pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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domingo, 29 de outubro de 2017

Durval Muniz: Cidadania e Dependência

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A sociedade brasileira foi estruturada, desde o período colonial, mediante o estabelecimento de laços de dependência entre pessoas ocupantes de distintas posições sociais. Ao chegar às terras do que viria a ser o Brasil e ao iniciar a sua colonização, os portugueses viviam a longa e particular transição entre o mundo feudal e o mundo capitalista. Embora fosse, ao mesmo tempo, a ponta de lança de um dos empreendimentos fundamentais para a emergência do mundo moderno e capitalista – a expansão marítima europeia -, e o primeiro Estado Nacional a se formar, Portugal tinha a sociedade ainda fortemente marcada pela estrutural feudal, pelos valores e mentalidade senhorial, que a centralização do poder em torno de um rei e de uma corte, ao mesmo tempo veio reforçar e colocar em novas bases. As estruturas e instituições políticas, sociais, econômicas e culturais do chamado Antigo Regime, que serviram de base para a implantação da sociedade colonial no Brasil, ainda estavam marcadas pela prevalência dos laços senhoriais de dependência, mercê, graça e favor. O rei, ocupando agora, no lugar dos antigos senhores feudais, o vértice da pirâmide social, distribuía títulos nobiliárquicos, cargos e funções, doava sesmarias, fazia mercês e favores, tudo em troca do reconhecimento por parte do súdito agraciado de sua superioridade e centralidade na própria vida social. Toda a pirâmide social se organizava a partir de laços de dependência que vinculavam, de forma descendente, a partir da figura real, todas as camadas da população. O laço de dependência, ao mesmo tempo que impunha ao dependente, ao subordinado a observância de uma série de obrigações e o próprio reconhecimento de sua subalternidade, de seu lugar na sociedade (a expressão corrente, ainda no Brasil, “ponha-se no seu lugar”, repercute esse traço dos começos de nossa sociedade), não deixava de cobrar certas reciprocidades da parte do superior hierárquico, que também possuía deveres diante de seu súdito (desde quando ele o obedecesse e o servisse adequadamente, reconhecendo sua superioridade vista como de origem divina ou natural). 

Essa estruturação de nossa sociedade através de laços de dependência vai dotá-la de alguns outros traços relevantes. A obrigação de certa reciprocidade por parte daquele visto como superior vai dar margem ao que se costuma chamar de paternalismo. O superior na hierarquia social, equiparado a superioridade que o pai deveria exercer no interior das famílias (por isso Gilberto Freyre conceituará a sociedade colonial brasileira como patriarcal, por estar centrada na figura do pai de família, na figura paterna, da qual o rei seria a encarnação para toda a ordem social), vai ser visto como uma espécie de pai a distribuir favores e benesses, a conceder honrarias e distribuir lugares de poder e de pertencimento, sempre que obedecido e homenageado, mas que, por isso mesmo, também podia distribuir punições, castigos, impropérios, humilhações públicas e até a morte, em caso de desobediência e rebelião. Por seu turno o dependente se colocará no lugar sempre infantilizado de um filho que recebe o sustento de um pai poderoso, alguém que come de sua mesa que, em dadas situações pode, inclusive, pegar para si um naco do poder de seu senhor e o exercer sobre outro dependente e subordinado como ele (o jagunço, o cabra, o capitão do mato, o pistoleiro, seriam uma espécie de prolongamento dos braços do poder discricionário e autoritário do senhorio a quem serviam) ou mesmo contra um seu inimigo poderoso (gozando, assim, do e com o poder do outro). O dependente tratará de prestar homenagens e favores, tratará de demonstrar em todos os momentos sua fidelidade ao senhor, para receber em troca as benesses que esse pode lhe conceder – essas homenagens e o próprio reconhecimento permanente de ser “gente de fulano de tal”, só tendo existência através da existência de quem serve, abdicando, assim, de uma identidade própria, de um nome próprio, pode, em muitas ocasiões ser acompanhada de uma dada astúcia, pode ser uma forma interesseira e interessada de conseguir o que quer. No teatro que é a vida social, os subordinados também aprendem os papeis que têm que desempenhar para conseguirem o que desejam. Como uma mascarada que é, a vida social é feita de performances e papeis que cada ator ou agente social aprende a realizar da melhor maneira ou, claro, que podem recusar a exercê-los.

Uma sociedade baseada nos laços de dependência também se estrutura de uma forma hierárquica, ela supõe a existência de lugares sociais bem demarcados e definidos, lugares sociais que seriam de ordem natural ou divina, não podendo ser modificados (ou pelo menos não devendo ser modificados), nem pelas mudanças de fortuna ou condição econômica. Aquele nascido nobre, o bem-nascido, o homem bom, o de boa estirpe, o de boa cepa, o gentil-homem, de “sangue azul”, mesmo que venha a desbaratar a sua fortuna continuará a ser um nobre, a ser superior ao pé rapado, ao pé de poeira, ao camumbembe, ao plebeu, à gentinha, à ralé, ao populacho, ao de sangue fraco ou ruim, mesmo que esse venha a conseguir ter fortuna, a enriquecer. A burguesia, que surgiu entre o povo, que enriqueceu com as atividades mercantis, que se tornou paulatinamente, com o desenvolvimento da sociedade capitalista, sustentadora do próprio regime, fará as revoluções burguesas para acabar com essa sociedade onde a pirâmide social era excessivamente hierárquica e rígida, organizada em estamentos, permitindo a emergência de uma sociedade organizada em classes, onde o enriquecimento e a fortuna se torna mais importante na localização social de cada pessoa do que sua origem familiar e nobiliárquica. O dinheiro substitui o sangue na definição do lugar de cada um. 

Numa sociedade baseada em laços de dependência, a troca de favor, o nepotismo, o filhotismo, a prevalência da ordem privada sobre a ordem pública, do poder pessoal e atrabiliário das elites senhorias sobre o império das leis são traços marcantes. A mentalidade senhorial se recusava a reconhecer qualquer limite externo ao poder e a vontade do senhor. Na visão senhorial de mundo (ainda muito presente entre as elites brasileiras) o mundo, a vida social e, inclusive, as ações dos demais agentes sociais deviam ser uma projeção da vontade senhorial. No mundo dos sonhos dos senhores (porque, evidentemente, na prática as coisas não aconteciam bem assim, porque esses outros, por menores que fossem, por mais subalternos que fossem, também possuíam as suas vontades) tudo à sua volta se comportava segundo seus desígnios, o mundo girava em torno de seu umbigo: as mulheres e crianças lhe obedeciam cegamente, representavam simplesmente uma continuação de seus próprios desejos. Ele ficaria muito espantado se uma mulher ou um filho manifestasse ideias ou desejos próprios (eles não eram devidamente emancipados para isso, inclusive juridicamente estavam completamente subordinados ao poder do chefe da família. Ainda, hoje, o feminismo tem que enfrentar, em nosso país, esse passado que não quer passar, que quer fazer seu eterno retorno do mesmo). Seus serviçais, seus dependentes, seus agregados, todos deviam agir como ele esperava, sem demonstrarem ter sequer formas próprias de pensar (e eles pensavam?, havia sempre um espanto quando manifestavam ideia próprias. Quando um subalterno pensa, ainda hoje, se atribui seu pensamento a má influência de algum membro das elites em disputa ou inimigo de quem é o seu superior, é sempre porque tem alguém colocando alguma coisa em sua cabeça, já que na visão senhorial elas são sempre vazias). Quando o mundo ou as pessoas começam a se comportar diferentemente de sua vontade, a face mais desagradável do patriarca, do pai, do senhor, do patrão, do superior aparece: ele pode ficar violento e capaz de tudo para vingar-se do que considera ser “uma afronta a sua honra”, podendo-a até lavá-la com derramamento de sangue, restaurando, assim, a ordem ameaçada, repondo as coisas no lugar, trazendo sua honra de volta (honra aqui pensada como um atributo indispensável de um homem, de um verdadeiro homem, aquele que não pode ser desonrado, um atributo da masculinidade, signo de virilidade e potência física e social. Enquanto a manutenção da honra feminina depende da preservação de uma fina película de carne no interior de sua vagina, a honra masculina, por ser meramente simbólica, não ter essa materialidade carnal, exige complicados processos de conquista e preservação, sendo um tormento para os homens honrados mantê-la, podendo preferirem perder a vida a se verem em desonra, a se verem diminuídos e humilhados diante dos outros homens, que são, afinal, aqueles que medem, concedem e retiram a honradez de outrem). 

Uma sociedade assentada em laços de dependência é marcada, também, portanto, pela prevalência de relações de poder autoritárias e discricionárias. Quem vê o mundo como estando a serviço de sua vontade (os homens, brancos, heterossexuais, ricos, poderosos, acham que o mundo a eles pertence) têm dificuldade de lidar com o fato de que os outros, mesmo o mais comum dos mortais, também possuem desejos, vontades, pensamentos, formas de ver o mundo, estilos de vida, formas de comportamento, valores, que podem ser diferentes e antagônicos aos seus. O não reconhecimento do direito a alteridade, a busca da identidade completa entre o que desejam e o que os outros devem também querer, faz do poderoso nesse tipo de laço social um ser intolerante, um ser imperativo, uma pessoa capaz sempre de “passar por cima dos outros”. A violência simbólica e física é a marca dessas relações que, por serem aparentadas com os laços familiares, podem, muitas vezes, ser vistas de forma adocicada e idealizada (a figura do senhor bonzinho e generoso, do pai dos pobres, da senhora bondosa e caridosa, daquele que não falta nas piores horas, que abre sua casa para o pobre, que toma café com ele, que o recebe em sua mesa, aquele que é um mandado de Deus), mas que contém um teor bastante explosivo sempre que a alteridade do outro se manifesta, quando o outro difere, quando o outro contesta, quando o outro entra em conflito, defende direitos, desejos e pensamentos próprios, nesses casos, até a eliminação do outro simbólica ou fisicamente (com a calunia, a difamação, a humilhação, a prisão, a tortura, a morte) pode se dar. 

