pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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domingo, 24 de janeiro de 2021

A costura das coisas esquecidas: "Carta a Felini", de Valência Xavier



Quando O mez da grippe (Arte & Letra) foi publicado em meados de julho último, houve quem dissesse que a reedição do romance, original de 1998, era impulsionado pela pandemia de covid-19, que despontou com força no país em março. Apesar do editor Thiago Tizzot afirmar em entrevistas se tratar de uma “coincidência mesmo”, o fato é que a primeira edição depois de sua reimpressão em 2002 possivelmente será lembrada como aquela publicada num dos piores anos do resto de nossas vidas. Mesmo em cenário tão ruim, não me parece exagerado pensar a reedição como uma espécie de celebração de um dos mais instigantes autores contemporâneos brasileiros, Valêncio Xavier (1933–2008). É também um chamado para recolocar seu nome em jogo, dobrando o interesse pelos seus livros. A verdade é que ele não foi lido até hoje nem perto do que a sua obra merece. E aqui a palavra “obra”, aliás, merece ser entendida como expansiva, não apenas porque as teorias pós-estruturalistas assim sugerem, mas porque o autor em questão foi tudo, menos um escritor tradicional: utilizou um arsenal composto por literatura, fotografia, publicidade e cinema entre outros materiais. E é aqui que começa a minha proposição. Há pouco mais de 40 anos era lançado um dos trabalhos mais estranhos e originais de Valêncio Xavier, o filme Carta a Fellini: Caro signore Fellini (1979) feito por encomenda do então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner. Trata-se de uma espécie de vídeo promocional da capital do Paraná, endereçado a ninguém menos que o próprio cineasta italiano Federico Fellini, por razões que mais à frente serão abordadas. E aqui fico na dúvida se sugiro ao leitor que suspenda essa leitura e já veja com os próprios olhos do que eu quero falar (o filme está disponível no Youtube) ou aceite ser atravessado pela leitura que faço do curta-metragem.

Com sua literatura sempre caracterizada pela montagem, fragmentação e bricolagem e associada a temas como violência, morte e suspense, Valêncio Xavier, esse “artista-etc” nos termos do artista e crítico Ricardo Basbaum, também trafegou por outros gêneros sem contudo demonstrar preocupação em diferenciar procedimentos, como se de alguma maneira as manobras utilizadas fossem as mesmas e suas plasticidades só fossem notadas devido às mudanças dos aportes de produção escolhidos (cinema, fotografia, jornalismo, publicidade) — o que já acontece à revelia de qualquer produtor.

Além da efeméride refrescada mais de um ano depois, penso que não é forçado pegar carona também nos burburinhos iniciais em torno das comemorações dos cem anos do nosso Modernismo. Explico: parte da crítica não descarta que tenhamos ficado “presos” a certa ideia de Modernismo como se tudo o que veio depois, inclusive da geração de 1945, tivesse de ser devedor do movimento. Atados ou não a essa pecha não superada, e que deve sim ser analisada nos próximos anos com afinco, não é rara a afirmação de que autores contemporâneos (não poucos) herdaram um temperamento modernista. A propósito disso, o cineasta e crítico de cinema Eduardo Escorel, durante o seminário Releituras do Modernismo: O legado de 22 na cultura brasileira (em outubro de 2020), classificou Valêncio Xavier, “sem qualquer dúvida, como um modernista”. Escorel e Xavier foram amigos por longa data.

A partir das questões até aqui relatadas, a retomada do nome de Valêncio Xavier a partir da reedição de O mez da grippe, e das reflexões sobre o deslizamento do Modernismo para autores contemporâneos e, talvez mais que isso, sobre nossa própria modernidade, analiso Carta a Fellini como um empreendimento de profanação do país em plena virada dos anos 1970 para 1980. Digo isso considerando o olhar do presente também, porque, ao que parece, em 2021 não teríamos a menor chance de que um filme como aquele fosse usado como cartão de visitas ou filme-carta para conhecer Curitiba. Afinal, o que a película mostra é uma cidade muito distante da “República de Curitiba” que ocupa mídia e imaginário nos últimos anos, notadamente a partir da Operação Lava Jato. Ao mesmo tempo, os problemas que aparecem há 40 anos, e que tinham destaque na órbita gravitacional do Modernismo de partida — a questão do nacional, do que é o Brasil, o subdesenvolvimento — e depois na geração dos anos 1980, aparecem agora de modo estranho (um nacional desfigurado, um retorno ao subdesenvolvimento em outra escala, estampado na cara das pessoas que circulam pelo filme).

Na contramão do que seria um filme institucional, Carta a Fellini problematiza o país a partir de Curitiba, focalizando o diálogo entre o popular e o erudito, fazendo o trânsito entre o coletivo e o anônimo e dialogando, é claro, com o cinema de Federico Fellini, inspiração que arrebata paranaenses até hoje. Sem fazer uso de teorias de cinema, mas relendo a crítica à obra do autor e atenta às questões de representação, minha leitura caminha para propor o filme de Xavier não apenas como uma provocação estética, um filme de arte para outros usos, mas um exemplar de uma espécie de paródia da nossa não superação. O filme é um alerta do que temos ao alcance das mãos, mas que, enquanto projeto de nação, nos interessa esquecer: certos tipos sociais, algumas expressões da nossa cultura. É na matéria de descarte que o curta-metragem cresce e incomoda o espectador. É “a costura de coisas esquecidas”, expressão surrupiada de um texto do jornalista e editor Cassiano Elek Machado, a matéria de Valêncio Xavier neste filme, nos seus livros, e podemos dizer na sua obra como um todo.


ESTRANHO MODO DE SE VENDER UM PRODUTO

Parece roteiro de cinema, mas não é. O ano: 1979. No país, o presidente é João Batista Figueiredo, que havia tomado posse em 15 de março daquele ano. Em Curitiba, começava o segundo dos três mandatos de Jaime Lerner na prefeitura. Arquiteto e urbanista de formação, Lerner é um dos mais controversos políticos da história do Paraná. A encomenda: um filme para homenagear Nino Rota (1911–1979), criador das trilhas sonoras de Federico Fellini e que teria seu nome estampado em uma praça da capital do Paraná. A expectativa: o filme seria produzido e o próprio Fellini viria conhecer a cidade que homenageia o compositor de sua equipe.

Este seria apenas um dos curtas-metragens de Valêncio Xavier, sujeito com experiência profissional em diferentes mídias. Depois viriam O corvo (1983) e Os 11 de Curitiba: Todos nós (1995). Quem conhece o preâmbulo da história antes de ver o filme, talvez pense como resultado algo que já estamos acostumados a assistir em vídeos transmitidos em voos nacionais ou até mesmo em propagandas de Governo de Estado. Isso se você não conhecer a obra de Valêncio, é claro. O curta “totalmente filmado na mais bela cidade do mundo” tem em uma de suas primeiras cenas uma turista italiana com cartões portais nas mãos dando uma entrevista sobre a cidade, enquanto um homem a assedia diante da câmera. Enquanto Valêncio focaliza os gestos manuais da mulher, o homem ao pé do ouvido diz: “Vamos fazer um programinha. Não se faz de difícil”. A cena constrange e é até capaz de deixar o espectador nervoso diante de cada interrupção do assediador.

