Com a recusa das esquerdas no poder em querer ousar, o vácuo da indignação ao sistema vem sendo preenchido pelo surgimento de salvadores, empreendedores e justiceiros, vistos como antipolíticos
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| por Gabriel de Barcelos |
Há, em grande parte do mundo, um mal-estar e uma revolta contra o sistema político tradicional, ambos expressos de diferentes maneiras na sociedade. Isso não é novidade e já virou lugar-comum em várias análises sobre a chamada crise da representação. A pergunta que se faz é: como vem sendo e como será a ação das esquerdas diante destes processos? Os partidos identificados de alguma forma com a esquerda ou com o progressismo falharam em compreender a necessidade colocada por transformação, seja com a manutenção de formas políticas distanciadas e viciadas, seja através do consenso econômico liberal. No Brasil, Dilma Rousseff e grande parte do petismo se negaram a entender 2013 e a presidenta, ao ser reeleita, aplicou um programa de ajuste fiscal de forma oposta ao que anunciava em campanha. Embora ela tenha sofrido um impedimento ilegal, um golpe, não é possível ignorar a rejeição da opinião pública e do eleitorado ao partido e, por tabela, à esquerda brasileira. Nos EUA, a escolha de Hillary Clinton como candidata pelos Democratas foi no mesmo sentido. A opção se deu em detrimento da mudança pela esquerda, representada por Bernie Sanders, mantendo a fidelidade ao “partido de Wall Street”. Com a recusa das esquerdas no poder em querer ousar, o vácuo da indignação ao sistema vem sendo preenchido pelo surgimento de salvadores, empreendedores e justiceiros, vistos como antipolíticos. Eles seriam os moralizadores, “para além disso tudo o que tá aí”, portadores de uma competência e uma firmeza moral, características ausentes nos representantes do poder, segundo esta perspectiva. Trump, Bolsonaro, Dória, Moro e outros são alguns dos exemplos a serem citados. Com exceção de medidas pontuais pouco empenhadas, o governo petista subestimou as Jornadas de Junho e o sentimento anti-poder presente na população brasileira e no mundo. A grande mídia, grupos da direita organizada, o judiciário punitivista, as elites econômicas e políticas foram, por outro lado, mais perspicazes. Estes atores conseguiram, de forma contundente, canalizar o ódio a vilões bem desenhados. Primeiramente, contra a inimiga no poder central, representado por Dilma, mas principalmente na corrupção como grande mal, um desvio moral dos políticos e do país. Obviamente, nada pretende ser alterado nas estruturas que permitem a perpetuação da corrupção. Enquanto a Lava Jato faz as suas ações espetaculares, a Odebrecht, por exemplo, ganha “leniência” para continuar a participar de obras públicas e contrair empréstimos, em troca de mais delações, mais bodes expiatórios com as suas cabeças exibidas em praça pública. Mas, vamos voltar um pouco no tempo. É importante lembrar que desde os anos 90 até os dias de hoje, a crítica em relação à democracia representativa, ao poder do Estado e ao sistema econômico neoliberal é marca de uma série de movimentos sociais, em todo o planeta. Entre estas lutas podemos citar, com inúmeras particularidades, o Zapatismo, o Movimento Antiglobalização (ou Alterglobalização), os Indignados na Espanha, a resistência grega à austeridade, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o MPL (Movimento Passe Livre) e as ocupações de escola, no Chile e no Brasil. Com importante participação de jovens, nestas movimentações percebemos uma negação às estruturas hierárquicas e centralizadas, a necessidade de participação, autonomia e expressão e o enfrentamento a um sistema que vem gerando sucessivas crises econômicas, desemprego e cortes sociais. A esquerda institucional mundial durante estes mesmos períodos, por sua vez, se confortou com o “fim da história” (que combatiam no discurso) julgando ter chegado ao seu paraíso. Embora os avanços alcançados sejam inegáveis, no Brasil e em outros lugares, ela se negou a considerar as possibilidades de retrocessos, revezes eleitorais e golpes. Conformada nos consensos e conciliações, tornou-se cega às dinâmicas sociais, insatisfações e ameaças paralisando-se. Ao observarmos este quadro mundial, é possível partir do entendimento de que os inconformismos com o sistema vigente partem de raízes semelhantes, mas colocam diferentes soluções. Hoje, no Brasil, o forte sentimento anticorrupção aponta suas flechas contra os políticos, ao menos no discurso. A alternativa posta é a punição e moralização do país. O governo Temer, cercado de escândalos, fracassos e disputas internas, está na berlinda. Os mesmos grupos que tiraram Dilma do poder agora vão às ruas a favor das medidas propostas pelo Ministério Público, contra a corrupção, entre outras bandeiras. Para alguns setores da esquerda, é necessário dialogar com esta indignação de forte apelo popular e colocar em pauta a corrupção. Embora a intenção seja legítima e pressupostos como a necessidade de acabar com as “bolhas ideológicas” sejam verdadeiros, a opção é também perigosa. Primeiramente por insistir nos círculos viciosos, que elegem ações meramente punitivistas e redentoras, mantendo (e mesmo reforçando) formas de reprodução do que se combate. Além disso, a política da moral pode fortalecer as soluções messiânicas futuras, de figuras salvadoras como Bolsonaro. O mundo, tal como o conhecemos, da “história única” neoliberal e das carcomidas estruturas políticas, está desmoronando. As crises econômicas e de poder mostram que não há mais possibilidade para o acerto de consensos que abriguem estas dimensões, tais como elas se desenvolveram até hoje. Isso não quer dizer que o que virá será melhor. A tendência, até agora, tem sido por soluções que saltam deste status quo centrista pela via da extrema-direita. Num quadro avassalador para todos que lutam por um mundo para além do capital e das injustiças, a tarefa das esquerdas é árdua e com poucas possibilidades de mudança a curto prazo. Contudo, no lugar de planejar somente a próxima manifestação ou a próxima eleição, poderíamos pensar na produção da própria história, que não acabou. Será que vamos continuar colocando como inevitável uma lógica política excludente, onde as decisões estão apartadas das pessoas “reais”? Nos conformaremos com um sistema econômico concentrador, genocida e produtor de miséria? Não voltaremos a apontar as contradições do capitalismo local e global (além de suas conexões), que afetam todo o nosso modo de vida? Neste sentido, as ocupações estudantis têm mostrado tanto novas propostas de diálogo, auto-organização e fortalecimento dos sujeitos, como resistências ao dilaceramento do “público”. Diferente de outras iniciativas no campo da esquerda, foram os únicos movimentos que causaram alguma preocupação nos grupos recentes organizados da direita. Tanto é que o “desocupa” foi tirado em congresso do MBL (Movimento Brasil Livre), com a participação de membros do governo Temer e figuras importantes do pensamento conservador. O medo está tanto numa disputa pela instabilidade de Temer, mas principalmente pelo reconhecimento de outro projeto societário, numa centelha posta em novas gerações, que escapa ao rolo compressor deles. Portanto, espalhar nas lutas de todos o país este incômodo, através da desobediência civil, da ação direta e de um repensar sobre as relações de poder, torna-se urgente. Como afirma Leo Vinícius, se “a esquerda no Brasil quer ser relevante novamente um dia, deve começar desde agora a pensar em constituir formas práticas de redes de solidariedade que sirvam de suporte à vida cada vez mais precarizada (…)”. Portanto, agir radicalmente no mundo, produzindo pontes e fortalecer, diante desta crise da economia e do poder, alternativas reais, construídas entre a realidade concreta e a criação do novo, se coloca, desta forma, como possibilidade de transformação. As grandes civilizações caem, mas geram ruínas. Em cima delas, ou através delas, pode-se erguer novas construções. O desafio maior talvez seja que estas fundações apareçam frontalmente diferentes daquelas pertencentes às sociedades que estão implodindo.
