pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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domingo, 12 de novembro de 2017

Editorial: O festival de besteiras que assola o país.



Domingo é bom dia para lembrar do escritor Sérgio Porto, que assinava como Stanislaw Ponte Preta. Febeapá - ou o Festival de Besteiras que Assola o País - é uma de suas obras mais conhecidas. Desde o dia de ontem que começo a observar algumas cenas inusitadas no cenário político, de certo, similares às abordagens dos textos do Sérgio Porto, de quem admiramos muito o estilo. O golpe institucional de 2016 tem produzido algumas reações estranhas nos brasileiros, algo próximo a uma histeria coletiva ou impulsos inconsequentes, como um fato observado pelo historiador Durval Muniz, em seu artigo de hoje, aqui publicado, como uma grande faixa estendida em artéria principal de Natal, entre dois dos seus principais shoppings, no Rio Grande do Norte, pedindo uma intervenção militar. O ato, segundo Durval, contou com a adesão de muitas pessoas, que buzinavam e aplaudiam a iniciativa. Na realidade, uma intervenção militar explícita, porque os militares continuam ativos nos subterrâneos desse arremedo de democracia representativa que experimentamos no país. No mesmo artigo, observa o historiador, uma outra manifestação pró-Jair Bolsonaro, reuniu 12 mil pessoas, todos imbuídos do mesmo propósito.
 
As pessoas que ainda conservam algum bom-senso sabem que Jair Bolsonaro é uma aventura inconsequente, de resultados imprevisíveis. Até bem pouco tempo, a banca financeira - aquela que esteve diretamente envolvida nas tessituras que culminaram com o afastamento da presidente Dilma Rousseff(PT) da Presidência da República - pensava assim. Talvez fosse realmente ariscado investir numa candidatura tão imprevisível, apoiada por uma trupe enfurecida, capaz de fazer apologia ao estupro, pregar o ódio aos homossexuais, e idolatrar torturadores do regime militar. Que medidas esse cidadão poderia tomar no comando do país? Até o insuspeito MBL não endossaria o apoio ao seu nome. Em princípio, outro candidato estaria sendo apoiado pelo grupo, com o propósito de concorrer à Presidência da República. O engomadinho paulista seria mais previsível. Para nossa surpresa, a Folha de São Paulo de hoje traz uma matéria indicando que o empresariado já estaria "assimilando" a candidatura do ex-militar, como uma espécie de se contrapor a uma eventual candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Por seu turno, mesmo diante de uma candidatura ainda improvável, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estabelece a mesma estratégia da conciliação de classes que o conduziu ao poder no passado, aliando-se às velhas e tradicionais oligarquias nordestinas. Se voltar ao poder, será dentro daqueles "constrangimentos" bem conhecidos dos brasileiros, onde reformas importantes deixarão de ser feitas e, pior, as conduções temerárias do negócios públicos permanecerão, em nome da fatídica governabilidade, nos parâmetros do presidencialismo de coalizão. Ou seja, temos o diagnóstico da doença, mas ela não será tratada. É mais confortável jogar a radiografia na lata do lixo. Há quem aposte que, mesmo eleito, Lula seria logo em seguida apeado do poder por essas mesmas forças que agora o apoiariam. Não seria improvável, afinal, o PMDB esteve no epicentro das articulações em torno da derrubada da ex-presidente Dilma Rousseff.

E o festival de besteiras que assola o país continua, como esta discussão interna no PPS sobre as próximas eleições presidenciais, onde se apresentam como postulantes o apresentador Luciano Huck e o senador Cristovam Buarque. Já pensaram? Deve ser mesmo um páreo difícil essa escolha. Onde foi parar o nosso intelectual e acadêmico respeitado! Próceres lideres do PPS já teriam conversado com o apresentador. Até o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, esteve com Luciano Huck, que manifestou o desejo de, se eleito, contar com ele no seu governo. O PSDB, por sua vez, insiste em conservar em formol um defunto político, cujo odor tem provocado forte dores estomacais naquelas aves emplumadas. Há seis meses que eles discutem o desembarque do governo Temer e não chegam a uma decisão. O dirigente partidário ao qual nos referimos, afirmou recentemente que o partido sairia pela porta da frente. Ah, não seria a porta dos fundos uma melhor saída?

P.S.:Contexto Político: Na realidade, apesar das brincadeiras, estamos vivendo no país um clima bastante pesado, que inclui alguns ingredientes perigosos. Corrupção e mediocridade no campo político; um retrocesso inimaginável nos direitos civis e constitucionais dos cidadãos brasileiros; o aumento sensível do quadro de insegurança e violência; nuvens negras no tocante às conquistas sociais, com uma agenda regressiva que cogitou até mesmo a volta do trabalho escravo; o afrouxamento das medidas que objetivavam preservar o meio-ambiente, permitindo a farra do agronegócio até mesmo em reservas indígenas; a venda, a preço de banana podre, do patrimônio nacional, uma medida que atenta frontalmente contra a nossa soberania e autossuficiência, como observou o professor Michel Zaidan Filho em artigo aqui publicado. 

