pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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terça-feira, 22 de março de 2016

O xadrez político das eleições de 2016, no Recife: Priscila Krause, uma saída pela direita?





José Luiz Gomes da Silva


Na última semana, com o prazo final da troca das cadeiras partidárias, a movimentação foi intensa no tabuleiro da política pernambucana, com alguns ingredientes especiais no tocante às eleições recifenses. Depois de alguns arranjos - que envolveram as eleições de Caruaru - o PDT fechou com o projeto de reeleição do prefeito Geraldo Júlio(PSB), mesmo contra algumas divergências internas de membros da legenda, que preferiam que o partido seguisse um outro rumo, quiça com uma candidatura própria ao Palácio Antonio Farias. As articulações entre Carlos Lupi, presidente nacional da legenda, os Queiroz e o PSB, no entanto, deixaram os descontentes pelo caminho. Este foi o caso dos Lyras, que resolveram migrar para o ninho tucano, no limiar dos prazos finais, com o propósito de viabilizar a candidatura de Raquel Lyra à Prefeitura da Cidade de Caruaru, nas eleições de 2016.

Os tucanos ainda não decidiram se lançam um voo solo aqui no Recife. A dúvida permanece, sobretudo em  razão dos possíveis acordos costurados entre as duas legendas - PSB-PSDB - no plano nacional e, porque não dizê-lo, também no plano estadual. Há rumores que indicam que os socialistas não criariam problemas para os tucanos em Jaboatão dos Guararapes, ao passo que os tucanos deixariam o caminho livre para Geraldo Júlio tentar se reeleger no Recife. No plano nacional, a pombinha vai afinando o bico  com os tucanos, tudo em nome de uma articulação em torno do apoio ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Os Democratas, por sua vez, bateram o martelo em torno da candidatura da Deputada Estadual, Priscila Krause, à Prefeitura da Cidade do Recife. Uma novela que ainda não chegou ao seu final, uma vez que é preciso aparar as arestas entre as duas legendas, PSB/DEM, no Palácio Antonio Farias e no Palácio do Campo das Princesas. Na Prefeitura do Recife, os Democratas já colocaram seus cargos à disposição. Já em relação ao Campo das Princesas, o raciocínio de Mendonça Filho, presidente dos Democratas, é outro. Em tese, eles poderiam continuar como base de apoio do governador Paulo Câmara, mantendo o comando do LAFEPE. Precisariam combinar isso com o Secretário de Governo da Prefeitura do Recife, Sileno Guedes, que aponta nessa postura uma incongruência. Para Sileno, apoio é a medida toda. 

Esta já pode ser considerada uma primeira vitória da Deputada Priscila Krause. Os lances internos para a definição de uma candidatura dos Democratas envolveram várias frentes de articulação no plano nacional e estadual. Priscila, inclusive, tomou alguns chás de cadeira em Brasília, quando tentava negociar com os caciques da legenda. Um dos problemas mais elencados foi a dificuldade de arregimentar recursos financeiros para a candidatura. É difícil dizer o que pesou em favor da candidatura da deputada, mas, o episódio de Salvador, onde os Democratas conseguiram, nas eleições passadas, eleger o filho de Antonio Carlos Magalhães, ACM Neto, dizem, teria pesado na decisão de apostar na candidatura da pernambucana. 

Como já afirmamos em outras ocasiões, Priscila Krause tem um eleitorado consolidado na capital pernambucana. Vai atuar ali pela direita do espectro político, cindindo os votos dos redutos mais conservadores do eleitorado recifense, incensados, quem sabe, por essa onda de "direita" que estamos presenciando. Não duvido que ela possa causar algum estrago ao projeto de reeleição do senhor Geraldo Júlio. Por enquanto, os socialistas se mostraram "desdenhosos" quanto à candidatura da deputada. Faz parte do jogo. 

Nesta cruzada anti-petista, era de se esperar o assanhamento dos redutos mais conservadores da política pernambucana. Quando o Deputado Federal Jair Bolsonaro esteve por aqui, foram grandes as mobilizações de partidos e organizações em torno dele, o que não seria surpresa que surgisse, também, algum nome como representante desse espectro político de ultra-direita, nas eleições de 2016 no Recife. Há quem assegure que ele seria um postulante certo às eleições presidenciais de 2018 e, certamente, a formação de palanques regionais é importante. Por enquanto, confirmados mesmo estão os nomes de Geraldo Júlio(PSB), que tentará a reeleição, e o nome de Priscila Krause, pelo DEM. 


sexta-feira, 18 de março de 2016

Liminares que tentam impedir posse de Lula caíram nas mãos de Gilmar Mendes. Que azar!







Como se dizia antigamente, por uma dessas infelicidades do destino, as liminares impetradas com o propósito de impedir a posse do Ministro da Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva, serão apreciadas pelo ministro Gilmar Mendes do STF. Por que afirmamos tratar-se de uma infelicidade? é que o ministro Gilmar Mendes, em entrevista, logo após tomar conhecimento da notícia de que Lula assumiria a Casa Civil do Governo Dilma Rousseff esboçou uma reação de descontrole, aprioristicamente reprovando a medida. Nos parece que a decisão é tomada através de um sorteio. Caiu o nome de Gilmar Mendes. 

Entre os ministros daquela corte, Gilmar Mendes talvez seja o mais próximo dos tucanos, o que leva algumas pessoas a advogarem que ele poderá julgar essas limiares sem a isenção necessária, assim como o juiz de primeira instância que concedeu liminar que proibia a posse de Lula como ministro. Catta Preta, este é o nome dele, foi flagrado, no dia 13, nas manifestações de rua que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Sobretudo nesses momentos de agudeza da crise política, tudo, inclusive a justiça, nos parece muito polarizado. 

As críticas ao poder Judiciário, interceptadas nos diálogos grampeados do ex-presidente Lula produziram um tsunami na STJ e no Supremo Tribunal Federal, com pronunciamentos duros dos seus membros. A cobertura que a TV Globo deu a esses pronunciamentos é algo que apenas coaduna com os seus propósitos indisfarçáveis. Pego com as cuecas nas mãos, num desses momentos de descontração - onde ninguém poderia imaginar que estaria sendo grampeado - Lula fez alguns desabafos que desagradaram os magistrados. A solução foi soltar uma notinha pública, onde tenta encerrar a polêmica, pedindo apenas que, no caso dele, faça-se justiça. Vamos ficar torcendo que Gilmar Mendes, em nome dessa justiça, faça um julgamento isento dessas liminares. 