Gabriel de Barcelos
Gabriel de Barcelos é doutor em Multimeios pela Unicamp, trabalha atualmente com jornalismo sindical e formação de professores em audiovisualFoto: Agência Senado/cc |
| 04 de Dezembro de 2016 |
| Palavras chave: protesto, democracia, direta, representação, política, mbl, |
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Le Monde: Não nos representam!: Os dilemas da esquerda diante de um poder em crise
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
O voo solo dos tucanos
Helena Borges
OS PANELAÇOS REALIZADOS em bairros nobres na quarta-feira, dia 30, e a manifestação organizada pelos mesmos grupos de direita que pediram o impeachment de Dilma Rousseff, marcada para domingo, dia 4, evidenciam a queda da já pouca popularidade do presidente Michel Temer. E assim se encerra a lua-de-mel entre governo e PSDB, que se provou fogo de palha e acaba de apagar.
“Depende do presidente, não depende do PSDB”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos mais proeminentes nomes dentro do partido, nos idos de abril, pouco antes de Temer assumir o governo interino. Na mesma semana, chegou a afirmar que “o Brasil está em primeiro lugar, o partido vem depois“. No entanto, para deixar bem claro no caso de algo dar errado, arrematou: “Isso não será um governo do PSDB”.
Sete meses depois, surge o escândalo “Geddel versus Calero“, e começam a brotar indicações de um rompimento interno entre tucanos e governistas. A saída implosiva de Calero foi considerada por alguns como “o golpe dentro do golpe”. Houve quem chamasse Calero de tucano e também de espião petista. Independentemente do lado em que ele esteja, o fato é que, para acabar com a bagunça, Aécio Neves (PSDB-MG) veio a público se posicionar ao lado de Temer, num discurso extremamente alinhado ao que foi dito pelo próprio presidente:
“Há algo aí extremamente grave e que também tem que ser investigado: o fato de um servidor público, um homem até aquele instante da confiança do presidente da República, com cargo de ministro de Estado, entrar com gravador para gravar o presidente da República. Isso é inaceitável, isso é inédito na história republicana do Brasil.”
O mesmo Aécio, em setembro, disse ao jornal O Globo: “Sem apoio do PSDB, não haverá governo Temer”. Jornais mencionam na quinta-feira, dia 1º, asmovimentações internas dos tucanos. Alguns já especulam uma eleição indireta com Fernando Henrique Cardoso como opção. Caso da Folha de S. Paulo, que publicou nota na quinta-feira, dia 1º, sobre o prazo limite imposto dentro do partido para que Temer mostre a que veio e coloque, enfim, a agenda econômica liberal em dia: ele tem até março.
Para curar a ferida, o PMDB foi beijar a mão do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, principal nome tucano na economia. Foi marcada uma reunião com técnicos do Ministério da Fazenda. Fraga era um dos cotados para preencher a vaga que hoje é ocupada Henrique Meirelles. Com o encontro, aumenta a pressão sobre o ministro antes visto como a principal joia da coroa de Temer e aquele que resgataria a confiança dos investidores.
A briga é boa, e não só na economia. Em entrevista para o The Intercept Brasil, o cientista político Daniel Cara analisou a rixa entre governo e PSDB com foco no Ministério da Educação. Segundo ele, a escolha em realizar o projeto de reforma do ensino médio no formato de Medida Provisória foi um dos motivos de desentendimento entre a equipe do MEC que é ligada ao PSDB e aqueles sob a alçada do DEM, como o ministro Mendonça Filho. Ele resume a situação em uma frase: “Se o Temer não aceitar o PSDB, o PSDB vai fazer voo solo”.
(Publicado originalmente no Intercept Brasil
Editorial: O surrealista "teste institucional" entre o Poder Judiciário e o Poder Legislativo
No dia 04 de dezembro foi publicado aqui no blog um artigo do cientista político Michel Zaidan Filho, intitulado "O poder dos juízes". O artigo do professor da UFPE vem merecendo uma ampla recepção do público. E não poderia ser diferente, dada a condição de instabilidade econômica, jurídica e política em que se encontra o país, à beira de uma convulsão social, como sugeriu recentemente em entrevista o ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins. É sabido que a conformação política dividida entre os três poderes sempre foi concebida com o propósito de proporcionar um equilíbrio de forças nas decisões, tanto quanto mais próxima da justiça, evitando a chamada tirania da maioria,naturalmente contra as minorias desprotegidas. Aqui se concentra um dos primeiros elos do poder dos juízes, uma vez que o tal "equilíbrio" não poderia ser obtido nos poderes Legislativo ou Executivo, sendo remetido para as instâncias do poder Judiciário, a quem cabe a última palavra ou a "Review Justiça", ainda consoante as conclusões do professor.