Na sequência, um cartaz em italiano dá a próxima indicação: “Elenco milionário”, seguido de tipos populares, velhos, crianças, mulheres e homens no centro da cidade. São pouco mais de três dos 11 minutos de Carta a Fellini e já sabemos que não é a beleza de Curitiba que será publicizada. Mesmo assistido hoje, com a distância temporal azeitada pelas tecnologias que surgiram nas últimas décadas, o que se escancara, o que ganha o primeiro plano, é a rasura da verdade, a confusão entre fato e ficção, tal e qual aparece nos livros do escritor. A mesma fantasmagoria construída nos interstícios, que percorre livros como Maciste no Inferno (1983), O minotauro (1985), O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Nachi-Ochi (1986) e Meu 7º dia (1998), marca presença.

Se as ideias de Walter Benjamin, em algumas de suas teses dos 1930, tratavam da reprodução enquanto superação da tradição, mirando o paralelismo entre as experiências transmissíveis e o nascimento de um novo tipo de miséria advindo da técnica, o filme-carta de Valêncio Xavier, é um possível exemplo concreto da justaposição de elementos da cultura de diferentes fontes (o forró, o teatro de bonecos, a umbanda, o próprio cinema), todos com diferentes modos de tratar a experiência enquanto matéria-prima.

 

Em se tratando da forma, Carta a Fellini também poderia ser um dos livros-álbuns do escritor, seja pelo procedimento adotado, seja pelo modo como o autor-cineasta trabalha a linguagem. No ensaio Ficção 80, a crítica Flora Süssekind situa Valêncio Xavier entre os exemplos pós-literatura parajornalística praticada durante a ditadura militar. Lembramos que 1978 é o ano em que os censores deixam as redações dos jornais e, a partir daí, a imitação da reportagem sai de cena, cedendo lugar ao romance policial. Mas o que importa na reflexão de Süssekind e que ainda funciona para ler e assistir Valêncio Xavier nos dias de hoje são algumas características que marcaram uma tomada de posição pela autoria dos anos 1980. Parte dela está pactuada com a teatralização da linguagem do espetáculo e tem a “superexposição da vitrine” como mola propulsora. Isso significa dizer que em vez de ficções que focalizam a prosa do eu e o memorialismo, o que teremos em vista é o anonimato na vitrine. Um anonimato em primeiro plano — mas, como adverte a crítica, com forte interferência da mídia. Valêncio Xavier exemplifica como ninguém esse comportamento ao fazer do curta-metragem “promocional” um anúncio envidraçado de tipos populares, personagens anônimas, elementos da cultura do Paraná: a araucária, a Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe e o teatro de bonecos, por exemplo.

Força e tom do filme são dados pelos tipos populares, os anônimos que põem em prática ou transformam a película em um modelo do que Walter Benjamin fala em Experiência e pobreza (1933). Neste ensaio, o filósofo berlinense reflete sobre uma nova modalidade de pobreza, advinda da técnica, que põe abaixo toda experiência. O valor é obscurecido pela troca comercial, pela transformação em mercadoria. Ver Carta a Fellini por essa ótica nos faz pensar se ao expor elementos da cultura de Curitiba à venda, de modo quase publicitário ainda que para um personagem ilustre, não se acabaria por mostrar exatamente as vísceras do atraso e da pobreza que imperam no país. Mas aqui paira outra “noção de”, outro entendimento da experiência. Quanto menos experiência, mais pobreza. Valêncio faz a manobra ao contrário, coloca um compositor desconhecido para cantar uma canção autoral que homenageia a cidade, uma mulher anônima para conversar com a santa pagã da cidade, sujeitos sem nome mas que detêm e transferem em alguma medida um legado da história da região. Ao longo do filme, semelhante à ideia de almanaque valenciano já proposta pela crítica literária, também é possível percebermos a lógica de coleção, de temas organizadamente expostos — sempre, reitero, tendo figuras anônimas dando projeção às cenas. Elas recebem muito mais visibilidade que os pontos turísticos, mesmo aqueles que ainda se levantariam, como a Pedreira Paulo Leminski, local de espetáculos ao ar livre e que quase ganhou o nome do compositor das trilhas sonoras de Fellini em vez do poeta nascido na cidade (sim, o nome de Nino Rota também foi cotado para o lugar). Leminski faleceu em 1989, um ano antes da inauguração do equipamento cultural. Nesse último exemplo, ainda ressoa um dos questionamentos de Benjamin: “Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?”


CARTA ABERTA DE PROFANAÇÕES

De um lado, um filme; de outro, um desejo. Manuseando rostos e sombras, marcas e anonimatos, como destaca Flora Süssekind, Valêncio Xavier mina a prosa do eu. Cabe ao registro cinematográfico dar conta do que é sociável, enquanto algo de perverso e não verbalizado é sugerido para o espectador/leitor na construção da obra. A duplicidade apontada pela pesquisadora fala ainda da dicotomia entre ver/ler de modo privado e a difusão em larga escala. A prosa de Valêncio (e não apenas dele, porque podemos pensar em Sebastião Nunes ou Glauco Mattoso) tem por interlocução a mídia, a linguagem do espetáculo. Em Rremenbranças da menina de rua morta nua e outros livros (2006), Valêncio recorre a recortes de jornal, à transcrição de programas sensacionalistas, além de fotos de origens diversas e nem sempre localizadas pelo autor e sua editora. Minha mãe morrendo e o menino mentido (2001) traz ainda mais apropriações do autor: anúncio publicitário, história em quadrinhos, almanaque do Tico-Tico, desenhos de Carlos Zéfiro, fotos de filmes. E por fim, O mez da grippe, um álbum composto de recortes de jornais, manchetes e obituários, documentos, mais uma vez publicidade e desenhos de época. A respeito deste livro, o cineasta Carlos Adriano, em resenha para a Folha de S.Paulo, diz se tratar de um livro “não propriamente escrito”, mas de um “livro composto”, como se Valêncio fosse um “reprocessador de dados do mundo contemporâneo”. Do mesmo modo que a montagem cinematográfica transita pelos livros, a colagem plástica pode ser experenciada no filme-convite a Fellini.

No Satyricon (1969) de Fellini, uma explosão do sonho se materializa na narrativa fragmentada, não só porque o texto original de Petrônio, poeta da corte de Nero, foi encontrado aos pedaços, mas porque o cineasta assim o quis realizar, como uma espécie de mundo antigo nos sonhos de Fellini. Satyricon é, dos filmes de Fellini, um dos que melhor ajuda a entender a empreitada de Valêncio Xavier no seu filme-carta ao cineasta. Não se trata de compará-lo, mas de perceber que algumas referências utilizadas e associadas a Curitiba parecem ressoar temas de predileção de Fellini, pelo menos neste filme. Assim, o teatro, o jogo cênico e até o teatro de bonecos utilizados por Xavier ganham mais sentido quando sabemos a quem o filme é dirigido. É como se ele dissesse a seu interlocutor que, entre tantas coisas a serem vistas neste pedaço do Brasil, algumas são do gosto de Fellini ou podem com ele dialogar.

