o jogo dos proprietários das empresas de ônibus.
As oposições sindicais se organizam e vencem as eleições, porém não levam, porque são “derrotadas” por arranjos ilegais.
Assim, pelegos que não representam  mais a totalidade da base dos sindicatos que comandam, permanecem negociando em nome de uma categoria de trabalhadores, que na realidade quer vê-los pelas costas há muito tempo.
É exatamente isso que está acontecendo com os sindicatos dos condutores de São Paulo e do Rio de Janeiro.
As manifestações de junho e julho do ano passado mostraram que significativos setores da sociedade brasileira estão cada vez mais descrentes em governos, instituições e representações sociais no Brasil.
Nesse quadro, os sindicatos também estão inseridos, principalmente aqueles comandados por pelegos que perderam o rumo da história e teimosamente, de forma oportunista se negam a deixar o poder.
A perda de controle sobre a base sindical por parte dos pretensos dirigentes dos sindicatos dos condutores em São Paulo e no Rio de Janeiro é um sintoma desse novo momento que a sociedade brasileira vive.
Cansados de serem traídos e passados para trás os motoristas e cobradores estão partindo para fazer valer seus direitos com “suas próprias mãos”.
Simplesmente ignoraram o papel histórico e institucional de seus sindicados porque estes já há muito tempo não representam nada.
As autoridades públicas, principalmente na esfera municipal, terão que se adaptar à nova realidade e passar a buscar interlocução junto a estes novos líderes.
Caso contrário, continuaram sendo pegas de surpresa por movimentos espontâneos que são decorrentes da frustração de trabalhadores que, cada vez mais, perdem a confiança em seus sindicatos.
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Diretoria é surpreendida com atitude de alguns trabalhadores (as)
A direção do Sindicato dos Motoristas de São Paulo esclarece que foi surpreendida na manhã de hoje (20/05) com as manifestações realizadas na cidade por alguns trabalhadores (as) que se dizem contrários ao fechamento da Campanha Salarial 2014.
Ontem na Assembleia Geral, que ocorreu no final da tarde, mais de 4 mil trabalhadores (as) compareceram e aprovaram a proposta apresentada que foi de: 10% no salário; ticket mensal de R$ 445,50; PLR de R$ 850,00; melhoria dos produtos da cesta básica (o Sindicato irá determinar as marcas); 180 dias de licença maternidade; fim do Genérico e o reconhecimento da insalubridade, dando o direito a Aposentadoria Especial aos 25 anos de trabalho.
Além disso, ficou determinado a criação de uma Comissão para discutir outras questões como convênio médico, situação do setor de manutenção, ou seja, dar continuidade na resolução de problemas enfrentados pela categoria.
O Sindicato, através do seu presidente Valdevan Noventa e da sua diretoria, irá verificar de onde partem essas manifestações e o motivo real que levou os trabalhadores (as) a tomarem essa atitude, principalmente porque foi logo após terem aceitado e aprovado a proposta em Assembleia.
Sindicato dos Motoristas de São Paulo
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‘Paralisação de ônibus em SP é sabotagem’, diz secretário de Transportes
Motoristas e cobradores de ônibus mantêm paralisação em São Paulo. Jilmar Tatto diz que ‘líderes não aparecem’
21/05/14 – 7h15
SÃO PAULO – A Prefeitura de São Paulo não deu garantias de que haverá ônibus em circulação na cidade de São Paulo, no fim da tarde desta quarta-feira. Motoristas e cobradores de ônibus mantêm a paralisação do serviço, com bloqueios em trechos de avenidas importantes da capital, como Brigadeiro Faria Lima e Rebouças. A circulação dos coletivos está afetada nas regiões Norte, Sul e Oeste da cidade. Dez garagens de cinco empresas permanecem fechadas. Dez terminais de ônibus estão fechados. O rodízio de veículos está suspenso. O secretário de municipal de Transportes, Jilmar Tatto, não classifica a paralisação como greve, mas como sabotagem, já que “os líderes não aparecem”.