Uma elite autocentrada, que sempre agiu como se o país fosse apenas para servi-la, para atender a seus interesses imediatos, que fazem do exercício do poder o atendimento de suas vontades, não conseguindo enxergar os demais, dificultando sobremaneira a emergência da cidadania entre nós, é produto dessa lógica da dependência. A cidadania pressupõe a igualdade de todos, pelo menos do ponto de vista jurídico e dos direitos políticos e sociais. A dependência naturaliza a diferença e a desigualdade social, naturaliza e justifica as desigualdades sociais profundas que aparecem como nascidas da própria diferença de natureza entre as pessoas (umas tendo nascido preparadas e prontas para mandar e as outras para obedecer). Como a subalternidade e a dependência vão ser encarnadas, vão marcar até os corpos das pessoas que, através de seus gestos e comportamentos expressarão essa subalternidade subjetivada (tirar o chapéu para o senhor, lhe abrir a porteira, segurar as rédeas de seu cavalo para que apeie, beijar a sua mão e pedir as bênçãos, baixar a vista e olhar para o chão sempre que estiver diante dele, nunca o encarar ou olhar nos olhos, mostrar-se sempre serviçal e disponível), a subalternidade e a dependência parecerão até biológica, corporal (haveria corpos para mandar e corpos para obedecer, vozes potentes e vozes amedrontadas e tartamudeadas, vozes de comando e vozes de obediência e homenagem). As desigualdades são também atribuídas à inferioridade racial ou de origem regional, de gênero, nacional de cada pessoa (o índio, o negro, o nordestino, as mulheres, o haitiano, seriam, por nascença, inferiores, trariam a subalternidade inscrita nas carnes, tendo nascido para ser dependentes e obedecer e, em caso de rebeldia e rebelião, conhecer a violência e a morte). Vivemos um momento em que esse autoritarismo constitutivo da sociedade brasileira, se manifesta de forma contundente: a caça ao diferente, a alteridade, àquele que discorda, que tem valores e opiniões diferentes logo são transformados em inimigos a ser abatidos pelo vitupério, pela mentira, pela calúnia, pelo xingamento, pela violência verbal e física. O diferente, o outro, não devem existir, devem ser eliminados, devem ser punidos, devem ser jogados na prisão sem a observância de seus direitos e dos rituais indispensáveis a um Estado de direito. Caso resista, deve ser caçado, espancado, vilipendiado. São seres subalternos que não reconhecem essa sua condição, que se atrevem a aparecer à luz do dia, a reivindicar direitos, a dizer não para a vontade senhorial (pobres, negros, índios, pardos, estrangeiros pobres, mulheres, nordestinos, nortistas, homossexuais, travestis, transexuais, menores, idosos, feios, iletrados, trabalhadores, aposentados, sem-terras e sem-tetos, mendigos, pedintes, meninos de rua, devem todos obedecer ou morrer, talvez, melhor, morrer obedecendo e morrer por obedecer). 

Os laços de dependência, de matriz feudal, no Brasil foram modificados e ganharam face própria com a recriação da escravidão, com a presença cotidiana e central, em nossa sociedade, da figura do escravo. Ele, mais do que um dependente, era uma propriedade senhorial, ele pertencia a alguém que o podia vender, alugar, castigar, colocá-lo a seu serviço, seja qual fosse, que o podia exigir a jornada de trabalho que bem quisesse, que o podia xingar, gritar, humilhar, arrebentar de pancadas e até matar. Esse mundo dos sonhos dos senhores, onde os escravos era “as mãos e os pés do senhor”, como afirmou o cronista Antonil, mas que não deviam possuir cabeças para pensar, que não podiam ter seus próprios desejos e vontades, continua sendo, em grande medida, o sonho não confessado de nossas elites. A recente portaria, de número 1.129, emitida pelo Ministério do Trabalho, modificando o conceito de “trabalho análogo a de escravo” e as regras de aplicação das sanções àqueles patrões que forem flagrados mantendo trabalhadores em condições degradantes de trabalho, episódio do esforço do presidente da República, em comprar os votos da bancada ruralista, para não ver passar na Câmara dos Deputados a denuncia feita contra ele pelo Ministério Público, é uma manifestação clara da presença entre as elites patronais brasileiras, notadamente do campo, de uma “nostalgia do escravo”, de um desejo de escravização que, nada mais é, do que a expressão do desejo senhorial da subordinação e da dependência completa do outro, da sua transformação em um objeto e projeção de sua vontade, na transformação do outro em um ninguém, um sem importância, uma continuidade de seu desejo, um nada, aquele que não conta, que é sua propriedade e faz o que ele quer e manda, que apenas “abaixa a crista” e obedece. O escravo por não ser um ente jurídico, por ser destituído de personalidade jurídica, embora paulatinamente essa condição fosse sendo aliviada, com a possibilidade de um homem livre, o representar e apresentar suas causas diante da justiça, o que reforçava os laços de dependência, ficava ainda mais exposto as vontades, ditames e violências senhoriais. Muitos senhores defendiam junto aos tribunais os interesses de escravos, pertencentes a outros senhores, para estabelecer com eles laços de dependência e, posteriormente, fazê-los seus dependentes e colocá-los a seus serviços. Uma sociedade atravessada por laços de dependência é uma sociedade de serviçais e servidos, ela implica a introjeção por parte dos mais pobres, do subordinado de uma imagem de si mesmo desvalorizada, degradada, como alguém de menor valor. O voto sistemático dado a pessoas das mesmas famílias parte da naturalização de que são eles os destinados a mandar e governar. A baixa participação política, a fragilidade da sociedade civil brasileira, nascem, entre outros fatores, dessa subalternidade introjetada por amplas camadas da população, que se excluem do processo político voluntariamente, por acharem que política, poder, cidadania, não é “coisa para gente como eles”. A compra de votos, o voto de cabresto, a troca do voto por favores, às vezes fortuitos e de pouca monta, nascem da vinculação dependente de boa parte da população, notadamente daqueles que vivem no meio rural e nas pequenas cidades, a dadas famílias, aos considerados poderosos, merecedores da gratidão e da obediência pelos favores que fazem e pela assistência momentânea que dão, numa sociedade marcada por muitas carências. Hoje, a compra deslavada de votos, já obedece a outro tipo de relação, onde o eleitor, notadamente nos grandes centros urbanos, está numa situação de menor dependência direta, são mais livres, mas, ao mesmo tempo, tendo subjetividades produzidas pelo capitalismo, onde tudo é visto como passível de compra e venda, vendem o seu voto, até porque consideram ser esse o único momento em que “valem alguma coisa” e possuem “alguma coisa para vender ou trocar por algum benefício”. A cidadania implica a independência de pensamento e de ação, implica o rompimento da lógica da dependência que significa, por seu turno, a presença do paternalismo, da homenagem, do favoritismo, do nepotismo, do autoritarismo, do desprezo pela diferença, pelo outro, da intolerância com o diferente e com o diverso, da difícil aceitação da alteridade. A cidadania implica o reconhecimento do outro em sua diferença, em seu direito de ser diferente, de pensar distintamente, de ter valores e costumes distintos. O discurso senhorial, aquele que toma o mundo como projeção de seus desejos e valores, é arrotado todo dia no Parlamento, com muito perdigoto, na mídia, nas redes sociais, no Judiciário, nas várias instituições que compõem a sociedade, discurso onde o outro deve ser um mero decalque da identidade, vontade e pensamento de quem fala. O líder evangélico quer que todo mundo se paute por suas crenças e valores, por sua moralidade, quase sempre, hipócrita e retrógrada. O ruralista quer que os índios e quilombolas, em sua diferença étnica, de condição social, cultural e de formas de vida sumam, morram, sejam jogados para fora das terras, quando não da própria terra. Os machistas e misóginos querem que tudo que remete ao feminino, ao feminismo, a homoafetividade, sejam vistos como menores, como objetos, como abjetos, como impossível de independência, como devendo ser a projeção da vontade e do poder masculinos. Bolsonaro, Malafaia, Moro, Gilmar Mendes, Temer, Reinaldo Azevedo, Alexandre Garcia, Miriam Leitão, Alexandre Frota, MBL, Revoltados On Line, são a cara contemporânea da nossa sempiterna elite senhorial, que acha que se a realidade e as pessoas não se adequam às suas vontades, que elas sejam feitas nem que para isso seja necessário romper com a lei, com a justiça, com a Constituição, com a verdade, com as normas, nem que para isso precise se usar as instituições para pervertê-las, golpeá-las, sempre visando colocá-las a seu serviço, a serviço de seus interesses e de sua forma de enxergar o mundo. Se as pessoas resistem, que sejam espancadas, perseguidas, presas, silenciadas, invisibilizadas, estigmatizadas através de mentiras e pós-verdades. Discordar, desobedecer, pensar e ser diferente, não está no horizonte dessa gente, que guarda nos bolsos de seus ternos e vestidos longos a chibata senhorial, pronta a mostrar para o outro que ele não é e não pode ser ninguém sem ele e sua vontade, que ele não pode ousar querer ser um cidadão ou cidadã.
 
Durval Muniz é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
 
(Texto publicado originalmente no site Saiba Mais, Agência de Reportagem, aqui reproduzido com a autorização do autor)

Charge! Duke via O Dia

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

Jean Galvão

sábado, 28 de outubro de 2017

O xadrez político das eleições estaduais de 2018, em Pernambuco: Contingenciado pelos últimos movimentos, Jarbas já aceita dialogar com o PT.