quinta-feira, 17 de março de 2016

A UFPE na encruzilhada da morte


Recebemos solicitações de amigos para comentar a nota do Conselho Departamental do Centro de Educação da UFPE que criticava a criação de uma comissão de sindicância para “apurar” a ocupação da reitoria pelos estudantes e propunha o diálogo como método de solução do conflito. Inicialmente, pensamos em fazê-lo, mas decidimos seguir um outro roteiro, para refletirmos e problematizarmos algo mais profundo (invisível) que nos vem preocupando nos rumos da UFPE. Desculpem-nos pelo texto acadêmico (várias citações e referências), mas achamos que ele é mais contributivo que um texto político para o momento. É um texto que convoca para a reflexividade de todos simultaneamente. Se existir um mínimo de honestidade entre aqueles que se proclamam democráticos, acreditamos que este texto tem algo a contribuir com o debate sobre a criminalização dos movimentos sociais na UFPE e sua militarização. É um texto de diálogo, não de guerra, porém crítico.
O leitor seguirá o seguinte roteiro: 1) esclarecimento sobre a morte – e sua relação com autonomia/heteronomia; 2) sintomas da alma; 3) constituição (ou ausência) de espaço público – antinomias conceituais; 3) princípios do SINAES; 4) Militarização da UFPE; 5) algumas considerações
Sobre o que vai emergir nas linhas seguintes, já tínhamos alertado o reitor, Sr. Anísio Brasileiro, no seu primeiro mandato, num debate realizado no Centro de Educação. Alguns argumentos postos aqui já são do seu conhecimento; apesar de ter sido em fala, não tão desenvolvido como aqui, esperamos que esteja: a pulsão de morte comandando as ações administrativas da UFPE. Projeção no Outro como “inimigo”, “ameaçador”.

Pulsão de Morte
Aqui alerta-se para uma situação de “imobilidade”, “repetir-se” (“retornar a um estado anterior”) , negação da criação (e da criatividade) e da “união” para a vida. Ela segue o destino da destruição (podendo se dirigir interna ou externamente). As pulsões de morte “tendem para a destruição das unidades vitais, para a igualização radical das tensões e para o retorno ao estado anorgânico que se supõe ser o estado de repouso absoluto”. 
O “tema” da morte coloca a questão da relação autonomia/heteronomia do sujeito e da sociedade. A sociedade (suas instituições e organizações) que faz investimento em seu próprio fechamento de forma exacerbada é levada ao domínio pleno da heteronomia (Cornelius Castoridis) . A UFPE atualmente (desde a gestão do Sr. Amaro Lins ) se coloca para o grande público como uma gestão “democrática”, “plural”, “participativa”. Gadiel Perruci defende a análise em que “sinais de democracia” na UFPE começaram a surgir, apenas, na década de 80 com a criação da ADUFEPE e a emergência dos estudantes em suas entidades não tuteladas pela ditadura. Antes, só existia oligarquia. O que temos que refletir aqui: houve apenas mudanças de grupos ou de fato uma ruptura nas significações imaginárias centrais de ordem? Essa questão é crucial já que levanta as questões arqueológicas do poder na UFPE (antes, Universidade do Recife).

Flávio Brayner nos impõe a refletir sobre o significado da democracia na Universidade em sua relação com a meritocracia: 
É possível o convívio salutar de ambas? a universidade pode suportar (e até onde?) a democracia? Qual o significado da atual linguagem “meritocrática”, em franca expansão entre nós? Ela é ou não compatível com a democracia?
Principio com uma observação: não existe “gestão democrática” in abstrato, pairando sobre todo e qualquer modelo de universidade, como uma entidade universal e aplicável a qualquer caso, um ente metafísico desencarnado e que, dependendo apenas da vontade política dos agentes, ele se incorporaria numa administração.

Talvez, por serem os fundadores, inauguradores da “gestão democrática” na UFPE, aqueles acreditem que conseguem ser a expressão e se confundam com a própria democracia. Se procede esta hipótese secundária, o Outro aparecerá como um “intrometido”, um “despreparado” por não apreender a essência da verdade: somos os “fundadores” da democracia, logo, seus representantes legítimos. As manifestações são e somente são de “opositores cegos” que não conseguem enxergar a realidade: eles são os seus Pais e portanto,os únicos legítimos para representarem a democracia. Qualquer crítica que emerja será uma crítica a eles próprios (a democracia). Inaceitável. A horda tem que estar sob controle.
Toda instituição impede a reflexão, a problematização – o que já traz um “problema” para o discurso da “democracia”. A instituição não gosta de ser questionada – ela se assenta em verdades (diríamos certezas) fundacionais e nos valores mais dignos de nota. Ou seja, ela nega a consciência de si na medida que a certeza de sua finalidade existencial nunca poderá estar errada, posta em dúvida. A tendência da instituição é dirigir-se à heteronomia. Voltemos à morte.
A morte remete a uma questão muito importante, “tanto para a vida psíquica quanto para a instituição da sociedade” (Castoriadis, p.168). Conforme ele, “a instituição da sociedade é também, evidentemente, instituição de um processo de fabricação de indivíduos sociais, e isso de múltiplas formas, a começar pela família, passando pela linguagem e pela quase totalidade das instituições particulares”. Assim, “o problema para a sociedade é fazer sujeitos aceitarem sua mortalidade sob uma [defesa da imortalidade como vida após a morte e passividade diante dela] e outra dessas formas [aceitação da mortalidade]”. Desculpe-nos leitor, pelas citações, mas são importantes:
“Toda política verdadeira, na medida em que visa à instituição da sociedade, é também uma política da mortalidade: ela diz aos humanos que vale a pena morrer pela salvaguarda da polis, pela liberdade e pela igualdade, etc. É por isso que fui tantas vezes levado a dizer que uma sociedade autônoma só se poderá realizar de verdade quando os humanos forem capazes de enfrentar, até o fim, sem fetiches instituídos, a sua própria mortalidade.Enquanto isso não for possível, permanecerá a fuga para um investimento rígido e ilusório em algo que possa recobrir a morte”

Para Castoriadis, “é sempre a morte o preço a ser pago pela liberdade. Pois viver livremente implica que se saiba de antemão que no momento da morte não há nada a esperar e que, de uma certa maneira, tudo o que se fez não tem nenhum sentido, exceto precisamente este: ter se permitido viver livre” (p. 173)
A Reitoria da UFPE estará disposta a “morrer livremente” ou prefere ser dominada e assumir investimentos rígidos dirigidos à morte, à destruição? Deslocarão seus investimentos para a pulsão de vida (conservar a espécie, a ligação, a criação e a criatividade) ou para seus “inimigos’ (seus fantasmas)? Lembremos que os inimigos precisam ser destruídos e eliminados (os estudantes, os servidores e os docentes “manifestantes”) a qualquer custo. Este será o caminho a seguir, o da morte?