Charge! Duke via O Dia

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

Jean Galvão

Durval Muniz: O desejo autoritário

 

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Na sexta-feira à tarde, uma faixa solicitando a intervenção militar no país, foi estendida na passarela entre o shopping Via Direta e o Natal shopping. Pedestres e carros, que por ali passavam, manifestavam seu apoio, com gritos, aplausos e acionamento de buzinas. Já em 2015, uma manifestação apoiando a intervenção militar e a candidatura de Jair Bolsonaro a presidência da República, reuniu, segundo o jornal Tribuna do Norte, cerca de 12 mil pessoas, que ocuparam uma faixa da Av. Salgado Filho, vestidos de verde e amarelo e portando faixas onde se podia ler: “SOS FAB e Exército Brasileiro”, “O Olavo tem razão”, “Menos Marx e mais mísseis”.
Sempre quando isso ocorre, ficamos nos perguntando perplexos, o que essas pessoas têm na cabeça? Ficamos nos indagando das razões que podem levar a alguém reivindicar a volta da ditadura? Sempre tentamos buscar razões para que alguém deseje ver na presidência da República alguém tão despreparado, incapaz de uma ideia original sobre qualquer assunto, alguém que apenas sabe repetir bordões cheios de preconceito e ódio, que apenas sabe repetir as frases de senso comum? Nos perguntamos, como alguém em sã consciência deseja um “país livre”, como dizia uma das faixas da manifestação, o entregando a alguém claramente autoritário, para quem a liberdade não tem o menor valor, muito menos a vida e a dignidade humanas, à medida que defende abertamente a ditadura militar e a prática da tortura, além de fazer apologia do estupro, ato pelo qual já foi condenado judicialmente, da homofobia e do racismo?
Talvez o grande equívoco disso tudo é achar que está na cabeça, na razão, na consciência a resposta para nossas perguntas, para nossa perplexidade. Quando das manifestações a favor do impeachment, era comum que repórteres dos vários meios de comunicação, notadamente dos blogs e sites alternativos, interrogassem as pessoas sobre os motivos de estarem ali. Diante das respostas, a nossa perplexidade aumentava ainda mais, pois muitas das explicações nos pareciam surreais. Defendia-se a volta dos militares dizendo que se vivia uma “ditadura petista”; reivindicava-se liberdade e, ao mesmo tempo, Bolsonaro e intervenção militar; gritava-se contra a corrupção e, ao mesmo tempo, agradeciam a Eduardo Cunha por encaminhar a destituição da presidente; viam o comunismo se espalhando por todo lado, o bolivarianismo em cada esquina. Discursos raivosos e inflamados desenhavam um país que ninguém conseguia ver. Até uma bandeira do Japão foi transformada no projeto de bandeira brasileira acalentada pelos petistas. A bandeira do Brasil ia ser pintada de vermelho, os médicos cubanos faziam parte de um plano de invasão comunista. A teratologia tomava conta do país. Onde estava a racionalidade, a consciência, a inteligência nisso tudo?
Vimos colegas da universidade, para quem se considera que o uso da razão é obrigatório, pessoas informadas, bem formadas, pretensamente conscientes, usarem os argumentos mais esdrúxulos para apoiarem o impeachment. Colegas que costumam escrever, dar aulas, proferir palestras em busca da conscientização da população sobre questões de direitos humanos, gênero, sexualidade, relações raciais, problemas educacionais se tornaram eleitores de Marina e Aécio Neves (no que tinham todo direito), mas brandindo um discurso que procurava negar todos os avanços pelos quais o país passara, nos últimos anos, inclusive fingindo não ver as profundas mudanças ocorridas no ensino superior, nas universidades, no campo da educação. Lideranças históricas dos movimentos sociais de minorias a fazer um discurso de ódio e preconceito contra a candidata a presidente da República, numa retórica muito próxima a da direita. Ao invés de vermos críticas bem fundadas aos vários erros das gestões petistas, com a apresentação de alternativas ou saídas à esquerda, vimos essas pessoas aderirem a candidaturas de direita, sabidamente conservadoras, reacionárias, elitistas, corruptas, que jamais foram vistas defendendo os mesmos valores e as mesmas pautas dessas pessoas. Como explicar essas atitudes só levando em conta a racionalidade?
