sábado, 26 de agosto de 2023
Editorial: Zanin, o conservador?
Vencidas essas dificuldades iniciais, o ex-advogado de Lula foi eleito para a Suprema Corte sem maiores problemas. Naquele momento, passou quase despercebida uma manifestação do pastor Silas Malafaia, depois de um encontro com o então pretendente ao STF, onde o pastor tecia loas ao candidato, a partir de algumas considerações sobre princípios pétreos para os evangélicos. Salvo melhor juízo, até a senadora Damares acompanhou tal entusiasmo, embora nada disso tenha ofuscado o apoio irrestrito da esquerda, mesmo diante de um ambiente politicamente tão polarizado.
As duas últimas votações de Zanin - envolvendo temas polêmicos, como a descriminalização do porte de drogas - deixaram alas de esquerda de queixo caído pelo seu conservadorismo. O voto do ministro Cristiano Zanin, destoou, inclusive, do voto de uma maioria de membros daquela Corte. Assim, Zanin sofreu um verdadeiro massacre pelas redes sociais, mas, a rigor, um pouco de agudeza, poderia pressupor que alguém que recebe as bençãos de Silas Malafaia não se pronunciaria em contrário a esses temas nevrálgicos.
Editorial: A esquerda "Pé na Jaca" de Pernambuco.
Pernambuco sempre deu uma grande contribuição ao folclore político nacional. Nas décadas de 30\40 do século passado, por exemplo, tínhamos aqui na província uma raposa política que deixou reflexões emblemáticas sobre o exercicio ou arte do fazer política, como o ex-governador e ex-interventor Agamenon Magalhães. Em períodos de ambientes políticos igualmente nublados, como o pós-1964, figuras como a do governador biônico Paulo Guerra também deixaram suas contribuições ao folclore político pernambucano, ao cunhar expressões das mais realísticas sobre o nosso cotidiano.
O ex-governador pernambucano - ungido ao cargo pelos militares em razão de sua origem social e ligações com as tessituras golpistas de então - observava que, em política, não existem as palavras "nunca" nem "jamais", quando se referia aos arranjos ou acordos políticos quase impossíveis de serem explicados pelo caminho da racionalidade ou da coerência ideológica. Ou seja, estávamos tratando aqui de acordos celebrados apenas em razão dos interesses pessoais - não necessariamente de caráter republicanos - entre os atores políticos.
O ex-governador Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, acabou evidenciando que a tese de Paulo Guerra fazia todo sentido, ao homenageá-lo com o nome do Hospital da Restauração, que passou a ser denominado de Hospital da Restauração Governador Paulo Guerra. Ao longo do tempo, revelações históricas iriam demonstrar que ele não caiu nas graças dos militares apenas pelo seu paladar açucarado, uma vez que pertencia à chamada açucarocracia pernambucana. O que não há mais como saber é se o ex-governador Eduardo Campos conhecia esses fatos.
O Brasil como um todo, mas Pernambuco em particular, é marcado por uma ambiente político visceralmente fisiológico, patrimonialista, orientado por interesses familiares ou de grupelhos a eles consorciados, naquilo que o cientista político Edward Benfield definiu muito bem em tratado como o familismo amoral. O estudo de Benfield - frequentemente convidado a visitar o nosso estado por este editor - foi realizado numa aldeia da Itália, mas cai como uma luva se desejarmos entender a dinâmica do nosso ambiente político provinciano.
522 anos depois do descobrimento, nas últimas eleições estaduais, os eleitores pernambucanos tiveram como opção eleger para o Governo do Estado rebentos ou herdeiros de três grandes estruturas oligárquicas\familiares, com décadas de atuação política. Nossa dita "esquerda", com raríssimas e honrosas exceções, por osmose, acabou se adaptando demasiadamente a tal ambiente político, e passou a arientar-se por interesses particularistas, fisiológicos, fazendo jus à identificação de uma esquerda do tipo caviar, carnavalesca, que negocia seus princípios pelas prependas oferecidas por essas oligarquias, fazendo vistas grossas às injustiças cometidas no plano dos indivíduos subjugados e difamados em razão do delito de opinião e coisas do gênero.