Em sociedades hierárquicas (econômicas, políticas, sociais, de gênero, etc) , o investimento desloca-se para a fabricação de inimigos, aos “impuros”. A sindicância administrativa é, de certa forma, um instrumento “legal” de “purificação” que visa eliminar os “impuros” – ela é a manifestação e o instrumento para legitimar a ordem vigente classificando (já classificados, já instituídos anteriormente como perigosos e danosos à instituição) os sujeitos “investigados” – vale a pena lembrar a contribuição de Michel Foucault . A heteronomia prevalece na relação com o “eu” e o “Outro”, este já instituído como “natural” e “necessário”. A administração predomina e hegemoniza contra medidas políticas autônomas e reflexivas. E como já disse Max Weber, “administrar” é “dominar”.
Sintomas da alma
Essa pulsão de morte poderá ser percebida nos seus sintomas. Sintomas que significam sinais, mensagens, indícios de algo que se “fala” “sem sujeitos”. Quais sintomas podemos elencar? 
1) a UFPE cercada de grades, 
2) roupa de guerra, dos servidores da segurança patrimonial, 
3) o uso exagerado de tecnologias nos centros e no campus em nome da “segurança”, 
4) linguagem rotuladora, estigmatizadora, 
5) incapacidade de escutar o Outro (os moradores da várzea, os estudantes, p. ex, e tantos outros), etc.
6) vigência do estatuto da ditadura - recusa em aprovar o Novo;


Evson Malaquias é professor da Universidade Federal de Pernambuco. 

Michel Zaidan Filho: A marcha da insensatez




Se os partidos da Oposição, setores das classes médias urbanas, a plutocracia da Avenida Paulista queriam transformar o Brasil na Venezuela ou, quem sabe, no Egito, estão muito perto de conseguir. A radicalização do movimento contra Dilma, Lula e o PT está dividindo o País. É como se ressentimento de classe, guardado há tanto tempo, sobretudo depois da derrota de Aécio Neves, voltasse com uma força inaudita nas ruas, nos meios de comunicação de massa, no Congresso. Existe hoje no Brasil um ambiente envenenado pelo ódio social que impede qualquer processo racional de discussão. Não adianta contraprova, contra argumentação. As posições foram formadas a partir das informações disseminadas pelas redes de TV's, essas abastecidas por grampos e vazamentos ilegais, que passam a ter foro de verdade, independentemente de provas, do contraditório, do direito da ampla defesa e do devido processo legal.

A recente nomeação de Lula para a Casa Civil da Presidência da República parece que pode ser vista por dois prismas: um, é a inegável capacidade de articulação do ex-presidente da República, virtude escassa num momento de crise aguda de governabilidade e de frágil comunicação política entre Dilma e o Congresso Nacional, de outro, a contaminação do núcleo duro do poder com a crise política. Ou seja a nomeação de Lula leva o centro da crise política para dentro do Palácio da Alvorada, e faz de Dilma sócio de Lula na crise. 

Enquanto, a perseguição se dirigia a Lula, a Presidente podia seguir tentando governar o País. Agora, onde ela for, o que disser ou fizer se tornam alvo de protesto. A recente proposta do senador Renan Calheiros no sentido da adoção do semiparlamentarismo corresponde a uma situação de absoluta inviabilidade política da capacidade governativa da Presidente. Reina, mas não governa. Como a rainha da Inglaterra. E entrega de vez o destino do País ao arremedo de sistema partidário, formado por legendas de aluguel, da Igreja, do Agronegócio, da Bala etc.


A marcha dos anti-dilmistas põe o desafio de se promover nos próximos dias uma manifestação multitudinária, pelo menos igual à do domingo passado. Não é fácil em se tratando de dia útil e de ser reativa. Quem toma a iniciativa sempre tem vantagem. Ficamos nós com a obrigação moral e política de mobilizar os sindicatos, os movimentos sociais, os cidadãos e cidadãs para responder com a mesma magnitude ao protesto domingueiro. É difícil, mas é necessário. É urgente. Sob pena de se convencer a opinião pública de que a maioria é mesmo a favor do impeachment.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE


A resistência no TUCA e a marcha do golpe nesta 5ª feira


Se o golpe avança, a resistência não pode hesitar. E não hesitar implica em primeiro lugar em ter clareza do que está em jogo nas próximas horas.


Redação
Mídia Ninja
A avenida Paulista amanheceu bloqueada nesta 5ª feira pela PM do governador Geraldo Alckmin. Soldados em número superior ao de meia centena de gatos pingados que impediam o trânsito fecharam as duas pistas em três quarteirões da principal via da cidade.
O nome disso é golpe.
 
O significado é claro: a direita paulista lidera a marcha da sedição contra o governo democrático da Presidenta Dilma.

Tevês e jornais insuflam na mesma direção nesta 5ª feira decisiva.

 
A edição vergonhosa da Folha de SP, por exemplo, veio encimada pela tarja que a polícia de Alckmin tenta materializar na rua: 'Governo sitiado'.
Esse não é o fato; é o vaticínio  salivado pelo diário que na ditadura franqueava viaturas à OBAN para a polícia política de Fleury colher suas vítimas e desovar seus corpos.
Se o golpe avança, a resistência não pode hesitar. E não hesitar implica em primeiro lugar em ter clareza do que está em jogo nas próximas horas.
Foi isso o que moveu centenas de intelectuais e juristas que afluíram ao TUCA, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) na noite desta 4ª feira para uma reunião de planejamento da luta que agora urge.
Com o auditório lotado, uma multidão tomou o lado de fora da Universidade para acompanhar o ato por um telão.
Num clima de tensão e engajamento ecumênico,  personalidades e intelectuais de diferentes correntes progressistas , desde a filósofa Marilena Chauí ao economista e ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, Luis Carlos Bresser Pereira , alertaram para a iminência de uma ruptura de ciclo histórico. 
É isso que está em jogo e, portanto, a resistência não pode ser acanhada nas ruas e nos objetivos.
 
O ato transcorreu em ambiente de elevado nervosismo com as notícias da tentativa do juiz Moro de impedir a posse de Lula no ministério, ao divulgar grampo ilegal de diálogo entre Dilma e o ex-presidente, transcorrido depois de já confirmada a sua nomeação ao cargo de Chefe da Casa Ciivil.  
 
A divulgação das gravações foi a senha da sedição golpista e a evidência de que o movimento golpista penetrou as entranhas do judiciário em clara ameaça às instituições.
 
O juiz-conspirador que se despiu de qualquer verniz de legalidade nas últimas horas age claramente determinado a convulsionar o ambiente político.
 
A sorte de Moro conflita com o destino da democracia no país.  
 
Se a Suprema corte e o CNJ, aos quais ele está subordinado, sancionarem seus atos, a nação terá sido rebaixada à condição de um regime de beleguins e ele será coroado seu imperador.
 
Na corte dos beleguins, a diretoria da Fiesp comandada por uma sombria figura que há muito não exerce qualquer atividade produtiva,  empalmará o comando da economia para implantar as reformas anti-trabalhistas e anti-sociais que reivindica em defesa do capitalismo selvagem.
 
Foi com essa sofreguidão que a Fiesp, de Paulo Skaf, ex-tudo, agiu em sugestiva sintonia com Moro na noite faiscando a convocação de protestos  na avenida pela derrubada do regime, em frente a sua sede tumba, previamente equipada com um palanque desde as primeiras horas da tarde de ontem...
 
