pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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sábado, 3 de julho de 2021

Estudo mostra diversidade de práticas sexuais entre indígenas no Brasil pré-colonial

 


Estudo mostra diversidade de práticas sexuais entre indígenas no Brasil pré-colonial
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Arte sobre litografia: Índio Camacã Mongoió, de Jean Baptiste Debret, 1834 (Revista CULT/Reprodução)

 

 

A diversidade sexual no Brasil pode parecer uma pauta nascida na atualidade, mas é muito mais antiga: ela existe, pelo menos, desde antes da época colonial. É o que mostram os antropólogos Estevão Rafael Fernandes e Barbara Arisi no estudo Gay Indians in Brazil: Untold Stories of the Colonization of Indigenous Sexualities (“Índios gays no Brasil: Histórias não contadas da colonização das sexualidades indígenas”).

Analisando dezenas de registros das diferentes formas de sexualidade e de relacionamentos entre os índios brasileiros no período colonial, a dupla concluiu que foi a homofobia, e não a homossexualidade, que desembarcou na América com os colonizadores europeus.

Recém-publicada em inglês pela editora alemã Springer, a pesquisa traz exemplos da diversidade de práticas sexuais que datam de muito antes dos processos de colonização: homossexualidade, poligamia e até mesmo algo semelhante à transgeneridade e ao não-binarismo. “As famílias tradicionais brasileiras que os portugueses encontraram quando desembarcaram aqui não eram homofóbicas”, afirma o antropólogo Estevão Rafael Fernandes.

Os pesquisadores partiram de relatos e crônicas históricas dos exploradores europeus. Encontraram um grande número de acusações de “perversão sexual”, “sodomia” e “pederastia”. “São histórias de como a Cruz, a Coroa e o Estado tentaram (e tentam) controlar os corpos indígenas, e de como eles resistem e persistem”, define Barbara Arisi.

Segundo Fernandes, é possível afirmar que a liberdade sexual não costumava ser motivo de preconceito entre os próprios indígenas até a chegada dos colonizadores. É o que mostram casos como o de um nativo que, tido como “hermafrodita” pelos europeus, foi amarrado à boca de um canhão prestes a ser disparado.

Uma vez que a proposta dos autores não era a de publicar uma leitura “exótica” dos costumes sexuais indígenas, a pesquisa investigou principalmente como se deu a colonização sexual e corporal dessas comunidades – e como sua diversidade vem sendo apagada e reestruturada desde a chegada dos europeus no continente americano até os dias de hoje.

De acordo com os antropólogos, os processos de colonização vão muito além dos aparatos burocrático e administrativo, englobando também “o manejo da subjetividade, da afetividade e da corporalidade”, nas palavras de Arisi. A colonização, portanto, se fez muito mais no cotidiano do que em nível de governo, cortando, pouco a pouco, costumes, crenças e práticas culturais dos povos indígenas.

“A colonização baseia-se em um conjunto de relações de poder que opera em relação a noções como raça, gênero e povo, por exemplo, e a partir de práticas desde as quais estas noções são construídas e mantidas justamente para manutenção destas relações de poder”, afirma Fernandes.

Ecos da colonização

Partindo da colonização sexual, os autores abordam também a sexualidade indígena atual, mostrando que os processos de colonização jamais pararam de acontecer: “Se falar em ‘homossexualidade indígena’ choca nos dias de hoje, é necessário ter em mente que tanto a questão da sexualidade quanto a da etnicidade são moldadas historicamente”, diz Fernandes.

Os autores afirmam que existe atualmente uma visão preconceituosa de que o homem branco teria “corrompido” as populações indígenas ao apresentar outras formas de interação sexual e amorosa além da heterossexual e monogâmica. 

Essa noção teria começado a circular no Brasil nos anos 1970, quando se consolidou de forma mais organizada o movimento pelos direitos indígenas no país. “É um discurso de que a homossexualidade equivaleria à ‘perda da cultura’, ou seja, de que o indígena LGBT seria ‘menos indígena’ do que o heterossexual”, afirma o pesquisador.

A ideia foi incorporada, inclusive, pelos próprios líderes das aldeias ao longo do processo de colonização, discurso que segundo o antropólogo se relaciona com ideias que ainda hoje chegam às aldeias por meio de agentes de instituições oficiais ou de igrejas. “É como se a homossexualidade se transmitisse por contágio, como doença, levando à perda da identidade cultural”, diz.