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José Luiz Gomes da Silva
 
Cientista Político
 
 
A semana política no Estado foi marcada por alguns fatos que merecem uma reflexão. Na última semana, o senador Fernando Bezerra Coelho(PMDB) assumiu de vez o perfil de um provável candidato às eleições estaduais de 2018, aproveitando o momento para alfinetar o atual ocupante do Campo das Princesas, Paulo Câmara(PSB). As farpas tiveram resposta imediata dos palacianos. Mas, o que está em jogo, na realidade, é essa "desenvoltura" do senador Fernando Bezerra Coelho, nos parece que alicerçada em alguma convicção sobre o desfecho do imbróglio criado com a intervenção da Executiva Nacional do PMDB no Diretório Regional da legenda, sob o comando do vice-governador Raul Henry(PMDB), afilhado político do Deputado Federal Jarbas Vasconcelos(PMDB). Certamente, a convicção do senador é a de que, no final, serão garantidos os acordos celebrados em Brasília, com a cúpula da legenda, que entregaria o partido ao seu grupo político no Estado, permitindo que ele controle a máquina partidária peemedebista consoante os seus interesses.

Esse novo arranjo político posicionou o Deputado Federal Jarbas Vasconcelos numa espécie de "constrangimento" político, colocando-o numa situação, antes bastante confortável, para uma situação em que precisa construir "saídas" diante da nova conjuntura. É governo e tem reafirmado sua posição de encampar o projeto de reeleição do governador Paulo Câmara(PSB). Banca o apoio ao governador, dizem, até mesmo numa hipótese de o seu nome vir a ser questionado por setores da legenda socialista. Na realidade, Jarbas é um dos grandes avalistas do projeto de reeleição do governador. Diante das dificuldades, a reeleição de Paulo Câmara, embora seja apresentada como uma das prioridades da legenda para as próximas eleições de 2018, aqui na província, amiúde, as coxias explicitam a ausência de uma unanimidade.

Como disse, as circunstâncias políticas novas contingenciaram o Deputado Federal Jarbas Vasconcelos a reavaliar algumas posições. Antes, sua posição era de absoluta rejeição a qualquer hipótese de o PT vir a recompor sua aliança com os socialistas. "Se o PT entrar, eu saio", dizia ele, sempre que tal hipótese era cogitada. A questão que se coloca no momento é: sair para onde? Não que uma recomposição com os seus antigos "companheiros" seria de todo improvável. Afinal, alguns deles estavam prestigiando-o em ato de desagravo contra as manobras da direção nacional da legenda. A questão é que no grupo governista ele já assegura uma das vagas ao Senado Federal, além de não criar novos embaraços para o seu afilhado Raul Henry(PMDB), fiel escudeiro de Paulo Câmara. As duas vagas que concorrerão ao Senado Federal na chapa oposicionista estão sendo duramente disputadas.
 
O senador Humberto Costa(PT) concedeu entrevistas a emissoras de rádio nesta semana. Todas as portas estão abertas, mas algumas delas entreabertas, quiçá quase fechadas, como a possibilidade de uma candidatura própria da legenda nas eleições de 2018. Marília Arraes(PT) poderá ser rifada por se constituir numa candidatura olímpica, recheada de bons ideais, mas, na prática, pouco pragmática para a legenda, naquele raciocínio de que o partido precisa voltar a ter representantes no parlamento, de preferência assegurando a permanência do senador Humberto Costa no Senado Federal. O grande dilema da legenda seria o de se recompor com um agrupamento político que apoiou o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff. O problema de digerir isso, no entanto, parece ser maior na militância do que na cúpula da legenda. Até o Lula já andou fazendo críticas ao fato de Dilma Rousseff(PT) ter traído seus eleitores. Política tem dessas coisas...
 
A fala do senador Humberto Costa, nesta semana, se assemelha ao do personagem Lima Duarte, no filme Eu, Tu Eles, que, num diálogo com Regina Casé, afirma categórico: de nossa parte, o acordo está feito. O senador não descarta a possibilidade de uma reaproximação com os socialistas. Jarbas Vasconcelos, por sua vez, antes completamente reticente a esta hipótese, já admite a convivência com os petistas no mesmo palanque. Acabo de publicar aqui no blog uma resenha sobre o novo livro do sociólogo Jessé de Souza. Há, ali, um grande reconhecimento do legado petista, notadamente para a nossa democracia "substantiva", ao adotar uma ampla política de distribuição de renda, incluindo contingentes consideráveis de nossa sociedade ao exercício da cidadania. Convém sempre observar, senador, que, para esse contexto político, uma candidatura própria, mesmo olímpica, seria mais condizente. Infelizmente, o pragmatismo político, quase sempre, atropela a coerência. 

Editorial: A elite do atraso

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O novo livro do sociólogo Jessé Souza é daqueles que se ler de um fôlego só. A Elite do Atraso é um ponto de inflexão nos trabalhos que tentam "explica o Brasil" ou, para ser mais modesto, entender o problema crônico das desigualdades entre nós, assim como a sua banalização, traduzida no não reconhecimento do outro "desigual".  É um livro que traz para o centro do debate o legado das políticas inclusivas da era petista, responsável direta pela sua defenestração do poder e posterior criminalização de suas principais lideranças, inclusive o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O PT ousou. E ousou onde não deveria ousar, ou seja, mexer nos vis interesses dos senhores da Casa Grande. Falando-se assim, parece que estamos tratando de lugares comuns, clichês prontos, tentando justificar o injustificável, mas não é. A tese de que o PT foi apeado do poder em razão de corrupção é a mais estapafúrdia possível, uma vez que, logo em seguida, sob o beneplácito dessa elite, foi guindada ao poder uma verdadeira quadrilha. Somente os "coxinhas", formado por essa classe média guardiã dos interesses da elite, acreditaram nessa balela.

O problema do país, de acordo com o autor, não está relacionado à nossa corrupção crônica, possivelmente de matriz portuguesa, como sugere autores como o historiador Sérgio Buarque de Holanda. De acordo com Jessé, seria necessário buscar outras raízes para explicar nossa "vocação" histórica para manter um apartheid social que nunca foi rompido. Acredita o autor que a tese do "patrimonialismo", na realidade, além de "furada", assenta-se numa construção discursiva que reforça, no fundo, a manutenção dos privilégios de uma elite e a "banalização" da desigualdade, que traz, em essência, uma espécie de "despersonalização" do outro, aquele pobre, negro, excluído. Embora tenha presidido o IPEA durante os anos de 2015 e 2016, não se entenda nessa empreitada acadêmica de Jessé uma tentativa de defesa do legado petista. Trata-se de um estudo de quem, de fato, está preocupado em entender porque no, Brasil, os recursos são tão concentrados.

Infelizmente, no Brasil, já caímos no pântano da mediocridade do debate. Isso é típico de regimes fechados e autoritários. Ontem, através de editorial, lamentávamos que o debate sobre educação esteja interditado por movimentos como O MBL, Escola Sem Partido e por um ator conhecido, de filmes pornôs. Assim, é impossível levar alguma discussão a sério. Assim como Jessé, também sempre tive essa preocupação de entender esse "fenômeno" das profundas desigualdades entre nós. Reformas que interferem nos interesses da elite, por exemplo, jamais avançaram no país. Os militares estão sempre ali, dispostos a atenderem seus chamados quando eles se sentem contrariados de alguma forma. O Brasil é um arremedo de democracia representativa que sobrevive, capengamente, sobre a estufa de enclaves e dispositivos autoritários que são acionados com uma frequência inusitada.

É uma observação que ainda não encontrei no livro de Jessé, mas ele possivelmente ele irá concordar que, estabelecida as regras de continuidade desse pacto, estamos condenados ao autoritarismo, com ligeiros intervalos de funcionamento de uma democracia formal, ainda assim sob o codinome de democracia delegada, bem afeita ao conceito do cientista político argentino Guillerme O'Donnell. Ainda ancorado numa matriz de colonização portuguesa, o historiador Sérgio Buarque de Holanda observava que a democracia entre nós seria um grande mal entendido. Jessé talvez concorde com ele, mas, possivelmente, por outros motivos.

Ali pelo final da década de 30, escritores como José Lins do Rego e Gilberto Freyre, relatavam suas lamúrias em relação ao final do ciclo da economia concentrada na cana de açúcar. Amigos, Gilberto chegou a realizar uma espécie de viagem da saudade pelos engenhos da família de José do Lins do Rego, localizados em cidades da zona rural do Estado da Paraíba. Do que eles sentiam saudades mesmo? das licenciosidades sexuais entre senhores de engenho e escravas, dos grandes latifúndios; dos partidos de cana a perder de vista; do regime de trabalho escravo. De acordo com Jessé, pouca coisa mudou deste então. Somos uma sociedade escravocrata e aí sem encontra a matriz de nossa intermitente desigualdade. Não deve ser por acaso que os ruralistas ocupam um espaço tão relevante no conjunto de forças políticas que estiveram por traz das urdiduras que culminaram no golpe institucional de 2016. 