Lá pelo final do artigo, o professor questiona sobre o comportamento do Poder Judiciário, mais precisamente do STF, acerca das violações constantes da Constituição Federal, promulgada em 1988, e que sofre um assédio tremendo com as medidas tomadas por este Governo, inclusive no que concerne às cláusulas pétreas. Estão aí a PEC 55 e a reforma da previdência que não nos deixam mentir. Com a proposta de 49 anos de contribuição para fazer jus a uma aposentadoria integral, segundo cálculos que andam circulando pelas redes sociais, o indivíduo teria que trabalhar dos 16 aos 65 anos, por muito pouco não "institucionalizando" a exploração do trabalho infantil. Segundo fui informado, a senhora presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia fez um contundente pronunciamento contra as manobras do senador Renan Calheiros(PMDB) no sentido de limitar a ação dos órgãos de fiscalização e controle do Estado, através de artifícios, que logo foram denunciados, inclusive pelos seus pares.
(Conteúdo exclusivo, liberado apenas para os assinantes do blog)
Turistas podem ser escravocratas por um dia em fazenda "sem racismo".
Cecília Oliveira
(este texto contém atualizações)
PAISAGEM BUCÓLICA, campos verdejantes, clima agradável. A combinação seria perfeita para degustar um café e descansar em uma fazenda no Vale do Paraíba fluminense, não tivesse corrido ali tanto sangue. A região, enriquecida pela exploração de trabalho escravo nas fazendas cafeeiras, era conhecida também pela peculiar brutalidade com que os escravizados eram tratados. Hoje a economia na região ganhou um novo fôlego: está no mapa da cultura do Rio de Janeiro* explorando um turismo que naturaliza o racismo e a escravidão.
Se você desejar ser servido por uma pessoa negra vestida como escrava em pleno 2016, você pode visitar, por exemplo, na Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, única fazenda particular tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (Iphan-RJ) no Vale do Café, construída por volta do ano de 1830. A partir de 1895, sete anos após a abolição da escravatura, a propriedade teve diversos donos até ser adquirida pelo Coronel Horácio José de Lemos, cujos descendentes são até hoje proprietários da fazenda. Os planos de restauração foram aprovados em 2013e, atualmente, a fazenda recebe visitas diárias com agendamento.

Se você desejar ser servido por uma pessoa negra vestida como uma escrava, você pode se hospedar na Fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, a 111 km do centro do Rio.
Foto: Igor Alecsander
Quando viajam para a Europa e visitam lugares como o Museu do Holocausto em Berlim, ou até mesmo em Curitiba, turistas se compadecem da dor sofrida pelo povo judeu, escravizado e exterminado pelos nazistas. Mas raramente fazem algum paralelo com os horrores da escravidão dos africanos. Choram, passam mal, postam indignação nas redes sociais e depois são capazes de passar um fim de semana ouvindo um sarau numa fazenda como essa, sendo servidos por pessoas vestidas de escravas e ciceroneados por sinhás, para fazer uma “volta ao passado”, sem nenhum senso crítico sobre a questão. E isso acontece porque o amanhã é priorizado em detrimento do ontem, como aconteceu no centro da capital fluminense com a construção do genérico Museu do Amanhã, erguido onde foi o ponto de chegada do maior contingente de negros e negras feitos escravos da história da humanidade. Os governos têm optado sistematicamente por enterrar essa parte da história.
“Racismo? Por causa de quê? Por que eu me visto de sinhá e tenho mucamas que se vestem de mucamas? Que isso! Não! Não faço nada racista aqui!”
“Geralmente eu tenho uma mucama, mas ela fugiu. Ela foi pro mato. Já mandei o capitão do mato atrás dela, mas ela não voltou (…) Quando eu quero pegar um vestido, eu digo: ‘duas mucamas, por favor!’. Porque ninguém alcança lá em cima.” Parece 1880, mas a frase é dita por Elizabeth Dolson, uma das bisnetas do coronel Lemos e proprietária da Fazenda Santa Eufrásia, ao receber turistas em suas terras, como pode ser visto nesse vídeo,onde ela se apresenta como se fosse uma sinhá. As visitas ainda são guiadas por ela, vestida com roupas de época, acompanhada de mulheres negras vestidas como escravas, servindo quem se disponha a pagar entre R$ 45 e R$ 65 pelo serviço.
Elizabeth viveu em Chicago (EUA) por 23 anos, onde trabalhava com turismo, e diz ter trazido de lá a ideia de encenar a escravidão, desconsiderando todo o debate sobre escravidão e raça feito nos EUA e Brasil. “Racismo? Por causa de quê? Por que eu me visto de sinhá e tenho mucamas que se vestem de mucamas? Que isso! Não! Não faço nada racista aqui. Qual é o problema de ter… não!”, respondeu, desconcertada, ao ser questionada sobre o racismo de seu teatro.
A sinhá tem um empregado que se veste de mucamo e contrata – de acordo com a demanda – mulheres para se vestirem de mucamas. “É um empregado, que mora aqui, que me ajuda, que se veste de mucamo também. Mas ele é branquinho! Então, a cor não tem nada a ver. Eu sou mais morena que esse empregado”, justifica.
Essa postura não é vista como um problema. Em portais com dicas de turismoé possível ver elogios como: “D. Elisabeth nos recebe com gentileza, com trajes da época e nos conta a bela história da fazenda e de sua família”.
Para o historiador Luiz Antônio Simas, colégios e universidades ensinam a pensar exclusivamente com a cabeça do ocidente. “A escola brasileira é reprodutora de valores discriminatórios e inimiga radical da transgressão necessária. Não adianta a adoção de cotas para negros e índios se o ambiente escolar continuar reproduzindo apenas uma visão de mundo branca, cristã, européia, fundamentada em conceitos pré-concebidos de civilização que negam os saberes ancestrais e as invenções de mundo afro-ameríndias”, diz.
História sem história
Ou seja, os negros em Valença — assim como no resto do país — trabalharam muito, deram o sangue — literalmente — mas não conseguiram se mover na pirâmide social. Por outro lado, os donos de fazendas — que já não pagaram por trabalho — são indenizados quando suas terras são reconhecidas como terras quilombolas, aquelas onde pessoas escravizadas e seus descentes encontravam refúgio e resistiam contra a escravidão.