O resultado: altas taxas de suicídio entre os índios LGBT, assassinatos por homofobia e pouca visibilidade para o assunto, já que muitos preferem calar do que lutar, prezando pela própria segurança. “Hoje, afirmar-se índio e gay é uma dupla luta pela sobrevivência”, pontua Fernandes.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Guerra de Canudos - Parte II





Neste vídeo sobre a Guerra de Canudos abordaremos as condições sociais e políticas que favorecerem a emergência do Arraial de Canudos, liderado por Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro, assim como o primeiro conflito entre os seguidores de Antonio Conselheiro e o stablisment, formado pela Igreja, o Estado e elite econômica da época - traduzidos em forças policiais - onde já evidenciavam-se as divergências e "indisposições" do Brasil Oficial com aquele contingente independente, representante legítimo de um Brasil Real, ou seja, um povo ordeiro, trabalhador, cujos direitos básicos não são reconhecidos pela Casa Grande. Aliás, conforme afirmamos no vídeo, o Brasil Oficial, na realidade, nunca saiu da Casa Grande. Exceto para massacrar a senzala.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Ainda em torno de gênero, sexo e o que (e como) precisamos fazer

 

Ainda em torno de gênero, sexo e o que (e como) precisamos fazer
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Joy Hester Love, 1949 (Foto: Heide Museum of Modern Art/Divulgação)

 

A primeira consideração que me ocorre, neste segundo tempo do debate em torno da existência ou não de heterossexuais, refere-se menos ao conteúdo das formulações propostas e mais à forma que este debate deve ter para que possa valer a pena, visto que muitas vezes os múltiplos impasses e enigmas surgidos acabam circunscritos a uma querela entre supostos identitaristas e ditos universalistas.

Tal oposição me parece não apenas insuficiente, mas principalmente falsa, além de servir muito mais para por um ponto final ao debate do que para alimentá-lo. Por um lado, a lógica identitária claramente já nos revelou suas armadilhas – escrevo sobre isso há pelo menos 20 anos e ainda assim acredito que cheguei atrasado ao debate. Por outro, parece-me difícil pensar em uma proposição de caráter universal que não se converta rapidamente em discurso de poder.

Sobre os temas em questão, podemos recomeçar pelo insistente lugar das identidades em nosso mundo contemporâneo, em relação ao qual creio ser preciso ir além do reconhecimento do seu valor político circunstancial e do essencialismo estratégico – como nos diz Gayatri Spivak – que o acompanha: precisamos entender por que a afirmação de uma suposta essência ou de fronteiras intransponíveis entre indivíduos ou grupos foi naturalizada. O que implica considerar, em nossos debates como em nossas lutas, a força da racionalidade identitária que organiza nossos modos de relação consigo e com o outro desde a modernidade, nos seus vínculos tanto com a razão instrumental e o modo de produção capitalista e sua expansão colonizadora quanto com as disciplinas que foram se construindo no mesmo quadro histórico, dentre elas a própria psicanálise. Afinal, as armadilhas identitárias estão postas e não creio que algum de nós esteja livre do risco de cair nelas.

Não se trata, portanto, de defender o uso estratégico da identidade, como se isso coubesse apenas a certos grupos menosprezados, mas de reconhecer que a identidade é a modalidade hegemônica de subjetivação, que ainda define os limites das formas atualmente possíveis de existência, para gregos e troianos.

O que não significa de modo algum perder de vista a particularidade de experiências singulares. É evidente que as experiências de gênero, prática sexual, raça e classe social são distintas e ordenadas por diferentes dispositivos e mecanismos de opressão, bem como são lugares de potências singulares de resistência às dinâmicas e relações de poder. Contudo, não se pode negligenciar que as operações de subalternização e de silenciamento que envolvem tais condições – as quais aprendemos a designar como minoritárias – se entrelaçam, se sobrepõem e se reforçam mutuamente. Isso já está em muitos livros, mas basta conversar numa mesa de bar com uma mulher trans negra e homossexual para saber.

Ainda em relação especificamente à questão da identidade e dos movimentos identitários, talvez seja interessante pensar que o desacordo, neste debate, provavelmente não está na crítica à racionalidade identitária, mas no modo como procuramos superar tal racionalidade, se queremos demolir as suas bases (o que implica identificar quais são essas bases, inclusive aquelas que habitam nossos sistemas teóricos).

Certamente a valorização de operações de desidentificação é relevante e provavelmente será fundamental à produção de novas subjetivações – ainda que prefira continuar a conceber esse trabalho como a retomada de identificações contingentes e transitórias.  Precisamos, no entanto, discutir mais quais seriam as suas condições de possibilidade e também os efeitos políticos e subjetivos dessa recusa a identificar-se em cada caso particular.

Nada mais legítimo ou admirável, por exemplo, do que recusar a participação no regime sexual vigente, marcado por divisões binárias que se sustentam mutuamente, mas talvez a própria necessidade deste ato político e subjetivo de recusa implique o reconhecimento de que o dispositivo normativo está em pleno funcionamento e não é apenas hegemônico, é assiduamente supremacista.

