pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Kafka, a ruína do símbolo

 

Kafka, a ruína do símbolo
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Em Kafka lemos a ruína do símbolo. Sua escritura – elaborada no que Modesto Carone chamou de uma “linguagem tipicamente cartorial, de protocolo”, marcada pela tensão entre as culturas alemã, tcheca e judaica – coincide com a minuciosa construção desse arruinamento. Mas o que isso quer dizer? Inicialmente, o seguinte: o que está em jogo aqui é uma forma de conhecimento; todavia, é uma forma de conhecimento certamente peculiar, já que o sentido que podemos, sim, apreender nos textos de Kafka não se dissocia da incerteza, do desconhecimento, da perplexidade, em suma, de uma espécie de nonsense, por assim dizer, que singularmente faz sentido.

Se, portanto, Kafka nos esclarece a respeito de algo – do mundo, de nós, da modernidade ocidental – é por meio dessa luz opaca que sua literatura irradia: uma luz indecidível entre a aurora e o ocaso, ou seja, entre o que vem a ser e o que se extingue. São histórias em que nada parece faltar. Odradek, Gregor Samsa, Josef K. É como se nada nos fosse omitido nesses textos que parecem colidir com o duro chão do mundo secular – e, no entanto, não se vislumbra nenhuma verdade ou completude que pudesse servir aos propósitos mais firmes e bem intencionados da cultura do humanismo ilustrado; nenhuma garantia, enfim, que pudesse ser reconhecida e passada adiante como um anel, geração após geração, como fiadora da cadeia da tradição do Ocidente.

Podemos dizer que o que manteria esse encadeamento contínuo e progressivo – como uma sucessão de anéis, ou ainda como fragmentos que se ajustam e se completam em conjunto, formando um todo – é o símbolo. Seu reconhecimento e sua passagem sustentariam o mundo simbólico, as práticas, as formas da relação entre saber e o poder, os modos de produção da verdade. Numa conferência a respeito de Édipo Rei, de Sófocles, realizada em 1973 na PUC do Rio de Janeiro, Michel Foucault se referiu a essa “forma religiosa, política, quase mágica do exercício do poder”. Trata-se de uma técnica de unificar o saber e o poder que, operante na Grécia arcaica, eclipsar-se-ia com o advento das formas jurídicas clássicas. Diz Foucault:

Um instrumento de poder, de exercício de poder que permite a alguém que detém um segredo ou um poder quebrar em duas partes um objeto qualquer, de cerâmica etc., guardar uma das partes e confiar a outra parte a alguém que deve levar a mensagem ou atestar sua autenticidade. É pelo ajustamento destas duas metades que se poderá reconhecer a autenticidade da mensagem, isto é, a continuidade do poder que se exerce. O poder se manifesta, completa seu ciclo, mantém sua unidade graças a este jogo de pequenos fragmentos, separados uns dos outros, de um mesmo conjunto, de um único objeto, cuja configuração geral é a forma manifesta do poder. A história de Édipo é a fragmentação desta peça de que a posse integral, reunificada, autentifica a detenção do poder e as ordens dadas por ele. As mensagens, os mensageiros que ele envia e que devem retornar autentificarão sua ligação ao poder pelo fato de cada um deles deter um fragmento da peça e poder ajustá-lo aos outros fragmentos. Esta é a técnica jurídica, política e religiosa do que os gregos chamam sýmbolon – o símbolo.

Ora, precisamente esse ajustamento e essa unidade parecem estar ausentes também na emergência da condição moderna, de acordo com alguns dos seus relatos mais significativos. Baudelaire afirma que o poeta perde sua auréola e que o dândi é um “sol poente”. Marx e Engels postulam que tudo o que é sólido desmancha no ar. Nietzsche acusa o crepúsculo dos ídolos e a morte de Deus. Simmel aponta a perda da sensibilidade na vida das grandes cidades. A busca de Proust é pelo tempo perdido. Freud concebe uma pulsão de morte que trabalha em nós silenciosamente. Benjamin refere-se não apenas à perda da aura, mas também à privação da experiência coletiva e à extinção da narrativa que era capaz de transmitir uma sabedoria e um conselho. Hannah Arendt reflete sobre isso nos termos da perda da autoridade. Nas artes plásticas, a figura do homem e a representação da natureza são abandonadas por vários artistas. Etc.

Nesse sentido, Kafka produz um dos mais radicais relatos dessa falta constituinte. Benjamin escreveu que igualmente o mundo de Kafka é “um teatro do mundo. Para ele, o homem está desde o início no palco”. E se esse teatro tem “o céu como perspectiva”, “este céu é apenas pano de fundo; investigá-lo segundo sua própria lei significaria emoldurar um pano de fundo teatral e pendurá-lo numa galeria de quadros. Como El Greco, Kafka despedaça o céu”. Tudo está ali, portanto, mas como um astro que colapsa: são narrativas do desastre, diria Blanchot.

Suas parábolas são lapidares. Se ao narrador tradicional era confiada a passagem da experiência, um ancião no leito de morte seria a sua figura exemplar: um moribundo, detentor da autoridade da velhice, arranca a experiência do limiar do indizível, e assim pode passá-la adiante; como um anel, como um símbolo ou seu fragmento poderiam ser passados. Mas o que os anciãos de Kafka transmitem? Talvez não haja ruína mais eloquente do que a intitulada “Uma mensagem imperial”, de 1919:

O imperador – assim consta – enviou a você, o só, o súdito lastimável, a minúscula sombra refugiada na mais remota distância diante do sol imperial, exatamente a você o imperador enviou do leito de morte uma mensagem. Fez o mensageiro se ajoelhar ao pé da cama e segredou-lhe a mensagem no ouvido; estava tão empenhado nela que o mandou ainda repeti-la no seu próprio ouvido. Com um aceno de cabeça confirmou a exatidão do que tinha sido dito. E perante todos os que assistem à sua morte – todas as paredes que impedem a vista foram derrubadas e nas amplas escadarias que se lançam ao alto os grandes do reino formam um círculo – perante todos eles o imperador despachou o mensageiro. Este se pôs imediatamente em marcha; é homem robusto, infatigável; estendendo ora um, ora o outro braço, ele abre caminho na multidão; quando encontra resistência aponta para o peito onde está o símbolo do sol; avança fácil como nenhum outro. Mas a multidão é tão grande, suas moradas não têm fim. Fosse um campo livre que se abrisse, como ele voaria! – e certamente você logo ouviria a esplêndida batida dos seus punhos na porta. Ao invés disso porém – como são vãos os seus esforços; continua sempre forçando a passagem pelos aposentos do palácio mais interno; nunca irá ultrapassá-los; e se o conseguisse nada estaria ganho: teria de percorrer os pátios de ponta a ponta e depois dos pátios o segundo palácio que os circunda; e outra vez escadas e pátios; e novamente um palácio; e assim por diante, durante milênios; e se afinal ele se precipitasse do mais externo dos portões – mas isso não pode acontecer jamais, jamais – só então ele teria diante de si a cidade-sede, o centro do mundo, repleto da própria borra amontoada. Aqui ninguém penetra; muito menos com a mensagem de um morto. – Você no entanto está sentado junto à janela e sonha com ela quando a noite chega.

