pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Tijolinho: Bancada do PSB pernambucano dividida nas eleições da Câmara dos Deputados.



Há duas reflexões importantes para se fazer quando se está em jogo as  conjecturas acerca das eleições para a Presidência da Câmara dos Deputados, que devem ocorrer no dia primeiro de fevereiro. A primeira delas desaconselha o cálculo dos eventuais resultados a partir de uma avaliação do voto pelo apoio da bancada partidária, ou seja, o candidato que conquista o apoio de um determinado partido não pode, em hipótese alguma, concluir que todos seus representantes votarão nele. Recorre-se, aqui, a uma lição deixada por uma velha raposa da política mineira, Tancredo Neves: Em votação secreta, naquele escurinho, os homens traem. Sempre acrescento que as mulheres também, Dr. Tancredo, para não sermos acusados de misoginia, nesses tempos bicudos, onde até uma simples paquera, quando mal conduzida, pode ser confundida com um assédio. Uma outra lição - esta, infelizmente, não sei quem nos legou - recomenda não se orientar muito pela ideologia dos partidos politicos, uma vez que, a partir de um determinado momento, ali no Congresso, todos os gatos tornam-se pardos, ou seja, acabam assumindo aquela "cultura' bastante conhecida dos brasileiros, independentemente de suas vinculações partidárias. 

Consegue-se muito identificar ou definir o candidato Arthur Lira(PP-AL) como um candidato chapa-branca pelo apoio explícito emanado pelo Governo do senhor Jair Bolsonaro, que faz questão de ratificar esta posição. Arthur Lira, em alguns momentos, tem até sinalizado que seria até mais independende do que o candidato apresentado por Rodrigo Maia para sucedê-lo, Baleia Rossi(MDB-SP), nome oficialmente de oposição, um candidato que conta, ainda, com diversas arestas a serem aparadas pelos partidos e parlamentares do campo progressista que o apoiam. O PSOL, numa atitude equivocada, por exemplo, depois de muitas idas e vindas, acabou lançando a candidatura independente de Luiza Erundida(PSOL-RJ), de alguma forma, cindindo a estratégia e base de apoio articulada por  Rodrigo Maia (DEM-RJ) para assegurar as chances de vitória do pupilo Baleia Rossi(MDB-SP). O PSOL confirma a tese dos "gatos pardos", uma vez que sempre demonstrou o interesse em apoiar o nome de oposição apenas num segundo turno, onde teria melhores chances de barganha por cargos e comissões.  

Aqui na província pernambucana, quando se discute os votos da bancada do PSB, as coisas continuam no mesmo diapasão, ou seja, a despeito de uma resolução da Executiva Nacional do Partido indicando, por unanimidade, que não apoiariam o candidato governista Arthur Lira,  parlamentares da legenda não escondem sua intenção de votar nele, contrariando aquela resolução partidária. E, neste caso em particular, trata-se de uma traição assumida, sem os ingredientes do dark room, naturalmente. Esses deputados socialistas são explícitos em assumir que não acompanharão a decisão da Executiva do Partido, criando até mesmo alguns embaraços para o governador Paulo Câmara(PSB-PE), que resolveu acatar a orientação da legenda, assumindo o voto no candidato Baleia Rossi. O prefeito João Campos(PSB) é um dos maiores entusiastas do apoio ao nome de Arthur Lira(PP-AL). Deputados do PSL também esboçaram uma dissidência, segundo dizem, controlada pelo próprio Rodrigo Maia(DEM-RJ) com o apoio do deputado federal Luciano Bivar, dirigente nacional da legenda. Como se observa, o cálculo do voto neste ou naquele candidato não pode ser inferido pelo apoio de "bancada".  

Editorial: A espertise brasileira em vacinação em massa vai fazer a diferença.



Estamos iniciando a campanha de vacinação em massa da nossa população, depois de idas e vindas, incertezas e muitos desencontros entre o Governo Federal e os Estados da Federação. O andar da carruagem política atrapalhou, em muito, o andar da carruagem científica. Aliás, continua atrapalhando, pois tal campanha de vacinação, infelizmente, antecipou o start das eleições presidenciais de 2022. Não apenas a campanha de vacinação em si, mas pode-se afirmar isso em relação a todo o imbróglio provocado pela pandemia do coronavírus. Não tenho a menor dúvida de que todos esses fatos estarão presentes na disputa pelo Palácio do Planalto nas eleições presidenciais de 2022. A iniciativa do governador do Estado de São Paulo, João Dória Junior(PSDB-SP), de iniciar a vacinação da população ainda no domingo - antecipando-se às previsões do Ministério da Saúde - além do mal-estar, dividiu governadores, de matizes políticas distintas, independentmente de afinidades ou não com o Governo Federal. É bom os brasileiros e brasileiras irem se acostumando com os fatos, pois as trocas de farpas devem continuar daqui para frente. Depois das vacinas prontas, encaminhadas para a população, agora o embate se dá em torno sobre quem, de fato, financiou a sua produção, colocando o ministro Eduardo Pazuello e o governador João Dória num novo embate. Preocupa bastante essa birra, quando, por exemplo, todos deveriam, na realidade, é estar empenhados em providenciar os ingredientes farmacêuticos ativos, fundamental para a produção de novas vacinas, sobretudo em se tratando de uma vacina que exige uma segunda dose de imunização e sua produção não pode ser interrompida por falta de algum insumo.   

Mesmo começando com um relativo atraso em relação a outros países, a tendência é que possamos assumir a dianteira dessa corrida, em razão da nossa espertise no assunto, graças ao nosso Sistema Unificado de Saúde. Mais uma razão para empreendermos todos os nossos esforços no sentido de preservar este sistema de saúde, um dos melhores do mundo. É numa situação crítica como esta que dimensionamos a sua real importância para a saúde pública no país. Vacinação em massa da população é coisa do nosso tão maltratado SUS, um grande patrimônio nacional. Aproveito o ensejo para fazer nossa mea-culpa em relação ao pessimismo quanto à logística de distribuição das vacinas pelo país. Ocorreram alguns problemas, é fato, como a ausência de uma sincronia com os horários dos voos, mas nada que comprometesse o objetivo final, o de fazer as vacinas chegarem aos Estados para serem distribuição às cidades. Há vários pleitos dos prefeitos encaminhados ao Instituto Butantan, por iniciativa prórpia, mas o ideal talvez seja mesmo o de centralizar essa distribuição através do Ministério da Saúde. Se o Instituto Butantan assumisse essas demandas talvez não desse conta do recado, além de criar um sistema perverso de privilégio nessa distribuição. E os rincões, sem recursos, quando receberiam suas vacinas se elas não fossem distribuídas de forma equitativas? Seria mais um caso de uso político de um problema de saúde pública. 