Ou seja, a recusa em participar da ordem heterossexual não significa, a meu ver, que heterossexuais não existam; ao contrário, a heterossexualidade tanto existe que é preciso rejeitá-la (como de algum modo preciso me recusar a ser o homossexual-tipo definido pela medicina, pela indústria cultural e também pela própria psicanálise).

Não se trata, evidentemente, como bem apontam Helena Vieira e Yuri Fraccaroli, de supor qualquer dimensão ontológica seja da orientação sexual seja da generificação do corpo, mas de reconhecer que ainda que se trate em última instância de tecnologias, estas não apenas agem sobre corpos e sujeitos, mas sobretudo os produzem.

Aqui se faz inevitável tocar no ponto talvez mais sensível do debate com Vladimir Safatle, quando ele me acusa de ser violento – e talvez o tenha mesmo sido. Efetivamente, não faz muito sentido operar nenhum outing às inversas e se o nomeei heterossexual é para destacar o fato de que estamos todos, em nossos corpos e em nossos saberes, submetidos a essas categorias.

Não posso, contudo, deixar de pensar que se Vladimir tem a opção de não se encaixar, de recusar tal posição normativa, ou mesmo renunciar ao poder decorrente de ocupá-la, essa possibilidade não é dada a todos que transitam pelos territórios definidos pelas normas sexuais e de gênero vigentes, muitas vezes caracterizados por fronteiras bem marcadas e sempre vigiadas. Basta pensar no que significa para uma pessoa dissidente de gênero, ainda hoje, recusar a qualificação de transexual e ter que, por exemplo, só de início, abrir mão de qualquer acesso à rede pública de saúde.

Outro ponto importante é o que entendemos como ‘vivência concreta do sexual’.

Apesar de estar presente no primeiro artigo publicado por Vladimir e ter se deslocado para o título da sua tréplica, para mim ainda não está claro o que devemos compreender por esse sintagma e seus elementos constituintes. Não só me refiro ao sexual – que pode ser o de LacanFreud ou Laplanche, ou mesmo aquilo que Foucault circunscreverá no dispositivo de sexualidade –, mas sobretudo ao que deve ser qualificado de concreto, pensando ainda o que tal adjetivo pode implicar de hierarquia entre diferentes vivências ou interpretações relativas ao sexo.

 

Em termos mais específicos:
por que devemos supor que
fantasias, circuitos de afetos
e dinâmicas de gozo
constituem uma vivência do
sexual mais concreta do que
práticas corporais ou
performances circunscritas
por injunções sociais?

 

 

Tal interrogação sobre o que entendemos sobre concretude tem, ainda, ressonância nos termos que escolhemos, de modo que, ainda que de início tal pergunta pareça banal, é preciso fazê-la: estamos falando de heterossexuais, d’O heterossexual ou de heterossexualidade? O que podemos propor como não existente, A relação sexual ou as relações sexuais?

Por fim, um tema que sempre me interessa ver desenvolvido se refere à questão da verdade, do estatuto do saber produzido pela psicanálise e, mais do que isso, da posição de enunciação que assumimos quando pretendemos dar a nossa contribuição intelectual à luta política e à transformação das estratégias que pactuam a realidade.

Se quisermos efetivamente superar nossas pequenas diferenças – com seu inevitável e nem sempre pequeno narcisismo – é preciso estabelecer um programa de ação minimamente comum, o que só será possível com a livre circulação de interpretações concorrentes e não com a afirmação soberana de uma razão superior. Da luta política ao trabalho teórico, se quisermos efetivamente, ao menos a partir de um certo ponto, privilegiar as aproximações, mais do que as diferenças, até para evitar uma deriva identitária – a afirmação de si a partir da desqualificação do diferente ou discordante e pela demarcação de fronteiras incontornáveis entre o eu e o outro – é vital reconhecer a pertinência de interpretações concorrentes, pois só tal reconhecimento pode nos fornecer a base a partir do qual uma aliança pode ser construída.

Isso significa sim, lidar com gramáticas diferentes, seja para aprender a usá-las seja tão somente para recusá-las. É nesse confronto de gramáticas, nessa confusão de línguas, penso, que as posições que as sustentam são postas em xeque e discursos de poder podem ser desestabilizados, perdendo então a naturalidade conquistada. Por outro lado, o modo como suportamos esses confrontos, sem desqualificar o nosso interlocutor ou mesmo oponente, também nos dará a medida do quanto estamos dispostos a encontrar aliados e produzir um comum em meio ao dissenso; comum que nos permitirá sustentar outros modos – quem sabe mais belos ou deliciosamente feios – de vivermos juntos.

