pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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sábado, 12 de dezembro de 2020

Os melhores livros de 2020


Como fazemos todo final de ano, convidamos alguns escritores, críticos literários e pesquisadores que estiveram conosco para votar nos melhores livros de 2020. Para a votação, houve somente um critério: os livros deviam ter sido lançados de janeiro em diante, podendo ser de ficção ou não-ficção, edições nacionais, estrangeiras e reedições.

O livro mais votado do ano foi Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim, publicado pela Relicário Edições. 

Confira os resultados!

 

 

Adelaide Ivánova
[poeta, tradutora e fotógrafa, autora de O martelo]

> Comrade: An essay on political belonging (em tradução livre, “Camarada: Um ensaio sobre pertencimento político”), de Jodi Dean (Verso Books)
> Carlos, a face oculta de Marighella, de Edson Teixeira da Silva Júnior (Expressão Popular)
sorry.gif, de Felipe André Silva (Edições Macondo)
Brasil à parte, de Perry Anderson, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Bruno Costa, Fernando Pureza, Jayme da Costa Pinto e SatBhagat Rogério Bettoni (Boitempo Editorial)
Se quiser mudar o mundoUm guia político para quem se importa, de Sabrina Fernandes (Editora Planeta)

André Oviedo
[escritor]

Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski (Companhia das Letras)
O morse desse corpo, de Ricardo Domeneck (Editora 7Letras)
canções de atormentar, de Angélica Freitas (Companhia das Letras)
Investigações. Novalis, de Gonçalo M. Tavares (Edições Chão da Feira)
Escritos corsários, de Pier Paolo Pasolini, tradução de Maria Betânia Amoroso (Editora 34)


Cidinha da Silva

[escritora e editora (Kuanza Produções), autora de Um exu em Nova York]

Eu vou piorar, de Fernanda Bastos (Editora Figura de Linguagem)
Levante, de Henrique Marques Samyn (Editora Jandaíra)
Notas sobre a fome, de Helena Silvestre (Ciclo Contínuo Editorial)
oriki de amor selvagem: todos os poemas de amor preto (ou quase), de tatiana nascimento (padê editorial)
Por um feminismo afro-latino-americano, de Lélia Gonzalez, organização de Flávia Rios e Márcia Lima (Zahar)


Cristhiano Aguiar

[escritor e professor (Universidade Mackenzie), autor de Na outra margem, o Leviatã]

Grama, de Keum Suk Gendry-Kim, tradução de Jae Hyung Woo (Pipoca & Nanquim)
A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling (Companhia das Letras)
Quéreas & Calírroe, de Cáriton de Afrodísias, tradução de Adriane da Silva Duarte (Editora 34)
Todas as cartas, Clarice Lispector, organização de Larissa Vaz (Editora Rocco)
Filhos de sangue e outras histórias, de Octavia E. Butler, tradução de Heci Regina Candiani (Editora Morro Branco)


Edma de Góis

[pós-doutora em Estudos de Linguagens (UNEB) e apresentadora do podcast Margens da palavra]

O mez da grippe, de Valêncio Xavier (Editora Arte & Letra)
Comentário: Um dos livros mais emblemáticos do "Frankenstein de Curitiba", em edição bem acabada da Arte & Letra (o que não é mero detalhe para um livro em que o conteúdo visual é tão importante quanto o texto escrito). A reedição, depois de 22 anos fora de catálogo e no ano da pandemia de covid-19, dobra o interesse no livro em que Valêncio reafirma o melhor da sua produção como arranjador de textos (alheios e dos seus próprios) para contar sobre a gripe espanhola na cidade de Curitiba em 1918.

Banzo, de Davi Nunes (Organismo Editora)
Comentário: Marcado por referências a artistas negros como Aimé Césaire e Jean Michel Basquiat, e com posfácio do escritor Allan da Rosa, o livro de poemas do autor baiano trata da história dos negros em diáspora, entremeado por elementos pictóricos e dando a ver um projeto literário do escritor desde os contos do seu livro anterior, Zanga.

A razão africana: Breve história do pensamento africano contemporâneo, de Muryatan S. Barbosa (Editora Todavia)
Comentário:O livro faz as vezes de ensaio em que seu autor reúne nomes de intelectuais que colocam a ideia de África no centro do debate. Boa opção de leitura para quem quer uma introdução ao pensamento africano contemporâneo, seus temas e quem os mobiliza na cena recente.

Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Comentário: Repito as palavras de Ricardo Domeneck na apresentação do livro: "qual explicação podemos dar para este Batendo pasto, escrito em 1982, seja o primeiro inédito de Maria Lúcia Alvim em quarenta anos? A imagem anunciada pelo título dá conta de um dos movimentos mais belos da autora, que faz vigorosa construção poética nesses poemas sobre temas que circundam a vida rural, mas não apenas esta.

Novelas completas, de Liev Tolstói, tradução de Rubens Figueiredo (Editora Todavia)
Comentário: A reunião de quatro novelas do lugar mais alto de produção desse gênero dá ao volume, por um lado, a possibilidade de um grande reencontro para os já iniciados na obra do autor de Guerra e Paz, e por outro também um excelente ponto de partida pra quem ainda é novato. As obsessões de Tolstói, em diferentes momentos de sua biografia, estão nesses textos: morte, desejo e felicidade.


Everardo Norões
[escritor, poeta e colunista do Pernambuco]

Nuestra parte de noche, de Mariana Enriquez (Anagrama)
M: O filho do século, de Antonio Scurati, tradução de Marcello Lino (Intrinseca)
Las malas, de Camilla Sosa Villada (Tusquets Editores)
Marrom e amarelo, de Paulo Scott (Alfaguara)
Abliterações, de Paulo Dutra (Malê Editora)  
 

Igor Gomes
[editor assistente do Pernambuco]

Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Cidadã: Uma lírica americana, de Claudia Rankine, tradução de Stephanie Borges (Edições Jabuticaba)
Percurso livre médio, de Ben Lerner, tradução de Maria Cecília Brandi. (Edições Jabuticaba)
O planeta: Uma categoria humanista emergente, de Dipesh Chakrabarty, tradução de Gabriela Baptista (Zazie Edições)
Diante de Gaia: Oito conferências sobre a natureza do Antropoceno, de Bruno Latour, tradução de Maryalua Meyer (Ubu Editora)


