pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Estado de Exceção Episódico: Abuso de insanidade. A distância entre o soldado e o cidadão.



A alguns metros da onde trabalham, moradores são revistados pela Força Armada Nacional.



















Um robô é um dispositivo eletromecânico ou biomecânico capaz de realizar trabalhos de maneira autônoma ou pré-programada. Os robôs são comumente utilizados na realização de tarefas em locais mal iluminados, ou na realização de tarefas sujas ou perigosas para os seres humano.
Mãos na parede cidadão.
Mãos na parede cidadão.
Abre as pernas cidadão.
Abre as pernas cidadão.
Desencosta da parede cidadão.
Mais, cidadão.
Mãos na parede cidadão.
Mãos na parede cidadão.
Abre as pernas cidadão. Mais, cidadão.
Me dê seu chinelo cidadão.
Pega o chinelo e dá pra mim cidadão.
Cidadão pega o chinelo pra mim cidadão.
Cidadão pega o chinelo cidadão.
Há quase de 2 meses o Complexo da Maré foi invadido pelas Forças Armadas do Exército com o objetivo de servir e proteger o tão citado acima, cidadão. O texto é retirado de um vídeo gravado por uma moradora do complexo que registra seu parceiro sendo revistado por um soldado perto de onde trabalha.
O registro foi postado por uma página chamada Soldado Brasileiro, no facebook, e viralizou. Mais de 3 mil compartilhamentos e milhares de comentários, entre eles:
"Sinceramente não consigo entender porque um cidadão de "Bem" dificulta tanto um serviço que é para seu bem! Apoio totalmente este tipo de ação! Já fui parado várias vezes...pela PM e também pelo Exercito e nunca dificultei o trabalho deles talvez pelo motivo de não ter nada a temer e por não dever nada! se o "Cidadão tivesse cooperado com abordagem a mesma iria demorar 1/3 do tempo que demorou!"
Quase mil curtidas.
O enaltecimento de uma atitude como essa é preocupante. Não só pela arbitrariedade da ação militar mas, principalmente, pela forma como as redes sociais evidenciam o tanto de gente que apoia e dá risada do conforto do lar onde se sente com propriedade suficiente para julgar.
A opressão advinda dos modelos de segurança pública na periferia do Rio de Janeiro gera algo que de baixo de um edredon com notebook no colo é difícil sentir. A cultura do medo impregnada pelas forças militares na favela ataca o que talvez seja a maior ameça para a elite brasileira: pobreza.
“Segurança no perímetro.“
As repetidas falas, mecânicas, robóticas, de uma humilhação bizarra, um delírio de poder absurdo. Ser humano ali passou longe. Aos gritos pessoas chegam ao redor, está dado o espetáculo. A partir dai não tem freio mais: Pega o chinelo cidadão! Existe mais um estágio de comportamento que ultrapassa aquele que abusa do poder.
“Fuma maconha cidadão?
Então vc é maconheiro?!”
“Agora vc passou a ser suspeito cidadão!”
A principal justificativa para a ocupação militar, tanto com o exército quanto com a polícia, é o combate ao tráfico de drogas. O argumento de que todo morador é traficante é comumente utilizado e embutido nos veículos da mídia corporativa em suas notícias diárias pasteurizadas. Violência policial e moral caminham juntas.
A atitude do soldado nada mais reflete a violência existente dentro dos quartéis. O mesmo soldado que agora dá a ordem deixa transparecer, ou menos nos faz imaginar quanta vezes ele mesmo já não ouviu gritos robóticos, teve que abaixar pra pegar chinelo ou foi o centro das atenções de uma humilhação pública.
A desapropriação da subjetividade dessas pessoas se constrói por uma humilhação permanente daqueles que vivem um estado de delírio do poder.
Abuso de insanidade.
O silêncio em momentos pontuais torna possível ouvir a música que toca por acaso ou ironia. Bob Marley é reproduzido ao fundo: “I wanna love you, I wanna love and treat you right".

Manuel Castells no #OcupeEstelita

Não foi fácil dobrar a imprensa pernambucana sobre o movimento #OcupeEstelita. Lamentavelmente, ela veio a reboque da imprensa de outros Estados da Federação, que estavam dedicando matérias exclusivas sobre o assunto. Assim como Lázaro, o Jornal do Commércio parece ter ressuscitado nesta manhã de segunda-feira, ao estampar em sua capa a manifestação coletiva que ocorreu, neste domingo, no Cais. Segundo algumas estimativas, teria reunido 10.000 mil pessoas. Talvez, quem sabe, aquele jornalista que afirmou que a ocupação do Cais José Estelita não se constituía num "fato" jornalístico, tenha se convencido do contrário. Em todo caso, mais uma vez, percebe-se, nitidamente, que a população já dispõe de outros expedientes para se informar, formar sua opinião, julgar os fatos e, principalmente, mobilizar-se. Convém que a imprensa escrita e televisada fique atenta para um detalhe. De omissão em omissão, vai cavando sua sepultura. Pautada pelo "interesse econômico" ela abdica de outros princípios que devem reger o bom jornalismo. A audiência da Rede Globo, por exemplo, vem caindo sistematicamente. Seus repórteres, não raro, são vítimas de hostilidades frequentes. Suas edições tendenciosas estão sendo desmascaradas ao vivo, durante os programas de entrevistas que a emissora realiza. Não li o editorial que o JC publicou sobre o #OcupeEstelita, mas, pela repercussão negativa que obteve pelas redes sociais, podemos imaginar seu teor. Por falar em redes sociais, vilipendiado pelo poder público, ignorado pela imprensa tradicional, os cidadãos estão criando, como sugere o sociólogo Manuel Castells, novos padrões de participação democrática pelas redes sociais. A grande mobilização do #OcupeEstelita, certamente, pode ser atribuída à intensa participação popular pelas redes sociais. Estão de parabéns tod@s que participaram do movimento deste final de semana. Há quem assegure que aquele espaço poderia ser o nosso Central Park. A julgar por algumas fotografias, ficou bem parecido.

domingo, 1 de junho de 2014

#OcupeEstelita antes que seja tarde???