O superintendente Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo Luiz Antônio Medeiros irá à garagem da Viação Santa Brígida, na Vila Jaraguá, na tarde desta quarta-feira, para negociar com os grevistas. Já Tatto, também à tarde, se reúne com o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, para definirem uma estratégia de tirar os ônibus estacionados nas ruas, que atrapalham o trânsito.
– Nunca vi greve depois do dissídio. Teve negociação salarial, teve assembleia e dissídio. Estava resolvido. Soa estranho, os líderes não aparecem – disse Jilmar Tatto em entrevista à TV Globo. Questionado se haverá ônibus para os usuários do transporte público no final do dia, Tatto disse apenas que “espera que isso aconteça e que a cidade não pode conviver com isso”.
Pelo segundo dia, a cidade enfrenta problemas. O engarrafamento às 7h já chegava aos 65 km de lentidão, acima da média para o horário. Neste período, o índice máximo esperado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) é de 47 km de ruas e vias congestionadas. Ao menos oito ônibus parados propositalmente interditam os dois sentidos da Avenida Guarapiranga, na altura da Avenida Guilherme Valente, Zona Sul de São Paulo. O fluxo na via só foi liberado às 6h30.
As empresas Santa Brígida, Via Sul, Gato Preto, Sambaíba e Vip M’Boi Mirim não estão funcionando. A Transpass funciona parcialmente. A Campo Belo, que tinha parado no início da manhã, voltou a funcionar também por volta das 7h. No Terminal Lapa, na Zona Oeste, está bloqueado. Os ônibus continuam estacionados, muitos deles sem as chaves, bloqueando a saída. Motoristas e cobradores que chegaram para trabalhar continuam dentro do terminal.
Por volta das 10h, os motoristas começaram um protesto na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, segundo a CET. Um grupo ocupa duas faixas perto da Rua Cardeal Arcoverde. Outros dois grupos ocupam uma das faixas da Avenida Eusébio Matoso e uma da Avenida Rebouças, na altura da Brigadeiro Faria Lima. Na Zona Sul, a Avenida Pirajussara foi bloqueada por dois ônibus. Também na Zona Sul, no Jardim Ângela, motoristas e cobradores fazem uma manifestação na manhã desta quarta-feira. Eles estacionaram os ônibus e caminham no sentido centro.
Ônibus pichados
Os ônibus no Terminal Lapa amanheceram pichados com a frase “Fora Noventa”, em referência ao presidente do sindicato. Motoristas que apoiam o movimento afirmaram que o sindicato não deu tempo para que a proposta fosse analisada.
– Esse acordo é deles e não nosso. Ninguém teve tempo de analisar. Esse sindicato não nos representa – afirmou um motorista, que pediu para não ser identificado.
A assistente de logística Roseli Carvalho de Sousa, 40 anos, saiu de casa em Osasco, Grande São Paulo, às 5h e até às 8h20 ainda não havia conseguido chegar ao trabalho, na rodovia Anhanguera.
Ela reclama dos transtornos: — A gente entende que eles estão no direito deles de exigir aumento, mas quem sempre paga o preço somos nós.
A CET informou que o rodízio de veículos está suspenso e carros com placas finais 5 e 6 podem circular.
Desde a terça-feira, a cidade enfrenta o caos no transporte rodoviário, os problemas começaram quando um grupo de trabalhadores descontente com o acordo assinado entre o sindicato da categoria e empresários bloquearam as vias e obrigarammotoristas que estavam trabalhando a abandonar veículos nas ruas.
Eleição no sindicato teve tiroteio
Em julho do ano passado, o Sindicato dos Motoristas de São Paulo suspendeu, por uma semana, a eleição de seus diretores. Os sindicalistas estavam na sede para retirar as urnas, mas houve confusão, tiros e a eleição terminou com oito pessoas feridas. Na época, o presidente era Isao Hosogi (Jorginho), que disputava com Edivaldo Santiago da Silva e Valdevan Noventa. Noventa é o atual presidente.
PS do Viomundo: Este é um fenômeno a ser estudado. Greves espontâneas pipocaram nas obras das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau, de trabalhadores que não eram ou não se viam representados por lideranças. No Rio, o mesmo se deu com os garis da Comlurb. Será descrença em lideranças? Gente insuflando o caos? A ver.