Há uma dimensão do social, do humano, que sempre foi negligenciada pelas esquerdas na hora de analisar os eventos e os comportamentos individuais e de grupos: o desejo. O desejo não é uma ficção, não é uma invenção dos psicanalistas e psicólogos: o desejo existe e é a principal força a mover tudo o que fazemos. No entanto, o desejo está longe de ser algo interno a cada um de nós, algo escondido, misterioso, algo que se alojaria em algum lugar de nós que não sabemos qual é. O desejo está longe de ser apenas desejo sexual, de se reduzir à sexualidade, de se esconder entre nossas pernas, de se alojar num inconsciente escondido no interior de nosso corpo ou de nossa alma. O desejo é imediatamente social, coletivo, pois ele nasce do encontro de nossos corpos, de nossos sentidos com o mundo, com os outros, com os objetos, sejam eles quais forem. O desejo não está em mim, não está no outro, está entre nós, está no meio, no encontro entre corpos, sejam eles humanos ou não. O desejo nasce quando somos afetados por alguma outra coisa do mundo, nem que seja imaginária, simbólica, imaterial. O desejo nasce com o afeto, com o toque que algum signo do mundo faz em nossos sentidos. Eu posso desejar aquelas belas pernas humanas que acabaram de passar por mim e me afetaram, como posso desejar a mercadoria que pisca para mim na vitrine do shopping. Eu posso desejar aquela comida que, através da narina, do cheiro, aguçou meu apetite, como posso desejar aquele livro que eu vi na estante da livraria.
O desejo é fluxo constante, ele não para de devir, de fluir, de nos aguilhoar, de nos cutucar, por isso ele mete medo, ele nos causa desassossego, ele nos causa insegurança. O desejo, no entanto, busca sempre conexão, agenciamento, busca sempre expressão. Como ele nasce de encontros, para que as conexões ocorram é preciso que os encontros sejam felizes, que o desejo que nasceu em um, também tenha nascido no outro (no caso das relações humanas). Desse encontro bem-sucedido nasce o amor, a felicidade, a fraternidade, a amizade, o companheirismo, a solidariedade. Quando o desejo não é correspondido ou não pode ser atendido (a mercadoria desejada não pode ser comprada, a meta não pode ser alcançada), quando os encontros não são felizes ou não se dão os bons encontros, surgirá a frustração, com ela podendo nascer o ressentimento, a raiva, o ódio, o desejo de vingança, a inveja, etc. O desejo quando consegue se conectar, quando consegue agenciar o seu objeto, ele se transforma em território existencial, em um lugar para habitar (se o meu desejo por um parceiro é correspondido posso construir o casal, o casamento, a convivência a dois como território para viver). Construído o território, nada garante que ele permanecerá existindo, que é eterno, pois o desejo não deixa de maquinar, de trabalhar: um novo encontro poderá fazer aquele território desabar, desmoronar, se desgastar (casados podemos ser afetados por outra pessoa e com isso o território matrimonial desabar), por isso o desejo é visto como caos, como perigo. O medo do desejo produz atitudes reativas, reacionárias, conservadoras, paranoides, fascistas.
O desejo para se expressar lança mão daquilo que dispomos e aprendemos no processo de socialização: as linguagens que conhecemos. Ele se utiliza de gestos, comportamentos, ações, palavras, signos, sinais para se manifestar, se fazer presente e presença. Quando o fluxo do desejo é acolhido, quando ele passa, ele se expressa através de dados recursos culturais, socialmente aprendidos (se meu desejo é acolhido pelo outro, sei disso porque ele me sinalizou com gestos, expressões faciais, com comportamentos, com palavras e ele fez isso porque eu também expressei adequadamente o que sentia utilizando dos mesmos recursos). Aprendemos a fazer rostos, gestos, posturas corporais, sinais, a dizer palavras, frases quando queremos fazer o nosso desejo chegar até o outro ou manifestá-lo. Por isso o desejo é, de saída, social e cultural, pois só se materializa, se expressa usando recursos cultural e socialmente aprendidos. Isso não significa que não possamos disfarçar os nossos desejos ou, pior, não saibamos direito o que desejamos. Como mostrou toda a obra de Freud, o desejo pode utilizar, para se expressar, das mais diferentes máscaras, ele pode simular, fantasiar, se deslocar para longe do que ele efetivamente quer.
Creio que só compreenderemos muito do que estamos vivendo, atualmente, na sociedade brasileira, se levarmos em conta, além das dimensões racionais, estruturais, macro-históricas, as dimensões subjetivas, micro-sociais, micro-políticas, ligadas ao funcionamento social e cultural dos desejos. William Reich apontou, ainda nos anos trinta, que era impossível entender a adesão de grande parte da população alemã ao nazismo, sem levar em conta as dimensões subjetivas, o funcionamento do desejo, o modo de produção de subjetividades, naquela sociedade, naquele momento histórico. Vivemos um momento de crise mundial do capitalismo e como bem tratou os filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, o capitalismo não é apenas um modo de produção de mercadorias, uma dada relação social de trabalho e exploração, mas um modo de produção de subjetividades, produzindo e capturando os desejos; oferecendo modelos de sujeitos para serem consumidos, notadamente através da propaganda e da mídia; oferecendo uma carta de valores; colocando o dinheiro e a mercadoria, a coisa, o objeto, como o equivalente geral, aquilo que substitui qualquer coisa, que vale por tudo (troco o amor pela mercadoria; o sagrado vira mercadoria; a felicidade se compra a prestações; consumir é a realização; ter coisas, acumular é objetivo de vida; ser rico, ostentar, se apropriar de tudo e de todos é objetivo máximo); aquilo que deve estar no centro da vida e da existência das pessoas, oferecendo territórios vistos como de felicidade e sucesso.