É caso do Quilombo São José da Serra, em Valença. “Hoje é um dia muito importante, porque hoje nós vamos ter uma vitória, que a gente já vinha atrás dela não é de hoje.” O hoje, dito por Tio Mané, foi em abril de 2015. “Sou nascido e criado aqui. Tô com 95 anos, mas nascido aqui mesmo.” Tio Mané nasceu livre, 12 anos após a abolição, na terra onde sua mãe foi escravizada e onde hoje cria filhos, netos e bisnetos. No quilombo vivem aproximadamente 200 negros, que são a sétima geração desde os primeiros africanos feitos escravos comprados para trabalhar nas lavouras de café da fazenda de mesmo nome, São José.
Há pouco mais de um ano a Justiça reconheceu a área de 159 hectares como terra quilombola. Os proprietários foram indenizados em R$ 569 mil pela área. Escravizados renderam ganho duplo: foram forçados a trabalhar por anos e, agora, rendendo indenização na terra onde foram explorados.
Política Pública Racista
“Somos todos iguais.” “Sou neto de imigrantes e meus pais trabalharam muito para chegarem onde chegaram.” Não é raro se deparar com questionamentos como estes na tentativa de colocar em xeque políticas públicas de reparação – tais como a concessão de títulos de terras a descendentes de pessoas escravizadas e cotas – fazendo a comparação de que “meu pai chegou aqui sem nada e prosperou”.
Mas não é bem assim. O Brasil incentivou a vinda estrangeiros brancos por meio de políticas públicas, com o intuito cristalino de embranquecer a população, já que a negritude era vista como um problema a ser enfrentado.
Ainda na Primeira República, o Decreto nº 528, de 28 de junho de 1890, sujeitava à autorização especial do Congresso a entrada de pessoas vindas da Ásia e da África. O intuito de clarear a população foi reiterado ao longo dos anos. Projeto de lei, em 1921 deliberava que “fica proibida no Brasil a imigração de indivíduos humanos das raças de cor preta”. Dois anos depois, foi apresentado projeto que dizia: “É proibida a entrada de colonos da raça preta no Brasil e, quanto ao amarelo, será ela permitida, anualmente, em número correspondente a 5% dos indivíduos existentes no país”. Anos mais tarde, o Decreto-lei nº 7.967/1945, sobre a política imigratória do Brasil, estabelecia que o ingresso de imigrantes no país deveria se dar observando “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia”.
Através da imigração subvencionada, famílias brancas inteiras ganhavam passagens pagas pelo governo para emigrarem para o Brasil. Já os fazendeiros arcavam com os gastos do colono durante o seu primeiro ano de vida no país. Além disso, os colonos receberiam um salário fixo anual e mais um salário de acordo com o volume da colheita, fixado por alqueire de café produzido. Ou seja, não era só se esforçar.
Com a entrada de imigrantes, parlamentares vislumbraram a esperança de um Brasil mais branco. Congressistas começaram a articular mudanças naConstituição de 1934, com medidas que demonstrassem o que a sociedade branca e alfabetizada idealizava para a educação no Brasil, promovendo a eugenia no país.
A mesma Constituição que estabeleceu a garantia de ensino primário e sua gratuidade em todo o estado nacional brasileiro, também estabelecia, em seu artigo. 138: “estimular a educação eugênica”, ou seja, o governo estava apostando no “aperfeiçoamento da espécie humana“, através de cruzamento entre os “bem dotados biologicamente” e também o desenvolvimento de programas educacionais para a reprodução consciente de “casais saudáveis”, o cerne do nazismo. O artigo 138, estabelecia então que os mulatos, negros ou deficientes (de qualquer nível) eram limitados perante a educação, e que ações de ordem social, filantrópica ou educativas seriam apenas paliativas e não resolveriam o problema da raça.
Esse documento durou poucos anos, mas a mentalidade persistiu. Anos mais tarde, o Decreto-lei nº 7.967/1945, sobre a política imigratória do Brasil, estabelecia que o ingresso de imigrantes no país deveria se dar observando “a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia”.
Atualmente, temos uma lei que define o crime de racismo e outra que define injúria racial, que tem penas mais brandas e é mais comumente aplicada. A aplicação eufemística da lei é mais um exemplo de como o Brasil continua a negar a existência do racismo.
Como bem disse Joaquim Nabuco: “Não basta acabar com a escravidão. É preciso destruir sua obra”. Mal acabamos com um, e estamos longe de acabar com o outro.
*ATUALIZAÇÃO:
Após a publicação do texto, a Diadorim Ideia, empresa de comunicação estratégica que idealizou o mapa da Cultura do Rio em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, entrou em contato com o The Intercept Brasil informando que a Fazenda Santa Eufrásia foi retirada do Mapa. A empresa informou que a decisão foi tomada porque o “verbete [da Fazenda] está sendo associado a práticas das quais discordamos com veemência”.
Matéria publicada originalmente no Intercept Brasil
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
"Gullar sempre se interessou em surpreender o múltiplo", escreveu Alcides Villaça na Cult 210
Ferreira Gullar morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro
Ferreira Gullar durante a FLIP, em 2010 (Foto: Divulgação)
Redação
Aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor brasileiro, Ferreira Gullar, morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro. O autor estava internado há cerca de vinte dias no Hospital Copa D’Or, no Rio, devido a problemas respiratórios, segundo a Folha de S.Paulo
Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, Gullar começa a se dedicar à poesia a partir de 1943 e lança, então, Um pouco acima do chão, em 1949 e A luta corporal, em 1953. “A poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação, indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas”, escreve o professor Alcides Villaça na CULT 210 sobre a poética do autor.
“O poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático”, afirmou. O poeta e jornalista Álvaro Alves de Faria escreveu em sua conta no Twitter que, com a morte de Gullar, morre também “parte da poesia brasileira”.
Em 1959, Gullar publica no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil o Manifesto Neoconcretista, também assinado por Ligia Clark, Ligia Pape, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. O documento lançou as bases para o neoconcretismo, que defendeu a busca da experimentação de múltiplas linguagens. Com ele, Gullar deu o ponto de partida em sua trajetória teórica e crítica no campo das artes visuais.
Perseguido durante a ditadura militar, escreveu uma de suas principais obras, Poema sujo, durante o exílio em Buenos Aires, em 1976, “obra prima de Gullar”, segundo Villaça. “Lê-lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional”, escreveu.