Essa questão sobre a destinação do Cais José Estelita, muito mais do que um debate sobre o caráter "seletivo" das intervenções urbanas realizadas na cidade do Recife, suscitou uma série de outros debates convergentes. Sobre tais intervenções, já manifestamos nossa opinião, tratando-a como de corte "higienista", engendrada por um conluio nefasto entre poder público e setores da iniciativa privada. É financiamento de campanhas, um lobby poderoso, indicações de nomes de confiança para integrar postos chaves no governo... além de outras manobras que contribuem para o rompimento da esfera que deveria separar o poder público e os interesses privados. Relações promíscuas que esgarçam os princípios republicanos e representativos. O poder público torna-se um comitê deliberativo em favor dos interesses do capital, negligenciando as demandas de segmentos expressivos da população, contribuindo para a falência do modelo de democracia representativa burguesa, como advoga o sociólogo catalão Manuel Castells. Gostaríamos de fazer alguns desses questionamentos suscitados, a começar pela presença de algumas lideranças políticas "não-confiáveis" engajadas no movimento #OcupeEstelita. Salvo algumas honrosas exceções, há ali alguns oportunistas, tirando uma casquinha do movimento. a) Quando comentou sobre a famigerada construção das torres gêmeas, o economista Clóvis Cavalcanti alegou que, se houvesse uma grande mobilização popular contra sua edificação, elas não teriam sido erguidas. No caso do Cais José Estelita, a tramitação jurídica conquistada pelo projeto poderia permitir um retrocesso, no sentido de se permitir que o projeto seja reavaliado? Lembro que o prefeito Geraldo Júlio, ao ser interpelado por um manifestante do movimento, teria afirmado - assim como Pôncio Pilatos - que a prefeitura lavava as mãos. Não havia mais nada que órgão pudesse ou desejasse fazer. É uma posição dúbia, sobretudo se considerarmos aqui nossas observações iniciais sobre a relação entre poder público e esfera de interesses privados. b) Outro aspecto diz respeito ao "fato" jornalístico. A omissão da imprensa pernambucana sobre o movimento #OcupeEstelita é algo gritante. Devem estar envergonhados, uma vez que os argumentos de que a ocupação não se tratava de um"fato" jornalístico não convenceu a imprensa de outras regiões do país, que estão dando uma enorme cobertura ao #OcupeEstelita. O que ocorre, na realidade, é um grande comprometimento de alguns setores de nossa imprensa, sobretudo a imprensa escrita. Muito "pedagógica" esse #OcupeEstelita, uma vez que, além de uma grande demonstração de mobilização cidadã promovida pelas redes sociais em torno do caráter das intervenções urbanas na cidade, vem suscitando outros debates igualmente interessantes.

A "decepção" e a alegria com a Invenção do Nordeste.

Conheci o professor Durval Muniz quando ele esteve na Fundação Joaquim Nabuco para receber o prêmio Nelson Chaves, conquistado pelo seu livro A Invenção do Nordeste. Depois disso, alguns encontros nos cursos de especializações organizados na região. A Invenção do Nordeste é um livro "decepcionante". Menino forjado num imaginário constituído pelos romances de José Lins do Rego - discípulo de Gilberto Freyre - o livro de Durval, ao contrapor-se à construção de um imaginário imagético-discursivo sobre a região, causa um impacto inicial em quem o ler. Em certa medida, todos nós - inclusive o próprio Durval, possivelmente antes de ler Foucault - somos do nordeste do alpendre, da cocada, das arribaçãs, do carro de boi, do umbu, do bode, do Alto do Moura, do Engenho Corredor, do Rio Paraíba, das castanhas de caju, do licor de pitanga, dos canaviais, das mulatas de bunda de tanajuras, dos verdes anos no eito. Quando Durval começa a desconstruir essa "imagem", apresentando-a apenas como um discurso construído ao longo de décadas, imbuído de interesses estratégicos em jogo, o livro, neste sentido, nos causa uma grande "decepção". Ao mesmo tempo em que nos causa uma grande "decepção", o livro nos desvela o engendramento "montado", inclusive com o apoio da academia, para a invenção de uma região, o Nordeste. Trata-se de um livro de "fôlego". Durval deve ter lido centenas de livros sobre o assunto, além de ter realizado pesquisas em inúmeras instituições. Algo que penso ser curioso e nunca tive oportunidade de perguntá-lo é porque ele não menciona, em sua bibliografia, o Museu do Homem do Nordeste, embora a Fundação Joaquim Nabuco - como não poderia deixar de ser - tenha sido uma das instituições investigadas. Durval, depois de ter sido merecidamente outorgado com o prêmio Nelson Chaves, voltou à Fundaj para realizar algumas palestras, além de compor comissão para repensar a exposição do Museu do Homem do Nordeste. O livro de Durval tornou-se um clássico e a sua edição em inglês deve sair em setembro, motivo de orgulho para o mestre e sua legião de admiradores, nos quais nos incluímos. Ficamos aqui torcendo que o livro conquiste tantas edições internacionais quanto Casa Grade & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre, um dos principais responsáveis pela "invenção" do Nordeste. Muito menos pelo seu livro clássico, mas por uma série de ações, discursos, orientações e criações, caso da própria Fundação Joaquim Nabuco, um templo de perpetuação das idéias do sociólogo do Solar de Apipucos.