Como se já não bastassem os cargos ocupados em instituições federais com representação no Estado, alguns dos seus ilustres representantes já estão coxeando o alambrado do Palácio do Campo das Princesas, à procura de espaço para acomodar seus apaninguados. O pior é que esses atores ungidos assumem esses cargos sem nunhum projeto em mente, cumprindo apenas os ritos comezinhos e auferindo os dividendos e liturgias do cargo, representando, em última análise, um grande prejuízo para a mais-valia pública. Isso para não entrarmos aqui nas outras possibilidades, menos republicanas ainda.
A despeito das narrativas e lacrações conhecidas, eles se assemelham bastante às mesmas práticas condenadas nos adversários políticos. A expressão usada por um amigo, Esqueda Pé na Jaca, se aplica perfeitamente a tal contexto, determinando o DNA ou perfil de nossa esquerda festiva, movida unicamente por interesses pessoais, que abandonou completamente os projetos coletivos. Mais grave é que ainda usam, em vão, o nome do autêntico educador pernambucano Paulo Freire para se escudarem em relação a essas críticas. Tenham pelo menos a decência de permitir um pouco de paz ao educador do país de Casa Amarela. É injusto que ele seja usado, literalmente, como escudo de proteção ética para pessoas sem escrúpulos, guiados por motivações vis, travestidos de bons samaritanos.
Aliás, o termo "travestidos" se aplica perfeitamente a alguns desses atores, pois, assim como as Dianas de Pastoril - com todo o respeito que as Dianas merecem deste editor - eles usam sempre vestes de duas cores e são passíveis de mudarem de lado a qualquer momento, consoante as nuvens políticas sinalizem alguma mudança. A coisa é tão asquerosa e abjeta que, se porventura os militares voltassem ao pode através de um golpe de Estado, no outro dia haveria uma fila de lambedores de botas para recebê-los, com honras, em algumas repartições públicas.
Editorial: STF pede explicações a Tarcísio de Freitas sobre homenagem a Erasmo Dias.
Nos últimos anos, depois do advento do bolsonarismo, o Brasil tornou-se um país perigoso. Na realidade, conforme já comentamos em outros momentos, o bolsonarismo foi apenas o gatilho que disparou tudo que temos de mais perverso em nossa formação histórica, ou seja, uma junção de autoritarismo, racismo estrutural, desigualdades sociais e a cultura do genocídio contra minorias. O retrocesso civilitário foi imenso e pagamos as consequências até os dias de hoje. Por vezes, a ponta do iceberg aparece mais nítida, como se percebe no desvelamento das tessituras golpistas que foram montadas para solapar as nossas instituições democráticas. Tudo muito bem urdido, com ações de alta periculosidade,incluindo, inclusive, o planejamento de atentados terroristas que, por muito pouco, não se materializaram.
Por vezes, os estertores desse ambiente nefasto aparece de forma mais sutil, como nas homenagens a próceres atores que estiveram no epicentro dos horrores praticados durante a ditadura instaurada no país com o Golpe-Civil Militar de 1964. No dia de ontem, dando aqui mais um exemplo, a Câmara do Município de Porto Alegre instituiu o dia 08 de janeiro como o Dia do Patriota. Em São Paulo, sob os auspícios de um governador forjado no bolsonarismo, essas atitudes se tornaram recorrentes. Ele já homenageou o bandeirante Fernão Dias - preterindo o educador Paulo Freire -e, agora, o coronel Eramso Dias, o que causou grande indignação entre entidades da sociedade civil, que entraram com uma ação junto ao STF pedindo a revogação da homenagem.
A Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármem Lúcia, deu cinco dias para o governador explicar tal homenagem. Este editor gostaria muito de conhecer os "argumentos" de sua assessoria jurídica. Numa sessão da Câmara dos Deputados, durante os trabalhos da CPI do MST, o relator, Ricardo Salles, tentou indispor o general Gonçalves Dias com os seus pares, ao inquiri-lo sobre o que ele pensava sobre o Golpe Civil-Militar de 1964. Como estamos numa guerra de narrativas, eles também possuem a deles.