Em tese dedicada ao cinema do autor (O cinema de Valêncio Xavier, de 2019), Regina Celia da Cruz reforça os gestos de Valêncio que evidenciam seu interesse pelo cinema, como a criação da Cinemateca e do Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR). Estas ações o ajudaram a produzir seus próprios filmes, muitos com críticas positivas e premiações. Não bastasse Carta a Fellini ganhar o prêmio, em 1980, de Melhor Filme de Ficção na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem, O pão negro: Um episódio da Colônia Cecília recebeu o Prêmio Paraná de Roteiro para Vídeo em 1993 e prêmio do Festival de Cinema e Vídeo do Maranhão em 1994, e Os 11 de Curitiba: Todos nós levou o Troféu Jangada da Organização Católica Internacional de Cinema do Brasil em 1995. Valêncio dirigiu e ajudou outros cineastas como Silvio Tendler, em Jango (1984), e Sylvio Back, em Revolução de 30 (1980), além da novela O mistério da prostituta japonesa, que foi filmada em 2005 por Beto Carminatti e Pedro Merege.

 


Valencio Xavier Carta a Fellini.2 Cinemateca de Curitiba jan.21

 

Carta a Fellini causa estranhamento desde a primeira cena. Se à primeira vista as sequências do filme parecem peças soltas, uma análise mais adensada mostra que tudo faz sentido na estratégia do filme. A história é contada a partir de uma menina caucasiana (imagem acima) que escreve uma carta a Fellini à luz de uma pequena vela. Essa mesma menina atravessa várias imagens do filme, fazendo as vezes de fio condutor da narrativa. As imagens mais absurdas — a começar pela escolha por colocar entre cenas, no lugar de letreiros, cartazes escritos à mão — reforçam a sequência narrativa conforme o filme avança. São 12 cartazes ao todo, escritos em italiano e traduzidos pelo narrador, dando a ver uma estrutura de roteiro do filme-carta. Na verdade, os cartazes contam às avessas o que o espectador verá. Na sequência do cartaz “Ottocentomila figuranti” (locução em off diz: “elenco milionário”), aparecem olhares curiosos e até mesmo a direção de cena, realizada pelo próprio cineasta. Quando o cartaz diz “Scenari Grandiosi” (locução: “cenários grandiosos”), o que se vê é um rapaz fazendo uma performance na rua, imitando pássaros e outros bichos. “Um film sociale” (locução: “um filme social”) mostra a periferia da cidade com crianças brincando com uma bola — sendo essa bola um crânio. Para além dessa chave de interpretação, há o aspecto concreto da manufatura de Xavier: a montagem como uma de suas técnicas de predileção. No filme, cartazes e cenas são ajustadas na hora exata.

No documentário As muitas vidas de Valêncio Xavier (2011), de Beto Carminatti, o cineasta Fernando Severo lembra o impacto que foi a produção de Carta a Fellini numa época em que a capital do Paraná era muito “careta”, “fechada”. Na visão de Severo, Xavier subverteu a encomenda oficial que era vender Curitiba como uma cidade maravilhosa, modelo, um pedaço da Europa no Brasil. A dúvida que resta é como o filme, mesmo com este resultado estrategicamente montado por Valêncio, conseguiu aprovação, porque, como vimos, não só recebeu críticas positivas como foi premiado no ano seguinte a seu lançamento. Um filme nascido para ser filme de arte, um merchandising de arte, se isso for possível.

O filósofo italiano Giorgio Agamben, no ensaio Elogio da profanação, explica que profanação diz respeito às coisas pertencentes aos homens, restituídas de livre uso por estes, ao contrário da consagração, relacionada às coisas reservadas ao sagrado. Agamben lembra que os juristas romanos conheciam o sentido de “profanar”, que as posses dos deuses deveriam ser sagradas e de uso exclusivo, portanto não poderiam ser usadas sem consentimento ou serem vendidas. Carta a Fellini pode ser entendido também como um relicário de profanações. A cidade “sagrada” é corrompida pelas múltiplas manifestações culturais, pelos tipos sociais que não figuram nos cartões postais. Aliás, os cartões-postais da cidade, quando enquadrados, dividem espaço com fotos de mulheres nuas. Não à toa Valêncio intercala essas imagens com planos abertos e fechados em pontos de visitação da cidade bastante conhecidos, como a Rua XV de Novembro. A menina que aparece em uma das primeiras cenas retorna pulando corda e atravessando a rua em direção à Cinemateca do Museu Guido Viaro (hoje Cinemateca de Curitiba). A seguir, os planos abertos mostram a Feira de Artesanato (conhecida como Feirinha Hippie) e um grupo de chorinho que se apresentava aos domingos no Largo da Ordem. É interessante notar que a rasura nos locais da cidade se dá por uma apropriação livre desses espaços, à maneira do que fala Agamben em seu Elogio.


CURITIBA OU BRASIL?

Valêncio Xavier era aficionado por cinema e esteve envolvido com ele o quanto pode. E mais, era um gosto que tinha como premissa popularizar o assunto, ampliar o acesso e preservar a memória. Uma pequena mostra disso pode ser vista no documentário lançado por ele em 1991 sobre o cinema produzido no Paraná de 1907 a 1930. Nele, é possível ver cenas raras e únicas dos filmes de época. Uma pequena aula desde a criação do cinema, sua chegada no Brasil e as primeiras realizações audiovisuais no Paraná. A produção é da Cinemateca do Museu Guido Viaro e da Fundação Cultural de Curitiba. Ou seja, além de realizador, o autor demonstra interesse pela troca de saberes com outros cineastas, bem como pela pesquisa e o debate sobre cinema na região.

Com poucos recursos e aproveitando o trabalho de participantes das aulas práticas de realização cinematográfica no formato 16 milímetros da Cinemateca, Valêncio, ao produzir Carta a Fellini, não se furtou a imprimir sua assinatura, tal como faz em cada um dos livros que publicou. Recorta e cola, fazendo da montagem sua estratégica principal de composição narrativa. Não custa reiterar que nessa época, ainda sob a ditadura militar, o padrão era a construção de uma imagem da população brasileira sem problematizações, pasteurizada. O artista faz o exato oposto, no entanto, sem ridicularizar as personagens expostas, mas com empatia e certo afeto por elas, porque é dessa exclusão, do precário, que se tem a parte pulsante da cidade, o que lhe é mais valioso.

Na abertura do livro Ficção brasileira contemporânea (2009), Karl Erik Schøllhammer se pergunta se ainda haveria traços que configurariam uma identidade nacional na literatura contemporânea. Tal pergunta faz uma espécie de fio condutor dos modernistas até a literatura que passa a ser produzida a partir dos anos de 1960, desdobrando-se até hoje. Tomo o questionamento de Schøllhammer por empréstimo, para pensar a obra ficcional de Valêncio Xavier, a literária e fílmica, por entender que não há cisão entre elas. Nela, o nacional é focalizado a partir de Curitiba. Curitiba serve de lente de aumento, mas nada mais é que um espelho do que somos feitos. Assim, a literatura explica o cinema de Valêncio e vice-versa. Carta, esse gênero que se escreve e já se escreveu de próprio punho, a Fellini alcança um resultado inusitado para o espectador porque se vale de uma narrativa fílmica ficcional, coisa que um documentário objetivo provavelmente não alcançaria com tanta eficiência. Como diz o penúltimo cartaz do curta-metragem, “Venite a Curitiba”, ou nas palavras do locutor: “Conheça Curitiba. Tchau”.