Especialmente no que se refere ao trabalho teórico, é preciso, ainda, encontrar níveis intermediários de abstração que permitam a mediação entre a sofisticada elaboração de certas formulações – necessárias muitas vezes para que novas inteligibilidades se produzam e outras leituras do real se façam possíveis – e a experiência cotidiana de nossas vidas banais. Para que não fiquemos presos aos circuitos fechados da metafísica nem ao imediato do fenômeno em sua tautologia.

É preciso, sobretudo, a meu ver, encontrar formas e posições de enunciação que não percam de vista certa dimensão cotidiana dos embates. Ao mesmo tempo que se faz necessário transformar essas outras inteligibilidades, que nos esforçamos em produzir teoricamente, em novas práticas situadas.

No que se refere à psicanálise, isso implica ao menos algum nível de autocrítica quanto ao estatuto de verdade que pretendemos atribuir à nossa forma de compreender o mundo e a experiência subjetiva, pois não creio que seja interessante supor uma soberania do saber psicanalítico, a qual refletiria imaginariamente a soberania do Inconsciente.

Por fim, encerrando minha contribuição a este debate, quero agradecer ao Vladimir por ter respondido tão rapidamente à minha provocação e também a oportunidade de continuar pensando, buscando questões, mais do que apresentando respostas. Agradecer também a Helena e Yuri, que puderam destacar outras perspectivas e vozes em um debate que certamente não pode ser monopolizado por lacanianos ou por quem quer que seja.

Eduardo Leal Cunha é Psicanalista, Doutor em Saúde Coletiva (IMS), Professor do Departamento de Psicologia e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe e Pesquisador Associado do Departamento de Estudos Psicanalíticos da Universidade de Paris.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Charge! Duke via O Tempo

 


Tijolaço: O carnaval e a cadeia produtiva da cultura

 


A melhor coisa que acorreu a este editor durante a pandemia - além, claro, de não ter contraído o vírus - foi uma série de crônicas escritas, tratando desde assunto, com um fictício amigo cineasta brasileiro em Paris, que estava naquele França para reconstituir a trajetória do grande diretor e cinema Jean-Luc Godard, algo alusivo aos seus 90 anos. Precisei mergulhar nos livros, nos filmes do cineasta francês, nos documentários e alguns cursos sobre cinema, com o propósito de estabelecer este diálogo. Assustador para ele foi a descrição de uma Olinda deserta, vivendo sob o toque de recolher imposto pelo lockdown, sem as tapioqueiras da Sé, as mesas de bares expostas nos Quatro Cantos, os meninos e meninas fazendo a farra na pracinha do Carmo. Trauma maior ainda está por vir, com a proximdade dos festejos de Momo, com a interdição de tribos de todos os recantos do mundo subindo e descendo aquelas ladeiras, acompanhando os bonecos ou o batuque do Pitimbeiras, do Elefante, do Homem do Meia- Noite. Aliás, para ser bem sincero, se não fosse esse maldito vírus, os olindenses raízes já haviam caído nas fuzarcas das prévias, que, praticamente, emenda o carnaval de um ano ao outro, com ligeiros intervalos para curar-se das ressacas.  

Correta a  determinação do Governo do Estado em suspender os festejos de Carnaval deste ano. Trata-se de uma decisão inquestionavelmente acertada, que conta com nosso absoluto apoio, a despeito dos sofrimentos infringidos. Todas medidas preventivas para evitar a disseminação desse vírus serão bem-vindas para este editor, principalmente em razão do agravamento do problema, acrescido dessa cepa de variantes, com um grande potencial de contaminação, como, aliás, suspeita-se que já esteja ocorrendo em Manaus e outras capitais da região Norte do país.  Por mim, já teríamos adotado aqui as recomendações do médico Miguel Nicolelis, ou seja, um lockdown em todo o grande Recife. A questão diz respeito aos problemas daí decorrentes para a cadeia produtiva da cultura do Estado, especificamente àquela diretamente ligada ao evento do Carnaval. 