sábado, 31 de maio de 2014

#OcupeEstelita questiona projeto em área histórica de Recife

#OcupeEstelita questiona projeto em área histórica de Recife

Por Adriana Delorenzomaio 30, 2014 14:53

Em local com vista privilegiada, construtoras querem erguer 13 torres com 40 andares; e a população quer participação e propostas que integrem a cidade, além de questionar modelo urbano trazido pelos espigões gigantes
À margem do rio Capibaribe, no Centro de Recife, manifestantes tentam impedir a demolição de armazéns do Cais José Estelita. A ocupação reivindica que o conjunto de galpões seja transformado num projeto que “valorize o centro histórico e uma das mais belas vistas com verdadeira modernidade: integrando a área às ruas do bairro, à história e à vida da cidade”. De um lado está o que a população deseja e do outro, grandes construtoras que, ao que parece, contam com o apoio do prefeito Geraldo Júlio (PSB).
(Foto: Reprodução/Facebook)
Área com vista privilegiada e histórica traz à tona o debate sobre  a cidade (Foto: Reprodução/Facebook)
No último dia 21, o consórcio Novo Recife (formado pela Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos) iniciou a demolição dos galpões, onde planeja construir 13 torres de 40 andares. O impacto causado por um projeto desses é enorme e é objeto de cinco ações na Justiça Federal e Estadual. Os manifestantes exigem audiências públicas para discussão do plano urbanístico da área com a participação da sociedade civil.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) embargou a demolição do cais no dia 22/5. O Ministério Público Federal também se pronunciou e condenou a ação “agressiva e irregular”, feita sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV).
Desde 2012, o grupo Direitos Urbanos – Recife tem atuado em defesa do cais, divulgando ações e denúncias.  Em 19 de dezembro de 2012, o Ministério Público ingressou com Ação Civil Pública solicitando, em caráter liminar, “a suspensão de todo e qualquer ato administrativo referente ao projeto e, no mérito, a declaração de sua nulidade desde o início”.
“O Ministério Público não avalia o conteúdo arquitetônico do Projeto (se é feio ou bonito, se é alto ou baixo, elitista ou democrático), mas a existência de vícios formais e ilegalidades na sua condução”, disse à época a promotora de Justiça do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico-Cultural do Recife, Belize Câmara Correia.
Entre as ilegalidades, está o fato de uma área de 100.000 m2 não ter sido previamente parcelada, ou seja, é preciso transformar essa grande área num trecho da cidade, com garantia de áreas públicas, vias de circulação, áreas verdes, equipamentos comunitários etc.
Além disso, a promotora explica que parte do empreendimento localiza-se em área de entorno de monumentos tombados pelo Iphan. “Pela lei, essas áreas de entorno possuem restrições, justamente para possibilitar a visada dos monumentos tombados, cujo deleite da paisagem pertence a todos os cidadãos.”
O movimento alerta que a venda do terreno foi feita de forma irregular, e que a prefeitura da cidade aprovou o projeto imobiliário sem uma audiência pública que consultasse a população e também sem um plano urbanístico, exigido por lei.
Nesta quinta-feira, manifestantes do movimento bloquearam o Viaduto Capitão Temudo, Zona Sul do Recife, eles pedem diálogo com o prefeito Geraldo Júlio (PSB), que até o momento não se pronunciou sobre o assunto.
O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) encaminhou um ofício à Prefeitura do Recife, nesta quinta (29), para que o Executivo municipal realize audiência pública sobre o projeto Novo Recife, com a presença do prefeito.
O #OcupeEstelita já ganhou apoio de recifenses como a cantora Karina Burh, que fará um show na ocupação, no próximo domingo (1º), e do deputado Jean Wyllys (PSOL-PE).
Aqui o abaixo-assinado que será encaminhado ao prefeito.
(Publicado originalmente na Revista Fórum)
ocupe estelita

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Abreu e Lima: Um motim dos consumidores excluídos?




Foto: Che ne pensi? Condividi

JOSÉ LUIZ GOMES ESCREVE 

                        