Somos uma sociedade que historicamente foi constituída por desejos autoritários, ou seja, do exercício do poder sem limites e peias. Somos uma sociedade estruturalmente atravessada por desejos de viver sem obedecer aos limites da lei, da norma, do costume, da tradição, do hábito. Ou melhor ainda, temos como herança de nossa construção como sociedade, o funcionamento coletivo do desejo pautado por tradições, costumes e hábitos autoritários. Nossa sociedade se formou a partir do desejo de conquista e de domínio, de saque e de enriquecimento rápido. O outro aqui encontrado (os indígenas) nunca foi efetivamente considerado como um igual e sempre foi tratado a partir do desejo de subjugação, subordinação, conversão, manipulação, escravização. A empresa colonial foi marcada pelo total desrespeito pelo outro, pelo diferente, pelo diverso. As relações dos colonizadores com os negros aqui aportados à força, tratados como gado, vendidos como bestas, utilizados como meros instrumentos de trabalho, não foi menos discricionária. Mesmo as relações mais amenas, de maior proximidade entre senhores e escravos, aquelas atravessadas pelo paternalismo, nunca deixaram de reafirmar a superioridade de uns sobre os outros, de reafirmar a quase inexistência do outro como humano e como ser de direito, sendo, em extremo, considerado um mero objeto de uso. Os desejos que aí nasciam traziam a marca da dominação, da subjugação, da posse, da propriedade sobre o corpo do outro. Gilberto Freyre vai falar de desejos sadomasoquistas para caracterizar dadas relações entre senhores e escravos, o que é um absurdo, dado que os escravos eram submetidos a um desejo discricionário e autoritário, eles viviam uma situação da qual não podiam se safar e que muito menos a tinham desejado ou escolhido.
Há, portanto, na própria configuração da sociedade brasileira a prevalência, notadamente no seio das elites dirigentes, de desejos autoritários, desejos de poder discricionário, de poder sem limites, de subordinação incondicional do outro a uma vontade, a um desejo sem peias, um desejo de prevalência em toda e qualquer situação (poderíamos chamar esse desejo, como faz a psicanalista Suely Rolnik, de coronel-em-nós, desejamos coronéis e desejamos ser coronéis, em todo país, não só no Nordeste). Somos uma sociedade que amamos o poder sem restrições, que somos capazes de gozar coletivamente com o arbítrio, que somos capazes de tirar prazer da humilhação do outro (os programas policiais fazem enorme sucesso humilhando publicamente pobres e pretos, o bandido, o meliante), que projetamos nossos desejos nas figuras que encarnam o que julgamos ser a autoridade sem limites (daí o desejo por Bolsonaro, Collor, etc). Estamos, por isso, muito pouco preparados para criar uma sociedade efetivamente democrática. Nossas ações políticas, como de qualquer outro povo, são movidas mais por paixões, emoções e desejos, de que por razões ou ideias. A política é, por excelência, o campo de atuação dos desejos, pois o desejar significa desde o início fazer escolhas, e fazer escolhas é tomar posições e tomar posições é essencialmente fazer política. Aqui, no Brasil, o campo da política, como em outros campos, é atravessado por desejos autoritários, pelo desejo da inexistência do diverso, do diferente, que pode chegar a ser desejo de morte, de eliminação do outro.
Recentemente houve um conflito entre grupos de direita e de esquerda no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal de Pernambuco. Um professor identificado com as ideias de direita, resolveu exibir um filme-homenagem ao guru Olavo de Carvalho. Os grupos de direita, neonazistas, compareceram prontos para um conflito, até com soqueiras de metal nas mãos. Estudantes e militantes ligados a partidos e movimentos de esquerda resolveram fazer um evento paralelo, exibindo um filme sobre a Revolução Russa. Os neonazistas passaram a provocar, ocupando a parede onde seria exibido o filme. Após troca de empurrões os dois filmes foram finalmente projetados. No final, no entanto, houve um enfrentamento em que alguns saíram feridos. Os neonazistas trataram de se fazer de vítimas da intolerância comunista e conseguiram o que queriam: aparecer na mídia e ver seu discurso veiculado. Nos dias seguintes ao conflito, o prédio do CFCH se encheu de cartazes e em alguns banheiros foram feitas pichações que diziam: “Com nazi e fascistas só na porrada ou morte”, “Vamos esmagar os nazi-fascistas”. Fiquei a me perguntar quais dos dois lados seriam mais autoritários. Quem fez essas pichações e pendurou esses cartazes, embora se considerem de esquerda no plano racional, são movidos pelo mesmo desejo de morte, de vingança, de poder sem peia daqueles que combatem. São tão autoritários e fascistas em seus desejos quanto aqueles que, no plano da macropolítica, da racionalidade, da consciência se dizem de direita. A sociedade brasileira, sua democracia, sua cidadania, caminham muito mal quando a arte da política, da negociação, do diálogo, se vê substituída pela pura e simples eliminação do oponente, até com a morte.
