Nem o filósofo Michel Foucault conseguiu prever até onde iria os perigos de um estado teocrático no Irã. No início da Revolução Islâmica ele escreveu alguns artigos em jornal italiano enaltecendo o processo revolucionário naquele país, principalmente em relação à derrubada da monarquia representada pelo Xá Reza Pahlavi, apoiada pelo Ocidente. Seus críticos aproveitaram esses artigos para criticarem duramente o filósofo, embora cometendo o gravíssimo equívoco de associá-lo aos rumos que a Revolução Islâmica tomou no país, fomentando um estado teocrático autoritário, caracterizado por tolher a liberdade dos indivíduos, principalmente as mulheres. Nos últimos dias, o Irã tem enfrentado grandes protestos de rua, que começou em razão das dificuldades econômicas da população, mas que hoje se estendem contra os líderes da Revolução Islâmica, em alguns casos, pedindo a volta da monarquia.
São os ciclos da História, por vezes adulterados com propósitos escusos, como no caso dos críticos de Michel Foucault, quando se sabe que ele nunca se identificou com os rumos autoritários do regime islâmico. Se ele errou, errou na previsão acerca dos rumos tomados pela Revolução Islâmica. Os Estados Unidos, que já atacaram o país até recentemente, em manobra conjunta com Israel, alertam que tomarão medidas se os protestos forem reprimidos pelo Governo do país, que já alertou que, se isso ocorrer, atacarão alvos de interesse dos Estados Unidos na região. Isso é bastante complicado, principalmente quando se entende que os Estados Unidos estão com o dedo no gatilho. Em tais circunstâncias, convém não provocar.
Dedo no gatilho e ameaças veladas, como vem advertindo o presidente Donald Trump, que reafirma que os "ajustes" não se encerram com a tomada do poder na Venezuela. Consoante sua política exterior, evidentemente há outros problemas globais e regionais que, neste momento, podem ser "resolvidos" pela diplomacia da força, conforme matéria da revista Veja desta semana. Uma questão que deve deixar o Planalto de orelha em pé é a agilidade com que a Venezuela libertou seus presos políticos, fato bastante comemorado pelo Governo dos Estados Unidos. Aliás, foi o Tio Sam quem determinou, chamando a atenção sobre o caleidoscópio americano sobre as arranjos no continente latino-americano.

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