Está certo o Partido dos Trabalhadores em manisfestar essa preocupação e pedir que o Estado acene com algum tipo de proposta ou incentivo aos produtores culturais. A cadeia produtiva da cultura vem enfrentando problemas gigantescos este ano, como decorrência dos transtornos provocados pela pandemia . Teatro, música, cinema, literautura -mesmo dentro dos projetos aprovados pelo Funcultura, por exemplo - tiveram probelmas sérios com o cumprimento de prazos, com reformulações e adaptações de projetos a esta nova realidade, exigindo, do aparelho de Estado, um mínimo de sensibilidade para o problema, que, agora, se depara com mais um agravante: as consequências do cancelamento do Carnaval, principalmente para os produtores culturais. 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Nem hétero, nem homo: cansamos

 Helena Vieira e Yuri Fraccaroli

Nem hétero, nem homo: cansamos
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Love, Joy Hester, 1949 (Foto: Reprodução)

 

Entre os últimos lampejos de 2020 e o começo deste ano, parte das redes sociais acompanhou com atenção o debate iniciado por Vladimir Safatle com o artigo “Não há heterossexuais”, prosseguido da réplica “Há homossexuais”, de Eduardo Leal Cunha e, finalmente, pela tréplica de Safatle, “Sobre a vivência concreta do sexual”, todos publicados pela Cult.

Antes de qualquer afirmação, é preciso enunciar que não pretendemos responder ou ingressar neste debate. Afinal, em briga de lacaniano, é melhor faltar. Tampouco sabemos se uma resposta seria possível em razão das gramáticas utilizadas, as posicionalidades envolvidas e os espaços historicamente construídos para aqueles que ousaram desafiar o lugar que lhes foi concedido na chamada “diferença sexual”. Escrevemos aqui desde a dissidência, posição essa que recusa o esquema réplica-tréplica, movendo-se, em contrário, para fora, para onde essa oposição nem sentido tem.

A curiosa ausência de autoras, autores, performances e movimentos sociais tão importantes para o desenvolvimento político e teórico das questões evocadas pelos textos, que, dentre eles, alguns até mesmo ascenderam ao status daquela que Foucault certa vez entendeu como a forma cultural mais legitimada no Ocidente, a filosofia, nos fez pensar sobre qual desejo e quais práticas mobilizam a escolha da primazia de autores como Freud e Lacan e, consequentemente, o espaço da clínica.

Contudo, dada a relevância do tema, sensivelmente implicado com questões como sexualidade, raça e (forçosamente) gênero; dada a peremptoriedade de certas afirmações, a definição de caminhos, as demandas por supostas novas gramáticas revolucionárias e um desacordo entre tantas (problemáticas) concordâncias, decidimos tratar desses assuntos a partir de outros lugares; dizer desde outras perspectivas, que até o momento não foram mobilizadas neste espaço. Acreditamos assim aportar argumentos mais próximos do que alguns dos sujeitos forçosamente interpelados por uma ideia de diferença sexual têm refletido sobre si mesmos.

Falemos, portanto, dos desejos e das autoras que mobilizam esta escrita de uma travesti e uma bicha, com nossas línguas de serpente e de fogo, como nos ensina Gloria Anzaldúa. Tal demarcação, não supérflua e nem demasiado identitária, é necessária para que não pensem que estamos loucas, afinal, falamos com gramáticas que podem lhes soar animalescas. Talvez possamos também soar estranhas, equivocadas ou incompreensíveis, já que por vezes podemos utilizar até mesmo as palavras e ideias de vossos pais-fundadores em sentidos cabalmente distintos aos que originalmente foram formulados.

Paul B. Preciado, em texto da comunicação que foi interrompida durante a 49º Jornada da Escola da Causa Freudiana, na França, em 2019, faz alusão a um conto de Kafka no qual o macaco Pedro Vermelho, uma vez capturado e transportado para a Europa, relata a necessidade de esquecimento de sua vida enquanto macaco, e a tentativa de dominar a língua humana para que pudesse se tornar um homem. Entretanto, como ressalta Preciado, esse processo não supõe qualquer ideia de emancipação ou libertação. Seria, pelo contrário, uma alegoria crítica ao humanismo colonial europeu. E aqui opera a identificação de Preciado com o macaco Pedro Vermelho: “Eu, como um corpo trans, como um corpo não binário, ao qual nem a medicina, nem a lei, nem a psicanálise, nem a psiquiatria reconhecem o direito de falar com conhecimento especializado sobre minha própria condição, nem a possibilidade de produzir um discurso ou uma forma de conhecimento sobre mim mesmo, aprendi, como Pedro Vermelho, a língua de Freud e Lacan, a língua do patriarcado colonial, a sua língua, e estou aqui para falar com vocês”.

Ao escutarmos Pedro Vermelho e/ou Preciado, entendemos que parte daquilo que pode ser compreendido como uma opressão heterossexual, longe de dizer respeito a questões de convivência ou tolerância, diz respeito à impossibilidade de comunicar-se senão nos termos da heterossexualidade, aspecto destacado por Monique Wittig. Nesse sentido, não há possibilidade de falar sobre sexualidade senão heterossexualmente. No que tange a presente discussão, isso significa dizer, ainda na esteira de Wittig, que esses discursos totalizantes, tais como “não existem heterossexuais” ou “existem homossexuais”, só podem ser enunciados desde o interior do regime heterossexual. A existência da heterossexualidade é a condição da possibilidade de quaisquer tentativas de negá-la – logo, são sempre frustradas, inócuas e contraditórias.