“Você”, isto é, nós estamos desamparados, afinal mostra-se improvável a chegada do mensageiro, portador do símbolo, responsável pela autentificação e a continuidade do sentido, do segredo, da verdade. Como um comentário sem fim, os textos de Kafka se estendem como um denso véu que trama e enfim expõe um sentido sempre em falta: diante da microfísica do poder, abrem dessa maneira um hiato, um vazio intenso, que ao mesmo tempo suplementa e arruína a suposta unidade do simbólico – e, por extensão, o entendimento da modernidade capitalista como ápice do progresso histórico, do desenvolvimento cultural etc.

De certa maneira, trata-se da passagem da transparente estabilidade do símbolo à mediação contingente da alegoria. “Realmente”, escreveu Jeanne-Marie Gagnebin a propósito desse duplo de Kafka que foi Walter Benjamin, “desde Goethe e do romantismo alemão, o símbolo é sinônimo de totalidade, de clareza e de harmonia, enquanto a alegoria é recusada por sua obscuridade, seu peso e sua ineficiência”. E ainda: “enquanto o símbolo clássico supõe uma totalidade harmoniosa e uma concepção do sujeito individual em sua integralidade, a visão alegórica não pretende qualquer totalidade, mas instaura-se a partir de fragmentos e ruínas. Ao mesmo tempo, a identidade do sujeito se esfacela, incapaz que é de recolher a significação desses fragmentos”.

Intérpretes de nossa singular situação já afirmaram que, no Brasil, estaríamos condenados ao moderno. O que poderia ser entendido como: neste espaço que foi invadido, explorado e segue sendo dilapidado por uma razão positiva, de fato a ruína parece mostrar-se como a cifra mais potente de uma modernidade que, colocando-se sob o signo da ilustração, nasceu, no entanto, obnubilada. Neste caso, lida sob o sol cegante dos trópicos, talvez a obscuridade de Kafka ajude a esclarecer alguns dos nossos impasses históricos e o trabalho que ainda nos cabe. Como anotou o escritor num conhecido aforismo: “Ainda nos impõem fazer o que é negativo; o positivo já nos foi dado”.

Artur de Vargas Giorgi é Professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

(Publicado ogirinalmente no site da revista Cult)

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Tijolinho: Raquel Lyra lidera pesquisa para o Governo do Estado.

A este editor não surpreende o fato de a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra(PSDB-PE), liderar as primeiras pesquisas de intenção de voto para o Governo do Estado, nas eleições de 2022. Este fato confirma, apenas, algumas previsões já externadas aqui pelo blog, onde apontávamos que ela estaria muito bem posicionada nas pesquisas, em razão da boa avaliação de sua gestão. Ser mulher, neste momento, também ajuda, mas este fato não seria, assim, tão determinante. Até o momento ela tem se mostrado discreta nas suas movimentações, mas não se pode esquecer a  condição estratégica ocupada pela Princesa do Agreste, que irradia sua influência sobre várias microrregiões do Estado. 

Até recentemente, sua gestão foi avaliada como a mais transparente do Estado, que trata-se de uma espécie de selo de bom comportamento do gestor na condução dos negócios de Estado. Curioso que aquilo que deveria ser a regra na gestão do executivo - em todos os níveis, registre-se - torna-se um diferencial que pode credenciar o gestor para aspirações mais altas. Exceto em relação aos adversários históricos da família Lyra no município, Raquel tem aberto várias frentes de diálogo com os parlamentares do Estado, diálogo que tem se traduzido em obras para o município. Esse leque inclue gente do PT ao DEM.  

Como havíamos antecipado, o ex-prefeito Geraldo Júlio(PSB-PE) deve ser mesmo o ungido a disputar o Governo do Estado pela situação. Por um levantamento publicado por um blog local, a partir de pesquisa realizada pelo Instituto Opinião, ele ocupa a terceira posição na disputa, logo abaixo do representante da família Coelho, o prefeito Miguel Coelho(DEM-PE), que ocupa a segunda posição. Miguel, diferentemente de Raquel Lyra, tem se movimentado bastante, realizando um verdadeiro périplo pelas diversas regiões do Estado.  

domingo, 24 de outubro de 2021

Editorial: Os apuros de João Dória nas prévias tucanas.

 


A despeito de todos os problemas, o governador paulista, João Doria Junior(PSDB-SP), construiu um capital político nada desprezível, num importante Estado da Federação, São Paulo, que possui um dos colégios eleitorais mais significaivos do país. Tem boas credenciais, como uma gestão bem avaliada e o cacife de ter tomado as medidas corretas no tocante à vacinação da população, o que o projetou nacionalmente, diante dos atropelos iniciais desse processo.  Junta-se a isso as sua espetise no mundo corporativo, o que o tornou um ator bastante competitivo no campo político. Mesmo com todo esse currículo, Doria enfrenta sérios problemas nas prévias tucanas, onde o governador gaúcho, Eduardo Leite(PSDB-RG), hoje, apresenta-se como um nome com possibilidades concretas de virar o jogo ao seu favor,  vencendo  os embates internos dentro do ninho tucano. 

Um dos motivos é que Doria é uma espécie de trator, capaz de atropelar pela frente qualquer obstáculo que se interponha às suas ambições políticas. As raposas políticas tucanas já perceberam isso claramente e acenam para a possibilidade de referendar um nome que seja mais contido e ponderado, capaz de abrir as negociações políticas em torno da viabilidade de uma "terceira-via' na disputa presidencial de 2022. Caciques das legendas que se aglutinam em torno dessa perspectiva já anteciparam que não haveria negociação com os tucanos se o nome referendado pelas prévias recair sobre o governador João Dória Júnior. 