Ainda muitas inquietações pelas redes sociais sobre os episódios de saques e arrombamentos de lojas que ocorreram na cidade de Abreu e Lima, durante a greve da Polícia Militar. Um fato que alcançou repercussão internacional. Escrevemos muito sobre o assunto, pois temos algumas ligações afetivas com o município. Até recentemente, a cidade era apenas um distrito de Paulista, conhecida como Maricota, penso que em razão das muitas casas de sem-vergonhices existentes no local. Que Deus nos perdoe, Liêdo Maranhão – um estudioso profundo da cultura popular, falecido recentemente – caso tenhamos usado um termo inapropriado. Feliz ou infelizmente, a cidade já se livrou do pecado da carne. Hoje é um dos maiores redutos evangélicos do Brasil. Para ser mais preciso, segundo dizem, a maior densidade de população evangélica da América Latina.
                                      Pode ter se livrado da ira divina, mas permanece submetida ao julgo dos políticos sem espírito público. Naquele dia fatídico, logo cedinho, a população da cidade foi acordada com uma lavagem de roupas sujas entre suas lideranças políticas. Uma birra entre o ex-prefeito e o atual, onde não faltaram acusações de malversação de recursos públicos. No dia anterior, mais um atropelamento com morte num de seus distritos, a Matinha, fato que ocorre com certa frequência. Trata-se de um trecho bastante perigoso. O Município é cortado ao meio por uma rodovia federal. Há engarrafamentos quilométricos no local. Certamente algumas medidas precisam ser tomadas pela esfera pública para preservar a integridade das pessoas que por ali transitam.
                                      Antes que condenem a população - como fez hoje uma conhecida rede de televisão – aquela do plim,plim -  tratando-os como bandidos, quase que de forma generalizada - quero afirmar que a população do município é constituída de gente ordeira e trabalhadora. Um dos aspectos mais importantes dos saques ali ocorridos é que podemos tirar algumas lições fundamentais para começarmos a entender sua complexidade, quiçá, antecipando-se a outros episódios em gestação. Em termos de arrombamentos e saques, já foi possível observar, por exemplo, uma possível generalização para os municípios vizinhos, e há relatos até mesmo em cidades do interior do Estado.
                                      Mudanças profundas na "agenda pública" já foi reivindicada pela população desde as manifestações de Junho de 2013. O poder público, em todos os níveis, solenemente, ignorou-as. Alguém já teve a curiosidade de checar a quantas andam os indicadores sociais de educação, saúde, habitação, emprego, renda, de nossa antiga Maricota? Os governantes estão brincando com fogo. Há, na cidade, alguns indicadores que podem contribuir para essas situações de convulsão social. Há um número expressivo de pessoas morando em condições sub-humanas; é grande o comércio de entorpecentes na cidade; Assim como Goiana, ali também é registrada uma presença grande da exploração de sexual de crianças e adolescentes; apesar do forte comércio varejista e da presença de empresas de porte, ainda é alto o índice de desempregados na cidade, portanto, sem acesso até mesmo aos bens de consumo essenciais. O município comporta duas unidades prisionais, onde ocorrem rebeliões com alguma frequência.
                                      Em 2011 ocorreram saques e depredações em Londres. Tivemos a curiosidade de reler um texto do festejado sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, sobre o assunto. Lembramos também das aulas da professora Danielle Perin Rocha Pitta, antropóloga, quando ela falava sobre a questão da  felicidade em nossa sociedade ocidental. Numa sociedade centrada na supervalorização do "ter", possivelmente, as pessoas mais felizes, em tese, são aquelas que têm acesso aos bens materiais, o que motiva uma busca incessante pelo consumismo, estimulado pelos meios de comunicação através da propaganda. Na outra vertente do problema, uma grande frustração e rancor entre aqueles (cidadãos?) excluídos dos bens de consumo modernos, cuja tecnologia muda significativamente a cada seis meses. Muitos aparelhos de televisão de tela plana, LCD, dessas fininhas, foram saqueados. Quem suportaria assistir aos jogos da Copa numa velha televisão de tubo de imagem depois do bombardeio publicitário em torno desses novos aparelhos de TV?
                                      Bauman classificou o movimento de Londres, na Inglaterra, como um "motim dos consumidores excluídos". Se acompanharmos sua linha de raciocínio, suas observações estabelecem um vínculo quase orgânico entre Londres e Abreu e Lima, nossa querida Maricota. Se não, vejamos. Impõe-se como necessário uma mudança cultural, acompanhada de reformas sociais. Ao estabelecermos o vínculo entre riqueza e felicidade, esgarça-se o espírito comunitário, sobressaindo-se a inveja, o rancor, a arrogância e outros adjetivos do gênero. Faz muito tempo que se deixou de comprar carro apenas para se locomover. Na realidade, trata-se de um símbolo de status e, portanto, de diferenciação e ostentação. As inovações tecnológicas nos modelos são simples, mas a posição do farol – indicando, por vezes, o ano do carro – faz uma diferença descomunal entre os cidadãos-consumidores. Já conheci consumidores de classe média entrarem em depressão por não reunirem condições de trocar de carro.
                                      Em Abreu e Lima existe uma abismo de desigualdades  sociais. O que ocorreu na cidade - mesmo considerando-se a participação de gente de bem e de crianças - foi uma explosão de frustrações acumuladas. Uma distopia proporcionada pela sociedade de consumo, aliada à ausência do poder público em mudar a agenda de suas prioridades - corrompidas e mal conduzidas - para atender às demandas legítimas da população. Não duvido nada que a população da cidade, refeita daquele impulso de ação coletiva, vá atender aos apelos de Dona Irene e se dirigir às Lojas da Eletro-Shopping para apanharem os seus carnês e efetuarem os pagamentos das prestações.
                                      Assim que se elegeu governador do Estado de Pernambuco, o hoje candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, buscou apoio na academia. O Pacto pela Vida, apresentado como uma das principais vitrines do seu Governo, é um exemplo disso. Aos poucos, por diversas razões, essa lua-de-mel foi se exaurindo, até a consolidação de um hiato profundo. Hoje, encontra-se na UFPE um dos principais focos de oposição ao ex-governador, inclusive no centro onde ele estudou quando mais jovem. Não raro, a arrogância cega os governantes. A soberba se encarrega de completar o serviço. Um pouco de humildade faria muito bem aos nossos gestores. Os problemas do Pacto pela Vida, por exemplo, quase todos os dias, estão sendo postos pelos acadêmicos.
                                      Agora ficamos sabendo que o Governo do Estado estaria contratando uma empresa para realizar um amplo levantamento sobre as causas dos saques e vandalismos que ocorreram na cidade de Abreu e Lima, há duas semanas atrás. O objetivo seria o de evitar ou prevenir possíveis ocorrências similares. Ficamos bastante preocupados com os vieses dessas intervenções. Outro dia, o Estado fez questão de alardear que iria "punir com rigor" os envolvidos naqueles episódios. É impressionante como tudo se encaixa naquela diretriz de proteção do capital, ou seja, em nenhum momento observa-se uma preocupação do Estado em atender às legitimas demandas daquela população no que concerne às políticas públicas de saúde, educação, mobilidade, habitação, trabalho, renda etc. Convém informar que as UPPs instaladas no Rio de Janeiro pecaram exatamente nesse aspecto. Cercaram, ocuparam o território, impuseram a presença militar do Estado, mas esqueceram das questões sociais essenciais.
                                      Desde junho de 2013 que a população pede mudanças nessa agenda pública, conforme afirmamos. Os governantes continuam fazendo ouvidos de moucos. Qualquer dia desses a porca torce o rabo novamente. É essa "seletividade" de ações de programas como o Pacto pela Vida - orientado para a defesa dos cidadãos-consumidores e incluídos socialmente, além do comércio - que estão levando à ruína esse Governo. O conceito de segurança pública deve contemplar as questões postas acima e não se limitar, unicamente, "punir" os transgressores, por vezes, com a morte. Há quem não curta muito a idéia de levar o sociólogo polonês Zygmunt Bauman para visitar Abreu e Lima, mas ele tem razão ao observar que esse apelo demasiado ao consumismo esgarça os laços comunitários, além de proporcionar enormes frustrações entre aqueles cidadãos induzidos/privados desse consumo.
                                      Posso assegurar que ele ficaria muito bem por aqui, saboreando as mangas Maranhão, comendo as castanhas de caju torradas com palhas de bananeiras do nosso sítio. Se chegar na invernada, ainda poderá experimentar as deliciosas bundas de tanajuras, fritas na manteiga de garrafa, com farinha. Numa sociedade onde o que vale como critério de cidadania é o "ter" acesso ao consumo, aquelas hordas que não conseguem atingir esse objetivo - que também é um direito deles - certamente, terão que ser "contida" através de um Estado policialesco e repressor. Como essas contradições estão no DNA do capitalismo, faz sentido a observação do filósofo Slavoj Zizek, quando ele se refere à tendência de fortalecimento autoritário do exercício do poder político. Ações repressoras, voltadas para conter a fúria dos não-consumidores. Um Estado de Exceção Episódico, como afirma Liana Cirne, professora da Universidade Federal de Pernambuco.
                                      Tanto aqui em Pernambuco como em outros Estados da Federação, as políticas de segurança pública estão sendo orientadas por alguns vieses profundamente equivocados, quase sempre pautadas pelo "endurecimento" das ações contras os mais vulneráveis, notadamente os contingentes populacionais mais empobrecidos, moradores das periferias, de cor negra, “futuros” traficantes, bandidos e marginais. O que está em jogo é o novo conceito de  "cidadão", ou seja, o cara que tem acesso aos bens de consumo capitalista, que desfila com seus carrões, moram em bairros nobres, almoçam em restaurantes chiques e compram suas guloseimas nas delicatessen  nos finais de tarde, numa ótica mercadológica, esse merece o tal status. 
                                      Quem não cumpre esses requisitos não merece o status de "cidadão". É more or less isso o que vem ocorrendo. Talvez seja o momento de rediscutir "valores" e "agenda pública". Os maiores "saqueadores" estão inseridos no aparelho de Estado, alguns sob o manto da impunidade, com uma ampla rede de proteção. Basta observar os dados mais recentes, informados pelo TCE, envolvendo prefeitos e servidores públicos "pegos" em maracutaias com o dinheiro de nossos impostos. Os rebelados - ou excluídos do consumo - acabaram devolvendo, em sua maioria, as mercadorias saqueadas nas lojas durante a greve da Polícia Militar. Qual o montante que esses políticos devolverão ao erário? Não vale o argumento de que uma situação poderia justificar a outra. Em certos aspectos, ambas estão equivocadas.
                                      Mas, o exemplo dos que nos governam, possivelmente, surtiria um efeito pedagógico enorme. Exemplo e sensibilidade para entender a origem do ovo da serpente, senhor governador. Vamos deixar de maquiagens. Política de segurança pública orientada quase que exclusivamente para defender o patrimônio e os cidadãos-consumidores? Isso não pode dar certo. Vejamos o que diz sobre isso a socióloga Maria Helena Moreira Alves, professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro:
“A população que está sofrendo esse processo é aquela que não é útil para o sistema econômico. Então, se eliminá­-la, não faz falta. O que eles estão eli­minando são os jovens pobres, negros, analfabetos que não servem para a mão de obra, aquela mão de obra fácil, que já tem muito. Em termos de direitos hu­manos, o Brasil é um dos piores países. É sempre importante lembrar que esta­mos em um país que não está em guerra declarada, embora o ex-governador do Rio de Janeiro tenha declarado guer­ra, mas isso foi da cabeça dele. O Bra­sil está em situação de rebelião popular, mas não é uma guerra civil, ainda. Es­pero que não venha a ser. Se continu­ar essa pressão, até pode vir a ser, co­mo é o caso da Colômbia. Muitos ca­sos, como o da Nicarágua, com o levan­te de Manágua, que eu vivi quando mo­rei lá, foram causados também pelo ter­ror, que controla até certo ponto. De­pois, quando você não tem mais espe­rança, acaba o medo. O levante de Ma­nágua foi quando aconteceu a operação Herodes, no final do governo contra os sandinistas, na qual eles mandaram ro­dear certas áreas mais combativas de Manágua, retiraram à noite das casas os maiores de dez anos e metralharam na rua, com argumento de que eles já estavam entrando na Frente Sandinista de Libertação Nacional. É muito pareci­do com a forma como a polícia brasilei­ra fala que o jovem vai virar traficante: “Nasceu, vira criminoso”. E eles mata­ram tantas crianças, que houve uma re­belião total, as pessoas se juntaram aos sandinistas e fortaleceram o movimen­to, que ganhou a revolução. E as pesso­as falaram que acabou o medo quando não tinham mais nada a perder. Hoje, o que temos? O Bope entra nas casas, arromba as portas, bate nas pessoas... Ouvi relatos de mulheres que falavam “Graças a Deus meu marido não esta­va em casa, porque quando tem homem eles matam”.