Portanto, não se trata de atestar a existência da heterossexualidade, nem da homossexualidade, ou seja, não se trata de uma questão de ordem ontológica, mas tecnológica. Em outros termos, algo que diz respeito ao funcionamento daquilo que em dado momento do tempo e da história convencionou-se chamar de heterossexualidade e, para além disso, dos efeitos dessas tecnologias na constituição do real, do mundo e dos sujeitos.

Partimos aqui da apropriação de esquema proposto por Gregory Bateson acerca dos problemas filosóficos. De acordo com o antropólogo, existiriam duas grandes ordens de problemas e questões para a filosofia: a primeira seria pautada pela busca da definição do que são as coisas, ou seja, tratar de suas realidades e existências (ontologia); a segunda versaria sobre como podemos conhecer o que as coisas são (epistemologia). Inspiradas por Gilles Deleuze e também por Donna Haraway, gostaríamos de acrescentar uma categoria à esquematização de Bateson, propondo que existe ainda outra categoria de problemas que se refere a como as coisas funcionam.

Nesse sentido, então, deslocamos a problemática do debate para como funciona a heterossexualidade, o que significa pensar a partir de quais práticas, discursos e técnicas esta se constitui, e também quais seus efeitos sobre os modos de vida e de viver e das relações de poder. Para isso, é preciso, em um grande esforço ficcional, retornarmos ao momento de criação dessa mitologia encarnada – ou, nas palavras de Jonathan Ned Katz, a estreia do heterossexual. A partir de registros e notas do doutor Richard von Krafft-Ebing, e também apostando nesse mesmo desafio ficcional, Katz trata de demonstrar a genealogia dos termos heterossexual e homossexual, e os efeitos que produzem tanto do ponto de vista do erotismo quanto da normalização de determinadas práticas e condutas.

É no interior da clínica médica que a heterossexualidade transforma-se em “sexualidade normal” e desenvolve um conjunto de práticas e prescrições que, em sua repetição, conformarão o sujeito heterossexual. Nesse sentido, vale destacar que antes do uso proposto por Krafft-Ebing, o termo heterossexual, como aquele utilizado pelo médico americano James Kiernan, tinha outra conotação, configurando um desvio do homossexual:

Aqueles heterossexuais eram associados a uma condição mental, hermafroditismo psíquico. Essa síndrome presumia que os sentimentos tinham um sexo biológico. Os heterossexuais sentiam a chamada atração física masculina por mulheres e a chamada atração física feminina por homens. Ou seja, aqueles heterossexuais periodicamente tinham inclinações para ambos os sexos. O hetero neles se referia não ao seu interesse por um sexo diferente, mas ao seu desejo por dois sexos”, escreveu Jonathan Ned Katz em 1996.

James Kiernam tratava tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade como desvios, e a ideia de uma sexualidade normal não era nomeada: tratava-se de instinto sexual, que tinha a finalidade deliberada da reprodução. A operação fundamental de Krafft-Ebing, na conformação do heterossexual como o normal, consiste em afirmar que o instinto sexual não precisa mais ser deliberadamente reprodutivo, a reprodução seria sua consequência. O instinto sexual buscaria algo como o prazer, sendo apenas virtualmente reprodutivo. Percebe-se explicitamente essa operação no relato de caso do sr. R., paciente do doutor Krafft-Ebing cuja “cura” passou pelo incentivo ao prazer sexual com mulheres. Nos processos clínicos de Krafft-Ebing não havia um apelo direto à reprodução, apesar disso, como ironicamente afirma Katz, seus tratamentos culminavam quase sempre em casamentos ou na descrição de sonhos com mulheres. Parece haver aqui a inauguração de um mundo subjetivo do desejo a ser corrigido e moldado até mesmo pelo próprio médico: “Eu considero o instinto heterossexual do paciente a criação artificial do seu excelente médico”.

Sobre esse aspecto é que Katz compreende o texto de Kraftt-Ebing como uma transição entre o espaço vitoriano e o moderno, tornando tal “diferença entre o sexos e os eros as características distintivas básicas de uma nova ordem social, linguística e conceitual do mundo”, oferecendo dois erotismos de sexo diferenciado, o ideal e o anormal.