Laura Erber

[poeta, professora visitante da Universidade de Copenhague (Dinamarca), artista visual e editora (Zazie Edições), autora de A retornada]

Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Percurso livre médio, de Ben Lerner, tradução de Maria Cecília Brandi. (Edições Jabuticaba)
Sobre os primórdios da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, organização de Walnice Nogueira Galvão (EdUSP)
> O homem que aprendeu o Brasil: A vida de Paulo Rónai, de Ana Cecilia Impellizieri Martins (Editora Todavia)
Escritos corsários, de Pier Paolo Pasolini, tradução de Maria Betânia Amoroso (Editora 34)
O único verso, de Bento Prado Jr. (Editora Clandestina)


Leonardo Nascimento

[jornalista e doutorando em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ]

A unicórnia preta, de Audre Lorde, tradução de Stephanie Borges (Relicário Edições)
Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Boca do Amazonas: Sociedade e cultura em Dalcídio Jurandir, de Willi Bolle (Edições Sesc)
Cidadã: Uma lírica americana, de Claudia Rankine, tradução de Stephanie Borges (Edições Jabuticaba)
Escritos corsários, de Pier Paolo Pasolini, tradução de Maria Betânia Amoroso (Editora 34)
O infarto da alma, de Paz Errázuriz (imagens) e Diamela Eltit (texto), tradução de Livia Deorsola (IMS Editora)
Retorno a Reims, de Didier Eribon, tradução de Cecilia Schuback (Editora Âyiné)
Senhores do orvalho, de Jacques Roumain, tradução de Monica Stahel (Carambaia)
Trânsito, de Rachel Cusk, tradução de Fernanda Abreu (Editora Todavia)
Um apartamento em Urano: Crônicas da travessia, de Paul B. Preciado, tradução de Eliana Aguiar (Zahar)


Priscilla Campos
[crítica literária, editora e pesquisadora, doutoranda em Literartura Hispano-americana (USP)]

Poesia completa: Maya Angelou, de Maya Angelou, tradução de Lubi Prates (Astral Cultural)
Comentário: O acesso à obra de Maya Angelou foi um sopro de força ainda no início do isolamento social e deste ano tão difícil. Com ótima tradução de Lubi Prates, a poesia de Angelou ganha, enfim, registro definitivo para o português. Um de seus poemas me acompanha nos últimos meses, chama-se Despertar em Nova York e termina com estes versos – “e eu, alarmada, acordo como/ um rumor de guerra,/ me espreguiçando pelo amanhecer,/ indesejada e ignorada”. Encontrar um modo de despertar mesmo que tudo indique que não se deve olhar o futuro: assim Angelou nos ensina a seguir pelos dias.

Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson, tradução de Stephanie Borges (Editora Todavia)
Comentário: Uma manhã foi tempo suficiente para ler as 115 páginas deste romance tão bonito e agudo. A leitura de Brooklyn é como sustentar a respiração por algumas horas e voltar a soltá-la no mesmo instante em que a memória se transforma em gesto e registro. Desde então, Augusta, Angela, Gigi e Sylvia surgem na minha cabeça como fragmentos de presença. Tudo o que dói, o que brilha, o que foi aniquilado e o que ficou estão ali, na voz de Augusta. É um romance sobre a dor profunda de construir a memória e tocar o passado com as mãos. Quatro adolescentes e a vivência do racismo, das relações familiares e afetivas, e a interação com a cidade e seus signos, são o que dão o dom desse outro Brooklyn.

> A mulher submersa, de Mar Becker (Editora Urutau) 
Comentário: A imagem de uma mulher que afunda representa o silêncio que se escuta no movimento das águas, do sentido, do estar presente. Assim operam os poemas de Mar Becker neste livro, colocando na linha de frente questões tão silenciosas e comezinhas que, ao longo dos versos, os estatutos do patriarcado perdem o a sua síntese estrutural para dar lugar ao que, de fato, ressoa: a ancestralidade presente no cotidiano do corpo-mulher. Também uma busca pela linhagem – que só se faz possível quando se encara a água e se olha pelo espelho inconstante de seu movimento – é motora do livro e, dessa maneira, encontra-se “o deus da terceira margem”, essa palavra que é oração e mergulha.

> Entre nós mesmasPoemas reunidos, de Audre Lorde, tradução de tatiana nascimento e Valéria Lima (Bazar do Tempo)
Comentário: Este ano, o boom da obra de Audre Lorde no Brasil, publicada por várias editoras em simultâneo – além da Bazar do Tempo, outros livros da autora saíram pela Ubu Editora e Relicário Edições – foi um acontecimento. Como afirma a escritora Cidinha da Silva no texto de apresentação do livro, Lorde tem uma “sabedoria de produzir boas e efetivas sínteses, ou seja, de ler o mundo pelos próprios olhos, a partir das próprias referências, e de devolvê-lo transformado, como faz Exu, o senhor dos caminhos”. Lorde é essa maquinaria do tempo e do espaço, transformando tudo o que se vê em algo passível de leitura e, por consequência, poderoso em sua chama de mudança.

> Quatro cantos, de Henrique Provinzano Amaral (Editora Patuá)
Comentário: Primeiro livro do poeta paulista, Quatro cantos apresenta-se menos como um quadrado, como indica seu título, e mais como um estado das coisas: estar em cada espaço para negar a sua estabilidade e, assim, encontrar uma outra sustentação para os seus cantos. Como no primeiro poema do livro, o homem que vê o cachorro e, depois, torna-se cachorro, a fusão das coisas e dos corpos, o animal que se encontra dentro porque se vê fora, e assim está firmado no espaço. Canto que também é voz e se escuta, ecoa, atinge timbres diversos, nos alcança como quem persegue, atento, o leitor mais distraído. Entre o coração da baleia azul pulsando dentro do ônibus e os galopes dos cavalos alados, Henrique Amaral espalha o vermelho – “tu desejas meu sangue/ e eu desejo o teu” – como um último alerta a nós que chegamos cambaleantes até este improvável dezembro/2020: estamos vivos porque tudo pulsa e tudo parte ao meio, deixando sempre o coração “preso na adaga da palavra amor”.