Aqui pela província pernambucana, finalmente, parece que a população resolveu acatar as determinações do Governo do Estado no sentido de evitar as aglomerações e o uso de som nas praias  neste último final de semana, o que se constitui numa boa notícia, pois o contrário seria o mais prevísivel, a julgar pelo comportamento da população nesses casos, salvo raras e honrosas exceções. Convém salientar que, mesmo com a vacinação em massa em curso, os cuidados recomendados desde o início da pandemia precisam ser mantidos. Nas edições aqui do blog, trazemos sempre os conselhos e as avalições do quadro de saúde pública do país, produzidas por cientistas como Miguel Nicolelis, que assessora o Consórcio Nordeste. Para o cientista, nunca houve momento de relaxar os cuidados, tampouco as medidas restritivas de contato social. Muito ao contrário, o lockdown deveria ter sido mantido ou retomado em regiões, como o grande Recife, por exemplo. Agora é torcer que, com a varíavel do início da vacinação em massa, situações como aquela que ocorre em Manaus possam ser evitadas, uma vez que segmentos da população e os governantes passaram a abominar essa palavar lockdown. Ainda a pouco, li uma matéria onde o Ministro do Turismo afirma que o setor não resistiria a um novo lockdown. 

Essa espertise de 50 anos de experiência do SUS em vacinação em massa irá ajudar bastante o país, neste momento delicado. Andou circulando pelas redes sociais um joguinho, onde, a partir de alguns dados do indivíduo, haveria uma previsão sobre quando ele possivelmente poderia ser vacinado. Repito aqui as palavras do Dr. Dráuzio Varela, em artigo publicado na edição dominical do jornal Folha de São Paulo: "Não vejo a hora de ser vacinado." Os prejuízos pessoais provocados por esta pandemia são incalculáveis, fatura que deve ser apresentada sabe-se lá quando, assim que tivermos condições seguras de voltarmor à "normalidade" que não mais será como antes. A pandemia impôs à sociedade profundas reflexões sobre valores, inclusive, sobre aquilo que realmente importa: Que saudade de se reunir com os amigos no sítio, tomar aquelas cervejinhas geladas - sem o uso de máscaras - num churrasquinho de final-de-semana, possivelmente com uma fraldinha ou asinhas de galinha, já que a picanha sumiu do cardápio dos pobres: R$ 90 o quilo. Fomos longe para descobrir que, de fato, isso é o que realmente importa, como disse o sociólogo espanhol Manuel Castells. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Eduardo Leal: Há homossexuais

Eduardo Leal Cunha

Há homossexuais
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Joy Hester, Love Series, 1949 (Foto: Reprodução)

 

Vladimir Safatle, alguém a quem certamente admiro, usou recentemente sua coluna nesta revista para nos dizer, de forma peremptória, que não há heterossexuais.

Gostaria inicialmente de lembrar aos leitores e ao meu querido Vladimir que os problemas com esta afirmação começam no fato de que podem não existir heterossexuais, mas, curiosamente há, sim, homossexuais. Situação que intrigou bastante o velho Freud.

Depois disso, preciso reconhecer certa dificuldade em responder a seus argumentos, dado que concordo com muitos deles.

O problema é que não se trata apenas de argumentos, e muito menos da afirmação d’A Verdade, que uma vez aceita nos curará de todas as nossas feridas. Não estamos em um debate ascético de ideias. Estamos em um campo onde as palavras são encarnadas, têm corpo, e alguns destes corpos são discriminados ou, ao contrário, gozam de privilégios.

Pode ser que heterossexuais não existam, nem brancos. Mas certamente homossexuais existem, como negros e mulheres. Existem e são discriminados desde cedo na escola, no trabalho e nas sociedades de formação em psicanálise, e não me refiro apenas à tradicional e sabidamente conservadora Associação Psicanalítica Internacional.

Por isso me pergunto se o raciocínio de Vladimir em seu artigo não é muito próximo daquele que já fez tantos psicanalistas afirmarem, repetidas vezes, que não há brancos nem pretos, mas sim sujeitos.  Talvez tenham razão, não exista mesmo relação sexual e sejamos todos sujeitos, de modo que a cor da nossa pele não importa muito. Mas em que espaço isso acontece? Certamente não nas calçadas das ruas ou nas filas de emprego e talvez nem mesmo na maioria dos consultórios de psicanálise.

Penso aqui em outro amigo querido que, como bom lacaniano, não se cansa de repetir que a relação sexual não existe, mas que por alguma razão é incapaz de enunciar outras verdades, que para mim talvez sejam circunstancialmente mais importantes. Por exemplo, ele nunca se refere a meu namorado (ou marido, já que oficializamos uma união estável) ou mesmo a meu companheiro. É sempre: como vai seu amigo?

Em outro artigo, também recente, Vladimir admitiu que finalmente se convencera de que a filosofia é branca e eurocêntrica. Para muitos, se trata de um reconhecimento excessivamente tardio e que se fez sem a necessária referência a toda uma vasta literatura – artística e reflexiva – que tenta nos dizer isso há pelos menos cinquenta anos, na qual se inclui, por exemplo, Frantz Fanon, só recentemente descoberto pelos psicanalistas brasileiros. Para mim, aquele artigo foi, de qualquer modo, um gesto político e intelectual importante.

Por isso, gostaria que, num segundo movimento, o filósofo pudesse entender que, à despeito do seu desejo e das pulsões que o ligam a objetos contingentes, no mundo em que vivemos, Vladimir é sim heterossexual e mais uma prova viva de que eles existem. O que, aliás, é testemunhado por muitos, já que os supostamente não existentes heterossexuais podem sair nas ruas de mãos dadas com seus objetos parciais, sem o risco de sofrer algum tipo de violência. Eu não.