Editorial: Republicanos recusa butim do Planalto.
Ocorre, porém, que o partido deseja muito mais do que o Ministério dos Esportes e as negociações com o Governo Lula estão em standy by. Agora é aguardar o retorno do morubixaba petista de sua viagem ao continente africano e voltarem à mesa de negociações. As conversas com os Progressistas teriam avançado mais em razão das iniciativas dos parlamentares da legenda, contando ou não com o sinal verde dos caciques. Aliás, em alguns momentos, fica evidente que os caciques não endossam a postura dos subordinados, como é o caso do senador Ciro Nogueira(PP-PI), que permanece com seus posicionamentos críticos em relação ao Governo.
Os Republicanos possuem uma bancada federal com mais de quarenta parlamentares e, certamente, vão vender caro um eventual ingresso na base de sustentação do Governo Lula. Diretorias da Caixa Econômica e até do Banco do Brasil entraram na negociação, mas foram recusadas.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
Editorial: E o Mauro Cid não falou.
No dia de ontem, durante os trabalhos da comissão que investiga os atos de 08 de janeiro, instaurada no Distrito Federal, formou-se uma grande expectativa em torno da convocação do ex-ajudante de ordens da Presidência da República, o tenente-coronel Mauro Cid. As expectativas se davam em razão da mudança de estratégia de sua defesa, que esboçou uma narrativa de que o ex-ajudante de ordens apenas cumpria ordens, ou seja, se o militar se envolveu em alguma irregularidade, seus superiores devem ser responsabiizados igualmente.
Mas, por alguma razão, o ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro resolveu permanecer em silêncio. Salvo melhor juízo, o mesmo deve ocorrer quando de sua reconvocação pela Câmara Federal, quando dos trabalhos de comissão similiar, que investiga o mesmo objeto, os atos antidemocráticos do dia 08 de janeiro. A frustração, então, será generalizada. Para completar esse enredo macabro, só mesmo a instituição do dia 08 de janeiro como o Dia do Patriota, em ato da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Quando a gente pensa que já viu de tudo...
Todos nós cometemos alguns erros de avaliação neste plano terrestre. Tais erros nos auxiliam a termos mais cuidados ao fazer nossas escolhas ou tomar decisões. Segundo podemos apurar, o tenente-coronel Mauro Cid construiu uma carreira brilhante nas Forças Armadas Brasileiras, se destacando como aluno ou instrutor nos diversos cursos que participou. Um exemplo para a corporação militar. Foi envolvido, no entanto, nesta gosma bolsonarista ensandecida que tomou conta do país. Há rumores de que o militar possa ir para o barro. Seria uma desonra para alguém com um currículo tão brilhante.
Editorial: Vão bloquear os PIXES de Bolsonaro?
Segundo informações divulgadas no dia de ontem, a Polícia Federal objetiva solicitar ao Supremo Tribunal Federal uma espécie de bloqueio dos valores dos PIXES enviados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Desejam realizar um pente-fino sobre as pessoas físicas que encaminharam doações ao ex-presidente usando tal expediente. De fato, os números são impressionantes. Estima-se que o presidente tenha amealhado a bagatela de mais de R$ 17 milhões de reais através da vaquinha.
A chiadeira nas hostes bolsonaristas são evidentes. O ex-presidente é apresentado como um coitadinho que está sendo perseguido, injustamente, por uma polícia política de uma ditadura instaurada no país, nos moldes da Venezuela. Essa narrativa vem assumindo contornos preocupantes nas falas dos parlamentares de oposição. Não é nosso propósito alimentar essa polêmica por aqui, posto que inútil, uma vez que a força dos argumentos são solapados pela bílis da ira ideológica.