Nuno Figueirôa

[jornalista]

Um apartamento em Urano: Crônicas da travessia, de Paul B. Preciado, tradução de Eliana Aguiar (Zahar) 
Pele negra, máscaras brancas, de Frantz Fanon, tradução de Sebastião Nascimento (Ubu) 
Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski (Companhia das Letras)
Percurso livre médio, de Ben Lerner, tradução de Maria Cecília Brandi. (Edições Jabuticaba)
A cachorra, de Pilar Quintana, tradução de Livia Deorsola (Editora Intrínseca)
Estrela vermelha, de  Aleksandr Bogdánov, tradução de Ekaterina Vólkova Américo e Paula Vaz de Almeida (Boitempo Editorial)
> Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)

 
Ramon Ramos
[escritor e doutorando em Letras (PUC-Rio)]

Para o meu coração num domingo, de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski (Companhia das Letras)
> Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Poesia completa: Maya Angelou, de Maya Angelou, tradução de Lubi Prates (Astral Cultural)
Todas as cartas, Clarice Lispector, organização de Larissa Vaz (Editora Rocco)
Segredos, de Domenico Starnone, tradução de Maurício Santana Dias (Editora Todavia)


Raquel Barreto
[historiadora e doutoranda em História (UFF)]

Lições de Resistência: Artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, organização de Ligia Fonseca Ferreira (Edições Sesc São Paulo)
Terra Preta: Raça, racismo e política no Movimento dos Trabalhadores Rurais e Sem Terra, de Fred Aganju (Editora Filhos da África, São Paulo)
Água por todos os lados, de Leonardo Padura, tradução de Monica Stahel (Boitempo Editorial)
> Os 3 livros da coleção Cabeças da Periferia, organização de Marcus Faustini (Editora Cobogó):
    - Taisa Machado: O afrofunk e a ciência do rebolado
    - Jessé Andarilho: A escrita, a cultura e o território
    - Rene Silva: Ativismo digital e ação comunitária

Imagens de controle: Um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins, de Winnie Bueno (Editora Zouk)
Filhos de sangue e outras histórias, de Octavia E. Butler, tradução de Heci Regina Candiani (Editora Morro Branco)
O menor amor do mundo, de Rafael Zacca (Editora 7Letras)


Schneider Carpeggiani

[editor do Pernambuco, crítico literário e curador]

Um apartamento em Urano: Crônicas da travessia, de Paul B. Preciado, tradução de Eliana Aguiar (Zahar)
A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling (Companhia das Letras)
Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim (Relicário Edições)
Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson, tradução de Stephanie Borges (Editora Todavia)
A cachorra, de Pilar Quintana, tradução de Livia Deorsola (Editora Intrínseca)


Victor da Rosa

[professor (UFOP), co-organizador da antologia 99 poemas]

Casa do norte, de Rodrigo Lobo Damasceno (Corsário Satã)
Metamorfoses, de Emanuele Coccia, tradução de Madeleine Deschamps e Victoria Mouawad (Dantes Editora)
Diante de Gaia: Oito conferências sobre a natureza do Antropoceno, de Bruno Latour, tradução de Maryalua Meyer (Ubu Editora)
Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares, organização de Hélio de Seixas Guimarães e Ieda Lebensztayn (Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo)
Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson, tradução de Stephanie Borges (Editora Todavia)

(Publicado originalmente no site do Suplemento Pernambuco)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Documentário "Meu povo conta" - Kapinawá - Parte 3

Tijolinho: Hoje, Siqueira, até para eleição de síndico entram questões ideológicas.



Normalmente, os governadores dos Estado exercem alguma ascendência sobre a bancada de deputados federais, daí se entender que os candidatos que concorrem à Presidência da Câmara Federal os procurem no sentido de explorar esse capital, que pode ser traduzido em votos. Neste sentido, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara(PSB-PE) já teria recebido para as confabulacões de praxe e degustação de canapés o atual presidente daquela Casa, Rodrigo Maia(DEM-RJ - que deve ter discutido o conjunto de sua preferência para sucedê-lo - e o deputado Arthur Lira(PP-AL), que concorre àquele cargo com o apoio do Planalto. Cumprida essas formalidades, as lideranças locais do partido deixaram vazar para a imprensa que o PSB já havia batido o martelo em torno do nome do deputado Arthur Lira. Até o momemto, não houve nenhum desmentido do Palácio do Campo das Princesas em torno deste assunto, onde pode-se conclui que a informação procede. 

Pragmaticamente, como aliás tem sido o comportamento deste partido nos últimos anos - seu presidente nacional declarou que tal disputa não envolve questões ideológicas, mas cargos, nomeações para determinadas comissões e coisas assim. Eu não entendo como ele pode afirmar isso, sabendo que, a partir de 2021 estarão em disputa, naquela Casa, a votação de agendas das mais relevantes para o país, com inegáveis componentes ideológicos. Uma disputa de projetos de sociedade. A consolidação de uma agenda de ultradireita e de costumes ou uma resistência civilizatória de corte pós-capitalista, que envolve questões ambientais, proteção de nossas riquezas naturais, a laicidade do Estado brasileiro, uma convivência humanitária com minorias de raça, credo, gênero e opção sexual. 

Hoje, até numa eleição de síndico de prédio essas questões estão em jogo. Por exemplo, fala-se muito nas automações das portarias, as chamadas portarias remotas, que devem substituir os porteiros tradicionais, gerando milhares de desempregados. Observei uma coisa curiosa na última reunião de condomínio. Todos os condôminos ansiosos sobre a economia que isso representará em torno da diminuição dos valores da taxa de condomínio. Ninguém preocupado com a exclusão dos trabalhadores de seus empregos. O negócio é tão vantajoso para essas empresas que elas se oferecem para assumir os ônus trabalhistas pelo afastamento dos trabalhadores. Fico imaginando o nosso saudoso Dr. Miguel Arraes, do PSB de tempos idos, se contorcendo em sua tumba.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Tijolinho: Evangélicos: o fiel da balança?