Se a leitura de Katz traz a historicidade desses termos, acreditamos ser relevante destacar um aspecto não ressaltado pelo teórico americano, mas que aparece em basicamente todos os relatos de pacientes do Dr. Krafft-Ebing utilizados: a heterossexualidade não se restringiria ao desejo, mas também a um conjunto de atos sociais que produziriam um corpo adequado para esta forma sexual. Assim, a heterossexualidade comporia o universo das práticas de gênero.

É muito interessante considerarmos isso porque o discurso heterossexual emerge no século 19 junto com uma miríade de outros discursos de poder, na constituição daquilo que Foucault nomeou de dispositivo da sexualidade. Entre esses discursos, está a ascensão do modelo dimorfista. Ora, não é então a heterossexualidade que pressupõe uma natureza corporal binária preexistente, em que o acoplamento pênis x vagina seria como a máxima do desejo humano? Não existe nenhuma possibilidade de se pensar a heterossexualidade sem que a diferença sexual e a própria noção de sexo e gênero sejam evocadas, porque a heterossexualidade é tomada como natural, e não como escolha mainstream que estabiliza a naturalidade das posições homem x mulher.

Portanto, o desejo ou a ideia de uma sexualidade só é possível na matriz heteronormativa, como há trinta anos discutiu Judith Butler, pois a ideia mesma de sexualidade é forjada na invocação performativa de uma anterioridade natural do desejo, da reprodução e do próprio sexo: a ficção pré-discursiva. Nesse sentido, mobilizando a noção de performatividade de Butler, não se trata de identificar um sujeito heterossexual anterior que tomará parte em práticas que são exclusivamente heterossexuais, mas de um campo de disputa das práticas em que aquelas que são socialmente significadas como práticas heterossexuais produzem a existência mesma do sujeito heterossexual. É praticando a heterossexualidade que se torna heterossexual. O sujeito heterossexual é, portanto, uma ficção, mas uma daquelas que existem, como o Estado, o Poder ou o Povo. Sempre que discutimos tal tema, um amigo, o antropólogo Vitor Grunvald, lembra-nos do poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Assim como o poeta, que já não sabe mais o que é a dor que sente, a que finge e aquela que finge ao sentir – porque de tanto performar dores múltiplas, os limites entre aquilo que é original e o que é falso deixam de existir -, o sujeito heterossexual, em meio às tensões entre a interpelação do sistema sexo-gênero, sua limitada agência e as formas de sujeição que lhe possibilitam sua condição de sujeito, já não tem mais como enumerar o que lhe pertence ou não porque agora tudo existe, tudo produz efeitos no mundo e nos modos de subjetivação.

Como propõe Monique Wittig, a heterossexualidade é um regime político cujo alcance não diz respeito somente ao desejo ou mesmo à reprodução, ela ordena o funcionamento das instituições ao conceber, por exemplo, o Estado como Pai e a família nuclear como instituição mínima de nossas sociedades. Não apenas a heterossexualidade existe, como são os heterossexuais aqueles investidos de seu poder, como oficiais de justiça. Para além disso é importante considerar que a heterossexualidade como regime político é parte das forças que operam a colonização dos povos do Sul global, cujos corpos, desejos e formas de se relacionar são enquadrados. Indicamos para esta discussão, visto que não poderemos aprofundar o tema, a leitura de Gênero e colonialidade, da socióloga María Lugones.

Ainda em relação a tal concepção política da heterossexualidade, Preciado propõe que esta não seria apenas um regime de governo, mas também uma própria política do desejo. Ao indagar sobre as práticas que constituem este regime de governo, Preciado indica que seus modos de regulação não se dariam na forma da lei, mas por meio de regulação interna, sendo aqui o locus da mencionada política do desejo: “Esta forma de servidão sexual baseia-se em uma estética da sedução, uma estilização do desejo e uma dominação historicamente construída e codificada, erotizando a diferença de poder e perpetuando-a. Esta política de desejo é o que mantém vivo o antigo regime de sexo-gênero, apesar de todos os processos legais de democratização e empoderamento das mulheres”.

Gostaríamos ainda de insistir criticamente sobre a ideia de uma “vivência concreta do sexual” a despeito do quão vaga tal expressão possa nos ter parecido, assim propondo algo mais próximo a um exercício de tradução. Pensamos que o caráter concreto da experiência heterossexual se realiza, ou melhor, se explicita, na inumerável parafernália sexual de incitação à heterossexualidade, da representação pornográfica à telenovela, passando pela literatura, pela clínica psicanalítica, pelo romantismo, pelas representações da masculinidade (carros, barba, música, futebol) e da feminilidade (estética, esmalte, unhas pintadas e batom), ideais da heterossexualidade. Pensamos, portanto, que se não é possível apontar heterossexuais na rua é porque, como o azul do céu, eles constituem a paisagem e, desse modo, não é que lhes falte existência, é que eles simplesmente existem demais.