E não se trata, melhor ressaltar, de uma questão política, que possa ser pensada em separado dos processos de construção subjetiva, pois a deslegitimação das experiências homoeróticas, que marca nossa socialização, claramente incide sobre os processos de subjetivação e os modos possíveis de existir e de se relacionar consigo com o outro. Por isso, um autor como Didier Eribon é levado a afirmar que o mundo homossexual é constituído pela injúria.

Evidente que, como qualquer identidade, a homo e a heterossexualidade nos aprisionam e limitam nossas possibilidades de existência. Evidente que é necessário e urgente, nos liberarmos desse modelo binário como, aliás, de qualquer identidade, mas a emancipação não se fará pela afirmação de uma verdade última que se imporá como revelação aos ignorantes. Nos tempos de hoje, aliás, não fica bem acreditar que “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”

 

Assim, parece-me que seu
argumento, embora possa
ser tomado como verdadeiro,
é insuficiente, pois lhe falta
dizer que os heterossexuais
não existem e, no entanto,
eles existem.

 

 

Ocupam posições de poder, figuram a norma e em sua grande maioria, ainda hoje, em boa medida, discriminam aqueles com os quais não podem se identificar, os ditos homossexuais.  Este é o X da questão. É preciso enfrentar esse duplo estatuto, em lugar de negá-lo, afirmando uma verdade maior, situando-a como, esta sim, a vivência concreta do sexual.

Por outro lado, Vladimir parece esquecer que quando falamos de homo ou heterossexuais não é exatamente de práticas sexuais que estamos tratando, do contrário ainda falaríamos de sodomia e coisas tais. Assim, não dá para reconhecer a força da heteronormatividade e ao mesmo tempo supor que heterossexuais não existem. Essas duas existências se determinam e se produzem mutuamente e um dos seus efeitos está no fato de que se desejamos “objetos que circulam ou se fixam entre os corpos, em corpos”, esses corpos são situados hierarquicamente em relação à heteronorma, e assim acabam por definir limites para os sujeitos que os habitam.

Mais ainda, para afirmar que heterossexuais não existem, nem tampouco a relação sexual, talvez seja necessário colocar também em questão o binarismo de gênero, o que não poderia ser feito sem interrogar minimamente a diferença sexual e seu estatuto de invariante antropológico, até porque no Édipo, tal como lido em Lacan – ao menos em grande parte da sua obra e segundo muitos dos seus comentadores –, elementos como sexuação, identidade de gênero e escolha de objeto se entrelaçam em um modelo de constituição subjetiva que arrisca se referir a um ideal e supor um desenvolvimento necessário, naquilo que Judith Butler denomina produção de gêneros inteligíveis.

Estamos dispostos a tanto? Nossa crítica da heterossexualidade pode nos conduzir à interrogação do Édipo, do diagnóstico estrutural e de uma antropogênese que vincula diferença sexual e entrada na ordem simbólica?

Em sua conclusão, o artigo enuncia um desejo de emancipação, mas creio que as estratégias para tal emancipação não podem ser generosamente decididas pelos heterossexuais (sobretudo se eles sequer existirem), afinal toda a desordem no gênero que registramos nos últimos anos foi obra de pessoas engajadas em práticas sexuais e performances de gênero dissidentes. O que nos leva a pensar que se há algo na norma cisgênera-heterossexual-patriarco-colonial que oprime aqueles identificados como heterossexuais (e homens, brancos, europeus etc.), estes ou não o percebiam ou estavam relativamente bem acomodados, pois a violência da norma parece que só passou a perturbá-los depois que “as gay, as bi, as trava, e as sapatão”, junto com as feministas, começaram a tramar sua revolta e a interrogar a psicanálise e seus enunciados cabais.

Eduardo Leal Cunha é psicanalista, doutor em Saúde Coletiva (IMS), professor do Departamento de Psicologia e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisador Associado do Departamento de Estudos Psicanalíticos da Universidade de Paris.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

Vladimir Safatle: Não há heterossexuais

 

Não há heterossexuais
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"Sem título", Joy Hester, 1949, Australia (Foto: Reprodução/Wikiart)

 

Um problema relevante em certos debates sobre sexo e identidade que circulam atualmente entre nós é produzido quando se parte do pressuposto de que existam heterossexuais. Segundo essa ideia, heterossexual seria aquela pessoa cujas escolhas de objetos recaem sobre algo que seria o “sexo oposto”. A princípio, essa seria a posição hegemônica em nossas sociedades. Ou seja, viveríamos em uma sociedade na qual a maioria das pessoas teriam, como escolha de objeto, o “sexo oposto”. De onde se seguiria algo como certo binarismo próprio a vida dos pretensos heterossexuais: presos em uma dinâmica do desejo que só reconheceria homens e mulheres, sendo que um polo seria submetido a identificações e outro a investimentos libidinais.

Mas há de se perguntar se toda essa gramática de “binarismos” e “heterossexuais” realmente descreve alguma vivência concreta do sexual. Talvez seria o caso de começar por se perguntar se heterossexuais realmente existem.

Pode parecer que uma questão dessa natureza seria ociosa, algo como uma provocação especulativa equivalente a se perguntar se existe, de fato, montanhas e números primos. No entanto, seria importante se perguntar sobre que tipo de existência é essa que se procura descrever quando se fala de “heterossexuais”. Que tipo de objetos tais termos cobrem? Onde eles de fato estão, em qual tipo de categoria?

Esclarecer esse ponto seria importante para sabermos quem são afinal esses “heterossexuais”, esses apóstolos do binarismo de que tanto se fala. Pois o que aconteceria se descobríssemos que não há ninguém sob esses termos, que não há sujeito algum que possa ser descrito dessa forma, que “heterossexual” é, vejam só vocês, uma categoria absolutamente vazia? Não seria, afinal, uma atitude mais subversiva do que imaginar que podemos encontrar “heterossexuais” andando nas ruas, trabalhando conosco ou mesmo vivendo em nossa própria casa?