Charge! Nani

Charge! Renatoo Machado via Folha de São Paulo

Renato Machado

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero

                               
Amanda Massuela                                                                                 

Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero O sociólogo Jessé Souza, autor de 'A elite do atraso', lançado pela editora Leya (Divulgação)
 

Em A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da esquerda jamais fez: explicar o Brasil desde o ano zero. Isso porque se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção como grande problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez por todas, que as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão.
Para tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do pensamento social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende que o conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma extensão do “homem cordial” que não vê distinções entre público e privado – serve para legitimar interesses econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte de corrupção e poder.
Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor da UFABC, Jessé Souza é autor de 27 livros, incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive (2009), A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016). Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2015 e 2016, coordenou pesquisas de amplitude nacional sobre classes e desigualdade social. Em entrevista à CULT, o sociólogo critica a existência de uma interpretação dominante sobre o Brasil e aponta os motivos pelos quais a sociedade brasileira em 2017 não passa de uma continuidade da sociedade escravocrata de 500 anos atrás.
No livro você afirma que Sérgio Buarque de Holanda inaugurou uma forma de pensar o brasileiro como negatividade que se estende ao Estado, visão que teria influenciado de Raymundo Faoro a Sergio Moro. Por que essa chave de leitura tem tanta força?
Essa ideia foi montada para defender interesses econômicos. Às vezes me espanto como não se percebeu isso antes. Quando a elite paulistana perde o poder político para Vargas em 1930 – e perde para um movimento de classe média, que estava se formando no país naquela época -, ela começa a organizar um poder ideológico para condicionar o poder político a atuar conforme as suas regras. Isso foi dito, articulado, pensado. Esse pessoal já tinha fazendas de café, as grandes indústrias em São Paulo, já tinha controle sobre a produção material e aí constroem as bases para o poder simbólico – e a sociedade moderna vive desse poder simbólico. Essa elite cria a Universidade de São Paulo, que vai formar professores de outras universidades e que vai produzir conceitos importantes para que essa elite, tirando onda de que está fazendo o bem, faça efetivamente todo mundo de imbecil para que seus interesses materiais e políticos sejam preservados.
Que conceitos são esses?
São duas ideias que nos fazem de imbecis. Uma delas é a do patrimonialismo, em que há uma distorção da fonte do poder social real,  como se o Estado fosse montado para roubar, vampirizar e fazer o mal – e como se nada acontecesse no mercado. Embora seja uma instância de poder importante, no capitalismo quem comanda o poder é o mercado. Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje professam esse tipo de coisa. Sérgio Buarque inaugura [esse pensamento no Brasil], depois Raymundo Faoro dá uma profundidade histórica e Fernando Henrique Cardoso transforma isso em teoria; o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil. Mas também influenciou a esquerda. Sérgio Buarque foi um dos fundadores do PT, fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda. E como a esquerda não tem uma concepção autônoma de como a sociedade funciona, de como o Estado funciona, ela chega ao poder com um plano econômico alternativo, mais inclusivo, e acha que as pessoas por alguma mágica vão perceber que aquilo é bom pra elas. A esquerda nunca fez o que a direita e a elite fizeram.
Por que a esquerda nunca articulou uma narrativa contrária a essa?
Porque foi incapaz. Porque não foi inteligente, porque se deixou imbecilizar. Porque o tema do patrimonialismo é tratado como crítica social: “Olha, estamos descobrindo quais são as mazelas brasileiras, um gene da corrupção de 800 anos que nos toma a todos”. Isso significa que o Estado [teoricamente] vampiriza e não deixa as forças “emancipadoras” do mercado agirem – como se o mercado, em algum lugar do mundo tivesse sido emancipador por si próprio. Os países campeões do liberalismo como Inglaterra e Estados Unidos têm uma estrutura de Estado extremamente forte, foram protecionistas – e depois dizem a outros países serem o que eles mesmos nunca foram. Isso deu esse charme – o “charminho crítico”, como eu chamo – a esse tipo de ideia como o patrimonialismo, que muitas vezes a esquerda comprou.
O segundo conceito chave, também inventado na Usp, foi o populismo, que torna suspeito e criminaliza tudo aquilo que vem das classes populares – inclusive qualquer liderança associada a elas, que são também estigmatizadas e suspeitas de estarem manipulando a tolice “inata” dessas classes. Eu estudei por décadas os muito pobres e eles são muito mais inteligentes do que a classe média. Eles veem a política como o jogo dos ricos em que todo mundo rouba enquanto a classe média se deixa engambelar por esse tipo de coisa. A classe média foi montada para ser idiotizada, é uma espécie de capataz da elite entre nós.
Na história do pensamento social brasileiro nenhum intelectual chegou perto de romper com essas duas ideias, na sua opinião?
Florestan Fernandes saiu um pouco disso porque estudou dilemas e conflitos de classe; Celso Furtado foi outro genial que percebeu coisas importantes que não têm nada a ver com esses esquemas. Mas esses caras não reconstruíram a história do Brasil como um todo. Foi essa a ambição que eu tive nesse livro porque eu percebi que, para atacar esse negócio e dar nele um nocaute, é preciso fazer o que eles [a elite] fizeram: explicar o Brasil desde o ano zero. O que foi, como foi, por que somos hoje o que somos e o que isso implica para o nosso futuro. Eu tentei fazer o que esses caras não fizeram, apesar de termos tido críticos que discutiram aspectos parciais de modo extremamente importante. Mas se não reconstruirmos o todo, as lacunas do que construímos apenas parcialmente serão invadidas pela teoria dominante, daí Florestan usar o patrimonialismo e essa bobagem toda.
Esse pessoal diz que nosso berço é Portugal e que de lá vem a nossa corrupção – uma coisa que me dá raiva de tão frágil, já que corrupção é um conceito moderno que implica a noção de soberania popular que é coisa de 200 anos. O nosso berço é a escravidão, que não existia em Portugal a não ser para os muito ricos. Não era fundante, era marginal, nunca foi mais de 5%, enquanto nós fomos montados nela. Essa teoria sobre o Brasil, que se põe como científica, no fundo não vale um centavo furado. É montada a partir de ilusões do senso comum, como se a tradição cultural fosse transmitida pelo sangue. São instituições concretas que nos moldam, é a forma da família, da escola que faz com que sejamos o que somos.
No livro você comenta que um dos principais problemas do Brasil é que aqui não houve nenhum tipo de reflexão acerca da escravidão. Quais são os efeitos práticos disso na sociedade brasileira, hoje?  
Literalmente tudo. Primeiro há a naturalização da miséria e do sofrimento alheio. Todas as sociedades já foram um dia escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou com a herança escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa seja socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa, mas como um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são produzidos processos coletivos de aprendizado na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser revividos em cada um. Nós, por outro lado, mantivemos essa subhumanidade. Nós não nos importamos com a dor e com o sofrimento dos pobres, as evidências empíricas são claríssimas como a luz do sol, inegáveis para qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata pobres indiscriminadamente – e faz isso porque a classe média e a elite aplaudem. Houve recentemente essa coisa completamente absurda e bárbara das matanças nos presídios, e a classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade, ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que havia uma distinção muito clara entre quem é gente e quem não é. Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de hospital que essa classe vai ter, por exemplo, o que é uma enorme burrice porque estamos criando inimigos, ressentimento. A Alemanha fez um esforço extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha Oriental, tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente simplesmente joga no lixo esse tipo de coisa porque nunca criticamos a nossa herança escravocrata, porque acreditamos nessa baboseira de herança portuguesa da corrupção. Raymundo Faoro tratava a existência de senhores de escravos como algo banal, quando na verdade o senhor de escravo deve estar no centro [da análise], já que todas as outras instituições vão se montar a partir daí. É uma continuidade absurda de 500 anos e nós somos cegos a isso.
Como essa continuidade aparece?
A família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravos e eles ainda fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são escravos domésticos. Fazem parte de famílias desestruturadas, uma vez que na escravidão não se estimulava que o escravo tivesse família porque era preciso humilhá-lo, abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão só prospera com o ódio ao escravo e o Brasil de hoje é marcado por uma coisa central que só um cego não vê, o ódio ao pobre. A humilhação do pobre. O PT caiu não por causa da corrupção – que pode ter existido, é bom ver as provas -, mas porque tocou no grande pecado de ter diminuído um pouquinho a distância entre as classes. A distância desses 20% para os 80% é a pedra de toque para esse acordo de classes absurdo no Brasil.
O único país que se assemelha a nós no planeta é a África do Sul. Vivemos um apartheid aqui. Governos de esquerda caem, acontecem golpes de Estado toda vez que tentam diminuir essa distância entre as classes. Com isso você constrói dois planetas dentro de um mesmo país, é isso o que temos hoje. Como a classe média não pode transformar esse seu ódio ao pobre em mensagem política – porque isso seria canalhice e temos essa influência cristã -, ela utiliza o pretexto da corrupção já dado pelos nossos intelectuais no tema do patrimonialismo. Todas as elites estudaram em todas as universidades essa mesma bobagem, todo jornal repetiu e repete em pílulas essa mesma imbecilidade, fazendo com que as pessoas internalizem isso como uma verdade absoluta.
Você afirma no livro que a crise atual do Brasil é “também e principalmente uma crise de ideias”. Partindo disso, quanto dessa crise a gente pode colocar na conta da própria esquerda, já que ela nunca se mobilizou para produzir outra interpretação do Brasil?
Ela nunca se mobilizou, isso é uma fraqueza e eu acho que temos que mudar isso. Eu decidi transformar a minha vida nisso, por exemplo. Tem que começar em algum momento. Eu tive sorte porque morei muito tempo fora do Brasil e de algum modo peguei um olhar externo. Tem um grande filósofo que diz que o que propicia o conhecimento é o fato de você conhecer aquele lugar, mas estranhá-lo, ou todas as coisas viram naturais. E se tudo é natural você não interroga, não há dúvida.
Um estudo recente do Instituto Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha mostra que, numa escala de 0 a 10, a sociedade brasileira chega num índice de 8,1 na predileção por posições autoritárias, principalmente entre jovens de 16 a 24 anos. Como interpreta esse dado?
É de fácil explicação. A partir de 1980 há um partido que nasce de baixo para cima. Nunca havia existido isso entre nós, um partido que congrega trabalhadores rurais e urbanos – eu tenho muitas críticas ao PT, mas é inegável que ele foi uma inflexão importante nessa história da escravidão. E ele passa a representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente desigual. Quando você afirma que esse partido é uma organização criminosa – usando no fundo aquela ideia do populismo, de que tudo o que vem das classes populares é estigmatizado – você está afirmando que a igualdade não é um fim, mas um mero meio, uma estratégia de assalto ao Estado. Ora, para onde vai a raiva justa dos 80% dos excluídos se ela não pode ser expressa de modo político e racional? Vai ser expressa de modo pré-político, ou seja, violência pura. A Globo e a Lava Jato criaram Jair Bolsonaro, só o cego ou o mal intencionado não vê. Esse namoro com o autoritarismo tem a ver com o ataque midiático, esse conluio entre Rede Globo e Lava Jato, e eu espero que esse pessoal pague por isso um dia.  
No limite, essa chave de leitura inaugurada por Sérgio Buarque serve para justificar golpes de Estado e a Lava Jato, por exemplo?
Sim, a Lava Jato não tem nada a ver com acabar com a roubalheira. Até porque a roubalheira aumentou, isso é visível agora que temos no governo uma turma da pesada. É claro que a corrupção dos políticos existe, mas é uma gota no oceano. Esses caras são meros lacaios do mercado, os office-boy, é o que o nosso presidente é. Se você disser que o sistema inteiro é corrupto e que ele foi montado assim para que o mercado pudesse comprá-lo, aí você estaria esclarecendo alguma coisa, mas quando se diz que apenas um partido, aquele das classes populares, rouba, isso é uma mentira e um crime.
Vê saídas para essa tendência autoritária observada na sociedade brasileira?
Não tem nenhum outro modo, os seres humanos precisam ter ideias, sem ideias não dá para ir a lugar algum. É claro que isso tudo pode ficar ainda pior, a gente pode chegar a formas fascistas, mas o que a elite quer é dinheiro, se for por uma ditadura militar, se for matando gente, não tem nenhuma importância. Fato é que nesse instante de crise estamos com as vísceras à mostra e isso é uma oportunidade de vermos a podridão desse esquema que foi montado por essa elite usando e imbecilizando não só a classe média, e retirando a possibilidade de levarmos a vida de modo reflexivo. O que esse pessoal nos tirou foi a possibilidade de aprendizado da sociedade brasileira baseado na reflexão. E isso é impagável.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Drops político para reflexão: Brasil, um país suspeito