Na realidade, grosso modo, a ideia das prévias tucanas - embora concebidas com as melhores intenções - parece que não estão dando muito certo. O debate entre Doria e Eduardo Leite foi aguado, morno, circunscrito, sem que acrescentasse, de fato, um plano nacional de governo dos candidatos, algo que pudesse acenar positivamente para um eleitorado maior, para além do ninho tucano. Diante disso, o fato cocreto é que o nome de Eduardo Leite passsou a ser melhor digerido pelo tucanato. Talvez nem tanto por suas qualidades, mas em razão da desconfiança e rejeição ao governador paulista, que costuma deixar desafetos pelo caminho, seja fora, seja dentro do ninho tucano. Até o senador Tasso Jereissati(PSDB-CE), que realizou um trabalho de destaque na CPI da Covid-19 e disputaria as prévias, já declarou seu apoio ao governador gaúcho. 

A este editor surpreendeu o fato de uma revista de circulação nacional ter apontado o Estado de Pernambuco entre os quais o diretório do partido ter declarado apoio ao nome de Edurdo Leite. Pelo andar da carruagem política, quando esteve aqui na província, a recepção ao governador paulista foi bem mais efusisva, tendo ele proferido um discurso já como se fosse, de fato, um candidato presidencial. Vamos aguardar os resultados das prévias, mas Doria, que aparecia no início como um postulante favorito, hoje figura como um azarão.   

Charge! Duke via O Tempo!

 


Publisher: Some air, please!

 


The English writer, George Orwell, died at a very young age, at the age of 47, after producing an extensive - and equally important - literary work. His most emblematic texts are framed within the scope of what is conventionally called 'dystopian literature', mainly due to books such as "The Animal Revolution" and "1984", today a recurrent text to understand the dynamics and working gears of authoritarian political regimes, also known as "dictatorships of a new kind". It is curious to observe how the categories established by George Orwell, in "1984", fit perfectly into these new dictatorships, as already observed by the French philosopher Michel Onfrey, who produced an exquisite essay dealing with this subject. During the period of the Trump Administration, in the United States, "1984" sold like water, which means that not only the academy, but the common citizen also observed there, in the pages of the book, elements to better understand what was going on at that political moment.

But, as I said, the work of the British writer is extensive and there are other important books, possibly inserted within the same conformation of dystopian literature, such as the one that gives title to this editorial: "A little air, please". Orwell also went through great financial difficulties, trying to survive as a writer, which resulted in the text: "At worst in Paris and London". Although someone has already said that getting lost in Paris would not be the worst of punishments. Anyway, like every human being who goes through this plane, Orwell suffered some disappointments, including one of a political nature: the experience of real socialism in the former Soviet Union, especially the Stalinist period. Orwell fought the Franco dictatorship in Spain and flirted with socialism. From the disappointment with the direction taken by the 1917 Revolution, resulted the fable: "The Animal Revolution", where oppressed animals, after overthrowing the oppressor capitalist, owner of the farm, end up becoming equally oppressors.

This long introduction comes in connection with the delicate moment that the country is going through, which simultaneously brings together a political/institutional crisis, a disheartening social situation and a bankrupt economy, with double-digit inflation, fiscal irresponsibility, a significant increase in the cost of living , aggravated by high unemployment rates and concrete prospects of little pigs ahead. Worst impossible scenario, which led journalist Josias de Souza to make some conjectures about the upcoming presidential elections, concluding that the next president needs to have an agenda not only oriented by the anti-government, but one that offers some encouragement, a ray of hope, a little of air for this mass of disinherited, with self-esteem in limbo. To paraphrase George Orwell, we do need some air, please! If the tragedy of more than 600,000 people killed by the corona virus pandemic were not enough, today we have to accompany people "robbering" garbage cars in search of food scraps on the streets on the outskirts of Fortaleza; the lines of bones in the butchers; like the chicken's feet, carcasses and necks sold in supermarkets and butchers to our smug, bigoted, cocky, rich middle class, the first-time ally of our disgusting elite.

Editorial: Um pouco de ar, por favor!!!


O escritor inglês, George Orwell, morreu ainda muito jovem, aos 47 anos de idade, depois de produzir uma extensa - e igualmente importante - obra literária. Seus textos mais emblemáticos são enquadrados dentro do escopo daquilo que se convencionou chamar de 'literatura distópica', principalmente em razão de livros como "A Revolução dos Bichos" e "1984", hoje um texto recorrente para se entender a dinâmica e engrenagens de funcionamento dos regimes políticos autoritários, também conhecidos como "ditaduras de um novo tipo". Curioso observar como as categorias estabelecidas por George Orwell, em "1984", se encaixam perfeitamente nessas novas ditaduras, conforme já observou o filósofo francês Michel Onfrey, que produziu um primoroso ensaio tratando deste assunto. Durante o período do Governo Trump, nos Estados Unidos, "1984" vendeu como água, o que signifca dizer que não apenas a academia,mas o cidadão comum também observou ali, nas páginas do livro, elementos para compreender melhor o que estava se passando naquele momento político. 

Mas, como disse, a obra do escritor britânico é extensa e há outros livros importantes, possivelmente inseridos dentro da mesma conformação de literatura distópica, como o que dá título a este editorial: "Um pouco de ar, por favor". Orwell também passou por grandes dificuldades financeiras, tentando sobreviver como escritor, o que resultou no texto: "Na pior em Paris e Londres". Embora alguém já tenha afirmado que se perder em Paris não seria, assim, o pior dos castigos. Enfim, como todo ser humano que passa por este plano, Orwell amargou algumas decepções, inclusive uma de natureza política: a experiência do socialismo real na antiga União Soviética, principalmente o período stalinista. Orwell lutou contra a ditadura franquista na Espanha e flertou com o socialismo. Da decepção com os rumos tomados pela Revolução de 1917, resultou a fábula: "A Revolução dos Bichos", onde animais oprimidos, depois de derrubarem o capitalista opressor, dono da fazenda, acabam se tornando igualmente opressores. 