(Publicado originalmente no site Viomundo)

A carta de Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, ex-candidato do PSOL ao Governo Paulista.

Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP que postulava a candidatura ao governo paulista pelo PSOL está fora da disputa. Partido indicou o cartunista Gilberto Maringoni para seu lugar

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Vladimir Safatle (Reprodução)
Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP que postulava a candidatura ao governo paulista pelo PSOL, está fora da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Irritado com a legenda e o processo de disputa interna, Safatle questiona o tratamento que recebeu e a relação com a direção do partido. No domingo (18.mai.2014), o diretório paulista do PSOL indicou o historiador e cartunista Gilberto Maringoni para seu lugar.
Segundo o professor, a candidatura ao governo paulista nunca foi uma prioridade para o partido e isso tornou o conflito “inevitável”. Ele diz que e-mails privados para a direção da legenda foram publicados sem a sua autorização, o que poderia abrir espaço para uma ação na Justiça.
Safatle compara o desfecho de sua pré-campanha a uma peça de teatro. “É uma comédia que todo mundo vê de longe, os caras da esquerda se matando como se as questões internas fossem as mais importantes do mundo, um vaudeville [gênero teatral] do século 19, mostrando mais uma vez que a esquerda não está madura para apresentar uma alternativa crível”, diz.
Leia abaixo a íntegra da carta de Safatle, originalmente publicada em Diário da Liberdade:
Carta de Vladimir Safatle aos militantes do PSOL
Eu gostaria de aproveitar esta espaço para falar aos militantes do PSOL, este conjunto impressionante de sujeitos conscientes de seu lugar na história de transformação pela qual nosso país passará. Gostaria de falar com vocês com a segurança de quem sabe que lutamos pelos mesmos desejos, que nos indignamos da mesma forma e com as mesmas intensidades. Queremos as mesmas coisas e, certamente, estaremos juntos por muito tempo. Tudo está apenas começando.
Sei que muitos de vocês se entusiasmaram com a possibilidade de minha candidatura a governador em São Paulo e se decepcionaram, alguns amargamente, quando leram uma “nota interna” do diretório estadual anunciando minha pretensa renúncia. Certamente, os motivos lhe pareceram ainda mais decepcionantes. Mais sei que muitos são conscientes de como uma história só mostra seu verdadeiro sentido quando juntamos todos os seus lados. E há um lado faltante que gostaria de acrescentar a essa história. Por isto, àqueles que fizeram um juízo sobre o que ocorreu, peço que o suspendam momentaneamente. A história é diferente daquela que circulou nos últimos dias e só não me manifestei imediatamente porque esperava que ela se resolvesse de outra forma.
Há alguns setores da esquerda que, em momentos de crise, preferem ressuscitar velhos personagens de romance político ruim, como o traidor, o egocêntrico que não se sacrifica como os outros, o infiltrado, o entusiasta ingênuo, entre tantos outros que vocês já viram mais de uma vez. Melhor seria compreender tais crises como exposição de problemas estruturais que precisam ser abordados de frente caso queiramos alcançar nossos objetivos de transformação social.
Fui convidado a candidatar-me pelo partido no segundo semestre do ano passado. Depois das manifestações de junho, eu e o partido estávamos de acordo da necessidade de uma intervenção no debate eleitoral brasileiro tendo em vista a defesa de uma pauta renovada de esquerda. Havia uma convergência a respeito da importância de dar tradução programática ao profundo descontentamento social no qual o Brasil entrou, principalmente desde 2013. Desde o momento que entrei no PSOL, em outubro do ano passado (e esta era a primeira vez na vida que entrava em um partido, o que demonstra a seriedade do ato e de minha implicação subjetiva), usei o tempo para construir seminários sobre desafios de governo, levar as ideias do partido à frente, participar de inúmeras atividades partidárias, avaliar a pertinência da candidatura a partir da conjuntura e conservar espaços na imprensa que me pareciam fundamentais para o debate que gostaríamos de fazer. A ideia de deixar a decisão para abril era a mais plausível. Vinte e quatro horas depois de me filiar ao PSOL fui mandado embora da TV Cultura. Temia que a aceitação prematura da candidatura fechasse ainda mais portas que usava para divulgar nossas posições na grande imprensa. Usei este tempo também para refletir sobre o significado de uma candidatura, sobre o que seria possível fazer e se, de fato, esta era a melhor escolha de atuação política.