"Passei a ler com mais frequência os trabalhos do sociólogo Jessé de Souza, sobretudo a partir da leitura de um dos seus artigos sobre o pensamento do sociólogo Gilberto Freyre. O artigo ao qual faço referência tornou-se emblemático nos estudos sobre o autor de Casa Grande & Senzala, embora Sobrados e Mocambos seja o livro de Gilberto preferido por Jessé de Souza. Mas essa discussão a gente deixa para um outro momento, pois também estamos escrevendo um artigo científico sobre o assunto. Chamo a atenção, no entanto para um livro recém lançado por Jessé de Souza, com o sugestivo título A Elite do Atraso, onde o autor conclui que o problema do Brasil é o ódio ao pobre, ao destrinchar a pedra de toque da aliança antipopular construída no Brasil para preservar o privilégio, acesso aos capitais econômico e cultural, de 20% contra os 80% de excluídos. Antes de sair de casa no dia de hoje, 25, acompanhei a repercussão de uma extensa pesquisa acerca das condições e expectativas de vida da população de São Paulo. Assim como na década de 40 - quando o sociólogo Josué de Castro denunciava o drama da exclusão alimentar através do livro a Geografia da Fome - poder-se-ia falar aqui numa espécie de geografia sobre as perspectivas de vida da população de São Paulo, a partir do espaço geográfico onde ela está localizada. Ou seja, depende dos jardins. Se no Jardim Santa Ângela - um dos bairros mais pobres da periferia - ou se no Jardim Paulista, bairro nobre, de classe média-alta. 

Era ainda um jovem estudante da UFPE quando um dado nos chamou a atenção. O Recife possui um dos melhores pólos médicos do país. Creio que seja o 3º melhor do Brasil. Ele está localizado ali na Ilha do Leite, um bairro de classe média, onde os aluguéis de imóveis são supervalorizados. Mas, ali como alhures, não se foge à regra das desigualdades sociais do Brasil. Junto a este bairro está localizada uma das maiores favelas do Recife, no bairro conhecido como o Coque. Chegando-se à extremidade da Ilha do Leite, mais um passo e o indivíduo perde 20 anos de sua expectativa de vida. Isso diz muito sobre a nossa realidade social, historicamente marcada por uma elite forjada em 350 anos de trabalho escravo, que tornou-se a mais egoísta e cruel do mundo. Segundo Jessé, esse pacto de privilégios é construído com o apoio decisivo dos estratos médios da sociedade, que são os guardiões desse distanciamento em relação aos empobrecidos. A elite mesmo, essa apenas solta seus "cachorros" contra os pobres, consoantes os seus mais vis e mesquinhos interesses."

(José Luiz Gomes, cientista político, em editorial publicado aqui no blog)

Publisher: A suspicious Brazil


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I began to read more often the works of the sociologist Jesse de Souza, mainly because of the reading of one of his articles on the thought of the sociologist Gilberto Freyre. The article I refer to has become emblematic in the studies on the author of Casa Grande & Senzala, although Sobrados and Mocambos is Gilberto's favorite book by Jesse de Souza. But this discussion leaves us to another moment, because we are also writing a scientific article on the subject. I would draw attention, however, to a book recently released by Jessé de Souza, with the suggestive title The Elite of Delay, where the author concludes that Brazil's problem is hatred of the poor, by unraveling the touchstone of the antipopular alliance built in Brazil to preserve the privilege, access to economic and cultural capitals, 20% against 80% excluded. Before leaving home today, 25, I followed the repercussion of an extensive research about the living conditions and expectations of the population of São Paulo. Just as in the 1940s - when the sociologist Josué de Castro denounced the Geography of Hunger - it could be said here in a kind of geography about the life prospects of the population of São Paulo, from the geographic space where it is located . That is, it depends on the gardens. If in Jardim Ângela - one of the poorest neighborhoods on the outskirts - or if in Jardim Paulista, noble neighborhood, middle-upper class.

If the individual lives in Jardim Paulista or Morumbi, he or she may have an average life expectancy of up to 24 years higher than those living on the periphery who are victims of unemployment; without basic sanitation of the residences; more vulnerable to being hit by a stray bullet; with precarious education; without adequate average assistance; "suspects" for the simple fact of being black or poor. In addition, it significantly reduces the life expectancy of the residents of this periphery. According to one of the researchers from the Our São Paulo Network, three questions need to be answered here: a) A few years ago this research was carried out and its historical series only confirms that nothing has changed during those years, which informs that the public power does not did much to change that reality; b) Since São Paulo is the country with the highest GDP in the country, what is happening there in terms of social indicators may perhaps be applied to other regions of the country, which seems to us quite sensible; c) To reverse this situation, public policies should be directed towards balancing this game, that is, making a preferential option for the poor, which in Brazil is a great utopia, since the state apparatus is also controlled by these elites.

He was still a young UFPE student when a fact caught our attention. Recife has one of the best medical centers in the country. I think it's the 3rd best in Brazil. It is located there on Leite Island, a middle-class neighborhood where real estate rents are overvalued. But there, as elsewhere, does not escape the rule of social inequalities in Brazil. Next to this neighborhood is located one of the largest favelas of Recife, in the neighborhood known as Coque. Coming to the end of the Island of Milk, another step and the individual loses 20 years of their life expectancy. That says a lot about our social reality, historically marked by an elite forged in 350 years of slave labor, which has become the most selfish and cruel in the world. According to Jesse, this pact of privilege is built with the decisive support of the middle strata of society, who are the custodians of this detachment from the impoverished. The elite itself, it only looses its "dogs" against the poor, according to their most vile and petty interests.

Editorial: Um Brasil suspeito


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Passei a ler com mais frequência os trabalhos do sociólogo Jessé de Souza, sobretudo em razão da leitura de um dos seus artigos sobre o pensamento do sociólogo Gilberto Freyre. O artigo ao qual faço referência tornou-se emblemático nos estudos sobre o autor de Casa Grande & Senzala, embora Sobrados e Mocambos seja o livro de Gilberto preferido por Jessé de Souza. Mas essa discussão a gente deixa para um outro momento, pois também estamos escrevendo um artigo científico sobre o assunto. Chamo a atenção, no entanto para um livro recém lançado por Jessé de Souza, com o sugestivo título A Elite do Atraso, onde o autor conclui que o problema do Brasil é o ódio ao pobre, ao destrinchar a pedra de toque da aliança antipopular construída no Brasil para preservar o privilégio, aceso aos capitais econômico e cultural, de 20% contra os 80% de excluídos. Antes de sair de casa no dia de hoje, 25, acompanhei a repercussão de uma extensa pesquisa acerca das condições e expectativas de vida da população de São Paulo. Assim como na década de 40 - quando o sociólogo Josué de Castro denunciava o drama da exclusão alimentar através do livro a Geografia da Fome - poder-se-ia falar aqui numa espécie de geografia sobre as perspectivas de vida da população de São Paulo, a partir do espaço geográfico onde ela está localizada. Ou seja, depende dos jardins. Se no Jardim Ângela - um dos bairros mais pobres da periferia - ou se no Jardim Paulista, bairro nobre, de classe média-alta. 

Se o indivíduo vive no Jardim Paulista ou Morumbi, pode ter uma expectativa de vida numa média de até 24 anos superior em relação aos moradores da periferia, vítimas do desemprego; sem saneamento básico das residências; mais vulneráveis a serem atingidos por uma bala perdida; com uma educação precarizada; sem uma assistência média adequada; "suspeitos" pelo simples fato de serem negros ou pobres. Isso somado, diminui sensivelmente a expectativa de vida dos moradores dessa periferia. Pela fala de um dos pesquisadores do Rede Nossa São Paulo, três questões precisam aqui ser postas: a) Há alguns anos essa pesquisa é realizada e a sua série histórica apenas confirma que nada mudou durante esses anos, o que informa que o poder pública não fez muita coisa para mudar essa realidade; b) Como São Paulo é o Estado de maior PIB do país, o que se passa por ali em termos de indicadores sociais talvez possa ser aplicados para outras regiões do país, o que nos parece bastante sensato; c) Para reverter esse quadro, as políticas públicas deveriam ser direcionadas no sentido de procurar equilibrar esse jogo, ou seja, fazer uma opção preferencial pelos pobres, o que no Brasil é uma grande utopia, uma vez que o aparelho de Estado também é controlado por essas elites. 