* Agradecemos à equipe da Cinemateca de Curitiba pelas imagens de Carta a Fellini que ilustram este ensaio.

(Ensaio publicado originalmente no site do Suplemento Pernambuco)

Estante: Fred Coelho, Laura Erber, Edith Södergran

 


Estante: Fred Coelho, Laura Erber, Edith Södergran
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O escritor, pesquisador e professor Frederico Coelho, que lança biografia de Jards Macalé pela Numa Editora (Foto: Divulgação)

 

Toda semana, uma
seleção de lançamentos
curados pela Cult

 

[Jards Macalé: eu só faço o que quero, Fred Coelho]

“O nome Jards Macalé deve nos remeter à melhor tradição do compositor popular: aquele que, ao invés das sombras, sempre esteve no palco cantando”. Neste ensaio biográfico, o escritor, pesquisador e professor Fred Coelho busca “ampliar uma historiografia que faz dessa obra riquíssima uma pálida presença”. O autor mostra a vida, a obra e o tempo de Macalé para além dos rótulos que sempre o acompanharam – maldito, marginal, anárquico, rebelde – com o desejo de que os leitores o vejam como um dos artistas fundamentais da canção brasileira.

Numa, 500 páginas, R$83 


[O artista improdutivo, Laura Erber] 

Nesta coletânea de treze ensaios escritos entre 2015 e 2020, a escritora e artista visual Laura Erber observa a relação entre arte e política a partir  de biografias de artistas como Tunga, Rosana Paulino e Anna Bella Geiger, e de discussões como monumentos e pixações no espaço urbano. O último ensaio, que dá nome à obra, discute o lugar do trabalho na sociedade, na arte e no mercado artístico contemporâneo ao passear por temas como o ócio, o produtivismo e a mercantilização do imaterial. Erber é autora também dos livros Os corpos e os dias (De Cultura), Ghérasim Luca ( EdUERJ) e Esquilos de Pavlov (Alfaguara).

Ãyiné, 180 páginas, R$89


[Racismo, Douglas Rodrigues Barros] 

Por que ainda há pessoas que creem não haver racismo no Brasil? O escritor e doutor em Ética e Filosofia política pela Unifesp Douglas Rodrigues Barros desmistifica lugares comuns sobre a questão racial no Brasil, como a ideia de que, por aqui, se tenha alcançado a miscigenação pacífica entre as raças.  “A repetição acrítica dessa noção oculta o processo radical de violência da miscigenação e do Estado policialesco no Brasil que dizima anualmente milhares de negros e indígenas”, escreve. Barros é também autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial  (Hedra).

Fibra, 130 páginas, R$55.


[Atenções esparsas, Edith Södergran]

Lançado originalmente em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, o livro reúne aforismos de Edith Södergran, uma das maiores poetas nórdicas e precursora do modernismo nessa literatura. Nos textos, a autora se depara tanto com o horror quanto com a possibilidade de um mundo novo. A edição brasileira traz ainda o que é considerado o primeiro manifesto modernista da literatura nórdica, escrito por Södergan e enviado para um jornal em formato de carta.

Usina, 86 páginas, R$40,00.  Tradução de Cecília Schuback.


[Menino de ouro, Claire Adam]

Na zona rural de Trinidad e Tobago, os gêmeos de 13 anos Paul e Peter vão todo dia à capital, Port of Spain, para estudar. Peter é o “gênio” da família, e Paul é visto como esquisito. Sob ameaças de que se não se comportasse seria enviado a um hospício, Paul um dia desaparece depois da escola – e a busca do pai para encontrá-lo o leva por um caminho de escolhas impossíveis. O romance de Adam, nascida em Trinidad e Tobago, entrou na lista da BBC como um dos cem romances mais influentes de 2019.

Todavia, 272 páginas, R$67. Tradução de André Czarnobai.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Entrevista do Diretor Ken Loach sobre capital e o futuro da sociedade (0...

Editorial: Não verás país nenhum ou o "dedo" do senador.


Algumas coisas simplesmente não dão certo ou não se resolvem no Brasil. A democracia não dá certo no país; as profundas desigualdades jamais serão superadas; uma reforma política substantiva constitui-se numa grande utopia; continuaremos com milhões de analfabetos; as terras concentradas em grandes latifúndios; as instituições continuarão refletindo os maus costumes trazidos de casa; as ameaças de golpe serão uma constante, mesmo nos poucos interregnos de respeito às regras do jogo, sob um ambiente político supostamente democrático.  Fizemos uma transição capenga para a democracia em 1988, mantendo entulhos autoritários na Carta Constitucional, assim como não conseguimos punir contumazes violadores dos direitos humanos. Confirma-se, neste caso, a tese do historiador Sérgio Buarque de Holanda, ao afirmar que a democracia sempre foi um grande mal-entendido entre nós, raciocínio estabelecido a partir dos vícios herdados pelo processo de colonização imposto ao país pelos portugueses.  

O sociólogo Gilberto Freyre levanta outras possibilidades para explicar tal inviabilidade, mas, a rigor, pelo menos neste aspecto, também concordaria com o desafeto paulista, que não resistiu ao seu licor de pitangas, oferecido no Solar de Apipucos, quando de uma visita ao Recife, corroborando com a assertiva de outro ilustre intérprete do Brasil, que afirmava que, aqui, tudo se resolve com um tapinha nas costas. Ou seja, rigorosamente, nunca se resolve. Empurra-se com a barriga. Numa "década" - como diria aquele jornal paulista, que não gostaria de dar os créditos aos governos da Coalizão Petista - tiramos 35 milhões de brasilerios da extrema pobreza. Num país minimamente sério, esses brasileiros jamais deveriam voltar a essa condição. Eles não só voltaram, mas as estatísticas de miseráveis estão se espandindo, elevando os números acima. 

Aquele "dedão' do senador, exibido para todo o país, durante a transmissão de uma entrevista ao vivo, em que o repórter havia perguntado sobre um colega internado em Sâo Paulo, com Covid-19, é uma síntese do comportamento de nossa classe política, com honrosas exceções. Aquele dedo diz muito mais do que uma eventual indisposição do senador com o colega internado. É mais ou menos assim que eles se comportam depois de eleitos, maximizando seus interesses pessoais e pouco se lixando para as demandas dos seus eleitores. Agora, por ocasião da campanha de vacinação em massa, tivemos uma nova versão da Lei de Gerson ou da velha carteirada: "Você sabe com quem está falando?" A casta de privilegiados querem furar a fila da vacinação, que, neste primeiro momento, está sendo facultada apenas aos  profissionais da área de saúde que trabalham na linha de frente de combate a pandemia do coronavírus. 