Pois é possível que devamos fazer uma distinção importante e nem sempre levada em conta nos debates atuais. É possível não existir heterossexuais, o que não significa que inexista heteronormatividade. Quer dizer, não há práticas concretas que possam ser descritas como “heterossexuais”, embora não haveria dificuldades maiores em identificar discursos que procuram disciplinar comportamentos e significar relações a partir da crença na existência de heterossexuais. Tais discursos criam classificações e estabelecem uma gramática que inviabiliza, para os próprios sujeitos, o sentido das práticas das quais eles são portadores.

Assumir isto significaria que nosso problema não é um problema de “tolerância”. Não vivemos em um mundo que deveria saber lidar de forma mais tolerante com a multiplicidade de formas de relacionalidade que não podem ser descritas como “heterossexuais”. Nosso problema talvez seja muito mais estrutural. Vivemos em um mundo que tem uma gramática, com suas classificações e suas emendas posteriores, que simplesmente nada diz sobre a experiência concreta no campo do sexual. Uma gramática que não é uma “condição de possibilidade” para a orientação e a experiência do sexual, mas que é uma má “condição de impossibilidade”. Nesse sentido, nosso problema não é de “tolerância”. Nosso problema é de destituição. Há toda uma gramática inadequada que precisa ser destituída, pois não sabemos como falar do sexual.

Nesse sentido, o primeiro equívoco consiste em acreditar que “relações sexuais” é algo que ocorre entre “pessoas”, sejam elas duas ou mais. Pois sendo uma relação sexual aquilo que ocorreria entre “pessoas”, o próximo passo poderia ser então se perguntar: qual o tipo de gênero tal “pessoa” tem? Mas e se tais relações não se dessem no nível das “pessoas”, se essa descrição fosse, na verdade, um erro categorial?

Uma das ideais mais fortes da psicanálise a esse respeito, potencializada por Jacques Lacan, nos lembra que relações sexuais não se dão entre representações globais de pessoas, mas entre objetos que circulam entre corpos. Objetos que carregam traços de posições do desejo que desconhecem algo que poderia ser chamado de “determinações  de gênero”. Mas vivemos em uma metafísica tão empobrecedora que descrever relações sexuais como algo que se dá entre objetos parece alguma forma de degradação das “pessoas” envolvidas, de instrumentalização do outro, de “fetichismo” e coisas do gênero. Como se só houvesse força de ação e decisão em “pessoas”, não em “objetos”. Toda uma concepção jurídico-metafísica de atividade acaba assim por colonizar até mesmo a forma de compreendermos afecções. Há também um fetichismo da pessoa do qual deveríamos saber nos livrar.

 

 

Assim, dizer que relações sexuais
se dão entre objetos significa,
concretamente, que ninguém
deseja “mulheres” ou “homens”,
mas deseja objetos que circulam
ou se fixam entre os corpos,
em corpos.

 

 

Objetos esses que não são projeções de fantasmas individuais. O corpo do Outro nunca é uma tela de projeção. Ele é um espaço de encontro e nunca se erra um encontro efetivo, sendo a marca de sua efetividade a força bruta de duração. Se um encontro ocorre é porque há objetos que circulam, e a ideia de circulação é importante aqui. Eles tem a capacidade de passar de um lado para o outro porque eles fazem reverberar as histórias dos desejos dos sujeitos, a história de seus desejos desejados. Uma hora eles se encontram de um lado, outra hora eles se encontram de outro. E tal circulação é a expressão de que tais objetos não se fixam em  “gêneros específicos”. Por isto, eles podem levar um “homem” ou uma “mulher” a pontos de indistinção, eles podem inverter posições, eles podem permitir composições heteróclitas as mais variadas.

Quando um juiz da corte de apelação de Dresden, no século 19, cujo nome era Daniel Paul Schreber, tem um surto paranoico depois de imaginar que seria bom ser uma mulher “no momento do coito”, ele demonstrou que apenas um paranoico sentiria tal posição como exterior a si. Só um paranoico entenderia isso como algo tão invasivo que lhe levaria a construir um delírio que integraria tal corporeidade, tais objetos associados por ele ao gozo feminino, apenas à condição de uma modificação alucinatória de seu corpo tendo em vista a sua própria transformação em “a mulher de deus”. Fora da posição paranoica, estamos a todo momento fazendo tais passagens em nosso inconsciente (que é onde os encontros afetivos realmente se dão), tanto em um sentido quanto em outro.

Dito isto, é fato que a discursividade heteronormativa pode ser vivenciada como processo de reações fóbicas contra tais movimentos, contra tal circulação de objetos. Ela pode assim consolidar disposições produtora das piores violências e negações, pois violências nas quais se mistura destruição de si e incorporação, no outro, do que se quer destruir. Mas tais discursividades descrevem apenas uma tentativa desesperada e brutalizada de lidar com impasses típicos dos que compreendem e vivenciam o desejo no nível de “pessoas” e “indivíduos”.  Nesse sentido, é bem provável que a melhor forma de desativar tais discursos seja mostrando, cada vez mais, que eles não descrevem sujeito algum, que eles descrevem uma forma de disciplina que cresce exatamente no momento em que as sociedades começam a classificar sujeitos a partir das pretensas escolhas sexuais de pessoas que eles seriam.

“Mas, como assim? A heteronormatividade é um discurso sobre nada?”. Bem, esse não será o primeiro dos discursos sem objeto que conhecemos. O que pode nos levar a imaginar um momento histórico de emancipação no qual será absolutamente indiferente se sujeitos são portadores de estratégias distintas de circulação de objetos, absolutamente indiferente a especificidade da série dos corpos que sujeitos singulares privilegiam. Não há porque classificar séries diferentes em conjuntos distintos. A partir dessa indiferenciação talvez encontremos enfim uma forma melhor e mais bela de falar de sexo.

Vladimir Safatle é professor titular do departamento de filosofia e do instituto de psicologia da USP

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

Charge! Duke via O Tempo

 


domingo, 17 de janeiro de 2021

Publisher: I repeat Dráuzio's words: I can't wait to be vaccinated



( Foto do médico Miguel Nicolelis)


The country faces its most critical political moment, with unpredictable developments. The political tourniquet is being increasingly tightened due to the worsening of the public health crisis that the country is going through, with the possibility that facts such as those that occurred in Manaus may be repeated in other places, as predicted by scientists, who always said they were unforeseen. the relaxation of preventive measures, including suggesting the permanence of the lockdown - which should not be abandoned - as a measure to prevent the proliferation of the virus, creating hordes of patients in need of treatment, with hospital networks strangled without being able to serve them. Before, it was the problem of the absence of ICU beds, a problem now worsened by the absence of oxygen. In Manaus, in the face of chaos, the infected people's own homes are turning into makeshift hospitals.