Leia o texto de Alcides Villaça, publicado na CULT 210, na íntegra:
A poesia de Ferreira Gullar, com suas várias vozes, tem muitos pontos altos e alguns controversos, em provocadora vitalidade. A essa obra não faltam lutas pela expressão, radicalismo estético, epifanias líricas e incisivas adoções políticas: é difícil que um mesmo leitor goste de tudo, embora sempre lhe seja possível compreender a grandeza do conjunto. Vista de forma panorâmica em seus mais de sessenta anos de atividade, a melhor poesia de Gullar pode ser reconhecida, desde A luta corporal (1954), na somatória de alguns procedimentos básicos, muito marcados e mesmo obsessivos: o poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático. O que move o poeta é uma desconfiança básica diante do que não o surpreenda; em outras palavras, a qualidade do espanto parece ser o termômetro poético com que Gullar avalia as matérias que converte em poesia. Vale tentar reconhecer a variação dessas matérias, bem como a dos recursos aplicados em sua expressão.
Gullar sempre buscou traduzir a experiência vertiginosa e aprofundada que, como tempo íntimo, parece correr contra o outro, o da sequência mecanizada dos acontecimentos. Nas diferentes qualidades desses tempos – nas suas diferentes velocidades – ele vai encontrando uma poderosa fonte poética. Há a ação do passado sobre o presente e vice‑versa, há o seu ser emergente e o desafiante ser do outro, há a presença do longínquo no que está perto e a deste naquele, há o variado pulsar da vida no confronto com as sombras da morte. O desafio aceito pela arte surge para o poeta como uma contínua tradução entre esses tempos. A qualificação diversificada desse fluir, de suas várias velocidades, prende‑se à diversidade dos acontecimentos (que têm pesos diferentes), dos estratos sociais (com funções e direitos diferentes), das pessoas singulares (com desejos e interesses diferentes). Está nesse modo múltiplo de existência de tudo a razão de surpresa do poeta, de sua obsessão em escavar a qualidade de cada experiência.
Em A luta corporal (1954) a experiência fundamental está em submeter a linguagem a várias provas de expressão, para assim corresponder às várias expectativas do jovem dentro da vida e diante da arte. Num mesmo livro, o moço poeta se vale da velocidade interna das modulações de estilo, que são muito mais que exercícios de expressão: figuram perspectivas abertas (ou fechadas) para a vida, ângulos que vão da convenção literária já canonizada para a destruição da linguagem e o desventrar físico dos signos. É, de fato, uma luta, mais que uma promessa: é um grande livro de poesia. Já está clara, nele, a importância da corporeidade buscada pelo poeta. Ela vale tanto para as palavras, das quais se cobra um canto vivo e radical, como para a pessoa mesma do poeta, em cujo corpo confluem o tempo da vida e o da morte, emergência dos desejos instintivos combatendo a força implacável do apodrecimento. Estará sempre presente a sugestiva imagem do galo altivo que bate as asas e canta com esplendor, sem saber que está destinado, como tudo, à morte. A razão mesma de cantar, modulada em toda a sua trajetória poética, move muitos poemas de Gullar. Perguntado há algum tempo, num evento, sobre sua razão de poetar, respondeu algo próximo disto: “Eu preciso do poema porque tenho a necessidade de um segundo corpo”.
Necessária sempre, a poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas. A vanguarda construtivista, que chegou por breve momento a compartilhar parcialmente com os poetas concretos, foi subitamente abandonada pelo empenho numa arte politicamente engajada, de esquerda, atraída pelas referências diretas da realidade nacional e pela análise marxista. A princípio dócil a esquemas didáticos, essa nova luta corporal soube por vezes vencer a facilidade de um diagnóstico já elaborado, surgindo como percepção vital. Num poema como “Uma fotografia aérea”, por exemplo, de Dentro da noite veloz (1975), a perspectiva da visão do alto, colhida por uma câmera num avião, não impede o indivíduo de reconhecer‑se lá embaixo, em sua casa, em outro tempo: fotografia e poema espantam‑se mutuamente, conjuminados agora numa mesma tecelagem dos fios que unem o observador da foto, adulto crítico imaginando‑se menino sob aquele telhado, ao retrato social de sua antiga São Luís. Uma coisa está em outra: será este o princípio poético que irá reger a complexidade espaço‑temporal da obra‑prima de Gullar, que é o Poema sujo (1976).
Lembro, antes de mais nada, o impacto a um tempo estético e político que causou a edição desse poema‑livro entre nós, em plena Ditadura Militar. Era uma explosão doída e libertária das memórias mais vivas de um sujeito exilado e ameaçado, explosão a um tempo viril e pungente, lírica e dramática, aberta aos mais variados ritmos e andamentos. Soava, para muitos, como a reconquista da linguagem que liberta o indivíduo, repondo‑o no centro de sua própria história, como sujeito dela, compartilhada numa plataforma social. É quando a arte efetivamente traduz “uma parte na outra parte”, isto é, faz convergirem a verticalidade íntima e a horizontalidade coletiva, em que cada um reconhece no autorretrato do poeta traços de seu próprio rosto. E por que sujo? A matéria compósita da memória é trazida em bruto, vomitada, defecada, sem a feição das coisas límpidas: não pode ser asséptica uma linguagem animada pela vivacidade dos brutos espantos, da memória das palafitas, da carniça do Matadouro, das bananas podres na quitanda do pai, do apodrecimento das peras na fruteira, da sexualidade reprimida. No entanto, não se trata de vomitar palavras ao modo de certas passagens surrealistas dos anos 50: há também, no Poema sujo, princípios recorrentes de composição disciplinada, que acabam por nortear o torvelinho da memória. Lê‑lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional. Ocorre no Poema sujo um desdobramento básico do sujeito: há aquele que se cola à imanência dos fatos lembrados e há aquele que, instalado no presente da elaboração poética, interpreta e realinha esses fatos. O efeito na leitura é o de ir e vir do sensorial ao reflexivo, do afeto recolhido à avaliação das palavras. Vencendo a antiga dicotomia de luz ou sombra, fogo ou escuro, Gullar agora considera que “uma coisa está em outra”, forma dialética de encarar a composição das diferenças como uma legítima manifestação vital. Quando “uma coisa está em outra”, nenhuma se pertence completamente, nem é possível se ver a si mesma senão como parte – que presume uma outra parte, que participa, no mecanismo de um ‘traduzir‑se” que leva uma ao encontro da outra. Veja‑se como o poema “Traduzir‑se”, do livro seguinte, Na vertigem do dia (1980), constitui uma feliz expressão desse anseio de fazer convergir lírica e sociedade. Visto de perto, esse anseio parece estar presente nos títulos mesmos de vários livros do poeta. Brincando, mas não muito, pode‑se lembrar que essa poesia traça uma luta corporal dentro da noite veloz ou na vertigem do dia, compõe um poema sujo com barulhos e muitas vozes, em alguma parte alguma.