Essa longa introdução vem a propósito do memento delicado que passa o país, que congrega, simultaneamente, uma crise político\institucional, um quadro social desalentador e uma economia em bancarrota, com inflação de dois dígitos, irresponsabilidade fiscal, aumento sensivel do custo de vida, agravado pelas altas taxas de desemprego e perspectivas concretas de pibinhos pela frente. Pior cenário impossível, o que levou o jornalista Josias de Souza a fazer algumas conjecturas acerca das próximas eleições presidenciais, concluindo que o próximo presidente precisa ter uma agenda não unicamente orientada pelo antigoverno, mas que ofereça algum alento, um fio de esperança, um pouco de ar para essa massa de deserdados, com a auto-estima no limbo.Parafraseando George Orwell, precisamos, sim, de um pouco de ar, por favor! Já não fosse suficiente a tragédia dos mais de 600 mil mortos pela pandemia do corona vírus, hoje temos que acompanhar populares "assaltarem' carros de lixos à procura de restos de comidas pelas ruas da periferia de Fortaleza; as filas dos ossos nos açougues; assim como os pés, carçaças e pescoços de galinha comercializados em supermercados e açougues para a nossa classe média cheia de empáfia, preconceituosa, metida a rica, aliada de primeira ora de nossa elite asquerosa.  

sábado, 23 de outubro de 2021

Tijolinho: Afinal, quem será o candidato da situação ao Governo do Estado nas eleições de 2022?



Eis aqui um assunto difícil de ser tratado, sem que incorramos por algumas conclusões que podem não soar como música aos ouvidos sensíveis de parte daqueles que nos dão a honra de acompanhar nossas postagens e, principalmente,dos atores políticos diretamente envolvidos nessas análises. O momento político vivido pelo país está excessivamente polarizado, o que não ajuda muito essas discussões. Em tais circunstâncias, o fígado parece ser um órgão mais importante do que o cérebro e a tolerância desceu aos níveis mais baixos. A questão em lide trata de um assunto que vem movimentando a quadra política pernambucana nos últimos dias: O candidato da situação ao Governo do Estado nas eleições de 2022. Existem algumas premissas que podem ser determinantes para chegarmos a algum consenso sobre este assunto. Não gosto muito desse formato de construção de textos - pois fica parecendo algo como a enumeração de enunciados, com claros prejuízos de aprimoramento das narrativas.Em certa medida, pode até ser mais didático, mas sinto que, com o texto corrido, há uma maior liberdade na exposição. Em todo caso, vamos a essas premissas, devidamente enumeradas, conforme determina o figurino.   

1.1 - Conforme observou Ciro Gomes(PDT-CE) mais recentemente - consoante uma estratégia de bater forte em Lula e Bolsonaro, com o propósito de definir seu espaço na disputa presidencial - Lula está celebrando os mesmos padrões de alianças políticas articuladas no passado, o que inclue algumas figuras emblemáticas do MDB, que teriam a chance de voltar à ribalta política na caravana do petista. A entrega da gestão da máquina pública, em governos anteriores, a estes senhores ou seus prepostos, não se mostrou muito prudente no tocante aos interesses das res pública. Todos os brasileiros sabem disso, não precisava que Ciro Gomes nos alertatasse para essa questão. Lula adota uma estratégia muito parecida - e antiga - como aquela revelada em uma entrevista concedida a um jornal do ABC Paulista, quando ele ainda era um torneiro mecânico que tornou-se sindicalista e desejava entrar para a seara política: "Não importa a cor do voto, desde que ele caia na urna".É puro pragmatismo político. O MDB e o PSB, inclusive, ofereceram lastro de apoio político ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff(PT-MG). Nenhuma surpresa, portanto, com o arco de alianças políticas montados pelo petista, orientadas pela perspectiva de lograr êxito na disputa presidencial, em detrimento de outras perspectivas, o que explica, por exemplo, o fabuloso lucro das instituições financeiras em seus governos, assim como a inviabilidade de algumas reformas reclamadas pelo país, como a reforma agrária, tributária e política. Falo com a autoridade de quem reconhece, ao longo da existência deste blog, as enormes conquistas no tocante à democracia substantiva da gestão da coalizão petista. 

1.2 - Lula deu seu start político para as eleições presidenciais de 2022 aqui no Estado de Pernambuco, em visita ao Governador Paulo Câmara(PSB-PE). Pernambuco é um Estado emblemático por diversos motivos e não apenas por ser seu Estado natal. O governador Paulo Câmara foi o primeiro a ser ouvido no seu bunker, em Brasília, numa demonstração clara da importância das costuras políticas aqui na província para o seu projeto de voltar a ocupar o Palácio do Planalto, onde há nomes influentes nacionalmente entre os dirigentes socialistas. Até recentemente, um dirigente nacional da legenda deixou claro que o prefeito João Campos(PSB-PE) teria um papel decisivo na escolha do candidato presidencial que deverá ter o apoio do partido, o que pode ser entendido, igualmente, que ele exercerá influência na mesma proporção na decisão sobre a escolha do candidato da situação ao Governo do Estado nas eleições de 2022. João tem uma dívida de gratidão com Geraldo Júlio(PSB-PE), que respeitou religiosamente os acordos sobre a herança do espólio político e eleitoral do ex-governador Eduardo Campos. Com o tempo e a experiência, vem aplainando as rusgas criadas com o PT, mas as cicatrizes permanecem, algumas delas contraídas durante a última campanha para a Prefeitura da Cidade do Recife. Ainda existem dois outros nomes nas hostes socialistas que poderiam disputar o Governo do Estado nas eleições de 2022. Um deles é o do Secretário da Casa Civil, José Neto, político experiente, que já exerceu vários cargos no Governo. É oriundo do Tribunal de Contas do Estado - um celeiro de lideranças socialistas - e considerado um cidadão de excelente trato com os correligionários e até mesmo em relação aos adversários do governo. Um gentleman. Outro nome ventilado é o da Secretária de Infraestrutura, Fernandha Batista, que vem realizando um bom trabalho na pasta e é mulher, um diferencial hoje importante, numa época de empoderamento feminino. Como disse em textos aqui no blog, talvez seja mesmo o momento delas. Ainda nesta semana, a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra(PSDB-PE), praticamente definiu que será candidata ao Governo do Estado nas próximas eleições estaduais. A incansável Marília Arraes(PT-PE) também permanece em sua cruzada.     