Centenas de fura-filas já foram denunciados por todo o país, alguns exagerando no uso do expediente do jeitinho brasileiro, destravando a burocracia com nomeações macabriadas, feita às pressas, apenas para assegurar seus privilégios de classe. Outro dia comentei por aqui que esta pandemia constituiu-se numa excelente oportunidade para políticos  e agentes públicos inescrupulosos aproveitarem o momento para desviarem recursos  destinados ao combate do vírus. Pessoas sem espírito público e desprovidas de qualquer sentimento humanitário. Nunca li nenhuma estimativa sobre o montante de recursos desviados, mas a soma deve ser absurdamente alta. Apenas um governador de Estado encontra-se afastado do cargo e com seus direitos políticos ameaçados em razão de ter participado dessas maracutais macabras, mancumunados com agentes privados, superfaturando insumos destinados ao tratamento dos doentes do coronavírus.  


Charge! Duke via O Tempo

 


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Tijolaço: Você sabe qual é o estoque de oxigênio da cidade do Recife?



Muito bem-vinda a iniciativa do TCE no sentido de solicitar à Prefeitura da Cidade do Recife informações sobre o estoque de oxigênio disponível, depois dos incidentes verificados em Manaus. Mesmo diante das providências emergenciais tomadas - que contou com o apoio fundamental de países como a Venezuela - o quadro ainda é muito complicado, com filas enormes de pessoas à procura de abstecer cilindros de oxigênio, algumas delas, possivelmente, como medida preventiva por terem entrado em pânico. Em casos de internamento por Covid-19, além da papeleta, os parentes levam um cilindro para atender às necessidades dos seus familiares. O pior, no caso de Manaus, é que as autoridades públicas sabiam das dificuldades com os estoques e não tomaram providências para evitar aqueles fatos desumanos, de pessoas morrendo pela falta de oxigênio. Situação mais grave é saber que os fatos que estão ocorrendo em Manaus possam se estender para outras capitais da região Norte, principalmente em razão do agravamento dos casos registrados de contágio pelo coronavírus.

Salvo melhor juízo, o TCE também estaria exigindo apuração e explicações das autoridades públicas no que concerne ao vandalismo e roubo de peças de autoria do artista plástico Francisco Brennand, expostas no Parque das Esculturas, no Recife antigo. Bom que seja assim, porque, a rigor, a única providência pensada até o momento é torrar mais seis milhões de reais para recuperar o Parque, depois das portas arrombadas, algo que poderia ter sido evitado pelo poder público. Os órgaos de fiscalização e controle exercem um papel fundamental numa democracia, ao acompanhar, com o rigor necessário, a aplicação correta dos recursos públicos. Infelizmente, como estamos no Brasil, o componente político acaba atrapalhando bastante esse trabalho, uma vez que aquela independência desejável raramente é alcançada. Trata-se de um problema cultural, de baixa institucionalização desses órgãos. Aqui faço uma análise genérica, não me referindo a este ou aquele órgão especificamente.

Muito importante que a população recifense seja informada sobre os estoques de oxigênio disponíveis e, mais ainda, sobre algum plano de contingenciamento, em caso de agravamento dos problemas relativos ao coronavírus. Como informamos no editorial do último domingo, especialistas como o médico Miguel Nicolelis já recomenda um lockdown para a região metropolitana do Recife. Hoje,  Governo do Estado resolveu apertar o torniquete, proibindo eventos públicos e privados. Esta medida soma-se às restrições impostas ao uso de espaços públicos como as praias, onde ficam vetados o som e as aglomerações. Pensa-se em ampliar essas restrições aos parques públicos. Convém sempre lembrar que um lockdown chegou a ser decretado em Manaus, mas o governador voltou atrás diante das pressões dos insanos, através das redes sociais. Deu no que deu. 

Editorial:"É preciso derrotar as mentiras e defender a verdade".



Nos últimos anos, alguns fatos curiosos ocorreram com a experiência democrática americana. Até então, apenas na ficção produzida pela mente fértil dos escritores, seria possível conceber aquele aparato de segurança gigantesco montado para garantir que a posse de um presidente eleito ocorresse sem incidentes. Completa o enredo a invasão dos insanos ao Capitólio - com o propósito explícito de golpearem as instituições - assim como a descortesia de Donald Trump em não cumprimentar o seu sucessor, um ritual nunca quebrado antes por um ex-presidente. Mas isso é apenas a ponta do iceberg das fragilidades democráticas - ainda no campo de suas formalidades - talvez como reflexo de problemas mais profundos, produzidos nos estertores, de matriz autoritária, que estão minando aquela experiência democrática em suas bases. O fato concreto - e igualmente preocupante - é que o conjunto de forças que se apossaram do poder naquele país tinham planos de não abondoná-lo e implantar um projeto de sociedade, cujos preceitos democráticos seriam absolutamente irrelevantes, uma vez que o componente econônico seria determinante. 

Um projeto de extrema-direita, de racionalidade ultraliberal, condicionados aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos, o que implica, naturalmente, em reflexos profundos no continente latino-americano.É preciso ficar atento sobre até onde vai a margem de manobra do presidente Joe Biden, num cenário de forças ultraliberais centrífugas, disposta a transpor todos os obstáculos para impor sua "racionalidade". Algumas diretrizes da política exterior norte-americana, por exemplo, são ditadas por um mainstream com forte influência sobre o presidente. Alguém observou que, neste sentido, Joe Biden assumiria posições até mesmo mais radicais do que Donald Trump. Não vejo como possamos comemorar a derrota desse projeto, mesmo com a saída de cena de um dos seus mais ilustres representantes. Melhor ainda seria que os dois processos de impeachment em andamento fossem a aprovados, impedindo o ressurgimento do monstro da lagoa, para usarmos uma expressão do compositor Chico Buarque de Holanda, quando fazia referência às possiveis manobras no sentido de fazer ressurgir entre nós a ditatura militar. Afasta de nós esse cálice, Chico. 

Como recomenda o compositor naquela música, já não dá mais para ficar apenas atento na arquibancada, mas descer à arenas de luta, às ruas, como indicam alguns movimentos, inclusive aqui no Brasil, motivados por aquelas cenas desumanas e anticivilizatórias de pessoas morrendo por falta de oxigênio, quando se expõe o descaso do poder público - não faço referência à esfera específica - que tinha conhecimento da iminente tragédia que se aproximava, a partir, inclusive, dos relatórios produzidos pela força tarefa do SUS. Convém deixar registrado aqui que tal tragédia está longe de ser superada, a julgar pelas cenas de filas enormes de pessoas com o objetivo de comprar ou abastecer seus cilindros de oxigênio. A população entrou em pânico e eu acredito que muita gente está à procura do equipamento talvez como medida preventiva. Isso apenas agrava o problema. Notícia ainda pior é a possibilidade de o drama de Manaus se repetir em outras capitais da região Norte do país, com o aumento sensível de casos de contaminados e doentes. 

