Nos festivais de inverno "Caminhos do Frio", frequentemente, circulamos pela cidade de Areia, na microrregião do Brejo Paraibano. Esta belíssima região da Paraíba é composta de umas poucas cidades, todas muito próximas, facilitando bastante a vida dos visitantes. O trajeto de Areia para Bananeiras, por exemplo, é feito de carro, em 15 minutos. Bananeiras ainda possui as melhores condições de hospedagem entre as cidades do Brejo. Em muitas ocasiões, como nesses festivais ou na Rota dos Engenhos, os visitantes costumam ficar hospedados em Bananeiras e, de carro, se dirigem as outras cidades do circuito do festival. Mas não é apenas essa facilidade geográfica que atraem milhares de pessoas, todos os anos, para curtirem aquela região.
Há muitos outros atrativos, como as manifestações culturais e religiosas, os monumentos históricos, a gastronomia, as atividades esportivas, as rotas pelas matas e cachoeiras, além, claro, daquele friozinho gostoso que entra pelas fendas das paredes, nos finais de tarde, uivando bastante, mesmo antes de agosto chegar, sem os temidos presságios. Em alguns momentos, logo cedinho, a cidade amanhece com uma neblina densa, que deixa os corpos encolhidos nos agasalhos de frio. É a hora de um chocolate quente ou de uma pinga de aguardente, entre as inúmeras opções existentes. Naquela região, hoje, são fabricadas as melhores cachaças brancas do Brasil, superando, inclusive, as concorrentes mineiras.
Um dos momentos que mais apreciamos são as visitas aos tradicionais engenhos da região. Aliás, bem próximo a Areia, já em Serraria, é possível se hospedar num dos antigos engenhos do apogeu do Ciclo da Cana-de-Açúcar na região, o Engenho Laranjeiras. Há alguns anos atrás, a notícia de que poderíamos nos hospedar num antigo engenho do século XVI, do período do apogeu do ciclo econômico abordados nos textos do escritor José Lins do Rego, causou-nos um grande entusiasmo. O antigo engenho proporciona tudo o que a vida no campo oferece: riachos para pescaria; piscinas naturais; gastronomia regional feita no fogão à lenha; trilhas pelas matas; o canto dos galos de campina, rouxinóis, canários da terra, logo cedinho; belíssimos jardins para se namorar; o friozinho da Serra da Borborema.
Por vezes, penso que nós precisamos um pouco desse sossego. Um pouco é pouco. Precisamos muito. Outro dia, líamos nas redes sociais os posts de dois colegas professores sobre as agruras da vida nas metrópoles. Um deles é pernambucano, aqui de Olinda, e o outro é da Paraíba, precisamente do Bairro de Cabo Branco, em João Pessoa, cidade que no último dia 05 completou 430 anos. Um deles desabafou que dirigir no Recife estava se tornando um negócio para corno, após constatar que, em certos momentos, o indivíduo ficava "retido" nos automóveis. O outro, inconformado, alegava que estava sendo "interditado" de chegar à sua residência, todas as vezes em que ocorriam eventos no Bairro de Cabo Branco. O sossego e a tranquilidade de João Pessoa, por razões conhecidas, estão com os dias contados.
Ao se despedir temporariamente do Facebook, o jornalista Roberto Numeriano escreveu uma bela crônica sobre os contatos estéreis proporcionados pelos celulares. As pessoas se sentam na mesa de um bar, dizia ele, mas cada qual com seus equipamentos, pareciam desprovidas de afeto, jogando ou falando constantemente com pessoas longe daquele círculo restrito. Estavam naquele espaço apenas fisicamente, mas absortos. Pois bem. Outro dia, examinando os comentários das pessoas sobre as avaliações de hotéis - a pesquisa foi num desses sites de viagem conhecido - observei uma coisa curiosa. Um bom sinal de Wi-Fi, hoje, pode ser mais importante na avaliação da hospedagem do que uma cama confortável, uma ducha quente que funcione, a limpeza dos quartos, a troca das toalhas, o atendimento na recepção, se o ar-condicionado funciona, se é possível dormir sem os incômodos barulhos.
Essa fixação nesses aparelhinhos está virando uma verdadeira paranoia, comprometendo alguns aspectos importantes da vida. Essa pousada, até recentemente, não possuía sequer televisão nos quartos. Frequentamos-a quando ela ainda era virgem. Não sabemos se os proprietários já cederam às imposições da vida moderna. A pousada Engenho Laranjeiras fica na cidade de Serraria, na microrregião do Brejo Paraibano. É um equipamento completo, sem os luxos das terras civilizadas, como diz o cancioneiro popular. Já estamos com saudade, e, essa saudade, ontem foi atiçada pela chegada do livro da economista Zélia Almeida, sobre os tempos de ouro da cidade de Areia.
Mesmo longe do apogeu de outrora, Areia ainda é a cidade mais bem equipada culturalmente da região. Há equipamentos museológicos; o casario antigo, que se parece muito com Olinda ou Ouro Preto, referências importantes na artes e na literatura; antigos engenhos de fogo morto ainda em funcionamento, produzindo cachaças e rapaduras; e o inegável charme de cidadezinha do interior, para se curtir com a pessoa amada, no finalzinho de tarde. É o torrão natal do pintor Pedro Américo, dos famosos quadros sobre a Independência e a Inconfidência Mineira, e do escritor José Américo de Almeida, da Bagaceira.
O livro de Zélia explica, em linhas gerais, como a cidade se transformou numa das mais prósperas do estado. Teria contribuído para isso, o apogeu da economia da cana-de-açúcar; a tradicional escola de agronomia - a única que não perdeu status, mantendo-se, ainda hoje, como referência nas ciências agrárias; o tradicional colégio fundado pelas carmelitas, uma grande referência de ensino, o que levava as famílias tradicionais do estado a enviarem seus filhos para estudarem na cidade. Enfim, esse conjunto de fatores favoráveis carreavam investimentos na cidade. A decadência veio em razão do próprio declínio do apogeu do ciclo econômico concentrado nos engenhos.