Na última eleição municipal do Recife, a questão do voto evangélico voltou a ser discutido, sobretudo em razão de a candidatura de Marília Arraes(PT) ter sido duramente atingida depois que foram espalhados algumas fake news questionando seu posicionamento acerca de alguns temas delicados, como o aborto, educação de gênero e a  leitura da Bíblia. Segundo dizem, panfletos apócrifos foram destribuídos em templos evangélicos tratando desses temas, o que, certamente, pode ter contribuído para a definição ou não do voto evangélico na candidata petista. Sem uma pesquisa séria, seguida de uma análise mais consistente, fica muito difícil dizer aqui qual os reais danos dessa campanha apócrifa sobre o resultado final das urnas no segundo turno. Ou seja, qual o quantitativo de eleitores evangélicos que teriam deixado de votar na candidata em razão dessas notícias falsas. Por outro lado, é sensato admitir que isso causou algum dano, num ambiente onde as questões de costumes podem ser determinantes para definir o voto.  

Fazia algum tempo que não lia nada produzido pelo ISER - Instituto de Estudos da Religião -  um instituto com sede no Rio de Janeiro, bastante conceituado sobre o estudo das religiões no país. Laico, formado por pesquisadores bem conceituados, o ISER reúne as condições necessárias para a uma produção científica sólida, consistente e de muito bom nível. Essa impressão ficou desde os tempos da universidade, quando as contingências dos estudos nos obrigaram a ler alguns textos dos seus pesquisadores, numa época em que os problemas se resumiam a um estudo junto aos evangélicos no sentido de saber como demover suas resistências em aceitar uma jovem liderança barbuda do ABC como candidato à Presidência da República. Para mim, um texto é bom quando provocativo, capaz de produzir mais incertezas do que convicções. Aquele texto que deixa você inquieto, ao apontar possibilidades capazes de por em dúvida suas certezas. 

Sou um cristão novo nesses estudos, mas, a cada dia, afloram mais inquietações em torno deste assunto, como, por exemplo, entender melhor essa perigosa aproximação de agendas entre os grupos neopentecostais e neo-facistas, proponentes de uma pauta conservadora de costumes e flertes autoritários. Contraditoriamente, em certo sentido, uma agenda anti-cristã, em razão da intolerância com minorias divergentes. Não chega a ser surpresa as conclusões da pesquisadora Ana Carolina Evangelista, sobre a formação desse rebanho, cuja origem está concentrada, sobretudo, nas periferias pobres, composto, em sua maioria, por negros e mulheres. Entra neste perfil, questões sociais, de raça e gênero, para dá um nó ainda maior nas nossas cabeças. A preocupação da pesquisadora é a utilização dessa agenda evangélica por politicos até sem vínculos religiosos, com o propósito de produzir uma narrativa discursiva da "ordem", criando o ambiente político necessário não apenas para conquistar esses votos, mas para intervir nas instituições, normalizando regras de costumes para a sociedade como um todo. Políticos conservadores não avangélicos estariam utilizando essa agenda para consolidar uma plataforma de costumes que extrapolam os círculos de oração. Aqui começamos a entender o porquê do flerte de agendas entre grupos religiosos neopentecostais e neo-fascistas. Observamos aqui que o golpe de Estado na Bolívia foi dado com a Bíblia na mão, com muita violência em relação aos adversários e às etnias indígenas. Muito preocupante. 


Documentário "Meu povo conta" - Kapinawá - Parte 1

A política pictórica de Godard

 

Em toda sua obra, da Nouvelle Vague aos filmes do século XXI, cineasta francês que faz 90 anos em dezembro utilizava a pintura como elemento essencial. Às vezes de forma irônica, noutras para afastar o cinema da vulgaridade capitalista

Por Dalila Camargo Martins, na Revista Cult

No incontornável texto “Jean-Luc Godard: cinema e pintura, ida e volta”, integrante do livro Cinema, vídeo, Godard (Cosac Naify), Philippe Dubois distingue dois momentos da relação ubíqua entre cinema e pintura na obra godardiana. No primeiro deles, concernente aos filmes produzidos na década de 1960, a pintura se mostra no cinema como uma prática de “citação” e “ex-citação” generalizada, pela qual reproduções frontais de quadros canônicos invadem a diegese, interagindo implícita ou explicitamente com as personagens, seus rostos, situações ou vínculos afetivos. Lembremos, por exemplo, em Acossado (1960), da mania de Patricia (Jean Seberg) de colar na parede de seu apartamento pôsteres de retratos pintados por Pierre-Auguste Renoir, Paul Klee e Pablo Picasso com os quais se identifica. Ou, então, em Tempo de guerra (1963), da cena hilária em que os soldados Michelangelo (Albert Juross) e Ulysses (Marino Mase) voltam para casa e presenteiam solenemente suas esposas, Venus (Geneviève Galéa) e Cleopatre (Catherine Ribeiro), com uma valise repleta de tesouros do mundo: monumentos, meios de transporte, lojas, obras de arte, indústrias, riquezas da terra, maravilhas da natureza, os cinco continentes, tudo sob a forma de cartões-postais cujo ganho parece valer exatamente como a posse das coisas em si — o valor de exposição tornado “objeto de culto, de reinvestimento simbólico de segundo grau”.

Nesse amálgama entre turismo e pilhagem, espetáculo e barbárie, já despontava a chave da reflexão godardiana sobre arte pop e cultura de massa, cada vez mais evidente ao longo dos anos 1960. Digamos que, no começo da carreira, Godard partiu de referências espirituosas a gêneros hollywoodianos, especialmente filmes B, noir e de gângster, mas também de musicais, frutos da paixão cinéfila contraída enquanto era redator exímio da revista Cahiers du cinéma, e desembocou no exame detalhado da sociedade de consumo, acentuando seu aspecto mortífero, em um paralelo sugestivo com o melhor de Andy Warhol. Em Week-end à francesa (1967), um casal burguês viaja pelo interior da França para reclamar uma herança e no caminho depara com um engarrafamento descomunal, filmado em travelling e livremente inspirado no conto “A autoestrada do Sul” (1964), de Julio Cortázar, no qual a violência escala desde acidentes de trânsito, estupro, assassinatos, até canibalismo, fenômenos testemunhados com indiferença atroz em meio a passatempos. Sem dúvida, por perpetuar a lógica industrial do trabalho alienado e do tempo livre, o cinema estava no cerne da crítica godardiana, sendo então abandonado na iminência de maio de 1968, quando Godard, na companhia de Jean-Pierre Gorin, fundou o Grupo Dziga Vertov, coletivo audiovisual militante de orientação maoísta que, em vez de proceder segundo tais modelos, filmava politicamente.