Era ainda um jovem estudante da UFPE quando um dado nos chamou a atenção. O Recife possui um dos melhores pólos médicos do país. Creio que seja o 3º melhor do Brasil. Ele está localizado ali na Ilha do Leite, um bairro de classe média, onde os aluguéis de imóveis são supervalorizados. Mas, ali como alhures, não se foge à regra das desigualdades sociais do Brasil. Junto a este bairro está localizada uma das maiores favelas do Recife, no bairro conhecido como o Coque. Chegando-se à extremidade da Ilha do Leite, mais um passo e o indivíduo perde 20 anos de sua expectativa de vida. Isso diz muito sobre a nossa realidade social, historicamente marcada por uma elite forjada em 350 anos de trabalho escravo, que tornou-se a mais egoísta e cruel do mundo. Segundo Jessé, esse pacto de privilégios é construído com o apoio decisivo dos estratos médios da sociedade, que são os guardiões desse distanciamento em relação aos empobrecidos. A elite mesmo, essa apenas solta seus "cachorros" contra os pobres, consoantes os seus mais vis e mesquinhos interesses. 

Charge! Renato Aroeira

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Michel Zaidan: Por que Lula é tão perseguido?

 
Estive, nos   últimos dias, em Petrolina ministrando uma  palestra para os cristãos reformados da Igreja Batista sobre  a situação política do País. Nesta ocasião, pude fazer debates e alocuções em estações de rádio e blogs da terra. Também tive a oportunidade de receber um belo presente do bispo metodista, Jeová Jacinto da Silva,livro sobre a origem da formação teológica dos Presbiterianos, Batistas e  metodistas no Brasil e suas igrejas-mães na Europa e nos Estados Unidos. Embora não seja ministro religioso, não professe nenhuma confissão de fé e não tenha ido falar àquela comunidade cristã de qualquer assunto de natureza teológica ou doutrinal, admito que foi um aprendizado e tanto. Sobretudo, por sentir muito de perto o ressentimento de alguns fiéis de Igrejas evangélicas contra a figura do Presidente Lula. Fiquei me perguntando o que teria levado esses crentes a se voltarem contra Luis Inácio da Silva (LULA), ignorando o quanto ele teria feito pelo Nordeste (e Petrolina), durante a sua gestão presidencial. E  o que deixou como obra na democratização ao acesso do ensino superior. Pois é. Os crentes afirmavam que, como nordestino LULA era uma vergonha para todos nós e jamais deveria ter recebido o titulo de Doutor Honoris Causa pela  Universidade Federal de Pernambuco, entre outras instituições. Tudo isso deveria ser anulado, em reconhecimento às acusações que pesam sobre seus ombros feitas pelo juiz Sérgio Moro.

Já fui na minha vida mais anticlerical do que hoje. Aprendi, na convivência  fraterna e amiga de padres e pastores, a  ser mais tolerante e respeitador da integridade moral e da boa vontade de muitos desses ministros religiosos. Mas, mesmo assim, não consegui me conter diante de tanto preconceito, de tanta má vontade e ignorância juntas. Comecei a achar que o esforço de diferenciação social (alimentado por uma cultura de individualismo e puritanismo e de soberba e pretensão) fizeram desses fiéis  pessoas muito conservadores, anti-petistas e anti-comunistas, que odeiam tudo que se parece com pobre, preto, imigrante e nordestino. Da influencia originário do "Pietismo" das Igrejas-mãe estrangeiras  só restou a experiência pessoal da fé, o fundamentalismo bíblico e um individualismo exacerbado. É como se fosse possível recobrir o egoismo religioso como a racionalização doutrinária da Igreja, numa modalidade pobre, subdesenvolvida das lições trazidas pelas missões estrangeiras para o país, todas elas comprometidas ingenuamente com o "american way life". Será que o sonho desses crentes anti-petistas é serem americanos da periferia? - Inclusive em seu preconceito contra os pobres e negros?

E aí desembarco no Recife, informado que as intenções de voto de Marina Silva e Bolsonaro ultrapassam as  de LULA. Pronto, chegamos a uma conclusão inevitável: a desconstrução midiática do legado social, internacional,  pedagógico e regional do governo petista produziu o ovo da serpente, que poderá ser chocado nas eleições do próximo ano. Disse, na minha palestra, que a junção  da desesperança na política e o império da impunidade contra os ladrões da república produziria um voto que oscilaria entre a Cruz e a Espada. Em qualquer um dos cenários, morreríamos nós, republicanos, democratas e socialistas. Porque ambas as alternativas são conservadoras, intolerantes e têm a pretensão de salvar o mundo, ou pelo menos o Brasil. 
Meu apelo foi que nem Jesus, nem Deus aprecia os cristãos que se acovardam, se omitem ou deixam de tomar posição diante dessa  grave crise institucional  em que nos metemos. Nesta hora, ser cristão é assumir destemidamente uma defesa pública pelos valores da liberdade, da autonomia e do respeito ao direito das minorias. Amém!