A partir de meados de abril, começamos a discutir questões práticas como política de alianças e infraestrutura para a campanha. Desde o início eu insistira na importância de uma política ampla de alianças à esquerda. Engajei-me pessoalmente em discutir com partidos como PSTU e Rede nestes últimos meses. Conversei várias vezes com suas lideranças. As negociações com o PSTU prosperaram, o interesse em constituir uma frente de esquerda era claro. Para mim, a constituição de uma frente era condição fundamental para impor uma dinâmica sólida de mobilização na campanha e para inaugurar uma outra forma de fazer política que não fossem refém de interesses partidários imediatos. Por isto, insisti que seria melhor definirmos inicialmente a frente antes de lançarmos a candidatura. Sabia da resistência de certos setores do partido à ideia, mas não via como concebível recuar nas alianças se o próprio PSTU lançara um manifesto, o qual assinei, pedindo a constituição da frente.
Noto ainda que esta posição se referia apenas à situação em São Paulo. Nunca interferi ou sugeri o que deveria ser feito em outros estados, e seria delirante acreditar que falaria algo a respeito. Enxergava que uma frente de esquerda nacional seria a melhor resposta para a situação política atual. Continuo pensando que nada será feito neste país sem uma política efetiva de frente que supere a fragmentação fratricida e entediante à qual a esquerda parece querer sempre retornar. Ninguém precisa de uma política especular, na qual procuramos apenas espelhos de nós mesmos. Podemos atuar politicamente compondo com nossas dissonâncias. Sei que muitos de vocês também acreditam neste pensamento.
No entanto, ao discutirmos a infraestrutura descobri o ponto mais frágil. A “nota interna” emitida pelo diretório nacional a respeito de minha pretensa renúncia à candidatura expõe tal questão como se tratasse praticamente de um delírio megalomaníaco de minha parte. Ela passa a imagem de que o partido chegara a exaustão de suas possibilidades e de que eu fora completamente insensível a isto. Tal visão é simplesmente falsa.
Primeiro, a minha última palavra não foi de renúncia, mas de aceitar a oficializar a candidatura a partir do momento que o partido conseguisse assegurar condições mínimas para o embate. Foi o partido que entendeu não haver mais tempo e que melhor seria escolher outro nome. Ninguém faria diferente se, como eu, tivesse descoberto, pela primeira vez apenas em abril, não haver nada em caixa para a campanha e que apenas a televisão e o material gráfico estariam assegurados. Durante meses ninguém me alertara para isto, expondo a real situação apenas na reta final. Eu amo demais as ideias políticas para deixá-las naufragar por falta de planejamento estratégico mínimo.
Nós gostamos de dizer, como ouvimos pela primeira vez nos movimentos Occupy, que representamos “os outros 99%”. Mas para tanto não é possível, ao menos em São Paulo, continuar tendo 1% dos votos. Este 1% não nos representa e não temos o direito de nos acomodar a ele. Durante várias vezes que discuti a infra-estrutura para a campanha, ouvi que 2% de votos estaria bom. Não penso assim, acho esta raciocínio completamente equivocado e se pensasse desta forma, não teria aceito entrar no debate em torno da candidatura. Queria saber a quem interessa que nosso partido continue pequeno. Pensar assim é abrir o caminho para a desqualificação de nossas ideias, dar a impressão de que elas não falam com quase ninguém. Por isto, é verdade, agi como quem queria impedir o partido de se acomodar ao seu tamanho. Continuo acreditando que estava certo e espero que outros também o façam.