Acossado (1960)

Ao cinema, Godard retornaria de uma vez por todas na década de 1980, após um período de realização – com sua companheira, a fotógrafa, roteirista, montadora e também diretora Anne-Marie Miéville – dos programas de televisão Six fois deux/sur et sous la communication (1976) e France/tour/détour/deux/enfants (1977-78), além dos filmes-ensaios Número dois (1975), Como vai você? (1976) e Aqui e acolá (1976), nos quais se escrutam os grandes meios de comunicação mediante trucagens videográficas (câmera lenta, sobreimpressões, incrustações, grafismos, variação de janelas, simultaneidade de telas etc.) que consistem nos desdobramentos eletrônicos do trabalho de decomposição-recomposição de imagens empregado em A chinesa (1967), com suas colagens e estética de histórias em quadrinhos, e A gaia ciência (1969), com suas fotos desviadas e contralegendadas. Dubois enfatiza o protagonismo do vídeo nessa mudança de paradigma na obra godardiana, em que as imagens perdem o estatuto de objetos e se tornam estados (im)puros, fluxos entre olhar e pensamento, cujo ápice seria a minissérie televisiva História(s) do cinema (1988-98). Há, pois, uma atenção refinada à espectralidade da forma-mercadoria, sua estranha idiossincrasia. Godard parece nos alertar: para examinar a sociedade de consumo não basta sinalizar seus produtos, os resultados concretos de suas causas, sem tentar apanhar o processo que lhe é imanente, pelo qual tudo o que pesa se propaga no ar e, como a luz – matéria-prima do cinema –, é partícula e onda ao mesmo tempo.

Esses experimentos transformariam de forma substancial, nos anos 1980, a relação de Godard com a pintura, a qual passaria a ser um efeito do próprio filme, um tratamento figurativo do dispositivo cinematográfico, “não mais a pintura ex-citada mas a pintura sus-citada, evocada por baixo e de dentro”, na bela definição de Dubois. A chamada trilogia do sublime, composta dos filmes Paixão (1982), Carmen de Godard (1983) e Eu vos saúdo, Maria (1985), faz de motivos clássicos da pintura problemas cinematográficos, atualizando-os. Em Paixão, destacam-se os deslumbrantes tableaux vivants a partir de Rembrandt, Francisco de Goya, Jean-Auguste Dominique Ingres, Eugène Delacroix, El Greco e Jean-Antoine Watteau. Carmen, vaga adaptação escrita por Anne-Marie Miéville da novela homônima de Prosper Mérimée e da ópera de Georges Bizet, consiste em um estudo rítmico, ou melhor, coreográfico, em que se esboçam poses copiosas de corpos frequentemente nus, com nervos à flor da pele, em dados intervalos de tempo marcados pela música de Ludwig van Beethoven — e de Tom Waits! Quanto a Eu vos saúdo, Maria, trata-se do mito da criação, ostensivamente pintado ao longo da história da arte, o que implica a questão de como representar o irrepresentável recorrendo a arquétipos da natureza.

Assim, completa-se uma volta dialética. Sabe-se que a primeira polêmica provocada pela Nouvelle Vague se deu antes da instauração de um novo modo de produção cinematográfico, quando os “jovens turcos” – apelido dessa geração de redatores dos Cahiers e futuros cineastas – cunharam o conceito de política dos autores, segundo o qual certos diretores hollywoodianos, como Orson Welles e Alfred Hitchcock, foram capazes de deixar suas marcas nos filmes, engendrando estilos únicos mesmo sob o jugo da lógica industrial. Ora, não é difícil circunscrever a mudança de paradigma da obra godardiana a esse contexto, pois foi Godard quem radicalizou a política dos autores ao filmar, transformando o conceito de aplicação retroativa em ponto de partida estético. Em suas palavras: “o verdadeiro objetivo desse conceito não era demonstrar quem faz a direção, mas, principalmente, explicar o que faz a direção”. Tal método de modulação entre “ex-citação generalizada” e “sus-citação”, passando pela negação determinada do cinema, assevera todo o esforço de Godard em dirigir através das contradições estruturais do próprio meio. Inicialmente, em seus filmes, o trabalho pictórico serviu sobretudo para denunciar, em chave irônica e também trágica, o pacto do cinema com a cultura de massa, com a sociedade do espetáculo. O abandono da autoria com a fundação do Grupo Dziga Vertov – “quando lançamos a política dos autores, nos enganamos ao privilegiar a palavra ‘autor’, enquanto na verdade é a palavra ‘político’ que era preciso ressaltar” – funcionou como grau zero da imagem, propiciando a Godard expandir seus horizontes ao retomar o cinema e revisitar alguns temas inerentes à autonomia artística.

Nos três primeiros longas-metragens godardianos do século 21, Elogio ao amor (2001), Nossa música (2004) e Filme socialismo (2010), tal expansão paulatina manifesta-se mediante recursos pictóricos. Elogio ao amor se divide entre o presente e o passado de um filme a ser feito. A defasagem temporal é marcada pelo uso de 35mm p&b para o presente e de vídeo em cores, espécie de fauvismo digital, para o passado. São apenas dois anos entre o momento em que Edgar (Bruno Putzulu) presencia a assinatura do contrato que autoriza a adaptação da história de um casal de idosos atuante na resistência francesa pela produtora de Steven Spielberg e seus entraves em realizar uma obra sobre o amor e que consiga narrar a História. Mas a trama só se esclarece no fim, quando o passado ilumina o presente; seu fio condutor é uma mulher argelina (Cécile Camp), advogada consultora do caso, pela qual Edgar se apaixona. Constitui-se, portanto, um elo entre poeta e musa, de matriz romântica ainda que distanciada – a colorização dos planos do mar exprimindo o lirismo de um indivíduo que enfrenta a frivolidade da indústria cultural.

Em Nossa música, organizado como a Divina comédia de Dante Alighieri, porém, o eu já é um outro – nos versos citados de Arthur Rimbaud – com o protagonismo duplicado de Olga Brodsky (Nade Dieu) e Judith Lerner (Sarah Adler), alegorizando a aporia entre ativismo e mídia em prol da paz no Oriente Médio. É como se a crise existencial ambientada no métier cinematográfico de Elogio ao amor se tornasse, três anos depois, uma expiação coletiva pelos conflitos da humanidade, e a busca fracassada por “um adulto” se estendesse à profecia do rosto como responsabilidade, baseada no filósofo Emmanuel Lévinas, uma preocupação em restabelecer pela linguagem uma “ética como o a-Deus ou a relação ao Outro, na santidade do Rosto de Outrem, ou na santidade da minha obrigação para com ele”.

