Um crítico literário teve a preocupação de comparar seus escritos, quando ele gozava de sua liberdade, dos escritos do período em que ele esteve preso durante a Ditadura de Getúlio Vargas, por suas atividades no Partido Comunista Brasileiro. O crítico concluiu que seus melhores momentos de criatividade estavam relacionados ao tempo em que o escritor se recolhia à sua escrivaninha, acompanhado de uma garrafa de cachaça, um pedaço de rapadura e os inseparáveis fumo de rolo. Assim, o velho Graça produziu um dos melhores acervos da literatura brasileira. Memórias do Cárcere já não reservaria o melhor de sua produção literária, exatamente porque longe do seu habitat natural de criação.
Ontem, 16, faleceu no Recife, vítima de um câncer terminal, o escritor pernambucano Raimundo Carrero. Noticiando o evento, o Blog do Magno, em matéria escrita pelo próprio jornalista Magno Martins, há referência a um diálogo entre ele e o escritor Raimundo Carrero, quando este se refere ao seu momento de criação, sob intenso suor do Sertão, acompanhado de uma cachaça. Desde de ontem essa imagem não nos sai da cabeça. O que impressiona é que, talvez sob um friozinho de ar-condicionado, um cafezinho quente, uma mesa bem arrumada, bolachinhas de coco, não tivéssemos produzido um escritor da envergadura de uma Raimundo Carrero.
Quando alisávamos os bancos do CAC, da UFPE, nas aulas de Teoria Literária, tínhamos o privilégio de a disciplina ser ministrada por alguém do "ofício", o poeta Marcus Accioly. Marcus tinha uma metodologia que animava os alunos de sua disciplina, ao mencionar suas experiências como escritor, levar os companheiros de escrita para os bate-papos em sala de aulas, coisas assim. Salas sempre repletas de alunos, ansiosos por sua experiências. Produzimos uma resenha de um dos seus livros muito elogiada pelo autor, que fez questão de enfatizar, em sala de aula, que nenhum crítico literário havia produzido as observações que apresentávamos np texto.
Sobre os hábitos curiosos de alguns deles, Marcus fazia referência a Friedrich Schiller, que sempre guardava maças pobres na gaveta de sua escrivaninha para se inspirar. Somente assim ele conseguia escrever. Kafka escrevia nu, noite adentro, compulsivamente. Dormia muito pouco. Truman Capote tinha uma cor de papel para cada gênero. Uma cor para romance, outra para o conto e assim por diante. Quando, por algum motivo, não dispunha desses papéis na cor específica do gênero, considerava que sua produção já não era a mesma. Hemingway escrevia apenas pela manhã. Das 100 páginas escritas, confessaria, uma era uma obra-prima. 99 delas jogava no lixo. Sobre os tomadores de whiskies, deixemos para um outro momento. A lista é grande.

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