1.3 - Como disse antes, o senador Humberto Costa(PT-PE) é o nome da confiança de Lula aqui no Estado. Sua âncora e bússola política.  Isso desde os tempos difíceis da Brasília Amarela. O morubixaba petista nutre respeito, carinho e admiração pela Deputada Marília Arraes(PT-PE), mas, se o partido tiver a chance de emplacar um nome, o ungido será o senador Humberto Costa. Portanto, se o arranjo político entre socialistas e petistas permitir a indicação de um nome do PT como cabeça de chapa, já se sabe quem será indicado. O nome de Marília Arraes, além dos problemas internos ao PT, seria menos digerido entre os socialistas. Marília Arraes teria alguma chance se a aliança não se efetivar e o PT resolver caminhar em faixa própria.  

1.4 - O PSB local deve manter-se num alinhamento antibolsonarista, o que torna improvável a adoção de uma política de alianças que envolvam forças que gravitam em torno do apoio ao presidente Jair Bolsonaro, como chegou-se a especular, invocando-se um suposto realinhamento com a família Coelho. O rebento da família já está em suas caravanas pelo Estado e o patriarca continua como um fiel escudeiro do presidente. As costuras para viabilizar uma candidatura ao Governo do Estado do prefeito Miguel Coelho(DEM-PE), embora tenha contado com o apoio importante do pai, hoje, é menos dependente dos seus movimentos. Esta é, aliás, uma posição estratégica do senador Fernando Bezerra Coelho(MDB-PE). Sua posição é a garantia de viabilização de obras para o Estado, o que se traduz num bom capital político para os projetos do filho candidato. Há outras possibildides de alianças, ainda no plano das especulações, mas essas dependem dos arranjos políticos celebrados no contexto federal, envolvendo candidaturas presidenciais. Ciro Gomes, por exemplo, tem um bom trânsito com o PSB, inclusive com João Campos(PSB-PE), a quem ajudou na última disputa municipal. 

1.5 - A peça-chave neste tabuleiro do xadrez político pernambucano que envolve a tomada de decisão sobre quem concorrerá, pela situação, ao Governo do Estado nas eleições de 2022 é aquela peça com plenos poderes, que tudo pode no tabuleiro. A família Campos não abdicará de manter o controle do processo sucessório, o que significaria, em última análise, correr um risco maior no sentido de assegurar o espólio político e eleitoral entre os herdeiros do clã. Geraldo Júlio tem um histórico de fidelidade a este projeto, o que significa um grande trunfo. Os novos nomes nas hostes socialistas ainda não foram testados. Humberto Costa poderia assumir este compromisso, sem maiores delongas, em nome do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores no plano nacional. O risco de uma dissidência posterior, no entanto, passaria, de fato, a existir. Portanto, ele tem menos chances de ser o ungido, embora a presença nos eventos, ao lado do governador, não deixe de ser um indicativo positivo para qualquer aspirante.    

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Editorial: O flagelo da fome sempre assustou o país. Difícil dizer quando ele foi mais cruel.


Em meados da década de 80 do século passado, com a queda do Muro do Berlin, alguns bons filmes foram produzidos tratando do embate ideológico entre capitalistas e os herdeiros da tradição do realismo socialista. Salvo melhor juízo, um desses filmes foi o conceituado "Adeus, Lênin", do diretor Wolfgang Becker. No filme, cujo enredo gira em torno de uma senhora que permanece em estado de coma por ocasião do desmoronamento da Alemanha Oriental, há um diálogo interessante, que evidencia uma questão que já havia sido invocada pelo filósofo político italiano, Norberto Bobbio, tratando daquela equação que os regimes políticos - nem a decantada democracia, tampouco as experiências do socialismo real - conseguiram, de fato, enfrentar, ou seja, um equilíbrio entre liberdade e igualdade. 

A propalada "liberdade" capitalista, sob os regimes de democracias burguesas, produzem muitas desigualdades sociais. Por outro, lado, as experiências do socialismo real, frequentemente, subverteram as liberdades individuais e coletivas, num projeto que se propunha a combater as desigualdades sociais ou econômicas entre os indivíduos. Mas, voltemos ao diálogo do filme, que nos oportunizará um debate sobre a produção das desigualdades no país, flagelo denunciado pelo sociólogo pernambucano Josué de Castro desde a década de 40 do século passado, em estudos como A Geografia da Fome.

No filme, dois cidadãos, um deles entusiasta das mudanças advindas com a reunificação da Alemanha sob o regime capitalista - desses que festejaram a chegada da Coca-Cola naquele país - o outro, uma espécie de saudosista da organização da vida  social, cultural e econômica engendrada pelo regime da Alemanha Oriental, estão num shopping center, cada qual observando o ambiente com os seus "filtros". O capitalista observa que os problemas de "desabastecimentos" haviam sido superados. As gôndolas estavam repletas de alimentos oferecidos à população. Naturalmente, aquele contingente da população com as possibilidades de acesso ao consumo. Este, então, comenta para o outro: Estás vendo? agora já não existem problemas de desabastecimentos, de cotas, longas filas, de restrições de consumo, o que era recorrente na Alemanha Oriental. O outro cidadão, saudosista do socialismo real, concentra-se numa cena e chama a atenção do seu interlocutor para uma pequena aglomeração de pessoas que se juntavam no lixo do supermercado, comentando: Na Alemanha Oriental, com todos os problemas, era comum encontrar ratos nas latas de lixo, não pessoas. 

Esquecendo um pouco as crises política e institucional - como se isso fosse possível - o país enfrenta sua maior crise econômica e social: a insegurança do mercado, dólar em alta, ausência de lastro fiscal para bancar o novo Bolso Família, recessão, desemprego e inflação em alta. Enfim, uma tempestade perfeita. Não é de hoje que contingentes expressivos da população está voltando à condição de extrema pobreza, fato agravado pela pandemia do corona vírus. Chocante é observar os reflexos dessa crise no nosso cotidiano, como as filas para pegar ossos nos açougues, a oferta de pés de galinha nas gôndolas dos supermercados, o assalto dos esfomeados ao caminhão do lixo - fato ocorrido num bairro da periferia de Fortaleza, no Ceará, curiosamente filmado por um motorista de aplicativo. Para completar o cenário desolador da semana, a embalagem de carne vazia daquele supermercado, que alcançou ampla repercussão nacional, mobilizando os órgãos de defesa do consumidor.  