Já Filme socialismo consiste em uma indagação a respeito da origem e dos descaminhos da civilização ocidental, a partir de três pontos de vista: a história do continente europeu, por meio da interação entre anônimos e celebridades a bordo do cruzeiro Costa Concordia; as inquietudes de duas crianças francesas sobre os lemas liberdade, igualdade e fraternidade; as lendas de seis cidades ao longo do Mediterrâneo. Na segunda parte, denominada Quo vadis Europa, o jovem casal de irmãos sai candidato à eleição para o Conselho de Estado francês, “fato sem precedentes”, e se elege com 93% de aprovação. Apesar da vitória democrática, sua postura é irreconciliável. Florine “Flo” (Marine Battaggia) evita conversar com quem conjuga os verbos ser/estar (être) e ter (avoir), pois, com eles, a falta de realidade se tornaria flagrante; prefere falar, por exemplo, “Barcelona nos receberá em breve”, em vez de “em breve estaremos em Barcelona”. Lucien “Lulu” (Gulliver Hecq) é capaz de “acolher uma paisagem de outrora”; reproduz um Renoir adicionando nuances inatingíveis ao pintor, o que se estende a toda imagem vista na tela, em uma espécie de fissão cromática que faz vibrar o espaço. Logo, ambas as atitudes se pautam por uma heteronomia sem sujeição, abrindo-se empaticamente ao entorno. Tais recursos pictóricos integram uma complexa série de procedimentos audiovisuais que articulam um vigoroso raciocínio especulativo, o qual, nesses três filmes, explode a noção de autonomia – da autonomia artística à autonomia do sujeito – à procura de uma verdadeira emancipação.

Elogio ao Amor (1999)

Nota-se, por conseguinte, na trajetória de Godard, um movimento espiralado infinito e ascendente, em que o regresso às esferas (cinema/sociedade de consumo/militância/vídeo/arte/estética/ética/política) ocorre por meio de alargamento, aprofundamento e iluminação.

(Publicado originalmente no site Outras Palavras)

Tijolinho: Em Pernambuco, 2022 já começou.


Ainda no calor da derrota para João Campos(PSB) na disputa pela Prefeitua da Cidade do Recife, a militância da candidata petista, Marília Arraes, ainda mobilizada, lançou o seu nome ao Governo do Estado, nas eleições de 2022. Militância é militância e dirigentes partidários são dirigentes partidários. Em razão da musculatura política obtida pela candidata, epesar da derrota, essa tese começou a ganhar fôlego na legenda. Esse grupo aposta num afastamento difinitivo do PT da base aliada do governador Paulo Câmara(PSB). Assim que foi anunciado o resultado das eleições, o futuro prefeito João Campos(PSB) anunciou que não entregaria nenhum cargo político ao PT na sua gestão. Os ânimos estavam bastante acirrados, e, como ensinava ex-governador Paulo Guerra, em política não existem as palavras "nunca' nem "jamais". Embora improvável, uma reconciliação ainda seria possível, apesar do desgaste produzido pela campanha. A conversa entre o senador Humberto Costa(PT) e o governaror Paulo Câmara(PSB), no sentido de aparar essas arestas e definir a saida ou não do partido do governo, ainda não teria ocorrido. 

A costura de um nome como candidato da oposição no Estado teria que contar, como disse antes, com o sinal verde de núcleos políticos familiares que já se articulam no sentido desse enfrentamento, como é o caso dos Coelho, de Petrolina, dos Ferreira(Jaboatão dos Guararapes) ou dos Lyra, de Caruaru. Esse triângulo das bermudas deve ser decisivo na batida deste martelo. Não se descarta aqui, dependendo do nome ungido, do concurso de outros partidos do centro para a direita, quem sabe até da ultra-direita. Apesar das tecituras políticas da última eleição municipal - que envolveu o apoio de Progressistas e do Podemos à candidata petista, é pouco provável que um grupo com interesses politicos tão diversos possam endossar o nome de uma candidata do PT. Impossível não é, mas é pouco provável. 

Pelo lado da situação, como observei no dia de ontem, o nome mais cotado é o do ex-prefeito Geraldo Júlio, por uma condição "natural", embora essa condição "natural" seja muito questionada. O mais interessante, entretanto, é entender como essas articulações políticas locais estão sendo construídas já de olho nas eleições presidenciais de 2022. Aqui na província, 2022 já começou. No segundo turno das eleições, o Recife recebeu a visita do presidencial Ciro Gomes(PDT),que veio emprestar o seu apoio ao candidato João Campos(PSB). Fala-se bastante numa aliança entre as duas legendas visando as próximas eleições presidenciais. Nas eleições dos anos anteriores, o PSB sempre emprestou apoio ao PT no plano nacional. Essa possibilidade torna-se cada vez mais improvável. Não apenas pelas rusgas produzidas aqui na provínca, mas, sobretudo, em razão dos rumos políticos que o partido está assumindo, se afastando cada vez mais do espectro político de suas origens. 

 

Editorial: O STF disse não à manobra inconstitucional. Ponto para o STF.


Mesmo com um placar apertado, o Supremo Tribunal Federal disse não à manobra inconstitucional que previa a reeleião dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A letra da Carta Constitucional é bastante clara sobre o assunto, mas há sempre aqueles atores políticos que tentam burlá-la, consoante interesses políticos de natureza nada republicanos. Louva-se aqui a decisão do STF, esperando que tal decisão construa a jurisprudência necessária para inibir tentativas do gênero pelo país afora, uma vez que tais impulsos de mosca azul se replicam em toda a federação, numa demonstração de pouco apreço de segmentos da classe política pela democracia no país. Manobras assim apenas ganham força quando há um ambiente político favorável nas Casas Legislativas, cujos membros acabam beneficiados, de alguma forma, com a condução da liderança por mais um mandato, mesmo contradizendo os preceitos constitucionais. 