Quando observamos as ações e reações políticas de dados colegas da universidade, sabemos que não são as motivações racionais, não são as razões que oferecem, não são as causas que dão a suas escolhas que efetivamente explicam o que fizeram e fazem. São motivações, muitas vezes consideradas, muito mais íntimas, privadas, individuais, muito mais pessoais que as levam e levaram a tomar dadas atitudes políticas. O ressentimento, nascido de desejos não realizados, nascido das frustrações de suas ambições, as simpatias e antipatias pessoais, os conflitos com colegas de Departamento, os maus encontros, os desejos bloqueados, que não passam, que não constituem territórios, a inveja, a raiva contra dadas pessoas e instituições, as vaidades feridas, os egos maltratados, dirigem muito mais as escolhas políticas do que qualquer racionalidade. O PT, Lula, Dilma se transformaram em bodes expiatórios de todas as frustrações individuais e coletivas, objetos de todos os ressentimentos, frustrações, desilusões, carências, desejos de poder e até de desejos de morte. O país que se dane, a coletividade que pague o pato, desde que seus desejos de vingança, de poder, de reação encontrem com quem se conectar. Fico pensando, agora que o governo golpista, fruto do golpe apoiado por essas pessoas, suspendeu os aumentos de salários dos docentes até 2020 e ameaça elevar a alíquota de desconto do INSS de 11 para 14%, ou seja, nos presenteando com uma inédita redução de salários, que argumentos estão maquinando para se explicar. Os eleitores de Aécio, que sabem agora (como já sabiam) quem ele é e o que ele pretendia, como sustentam racionalmente a sua opção.
A crise do capitalismo, aliada à grave crise política e de valores em que vivemos, amplia a sensação de insegurança, de medo do futuro. Nessas conjunturas, as mudanças, as transformações sociais tornam-se mais difíceis de suportar, de encarar. As pessoas amedrontadas tendem a desejar tudo aquilo ou aquele que pareça oferecer segurança certeza, manutenção do status quo. Nesses momentos, os desejos reativos, os desejos por territórios existenciais já conhecidos, por conservar o que se tem passam a prevalecer. Além dos desejos egoístas, aqueles que pretensamente protegem o ego, a pessoa, o sujeito, a subjetividade de qualquer processo de desterritorialização (ou seja, de perda do território existencial que habita), prevalecem os desejos autoritários, aqueles que querem barrar à força, nem que seja com o uso da força, qualquer transformação social ou pessoal que possa ocorrer (daí ressurgem o fantasma do comunismo, da revolução; ataca-se o que chamam de ideologia de gênero; o feminismo e o movimento homossexual se tornam inimigos; o status quo social e racial é defendido). Nessas circunstâncias, as pessoas facilmente aderem a soluções politicas e a líderes políticos que prometem combater na porrada ou na bala todos aqueles vistos como ameaças de dissolução da família, da sociedade, da nacionalidade, da fé, de qualquer território que elas consideram sagrado e seguro.
Quanto mais frágeis, desterritorializadas, perdidas, quanto mais fracassadas, frustradas, quanto mais feridas, traumatizadas, quanto mais carentes, inseguras, dependentes, estiverem as subjetividades, mais pavor sentirão do desejo e suas conexões infindas, sua abertura para o fora, para o devir, para possíveis incontroláveis, para o ilimitado, mais grudarão em territórios, identidades, imagens de si mesmo e dos outros reativos, conservadores, reacionários. Aquele que se deixa afetar pelo corpo semelhante, morrerá de medo desse desejo e se tornará homofóbico, aderirá ao discurso e práticas homofóbicas, a figuras homofóbicas, que também partilha desse mesmo pavor diante do desejo que o aguilhoa (poderá até matar com crueldade o outro que lhe infunde esse desejo para dele se livrar). Aquele que teme os devires femininos que lhe habita reagirão em pânico diante do feminismo, das mulheres. O desejo autoritário é um desejo que, se levado às últimas consequências, inviabiliza até mesmo a vida social, pois significa o desejo que o outro não exista como limite, como fronteira, como barreira a esse desejo de poder sem contestação e sem oposição. O desejo autoritário inviabiliza a cidadania pois rejeita o contraditório, a discussão, o debate, o direito do outro ser e fazer diferente. O desejo autoritário é no fundo celibatário, onanista, pois por sua violência põe a perder todo laço social, rompe qualquer conexão, fica falando sozinho, voltado e enrolado sobre si mesmo, fechado em seu próprio mundo azedo, amargo, ressentido, gozando com sua própria impotência. A pretexto de ter todo poder, de ter tudo, de se apropriar de tudo, reduz tudo e todos a nada, a ninguém e fica assim impotente. O desejo autoritário pode reduzir tudo a cinzas na busca de conter todo o fogo do desejo.
 