Nos dois últimos livros, Muitas vozes (1999) e Em alguma parte alguma (2010), Gullar tem feito predominar a instância lírica, ao que tudo indica libertando‑se de vez do peso ostensivo da poesia política/partidária que marcou significativamente sua obra. Mas, de qualquer modo, a luta continua: trata‑se agora de arrostar o tempo da velhice, tempo já profundamente gravado no corpo e no espírito com o peso que lhe dá a nova gravidade. Tudo se faz, aliás, em consonância com o movimento orgânico desde sempre encetado pela poesia de Gullar. Nunca teriam sido antes tão fortes como em Muitas vozes as homenagens de Gullar à vida, no que ela tem de multiplicativo, porque complexa, e de belo, porque intensa. Não me refiro apenas à qualidade estética, presente desde a juventude; refiro‑me à força vivencial que escapa da melancolia e da nostalgia, frequentes nesse estágio da vida, para render comovido tributo tanto ao acúmulo das experiências já vividas como ao sempre intenso desejo de outras novas: “Tive um sonho conclusivo:/ sonhei que a vida era um sonho/ e quando a vida acabava/ o sonhador acordava/ vivo” (“A Augusto Willemsen”). Tanto mais brilha a vida quanto mais se espelha contra o morrer. Assim também pode ocorrer com as palavras: aprendem a depurar‑se mais e mais quanto mais entendem do silêncio a que se estão furtando. A luz voraz que consome “nossos mortos/ acima da cidade” está também “zunindo feito dínamo/ naquelas manhãs velozes” (“Manhã”). Não à toa, diante da fotografia de Mallarmé, Gullar busca na pose cristalizada do poeta já meio que um busto o olhar vivo, o desejo oculto de imortalidade.
Já o título de Em alguma parte alguma reelabora a referida tradução gullariana, em que uma parte supõe a outra. O jogo se radicaliza: a parte está e não está ao mesmo tempo em si e na outra, o tempo determinado é também tempo nenhum. E Gullar, octogenário, continua a investigar o mundo com reflexão e algum espanto. As imagens da vida se fazem cada vez mais luminosas, a cidade vibra em todos os seus apelos, e se a investigação sobre a morte ameaça alçar‑se a um plano rarefeito, o poeta faz com que a poesia possa gravitar, por exemplo, numa “Reflexão sobre o osso da minha perna”, quando constata que a parte (sempre a parte) do osso é a que mais dura, ao passo que “a parte mais efêmera/ de mim/ é esta consciência de que existo”. Assim também, diante do mofo “do fundo das gavetas/ de dentro das pastas” Gullar faz ver que “É apenas/ uma mínima parte/ do incalculável arquivo morto/ esta que reacende agora/ à leitura do olhar/ e em mim/ ganha voz/ por um momento”. A luz e o fogo, mais do que antigos, querem eternizar‑se na voz do poeta. Suas percepções seguem muito vivas, e parecem ter encontrado num definitivo e assumido estatuto lírico a vocação primitiva do jovem poeta que já brigava consigo, com o mundo e com as palavras desde os anos 50. Atar as pontas da vida é um compromisso que costumam estabelecer os que postulam a maturação conclusiva.
(Publicado originalmente no site da revista Cult)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
STF afasta Renan Calheiros da Presidência do Senado Federal

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, acatou uma consulta do partido Rede Sustentabilidade e concedeu liminar afastando o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros(PMDB), de suas funções. Semana passada Renan Calheiros havia se tornado réu naquela corte, acusado de crime de peculato o que, juridicamente, tornava-se incompatível com o exercício do cargo. O caso ainda será analisado com mais calma pelos demais integrantes daquela corte, mas, a rigor, a liminar do ministro Marco Aurélio de Mello pode ser confirmada, uma vez que há um conflito aberto entre o STF e o poder legislativo, representado aqui pelo Senado Federal.
Com já disse em outras ocasiões, mas não custa repetir, nosso sistema político é mais sujo do que pau de galinheiro. Na realidade, o senhor Renan Calheiros, a rigor, nunca reuniu as mínimas condições de estar presidindo aquela Casa, assim como Eduardo Cunha, que presidia a Câmara Federal. Renan responde a diversos processos, pelos mais diferentes motivos. Como brinca o cientista político pernambucano, Michel Zaidan Filho, até aquela sua cabeleira é falsa, posto que o implante capilar pode ter sido custeado com dinheiro do erário. Creio que somente num país como o nosso fatos dessa natureza tornam-se possíveis. O líder do Governo Temer naquela Casa, senador Romero Jucá, é outro que responde a 07 processos, inclusive na Lava Jato, mas o seu chefe considera a coisa mais natural do mundo que ele articule os pleitos governamentais junto aos seus pares naquela instância legislativa.
Acabei de ler uma entrevista com o ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins, onde, entre outras coisas, ele volta a falar nas grandes reformas que os governos da coalizão petista não conseguiram realizar. Entre elas, a reforma política e a que tratava de democratização da mídia. Quanto àquela que ficaria afeita à sua pasta, segundo ele, foi feito o dever de casa, embora não tenha avançado por injunções políticas conhecidas. A reforma política foi outra que não avançou nos governos da coalizão petista. Paga-se um preço alto até hoje por isso. Em certa medida, o PT muito mais que assimilou o status quo político do que tentou mudá-lo.
Editorial: O que é mesmo a elite brasileira?
Recentemente, realizamos alguns estudos sobre a democracia brasileira. O objetivo, baseado em grandes teóricos do assunto, tinha como fulcro entender como retrocedemos. Em 2013, os institutos que medem a saúde da democracia no mundo apontavam o Brasil como uma democracia em processo de consolidação. Três anos depois, amargamos esse retrocesso proporcionado por um golpe institucional urdido por diversos atores, entre os quais setores da elite, do judiciário, da classe politica e da mídia, articulados com grandes corporações financeiras. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins, concedeu uma longa entrevista num encontro promovido pela CUT. A entrevista, como era de se esperar, repercute bastante nas redes sociais. Há, ali, uma série de posicionamentos importantes para entendermos o momento atual vivido pelo país. Não é preciso concordar com tudo que ele diz, mas, a rigor, suas reflexões nos ajudam bastante neste debate.