Não nos parece haver nada de subversivo em enunciar a inexistência do heterossexual; isso já foi feito pela medicina anterior a Krafft-Ebing, quando a sexualidade normal não carregava nome algum. É certo que nomear a norma é uma operação identitária, e que a noção mesma de identidade é violenta e obstaculiza a constituição de alianças. Entretanto, conforme a discussão de Butler em A vida psíquica do poder: teorias da sujeição, é este o paradoxo da sujeição: se a identidade nos limita, é preciso construir práticas que partam dela, algo que pode ser um excelente começo, mas um péssimo fim. Quando Preciado em  “Carta de um homem trans ao antigo regime sexual” nos convida à desidentificação, isso não significa trocar de nomes ou desnomear, mas trocar de práticas. Desidentificar-se da heterossexualidade não significa rejeitar a alcunha heterossexual, mas engajar-se em práticas sexuais não-heterossexuais, não-reprodutivas, porque são as práticas que constituem os sujeitos, e não os nomes.

Tampouco entendemos que isso signifique teleologicamente demandar um processo político por “outras gramáticas” com base em um horizonte de indiferenciação no qual possamos encontrar “uma forma melhor e mais bela de falar de sexo”. Temos certos incômodos com essa posição, seja pela promessa do belo ou pelo apagamento de experiências e até mesmo pelas produções identitárias e linguísticas que constituíram e constituem outras gramáticas para além do vocabulário médico-jurídico, como há tempos já tratou o antropólogo Peter Fry ou como recentemente demonstrou o pesquisador Luiz Morando em Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte.

Mais uma vez evocando Preciado – não por predileção, mas talvez pela similaridade entre suas discussões no contexto francês e o que parece ser uma importação destas para o campo brasileiro -, é preciso afirmar: “Minha vida fora do regime da diferença sexual é mais bela do que qualquer coisa que vocês poderiam ter me prometido como recompensa por consentimento à norma.”

HELENA VIEIRA é escritora e pesquisadora do Núcleo de Políticas de Gênero da Unilab

YURI FRACCAROLI é mestre em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia (USP)

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Tijolaço: Tarcísio, o senhor Livro 7, morre de Covid 19



Hoje é um dia triste para os recifenses e pernambucanos. Amanhecemos com o anúncio da morte do senhor Tarcísio Pereira, da antiga Livro 7, a maior livraria do Brasil, que tanta alegrias e orgulho proporcionou aos brasileiros. Na Sete de Setembro, a Livro 7 era uma parada obrigatória para esse escriba, mesmo que fosse apenas para apreciar suas estantes, repletar de livros de todas as especialidades. A Livro 7 era de um tempo em que  o chique era lanchar na Karblen, comprar o disco de vinil de Chico Buarque na Modinha, tomar uma cerveja com os amigos no Calabouço e, claro, comprar um livro na Livro 7, embalado, no início, num papel em branco, com a marca da livraria em cor preta. O grande Tarcísio morreu de complicações provocadas por esta maldita Covid-19. Nossos sentimento à família, em particular a sua irmã Suely, que manteve a chama acesa até o ultimo instante, consolando seus admiradores e admiradoras pelas redes sociais, sempre com uma mensagem de otimismo.

Num determinado momento, creio que ali pelas décadas de 70\80 parece que todas as outras instituições culturais do Recife convergiam para a livro 7. Faço essa conjectura para não cometer alguma injustiça com algumas delas. Eu, particularmente, fui conduzido àquele espaço através dos estudos no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde convivi com professores, escritotes e poetas que para ali se dirigiam, principalmente aos sábados, atraídos por boas conversas, os últimos lançamentos de sua área de interesse, e, principalmente, pela famosa batida de maracujá, servida gratuitamente, segundo dizem, preparada pelo próprio Tarcísio. 

Ali, mantive longas conversas com Gilvan Lemos, o pardal de São Bento do Una, assídio frequentador daquele espaço, sempre atendendo os pedidos dos estudantes que o procuravam para falar de sua obra. Arredio, morava sozinho, não gostava de dar entrevistas, mas não resistia a um pedido recomendado por mim, então um jovem estudante de letras, aluno aplicado do poeta Marcus Accioly, que ministrava Teoria da Literatura na UFPE. Confesso a vocês que não sei por quanto tempo ainda teremos que suportar os sofrimentos infringidos por essa doença, que retira do nosso convívio os parentes, os amigos, limita o convívio social e impõe-nos um momento de treva, atribulado, de muito medo. Um medo de tornar-se a próxima vítima. Que momento difícil, leitores.  

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