(Publicado originalmente no site Saiba Mais, Agência de Reportagem, aqui reproduzido com a autorização do autor)

sábado, 11 de novembro de 2017

Portal reúne mais de duas mil obras sobre arte e história do Brasil

                                           


Portal reúne mais de duas mil obras sobre arte e história do Brasil Obras 'Couraçado São Paulo', de Edoardo de Martino; 'Vista do Rio de Janeiro tomada da Praia de Boa Viagem', de Friedrich Hagedorn e 'Miranha', de Johann Baptiste von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius (Reprodução)
 

O cotidiano na América Portuguesa, a escravidão, retratos da corte, de índios, embarcações e mares; a arquitetura de vilas e cidades, ritos religiosos. Muitos aspectos da história e da cultura brasileira podem ser observados nas 2.500 mil imagens reunidas no portal online Brasiliana Iconográfica, lançado no fim de outubro.
O site agrega parte do acervo iconográfico da Biblioteca Nacional, do Itaú Cultural, da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Instituto Moreira Salles. São desenhos, gravuras, mapas, pinturas, capas de livros e publicações raras que abrangem a atividade artística do país desde o século 17 até 1898.
“Nós, brasileiros, temos muitas imagens estrangeiras no inconsciente coletivo. Lançar um site desses contribui para a afirmação da cultura nacional”, afirma Joaquim Marçal, representante da Biblioteca Nacional.  “E também é uma afirmação diante dos estrangeiros, pois quanto mais acessarem, mais estaremos presentes no imaginário cultural de outras nações.”
  • Gravura 'Garasu' (1647), do artista Frans Post (Coleção Brasiliana Itaú/Reprodução)
  • Pintura 'Retrato de Menino' (c.1637), de Albert Eckhout, c.1637 (Coleção Brasiliana Itaú/Reprodução)
  • Desenho '[sem título]', de Manuel de Araújo Porto-Alegre (Instituto Moreira Salles, Acervo de Iconografia/Reprodução)
  • Pintura 'Porto de Santos' (1895), de Benedito Calixto (Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Coleção Brasiliana/Reprodução)
  • Desenho '[sem título]', de Manuel de Araújo Porto-Alegre (Instituto Moreira Salles, Acervo de Iconografia/Reprodução)
  • Desenho '[sem título]', de Manuel de Araújo Porto-Alegre (Instituto Moreira Salles, Acervo de Iconografia/Reprodução)
  • Gravura 'Cabocle Indien civilisé' (1834), de Jean-Baptiste Debret (Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Coleção Brasiliana/Reprodução)

Entre os aproximadamente 200 artistas há nomes como Jean-Baptiste Debret, Charles Landseer, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Benedito Calixto. Também estão sendo gradativamente armazenados artigos e publicações que analisam as obras desses artistas.
Grande parte dos estrangeiros retratavam o país na ocasião de expedições culturais e científicas. O francês Nicolas-Antoine Taunay, por exemplo, que tem obras no site,  veio ao Rio de Janeiro em 1816, na ocasião da Missão Artística Francesa. Financiada por D. João IV, ela tinha o intuito de incentivar as artes nacionais por meio dos melhores pintores europeus.
Outro caso é do cientista alemão Carl von Martius, também com obra no portal. O estudioso chegou à América Portuguesa em 1817, acompanhando a comitiva da grã-duquesa austríaca Leopoldina, que iria se casar com D. Pedro I. Estudando o bioma e a cultura da Amazônia, von Martius fez retratos dos lugares e das pessoas que viu.
Entre a curadoria dos acervos e sua organização online, a Brasiliana Iconográfica levou dois anos para ficar pronta. A inspiração foi o portal Brasiliana Fotográfica, que reúne acervos de fotos sobre a história do Brasil. Criado há dois anos pelo IMS e pela Biblioteca Nacional, ele cresce anualmente com a adesão de novas instituições.
“A ideia é que aconteça o mesmo com a Brasiliana Iconográfica, que ela ganhe novos acervos cada vez mais”, comenta Marçal. “A digitalização é uma tendência global, e, além de afirmar a cultura, disponibilizar isso para pesquisadores e estudantes constitui uma ação política.”

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

O xadrez político das eleições estaduais de 2018, em Pernambuco: O custo político da "Operação Torrentes".

 
 
 


José Luiz Gomes da Silva

Cientista Político


Na última quinta-feira, dia 09, O Estado de Pernambuco foi sacudido por uma grande operação da Polícia Federal, com o objetivo de cumprir mandados de prisão, apreensão de documentos e aquele "cardápio" já rotineiro realizado pelos seus agentes, quando de operações para apurar desvios de recursos na máquina pública. É certo que a operação tinha como alvos empresários ou agentes privados que celebraram licitações, possivelmente fraudulentas, com os agentes públicos, mas, o surpreendente nessa história é que a operação foi realizada também no Palácio do Campo das Princesas, onde 14 integrantes da Casa Militar foram postos em prisão temporária, acusados de auferirem vantagens pessoais nas licitações que ocorreram para  atender os desabrigados das enchentes ocorridas na Mata Sul, no ano de 2010. As irregularidades envolveriam 15 licitações realizadas entre os anos de 2010 e 2015, de acordo com a Controladoria-Geral da União.
 
A grande questão que se coloca agora é o custo político da Operação Torrentes. Como se sabe, o prestígio dos políticos e dos partidos está mais baixo do que poleiro de pato. É impressionante observar a reação do público em relação à publicação desses artigos de monitoramento das eleições estaduais nas redes sociais. A descrença é generalizada. Não deve ser por acaso que nada menos do que 50% dos eleitores não tem a menor ideia sobre quem deverá apoiar no próximo pleito presidencial. Se tivermos as eleições de 2018 - para salvar as aparências da democracia representativa - não se surpreendam com o grande número de abstenções, votos nulos ou brancos, numa demonstração da insatisfação da população com o nosso sistema político, comprometido até a medula em malversações de recursos públicos. Trata-se de um sistema necrosado e apodrecido, capaz de livrar a cara dos mais próceres gatunos do erário. E o povo assistindo a tudo isso. Não espanta a absoluta descrença.
 