Foi essa percepção de um cerco arquitetado que marcou as intervenções dos oradores no ato pela democracia no teatro da PUC na mesma hora.
 
Ao  exortar à resistência cívica contra o golpe em marcha,  intelectuais e juristas alertaram: o que está em jogo não é só defesa da legalidade representada pelo mandato  concedido por 54,5 milhões de votos à presidenta Dilma, mas sim --explicitou Chauí em sua intervenção no TUCA- impedir que se esmague o espaço público e os direitos sociais duramente abrigados na Constituição de 1988 --agora acossados  pelo 'alargamento da lógica privada, com a qual o neoliberalismo fere de morte a democracia', desnudou a filósofa.
 
A resistência convocada pelas personalidades que afluíram ao TUCA terá um ponto alto nesta sexta-feira, dia 18.
 
Atos de uma frente ampla de forças democráticas, nacionalistas e progressistas vão ocorrer em todo o Brasil contra a ofensiva golpista que pretende sitiar não apenas o governo --como atiça vergonhosamente a Folha de São Paulo --  mas as garantias de participação popular na democracia e nos frutos do desenvolvimento, apenas esboçadas, mas já intoleradas, nos governos do ciclo que começou em 2003.
 
Esse processo desembocou na atual transição  em que a decisão sobre o passo seguinte da história brasileira expõe o conflito entre duas concepções de sociedade e de democracia.
 
De um lado, uma plutocracia que  reserva a nação e as riquezas do crescimento a 30% de privilegiados.
 
Na outra ponta, a opção desassombrada pela construção de uma democracia social  na  nação que se tornou uma das principais referências da luta pelo desenvolvimento no mundo. E que por isso está sendo acossada por interesses gigantescos.
 
A encruzilhada brasileira é uma questão de poder : foi isso o que disse a palavra engajada dos intelectuais na PUC.
 
O poder nesse momento será decidida nas ruas, onde a sociedade definirá seu caminho caminhando.
 
É essa caminhada  que decidirá a permanência de Dilma e o espaço de ação de Lula em Brasília.
 
Em São Paulo, a manifestação da sexta-feira começa às 16 horas no vão livre do MASP, na venida Paulista.
 
Não há tempo para hesitar: essa é a hora em que a democracia se impõe ou os tiranetes assumem o comando.
 
Dia 18, 16 horas, MASP/av. Paulista.
 
(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)
Créditos da foto: Mídia Ninja




Paulo Rubem condena manobras golpistas.








Cínicos. Golpistas. Não adianta promover essa vergonhosa manobra de conta-gotas para forçar um golpe e o impeachment da Presidente Dilma. Várias tentativas de encher as ruas e não conseguiram nada. Agora partem para o conta-gotas. Condução coercitiva do Lula, depois o pedido de prisão em São Paulo, hoje a liberação das escutas telefônicas... Nada de concreto, objetivo, prova com "P" maiúsculo. Nada. Willian Bonner e Renata Vasconcelos, no Jornal Nacional, ridículos, falando aos tropeços ao telespectador o que diziam estar nos diálogos entre Lula e Dilma. Nada demais no que ouvi, NADA DEMAIS. 

Vi agora na TV o prédio da FIESP, Federação das Indústrias de São Paulo, presidida pelo Paulo Skaff, na Avenida Paulista, em São Paulo, com luzes verdes e amarelas e uma faixa preta dizendo " Renuncia já ! ." Canalhas, essa elite recebeu dinheiro grosso do BNDES com juros baixos por vários anos, desonerações tributárias fartas, tiveram a seu favor várias versões do Programa de Refinanciamento das Dívidas de Sonegação Fiscal, o REFIS, entre outras benesses, chegando a quase 5% do PIB. Meses atrás uma parte deles tinha R$ 280 bilhões empoçados, sem que fossem investidos na produção, vários deles, de SP e de outros estados, se endividam lá fora a custos baixos e aplicam os dólares aqui para ganharem com juros altos, longe da produção, aplicando tudo em títulos do tesouro nacional. 

Agora querem a renúncia de Dilma. Pra mim as reformas estruturais já teriam vindo há muito tempo, com o povo nas ruas. Querem dividir o país com manobras e artimanhas? Tá, vamos dividi-lo com propostas, nas ruas, para garantir a democracia e o efetivo desenvolvimento da nação. Reforma tributária progressista, regulação do sistema financeiro, lei de mídia democrática, mudança da política monetária, redução das taxas de juros, auditoria constitucional da dívida pública. O MPF quer investigar? Que investigue. O STF quer investigar? Que investigue. Com rigor, sem manobras e sem alianças com a oposição. Agora, essa elite que mama nas tetas do estado, do BNDES, que foi vista com a mão na massa na Operação Zelotes ( fraudes contra a Receita Federal) e depois quer a renúncia de Dilma, essa gente cínica e golpista não vai ter vez não. Forçar a barra para gerar mobilização e derrubar o governo eleito, vão nada. De jeito nenhum. Pode apostar. 






P.S.: do Realpolitik. Este texto foi publicado originalmente na página que o atual presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Paulo Rubem Santiago, mantém na rede social Facebook.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Comissão de Direitos Humanos da UFPE envia ofício ao reitor Anísio Brasileiro