A Polícia Federal levanta algumas suspeitas sobre essas doações. É tido como certo que o STF delibere favoravelmente sobre o pedido da Polícia Federal. Há motivos robustos para interrogações em torno do assunto. No dia ontem, em depoimento da CPMI dos Atos Antidemocráticos, um ex-assessor da presidência do Governo Jair Bolsonato enrolou-se completamente ao tentar explicar como milhões foram movimentados em suas transações bancárias. Neste caso em particular, a conta não bate. A impressão final é a de que nem ele mesmo ficou convencido sobre tais explicações. A engrenagem é de uma perversão sem tamanho com recursos público. Envolve verbas liberadas de licitações para a CODEVASF, que foram parar em madeireiras, que movimentaram milhões, mesmo com orçamentos minguados. Os estertores fedem e a PF já deve ter detectado o odor.
Editorial: A insegurança de Lula
Os problemas relativos ao aparelhamento bolsonarista dos órgãos de segurança e inteligência do Estado permanecem, mesmo com o Governo Lula concebendo ou partindo da premissa sobre a necessidade absoluta de promover uma reestruração radical nesses órgãos. Várias medidas foram tomadas, é verdade, mas perece-nos, pelo andar da carraugem política, que ainda foram insuficientes. Não faz muito tempo, divulgou-se que dados sigilosos sobre a segurança do presidente poderiam ter sido encaminhados a atores proeminentes do governo anterior. Com que propósito? Bastante preocupante.
Outro dia vazou pelas redes sociais uma foto com um suposto segurança de Lula portando uma submetralhadora. A repercussão negativa, como seria previsto, foi bastane explorada pelas hordas de bolsonaristas, que logo advogaram que o presidente defendia uma coisa em público - como a restrição à liberação do porte de armas - e faria outra no particular, ou seja, seus seguranças andavam armadas até os dentes. Aqui a questão é apenas de retórica, bravatas ou narrativas.
Agora a Polícia Federal descobre, pasmém, que um dos seus seguranças participava de grupos de Zap favoráveis à tentativa do golpe de 08 de janeiro. Como já afirmamos antes, neste aspecto, todas as medidas de segurança são insuficientes. Para agravar ainda mais a situação, já se sabe que Militares e a Polícia Federal não se bicam em relação a essa questão. Alguém precica arbitrar imediatamentes essas indisposições. Só faltava essa. Bolsonaristas radicais participando da segurança do presidente Lula.É grave. Informamos que a pessoa que aparece na foto acima é apenas para ilustrar a questão da arma por ele portada. Desconnhecemos quem seja o agente da segurança de Lula que caiu na malha da PF.
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
Editorial: A briga entre Luciano Bivar e ACM Neto pelo controle do União Brasil.
A estratégia de Luciano Bivar é a de compor ambientes nos diretórios regionais com atores políticos favoráveis a ele. Salvo melhor juízo, pelo andar da carruagem política, em maio do próximo ano deverá ocorrer novas eleições para a presidência da legenda e já existe uma movimentação de bastidores no sentido de apear Luciano Bivar do cargo. As eleiçoes internas serão duras e, provavelmente, cogita-se a possibilidade de o jovem babalorixá baiano habilitar-se ao cargo. É briga de gente grande, de atores políticos de enorme espertise e poder de fogo.
E, por falar no neto de ACM, repercutiu bastante uma declaração de apoio dele ao futuro candidato à Prefeitura da Cidade de São Paulo, o Deputado Federal Kim Kataguiri(União Brasil-SP). O deputado é identificado como de perfil ultra-conservador, o que suscitou, naturalmente, as manifestações de desaprovação do polo mais progressista - aquele do outro lado - o que não seria surpreendente neste clima de beligerância em que o país está mergulhado.
Editorial: Quem decide sobre exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas é o IBAMA.
No dia de ontem, conforme já comentamos por aqui, a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, compareceu a uma audiência no Senado Federal, exatamente numa comissão daquele órgão do Poder Legislativo que se debruça sobre a questão ambiental. Polida e tecnicamente bem-preparara, Marina Silva teve um excelente desempenho, mesmo quando confrontada por parlamentares ligados ao agronegócio, que tentaram indispor a ministra em relação a algumas declarações descontextualizadas do passado.