Bob Fernandes / Ronaldo e Joana Havelange entregam o ouro

Michel Zaidan Filho: A metamorfose


 

É natural que os políticos, em plena campanha eleitoral, mudem e produzam atos retóricos destinados a classes de eleitores especiais (os empresários, os militares, os religiosos etc.). Mas, a operação eleitoreira tem limites quando ofende à consciência democrática e aos direitos de centenas de famílias que tiveram seus parentes chacinados pela ditatura militar, e ainda hoje aguardam uma resposta oficial sobre  o paradeiro deles. O que estamos assistindo nesses dias é um verdadeiro festival de oportunismo político por parte de certo candidato, com o fim de agradar aos militares e os empresários do agro-negócio.
                         É inconcebível (e uma falsificação da história) dizer que a anistia permitida pela ditadura militar no Brasil foi ampla e irrestrita. É tão falsa e mentirosa a declaração que se choca com o fato de que o último preso político (o filho de Nelson Rodrigues) ter sido solto, bem depois da lei da anistia, e pelo fato de o pai está agonizando. Ele que tanto pediu aos militares pela soltura do filho, Nelsinho. Pior é a ofensa à memória dos bravos militantes que lutaram pela caráter amplo e irrestrito da anistia e foram derrotados. Admitir, por puro oportunismo, que a anistia foi ampla e irrestrita e ser contra a reabertura dos processos contra os agentes do Estado que cometeram crimes contra a humanidade e os direitos humanos, é uma flagrante contradição com a medida que criou as Comissões pela Verdade e a Justiça, mesmo que tenha sido feita para agradar aliados e ex-inimigos, como aconteceu em Pernambuco.
                          Das duas, uma: ou o candidato se coloca ao lado dos militares e daqueles que acham que houve uma guerra no Brasil e a violência exercida pelos agentes do Estado foi justa e não há o que apurar ou informar; ou ele se coloca ao lado da sociedade civil brasileira que quer, exige, clama  por justiça e verdade sobre o que aconteceu durante os anos de chumbo. Não dá é para ficar no meio-termo, agradar aos militares e aos familiares das vítimas da ditadura militar.
                           Se o atual candidato e ex-governador tivesse algum familiar seu ou amigo chacinado  pelo regime de exceção, ele não agiria desta forma. Pelo contrário, a sua família e seus amigos hoje desfrutam de todo prestígio e regalias  próprias das famílias reais. Mas a maioria das famílias plebéias que não contam com as benesses do poder e dos aduladores de sempre, esperam - na chuva e no sol - pela plena reparação dos crimes cometidos em nome das famigeradas "razões de estado", contra seus parentes e amigos.
                          Talvez esteja na hora de se iniciar no Brasil e em Pernambuco um novo movimento pela  reparação desses crimes. E os democratas de ocasião terão que retirar suas máscaras e assumir suas verdadeiras identidades.
Michel Zaidan é filósofo, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O pragmatismo de Campos e a velha política