No entanto, creio que, no fundo, a candidatura para o governo não era uma prioridade do partido. Senão seria difícil explicar porque o diretório estadual nunca foi atrás de possíveis doadores que indiquei há semanas e porque ele nunca aceitou discutir com membros da frente, como o PSTU, que estavam claramente dispostos a contribuir financeiramente de maneira substancial para a viabilidade financeira da campanha. Durante quase um mês, nada foi feito para melhorar a situação de nossa infra-estrutura, mesmo depois que pedi um cuidado especial com isto. Só quando disse não aceitar a candidatura nessas condições que algo foi efetivamente feito. Sei que o diretório é composto de pessoas extremamente dedicadas e engajadas, muitas das quais tenho real admiração, mas creio que, por várias razões, ouve uma falta de sensibilidade à importância deste problema.
O que foi exigido por mim nos permitiria fazer o mínimo: organizar atividades, contratar uma pequena equipe de pessoas que eu poderia trazer para a campanha, acrescentando-a às forças do partido para auxiliar no planejamento da campanha, na comunicação, assessoria jurídica (pois fora alertado por amigos em outras campanhas que os processos se avolumariam), assessoria de imprensa e na inteligência (montagem de dossiers temáticos, checagem de dados, pesquisa sobre problemas). Eu sabia que essa campanha seria particularmente violenta, pois se a candidatura crescesse, partidos como o PT se voltariam de maneira maciça contra nós. Eu tinha informações de não ser para eles pensável permitir que uma alternativa de esquerda demonstre densidade eleitoral em São Paulo. O que queria era ter o mínimo de condições para suportar o processo com o mínimo de planejamento de longo prazo sem obrigar as pessoas envolvida e se submeterem a trabalho voluntários. Só.
Mas os últimos dias foram a prova de que eu estava correto. Enquanto a direção estadual tornou pública uma “nota interna” que colocava toda a responsabilidade do processo em minhas costas, eu mesmo ia atrás de recursos. Conversei com contatos que havia passado ao partido e que nunca foram procurados, conversei com o PSTU que se dispôs, de imediato, a contribuir com oitenta mil reais, sendo que poderiam conseguir mais caso fosse chamado para uma reunião, que ao final nunca houve, 
a fim de discutir a viabilidade financeira da campanha eleitoral. Ao final, eu conseguira sozinho metade do que precisávamos. Esperava ter a oportunidade de sentar com as inúmeras alas do partido e procurar destravar a situação.
No entanto, na última sexta descobri que, enfim o diretório estadual havia entrado em contato com pessoas, que eu mesmo indiquei há semanas, dispostas a ajudar financeiramente. Havia apenas um detalhe: eles entraram em contato para pedir auxílio a outro candidato a governador. Se as possibilidades do partido haviam chegado a exaustão, então porque só depois que minha candidatura foi descartada o diretório estadual procurou ir atrás de doadores que eu mesmo indicara? Qual o sentido de uma atitude desta natureza?
Como disse desde o começo, entrei no partido para ficar. Creio que esta é a melhor alternativa para construirmos uma nova esquerda no Brasil e deslocarmos o eixo do debate político. Eu aceitei colocar meu nome na disputa como uma “intervenção cidadã”. Não tenho interesse em constituir uma carreira política, sou um professor que gosta do que faz. Mas acredito que há momentos nos quais devemos entrar no debate público a fim de abrir portas para que outros possam passar por elas. Este, de fato, era meu objetivo. Por isto, não funciona comigo o cálculo das ações eleitorais que se acumulam. Isto faz sentido para quem quer construir uma carreira política. Meu objetivo era simplesmente ter as condições básicas para fazer uma boa campanha capaz de mostrar a densidade eleitoral que a esquerda pode ter. Sei que isto é possível e, não sendo desta vez, tenho certeza de que faremos isto em outro momento. De toda forma, o mais importante de tudo foi ter a oportunidade de me aproximar da militância e conhecer seus desejos, descobrir a riqueza de seu engajamento e compromisso. Este é o grupo do qual quero fazer parte. Como disse no início, tudo está apenas começando.

(Publicado originalmente no site Pragmatismo Político)