Mesmo acossada, a ministra conseguiu separar o joio do trigo, observando que o problema não é o agro, mas o ogro, ou seja, uma meia dúzia de produtores rurais que se preocupam apenas em maximizar seus lucros, sem medir as consequências em relação à preservação do espaço fisico e, muito menos, com a saúde dos consumidores. O traquejo político da ministra, por outro lado, impediu que ela caísse nas armadilhas lançadas pela oposição.
Uma questão que não poderia ficar ausente desses debates é a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. O ministério é contra, orientado por um parecer técnico emitido pelo IBAMA. Interessante nessa defesa de posicionamentos é que os componentes jurídicos e políticos, em tese, deverima se subordinarem ao parecer técnico. Por outro lado, o presidente Lula sofre inúmeras pressões para tomar uma posição política em relação a esta questão, o que significa a liberação de licenças de exploração. Há, inclusive, figuras de proa do Centrão por trás desse lobby.
Editorial: Polícia Civil do Distrito Federal cumpre mandado de busca e apreensão contra Jair Renan Bolsonaro.
Não há nada tão ruim que não possa piorar, conforme ensina os mais idosos. "Velhos" seria o termo mais apropriado, mas, nesses tempos de politicamente correto, convém tomar alguns cuidados. Outro dia, um amigo foi ademoestado por usar a expressão "samba do crioulo doido", ao se referir aos problemas recorrentes do elevador do prédio onde reside. No dia de ontem, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi internado em São Paulo, segundo dizem, para se submeter a exames de rotina.
Já na condição de cidadão comum, sem os privilégios que cercam os governantes, o ex-presidente chegou a ser destratado em voo. Os Bolsonaro convivem com uma espécie de inferno astral. Não fossem suficientes os problemas dos pais, agora é o filho 04, Jair Renan Bolsonaro, que se tornou vítima de uma operação de busca e apreensão em sua residência, realizada pela Polícia Civil do Distrito Federal. A motivação seria fraude financeira. Vamos aquardar seus desdobramentos, antes de emitir maiores considerações.
O mais curioso, entretanto, seria uma suposta manobra dos advogados do ex-presidente no sentido de sugerir que o mandatário teria feito uma "confusão" entre o público e o privado no que concerne às doações de joias do Governo da Arábia Saudita. Do tipo assim: "foi engano". Narrativa absurda, completamente desmentida pelos fatos até aqui apurados pela Polícia Federal.
O xadrez político das eleições municipais de 2024 no Recife: O PT está costeando o alambrado do Campo das Princesas.
O saudoso ex-governador Leonel Brizola costumava usar a expressão fulano está costeando o alambrado para definir que um sujeito estava se movmentando no sentido de pular a cerca para o outro lado, a exemplo do que fazem os gados, desejosos de comerem o pasto fresco da fazenda vizinha. Aqui no Recife, tal expressão está sendo empregada para definir o movimento de algumas figuras de proa da legenda petista no sentido de se aproximarem do Palácio do Campo das Princesas.
A governadora Raquel Lyra, ao lado de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, e de Eduardo Riedel, governador do Mato Grosso do Sul formavam um núcleo de jovens governadores que poderiam injetar sangue novo à legenda tucana, embalando, inclusive, o acalentado projeto presidencial do governador gaúcho. A própria governadora Raquel Lyra chegou a figurar numa lista de presidenciáveis. Seus movimentos hoje, porém, segundo algumas avaliações, indicam que ela poderá integrar em breve a base de sustentação do Governo Lula, quem sabe deixando o ninho tucano para ingressar no PSD de Gilberto Kassab, aqui no estado sob o comando do Ministro da Pesca, André de Paula.
Recentemente, a filha de André de Paula, Cacau de Paula, foi nomeada Secretária de Cultura do Estado de Pernambuco. A governadora amplia os canais de interlocução com o Governo Federal e já teria cruzado a faixa do estritamente republicano, ou seja, aqueles parâmetros impostos pelo federalismo. Figura emblemática da legenda petista no estado, por outro lado, está costeando o alambrado do Campo das Pricesas, em movimentos que também superam o estágio das formalidades de governança.
