Como reflexo do controle político, social, econômico - e até religioso - de uma oligarquia industrial, o grau de republicanização de uma cidade da Região Metropolitana do Recife ficou irremediavelmente comprometido. Grupos políticos se sucederam no comando administrativo da cidade, sem que as prementes demandas dos moradores fossem atendidas, assim como vicejavam uma infinidade de denúncias de malversação de recursos público, ora no Executivo Municipal, ora no Poder Legislativo. A própria Polícia Federal fez várias incursões na cidade. À época mais ativo, este editor se posicionou bastante sobre alguns desses episódios, chegando à conclusão, no final, de que tudo era inútil, pois não havia nenhum grupo político no município com envergadura moral para enfrentar aqueles desmandos.
Assim, pouco importava quem assumisse a gestão municipal, uma vez que as cartas estavam todas marcadas aprioristicamente e era uma questão de tempo para as novas denúncias de corrupção na máquina municipal ganharem as manchetes dos jornais. A engrenagem da roubalheira moía independentemente de quem estivesse no poder. Depois da nova fase da Operação Sem Desconto, desencadeada pela Polícia Federal nesta manhã, com o objetivo de investigar os descontos irregulares dos aposentados e pensionistas do INSS, passamos a refletir sobre este assunto. O INSS tornou-se uma máquina burocrática comprometida, susceptível às ações irregulares desta natureza, desde longas datas, independentemente dos governos de turnos. É algo orgânico, sistêmico. E olha que estamos apenas na ponta do iceberg. Envolve desde servidores mais simples, que azeitavam as maracutaias com os seus pareceres, até gente do alto escalão do órgão, como um diretor afastado que recebia mesadas de 500 mil por mês.
Hoje foi preso o número dois do INSS, já depois das mudanças ocorridas em razão das primeiras denúncias de corrupção, o que significa dizer que as senhas continuam liberando descontos irregulares. Até um senador da República está sendo arrolado, uma vez que a Polícia Federal suspeita que ele atua em conluio com o Careca do INSS. Aliás, a prisão deste senador foi requisitada pela Polícia Federal, mas não foi autorizada pelo Ministro André Mendonça, do STF. Por outro lado, foi autorizada pelo Ministro uma "penca" de prisões. Um gravíssimo problema enfrentado pela CPMI do INSS - que realiza um excelente trabalho - é justamente a blindagem de alguns agentes atolados até o pescoço nessas falcatruas, mas que são poupados pelas forças nada ocultas, uma vez que as suas revelações poderiam abalar os alicerces da República.
Mais de um requerimento de oitiva envolvendo o nome deste assessor do senador foi rejeitado. Uma testemunha chave, como um desafeto do Careca do INSS, também teve sua presença rejeitada na CPMI do INSS, quando ele mesmo se propôs a ser ouvido. Os dados do Banco Master, por exemplo, estão sob sigilo, dificultando enormemente o momento em que a CPMI entrará na fase dos empréstimos consignados. Entre o interesse público em jogo e os interesses de grupelhos, alguns parlamentares, infelizmente, optam por este último.

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