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO-CAC

Recife, 04 de março de 2016.
OF: 18 /2016
DA: Presidente da Comissão de Direitos Humanos da UFPE
Profa. Dra. Maria José de Matos Luna
AO: Magnífico Reitor da UFPE
Prof. Dr. Anísio Brasileiro de Freitas Dourado.
Magnífico Reitor,
DA CONTEXTUALIZAÇÂO
A Comissão de Direitos Humanos D.Helder Câmara da UFPE, avaliou na sua reunião do dia 02 de março p.p. relatos significativos sobre o processo de sindicância/inquérito que está sendo impetrado contra estudantes e servidor técnico–administrativo por ocasião da última ocupação da reitoria.
Como se observa, de forma geral, o direito fundamental mais violado pelo assédio moral é a liberdade, pois fere a dignidade da pessoa humana. Como afirma Minassa, “um processo iníquo que manipula o homem mediante a desconsideração pela sua liberdade, dignidade e personalidade, com intuito exclusivo de acrescer o poder do agente agressor...”
Daí a nossa preocupação com relação aos acontecimentos que estão amplamente divulgados à comunidade universitária no que diz respeito aos conflitos ocorridos em função de questões de ordem institucionais e a sua comunidade discente na ocupação da Reitoria em 2015.
Precisamos lembrar que a universidade, historicamente, sempre teve seu aspecto de vanguarda não só diante dos desafios de desbravar a Ciência, mas também na conduta de seus atores quando escolheram também lutar para que o conhecimento gerasse na sociedade a libertação da ignorância, trazendo a democracia para dentro dos muros da universidade, que com isso pode fazer chegar ao estudante o arcabouço de reflexão de justiça e cidadania para transformar a realidade.
Foi com essa herança acadêmica, no decorrer de tantos estímulos criados pela democracia que possibilitaram a geração em sala de aula de instrumentos de pacificação e justiça social, que fossem instalados como organismos Institucionais tais como a Comissão de Direitos Humanos, Comissão de Ética e Espaço de Diálogo e Reparação, Ouvidoria. Estruturas organizativas essas que passaram a ter participação de grande valor também fora das dependências da própria UFPE.
Sabemos o quanto o momento político e econômico do país afeta o equilíbrio financeiro e emocional de um reitorado, mas isso não poderia ser acolhido dentro de procedimentos de resoluções de problemas que comprometem o equilíbrio do diálogo entre as partes. Houve, entretanto, a falta de prioridade das competências de práticas restaurativas que a Comissão de Direitos Humanos Dom Helder Câmara da UFPE é portadora, não buscando o seu indispensável aconselhamento no desencadeamento de problemas como a ocupação e desocupação da Reitoria pelos discentes em 2015.
Hoje nos deparamos com mais um grave procedimento que as práticas restaurativas por meio da Comissão de Direitos Humanos precisaria estar presente, mas que não foi convocada, sequer permitida a sua presença, apesar do pedido do técnico depoente; a decisão da UFPE de instaurar uma Comissão de Sindicância/Inquérito para apurar conteúdos pouco claros em processos que citam para depoimento, além de 03 (três) estudantes, um técnico administrativo.
Acreditamos que o momento é de dialogarmos, nos reunirmos o mais breve possível, para conversar sobre as reais necessidades que fundamentam a existência dessa Comissão de Sindicância/Inquérito, assim como o futuro das pessoas que fazem a comunidade universitária. Observe-se que o corte de verba das bolsas é outro ponto que tem afligindo os discentes. Sabemos que será um ano muito difícil e que a colaboração consultiva das organizações humanistas em todas as questões que imponham o poder punitivo da força ou da pressão psicológica sobre estudantes, professores e técnicos, a Comissão de Direitos Humanos possa ser um instrumento de aconselhamento da reitoria e ser reconhecida também como legítima defensora dos membros da comunidade universitária que se sentirem violados no direito de se expressar, pensar, sonhar e lutar por um mundo melhor e mais justo.
Mediante o que, foi sugerido, nessa reunião, deve haver mais atuação da CDHDHC, organizando um grupo para conversar com o Reitor, formado pela Comissão de Direitos Humanos e pelo EDR (Espaço de Diálogo e Reparação) bem como outras instâncias da UFPE (representantes dos DA’s, da ADUFEPE, do SINTUFEPE e da ouvidoria) para sessões de diálogo.
DO DESENVOLVIMENTO DAS AÇÕES
A administração central atribui à atividade de ocupação da reitoria de 2015 uma conotação política, criminalizando a última ocupação, revelada naquele momento pela atuação repressiva e intimidatória, com seguranças uniformizados com roupa camuflada, a exemplo das forças armadas à época da ditadura e funcionários escondidos fotografando os participantes. Atitude repetida na sindicância que tem um caráter político, conservador, repressivo, caracterizando uma violação dos direitos humanos com perseguição a posicionamentos críticos, quando não devemos esquecer que estamos em um local de produção de saberes.
A Comissão, por unanimidade, apresentou posição de extrema preocupação com o andamento do processo de apuração da ocupação. Em oportuno, foi lembrado que a mediação conduzida à época pela Profª Maria José e pelo Prof. Marcelo Pelizzoli, respectivamente membros da Comissão de Direitos Humanos e do Espaço de Diálogo e Reparação (EDR), grupos institucionais da UFPE, homologados e reconhecidos pela Reitoria em resoluções do Conselho Universitário, não foi respeitada naquela ocasião, o que ocasionou um novo documento redigido pelo Conselho Departamental do Centro de Artes, colocando-se contrário a tal prática.
Foi sugerida mais uma vez a atuação da CDHDHC, organizando um grupo para conversar com o Reitor, formado pela Comissão e Direitos Humanos da UFPE e pelo EDR e outras instâncias apropriadas ao tema, a saber: (representantes dos DA’s, da ADUFEPE e do SINTUFEPE) para dialogar sobre a questão em pauta. A posteriori, pensar a formação dos vigilantes da UFPE, na perspectiva dos Direitos Humanos.
DO PEDIDO IMEDIATO
A Comissão de Direitos Humanos D. Helder Câmara da UFPE, através deste documento/ofício, solicita formalmente, cópia do processo com todos os respectivos relatos até a presente data contra estudantes e servidor da UFPE e simultaneamente, em caráter de URGÊNCIA, solicitamos A SUSPENSÃO DA SINDICÂNCIA E RETOMADA DO DIÁLOGO, com a participação de representantes da Comissão de Direitos Humanos da UFPE e do EDR, (Espaço de Diálogo e Reparação) como forma democrática de condução do processo.
Atenciosamente,
Profa Dra. Maria José de Matos Luna
Av. Arquitetura s/n Cidade Universitária
Recife-PE CEP. 50740-550 – (81) 2126.8766
comissaodireitoshumanos.ufpe@gmail.com

O xadrez político das eleições de 2016, no Recife. As eleições de Caruaru passam pelo Recife. O arranjo político entre o PDT e o PSB.






José Luiz Gomes


Nas coxias da política pernambucana estão ocorrendo algumas cenas ardilosas, protagonizadas por atores políticos do campo da "esquerda", seja lá o que isso signifique, diante do achincalhe que esses próprios atores emprestaram a esta referência ideológica. Ainda costumo tratá-los aqui por "comunistas", "socialistas", "democratas" mas apenas como uma mera identificação linguística, nada mais do que isso. A Deputada Estadual Raquel Lyra tinha uma agenda com o governador Paulo Câmara para o dia de hoje, 16,mas resolveu antecipá-la, diante dos tremores políticos ocorridos na Princesa do Agreste, depois do anúncio de que o Palácio do Campo das Princesas havia decidido apoiar o nome do vice-prefeito, Jorge Gomes(PSB) - com o aval do atual prefeito, José Queiroz(PDT) - às eleições municipais de 2016, literalmente rifando o nome da filha de João Lyra. 

Comenta-se que foi recebida pelo governador Paulo Câmara já depois das 22:00 horas. Diante da irreversibilidade da situação, teria chegado às lágrimas. Raquel teria motivos para o descontentamento, uma vez que o Palácio do Campo das Princesas emitia sinais de que poderia apoiá-la. Soma-se a isso, a capacidade da Deputada em "construir" as condições ideais de uma candidatura à Prefeitura da Princesa do Agreste.Caruaru tem um histórico de rivalidades políticas entre as família Queiroz e Lyra. Em certos momentos da vida política local, ou se era carne de sol ou se era carne de charque, de acordo com uma velha raposa política do município. Em certos momentos, essa polarização foi quebrada, juntando os dois grupos políticos em projetos convergentes, selados nos famosos churrascos da Fazenda Macambira. 