Em todo caso - e para não parecer pessimista aos nossos leitores, logo no inicio desta manhã de Quinta-Feira - Pode-se dizer que Joe Biden é um bom camarada, sobretudo em relação às suas afinidades com as regras do jogo da democracia procedimental. Como acabara de enfrentar um jogo sujo, baseado na disseminação "profissional" de mentiras, a sua vitória é a vitória também daqueles que buscam a vardade dos fatos. Esta estratégia abjeta - concebida incluisve por assessores que receberam o perdão presidencial - tem produzido muitos danos, como a condenação de inocentes, linchamentos morais e a formaçao de "opinião pública" sem qualquer lastro de amparo nos fatos. Como disse o novo presidente, "É preciso derrotar as mentiras e defender a verdade". Fake News é uma prática fascista, torpe, desprezível, onde não há argumentos convincentes, transparência, ou autoria autêntica. Seus autores se escondem no anonimato. Não há adversários, mas inimigos a serem destruídos a todo custo, simplesmente porque advogam teses opostas. Destila-se o ódio, conduz-se rebanhos ensandecidos. É urgente que essa onda de ultradireita seja contida, sob pena de continuarmos nesse retrocesso civilizatório. 


Sobre a vivência concreta do sexual


Sobre a vivência concreta do sexual
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'Heart face', Joy Hester, 1949, Austrália (Foto: Reprodução)

 

Nesta quarta (13), Eduardo Leal Cunha publicou uma réplica a artigo que publiquei nesta revista e que tinha por título: “Não há heterossexuais”. Inicialmente, gostaria de agradecê-lo por sistematizar, em seu artigo, críticas pertinentes ao que escrevi. Creio ser este um debate muitas vezes vítima de caricaturas ruins de ambos os lados e a oportunidade de tratá-lo de forma clara só pode ser saudado.

Começaria dizendo que Eduardo tem razão. Há homossexuais. Se não escolhi esse título para meu artigo, se em momento algum tentei derivar como consequência da inexistência de heterossexuais a pretensa inexistência similar de homossexuais, é por uma razão deveras simples: não acredito nessa equivalência. Não acho politicamente correto operar com tal simetria. Acho importante deixar claro que aqueles que, como eu, fazem há anos a crítica do inflacionamento da identidade como operador político – a ponto de acreditar ser importante denunciar o risco de certo monolinguismo da gramática das lutas sociais que tal inflacionamento tende a produzir -, não desconsideram o recurso estratégico à identidade.

Seria fácil dizer que críticos do inflacionamento do uso político da identidade ignoram que homossexuais, negros e mulheres “são discriminados desde cedo na escola, no trabalho e nas sociedades de formação em psicanálise, e não me refiro apenas à tradicional e sabidamente conservadora Associação Psicanalítica Internacional”, como menciona Eduardo. Seria fácil dizer que eles falam de entidades abstratas e são incapazes de levar em conta a concretude da violência social. Seria fácil, mas seria simplesmente incorreto e injusto. Creio ter expressado várias vezes no decorrer desses anos que considero absolutamente legítimo e necessário o uso provisório do conceito de identidade como marcador de violência social, exatamente por levar em conta fenômenos como esses que Eduardo descreve.

A história conhece várias situações concretas nas quais termos construídos anteriormente por marcadores de exclusão e opressão (homossexual, queer, judeu) são recuperados no interior das lutas sociais a fim de dar visibilidade a processos de violência muito claramente direcionados e repetidos de forma insistente. Essa é uma estratégia que já demonstrou sua eficácia, não se trata de questioná-la, e simplesmente nunca a questionei em momento algum. A meu ver, a questão é outra. Na verdade, há de se perguntar se essa é a única estratégia política que temos à nossa disposição. O que advogo é que ela deve operar acoplada a outras, e que há riscos sérios que devem ser levados em conta se acabarmos por operar apenas com ela.

Exatamente por colocar o problema nesse nível, não posso em absoluto concordar que “o raciocínio de Vladimir em seu artigo é muito próximo daquele que já fez tantos psicanalistas afirmarem, repetidas vezes, que não há brancos nem pretos, mas sim sujeitos”, até porque acho que quem disse algo dessa natureza deveria parar de clinicar. As formas de sofrimento psíquico estão amplamente enraizadas nas dinâmicas de sofrimento social, e o racismo é uma forma de sofrimento social estruturante. Não ser capaz de escutar esta imbricação no interior da clínica é simplesmente ignorância a respeito do sujeito que um analista tem à sua frente.

Acho que a colocação de Eduardo expressa o tipo de equívoco que resulta em acreditar que as múltiplas formas de opressão e sujeição que compõem o tecido social devam ser tratadas a partir das mesmas estratégias políticas, como se estivéssemos a falar de categorias dispostas no mesmo nível. No entanto, classe, raça e sexualidade (só para ficar nessas três) não tecem relações de equivalência sequer do ponto de vista de suas dinâmicas de opressão. Há de se saber operar com suas singularidades. O que é da ordem da sexualidade, por exemplo, se constitui a partir de uma disjunção profunda entre práticas e normas. Aquilo que Eduardo chama de “vivência concreta do sexual” (fantasias, circuitos de afetos, dinâmicas de gozo) não se confunde, em sujeito algum, com as normatividades sociais constituídas. Cada sujeito tratará tal disjunção à sua maneira, mas ela não cessará de assombrá-lo.

Essa disjunção, que pode ser uma arma política importante (e talvez uma questão política central seja exatamente como fazer dela uma força), não é o elemento estruturante, por exemplo, das questões de raça, ao menos não dessa forma. Por isso, do ponto de vista de sua performatividade, ou seja, do ponto de vista daquilo que eles são capazes de produzir, enunciados como “não sou heterossexual”, enunciado por alguém socialmente colocado nessa categoria, e “não sou branco”, enunciado por alguém que a sociedade reconhece como tal, produzem efeitos radicalmente contrários. Não é à toa que o segundo faz parte das estratégias clássicas de sociedades que tentam mascarar seu racismo através do discurso torpe da miscigenação. Já o primeiro merece uma discussão de outra natureza porque estamos diante de um fenômeno de outra natureza. Há de saber melhor distinguir para melhor operar.

Eduardo não pensa da mesma forma, o que o leva a dizer: “Assim, não dá para reconhecer a força da heteronormatividade e ao mesmo tempo supor que heterossexuais não existem. Essas duas existências se determinam e se produzem mutuamente e um dos seus efeitos está no fato de que se desejamos ‘objetos que circulam ou se fixam entre os corpos, em corpos’, esses corpos são situados hierarquicamente em relação à heteronorma, e assim acabam por definir limites para os sujeitos que os habitam”.

Eu diria que, ao contrário, essas duas existências não se determinam e não se produzem mutuamente. Para isso seria necessário que a vivência concreta do sexual fosse ou especularmente constituída pela norma ou que operasse mutuamente como um fator com o qual a norma deveria negociar, flexibilizando-a, retirando seu caráter coercitivo e brutal. Mas nenhum dos dois fenômenos ocorre. A vivência corrói continuamente a norma porque a vivência não é apenas fruto do sistema de deliberações e decisões de indivíduos. Ela é uma dinâmica desamparadora do inconsciente e de seus fluxos libidinais. Por isso, a relação entre vivência e norma é uma relação de disparidade, e aqueles engajados em processo de emancipação social devem usar tal disparidade a seu favor.