Until recently, heard by the scientist Miguel Nicolelis, who advises the Northeast Consortium, immediately recommended a national lockdown. As there is a clash between public health and the economy, such recommendations are generally not taken very seriously, bringing known consequences, such as the exponential increase in cases of contagion and deaths, this time with one more aggravating factor: the various mutations of the virus , in some cases more lethal and with greater capacity for dissemination. Added to this, the contingent of irresponsible people spreading lies on social media, further aggravating the already chaotic situation. Thankfully, the administrators of these networks are taking punitive measures to combat the spread of these fake news, macabre technology used during the last presidential elections, as a political weapon to destroy opponents. 

In a scenario that is already dangerously critical, we still have to monitor the political use of this public health drama experienced by the country - such as the arm wrestling in relation to the distribution of vaccines - or the opportunistic pronouncements of the "starchy", with an eye on the elections of 2022. I have already stated here, and I repeat again, that citizen would be able to step on his mother's neck to achieve his goals. He is an absolutely unreliable political actor. He can criticize the Devil and I do not inspire the least credibility or confidence, because it is known that his real intentions are even worse than those of the Devil. It is depressing to know that there are leftist and progressive sectors flirting with this guy, in political arrangements for the 2022 presidential elections. We are well aware of the complicated political situation we face, but honestly, I do not know if it is worth so much sacrifice to reach the conclusion that we switched boats, but the storm continues to produce its tsunames. Márcio França unmasked him in a debate. He did not win those elections, but our great admiration for the service rendered to res publica. 

I anticipate that we may have problems in relation to the request of the Ministry of Health, which determined that the six million doses of the CoronaVac vaccine, produced by the Butantan Institute, should be sent to Brasília, with the aim of centralizing distribution throughout the country. Butantan, on this matter, has already anticipated that it considers it inappropriate to send to Brasilia the doses that would be applied in the State of São Paulo. I don't know if the Ministry of Health has a letter up its sleeve, because, like Dráuzio Varela, I can't wait to get the vaccine, whatever it may be. In any case, I am concerned with the "D" day and the "H" time defined by Minister Eduardo Pazzuelo, informing that it would be on Wednesday. There are many logistical contingencies and political embarrassments at play. But we hope that political issues are overcome and deadlines are met.


Editorial: Repito as palavras do Dráuzio: Não vejo a hora de ser vacinado.



O país enfrenta seu momento político mais crítico, com desdobramentos imprevisíveis. O torniquete político está sendo cada vez apertado em razão do agravamento da crise de saúde pública que o país atravessa, com a possibilidade de que fatos como aqueles ocorridos em Manaus possa se repetir em outras praças, conforme previsto por cientistas, que sempre afirmaram ser imprevidente o relaxamento de medidas preventivas, inclusive sugerindo a permanência do  lockdown - que não deveria ser abandonado - como medida para evitar a proliferação do vírus, criando hordas de doentes precisando de tratamento, com as redes hospitalares estranguladas sem poder atendê-os. Antes era o problema da ausência de leitos de UTIs, problema agora agravado pela ausência de oxigênio. Em Manaus, diante do caos, as próprias residências dos infectados estão se transformando em hospitais improvisados. 

Até recentemente, escutado sobre o assunto, o cientistia Miguel Nicolelis, que assessora o Consórcio Nordeste, recomendou, de imediato, um lockdown nacional. Como há uma queda de braço entre saúde pública e economia, geralmente tais recomendações não são levadas muito a sério, trazendo as consequências conhecidas, como o aumento exponencial de casos de contágio e mortes, desta vez com mais um agravante: as diversas mutações do vírus, em alguns casos mais letais e com maior capacidade de disseminação. Soma-se a isso, o contingente de irresponsáveis espalhando mentiras pelas redes sociais, agravando ainda mais a situação já caótica. Ainda bem que os administradores dessas redes estão adotando medidas punitivas, de combate à disseminação dessas fake news, tecnologia macabra usada durante as últimas eleições presidenciais, como arma política para destruir os adversários. 

Num cenário que já é perigosamente crítico, ainda temos que acompanhar o uso político desse drama de saúde pública vivido pelo país - como a queda de braço em relação à distribuição das vacinas - ou os pronunciamentos oportunistas do "engomadinho", de olho nas eleições de 2022. Já afirmei por aqui, e volto a repetir, aquele cidadão seria capaz de pisar no pescoço da mãe para atingir seus objetivos. Trata-se de um ator político absolutamente não confiável. Ele pode criticar o Diabo e a mim não inspira a menor credibilidade ou confiança, pois sabe-se de suas reais intenções são ainda piores do que as do Diabo. É deprimente saber que há setores de esquerda e progressitas flertando com este sujeito, em arranjos políticos para as eleições presidenciais de 2022. Conhecemos bem a conjuntura política complicada que enfrentamos, mas, sinceramente, não sei se vale a pena tanto sacrifício, para chegarmos à conclusão de que, trocamos de barco, mas a tempestade continua produzindo seus tsunames. Márcio França o desmascarou num debate. Não ganhou aquelas eleições, mas a nossa grande admiração pelo seriviço prestado a res publica.   

Antecipo que poderemos  ter problemas em relação à solicitação do Ministério da Saúde, que determinou que as seis milhões de doses da vacina CoronaVac, produzidas pelo Instituto Butantan, sejam destinadas à Brasília, com o objetivo de centralizar a distribuição para todo o país. O Butantan, sobre este assunto, já antecipou que considera inadequado enviar à Brasília as doses que seriam aplicadas no Estado de São Paulo. Não sei se o Ministério da Saúde tem alguma carta na manga, pois, assim como o médico Dráuzio Varela, não vejo a hora de tomar a vacina, seja ela qual for. Em todo caso, estou preocupado com o dia "D" e a hora "H" definido pelo Ministro Eduardo Pazzuelo, informando que seria na Quarta-Feira. Há muitas contingências logísticas e embaraços políticos em jogo. Mas torcemos que as questiúnculas políticas sejam superadas e os prazos cumpridos.  