Quando o Bolsa Família foi criado, seus defensores, em resposta aos seus críticos,  afirmavam que seria preciso dar comida a quem tem fome, obedecendo aquele princípio cristão, com o qual este humilde editor concorda. É fundamentalmente importante, no entanto, do ponto de vista das políticas públicas para a população de baixa renda, melhorar os índices de desenvolvimento, oportunidades educacionais, gerando emprego e renda, algo mais consistente e perene para superar as desigualdades sociais. Afirmam os especialistas que este efeito "bumerangue" - que leva miseráveis a voltarem a ser miseráveis - deve-se ao fato de essas medidas paliativas não terem sido acompanhado de outras medidas mais efetivas. Portanto, a questão não é se o auxílio deve ser de R$ 400,00 ou R$ 600,00, mas, sobretudo, se a economia do país voltará a crescer. No momento, os sinais não são nada promissores, o que significa dizer que cenas como as mostradas nas filmagens do bairro de Fortaleza tendem a se repetir em outras praças do país, com o flagelo da fome voltando a nos assustar novamente. Aliás, como sempre.  

Charge! Duke via O Tempo

 


domingo, 17 de outubro de 2021

Editorial: A avenida eleitoral da terceira via.


Enquanto o governador João Dória(PSDB-SP)apresenta as credenciais de ter o apoio de 98% dos prefeitos tucanos do seu Estado nas prévias que escolherá o nome que deve disputar, pelo partido, as eleições presidenciais de 2022, o governador gaúcho, Eduardo Leite(PSDB-RS), que também está na disputa, recebe o apoio discreto do tucano mineiro, Aécio Neves(PSDB-MG), que, apesar do desgaste, ainda exerce forte influência sobre a máquina do partido naquele Estado, constituindo-se num apoio importante para os planos do governador gaúcho. 

Um outro mineiro, o presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco(DEM-MG), que também tem planos de lançar-se candidato à Presidência da República nas eleições presidenciais de 2022, tenta atrair a senadora Simone Tebet(MDB-MS), para acompanhá-lo nesta jornada, a quem considera a vice dos sonhos. Ainda neste mesmo diapasão, depois de muitas conversas, o ex-juiz da Lava-Jato, Sérgio Moro, filiou-se ao Podemos e também deve disputar os votos dos eleitores que estão dispostos a apostarem numa alternativa eleitoral que possa quebrar essa polarização política entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva(PT-SP) e Jair Bolsonaro, ainda sem partido. 

Mas, afinal, por que essa terceira via estaria atraindo a atenção de tantos candidatos? Há, de fato, alguma alternativa de um candidato com este perfil embolar o baralho das eleições presidenciais de 2022? Sim e não seriam as respostas mais prudentes. Há quase um consenso de que esta polarização política não está fazendo muito bem ao país. O eleitorado mais consequente parece ter chegado a esta conclusão. Não deseja que sigamos com este governo, tampouco deseja que retornemos aos tempos passados, com as velhas raposas políticas no comando da máquina pública, conduzidas, não necessariamente, de forma republicana. 

Pesquisas qualitativas poderiam trazer um raio "X" mais preciso sobre este tema, mas, a rigor, este parece ser o ponto fulcral que explica a insatisfação de parcela significativa do eleitorado com as alternativas eleitorais que ora se apresentam para a disputa presidencial de 2022. Por alguma razão, o terceiro candidato, Ciro Gomes(PDT-CE), não consegue quebrar essa polarização, embora tenha se esforçado bastante com este propósito. Com uma estratégia de comunicação concebida pelo marqueteiro João Santana - que já prestou serviços ao PT no passado - tem falado para o eleitorado mais jovem, menos infensos a Lula e Bolsonaro, e batido forte nos dois para diferenciar-se. Ciro, no passado, foi uma aliado do PT. No momento, não vê nenhum problema em aliar-se a apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, flertando com setores do centro e até do centro para a direita. Ou seja, precisa construir urgentemente uma "identidade" junto a este eleitorado, se deseja credenciar-se como alternativa aos dois. 

Como diria um ex-colega de trabalho - que morreu de Covid-19, infelizmente - há uma avenida eleitoral que precisa ser conquistada. Os últimos levantamentos indicam que já existem 30% do eleitorado dispostos a votarem num candidato da terceira via. Mas este candidato ainda não tem rosto ou um nome. Essa disputa promete.    

Pequeno glossário foucaultiano

 

Redação

Pequeno glossário foucaultiano
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O filósofo francês Michel Foucault (Reprodução)

 

Arqueologia

Termo usado durante os anos 1960 para descrever sua abordagem da escrita da história. Ela diz respeito ao exame dos traços discursivos deixados pelo passado de modo que escrevesse uma “história do presente”.

 

Biopoder

Trata-se de uma tecnologia que surgiu no final do século 18 para administrar as populações. Incorporando elementos do “poder disciplinador”, o biopoder diz respeito ao controle de nascimentos, mortes, reprodução e enfermidades de uma dada população.

 

Cultura

Segundo A hermenêutica do sujeito, a cultura descreve uma “organização hierárquica de valores, acessível a todos, mas que, ao mesmo tempo, é a oportunidade para se manifestar um mecanismo de seleção e exclusão”.

 

Descontinuidade

Princípio que, assim como os de ruptura e diferença, mina as noções filosóficas da essência imutável da história, como “homem” e “natureza humana”. A descontinuidade desafia as noções de causa, efeito, progresso, destino e influência na história.

 

Dispositivo

Designa as estruturas do conhecimento e os vários mecanismos institucionais, físicos e administrativos que propiciam e mantêm o exercício do poder dentro do corpo social.

 

Heterotopia

Em oposição à utopia – espaço do virtual –, heterotopia significa um espaço apartado das instituições social e institucional cotidianas: manicômios, prisões, cemitérios.

 

Normal e patológico

A sociedade é baseada em noções médicas de norma, e não em noções legais de conformidade aos códigos e à lei – por isso os criminosos precisam ser “curados”. Há tensão insolúvel entre um sistema baseado na lei e outro em normas médicas.

 

Pan-óptico

Conceito do filósofo Jeremy Bentham do fim do século 18, agrupava celas em torno de uma torre de observação central e foi usado como modelo para instituições como prisões. Para Foucault, é a metáfora do poder e da vigilância na sociedade.

 

Verdade

Algo que “acontece” e é produzido por várias técnicas, e não algo que existe previamente, aguardando para ser descoberto. Foucault não quer “contar a verdade”, mas estimular as pessoas a terem elas mesmas uma experiência particular.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

sábado, 16 de outubro de 2021

Tijolinho: A vez das mulheres na política pernambucana: Raquel Lyra é candidatíssima.