As queixas contra a possível espetacularização nessas operações da Polícia Federal fazem algum sentido e, aqui e ali, não é improvável que equívocos possam ser cometidos, como no caso famoso do reitor da Universidade de Santa Catarina, que não resistiu às humilhações e cometeu suicídio. Antes do direito de defesa e do julgamento, em algumas situações, os indivíduos podem ser condenados e expostos à execração pública. Na edição desta semana, a Revista Veja traz uma matéria sobre as falhas cometidas neste caso, quem sabe, a revista faça  uma mea-culpa do papel da mídia nesses achincalhes e linchamentos públicos. Embora tudo isso seja possível, compete aos gestores públicos, nestes casos, apurar os fatos, punir severamente os culpados e, tanto quanto possível, impedir que fatos dessa natureza voltem a ocorrer. Apenas criticar as ações da Polícia Federal e não fazer o "dever de casa" não é um atitude que se espera de um governante. 
 
Sabe-se que há aqui uma herança maldita herdada pelo atual ocupante do Palácio do Campo das Princesas. As pessoas minimamente informadas sobre a política pernambucana nas últimas décadas sabe do que estamos falando. Há uma rotina de corte nada republicano na condução dos negócios públicos. A oposição, naturalmente, irá tirar dividendos políticos dessa situação nas próximas eleições estaduais. O sinais são claros mesmo antes dessa Operação Torrentes. E, por falar em oposição, suas principais lideranças se reuniram secretamente na semana passada para tratarem do próximo pleito. Lá estavam Armando Monteiro(PTB), Mendonça Filho(DEM), Bruno Araújo(PSDB), Fernando Bezerra Coelho(PMDB) e o ministro das Minas e Energias do Governo Temer, Fernando Filho. Não marcou presença o ministro da Defesa, Raul Jungmann(PPS), cujas relações com o Governo Paulo Câmara estavam estremecidas. Havia a possibilidade de o PPS vir a compor com este grupo, mas hoje paira a dúvida a esse respeito, uma vez que o senhor Raul Jungmann, no passado, foi bastante agraciado pelo Campo das Princesas, que puxou muita gente para o Governo, permitindo que ele assumisse o mandato.  
 
Os movimentos políticos da oposição continuam sendo intensificados e isso envolve, até mesmo, a atuação em redutos tradicionais dos socialistas. Com a aparência de ações "pontuais", de interesse apartidário, na realidade, pavimenta-se o caminho que poderá leva-los a ocupar o Campo das Princesas depois das eleições de 2018. É a velha máxima de que o mingau quente se come pelas beiradas. Não sei como eles vão se arranjar em ralação ao fato de estarem coligados com um presidente que ostenta altos índices de rejeição junto à população. Isso realmente importa para aquele prefeito do interior que recebeu uma quadra poliesportiva em sua cidade? É a velha política brasileira.   
 
  

Editorial: #ÉCoisaDePreto





Há alguns dias publicamos por aqui uma crônica sobre o novo livro do sociólogo Jessé de Souza. Como disse antes - mas repito aqui - o livro de Jessé produz uma inflexão acerca do problema crônico das desigualdades sociais no Brasil, ao apontar que não é a corrupção endêmica o nosso maior problema, mas o longo processo de relações sociais de produção marcado pelo trabalho escravo. Somos - ainda como no passado escravocrata - uma sociedade onde o negro encontra enormes dificuldades de exercer sua cidadania. Não pretendo me alongar muito em indicadores sociais, mas basta observar o perfil do nosso sistema carcerário; a incidência de jovens negros mortos em chacinas; o índice humilhante de 13 milhões de analfabetos adultos, a maioria deles localizados aqui no Nordeste, de cor negra, mulher e empobrecida. Uma herança maldita de uma sociedade construída sob o signo do trabalho escravo.

Talvez o racismo em nossa sociedade seja mais perceptível entre os estratos sociais mais elevados, mas isso não quer dizer que esse imaginário não atinja outros segmentos sociais menos favorecidos, que também fazem uso de alguns expedientes ou expressões de cunho racistas no seu cotidiano, mesmo que não proposital. Ah, se o problema ficasse somente circunscrito à emissora do plim plim e seus cupinchas do patronato golpista! Já ouvi gente muito humilde utilizando com frequência a expressão supostamente utilizada pelo âncora daquela emissora, em vídeo gravado que circulou pela internet. A atitude do jornalista da emissora é condenável, passível de punição, mas precisamos admitir que muita coisa precisa ser mudada, uma vez que o negro é tratado como uma raça inferior até mesmo entre os pardos e mestiços de nossa sociedade. 

O imaginário racista está impregnado em nossa sociedade como um todo, assim como aquela nódoa de caju que insiste em não sair, apesar dos nossos esforços em removê-la. É um tipo de racismo institucional e, como tal, precisamos contar com o apoio decisivo do aparelho de Estado para o seu correto enfrentamento. Nos Governos da Coalizão Petista tivemos alguns avanços significativos neste sentido, depois de uma grande marcha realizada até a capital federal, por lideranças dos movimentos sociais ligados à etnia negra. Além dos avanços na estrutura do aparelho de Estado - como a criação da Secretaria da Igualdade Racial, por exemplo - tivemos, logo em seguida, a materialização desse enfrentamento, como as políticas de cotas. Como se sabe, todas essas conquistas foram completamente suprimidas logo depois do golpe institucional de 2016. A agenda regressiva suprimiu direitos e garantias constitucionais; diminuiu sensivelmente a participação dos negros na concepção e implementação de política públicas; precarizou as relações de trabalho e, por muito pouco, não reintroduziu o trabalho escravo.