Tijolinho: O lockdown em Pernambuco já deveria ter sido decretado.


A cidade de Ipojuca, no litoral sul do Estado, anuncia uma série de medidas restritivas no tocante ao acesso às suas praias, certamente, a partir de recomendações do Governo do Estado, que, até recentemente, esteve reunido com os prefeitos das regiões litorâneas, com o objetivo de ajustar a pauta de ações preventivas contra o coronavírus. Imagino que deve ser um dilema muito grande para os gestores adotarem tais medidas, sabendo dos eventuais prejuízos do comércio, não apenas no que concerne às vendas e arrecadação de impostos, mas igualmente em relação à perda de postos de trabalho. Como disse no editorial, o país enfrenta seu momento mais delicado, uma crise sem precedentes, que atinge a não apenas a saúde pública, mas o social, a economia e as instituições da democracia, hoje sensivelmente fragilizadas, em meio a esse pandemônio, tornando a crise política ainda mais grave do que a sanitária. Há segmentos sociais que, a rigor, sequer podem se submenter às condições restritivas impostas e de cuidados pessoais, em razão da luta cotidiana pela sobrevivência. O medo do desemprego e da fome torna-se, nesses casos, maior do que o medo de contrair o vírus. Por outro lado, essas medidas restritivas são absolutamente necessárias diante da recidiva do coronavírus, atingindo proporções até mais preocupantes do que a primeira onda, uma vez que já se verificam a disseminação de suas variantes, ainda mais contagiantes e letais, como já ocorre em Manaus. 

A rigor, a rigor, se o Governo do Estado seguisse as orientações do cientista Miguel Nicolelis, que assessora o Consórcio Nordeste no tocante a este assunto, determinava um lockdown imediato para a região metropolitana do Recife. Aqui trava-se uma batalha entre economia e saúde pública, como ocorre em outras praças do país, nem sempre com a priorização desta última. Em relação à frequência às praias, o comportamento da população durante este último final de semana será determinante na definição de medidas mais ou menos restritivas. E a gente sabe que, de forma consciente, a população não adotará um comportamento mais condizente para evitar o agravamento do problema. O pique dessa segunda onda, segundo os especialistas, ainda é reflexo dos festejos de final de ano. Há um processo de saturação psicológica da população, em razão dos longos meses de confinamento. Observa-se, assim, um comportamento suicida, de banalização da morte, por vezes reforçado por publicações irresponsáveis, através das redes sociais. 

Cientificamente, a rigor, nunca houve um momento oportuno para o relaxamento desses cuidados, como as medidas de restrições de contato social, evitando as aglomerações. Tampouco agora, mesmo com a previsão de vacinação em massa, seria possível abdicar daqueles cuidados essenciais, como o uso de álcool em gel, da máscara ou de lavar as mãos frequentemente com o velho sabão amarelo. A volta se deu, sobretudo, em razão da pressão exercida pelo capital. Há alguns grupos sociais que, por razões alheias à sua vontade, infelizmente, como disse antes, não podem obdecer a essas medidas, salvo se contassem com o apoio fundamental do aparelho de Estado. E, aqui, criou-se uma equação de difícil equacionamento: como conciliar uma economia parada, sem arredação de impostos, com a manutenção desses benefícios? O coronavírus nos impôs momentos difíceis, mas, se você não se encontra nesses grupos, que, infelizmente são expostos aos vírus por não contarem com a opção de ficar em casa, cuide-se! 

Charge! Duke via O Tempo

 


sábado, 16 de janeiro de 2021

Editorial: A Revolta da Vacina II


Esperamos, sinceramente, que os brasileiros e brasileiras que ainda preservarem o equilíbrio mental, depois desse pandemônio que o país atravessa, possam ter o bom-senso necessário para refletir sobre as lições adquiridas durante esta tormenta. Entender que é preciso uma convivência civilizada com quem pensa diferente; desenvolver a consciência política necessária para não embarcar em novas canoas furadas; compreender a importância das instituições da democracia para administrar e dirimir conflitos; civilizar-se, desenvolvendo a sensibilidade para o outro, seja ele pobre, negro, mulher, homossexual. Convém fazer tais observações porque há alguns casos "perdidos", ou seja, hordas de insanos que seguem orientações torpes, desprovidas de quaisquer racionalidade; que negam fatos concretos; guiadas pelo fanatismo do ódio; intolerantes; ameaçando suas vidas e a dos outros. Infelizmente, chegamos a este estágio político. Certamente, este é o momento mais difícil que o país atravessa. Uma tempestade perfeita, como diria os economistas, para descrever uma situação de crise generalizada. No nosso caso, atinge a saúde pública, o tecido social e econômico, além da democracia e as instituições que lhes dão suporte. 

Na nossa fase de adolescência usava-se muito uma expressão emblemática para descrever esta situação: Sinuca de bico, ou seja, uma situação sem saída, pois a bola que se joga está encostada à caçapa, não permitindo nenhuma manobra do jogador, sob um risco altíssimo de cair no buraco. Uma das primeiras lições seria a de não permitir que  chegássemos a tal estágio, abrindo um precedente para que as instituições fossem de tal forma tão desacreditadas, assediadas e fregilizadas, tornando-se incapazes de esboçar uma reação num momento de impasse como este que estamos vivendo. Depois daquelas cenas apavorantes do caos instaurado em Manaus, no dia de ontem, tivemos panelaços pelo país e até pequenas mobilizações de rua, como a ocorrida em Belo Horizonte, todas com o propósito de exigir medidas de enfrentamento ao caos instaurado em Manaus, assim como medidas que possam otimizar o início da vacinação em massa da população. Uma nova Revolta da Vacina - esta orientadas por outras motivações, embora os insanos mencionados acima, já tenham tomado a decisão de que não pretendem se vacinar, como disse ali, pondo em risco não apenas a vida deles, mas as nossas também.  