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

Charge!Laerte via Folha de São Paulo

Laerte

domingo, 22 de outubro de 2017

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

Jean Galvão

Durval Muniz: Carência e cidadania

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Desde a Revolução Francesa, quando surgiram as noções de esquerda, de direita e de centro para nomear posições políticas, a partir da localização dos parlamentares na Assembleia Nacional, que discutia a proposta de Constituição que poria fim ao regime absolutista, que aqueles que se colocam à esquerda do espectro político se definem por uma maior preocupação com que o exercício da atividade política, com que o exercício da cidadania se faça em nome do atendimento aos interesses daqueles que compõe as maiorias da sociedade (na época o Terceiro Estado ou o povo), aqueles que se definiriam pelo deficit de representação política, portanto de cidadania, mas que, sobretudo se definiriam por viverem em situação de carência econômica e social. Foi como repercussão do ideário da Revolução Francesa, sobretudo na busca pela igualdade entre os humanos, que as utopias socializantes surgiram, ao longo do século XIX. As experiências, que foram chamadas pelos marxistas, de socialismos utópicos, e que resultaram em episódios como as tentativas revolucionárias de 1848, em alguns lugares da Europa e de 1871 (a chamada Comuna de Paris), na França, além da constituição de experiências comunitaristas e socializantes de várias espécies, foram inspiradas nesse afã de busca de respostas para solucionar desigualdades e carências. Enquanto as experiências anarquistas enfatizavam muito mais a questão da liberdade, tomando a igualdade como uma resultante dela, o pensamento marxista enfatizava primeiro a igualdade, tomando ela como pré-condição da liberdade. Os famosos desentendimentos entre marxistas e anarquistas no seio da Primeira Internacional dos Trabalhadores tem nessa discrepância um de seus motivadores, embora a luta por poder e controle do movimento operário também seja muito relevante. A prevalência do marxismo, sua vitória, tanto em relação ao que chamou de socialismos utópicos, quanto em relação ao anarquismo, fez as esquerdas se tornarem majoritariamente marxistas, embora com leituras diversas dessa tradição. Por seu turno, essa prevalência do marxismo no interior das esquerdas tornou o tema da igualdade e o tema da carência, notadamente de ordem econômica e social, como o cerne da elaboração de projetos políticos e da prática política das esquerdas ocidentais.
Uma visão economicista da ordem capitalista e burguesa e dos próprios projetos de transformação social tendeu a negligenciar outras dimensões da vida social. As propostas políticas das esquerdas, inclusive quando elas começam a chegar ao poder de Estado, seja através de processos revolucionários, como ocorreu com os bolcheviques na Rússia ou com os maoistas na China, seja através de eleições legislativas ou executivas, como ocorreu com a chamada social-democracia, em países como a França ou a Alemanha, ou mesmo com os comunistas na Itália ou socialistas na Espanha, Portugal, Chile, sempre enfatizaram as dimensões econômicas e sociais, em detrimento das dimensões culturais, subjetivas ou de valores, como as propostas anarquistas e algumas propostas chamadas de utópicas, como aquela encanada na figura de Charles Fourier, traziam em suas formulações. A centralidade dada as carências econômicas e sociais nas plataformas de governo das sociedades ditas socialistas e dos governos de esquerda no Ocidente, negligenciou em algumas, inclusive, a questão da liberdade, como nas chamadas ditaduras do proletariado à medida que se reduzia o político ao econômico, numa equiparação retórica e falaciosa entre socialização dos meios de produção e democracia. A chamada democracia liberal burguesa era denunciada como uma farsa por ser assentada na desigualdade e na defesa da propriedade privada. Por outro lado, essa centralidade do econômico resultou em muitos casos no dirigismo cultural e ideológico e na tentativa de padronização das subjetividades, com exigências terríveis como as levadas à efeito pela chamada Revolução Cultural chinesa.
O que assistimos nos últimos treze anos no Brasil, e o que estamos vivendo agora, se deve ao fato de que, uma vez chegando ao poder de Estado, o Partido dos Trabalhadores não conseguiu romper com essa longa tradição da esquerda marxista de achar que as camadas populares só têm carências de ordem econômica e social. O discurso de posse de Lula a esse respeito é emblemático: sua grande ambição era que ao final de seu mandato todo mundo no país pudesse tomar café, almoçar e jantar. Num país em que milhares de pessoas passavam fome, esse discurso fazia todo sentido, mas era redutor das carências das pessoas, inclusive dos pobres. Mesmo os grandes investimentos feitos em educação, em ciência e tecnologia, em cultura foram atrelados a essa lógica da carência econômica e social. Nos governos Dilma, o discurso tecnocrático e desenvolvimentista se tornou hegemônico nas discussões de programas e políticas educacionais e culturais, a educação foi pensada como fator de desenvolvimento econômico, na lógica dos discursos sobre educação das agências internacionais, inclusive engolindo o mito da meritocracia e da internacionalização, se esquecendo da formação política da população, de políticas de produção de subjetividades voltadas para enfrentar elementos culturais arraigados no país, como o autoritarismo, o desapreço pela democracia, o racismo, a visão senhorial, a saudade da escravidão, a misoginia, a homofobia, o preconceito contra a pobreza. Se, no governo Lula, ainda se deu passos tímidos nessa direção, o fato do Pronatec e do Ciência Sem Fronteiras terem se tornado os programas vitrines do governo Dilma, diz bem do giro tecnocrático e economicista que sua política educacional sofreu. Faltou, aos governos do PT, desde o inicio, a percepção de que o ser humano é existencialmente carente, por ser mortal, por se saber finito, por saber da possibilidade de adoecimento, pela possibilidade da perda do que lhe é mais caro, pela possibilidade do fracasso. Faltou, aos governos do PT, uma política de produção de subjetividades, o que não significava, como dados setores da direita queriam fazer crer, que os governos do PT deviam ter políticas de dirigismo cultural e ideológico, mas devia ter efetivamente disputado esse campo, não se acovardado diante das acusações de estalinismo, de promover censura, de promover lavagem cerebral. A inação do PT diante do monopólio da mídia no país, seu abandono da educação de base, a falta de clareza em relação a políticas de educação e cultura, ao lado de outros eventos ocorridos nesses últimos anos, no país, explica a onda conservadora que estamos vivendo e na qual naufragou a própria experiência petista.
Ao achar que as principais carências das pessoas são de ordem econômica, as esquerdas marxistas nunca saíram de fato do domínio das subjetividades produzidas pelo próprio capitalismo. O capitalismo não é apenas um modo de produzir mercadorias, como pensava Marx, mas uma forma de produzir subjetividades, como já defendia Max Weber. A ordem capitalista se mantém porque captura os desejos e as carências afetivas, emocionais, existências, biológicas dos seres humanos e as colocam a seu serviço. O capitalismo molda os corpos dos humanos às suas necessidades e as suas subjetividades também. O grande truque do capitalismo é transformar, justamente, carências de toda ordem em carências de consumir, de trabalhar, de lucrar, de acumular, de poupar, de investir, tornando-se o próprio sentido da vida humana. O capitalismo, embora no início tenha recriado a escravidão e se utilizado da servidão – ainda as utiliza em certas circunstâncias, desde que não sofra resistência – não necessita delas pois bastou encontrar formas de que as pessoas, os trabalhadores internalizem o feitor e o chicote. Quando achamos que o trabalho é que dá sentido ao existir, quando achamos que só se é feliz sendo proprietário de algo ou de alguém, quando nos submetemos aos maiores sacrifícios para consumir, quando nos proibimos de inúmeras coisas para poupar ou para investir, estamos subjetivamente dominados pelo capital, que não existe apenas como valor de uso ou de troca, mas como valor cultural, moral, éticos e estético. O dinheiro não é apenas um equivalente geral, aquilo que se troca por tudo, no plano econômico, mas até no plano afetivo, sexual, desejante. As pessoas gozam com o dinheiro, somente isso explica perversões como fortunas que são maiores do que qualquer um pode gastar em toda vida e que ainda busca sempre mais, apelando inclusive para a corrupção. Quando Marx aproximava o operário da prostituta, embora houvesse muito de misoginia e preconceito nisso, ele não deixava de estar correto, pois no capitalismo, até o desejo é canalizado para o capital, a propriedade, a posse. Os movimentos de prostitutas ao reivindicar serem consideradas trabalhadoras do sexo expõem não só essa equivalência, mas a captura desse movimento pela lógica do capital. Quando o dinheiro pink se torna expressão do que seria o novo poder homossexual, nada mais está explicitando do que a captura do desvio e da transgressão pelo capital, que passa a oferecer lugares de encontro, divertimento, pegação, sexo, etc, separando, inclusive, as bichas ricas das bichas pobres, vistas com desprezo e desdém.
Ainda no início do século XX, Freud já relacionava o sentimento religioso e a carência ontológica, ou seja, constituinte do próprio humano. O desamparo, ao contrário do que tendem a pensar as esquerdas, não é apenas de ordem econômica ou social, mesmo as pessoas mais privilegiadas do ponto de vista social ou da fortuna podem se sentir desamparadas e carentes. As religiões surgiram e proliferam, até hoje, para dar respostas as carências básicas do homem: carências de ordem biológica (representadas pelo adoecer e pelo morrer), carências de ordem existencial (os medos de falhar, de perder, de não ter) e as carências de reconhecimento (a necessidade de se sentir alguém ou de ser alguém para si e para os outros). Hoje vemos que, na ausência de políticas de subjetivação levadas a efeito pelas esquerdas, essas carências passaram a ser capturadas por um discurso religioso, cada vez mais conservador e retrógrado. A medida que o capitalismo deu origem a uma ordem social onde a sensação de insegurança não para de crescer, as pessoas buscam se agarrar em discursos e instituições que vendem segurança e certezas. O capitalismo já nasce através de um brutal processo de desterritorialização, com a destruição das comunidades tradicionais, com a destruição dos laços comunitários, com o processo de expropriação em massa, com o processo de migração e tráfico de pessoas para a escravidão, com o lançamento das pessoas numa vida cada vez mais incerta e desconhecida. O capitalismo gera, como nenhuma outra ordem social, a sensação de carência, insegurança e incerteza e oferece a mercadoria, o consumo, inclusive de seus produtos culturais, de suas crenças, como a saída. Vende comunidades imaginárias como as nações e as regiões, como os clubes esportivos, como substitutas da vida das aldeias, das cidades, das vilas, das comunidades tradicionais que destrói. As religiões, desde o protestantismo histórico, tendem a associar sucesso material e salvação eterna. As crenças se individualizam e, depois, se tornam mercadorias, que se vendem num aquecido mercado religioso. Há duas semanas, fui surpreendido com um carro de som, desses que fazem propaganda, a anunciar pelas ruas do bairro onde eu moro, a abertura de uma nova igreja, o texto em nada se diferenciava dos textos que anunciam abertura de lojas comercias: – Chegou, chegou em nossa cidade, venham, venham, compareçam a inauguração, serão ofertados brindes a quem comparecer, estará presente a inauguração o pastor, venham ouvi-lo, tragam a sua família e os amigos, depois de muito êxito em outras cidades, finalmente chega a Natal!. As religiões não exploram hoje apenas o medo de morrer, as carências biológicas (as doenças, prometendo milagres e curas), mas também as carências econômicas (a teologia da prosperidade, bem afeita a um modo de produção subjetiva capitalista faz as pessoas amarem o dinheiro e buscar na mercadoria e no dinheiro, inclusive, na doação do dízimo, ao mesmo tempo a salvação e o sucesso material), mas também carências de ordem afetiva e de reconhecimento (dando a elas uma fraternidade ou uma comunidade alternativa à sua solidão e as colocando em lugares de destaque que por sua condição social e, inclusive, étnica não desfrutam em outro lugar).
Em certo momento, a chamada Teologia da Libertação, no interior da Igreja Católica e de algumas religiões protestantes, articulou em suas mensagens e práticas, as carências de ordem econômica e social, com as carências de ordem existencial, subjetiva, afetiva da população e isto teve como resultado o aparecimento de inúmeras lideranças, nos meios populares e mesmo na classe média, capazes de articular a luta por cidadania social e econômica, com a luta por direitos humanos, por cidadania política entendida como luta por liberdades e valores, inclusive com militância no campo da cultura e das artes. A chamada macropolítica, foi articulada com o que o filósofo francês Félix Guattari chamou de micropolítica, a política entendida como investimento no sentindo de redirecionar nossos desejos, nossas subjetividades, não apenas nossas maneiras de pensar, mas de sentir, de imaginar, de desejar. A dura repressão perpetrada contra essa teologia pelos dois últimos Papas, conservadores, foi fatal para que, ao lado do abandono da militância de esquerda nesses campos, até por estarem no poder de Estado, o que sempre foi outro mito, vindo desde a Revolução Francesa, a ideia do Estado como demiurgo, capaz de tudo mudar e transformar de cima para baixo, o bonapartismo esquerdista, que se acentuou com o leninismo e o estalinismo, levou a essa onda conservadora que, também advém em todo momento que uma crise do capitalismo acontece. Quanto mais inseguras e carentes estão as pessoas mais facilmente elas são capturadas em seus desejos por discursos e personagens que prometem segurança e um mundo em preto e branco, um mundo maniqueísta em que tudo é certo, simples e nítido. Um mundo cheio de bruxas e bodes expiatórios a serem caçados e responsabilizados pela infelicidade, pela carência, pela solidão, pelo desamparo de cada um: o PT, Lula, Dilma, a corrupção, o homossexual, o petralha, o mortadela, o coxinha, o feminismo, a imoralidade, os políticos, etc. Bolsonaro, Malafaia, Feliciano, Moro, aparecem como objeto de desejo de carentes de todos os matizes.
Numa sociedade que nos diz, todos os dias, na TV, que só somos felizes se consumirmos dados produtos e, ao mesmo tempo, concentra riqueza, produz miséria e desigualdade, produz desemprego e trabalho precário, dá origem a uma massa de frustrados que projetam suas frustrações em dados alvos apontados pelo próprio discurso midiático, fazendo assim suas catarses coletivas. Mas também é uma sociedade que ao produzir indivíduos, ao produzir subjetividades egóicas e egoístas, como não acontecia em sociedades anteriores, onde era inconcebível alguém sobreviver sozinho ou fora de uma coletividade, gerou laços sociais cada vez mais frágeis, as chamadas relações líquidas, tratadas em ensaio fotográfico de Mayse Medeiros, nesse portal, onde a solidão e a carência afetiva e sexual é a tônica. As sociabilidades de esquerda, as políticas culturais críticas, a oferta de formas de expressão dos desejos que se dirijam para a aceitação da mudança, que se pautem pela criatividade e pela inventividade deram lugar a sociabilidades microfascistas, fragmentadas e alienadas através das redes, conectando o desejo à violência, promovendo o ódio, a raiva, o desejo de vingança e punição, o desejo de morte, gerando subjetividade reacionárias e reativas, levando ao gozo com a destruição e a agressão. Não pode haver cidadania, não pode haver projeto de transformação social que não leve a sério e discuta a produção social do desejo e a produção coletiva de subjetividades.