Agora, o jogo deverá ser reiniciado tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, envolvendo uma disputa acirrada pelo comando daquelas Casas, o que implica numa luta sadia pelo voto, convencendo a bancada de senadores e deputados federais a votarem consoante as suas expectativas sobre a melhor forma de condução dos trabalhos no Poder Legislativo. As rusgas entre o presidente da Câmara dos Deputados e o Planalto são indisfarçáveis, tendo alto e baixos durante toda a gestão do deputado federal Rodrigo Maia(DEM-RJ), não de todo superadas, a despeito das tentativas de reaproximação, regadas a canapés e amabilidades, por vezes trocadas. Assim, o Planalto anima-se em apoiar um nome de sua confiança, de sua base de apoio, que não torne a convivência tão indisgesta durante o próximo mandato. Esse  nome, contingencialmente, deve sair do chamado Centrão. 

Estão se movimentando no sentido de ocupar a Presidência daquela Casa o Deputado Federal alagoano, João Lyra(PP-AL), que já procurou, inclusive, o governador Paulo Câmara(PSB-PE), no sentido de obter o apoio da bancada pernambucana ao seu projeto. Quem também se movimenta neste sentido é o Deputado Federal Fernando Coelho Filho(DEM-PE), com o aval do pai, o senador Fernando Bezerra Coelho(MDB-PE), líder do governo, que também está de olho na presidência do Senado Federal. Ambos os nomes, afinados com o Palácio do Planalto. E, por falar em afinidades, Rodrigo Maia já insinou que o deputado João Lyra é um candidato que conta com o apoio do Planalto e, portanto, concorre contra ele. Há, por outro lado, uma penca de candidatos entre os seus apoiadores. Como já afrmei por aqui noutra ocasião, Maia é um político muito hábil,com chances de fazer seu sucessor. Concorrem pela situação, digamos assim, Aguinaldo Ribeiro(PP-PB), Baleia Rossi(MDB-SP), Elmar Nascimento(DEM-BA), Luciano Bivar(PSL-PE) e Marcos Pereira(Republicanos-SP). 

Seja qual for o resultado, a alternância de poder, um dos princípios basilares da demcoracia, fica assegurada. As instituições da democracia no Brasil, que foram tão assediadas nos últimos anos,  precisam passar por um processo restaurativo. Muitos equívocos foram cometidos em razão de uma insegurança juridica instaurada em nome de um modelo de racionalidade econômica ultraliberal, que não tem nenhum pudor em mandar às favas os valores democráticos pelas razões do capital. Uma consequência direta dessa lógica insana é a formação de Executivos fortes, na mesma proporção ao enfraquecimento dos poderes Legislativo e Judiciário. Manter o equilíbrio desse pêndulo é fundamentalmente importante num regime democrático. A decisão do STF preserva sua condição de guardião da Cosntituição e ,ainda, obriga o Poder Legislativo a conviver com o exercicio da democracia.  É bom que assim o seja. Apenas aqueles que tem vocação autoritária não gostam desse exercicio. Ponto para o STF. 


Charge! Via Folha de São Paulo


 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O exílio em James Joyce e a ética lacaniana do sujeito falante

 

O exílio em James Joyce e a ética lacaniana do sujeito falante
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O autor irlandês James Joyce, o exilado da língua que inventa outra língua (Foto: Encyclopedia Britannica)

 

Como ler James Joyce a partir da ética lacaniana? O que, na leitura de Joyce, ajudaria a pensar o trauma da incidência da língua e a questão desconcertante de sermos falantes e exilados? O autor inventou uma língua própria, ensinando sobre aquilo que nos atravessa e escapa, que nos torna seres que vivem sempre fora de uma suposta terra natal originária.

Joyce se identificou inteiramente com seu sintoma de escrever e sustentou o seu exílio – uma espécie de tremor e desvario – a partir daí. Para Lacan, Joyce é a própria encarnação do sintoma. Prova disso é Finnegans wake (1939), texto ilegível que levou 17 anos para ser escrito. Joyce esperava da escrita a revelação, e viveu completamente imantado por essa questão: uma escrita radical e única, que inventa uma língua e um país próprios.

“Joyce, o sintoma” – ou sinthoma – é um seminário de Lacan proferido nos anos 1975-1976. Nos vídeos das lições pode-se sentir como, também para ele, entregar a palavra é da ordem da revelação. Para Lacan, o analista não deve falar em público como um professor que se apresenta com um saber já constituído, pelo contrário, deve se deixar conduzir pelo não-saber, exatamente como procede no consultório. Essa posição implica a coragem do lapso e do ruído. Uma certa forma de exílio também.

 

James Joyce escreveu na
língua do opressor, pois a
Irlanda estava sob a
dominação do Império
Britânico, por um lado, e
– assim dizia ele – da
Igreja Católica Apostólica
Romana por outro.

 

 

No entanto, a escrita na língua do opressor se deu de maneira que esta deixou de existir para dar lugar à língua poética em que Joyce afirma que, se Dublin fosse destruída, poderia ser inteiramente reconstruída a partir da sua obra.

O escritor se valeu “do exílio, da astúcia e do silêncio” para produzir sua catedral de prosa e, com ela, se opor à Irlanda de que não gostava para ser aceito e cultuado pelos irlandeses: uma condição paradoxal que estrutura algo desse estar sempre em exílio, o pertencer a lugar nenhum.

O que interessou a Lacan foi o tratamento dado por Joyce ao texto. Há algo de ilegível na escrita, há lapso no que se lê. Vejamos o que Lacan antecipara no Seminário 20:

(…) vocês podem ler Joyce, por exemplo. Então vocês verão como isso começou a se produzir. Vocês verão que a linguagem se aperfeiçoa e sabe brincar, sabe brincar com a escrita. Joyce, eu admito que ele não seja legível (…)

É a partir desse ponto que Lacan se debruça sobre a obra de Joyce, o exilado da língua que inventa outra língua. Essa dimensão do lapso, e disso que mais se enuncia do que se anuncia na palavra, é o exercício abismal de ler Joyce com Lacan: um solo para uma queda, um desabar tamanha a vertigem, a própria epifania encarnada no exercício de ir de uma a outra língua.

Vemos aqui um dos elementos essenciais: o som emitido pela fala. Eis algo que ajuda a clarear, para Joyce, a questão do exílio na língua, ideia trabalhada pelo escritor desde muito cedo, como uma marca de estilo. O som vem de um sujeito que fala e fala-se sempre também em nome de algo inominável. Fala-se para buscar o sentido lá onde ele escapa. Fala-se para eliminar o sentido prévio herdado, para estraçalhar a linguagem e invocar o impensável. Fala-se para poder fazer delirar todas as vozes que nos habitam.

