O jornal Folha de São Paulo reuniu especialistas que elegeram os melhores livros de não ficção do país. É curioso como não aparece na lista a obra Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, um dos melhores ensaios sobre a sociedade colonial brasileira, obra classificada no campo da sociologia, mas escrita com a liberdade permitida pela linguagem literária, bem ao estilo de Gilberto, que costumava subverter paradigmas metodológicos. Talvez seja exatamente por isso que o livro não esteja ali mencionado, ou seja, os jurados podem ter entendido que Casa Grande & Senzala seja uma obra de ficção, a partir da realidade observada pelo autor. Quando foi lançada, no início da década de trinta do século passado, o livro foi ali arrolado entre grandes obras da literatura lançadas no bojo do regionalismo, ao lado de Cacau, de Jorge Amado, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Menino de Engenho, de José Lins do Rego, e O Quinze, de Rachel de Queiroz.
Estamos lendo alguns dos livros ali elencados que ainda não tínhamos lido, como a soberba biografia do país escrita pela acadêmica Lilia Schwarcz. Como, por hábito, costumamos "esgotar" as obras de um mesmo autor para conhecermos todas as "fases" de construção do seu pensamento, fomos reler uma biografia de Lima Barreto escrito pela autora. Um calhamaço de 1200 páginas, escrita que contextualiza todas as fases da vida do grande escritor brasileiro. Talvez a vida de Lima pudesse ser contada em bem menos páginas, mas Lia tem o hábito de sempre contextualizar, à exaustão, os diversos momentos da vida do biografado. Em muitos momentos, essas biografias acabam se constituindo, na realidade, em bibliografias. Este é um caso, embora a constatação aqui seja, na realidade, mais um dado de elogio ao trabalho da autora.
Os romances e os contos escritos por Lima Barreto são esmiuçados pela autora, que leu todos os trabalhos publicados por Lima. Outro dado importante é que Lilia fez questão de conhecer toda a "geografia" do biografado, ou seja, visitou todos os lugares que mantiveram alguma relação efetiva ou afetiva com Lima Barreto. Lima, que era negro, morreu ainda jovem, com 44 anos de idade, vítima das agruras impostas pela vida, como a doença e morte do seu pai, a esquizofrenia e o alcoolismo, que, neste caso, estão umbilicalmente associados. Os textos de Lima Barreto são à clef, indubitavelmente biográficos, o que nos deixou fascinados desde as primeiras leituras, como As Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Lima foi amanuense, ou seja, uma atividade existente à época, que consistia em copiar à mão documentos. Policarpo Quaresmo foi o seu pai.
Este é um carma difícil de se separar. São textos de críticas sociais cáusticas, seja em relação à política da época, às instituições e até a personagens. Isso, naturalmente, nos deixou fascinados com a sua obra. Como romancista, até mesmo em relação aos pecados cometidos em função desses vieses, podemos fazer algumas considerações críticas sobre a qualidade dos seus trabalhos, assim como o fizeram os críticos literários à época, considerando-se a ausência de criatividade e eventuais "panfletagens". Como contista, porém, Lima foi o melhor entre todos contistas brasileiros. "A Nova Califórnia" é um dos melhores contos já escritos por um brasileiro. Concordam?