Circunstâncias políticas, aliado a outros fatores locais e estaduais, no entanto, fizeram com que essa rivalidade voltasse a ser aflorada. Os Lyras não abriam mão da candidatura de Raquel, exigindo o apoio do Palácio do Campo das Princesas. Por outro lado, José Queiroz cobrava a "fatura" de uma longa folha de serviços prestados aos socialistas tupiniquins, desde os tempos do ex-governador Eduardo Campos, com quem mantinha excelentes relações. Na época do ex-governador os pleitos do município eram uma ordem de serviço a ser executada sem delongas. Em contrapartida, Queiroz garantia as porteiras fechadas do municípios aos candidatos apoiados pelo Campo das Princesas. 

Em situações como esta, onde aliados estão em disputas, por vezes, poderia se recomendar uma "neutralidade" da máquina política do Estado. Não é este o caso de Caruaru, uma cidade extremamente estratégica, integrante do chamado "Triângulo das Bermudas". Por mais de uma vez, o prefeito José Queiroz fez chegar ao Palácio do Campo das Princesas que não se responsabilizaria pelos seus atos, caso não recebesse o apoio ao seu candidato. Um recado muito claro. Mais claro, impossível.

Junta-se a essas circunstâncias um outro fato curioso: os arranjos políticos aqui no Recife, envolvendo as duas legendas: PDT e PSB. Essas costuras teriam começado por ocasião de uma visita do presidente da legenda brizolista ao Recife, Carlos Lupi, que manifestou claramente o desejo de estreitar os laços entre as dois partidos, a partir das eleições de 2016. Com o controle da máquina brizolista local, ao que se sabe, os Queiroz teria condicionado o apoio ao projeto de reeleição do prefeito Geraldo Júlio aos arranjos políticos em Caruaru. Diante do exposto, pragmaticamente, os socialistas bateram o martelo em favor do nome de Jorge Gomes, candidato dos Queiroz. 

Pedimos perdão aos leitores por usar aqui, deliberadamente, a expressão "legenda brizolista" quando faço referências ao PDT. A máquina que mói o partido hoje está muito distante dos ideais preconizados pelo ex-governador Leonel de Moura Brizola, um homem público de honradez. As atitudes tomadas pelos dirigentes da legenda, seja no plano estadual  ou no plano federal, estão deixando alguns atores políticos indignados. No plano nacional, até recentemente, o partido abandonou a nau do Governo Dilma Rousseff, o que levou o ex-deputado Paulo Rubem Santiago a pedir desligamento da legenda. Essa "moeda de troca" em favor do apoio ao projeto de reeleição de Geraldo Júlio, por sua vez, deixou bastante aborrecida a vereadora Isabella de Roldão, que chegou a defender a tese de uma candidatura própria da legenda nas eleições do Recife.

Os Lyras devem se abrigar no ninho tucano, com o propósito firme de manter o nome de Raquel Lyra na disputa. Como comentávamos ontem, aqui pelo blog, o medo que faz é que os eleitores da Princesa do Agreste, temendo por essa indigestão política, possam optar por um outro cardápio, menos indigesto.

Pelo lado da oposição, as pedras também se mexem no tabuleiro. Havia a possibilidade de os Democratas, leia-se Priscila Krause, fecharem um acordo com o PTB, do ministro Armando Monteiro. Mas, mesmo entre os Democratas, ainda são se construiu um consenso sobre a candidatura da Deputada. De olho nas movimentações, o também Deputado Estadual Sílvio Costa Filho aproveitou o espaço para mudar de legenda, filiando-se ao PRB, quiçá, com o aval do próprio Armando Monteiro. A jogada pode representar alguns minutos preciosos no tempo de TV do provável candidato, o que não deixa de ser uma vantagem. No momento, ele se movimenta como candidato, mas já retirou sua candidatura em outro momento, mediante acordos fechados com o então governador Eduardo Campos. É sempre uma incógnita. 

Lula nomeado para a Casa Civil. A crise política chega ao seu epicentro.




O Governo Dilma vive um momento muito difícil. Lula vive um momento muito difícil. Em situações como esta, contar com a solidariedade de um amigo pode, de fato, fazer uma grande diferença. É neste contexto que se percebe, tanto da parte de Dilma quanto da parte de Lula, inciativas de ajuda mútuas e sinceras.Não embarco aqui naquelas conversas que advogam que Lula, na realidade, estaria interessado em que o barco de Dilma naufragasse. Prefiro acreditar que ele gostaria de ajudá-la, assim como ajudar o país, ajudando a criar as condições mínimas de governabilidade. A grande questão é em que circunstâncias isso poderá ocorrer. Por enquanto, as "soluções" apresentadas estão sugerindo mais problemas do que solução. 

Convidar Lula para assumir um ministério, com o aval do PMDB, numa espécie de semi-parlamentarismo, apenas prolongaria a agonia de Dilma Rousseff, uma vez que Lula passaria a "mandar" no Governo, relegando a presidente à condição de uma rainha da Inglaterra. Um outro fato relevante é a nossa frágil estrutura partidária, que não comporta experiências como esta. Pontualmente, percebe-se a estratégia indisfarçável dos petistas de livrar Lula das agruras da Operação Lava Jato, oferecendo-se um foro privilegiado, longe da sanha daquele juiz do Paraná. 

Por outro lado, começam a pipocar, por parte a oposição, os possíveis impedimentos do ex-presidente em assumir um cargo público. É como se Lula não passasse pelo aval do Gabinete de Segurança Institucional, em razão das denúncias atribuídas a ele. Para evitar tanta polêmica em torno do assunto, talvez fosse melhor mesmo deixar Lula onde está para que, com serenidade, ele possa enfrentar a justiça, respondendo sobre as ilações ou acusações que estão sendo imputadas a ele. 

P.S.: Escrito à tarde, o post apenas antecipou o que poderia ocorrer. A capital federal tornou-se um pandemônio depois da liberação de áudios gravados, com autorização da justiça, da fala de Lula com políticos, amigos e com a presidente da República, Dilma Rousseff. Neste momento, também estão ocorrendo manifestações públicas contra a nomeação de Lula para a Casa Civil do Governo Dilma. Chegamos, infelizmente, no epicentro de uma crise política sem precedentes. A trama com o propósito de inviabilizar politicamente o Governo de coalizão petista está muito bem urdida. Os áudios vazaram no momento exato em que Lula acenava para tirar Dilma do atoleiro em que ela se encontra metida. 

Michel Zaidan Filho: A Caixa de Pandora do doutor Renan



Esse Congresso Brasileiro é uma caixinha de surpresas. A notícia agora é que o Presidente do Senado, Renan Calheiros, está preparando com o auxílio de outros colegas, a votação de uma emenda que crie um regime semi parlamentarista no Brasil. O que o nobre senador esquece é que não existem partidos dignos desse nome em nosso país. Há frentes, biombos, federações, guarda-chuvas e ônibus (designações prosaicas dadas às nossas agremiações partidárias); mas não partidos verdadeiros, que façam a devida articulação entre a sociedade e o Estado brasileiro. Transformar a Presidente Dilma Rousseff em “rainha da Inglaterra” e entregar o governo da República a esse amontoado de cacos, fragmentos e ruínas que se chama “sistema partidário brasileiro” seria destruir o que ainda resta de racionalidade e republicanismo na gestão da coisa pública no Brasil. 