Como observa matéria da revista Veja desta semana, mais uma vez ficou evidente o poder das redes sociais na formação da opinião pública. Logo depois do vídeo viralizar nas redes, surgiram as famosas hashtag com temas alusivas ao assunto, como #ÉCoisaDePreto, que alcançou o primeiro lugar no Trending Topics do microblog Twitter, sempre enfatizando as realizações de alguns negros famosos. Uma campanha, a nosso ver pueril, uma vez que, logo em seguida, surgiu a hashtag #ÉCoisaDeBranco, numa tentativa de se contrapor. O que está em jogo, na realidade, é outra coisa bem mais séria. Atos de intolerância nunca estiveram tão em alta no país, sobretudo depois do golpe institucional de 2016, que dividiu a sociedade entre aqueles que desejam o recrudescimento do golpe e aqueles que advogam a volta da normalidade democrática de forma substantiva e não apenas através das "eleições" regulares, se é que elas estão garantidas. 
 

Charge! Nani

Charge! Renato Machado via Folha de São Paulo

Machado

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

É estranho que desejos democráticos sejam considerados perigosos, diz Judith Butler em São Paulo

                                          
Amanda Massuela e Helô D'Angelo
                                                                                                                                                             

É estranho que desejos democráticos sejam considerados perigosos, diz Judith Butler em SP Judith Butler no seminário internacional 'Os fins da democracia', no Sesc Pompeia (Foto Erika Mayumi/Divulgação)


 

Alvo de protestos mesmo antes de chegar ao país, a filósofa norte-americana Judith Butler participou na manhã desta terça (7) do seminário internacional “Os fins da democracia”, em São Paulo, organizado pelo Convênio Internacional de Programas de Teoria Crítica da Universidade da Califórnia em Berkeley e pelo Departamento de Filosofia da Usp em parceria com o Sesc.
Ainda que do lado de fora do Sesc Pompeia cerca de 70 pessoas carregassem cartazes e faixas com dizeres como “não à ideologia de gênero” e “meu filho, minhas regras”, do lado de dentro a discussão tinha como foco os rumos das democracias liberais na atualidade. Uma das principais teóricas dos estudos queer e de gênero, Butler exerce grande influência em outros campos teóricos e disciplinares como a Ética e a Filosofia Política.
“Se pensarmos a democracia como uma forma de governo que cujas leis e instituições refletem o desejo das pessoas, então elas devem ser livres para pensar e debater o conteúdo dessas leis e das instituições”, disse, durante a conferência de abertura, da qual também participaram Vladimir Safatle, da Usp, e Natalia Brizuela, de Berkeley. “E quando as pessoas são plurais e heterogêneas, isso significa que o pensamento deve se dedicar a conhecer e encurtar as distâncias entre elas. É estranho que esses desejos, que podemos chamar de democráticos, sejam considerados perigosos.”
Em frente ao Sesc, um grupo organizado pelos coletivos Além Das Sombras, Pompeia Sem Medo, Democracia Corintiana e Ocupe a Democracia defendia a filósofa. Usando um megafone, participantes falavam em prol da liberdade de expressão e gritavam “Fora, Temer” toda vez que o outro grupo gritava “Fora, Butler”. No final do ato, manifestantes atearam fogo em uma boneca de chapéu de bruxa e sutiã vermelho que tinha uma foto da filósofa colada no rosto.
Grupo protesta contra a presença de Judith Butler em evento do Sesc Pompeia (Foto Amanda Massuela)
É a segunda vez que Judith Butler vem ao Brasil. A primeira, em 2015 – quando esteve em São Paulo para participar do Seminário Queer, organizado pela CULT em parceria com o Sesc – já havia sido alvo de protestos, ainda que em menor escala. Recentemente, a filósofa afirmou à BBC Brasil que “a campanha em curso contra ela é um grande equívoco”.
“O conceito de gênero gera muito medo. É uma ideia muito mal compreendida e representada como caricatura. Até o papa Francisco condenou o ‘gênero como uma ideologia diabólica'”, disse.
Em sua curta fala na abertura do seminário internacional – do qual foi uma das organizadoras, e não convidada -, Butler não mencionou as polêmicas envolvendo a sua vinda, tampouco assuntos relacionados aos estudos de gênero. Falou sobre a função da teoria crítica neomarxista e sobre os caminhos da democracia.
“Talvez a democracia seja uma aspiração, talvez seja uma forma de governo, além de servir a ideais como igualdade, liberdade e justiça. A democracia é uma luta diária que requer um agrupamento do pensamento crítico dedicado a responder as forças que censuram as palavras, restringem a nossa liberdade, condenam nossos amores e reproduzem legados de violência e dominação”, afirmou.
Na noite desta segunda (6), Butler foi à Unifesp para o lançamento de seu novo livro, Caminhos divergentes: Judaicidade e crítica do sionismo, publicado pela Boitempo. Na quinta (9), ela encerra o seminário internacional “Os fins da democracia” junto de Vladimir Safatle.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)