Em princípio, as relações entre a legenda petista e o prefeito João Campos não foram abaladas. O PT ocupa duas secretarias municipais e o trânsito político do prefeito em Brasília está bastante azeitado. O problema são as nuvens políticas, que deverão, contingencialmente, mudarem a partir dos embates eleitorais que deveráo ser travados até o enfrentamente direto entre o prefeito e a governadora, nas eleições estaduais de 2026. As eleições municipais de 2024 é um desses embates.
quarta-feira, 23 de agosto de 2023
Editorial: Bolsonarismo em pânico.
O ex-presidente Jair Bolsonaro acaba de ser internado em um hospital de São Paulo. Ainda existem poucas informações sobre o assunto, mas, a rigor, não deixa de ser algo preocupante, embora a tese de "exames de rotina" seja sempre aventada. Na realidade, o bolsonarismo passa por um momento delicado. A Polícia Federal acaba de intimar para prestar depoimento, simultaneamente, o próprio Jair Bolsonaro, sua esposa, Michelle Bolsonaro, o advogado do ex-presidente, Frederick Wassef, e o ex-ajudante de ordens, Mauro Cid, assim como o seu pai, Mauro César Lorena Cid. Todos serão ouvidos sobre questões envolvendo as joias doadas pelo Governo da Arábia Saudita.
Como já comentamos anteriormente, neste caso específico, o moído é grande, como dizem os pedreiros contratadas para fazer alguma reforma doméstica. Um exame técnico realizado pela Polícia Federal apenas num dos colares - em matéria que foi veiculada pelo Programa Fantástico - haveria milhares de diamantes, elevando o seu valor para mais de quatro milhões de reais. A coisa é tão complicada que até a hipótese subjetiva de eventuais compensações pela subavaliação do valor da venda da refinaria da Bahia pode cair por terra.
Nos escaninhos da política, existe a possibilidade de adoção de um timing político adotado nessas investigações da Polícia Federal. Não estamos tratando aqui de "perseguição política", como aventa os bolsonaristas mais radicais. A questão é técnica. Há irregularidades evidentes e a PF cumpre, neste caso, suas prerrogativas constitucionais, orientando-se por critérios republicanos, em nome do interesse público. É preciso, no entanto, aguardar a remoção de alguns entulhos deixados pelo ancien régime. Existe um "engavetador" contumaz ainda na ativa.
Editorial: Guerra de narrativas.
Embora seus índices de aprovação tenham melhorado sensivelmente, as lives com o presidente Lula continuam com baixa audiência. Segundo comenta-se nos escaninhos da política, o Governo estaria contratando três empresas especializadas em redes sociais para turbinar os perfis do Planalto. A guerra de narrativas tem sido uma constante e elas são sempre bem-vindas num ambiente democrático. Agora mesmo, por exemplo, a Revista Oeste, integrado por uma equipe de críticos contumazes do Governo Lula subiu ao topo do Trending Topics Twitter.
Por vezes, de forma irresponsável, alguns órgãos ou pessoas cometem excessos ou disseminam informações equivocadas - as chamadas fake news - impondo-se a necessidade de se estabelecer regras de convivência civilizada, tomando como parâmetro permitir sempre a liberdade de opinião com responsabilidade. Democracia é convencimento, construção de consensos, formação de maioria, nunca a imposição. No dia de ontem, pelo andar da carruagem política, o grau de divergência ficou tão acentuado durante uma pré-reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Atos Antidemocráticos que seus membros optaram por remarcar a reunião deliberativa que estava agendada.
Hoje, dia 23\08, o Senado Federal está ouvindo, em audiência pública, a Ministra do Meio-Ambiente Marina Silva. O debate está bastante interessante, mesmo quando a ministra precisa se colocar sobre temas espinhosos, como a exploração de petróleo na foz equatorial do Rio Amazonas, vetada por parecer técnico do IBAMA. Não há como discutir politicamente uma decisão técnica, advoga a ministra.
terça-feira, 22 de agosto de 2023
Editorial: Haverá condições institucionais para punir os sabotadores da democracia? Como anda nossa saúde institucional?