O nosso país não tem tradição parlamentarista. Somos presidencialista por herança atávica do messianismo e da monarquia portuguesa. O nosso antigo Poder Moderador, exercido pelo rei, sempre foi mais do que um poder moderador. Intervinha no jogo parlamentar, alterando o funcionamento normal do Legislativo e da disputa partidária. O presidencialismo “imperial” que herdamos – por influência do modelo político norte-americano – é uma sobrevivência do messianismo e do poder centralizador da monarquia. Não acreditamos no Poder Legislativo. Não valorizamos as eleições proporcionais. Não votamos em partidos ou legenda, só em nomes. E não lembramos sequer em quem votamos para o Congresso nas eleições passadas. Querer entregar o governo da República a salteadores de estrada, bandidos, mafiosos e lobistas profissionais é institucionalizar a bandalheira de uma vez. Aí sim teremos uma autêntica “Republiqueta de bananas”.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

terça-feira, 15 de março de 2016

Editorial: Nas entrelinhas das mobilizações contra o Governo Dilma Rousseff






É preciso que se lance um olhar com bastante acuidade sobre as últimas manifestações ocorridas no Brasil, no domingo 13, contra a corrupção e o Governo da Presidente Dilma Rousseff. Impossível separar aqui, da agenda do movimento, o reforço ao pedido de afastamento da presidente Dilma. Não há dúvida de que chegamos a um estágio de impasse institucional. Alguma solução, construída a partir das instituições da democracia, terá que surgir desse imbróglio. Tudo leva a crer que o PMDB, sem qualquer remorso, entregará a cabeça da presidente Dilma Rousseff aos seus algozes, assim como um Judas, talvez antes mesmo da semana santa. 

Os atores principais que entabularão essas negociações não serão os representantes do Governo, mas da oposição ao Governo. Falta apenas chegar a um consenso sobre o naco de poder que o partido abocanha nessa fase de transição e o compromisso de não criar embaraços aos tucanos em 2018. Há alguma tendência da base governista em apressar o andamento do processo de impeachment, numa derradeira tentativa de manter um mínimo de controle do processo, antes do estouro definitivo da boiada. Hoje, é mais provável um golpe branco, uma vez que Lula poderá assumir a Casa Civil, deixando Dilma Rousseff, em sua poltrona, tal como uma rainha da Inglaterra, até o final do seu mandato.  

Creio que não seja mais o caso aqui de estarmos contestando a sustentabilidade de um pedido de impeachment, produzido sem um fundamento consistente, com o propósito claro de apear a presidente Dilma Rousseff do poder. A inação dos poderes constituídos da república nos conduziram a este impasse, solapando princípios comezinhos da nossa já frágeis instituições democráticas. Nenhuma resposta do Executivo às legítimas reivindicações da agenda proposta pelas Jornadas de Junho; um presidencialismo de coalizão agonizante; Lei dos Meios para conter a sanha golpista de alguns veículos de comunicação; uma proposição de reforma política que não avança; diretrizes econômicas equivocadas, que minaram o apoio dos agentes econômicos e financeiros; um escândalo de corrupção de proporções gigantescas; um governo com pouco apoio popular. Ou seja, é um emaranhado de problemas que minam qualquer gestão.

Ontem, domingo, foi um dia fatídico. A oposição conseguiu colocar mais de 6 milhões de pessoas nas ruas, de acordo com os seus cálculos. De acordo com a Polícia Militar, sempre mais precisa, a metade disso. De qualquer forma, um número expressivo. Dizer que a este grupo se juntam os tradicionais banhistas das orlas do Recife, do Maranhão, de Copacabana, apesar de ser verdade, também não ajuda muito. A despeito da identidade dos governos de coalizão petista com o andar de baixo da pirâmide social, governo é governo. Não se exclui aqui a elite ou classe média. E esses, no dia de ontem, manifestaram ma profunda rejeição ao Governo Dilma Rousseff. Uma rejeição que não pode ser ignorada. Movidos pelo ódio de classe? Talvez. Imbuídos de propósitos que não se coadunam com os pressupostos da democracia? igualmente. Alguns deles pediam intervenção militar e trajavam uniformes das forças armadas. Esse fato já nos oferece uma outra unidade de análise. Das mais preocupantes. 

Nada disso muda, entretanto, uma constatação. O Governo da Presidente Dilma está mergulhado numa profunda crise. Perdemos uma valiosíssima oportunidade de aperfeiçoamento de nossas instituições, de consolidar o respeito às regras do jogo democrático, através dos bancos escolares, através da sociedade civil, dos movimentos sociais. Ao invés disso, como disse, Mauro Santayana, cevamos urubus. Nosso grande temor é o que virá depois desse longo e tenebroso inverno. É exatamente aqui que entram as questões relacionadas às entrelinhas. 

Ontem senti que ficou um dia indefensável para os aliados da presidente Dilma Rousseff. Acompanhei as mobilizações dos amigos pelo microblog Twitter, o Facebook e a blogosfera. Já tivemos dias melhores. Já tivemos argumentos melhores. O ator global, José de Abreu, acabou baixando-se ao mesmo nível dos coxinhas, ao xingar de m. uma família de classe média. Se propomos a tolerância, não cabe aqui fazermos esse jogo. O espírito abatido parece ter turvado a inspiração e os argumentos dos seus defensores. Que nos perdoem os amnigos Turquim, Rovai, Azenha, Paulo Henrique, Brito entre outros. O grande mote para tentar desacreditar o movimento foi a foto daquele casal de classe média acompanhado dos filhos, sendo transportando num carrinho empurrado por uma babá. 

O que, de fato, preocupa. Preocupa a sintonia entre setores nada confiáveis da mídia, movimentos conservadores da sociedade civil, com caixa de ressonância nas instituições judiciais. A sequência de fatos que embalaram essas mobilizações de rua sugerem ações muito bem coordenadas. Houve quem informasse que o objetivo da condução coercitiva de Lula tinha como objetivo conduzi-lo à Justiça do Paraná. A intenção só não foi materializada pela intervenção de policiais da Polícia da Aeronáutica. O açodado pedido de prisão preventiva de Lula, formulado pelo Ministério Público de São Paulo, por sua vez, pareceu algo urdido para ser anunciado antes das mobilizações previstas para este domingo, inflando, assim, setores descontentes com o Governo. Essa tecitura preocupa na medida em que sugerem um engendramento entre os atores.