Na realidade esse caos é relativamente antigo. Ele inicou-se quando os yankees ficaram de olho na riqueza do nosso Pré-sal, que tornou-se a maldição do Governo Dilma Rousseff(PT), que pretendia que os recursos produzidos com a sua exploração fossem aplicados em educação e saúde. Logo, já mancumunados com os interesses estratégicos e geopolíticos dos yankees, surgiram proeminentes figuras tucanas do bico fino sugerindo que a exploração aquelas riquezas fossem abertas  ao capital internacional, através de empresas petrolíferas estrangeiras. As cenas seguintes desse enredo macabro já é História, bastante conhecida dos brasileiros, tecitura desenvolvida em ações muito bem urdidas e coordenadas - hoje sabe-se - com a prestimosa assessoria dos interessados. Salvaguardados seus interesses econômicos e geopolíticos a qualquer preço, o que talvez eles não contassem é com este desastre institucional e político em que mergulharam o país, situação análoga a que eles também estão enfrentando, com um Capitólio abarrotado de homens da Guarda Nacional para assegurar uma simples transição pacífica de alternância de poder. 

Mas, como estamos vivendo um momento desastroso de  radicalidade da racionalidade ultraliberal - onde o capital não apenas dá as cartas, mas igualmente impede que o trabalho também possa fazer os seus jogos - Direitos individuais e coletivos, experiências democráticas meio-ambiente, subjetividades huminitárias estão todos comprometidos. Outro impasse gigantesco diz respeito à chamada guerra das vacinas, ora travada entre nações, ora travada entre Governo Federal e entes federados. O Governo já assinalou, conforme comentamos por aqui, que teremos vacinas para todos os brasileiros, inclusive, se for caso, com a adoção de duas doses. O problema que se apresenta são os prazos estabelecidos e as negociações em curso. Pelos cálculos oficiais, a vacinação deve começar na Quarta-Feira, sendo as doses destribuídas para os Estados ainda na Segunda-Feira. O problema é que as negociações com o laboratório indiano estão travadas e nem Deus sabe como se dará o feedback da requisição das seis milhões de doses da Coronavac solicitadas ao Butantan pelo Ministério da Saúde. O Ministério tem prerrogativas legais para isso, mas conhecemos bem os embaraços políticos em jogo.  


 

Publisher: Humanitarian disaster in Manaus




Still impacted by those horrible scenes, shown yesterday on TV, with people dying from lack of oxygen in hospitals in Manaus, capital of the State of Amazonas. There is an ongoing humanitarian disaster of gigantic dimensions, which should be responsible for many other deaths, if urgent measures are not taken, since the absence of oxygen directly impacts not only on patients with breathing difficulties, as a result of complications caused by Covid-19, but on so many other patients, such as newborns, seriously injured in a coma, etc. Manaus has always faced great difficulties with the coronavírus. Who here, among our beloved readers, does not remember those other shocking scenes, the collective burials and pits hurriedly dug by excavators? Yeah. It has always been said that if the virus were spread in Manaus, we would be facing an announced tragedy. One of the difficulties would be related to the monitoring or monitoring of infected people. At the beginning of the pandemic, Manaus had one of the highest rates of infected and sick by the coronavírus, showing, shortly thereafter, a significant drop in cases, which led to a possible relaxation of preventive measures, perhaps due to a foregone conclusion that the city was under the stage of herd immunity, which is not confirmed by this new incidence of cases. What happened yesterday, in Manaus, is the fear that is installed in all hospital networks in other States, that is, the inability to meet the demand of patients infected with the coronavírus, hence the need for extra care with prevention .


Our assessment is that not only the State of Amazonas, but the country as a whole handled this problem very badly. Here in Pernambuco, for example, there is a recommendation from scientist Miguel Nicolelis - who advises the Northeast Consortium - where an immediate lockdown for the metropolitan region of Recife is recommended. At the moment, as preventive measures adopted by the State Government, only one meeting with the mayors of the coastal region, where it was defined that some disciplinary measures were adopted in order to avoid agglomerations. It is only now that a proposal to shut down access to the beaches has been timidly considered. In fact, to be fair, Nicolelis' recommendation would be to adopt a national lockdown immediately, as recently enacted in the capital Belo Horizonte, despite protests by traders and sabotage actions, treated as civil disobedience. 

On the scientific carriage floor, science has yet to discover much about this virus. There are people without symptoms that transmit it; cured people who get the virus again after a few months; there are doubts about whether the vaccines now in use would guarantee permanent or only temporary immunity to the virus; the variants are becoming increasingly lethal and transmissible, possibly one of them contaminating Amazonians with such speed. In this context, the greatest prevention would still be those precautions recommended since the beginning of the pandemic, that is, avoiding crowds, using the mask, washing your hands frequently with alcohol in gel or yellow soap. It's been months of living with this stress caused by confinement, but there is no other way. Unfortunately, people are not adopting these measures and disrespecting the quarantine, judging by the impulse seen in tourist activities in recent months, with airlines celebrating the return of the almost "normality of operations", as well as the hotel chain, with the high bed occupancy rates. On the last day of 2020, the Police had enormous difficulties in containing illegal parties to celebrate the turn of the year. 

The problem is compounded by the fact that we are living in the era of negativism and fake news. The moment becomes even more apprehensive, since we are fencing with madmen, as the presenter William Bonner said yesterday during the Jornal Nacional, possibly based on disclosures of lies that try to discredit the data presented by the pool of communication companies who gathered to collect and disseminate them, informing the population about the number of cases and deaths caused by the coronavírus in the country. The other day one of these insane people was asked to withdraw from an interview program after peremptorily denying the military dictatorship in Chile, one of the bloodiest in the continent, responsible for thousands of political deaths and disappearances, a scar that the country faces even today.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Tijolinho: O PT, finalmente, desembarca do Governo Paulo Câmara.