Na semana passada, o STF determinou a prisão de toda a cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal, baseada em dados que apontam que eles estiveram, de alguma forma - seja por participação direta ou omissão - envolvidos criminalmente nos atos do dia 08 de janeiro. Assim, conforme divulgou-se, a corda ficou bastante esticada entre autoridades civis e o estamento militar, que costuma manifestar suas insatisfações através das redes sociais. Neste momento, os militares enfrentam uma grande oportunidade de voltarem de vez à caserna, cuidarem de suas atividades inerentes e melhorar sua imagem junto à população.
Pesquisa recente, realizada pelo Instituto Genial\Quaest evidencia que ocorreu uma erosão de imagem das Forças Armadas junto à população. Ainda não conhecemos os pormenores dessa pesquisa, mas não precisamos de um grande esforço para entendermos as eventuais razões. Agora e torcer pela saúde de nossas instituições democráticas, rogando que elas tenham as condições essenciais para a tomada de decisões necessárias em contraponto aos atores que tramaram contra elas.
Editorial: Antes da viagem à Africa, Lula tentou aparar as arestas com militares.
segunda-feira, 21 de agosto de 2023
Editorial: Anuncia logo essa reforma ministerial, Lula.
Continua incerta a situação de Wellington Dias, petista do núcleo duro, mas ameaçado pelos pleitos do Centrão ao seu ministério, em razão dos recursos da pasta, o maior da Esplanada dos Ministérios. A demora de Lula em bater o martelo sobre essa questão vem incomodando profundamente o Centrão. O morubixaba petista ganhou mais uma semana, diante da contingência desta última viagem. Segundo as coxias da capital federal, Lula estaria bastante satisfeito com o trabalho do Ministro do Turismo, Sabino, que assumiu o cargo recentemente. Não seria pelo seu desempenho na pasta, mas em razão de suas articulações políticas no parlamento, indicando que o nomeado estaria produzindo bons resultados.
O socialista Márcio França pode ser contemplado com o Ministério das Pequenas e Médias Empresas. Seria uma forma de compensar o socialista e evitar rusgas maiores com a legenda, que reclamou bastante sobre uma eventual perda de participação no Governo Lula. Não seria surpresa se enfrentarmos algumas novidades por aqui, mas, em princípio, é este o desenho da minirreforma ministerial.
Editorial: As rusgas entre militares e a Polícia Federal.
Embora este dado da realidade não seja muito confortável, todos os governos apresentam suas ranhuras internas. Até bem pouco tempo, se discutiu bastante, por exemplo, o nível das escaramuças internas entre o núcleo duro petista, em torno de uma eventual disputa interna pela benção do morubixaba para sucedê-lo nas eleições presidenciais de 2026. A calmaria voltou depois de o próprio Lula emitir sinais de que pode disputar a reeleição em 2026. Hoje, próceres petistas ja advogam que tal embate interno só deverá ocorrer mesmo em 2030.
Qualquer analista com um mínimo de bom-senso e consequente advogaria que a melhor - e talvez a única - solução para os militares no Governo Lula seria o retorno à caserna, de onde, aliás, eles não deveriam ter saído, a julgar pelas encrencas em que alguns deles se meteram. Militares legalistas, de confiança, em funções estratégicas seria o objetivo máximo a ser alcançado pelo petista, evitando-se, assim, novos arroubos. A composição de um grupo de "militares de Lula" também não seria de bom alvitre. Por razões óbvias. Este, no entanto, parece não ser o entendimento de alguns deles, que preferem continuar atuando políticamente neste fase pós-Bolsonaro.
Assim, algumas ações da Polícia Federal está sendo encarada por segmentos militares como uma manobra para evitar essa aproximação desses militares com o Planalto. Nesta última viagem de Lula, por exemplo, comenta-se nos escaninhos da política que o entendimento das rotinas de segurança entre o GSI e agentes da Polícia Federal teriam sido prejudicadas.
Editorial: Termina em confusão reunião do Cidadania.