Outro fato relevante a ser observado diz respeito ao fermento de um Estado Policial entre nós, cujo tentáculos já se mostram visíveis, como nas ações da Polícia Militar de São Paulo para impedir uma assembleia do Sindicato dos Metalúrgicos, em Diadema, São Paulo. As pichações ocorridas na sede da UNE.Quando as instituições vão perdendo credibilidades, esses grupos começam a ganhar força, agindo, por vezes, por iniciativas pessoais. Durante o Regime Militar, existia um Comando de Caça aos Comunistas. A quem esse pessoal dava satisfações sobre suas ações? Outro ovo da serpente são as possíveis ações de grupos fascistas, que já praticaram crimes de xenofobia e homofóbicos. Durante as manifestações de ontem, foram observadas saudações tipicamente relacionadas a esses grupos. Vamos voltar a falar sobre este assunto.  

Azeda de vez a relação entre os Lyras e o Palácio do Campo das Princesas.




De certa forma, não se constitui nenhuma surpresa que a Deputada Estadual Raquel Lyra não tenha recebido o apoio dos socialistas para o seu projeto de candidatar-se à Prefeitura da Cidade de Caruaru, nas próximas eleições municipais de 2016. Já estamos em 2016 e as costuras políticas correm soltas no Palácio do Campo das Princesas. Neste momento, por motivos diversos, também se tornou comum a dança das cadeiras,algumas delas consoante os próprios interesses do Palácio, no sentido de acomodar aliados de outras legendas ou dividir o butim. Mas, no caso específico de Raquel Lyra, a deputada sai magoada por ão ter recebido a legenda para viabilizar sua candidatura à prefeita da Capital do Agreste.

Como disse, o desfecho já era esperado. O atual gestor, José Queiroz, tem uma longa lista de serviços prestados aos socialistas da província, desde a época em que o ex-governador Eduardo Campos ainda era vivo. Havia muita sintonia entre ambos, quase sempre materializadas na concretização dos pleitos enviados pelo município ao Governo do Estado. O mesmo não se pode dizer do período em o ex-governador João Lyra esteve no comando do Palácio do Campo das Princesas. Aqui se cria o impasse que praticamente selou o destino da Deputada Estadual Raquel Lyra na legenda.José Queiroz usou todo o seu capital político junto ao clã Campos e levou a melhor. O PSB já anunciou que deverá apoiar o nome do vice-prefeito, Jorge Gomes, indicado por Queiroz.

Raquel desembarca provavelmente no PSDB, como já era previsto, que deverá oferecer a legenda para a filha de João Lyra candidatar-se. Apesar dos inúmeros problemas que cidade enfrenta, a gestão do senhor José Queiroz (PDT)ainda é bem-avaliada pela população. Teremos uma disputa acirrada nas próximas eleições, desta vez pondo de lados apostos os Lyra e o Queiroz. Ali pelo centro, comendo o mingau quente pelas beiradas, o grupo político do Deputado Tony Gel, chegado a um cozido, na Praia do Joanga, o que indica que deverá contar com o apoio do PMDB. Tony torce que o cardápio mude um pouco - saia da carne de charque ou carne de sol - e ele possa, quem sabe, convidar os amig@s para saborear uma chã de bonde no Alto do Moura. Por enquanto, ainda é cedo para se fazer qualquer previsão.   

Professor Flávio Brayner envia carta ao reitor Anísio Brasileiro sobre criminalização na UFPE

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Prezado Sr. Reitor
Professor Anísio Brasileiro

É com um sentimento de indignação -e até de espanto- que tenho assistindo às ações que veem sendo cometidas por uma Comissão de Sindicância que supostamente está investigando alguns funcionários e alunos do Centro de Educação a respeito de sua participação nos eventos que culminaram na ocupação temporária da Reitoria e terminaram, como, aliás, vem se tornando prática corrente, com intervenção policial e processos judiciais contra seus autores.
Já deixei claro em outras ocasiões que sou contra as formas violentas de ação sobre adversários ou contendores, formas estas que desinstitucionalizam a política e sobretudo minam a autoridade de quem as utiliza. E é exatamente porque eu sou contra tais formas que não posso assistir indiferente ao espetáculo de judicialização de ocorrências que, no entanto, tiveram suas razões assentadas em motivos perfeitamente aceitáveis: a protelação da discussão e aprovação do Novo Estatuto, minuciosa e diligentemente coordenado pelo seu Vice Reitor à época, Professor Sílvio Marques, e que prevê, entre outras, a participação paritária de alunos e funcionários no Conselho Universitário. 

E é porque sou contra tais formas destruidoras dos fundamentos da autoridade que não posso aceitar com tranquilidade que o principal dirigente de nossa instituição tenha tomado para si a condução de atos que, ao invés de proteger patrimônios ou espaços públicos contra supostos “semeadores do mal” (tal como consta dos autos) –uma linguagem, diga-se de passagem, mais adequada às formas expeditivas dos Tribunais do Santo Ofício do que a uma instituição laica e que se pretende conduzida por critérios de racionalidade moderna!- ações, repito, que minam a própria autoridade que o Senhor representa: quando tais ações são violentamente reprimidas por uma guarda pretoriana fantasiada de “tropa de elite”; quando as “recomendações” dos autos apontam para a transformação da Reitoria num “bunker” protegido a apartado dos agentes institucionais que ela representa para tratá-los como... bárbaros ameaçando as fronteiras do Império; quando os trabalhos da sindicância são conduzidos por uma professora que abertamente defende nas redes sociais intervenções militares na ordem constitucional e cerceamento do Estado de Direito, eu me municio de todas as razões para suspeitar do grau de legitimidade de que o Senhor dispõe para solicitar, como o faz constantemente, a união e a cooperação de todos para superarmos a quadratura grave que se anuncia para nossa instituição.

Não bastasse o delicado momento político-institucional que se desenha; a ameaça às conquistas sociais e educacionais dos últimos anos; as tentativas de criminalização dos movimentos de protesto e reivindicação; a chaga corruptora que corrói o caráter republicano de nossas instituições; a manipulação descarada da opinião pública pela mídia; o sentimento de abandono e desesperança dos mais pobres... e ainda temos de enfrentar, em nossa casa -a UFPE- formas de intimidação e amedrontamento que só vi em meus anos iniciais de UFPE, em plena período de exceção quando reagir a desmando e injustiças poderia ser a diferença entre continuar vivendo e desaparecer.

Não vejo a razão pela qual o Senhor danificaria a tal ponto a sua própria biografia, acatando denúncias e instalando tribunais (que no fundo irão julgar opiniões e não atos, como pode parecer!) que terminarão por manchar definitivamente a imagem que o Senhor construiu de pessoa interessada na coisa pública e com um passado de engajamento político que, provavelmente, muito o honra. Agir contra este passado e esta biografia o igualaria aos “injustos” e faria com que o Senhor tivesse que conviver até o fim de seus dias, com alguém que está em frequente desacordo consigo mesmo.


Não crie mais um abismo em nossa instituição; aja com serenidade, decrete o fim deste processo, e saia dele com a diginidade necessária para ainda se fazer depositário de nossa confiança.

Atenciosamente

Flávio Brayner