 

 

O que não implica, de forma
alguma, ignorar que há uma
hierarquia de corpos em
nossa sociedade. Hierarquia
apresentada como “prêmio”
àqueles que conseguem melhor
massacrar a multiplicidade de
suas vivências do sexual.

 

 

Creio que a diferença com a posição de Eduardo vem, em larga medida, de colocações como: “Para afirmar que heterossexuais não existem, nem tampouco a relação sexual, talvez seja necessário colocar também em questão o binarismo de gênero, o que não poderia ser feito sem interrogar minimamente a diferença sexual e seu estatuto de invariante antropológico”. Se há uma potencialidade política interessante na psicanálise, ela está exatamente no fato de lembrar que a diferença sexual não é da ordem de uma realidade antropológica. Pois tal diferença, tal como ela opera na vida concreta do desejo, não é uma diferença opositiva entre gêneros.

A função lacaniana de afirmar que “a mulher não existe” está em dizer que a única ordem que produz existência social é aquela que organiza todas as formas de gozo a partir de um regime fálico, seja ele presente em “homens” ou “mulheres”. Por isso, esse gozo deve ser derrubado com os lugares que ele sustenta. Logo, a verdadeira diferença não está aí. A diferença é interna a todo sujeito, e se encontra entre as condições de existência e aquilo que se afirma como inexistente. Faz parte da nossa força política fazer do inexistente algo com mais realidade do que o existente, como sempre ocorreu em todo processo revolucionário efetivo. A meu ver, a questão central é saber como.

Insisto no que inicialmente havia chamado de “risco” produzido por um uso inflacionado do conceito de identidade. Em dado momento de seu texto, Eduardo diz o seguinte: “Vladimir é sim heterossexual e mais uma prova viva de que eles existem. O que, aliás, é testemunhado por muitos, já que os supostamente não existentes heterossexuais podem sair nas ruas de mãos dadas com seus objetos parciais, sem o risco de sofrer algum tipo de violência. Eu não”.

Gostaria de chamar atenção para a operação feita aqui, para seu caráter problemático, algo próximo de uma espécie de “interpelação subjetiva forçada”. Eduardo viu por bem definir por mim o que eu próprio seria sem levar em conta o que eu mesmo havia dito, ou sem ter acesso algum ao que seria a singular “vivência concreta do sexual” do qual ele mesmo fala. O que o legitimaria a tanto é a diferença na exposição à violência social. Contra uma violência social, ele opera outra, que consiste em definir e em determinar um lugar ao outro simplesmente sem levar em conta a fala de quem foi definido ou a natureza efetiva de sua vivência.

Creio que isso ocorre porque há uma limitação de estratégia política sintomática aqui. Ela consiste em preservar o binarismo que se quer criticar, preservando, por consequência, a gramática que deveria ter sido abandonada, na esperança de operar uma espécie de transvaloração de valores e lugares. Isso ocorre, a meu ver, porque elimina-se de entrada a possibilidade de trabalhar a força política da desidentificação generalizada. Desconfia-se da disparidade no sexual e, de quebra, não passa sequer pela cabeça de que impulsionar processos de desidentificação seria uma dinâmica importante para a queda de ordens que queremos combater. Seria a condição para caminhar em direção a outra gramática social. Se a urgência exige a mobilização provisória da identidade, a práxis política se degrada quando mede apenas a urgência (da mesma forma que ela se atrofia se não leva em conta a urgência). Mais dialética nesse ponto seria bom.

Discordo de uma afirmação como: “Afinal toda a desordem no gênero que registramos nos últimos anos foi obra de pessoas engajadas em práticas sexuais e performances de gênero dissidentes”. A desordem de gênero é uma força bruta, talvez a única que possa dar sentido a uma totalidade verdadeira. Ela está lá a corroer cada passo de quem procura ignorá-la. Ela está lá a impulsionar criação a quem é capaz de ouvi-la. Historicamente, ela já explodiu muitos edifícios que se julgavam sólidos e já abriu muitas dinâmicas lá onde muitxs viam apenas paralisia.

Essa desordem se dá como proliferação, mas também como decomposição e desfazimento. Uma colocação como essa de Eduardo pode fazer sentido se temos em vista apenas os processos de lutas sociais e seus protagonistas. Mas as lutas sociais são alimentadas e impulsionadas também por instaurações estéticas, experiências clínicas, encontros afetivos. Não se ganha nada desqualificando isso. Quem esqueceu, que leia Grande Sertão: Veredas.

Vladimir Safatle é professor titular do departamento de filosofia e do instituto de psicologia da USP

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Tijolinho: O imbróglio político de Paulista



Há alguns anos atrás, ainda muito movido pelo idealismo, criamos um grupo no Facebook para debater a cidade de Paulista,  localizada aqui na região metropolitana norte do Recife. Rebento de Vila Operária, passei os melhores momentos de minha vida naquela cidade. Banhos de açude; de bica nos dias chuvosos; pescarias de traíras e Maria Doce; peladas nos campos de várzea, com a galera do saudoso Monte Castelo Futebol Clube; corridas de patinetes; pau-de-sebo nos festejos de São João; pipas sem cerol; torradas com castanhas de caju; carne de charque ou Jia Pimenta no braseiro à lenha; dias de feira-livre, onde era possível assistir às performances de Mestiça. As dificuldades existiam, mas asseguro que foram os melhores dias da vida desse editor. Quando voltava àquela cidade - sempre encontrava um argumento para voltar, seja para discutir uma de nossas crônicas com os alunos locais, seja no período das eleições - ficava a relembrar daqueles verdes anos, debaixo das paineiras, felizmente, ainda preservadas. Dunda, o melhor amigo das travessuras de infância, a inesquecível professora primária, Dona Maria José Tavares de Lima, aquela que nos proporcionou o encantamento de decifrar as primeiras letras. 

Era muito triste para mim acompanhar aquele abandono da cidade, seja no tocante aos problemas com a administração pública, seja o completo descaso com o meio-ambiente, com o patrimônio histórico da cidade. Friso aqui que não faço referência à memória do drama produzido pela oligarquia industrial no município, marcado por grandes sofrimentos infringidos à classe operária. Como observa o professor Durval Muniz, essa é uma memória para ser esquecida mesmo. Muito triste ver o sangradouro da levada vazio, o rio Paratibe agonizando, a mata do frio sendo dizimada pela especulação imobiliária. Sempre que me dirigia ao centro, saindo ali da Torres Galvão, fazia aquele percurso por dentro da mata, para sentir sua temperatura amena, proporcionada pela cobertura vegetal, assim como recolher os frutos abundantes de suas árvores: cajus, inclusive os amarelos, aracás, macaíbas, manga espada - as preferidas - ingás, cajás, coquinhos. 