Vamos começar pelos pontos com os quais divergimos. Não acreditamos, como ele afirma, que este golpe foi o resultado de um oportunismo político. É como se setores golpistas canalizassem a insatisfação de grupos sociais que se colocavam contra o Governo Dilma, que era um governo fraco e tíbio. Circunstâncias e oportunismo, naturalmente, compõem o cardápio da maioria dessa classe política brasileira, sobretudo se acrescentarmos o fato de que, entre os acertos, estava em jogo o andamento da Operação La Jato. Mas, pelo que pudemos analisar, essas urdiduras foram forjadas em estertores mais consistentes, numa espécie de "onda conservadora" que sacode todo o planeta. E olha que não embarco aqui em nenhuma teoria conspiratória. São os fatos mesmos que nos levam a concluir pelo enunciado.
Cada leitor abstrai das entrevistas aquilo que melhor lhe convém. Franklin, por exemplo, é bastante feliz em alguns momentos da entrevista, como naquele em que fala nas "reformas" que, tanto em 1964 ou em 2016, estiveram na raiz do golpe. Embora o Golpe de 1964 tenha sido dado com um certo "atraso" - posto que planejado 10 anos antes - o seu estopim foi o anúncio das reformas de base preconizadas pelo Governo João Goulart. Em 2016, foram as reformas sociais em curso, que tirou 40 milhões de brasileiros da extrema pobreza, que provocou a ira dos setores conservadores de nossa sociedade. As políticas sociais de corte inclusivo nas áreas de saúde, habitação e educação - que nunca colocou tantos pobres, negros e índios no circuito das instituições públicas de ensino superior -incomodou bastante àqueles que gostariam de ver as enormes injustiças sociais do país como algo "natural" e, portanto, que deveria ser mantido "cristalizado".
Aqui, o jornalista abre um parêntese para fala um pouco sobre a torpeza de nossa elite: Nos últimos meses fui obrigado a repensar muitas coisas. A elite brasileira despreza a democracia. É um grupo de predadores. A nossa elite, na verdade, não é uma elite". Particularmente, teríamos alguns adjetivos aqui para ajudar o nosso jornalista, mas não vamos polemizar. Trata-se de uma elite de imaginário escravista, antidemocrática, insensível, para quem a injustiça social faz parte do seu show e não precisa ser combatida. Lula estava certo quando afirmava que, nos últimos 500 anos, ele teria sido o único a tentar mexer nesses padrões de relações. A nossa elite sente um prazer mórbido de se afirmar nessas "diferenças". Você sabe com quem está falando?
A relação dessa elite com os valores da democracia é tão espúria que, quando eles perdem dentro das regras do jogo, eles puxam o tapetão. Foi assim em 1964, está sendo assim em 2016. Será assim sempre, o que talvez tenha levado o historiador Sérgio Buarque de Holanda a concluir que a democracia entre nós nunca passou de um grande mal-entendido. Muito improvável que valores como a "impessoalidade", por exemplo, possa subsistir num país do homem cordial, do "favor", do tapinhas nas costas. Por vias distintas, outros nomes da intelectualidade brasileira também chegariam a essas mesmas conclusões, a exemplo de Gilberto Freyre, que mantinha divergências pontuais com Sérgio Buarque. Sérgio, que assinou a ata de fundação do Partido dos Trabalhadores, parecia bastante incomodado com este fato. Freyre, talvez nem tanto assim...
domingo, 4 de dezembro de 2016
Editorial:Os "coxinhas" voltam às ruas neste domingo. O que eles desejam?
Se o critério da ética fosse a condição exigida para o exercício de atividades políticas no país, certamente, estaríamos em maus lençóis, considerando essa leva atual de homens públicos que ocupam cargos relevantes na república. A começar, inclusive, pelos próprios integrantes do Governo do Michel Temer(PMDB), que sucedeu ao Governo da senhora Dilma Rousseff. Numa entrevista recente, ele se declarou nenhum pouco incomodado com o fato de o senador Romero Jucá(PMDB) assumir a liderança do seu governo no Senado Federal.Este cidadão responde a 07 processos, inclusive um deles envolvendo a Operação Lava Jato. Essas observações vem a propósito de um pedido do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, no sentido de afastamento imediato das funções de presidente do Senado Federal do senador Renan Calheiros, hoje réu por peculato no Supremo Tribunal Federal. Convém aqui fazer o registro de que este cidadão, que preside uma das mais altas esferas do poder legislativo brasileiro responde a 13 processos na justiça.
Nosso sistema político é mais sujo do que pau de galinheiro, mas é preciso respeitar os direitos de qualquer cidadão, do presidente do Senado Federal aos pretos e favelados, que são mais facilmente alcançados pela "justiça". Os processos aos quais responde o senador Renan Calheiros correm em suas diversas varas, onde, muito possivelmente, o amplo direito de defesa será assegurado dada a sua condição privilegiada, de um cidadão com poder econômico, político e capital simbólico. O que nos ocorre neste caso específico do pedido de afastamento imediato das suas funções como presidente do Senado Federal, é que ele tornou-se réu, a partir de ontem, no STF. No nosso modesto entendimento, parece haver aqui as condições "legais" para o seu afastamento do cargo. Em regimes de exceção como este que estamos vivendo, o direito passa a ter um caráter "relativo" ou de "conveniência", consoante os atores envolvidos.
Há dois juristas brasileiros pelos quais nutro um grande respeito, sobretudo em razão de suas cruzadas em defesa da legalidade e do Estado Democrático de Direito no Brasil, hoje bastante assediado pelos golpistas de turno. Trata-se dos juristas Pedro Serrano e Wadih Damous. Este último é um ex-presidente da OAB nacional e hoje é suplente de deputado pelo PT. Dois ex-governadores do Estado do Rio de Janeiro foram presos recentemente: Anthony Garotinho e Sérgio Cabral. De acordo como Wadih, trata-se de duas prisões ilegais e, portanto, arbitrárias. A prisão de Garotinho foi revogada por uma juíza do STE, exatamente por entendê-la irregular, uma vez que a justificativa estaria relacionada ao cometimento de crime eleitoral, onde a pena de prisão não se aplicaria. Sérgio Cabral continua atrás das grades e, segundo Wadih, também de forma irregular, uma vez que a prisão se deu sem o processo devidamente instaurado.