Não havia mais "clima" para o PT continuar mantendo o relacionamento com o Governo Paulo Câmara(PSB). Embora filiados e militantes do Partido dos Trabalhadores, reiteradas vezes, tenha manifestado o  desejo de que o partido deveria entregar os cargos e constituir-se como força política de oposição no Estado, há motivos para acreditar que, na realidade, pode ter sido o PSB quem tomou a iniciativa de comunicar o rompimento. Depois de trocar inúmeras farpas com a candidata do partido às eleições municipais do Recife, Marília Arraes(PT-PE), o prefeito eleito, João Campos(PSB-PE), mesmo antes de assumir a prefeitura, deixou claro que não desejava o partido em sua gestão, desconsiderando os arranjos políticos complexos e os acordos de cavalheiros que permitiam que membros daquela agremiação política participassem do Governo Paulo Câmara(PSB-PE), pelo menos até o final de 2021. Reforça ainda essa tese um encontro recente entre o governador Paulo Câmara e o líder dos Progressistas no Estado, deputado federal Eduardo da Fonte(PP-PE), cuja pauta teria sido o ajuste da participação daquele partido no Governo. Os Progressistas reivindicavam justamente a Secretaria de Desenvolvimeto Agrário, em tese, prometida ao partido pelos socialistas desde de longas datas. Não há dúvidas de que eles indicarão o nome que deverá substituir Dilson  Peixoto(PT-PE) naquela secretaria. 

Como um partido político de base, o PT ainda costuma sentir o pulso de sua militância, o que é algo muito positivo. A participação do partido no Governo Paulo Câmara era uma tese amplamente rejeitada pela Juventude do Partido, num primeiro momento, e, mais recentemente, circulou um abaixo-assinado com mais de 300 assinaturas endossando essa proposição, argumentando  ser inaceitável o tratamento dispensado  pelos socialistas ao partido nas últimas eleições municipais, um ato de deslealdade. Por outro lado, acredito, ainda assim, tais manifestações não seriam suficientes para demover a sua ala burocratizada de continuar no governo, não fosse por alguns fatos novos que, por conveniência de ambos os lados, poderemos nunca ficar sabendo. Ontem também especulou-se que o PT poderia lançar o nome do senador Humberto Costa ao Governo do Estado nas eleições estaduais de 2022. Trata-se, ainda, de uma possibilidade aventada, nada oficial. Internamente, certamente, teremos um problema, uma vez que a deputada federal Marília Arraes(PT-PE) alimenta projetos majoritários e eu não sei se ela estaria disposta a bater chapa com Humberto Costa numa disputa interna pela indicação.  

Desde a década de 80 do século passado que o senador Humberto Costa é o homem da confiança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aqui no Estado. Amizade antiga, dos tempos das vacas magras, quando ambos viajavam para o interior do Estado para fazer visitas aos parentes de Lula em Caetés. Era aquele PT que se reunia no Sindicato das Empregadas Domésticas e o carro "oficial' era uma velha Brasília Amarela do Senador. Outro dia fiquei muito feliz ao receber a noticia de que uma de nossas crônicas, tratando deste assunto, venceu um concurso literário e será publicada em breve. Através da ficção, refiz essa viagem do hoje senador àquela região do Agreste Meridional, sem esquecer, naturalmente, as paradas no caminho para saborear um capão à cabidela, com feijão verde com muito quiabo e maxixe, acompanhado de um suco de Umbu e um pedaço de rapadura na sobremesa. Antes de tudo, porém, uma branquinha para abrir o apetite. O pleito de uma provável candidatura de Humberto Costa ao Governo do Estado, nas eleições estaduais de 2022, já contaria com o sinal verde de Lula. Não poderia ser diferente. Como um rebento nordestino legítimo, essa coisa de ingratidão não combina muito bem Lula.   

Charge! Duke via O Tempo

 


Charge! Mor via Folha de São Paulo

 


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Tijolinho: Os movimentos em torno da composição de uma chapa de oposição.



Nesses tempos difíceis impostos pela pendemia, veio às nossas lembranças os bons tempos passados na Suíça pernambucana, daquelas manhãs de pescaria com as crianças  no Hotel Fazenda Alvorada, quando ele ainda era administrado pelo grande Mauro Lima. No café da manhã, os famosos queijos de búfalas, com leite produzido ali mesmo, recolhidos logo cedinho, no curral, sob o olhar embevecido dos guris. O Hotel Fazenda Alvorada tem uma grande vantagem sobre outros equipamentos de lazer daquela cidade, pois fica praticamente dentro do perímetro urbano, permitindo o trânsito fácil para outras atrações da cidade. Garanhuns, ô terrinha boa, como diria o velho Luiz Gonzaga. Vez por outra aparece uns canibais fazendo empadinhas de carne humana, mas nada que estrague os encantos e a força dos seus atrativos junto aos pernambucanos, que, não raro, em épocas específicas do ano, realizam grandes deslocamentos para deles usufruírem. Isso quando não ficam em Gravatá, sua principal concorrente, que possui a ligeira vantagem geográfica de ficar bem mais perto do Recife. 

Num período até certo ponto recente, travou-se ali uma das grandes batalhas politicas no Estado, envolvendo, de um lado, o governador Eduardo Campos e, do outro lado, o hoje senador Armando Monteiro, que concorria pela oposição ao Governo do Estado. Garanhuns possui um grande colégio eleitoral e é uma cidade estratégica do Agreste Meridional. Não lembro de maiores detalhes, mas, assim como ocorreu em Caruaru, a briga assumiu contornos de uma batalha pessoal, quando o Palácio do Campo das Princesas à época usou todos os seus recursos políticos para derrotar os adversários. Izaías Régis(PDT), apoiado por Armando Monteiro, deu a vitória a oposição naquela cidade, sagrando-se num dos principais prefeitos rebeldes, assim como Raquel Lyra, em Caruaru. Com a derrota infringida ao governo, ambos tornaram-se duas grandes lideranças políticas regionais, ainda hoje não cooptadas, permanecendo no campo oposicionista, articulando-se para os arranjos políticos em torno das eleições estaduais de 2022. 

E, por falar nesses arranjos políticos, sou informado que o nome de Izaías Régis está sendo lembrado na bolsa de apostas para compor uma possível chapa majoritária da oposição na condição de vice, o que poderia agregar a força do voto do agreste, neste caso, com um cabeça de chapa de perfil urbano. É curiosa essa movimentação, pois ela indica uma composição e uma estratégia política que tem como pressuposto integrar votos urbanos e rurais, envolvendo as três principais famílias que disputam a indicação das forças de oposição, os Ferreira, de Jaboatão, os Lyra, de Caruaru, e os Coelho, de Petrolina. Se está havendo um movimento urbano para o interior, neste momento, é de se esperar que Raquel Lyra(PSDB-PE) ou Miguel Coelho(MDB-PE) estejam se preparando para aportar no Recife, de olho no eleitorado urbano.