Texto publicado ontem no Estadão Noite 
O pré-candidato à Presidência pelo PSB, Eduardo Campos, esteve na segunda-feira em São Paulo em um evento para 200 empresários, organizado pelo Estado e pela Agência Corpora Reputação Corporativa. Lá, disse que pretende acabar com a troca de favores e cargos que se estabeleceu no presidencialismo de coalizão brasileiro e que vai romper com as “velhas raposas” da política. Esse tem sido o mantra de Campos, entoado, horas depois, em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura. Disse que a “sétima economia do mundo” não pode fazer “política velha”, ou seja, distribuir ministérios para manter a base política.
O pré-candidato é experiente, sabe como funciona a política brasileira e a diferença entre discurso e prática. Quando foi eleito governador de Pernambuco, em 2006, tinha o apoio de 17 partidos. Campos teve de abrigar a turma na sua gestão. Logo de saída, criou oito novas secretarias, entre as quais Recursos Hídricos, Mulher e Articulação Social e Regional. Elevou de 18 para 26 o número de pastas. Em 2011, logo depois da sua reeleição, criou outras duas: Meio Ambiente e Secopa. “Vamos reduzir pela metade os ministérios”, disse ao criticar os 39 da pré-candidata petista Dilma Rousseff.
Mas por que Campos não reduziu o número de secretarias quando ele era governador de Pernambuco? Sim, ele reduziu. De 28 secretarias para 23. Mas só no apagar das luzes do seu governo, no começo deste ano, quando ele já sabia que três meses depois sairia do governo do Estado para ser candidato à Presidência. Governou, portanto, durante mais de sete anos com uma estrutura administrativa de secretarias maior do que a que recebeu ao assumir em 2007.
Em outro momento da entrevista, Campos disse ser necessário ter “coragem de colocar na oposição” as velhas raposas. Tampouco foi isso que ele fez em Pernambuco. Inclusive, deu sobrevida política a muitas delas. Nos quase oito anos de governo, nomeou parentes de políticos, que podem ser considerados “velhas raposas”. A filha de Severino Cavalcanti (PP), Ana Cavalcanti, foi indicada para a Secretaria dos Esportes. Sebastião Oliveira, primo de Inocêncio Oliveira (PR), ocupou a Secretaria dos Transportes – ele emplacou ainda o titular da Secretaria de Turismo.
Campos deu espaço em seu governo para o PT (Cultura), PC do B (Ciência e Tecnologia), PV (Meio Ambiente), PSD (Instituto de Recursos Humanos) e por aí vai. Os partidos que lhe deram apoio na Assembleia participaram da sua administração, como acontece na velha política. Até partidos que eram da oposição ganharam espaço no governo e passaram a apoiá-lo. O PSDB, por exemplo, ganhou a Secretaria de Trabalho e a presidência do Detran – que antes estavam com o PTB. O PMDB, de Jarbas Vasconcelos, também oposição até outro dia, indicará o vice-candidato na chapa do PSB ao governo do Estado neste ano.
Como resultado dessa distribuição de cargos, a oposição ao ex-governador na Assembleia foi raquítica. Das 49 cadeiras de deputados estaduais, nem dez se dispuseram a estar na contramão do Executivo. No final do ano passado, PT e PTB decidiram passar para a oposição. Mas só porque terão candidato próprio na eleição ao governo de Pernambuco. Abandonaram os cargos, num movimento parecido com o do PSB, de Campos, que em 2013 desembarcou do governo Dilma após a decisão de que o ex-governador seria candidato à Presidência.
Campos não é “sonhático”. Sabe como funciona a política brasileira e como, infelizmente, as maiorias no Congresso e nas Assembleias são formadas. Mas disse, no Roda Viva, que no seu caso agregará as legendas em torno de um “programa de governo”. Nada de troca-troca. Retórica parecida surge no PT, da presidente Dilma, e no PSDB, do ex-governador Aécio Neves, quando instados a falar sobre as indicações políticas em seus respectivos governos.
Por fim, o pré-candidato do PSB enalteceu o apoio suprapartidário que sua pré-candidatura recebe em Pernambuco. “O Estado marcha em grande unidade para votar num filho da terra, que governou com largueza, que não perseguiu, que o fez o bem para muita gente e que agora pode ser presidente da República. Então, eu acho bom que o meu Estado esteja se unindo de norte a sul, de leste a oeste, todos os lados políticos para poder ajudar a gente a chegar à presidência da República.”
Sem dúvida, essa unidade é boa para ele. Mas que fique claro que não é pelos olhos azuis de Campos.