Roberto Freire mantém o controle da legenda Cidadania há alguns anos. Ontem, por ocasião de uma reunião virtual dos membros daquela agremiação, pintou um climão entre eles, que atingiu os níveis dos xingamentos pessoais impublicáveis. Um dos mais exaltados foi o pernambucano Daniel Coelho, que saiu em defesa de Roberto Freire, exigindo respeito à liderança nacional da legenda. Em princípio, o que está em jogo seria o controle da agremiação e, consequentemente, seu posicionamento em relação ao Governo Lula.
Enquanto Roberto Freire defende uma posição bastante equidistante do governo - sugerindo, inclusive, a ampliação das negociações federativas com o PSDB\MDB - membros da legenda consideram a possibilidade de uma aproximação da base governista, mesmo que isso não implique em ocupação de cargos na máquina. Afinal, como aponta Cristovão Buarque, o partido não é bolsonarista. Se algumas medidas não forem adotadas, o partido corre o risco de desaparecer, conforme vaticina o ex-governador do Distrito Federal.
Aqui em Pernambuco, as nuvens políticas estão mudando com uma velocidade impressionante. Abrindo espaços no seu governo para o PSD de André de Paula, Ministro da Pesca, acredita-se que o próximo passo da governadora Raquel Lyra(PSDB\PE) seria sua filiação ao PSD, legenda pela qual disputaria a reeleição em 2026, já devidamente integrada à base governista. Em tal cenário, entende-se os convescotes recorrentes de figuras de proa do Partido dos Trabalhadores com a governadora. Secretário de Turismo, Daniel Ceolho é tido como um eventual candidato às eleições municipais de 2024. Hoje seria pouco provável que seu nome viesse a ser ungido como candidato do Campo das Princesas, se considerarmos as nuvens políticas atuais. Mas, conforme advertimos, tais nuvens mudam bastante.
domingo, 20 de agosto de 2023
Editorial: Sai um pingado para Bolsonaro?
A democracia brasileira vive um momento de inflexão. Ou vai ou racha. A corda está esticada, como sugerem alguns órgãos de imprensa, reproduzindo a narrativa de alguns atores estratégicos nesse jogo entre democracia ou barbárie. Todos os brasileiros e brasileiras teriam a obrigação de saber o que significa a perda dos referencias democráticos entre nós. Antes de sair por aí, irresponsavelmente, pedindo intervenção militar. Ao longo dos últimos anos - principalmente a partir de 2013 - os estragos produzidos contra as nossas instituições democráticas são visíveis e os entulhos autoritários só serão completamente removidos com muito esforço. Nem mesmo a Constituição Cidadã e Republicana de 1988 conseguiu tal proeza.
A prisão da cúpula da Polícia Mililtar do Distrito Federal pode ter sido o epicentro desse embate, a julgar pela reação dos corporações militares, incomodadas com as ações determinadas pelo STF. Quisera estivéssemos numa democracia plenamente consolidada e as próprias corporações militares dariam o bom exemplo de punir, com o rigor necessário, aqueles que atentatam contra as instituições democráticas do país. A corda esticada aqui pode ser interpretada como uma perigosa e preocupante postura corportativa.
Talvez por conviver constantemente diante desses solavancos institucionais - num ambiente democrático que pode ser atingido por um míssil lançado pelo Twitter - outro dia ficamos impressionados quando assistimos um filme, onde um comandante militar aplica uma repremenda num militar subordinado que havia desobedecido uma autoridade civil. Em tom enérgico, o comandante afirmava que o subordinado havia cometido uma falta grave, ao não acatar a determinação de uma autoridade civil. Por aqui, infelizmente, as coisas não funcionam assim.
A Polícia Federal reúne informações e provas insofismáveis de que membros do alto escalão militar estiveram no epicentro das tramas autoritárias contra as nossas instituições democráticas, além de atitudes irregulares em seu ofício na condição de servidores do Planalto. Não existe outra alternativa que não a de puni-los. Encrencado até a medula, seria bastante prudente, em tais cricunstâncias, que o ex-ajudante de ordens abrisse logo essa caixa preta do tal Rolex. Seria muito interessante vê-lo cantar como um canário belga durante uma sessão da CPMI dos Atos Antidemocráticos.