Há alguns dias ando refletindo sobre o papel das mulheres na política pernambucana. Este assunto, naturalmente, mereceria um estudo mais aprofundado, possivelmente a partir de um projeto de pesquisa muito bem estruturado, o que foge aos propósitos deste blog. Mas, pontualmente, podemos fazer algumas considerações a este respeito, sobretudo em razão da nossa possível acuidade em observar os acontecimentos da política pernambucana, desde algum tempo, não sem os reveses inerentes àqueles que ousam criticar algumas práticas do "fazer" político provinciano. 

Confesso que talvez tenha chegado o momento "delas", se considerarmos fatores como liderança política, gestão da máquina, fiscalização das contas públicas, inserção nos movimentos sociais, políticas públicas voltadas para os mais fragilizados socialmente, ativismo político, entre outros indicadores. Assim como no plano nacional, o eleitorado demonstra estar saturado de uma mesmice que tem se mostrado danosa aos interesses republicanos. Aqui na província há indícios de uma espécie de decadência do "macho" na política. Ou, mais precisamente, das práticas desses "machos" na condução dos negócios de Estado.  

Por outro lado, as mulheres da política pernambucana estão realizando um trabalho excepcional, seja nos executivos municipais, seja nas casas legislativas - o que as habilitariam para uma experiência no Executivo Estadual, como é o caso da prefeita de Caruaru, Raquel Lyra(PSDB-PE), da Deputada Federal, Marília Arraes(PT-PE), da Deputada Estadual Priscila Krause(DEM-PE). Há, inclusive, um bom trânsito e um diálogo político profícuo entre elas, com alguns analistas até apontando, quem sabe, a formação de uma chapa feminina raiz, ou seja, formada por duas mulheres. Uma na cabeça de chapa e outra como vice-candidata ao Governo do Estado nas eleições de 2022.  

Não guardo afinidades ideológicas com Priscila Krause, mas reconheço o seu papel como uma grande parlamentar do Estado. Faz política de forma republicana, com sensibilidade social e respeito pela coisa pública. Agora mesmo está exigindo um posicionamento do Governo do Estado em relação a um servidor que teria, segundo investigação conduzida pela Polícia Federal, transgredido as boas regras exigidas na gestão dos negócios de Estado.   

Charge! Duke via O Tempo!

 


Editorial: O lugar de Ciro na disputa presidencial de 2022


Li, como muita atenção, um artigo do cientista político Fernando Schüler, onde ele discute, orientado pela teoria e pelas pesquisas empíricas, o arrefecimento da "onda conservadora" que varreu o país nos últimos anos, diretamente responsável pela eleição de candidatos conservadores e pelo exponencial crescimento dos níveis de intolerância de gênero, raça e orientação sexual no país, estimulando, inclusive, o surgimentos de grupos de tendência neofascista. 

Na realidade, o país, com as suas especificidades, experimentou os reflexos de um tsunami que varreu os cinco continentes. Muito bom saber que este tsunami conservador- de corte anticivilizatório - já emite sinais de um arrefecimento. Convém ficar atento sobre se essa tendência irá se repetir pelos próximos anos, indicando, de fato, uma queda na série histórica, pois, somente assim poderemos falar em novos avanços civilizatórios, como não permitir a vergonha da fome - ou insegurança alimentar, para usarmos o jargão dos conservadores - que ainda atinge 24 milhões de brasileiros e brasileiras, que não sabem se vão comer na refeição seguinte. O que houve nos últimos anos, inclusive no país, foi um retrocesso político e civilizatório de proporções gigantescas, comprometendo, inclusive, o tecido democrático dos países por onde essa onda passou. 

Neste contexto, por outro lado, a semana política está com a temperatura em alta, com a expectativa em torno da apresentação do relatório da CPI da Covid-19; a especulação de uma provável candidatura conservadora, que disputaria a eleição presidencial pela terceira-via, encabeçada pelo ex-ministro da Lava-Jato, Sérgio Moro, que já se filiou ao Podemos; e as indisposições entre pedetistas e petistas, depois das declarações do candidato Ciro Gomes(PDT), que afirmou que Lula está novamente se juntando com atores políticos pouco confiáveis e teria sido o responsável direto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a quem tratou como incompetente.  

Depois de três candidaturas presidenciais, o ex-governador Ciro Gomes(PDT-CE) ainda não encontrou o seu lugar na disputa presidencial de 2022, o que o estaria levando a cavar esse espaço numa manobra de comunicação das mais ousadas, ora jogando petardos contra Lula(PT-SP), ora jogando petardos contra Jair Bolsonaro(Sem Partido). Dentro das margens de erro, seus percentuais permanecem os mesmos das disputas anteriores, oscilando entre 12% e 10% do eleitorado. Não sei se ele teria fôlego para uma nova disputa presidencial, daí se entender a sua ansiedade, mesmo a um ano da disputa, quando novos fatos poderão ocorrer antes do pleito. 

O publicitário baiano, João Santana, ex-coordenador de campanhas petistas, é hoje o responsável por sua estratégia de comunicação, hoje voltada para atingir um eleitorado mais jovens, na faixa dos 16 a 36 anos, segundo estudos, menos infenso a Lula e a Jair Bolsonaro. Seu marqueteiro vem explorando bastante as redes sociais e, na medida do possível, tentando passar uma mensagem de um Ciro conciliador, estilo Paz e Amor, menos destemperado, de pavio curto, como ele ficou conhecido entre os brasileiros. Não se sabe se terão êxito nesse projeto. As próximas pesquisas de intenção de voto poderão indicar o êxito ou fracasso dessa estratégia. O fato concreto é que o candidato sofreu uma enxurrada de críticas nas redes sociais dos petistas raízes, sendo apontado, agora, de misógino, o que se constitui num problema. 

É um grave equívoco - mesmo que não intencional - permitir que uma narrativa discursiva onde transpareça preconceito de gênero se estabeleça. Mesmo com os retrocessos civilizatórios ainda em voga, não seria prudente atacar mulheres, gays ou animais. Isso talvez explique a foto de Lula com a sua cachorrinha de estimação, que inundou as redes sociais na última semana. 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Editorial: Democracia do osso e do pé de galinha

 


Confesso aos nossos leitores e leitoras que nunca fomos muito simpáticos aos chamados "cálculos da democracia", ou seja, àqueles índices que tentam predizer quais seriam as condições ( ou números e indicadores) ideais para viabilizar um regime democrático, seja do ponto de vista político ou econômico. Mas, nos últimos anos, tenho lido bastante os trabalhos do cientista político polonês, Adam Przeworski, e, inevitavelmente, acabamos por ter que lidar com esses números ou indicadores, pois o cientista é simpático à Teoria dos Jogos. 