Júlia Duailibi, Radar do Estadão, 28/05/2014

#OcupeEstelita e o ataque dos barões da destruição imobiliária em Recife

publicado em 28 de maio de 2014 às 12:43

por Beatriz Brusantin, via Facebook*
Você já ouviu falar do movimento #OcupeEstelita?
Pois está ocorrendo em Recife e é contra um Consórcio chamado Novo Recife da construtora Moura Dubeux e com grande apoio do prefeito Geraldo Julio (indicado de Eduardo Campos).
Trata-se de um projeto repleto de ilegalidades e em cima de um leilão fraudulento. A ocupação está ocorrendo desde a madrugada do dia 22, quando na calada da noite, a Moura Dubeux, sem alvará começou a demolir históricos Armazéns de Açúcar.
Até hoje cerca de 50 pessoas estão ocupando o lugar com diversas atividades culturais, educativas e de conscientização cidadã, que estão atraindo muitos.
A imprensa pernambucana, contudo, silencia sobre o tema.
Obviamente, porque faz parte da “máfia”, a qual tem apoio do Eduardo Campos uma vez que seu partido recebeu uma doação de milhões por parte da Moura Dubeux. Veja as páginas do Direitos Urbanos e observe a movimentação. A veiculação deste movimento seria uma imensa contribuição.
*Beatriz Brusantin (Dra em História Social, prof. universitária)
por Luciana Santos, via Facebook
Sou de Recife e neste momento há um movimento, o #OcupeEstelita, em que a população reivindica o Cais José Estelita, um conjunto histórico de galpões e área ferroviária para ser transformada em um projeto para a cidade. No entanto, a prefeitura tem agido a favor da construtora Moura Dubeux, responsável pelo Projeto Novo Recife, que planeja construir 13 edifícios de até 40 andares, transformando a área em propriedade privada, demolindo os galpões e descaracterizando a paisagem urbana.
Esta mensagem é para que espalhem o movimento nesta página para que mais pessoas no Brasil saibam da situação, que diz respeito também ao candidato à presidência, Eduardo Campos, e está sendo ignorado ou desvirtuado pela imprensa, que não ouve as alternativas que a opinião popular quer mostrar para o projeto.
É muito importante que isto seja compartilhado para ganhar uma boa dimensão nacional.
Por Felipe Melo, professor de biologia da UFPE
Há muitos paralelos entre as teorias ecológicas e a nossa vida como sociedade humana. Apesar de Darwin ter dado o golpe final na ideia de que somos especiais na natureza, o ‪#‎OcupeEstelita‬ vem, 150 anos depois da Origem da Espécies, dar uma evidência inequívoca de que nesse habitat que é a cidade, a ecologia humana faz cada vez mais sentido, somos bichos. E como bichos humanos, quando não estamos satisfeitos com o nosso hábitat, nós o transformamos.
As cidades são o resultado final de um processo de domesticação da natureza que começou desde que aparecemos na terra.
Construir um parque com grama e árvores plantadas ou arranha-céus de vidro são faces da mesma perseguição pela domesticação da natureza. Somos todos na atualidade a resultante desse processo histórico-biológico, talvez encravado na memória de nossos genes que é o de construir nosso próprio hábitat. A diferença está na extensão dos benefícios da domesticação do hábitat urbano. Está no entendimento de qual tipo de domesticação da paisagem e da natureza são desejáveis e quais deles definitivamente funcionais para o hábitat como um todo.
Portanto é de uma tolice imensa achar que as pessoas que ocupam o cais José Estelita nesse momento são neo-hippies saudosistas pregadores da volta à natureza intocada, da não-intervenção nos espaços. Ora, é justamente o contrário que nos move nesse momento, é o desejo de intervenção na cidade. É o desejo de que aquele espaço seja parte de um hábitat, que ele se integre a uma funcionalidade tão necessária para nossa casa. Neste sentido o grupo Direitos Urbanos é didático ao convidar toda a sociedade a discutir democraticamente um modelo de hábitat urbano que seja de fato representativo e funcional.
A palavra ecologia vem do grego, “oikos” que significa casa ou hábitat num sentido mais amplo e ganha força na ciência uma nova concepção de ecossistemas, a ideia de “antroma” e não mais de “bioma”. É a constatação/concepção de que já domesticamos boa parte da natureza e que não é possível pensar ecologicamente os espaços da terra sem a presença humana.
Tal concepção tem aproximado a ecologia dos hábitats urbanos e emprestados conceitos e ferramentas interessantes para o entendimento e planejamento das cidades. Eis então que sob a ótica ecológica moderna (falo da ciência ecológica dura e rigorosa) o “Projeto Novo Recife” termina sendo, paradoxalmente, justamente o contrário da domesticação da natureza. É o apogeu de um modelo concentrador de recursos naturais, desperdiçador de energia, promotor da entropia (caos) e emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global e, sobretudo dilapidador de uma das mais importantes propriedades dos sistemas biofísicos, a resiliência. Esta é a capacidade de recuperação dos sistemas frente às perturbações.
Ao permitir que a cidade abrigue em uma das suas porções mais importantes um empreendimento dessa natureza, estaríamos reduzindo mais um pouco a resiliência do Recife, condenando esse ecossistema urbano que é a cidade à instabilidade aguda da qual já padece cronicamente. É deixar escapar justamente a possibilidade de adaptar nosso hábitat às nossas necessidades, que seguramente não são mais uma dezena de torres gigantes de apartamentos e algumas dezenas de milhares de carros.
Por isso, #OcupeEstelita!

(Publicado Originalmente no site Viomundo)

O caráter higienista do Projeto Novo Recife.