Durval Muniz é professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

(Publicado originalmente no site Saiba Mais, Agência de Reportagem, aqui reproduzido com a autorização do autor)

sábado, 21 de outubro de 2017

O xadrez político das eleições estaduais de 2018, em Pernambuco: Fernando Bezerra parte para o confronto com Paulo Câmara.

Resultado de imagem para Bruno Araújo/Mendonça Filho/FBC

José Luiz Gomes da Silva

Cientista Político


O senador Fernando Bezerra Coelho(PMDB) assume o protagonismo político de quem, de fato, é candidato ao Governo do Estado nas próximas eleições estaduais. Em entrevistas concedidas durante esta semana, aproveitou para alfinetar o governador Paulo Câmara(PSB), com ironias do tipo "Pernambuco está em câmara lenta". Como se sabe, o nome que deverá encabeçar a chapa da Frente de Oposição - ou Conspiração Macambirense, como prefiro - ainda não é prego batido de ponta virada. Em alguns cenários possíveis, o senador poderia liderar a chapa. Este núcleo político reúne gente com a experiência da direita, que normalmente não briga naquilo que é essencial. E, para este grupo, o essencial é mesmo conquistar o Palácio do Campo das Princesas em 2018, seja lá com que cara for. A resposta do governador não tardou muito, depois que teria sido divulgado um índice em que Pernambuco lidera, no momento, o ranking nacional de geração de empregos formais. Ué, Fernando Bezerra Coelho não disse que o Estado estava parado?
 
Na realidade, esta foi uma semana de farpas trocadas entre governistas e oposicionistas. Na ALEPE, por exemplo, durante uma audiência pública sobre segurança, o deputado Joel da Harpa(Podemos) e José Maurício(PP) quase foram às vias de fato, com direito a dedos em ristes e aqueles palavrões conhecidos. Mesmo neste clima, líderes da oposição conseguiram dialogar e propor um conjunto de sugestões ao Governo do Estado, que estava ali representado pela cúpula de segurança pública. Voltou a ser discutida a criação do Conselho de Gestão do Pacto Pela Vida, uma velha reinvindicação dessa política de segurança pública, que nunca foi materializada. Escrevi um longo e denso editorial tratando deste assunto, mas deixo esse debate para um momento mais oportuno, embora ninguém tenha a menor dúvida de este será o mote da campanha de 2018 no Estado.

O senador Fernando Bezerra Coelho parece convencido de que as liminares concedidas pela justiça em favor dos peemedebistas Raul Henry e Jarbas Vasconcelos serão revogadas pela Direção Nacional da Legenda. Ou seja, em algum momento ele terá o controle da legenda no Estado, o que o permitiria aplicar dois golpes no Campo das Princesas: retirar o PMDB da composição governista, assim como fortalece-lo na disputa entre os novos companheiros de aliança política. É conhecida a indisposição da justiça em imiscuir-se nessas contendas. Em todo caso, como ele mesmo afirmou, não existe partido regional. Pelo menos não formalmente, senador, uma vez que o PMDB, na verdade, é uma federação de partidos regionais, cada qual hegemonizado por uma liderança política local.

A Conspiração Macambirense, até o momento, age com um padrão de integração que muito nos surpreende. Ninguém é assim tão ingênuo para acreditar que haja um padrão de harmonia entre eles. Não há. No entanto, os recados ainda são sutis, como, por exemplo, a presença de pefelistas históricos no ato de desagravo a Jarbas Vasconcelos(PMDB). Seus líderes se referem sempre ao conjunto de forças que devolverá o protagonismo político nacional ao Estado de Pernambuco. FBC, embora não admita, assume contornos de um possível cabeça de chapa; o ministro Bruno Araújo(PSDB) já foi lançado candidato ao Governo do Estado, num evento recente na cidade de Gravatá; Embora um pouco retraído nos últimos meses, o senador Armando Monteiro(PTB) continua no páreo desde as eleições passadas. Mas observem, sobretudo que, independentemente de um cabeça de chapa definido - ou pelo menos ainda não informado - eles desenvolvem projetos políticos muito bem articulados. Um pouco menos Armando Monteiro(PTB), mas Bruno Araújo(PSDB), Fernando Bezerra Coelho(PMDB) e Mendonça Filho(DEM) sempre estão juntos em grandes eventos políticos no Estado relacionados às suas pastas.

Hoje acompanhei uma entrevista com o ex-governador Joaquim Francisco(PSDB). Joaquim Francisco construiu sua carreira política ligada aos Democratas. É um político ali de Macaparana, um homem de "saudade de bosta", do meio-rural, do plantio da cana, do leite quente tirado do peite da vaca. Joaquim Francisco tem algumas tiradas políticas curiosos, oriundas de sua experiência rural. Uma das mais famosas é aquela onde ele afirma que está "meditando sob a maçaranduba do tempo", ao informar ao seu interlocutor que a decisão sobre determinado assunto ainda não foi amadurecida. "Cobra que não anda não engole sapo" é outro dito popular que ele costuma usar com frequência. Durante o programa, ele afirmou que o caboclo que não se movimenta perde o bonde da história. Além dos movimentos políticos equivocados, o governador Paulo Câmara(PSB), ao que nos parece, meditou bastante sob a maçaranduba do tempo, se é que vocês nos entendem. 
 

Charge! Renato Machado via Folha de São Paulo

Renato Machado

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A sopa de letrinhas do autoritarismo brasileiro

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Uma das formas mais fáceis de reconhecer um comportamento autoritário é aquele que busca impedir a existência do outro. / Pixabay

"Fui ameaçada de estupro e de morte via redes sociais."
Em seu livro “A Batalha pela Espanha”, o escritor Antony Beevor faz uma classificação bastante útil (e óbvia) sobre as disputas em torno da Guerra Civil Espanhola: não se tratava apenas de uma batalha entre direita e esquerda, como em um primeiro momento podia parecer, mas entre um governo autoritário contra propostas libertárias.
Vivemos no Brasil uma complexidade classificatória semelhante: temos posições distintas no espectro político que podem, sendo de direita, centro ou esquerda, se colocar ao lado de certa liberdade ou de um autoritarismo.
Há, porém, uma confusão para entender quem é quem porque as siglas enganam. Afinal, temos um partido que se chama “Democratas” cuja origem histórica de suas lideranças remonta à Arena da Ditadura Civil-Militar. Ou um movimento que diz que é “livre” e fica tentando fechar exposições de museus e censurar a arte. E há ainda herdeiros de banco defendendo mantê-las abertas.
Uma das formas mais fáceis de reconhecer um comportamento autoritário é aquele que busca impedir a existência do outro, seja física – como no genocídio da juventude negra, no martírio dos povos indígenas, nos feminicídios ou nos assassinatos de LGBTs – ou subjetivamente – no apagamento dessas histórias e das vozes que reclamam seus direitos.
De acordo com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, poderíamos compreender essas situações como uma espécie de fascismo social, que ocorre quando “pessoas ou grupos sociais estão à mercê das decisões unilaterais daqueles que têm poder sobre eles”. “São formalmente cidadãos mas não têm realisticamente qualquer possibilidade de invocar eficazmente direitos de cidadania a seu favor”, explica Santos.
Semana passada vimos mais um exemplo de um impedimento de debate: uma matéria veiculada – vejam só – pela Rede Globo sobre a divisão de brinquedos entre meninos e meninas – e que tinha como uma das entrevistadas esta que vos escreve – foi motivo para uma onda de ataques e violências contra as pessoas envolvidas naquela pauta. Fui ameaçada de estupro e de morte. “Cachorra”, “pedófila”, “nojenta”, “retardada” e “comunista imunda” foram algumas das alcunhas que recebi via redes sociais.
A compreensão de parte da sociedade era que as desigualdades deveriam sim ser mantidas. Queriam, portanto, sustentar a “ideologia de gênero”, aquela que diz que as mulheres estão condenadas a serem inferiores aos homens. E por quê? Bom, aí a lista de explicações é grande, variando de repressão sexual até obedecer ordens de lideranças religiosas. Só que a forma utilizada para fazer isso foi essa que eu descrevi aí em cima: buscando anular a existência do outro, se for possível a ponto de eliminá-la.
Ainda citando Boaventura, “quanto mais vasto é o número dos que vivem em fascismo social, menor é a intensidade da democracia”. E é esse o caminho que estamos seguindo.
O debate entre direita e esquerda só pode acontecer dentro de uma democracia radical e plural – que também está longe de ser a que vigorou no Brasil pós Constituinte de 1988. Fora da democracia, não há disputa de ideias. Nós não podemos, de forma alguma, engolir essa indigesta sopa de letrinhas do autoritarismo.
* Maíra Kubík Mano é jornalista e doutora em Ciências Sociais pela Unicamp. Professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisa a participação e representação política das mulheres.
Edição: Daniela Stefano
(Publicado originalmente no site Brasil de Fato)