(Conteúdo exclusivo, liberado apenas para os assinantes do blog)
Michel Zaidan Filho: O poder dos juízes
Acabei a leitura de uma tese doutoral sobre o controle da jurisdição
constitucional pelos magistrados. Esta é uma tese que, apesar de cada vez mais
atual, não é nem simples nem unanimemente aceita. Sua origem mais remota está na
obra dos “pais fundadores” da Constituição norte-americana. Ou seja, a ideia de
que a soberania popular – expressa através de seus representantes – precisa ter
limites (a tirania da maioria). E este limite tem que está fora do Poder
Legislativo e do Poder Executivo, portanto, no Poder Judiciário. É o que se
conhece como “review Justice”. Vem daí a supremacia constitucional da Corte.
Mas há outra fonte do poder do juízes que é o controle da jurisdição
constitucional, de Hans Kelsen, em seu debate com Carl Schmidt. O controle
concentrado de constitucionalidade das leis e fatos jurídicos ganhou reputação
e se generalizou, depois da segunda guerra mundial, com o modelo preconizado
por Kelsen e corporificado na figura de um Tribunal Constitucional alemão.
A primeira
recepção brasileira do controle concentrado de constitucionalidade foi na
Constituição de 1891, copiada ou adaptada por Rui Barbosa do modelo americano.
Aqui caberia um parênteses sobre até que ponto pode-se tomar a engenharia
institucional americana como padrão ou modelo de constitucionalismo moderno.
Haja vista que até um estudioso do
Direito Constitucional norte-americano admite a necessidade de adaptação desse
modelo, levando em conta os valores, a cultura e as singularidades de cada povo
ou nação. De toda maneira, seguimos a tradição americana na relação entre os
poderes e na necessidade de se colocar esse controle fora do âmbito dos dois
outros poderes (Legislativo e o Executivo). A questão central, no entanto,
seria perguntar se esse sistema de freios e contrapesos aqui no Brasil tem
funcionado a contento, ou seja, qual o grau de autonomia, independência,
imparcialidade da Suprema Corte diante dos fatos jurídicos.
Aqui temos de
admitir que o nosso judicial é alopoiético, para usar a expressão do alemão
Luhmman. Isto é, não possui autonomia diante do sistema político, é vulnerável
a pressões e a interferência dos outros poderes. Daí se dizer que são cortes políticas, antes de qualquer coisa, e pior: sem legitimidade para dizer das
leis ou feitos legais. E o que dizer da presumida, pretensa “imparcialidade”
dos juízes? Está o excelente artigo, recém publicado, do advogado da União,
Douglas Carvalho (hoje lotado na UnB), para desmascarar esse grande impostura.
Pior, sua subserviência aos ditadores de turno, desde Floriano Peixoto, Getúlio
Vargas, os generais de 64 e agora aos mentores do golpe parlamentar contra a
Presidente Dilma. Sempre é possível se arrancar algum parecer ou sentença, de
juízes complacentes ou acovardados, para justificar atos de violência contra a
Constituição.
A
propósito, é de se ver qual será o posicionamento da alta magistratura – como
Corte Constitucional – quando nela chegar uma ação direta de
inconstitucionalidade contra a PEC dos gastos públicos, tal a quantidade de
ilegalidades e inconstitucionalidades que ela contém. Mesmo que o chamado
“efeito vinculante” das decisões desse tribunal não obriguem o Legislativo a
acatar a decisão, será muito instrutivo acompanhar a posição dos excelsos
ministros na consideração das ofensas a “cláusulas pétreas” do texto
constitucional (como a separação de poderes e o voto secreto). E o que dizer do
“ativismo judicial” ou da “judicialização das relações sociais”? – Uma mera
mudança de atitude dos ministros diante de uma mudança da ideologia
constitucional brasileira? – Ou uma tomada clara, aberta de posição por parte
dos juízes em favor de um dos partidos (de interesses) em litígio no Brasil?
Seria muito cômodo e simples analisar essa mudança de postura como resultado da
crise de representação do Poder Legislativo, assaltado por uma miríade de
corporações. Infelizmente, é mais do que isso. O atual ativismo judicial
brasileiro não é prova da autonomia, independência ou imparcialidade dos
ministros do STF; ao contrário é prova provada de sua tomada de posição. E não
necessariamente a serviço da Constituição, da Legalidade, dos Direitos e
Garantias individuais.
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE
USP lança banco de dados sobre a obra de Guimarães Rosa
No ar há uma semana, o acervo já conta com 4.079 títulos entre livros, teses e dissertações que analisam os escritos do autor mineiro
Escritor mineiro João Guimarães Rosa (Foto: divulgação)
Paulo Henrique Pompermaier
Em 2008, durante um seminário dedicado ao centenário de Guimarães Rosa em Berlim, Sandra Vasconcelos, professora titular da USP, notou que havia uma grande demanda pela produção bibliográfica sobre a obra do autor mineiro, até então organizada de maneira difusa apenas em publicações impressas. Nasceu daí o projeto de um banco de dados online que pudesse reunir este tipo de material em uma só plataforma, facilitando o trabalho de pesquisadores interessados na vida e na obra de Guimarães.
No ar há uma semana, o acervo digital já conta com 4.079 títulos entre livros, prefácios, textos de periódicos, teses, dissertações, registros de eventos e textos da web. Um acervo bibliográfico que pode crescer indefinidamente, segundo Vasconcelos, supervisora acadêmica do banco de dados e curadora do Arquivo João Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.
“A ideia é que ele tenha uma atualização permanente, como deveria acontecer com todo banco de dados, que não serve para muita coisa se estiver congelado no tempo”, afirma a professora. “Ninguém pode dizer que a totalidade dos estudos sobre Guimarães esteja contida ali [no acervo digital da USP], mas na medida em que soubermos de novas publicações, elas serão incorporadas ao nosso banco de dados.”
Segundo Vasconcelos, a ferramenta é útil tanto para estudantes quanto para pesquisadores mais experientes, já que a busca bibliográfica é o ponto de partida para qualquer trabalho acadêmico. O acervo não disponibiliza as obras em si, apenas os títulos bibliográficos. “Cada pesquisador que souber ou quiser procurar uma informação específica de bibliografia de Guimarães Rosa terá, agora, essa ferramenta”.
(Publicado originalmente no site da revista Cult)
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