José Luiz Gomes da Silva


Continua pelas redes sociais as polêmicas sobre o projeto Novo Recife. As opiniões se radicalizam, entre argumentos a favor e contra o projeto. No dia de ontem, mais um componente, digamos assim, entrou no debate. Em meio às discussões políticas, jurídicas, o caráter das intervenções urbanas, eis que surgiu na rede uma entrevista com o economista ecológico, Clóvis Cavalcanti, da Fundação Joaquim Nabuco. Não que essa temática, mesmo que anpassant, já não esteja inserida nos debates, mas, invocá-la, neste momento, é interessante porque remete, na sua essência, à degradação do conceito de cidadania engendrado por esse processo. Apenas para quem não tomou conhecimento dos fatos, o economista teria sido processado por uma dessas construtoras integrantes do consórcio Novo Recife, ao postar um artigo no Diário de Pernambuco argumentando sobre um possível "roubo de paisagem" ao serem erguidas aquelas duas famosas torres da Moura Dubeux. A paisagem é um direito coletivo e eles, ao erguerem aquelas torres estavam impedindo que esse direito fosse exercido por toda a população. Lembro agora que o IPHAN embargou a construção de um viaduto aqui em Olinda, tempo atrás, acredito, sob o mesmo argumento. Se fosse mantida a altura original, comprometeria a visão do patrimônio histórico da cidade. A construtora que o processou perdeu em todas as instâncias. Essa questão está na raiz das intervenções urbanas do Recife, ou seja, a profunda "seletividade" de sua matriz.. Se, como dizem, há benefícios dessas intervenções, quem vai poder beneficiar-se deles? Até mesmo um logradouro público - uma praça - que ficava nas proximidades das duas torres, quase foi privativada pela população residente nos apartamentos. Não somos necessariamente contra que haja intervenções naquela área do Cais José Estelita. O conceito de patrimônio histórico/artístico, de fato, em situações específicas, talvez não se aplica à situação. Por outro lado, o caráter e a finalidade dessas intervenções precisam, urgentemente, ser revistos. Se não, vejamos. a) Há uma ingerência demasiada dos interesses do capital na tomada de decisões do poder público sobre o assunto. Um lobby pesado, tráfiico de influência, denúncias de pagamento de propinas, financiamentos de campanhas, aparelhamento dos departamentos jurídicos das prefeituras. Num contexto como esse, as decisões não poderiam deixar de ser enviesadas. Torna-se necessário criar mecanimos de envolvimento mais efetivo do cidadão comum nessas decisões. A Prefeitura do Recife, por acaso, ouviu a população do Recife sobre o que fazer com o Cais José Estelita? b) Se considerarmos as últimas intervenções, talvez se aplique aqui uma tendência higienista, como sugere alguns críticos, reservando alguns espaços públicos apenas para os ditos cidadãos-consumidores, aqueles que podem pagar para adquirir uma apartamento residencial ou um sala comercial naquele trecho, que deve custar os olhos da cara. Fala-se em píer, em parques, em espaços culturais, mas, a rigor, certamente pensados para atender às necessidades desses cidadãos. Em última análise, o que está em curso é um banimento da população de baixa renda desses entornos. Coque, Pina, Ilha de Joaneiro estão sendo, gradativamente, descaracterizadas pelo especulação imobiliária imposta pelo capital. Na década de 40 existia uma grande polêmica sobre o que fazer com as palafitas dos bairros 'afogados" do Recife, um verdadeiro laboratório para os trabalhos de sociólogo Josué de Castro. Enquanto o interventor Agamenon Magalhães defendia que eles precisavam ser removidos, de preferência para lá dos Macacos - uma localidade, salvo engano, nas proximidades da cidade de Camaragibe - , Gilberto Freyre considerava os mocambos uma solução de arquitetura engenhosa e, que, portanto, precisavam ser preservadas. Assim como na década de 40, recrudesce no Recife uma solução de força, da imposição de uma lógica orientada pela seletividade "higienista". A cidade, pensa os gestores atuais, deve ficar mesmo para os cidadãos-consumidores. Isso nos faz lembrar de uma crônica que escrevemos sobre a presença de Orson Welles no Brasil. De passagem por essas terras tropicais, ele conheceu três cidades: Recife, Fortaleza e Rio de Janeiro. Aqui no Recife, depois de tomar um porre daqueles, caiu no Rio Capibaribe e quase se afogava. No Rio, fazia suas tomadas para o filme inacabado Its All True - sobre a saga dos jangadeiros cearenses. Eis que o ditador Getúlio Vargas escreveu para o Departamento de Estado Norte-Americano para queixar-se de Orson Welles. Estava bastante preocupado com a presença de favelas, pobres e negros nas tomadas do cineasta. Deixaram Orson à mingua. Nossos governantes estão deixando a população mais empobrecida do Recife à mingua, sem direito de usufruir de sua cidade. Só falta mesmo os cinturões de contenção nos seus entorno. Logo, logo eles estarão sendo erquidos.

Por que tanta greve? Eles querem 1964!


“Não se elegerá. Se for eleita, não governará”, decreta o Freire com “i” !
O PiG (*) convoca greve.

Especialmente na área de transportes, onde a criminalidade se lambuza com o sindicalismo e as polícias estaduais sentam em cima das mãos.

Onde os “líderes” sindicais mais parecem Francisco Julião do que Jimmy Hoffa.

O PiG transforma em conflito “instalação” de índio.

O PiG leva à Granja Comary mais repórter para cobrir a crise do que para conhecer a última tatuagem do Neymar, o Narciso.

O que eles querem ?

Querem o caos que precedeu a queda de Jango.

Querem anabolizar os protestos até de categorias profissionais que, em teoria, não tem nada a ganhar com a difusão do caos que precede o Golpe.

Por que a Big House – o PiG e o PSDB são seus instrumentos – confia tanto nisso, na véspera da Copa ?

(Como o alemão, o americano, o argentino e o espanhol não leem o PiG, virão para a Copa curtir o Brasil !)

A Big House se beneficia de três fatores.

Primeiro, que o Governo federal é trabalhista e fica inibido de conter a baderna, com medo de que possa parecer cerceamento da vontade popular.

(Clique aqui para ler “Não vai ter Copa” fala inglês”.)

(E isso se agrava na cidade de São Paulo, onde o prefeito – excelente !  – é do PT e o do Estado é tucano, cuja Polícia assiste a tudo com atitude tão cúmplice quanto inepta.)

Segundo, porque a Presidenta é mulher.

E nessa terra machista, os marmanjões acham que podem mais.

Que mulher acaba cedendo.

E, por fim, porque a Dilma não tem xerife.

Não tem um Ministro da Justiça que imponha respeito – temor !

Esse é o campo fértil para a tentativa de dar o Golpe nas ruas.

Com o apoio da Globo Overseas, cuja batata assa na Dilma-2015.

O Gilberto Freire com “i” (**) faz com a Dilma o que o Lacerda fez com JK: Dilma não será candidata.

Se for, não será eleita.

Se for eleita, não governará.


Paulo Henrique Amorim


(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Ali Kamel, o mais poderoso diretor de jornalismo da história da Globo (o ansioso blogueiro trabalhou com os outros três), deu-se de antropólogo e sociólogo com o livro “Não somos racistas”, onde propõe que o Brasil não tem maioria negra. Por isso, aqui, é conhecido como o Gilberto Freire com “ï”. Conta-se que, um dia, D. Madalena, em Apipucos, admoestou o Mestre: Gilberto, essa carta está há muito tempo em cima da tua mesa e você não abre. Não é para mim, Madalena, respondeu o Mestre, carinhosamente. É para um Gilberto Freire com “i”.




(Publicado originalmente no site Conversa Afiada)