Para Przeworski, por exemplo, do ponto de vista da democracia política, depois de seis alternâncias sucessivas, (leia-se eleições limpas e soberanas), dificilmente um regime democrático enfrentaria um retrocesso autoritário. Por outro lado, do ponto de vista da democracia substantiva ou econômica, quando uma sociedade atinge um certo percentual de renda per capita, as chances de um retorno autoritário chegam a quase zero. Sobre esta última questão, há, sim, com o que nos preocuparmos. O final da década de 90 do século passado e a primeira década deste século são fundamentais para entendermos o fenômeno da democracia econômica no país, pois caminhávamos para um salto civilizatório dos mais importantes, ou seja, diminuir a níveis toleráveis os índices de miséria no país, afastando milhões de brasileiros da extrema pobreza. 

Os Governos da Coalizão Petista tiraram 36 milhões de brasileiros desta condição, sem a qual, não podemos falar numa democracia consolidada. Mas, tivemos alguns atropelos políticos logo em seguida, o que culminou com a adoção de um receituário ultraliberal, que vem produzindo muita recessão e jogando ao limbo da exclusão alimentar aqueles contingentes que já haviam saído dessa condição. Mais uma razão que reforça nossos argumentos de que a nossa democracia não vai muito bem das penas, como sugerem alguns analistas. Tornou-se uma democracia de pés de galinha ou ossos de carne nos lixões dos supermercados e açougues. Não se sustenta um regime democrático com tantos miseráveis. 

Aqui surge mais um indicador importante, observado pelo professor Fernando Schuller, cientista político e professor do INSPER, ao analisar a forma de enfrentamento deste problema, em artigo recente. A questão estaria mais relacionada à distribuição de renda ou aos indicadores de desenvolvimento econômico? Para o professor, o "x" da questão está relacionado ao desenvolvimento econômico, o que poderia explicar esse efeito bumerangue. Mesmo assim, ao concordamos com ele, vamos de mal a pior, com baixos índices de desenvolvimento econômico, recessão, desemprego em alta e inflação de dois dígitos de volta. Se continuarmos assim, não haverá absorvente que estanque essa sangria, meu caro e ilustre professor.  

domingo, 10 de outubro de 2021

Editorial: Como prender Jean-Paul Sartre?



Quando esteve aqui na província pernambucana, no início da década de 60 do século passado, o filósofo existencialista francês, Jean-Paul Sartre, deixou algumas paixões e, não menos, polêmicas. Era um período de grande efervescência política e cultural, com o Movimento de Cultura Popular em plena atuação, e a gestão da Prefeitura do Recife sob o comando do Dr. Miguel Arraes. Sartre fora convidado para fazer uma palestra na Universidade Federal de Pernambuco, durante um congresso literário, mas acabou ficando um tempo razoável aqui no Recife, aproveitando a oportunidade para experimentar o famoso licor de pitangas do sociólogo Gilberto Freyre e degustar as delícias da culinária pernambucana no Restaurante Leite, o mais antigo do Brasil.  

Sartre, aliás, passaria alguns meses no Brasil, pois a situação política na França não era das melhores, uma vez que, na condição de intelectual engajado, o filósofo defendia, em praça pública, a luta do Exército de Libertação Argelino, que lutava para libertar a Argélia do colonialismo francês. Ciceroneado por Jorge Amado, fez um périplo pelo Estado da Bahia, conhecendo diversos regiões e manifestações culturais do povo baiano, inclusive os principais terreiros de religiões de matriz africana. 

Sartre era um grande ativista político, ao ponto de incomodar profundamente os assessores do então presidente Charles de Gaulle, que recomendaram a sua prisão. Comenta-se que, ao ouvir tais conselhos, De Gaulle teria respondido: Eu até entendo o quanto o filósofo incomoda as ações do Governo Francês, mas como prender Voltaire? Numa referência ao filósofo iluminista François-Marie Arouet, um dos principais ícones da liberdade de expressão, autor da frase: " Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres.'

As reflexões filosóficas de Sartre sempre estiveram ancoradas sob a necessidade de se assumir responsabilidades sociais coletivas, daí seu incansável engajamento político, erguendo barricadas e bandeiras dentro e fora da França, em alguns desses momentos cruciais, acompanhado pelo amigo Michel Foucault. Como um exemplo bem acabado de intelectual total, sua produção literária não fugia a esta regra, pois afirmava que a literatura era uma forma de intervir politicamente na produção da sociedade. 

Essas reflexões vem a propósito sobre o quanto é difícil - e até criminalizável - o exercício da crítica política aqui no Estado de Pernambuco, cuja elite política e econômica ainda vivem sob o estágio do obscurantismo oligárquico, da saudade do regime escravagista, do elogio da dominação. Os expedientes para coagir ou assediar os desafetos são os mais escabrosos possíveis, passando por ações judiciais, distribuição de materiais apócrifos, disseminação de calúnias, utilizando-se, para tanto, em alguns casos, dos instrumentos do aparelho de Estado - nada institucionalizados - para perseguir seus opositores.

Se não existe nada, eles "inventam", 'plantam", de onde se conclui que as chamadas fake news não é algo assim tão recente ou que se possa atribuir, tão somente, ao chamado Gabinete do Ódio. Antes do gabinete do ódio, temos aqui fartos exemplos do gabinete da inveja, da intriga, das práticas persecutórias muito bem instrumentalizadas, atingindo os desafetos em suas diferentes áreas de atuação. Isso vem a propósito dos inúmeros casos registrados aqui na província de perseguições veladas a cidadãs e cidadãos, motivados pelos delitos de opinião. o último diz respeito a um estudante que mantinha uma página de sátiras nas redes sociais. Seria um pouco demais imaginar que os homens públicos pernambucanos, com honrosas exceções - cevados nos expedientes de uma sociedade tacanha em termos de práticas republicanas - tivessem a mesma estatura de um De Gaulle, que entendia que Sartre incomodava bastante, mas era, por outro lado, um patrimônio intelectual do país.