Durante algum tempo, mantive o grupo ativo, provocando sempre discussões importantes, de interesse da cidade. Mas, os tempos mudaram muito. Se, naquele momento, ainda era possível um debate civilizado de idéias, hoje isso não é mais possível. Houve um retrocesso em termos de civilidade. Assim, acabei por abdicar da condição de administrador daquele grupo, em razão das agressões e baixarias que se tornaram recorrentes. Nos últimos anos, o ambiente político interditou o debate, abrindo espaço para as fake news, as campanhas difamatórias, urdidas com interesses abjetos. Dessas discussões, noutros tempos, poderiam surgir subsídios importantes para auxiliar os gestores públicos daquela cidade. Essas observações vem a propósito da troca de farpas entre o prefeito que se elegeu e o que acaba de deixar o cargo, o que o leitor deve estar acompanhando pelas redes sociais e pela imprensa. Não entro nem no mérito da discussão sobre quem, de fato, tem razão por entender que isso pouco importa. Há no município um quadro político caótico, de décadas de gestão temerária dos negócios públicos, sem solução aparente. Infelizmente. 

Editorial: Você aprovaria o comportamento do brasileiro durante a pandemia?




Já faz algum tempo que este editor desistiu de entender os brasileiros. Li bastante sobre o assunto, mas, a cada hora, surgem alguns fatos novos que nos deixam atônitos, na condição de um expectador que ainda não viu tudo. Pesquisa recente, realizado pelo Instituto Parará Pesquisas e publicada por uma coluna de política conhecida, informa que, em enquete sobre a avaliação do comportamento dos cidadãos e cidadãs brasileiros durante a pandemia, ficamos, na média, com a nota 7,7. Em tese, daria para passar, mas, na condição de professor, reprovaria o nosso comportamento durante a pandemia, em razão dos fatos amplamente divulgados pela imprensa, onde se constata a desobediência explícita dos protocolos de segurança estabelecidos pelas autoridades sanitárias para evitar o contágio pelo coronavírus. Desrespeito à quarentena ou aos lockdowns decretados, ausência do uso obrigatório de máscaras, festinhas com aglomerações. Apenas isento dessas críticas aqueles segmentos sociais que, de fato, pelas contingências impostas, talvez não pudessem cumprir tais protocolos como gostariam, por absoluta falta de condições, em razão da precária situação econômica, habitacional e e higiênicas. Em casos extremos, falta até a água para lavar as mãos. Um fato curioso é que o tal "toque de recolher" imposto nas favelas por traficantes e milicianos (ia usar o "ou", mas os milicianos, hoje, também  estão envolvidos com o tráficos de drogas) contribuiu para forçar o isolamento social. 

Logo no início da pandemia, pipocaram denúncias de malversação de recursos públicos por todo o país, envolvendo agentes públicos e privados, mancumunados em práticas lesivas ao interesse público, ou seja, desvios de verbas ou compras irregulares de insumos para o enfrentamento da pandemia. A construção de hospitais de campanhas constituiu-se num outro grande duto por onde os recursos públicos eram sistematicamente desviados para outras finalidades. Até hoje não vi uma levantamento completo sobre o montante de recursos desviados, mas a soma é altíssima. Há até governador afastado do exercício do cargo e prestes a perder o mandato em razão dessas denúncias. Seria de muito bom alvitre que os órgãos de controle e fiscalização das contas públicas divulgasem alguma estimativa dos recursos desviados. Fica aqui a recomendação, em nome da transparência da função pública. Há um governador da região Norte do país que adquiriu determinados equipamentos imprestáveis para a finalidade desejada e ,este editor, equivocadamente, até solidarizou-se com ele, responsabilizando tão somente seus fornecedores. Depois, as investigações iriam descobrir que ele sabia, desde o início, das operações, e que estava comprando gatos por lebres, mancumunado com tais fornecedores. Eis aqui um cidadão desprovido de qualquer espírito público. A lição que aprendemos aqui é que a corrupção endêmica do país prevaleceu até mesmo num quadro de profunda calamidade pública.  

Aliás, por falar em região Norte, fico cada vez mais convencido que as razões do colapso do sistema de saúde no Amazonas deve-se muito mais a razões políticas do que propriamente técnicas. O ex-ministro da Saude, Luiz Mandetta, com muita capacidade, já havia antecipado o possível colpaso do nosso sistema de saúde, caso medidas preventivas não fossem tomadas imediatamente. Mandetta foi demitido do cargo. Os relatórios da força tarefa do SUS - sempre o SUS - também deixaram isso muito claro. Mobilizações de insanos fizeram com que o Governo do Estado da Amazonas voltasse atrás num lockdown decretado semanas antes dessas ocorrências. O recuo do governo foi comemorado nas redes sociais pelos negativistas. Fica claro que as autoridades públicas tinham conhecimento sobre o desastre iminente. Pior: que ele poderia ter sido evitado, caso as providências necessárias tivessem sido tomadas a tempo. Mesmo com as providências emergenciais, diante do quadro caótico que se instaurou, os problemas estão longe de serem equacionados. Ainda ontem acompanhei cenas de pessoas levando seus parentes aos hospitais acompanhado dos tais cilindros de oxigênio, isso quando reúnem condições de comprá-los ou abastecê-los. O Estado do Maranhão, que recebeu parte dos doentes de Manaus, já se encontra com a suas UTIs e estoque de oxigênio no limite. 

Agora, por ocasião do início da campanha de vacinação em massa, somados aos embaraços com a logística da distribuição e os embates diplomáticos que virão para adquirir os insumos farmacêutico ativo (IFA) para a produção de novas doses da vacina, surgem denúncias, incluisive aqui no Estado de Pernambuco, de desrespeito à ordem de aplicação das mesmas, neste primeiro momento, facultadas apenas os profissionais de saúde. Mas, diante do maldito "jeitinho brasileiro", prefeitos, secretários e até fotógrafos furaram a fila. Isso é apenas a ponta do iceberg, se  é que entendemos um pouco desse paí, algo que desisti, como afirmei no início deste editorial. Observem o comportamento dos cidadãos e cidadãs de outros países, mais institucionalizados, onde o respeito às regras é observado e os homens públicos são os primeiros a oferecer bons exemplos de conduta. Não sou alarmista, mas estamos com um sério problema de estoque de vacinas pela frente. Cálculos de especialistas afirmam que, sequer, as doses disponibilizadas seriam suficientes para atender a demanda dos profissionais de saúde, o grupo priorizado. A rigor, até aqui temos problemas, uma vez que tais cálculos de profissionais de saúde deveriam incluir, tão somente, aqueles profissionais da linha de frente do enfrentamento da pandemia, excentuando-se aqueles que desempenham funções burocráticas. 


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Tijolinho: Drops político para reflexão: O SUS fará a grande diferença na vacinação em massa no país.



"Mesmo começando com um relativo atraso em relação a outros países, a tendência é que possamos assumir a dianteira dessa corrida, em razão da nossa espertise no assunto, graças ao nosso Sistema Unificado de Saúde. Mais uma razão para empreendermos todos os nossos esforços no sentido de preservar este sistema de saúde, um dos melhores do mundo. É numa situação crítica como esta que dimensionamos a sua real importância para a saúde pública no país. Vacinação em massa da população é coisa do nosso tão maltratado SUS, um grande patrimônio nacional."

(José Luiz Gomes, Cientista Político, em editorial publicado aqui no blog.)