 

 

E essa dimensão do som
aparece na obra de Joyce,
fazendo a palavra delirar,
tirando dela o que se ouve
mais do que o que se lê, ou
até mesmo tirando dela o
que se lê em uma dimensão
de puro exílio.

 

 

Joyce foi central para Lacan, sobretudo no “Seminário 23: o sinthoma”, em que o psicanalista desenvolve uma noção de corpo que não se sustenta sobre a imagem do corpo próprio, mas sobre um procedimento de escrita que implica sempre a produção de um resto, um excedente que não encontra representação e é marcado pela estranheza – como na discussão entre Stephen Dedalus, o alter ego de Joyce, com seus colegas de escola, a respeito de quem seria, para ele, o maior escritor.

Stephen insiste em defender a figura de Lord Byron,  mas é retrucado pelos colegas, com a acusação de que Byron teria sido herege e também imoral. A certa altura da discussão, o próprio Stephen é acusado de ser herege e leva golpes de bastão para admitir que Byron não valia nada. Mais adiante, numa reflexão sobre o mistério da Santíssima Trindade e das imagens do Pai, do Filho e do Espírito Santo sugeridas nos livros de devoção, Stephen irá se questionar sobre sua falta de convicção em acolher as paixões do amor e do ódio: ele pode ver sua raiva se destacar do seu corpo, como “a casca de uma fruta madura”. Algo aí desliza, escorrega para fora da cena, para um outro lugar. E é Joyce quem assinala essa condição desviante e do fora:

Não servirei aquilo em que não acredito mais, quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto possa e totalmente quanto possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar – o silêncio, o exílio e a astúcia.

O modo como  ele responde a nação é através do caminho do exílio, que não é um rompimento definitivo com a nação, mas uma escolha em habitar o seu exterior. O que fica evidente na obra de Joyce é o fascínio pela heresia, que permite com que ele encontre um modo de neutralizar e ao mesmo tempo usufruir da chamada língua dos invasores, a língua inglesa.

A substância que Joyce utiliza é a da escrita: uma escrita que mobiliza “efeitos de furo” na medida em que dá lugar para as significações fora de sentido, acentuando o impossível ao nível da língua. A referência à assonância como forma de abordar o objeto pela via do som, e não do sentido, está presente na sua obra como marcador de indexação de uma experiência corporal. A descrição dos efeitos da palmatória sobre o corpo, por exemplo, também parecem ser da ordem do “deixar cair”: suas mãos trêmulas se encolhem “como uma folha exposta ao fogo”, ou se desprendem “como uma folha solta no ar”, uma experiência radical que parece querer demonstrar justamente a condição primeira da palavra: a do exílio.

Bianca Coutinho Dias é psicanalista e crítica de arte.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

domingo, 6 de dezembro de 2020

Foucault: a filosofia como modo de vida | Margareth Rago

Tijolinho: Petistas a céu aberto.


As articulações presidenciais do ex-governador Eduardo Campos causariam um estranhamento do socialista em relação ao Partido dos Trabalhadores. Na fase da lua-de-mel, tanto Lula quanto Dilma Rousseff eram muito bem recebidos aqui na província, com direito ao desfrute de iguarias de nossa gastronomia regional, acrescidas dos causos de Ariano Suassuna durante a sobremesa. Para viabilizar seu projeto político, algumas lideranças políticas locais conduziram o socialista para outros  encontros políticos - e também gastronômicos - mas desta vez regados a cozidos e cervejinhas geladas. Entre uma garfada e outra, informaram-no sobre a necessidade de afastar-se do Partido dos Trabalhadores, sob pena de não viabilizar o seu projeto. Assim foi feito e, ao longo dessa trajetória, apenas a morte prematura de Eduardo Campos permitiu uma reaproximação entre as duas legendas, ainda assim com altos e baixos, como o endosso de socialistas às tecituras que culminaram com o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República, algo nunca completamente digerido por alguns membros e militantes da legenda.

Algumas dessas questões vieram à tona durante essa última campanha municipal, que colocou de lados opostos a candidata Marília Arraes(PT) e João Campos(PSB). Sem rumo e completamente atordoado aqui na província, a única forma que o PT encontrou para continuar existindo foi procurar abrigo na legenda socialista, praticamente hegemônica na província, o que garantiu duas eleições para o Senado Federal, com Humberto Costa, e alguns cargos na administração do Governo do Estado. Dependentes políticos dos socialistas, alguns dirigentes locais sempre se opuseram às candidaturas independentes da legenda aqui no Estado, preferindo apoiar o nome apresentado pelo PSB. Ao longo dos anos, essas contradições foram aflorando, mostrando sua face mais nítida agora por ocasição da eleição municipal. De um lado, petistas autênticos, que advogam que os petistas que não estiveram engajados na candidatura do partido deveriam serem expulsos da legenda. De outro, socialistas que advogam que os petistas no governo devem entregar os seus cargos. Numa de suas primeiras declarações, o prefeito eleito, João Campos(PSB) já afirmou que não pretende convocar petistas para a gestão da máquina municipal. 

Em meio a esse imbróglio, cogitou-se de uma conversa entre o senador Humberto Costa(PT) e o governador Paulo Câmara(PSB), com o objetivo de dirimir essas arestas. Neste intervalo, o senador criticou o nível da campanha dos sociaistas no último pleito. Dirigentes nacionais da legenda também acreditam não haver mais clima para manter essa aliança, em razão do grau de animosidade entre ambas as legendas. O ex-governador Paulo Guerra ensinava que, em política, não existem as palavras "nunca" nem "jamais", o que sugere sempre a possibilidade de algum tipo de negociação conciliadora, com o arranjo de um bom argumento para jogar para a platéia. Mas, sinceramente, não acredito que o PT, espontaneamente, entregará seus cargos na adminstração pública estadual. Depois dos 50 e a leitura de alguns textos de Maquiavel, fica um pouco ingênuo acreditar que o sentar à mesa para discutir os cargos seja naquela perspectiva republicana de entregá-los por quebra de princípios ou decoro ou por não haver mais condições políticas de contribuir com a gestão.  

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo