
José Luiz Gomes
Ao seu biógrafo oficial, Edson Nery da Fonseca, Gilberto Freyre confidenciou algo curioso: chegou a concluir o livro Jazigos & Covas Rasas, aquele que completaria a tetralogia de sua obra, abordando como os habitantes da Casa Grande e da Senzala deixam o plano terrestre. Ao viajar ao exterior, deixou o livro envolto num pano vermelho e, ao voltar, não mais o encontrou. Apenas o prefácio da obra teria sido localizado. Trata-se, certamente, de uma perda irreparável não apenas para o sociólogo, sua família, mas para a cultura do país, que foi privada do acesso à análise do tema, produzida por um dos mais importantes intérpretes do país.
Este prólogo, leitores, é para chamar a atenção sobre um acervo recentemente doado à Fundação Joaquim Nabuco pela esposa do antropólogo Waldemar Valente. Waldemar Valente, ao lado de René Ribeiro, Mauro Motta e o próprio Gilberto Freyre formavam uma espécie de núcleo duro do então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, depois Fundação Joaquim Nabuco. À época do então IJNPS, a despeito de enormes dificuldades, pesquisas importantíssimas foram realizadas, colocando a Instituição, nas palavras do próprio Gilberto, como uma instituição de excelência nos trópicos, numa perspectiva principalmente européia. Apesar dos tempos de estudos de Gilberto Freyre nos Estados Unidos, a Instituição nunca conseguiu ampliar seu capital simbólico naquele país.
Numa entrevista, Waldemar Valente fala daqueles tempos, relatando alguns fatos importantes de sua passagem pelo Instituto. Chama a atenção, por exemplo, entre outras tantas coisas, uma pesquisa realizada por ele sobre os terreiros do Recife e região metropolitana, num total, à época, salvo melhor juízo, de 4.500 terreiros dedicados aos cultos de matriz africana. Possivelmente um levantamento realizado entre as décadas de 40 e 60 do século passado, quando esses cultos foram bastante perseguidos na província, notadamente pelo Estado Novo. Mais ainda, um possível vídeo gravado por ele de um desses ritos, com o pai de santo em transe, vestido com uma indumentária muçulmana, falando línguas estranhas, como diriam os evangélicos. Algo inusitado.
Quando, recentemente, numa viagem a Salvador, no contexto de uma pesquisa inserida nos Programas Institucionais, relatamos o fato aos pesquisadores do CEAO, Centro de Estudos Afro-Orientais, eles ficaram curiosíssimos, pois são raríssimas as referências sobre a presença dos escravos muçulmanos naquele Estado. Essas referências foram completamente dizimados depois da Revolta dos Malês. O respeitado pesquisador João José Reis, por exemplo, levanta dúvidas até mesmo em torno da existência de Luísa Mahin, que supostamente liderou a revolta e depois refugiou-se na região do Recôncavo Baiano, precisamente na cidade de Cachoeira, tendo seu nome também associado à fundação da Irmandade da Boa Morte. João José Reis não encontrou nenhum documento que comprove a sua existência. Há de se perguntar: Seria mais uma dessas lendas? À exemplo da escrava Anastácia?
Difícil saber se este tal vídeo encontra-se entre o acervo recentemente doado pela família de Waldemar Valente à Instituição. Se estiver, reputo-o já como numa dessas preciosidades que vem se juntar ao pré-sal de acervos da Fundação Joaquim Nabuco, numa expressão feliz de uma de suas servidoras.
segunda-feira, 24 de junho de 2019
Editorial: Democracia em Vertigem

Acabo de assistir o documentário de Petra Costa, Democracia em Vertigem, recentemente disponibilizado pela Netflix. Já são quatro os documentários produzidos abordando o golpe de 2016 no país: O Processo(Maria Augusta Ramos), Excelentíssimos(Douglas Duarte), O Muro(Lula Buarque) e Democracia em Vertigem(Petra Costa). Ainda não tive a oportunidade de assistir os demais. O documentário de Petra tem recebido muitos elogios e cogita-se, até mesmo, uma provável indicação para concorrer ao Oscar, na categoria documentários. Analiso o documentário de Petra Costa na condição de cientista político, abstendo-me de fazer outras considerações, certamente mais atinentes ao pessoal do campo cinematográfico, o que não é bem a nossa praia.
Nossa lente é a lente da Ciência Política. Sob esse aspecto, o documentário não traz assim grandes novidades, exceto pelos flagrantes das cenas de selvageria produzidas pelo acirramento dos ânimos políticos daqueles dias sombrios, com reflexos até hoje. Um acirramento, aliás, acintosamente estimulado, quando deveria ser contido, em nome de uma convivência civilizada. Nos referimos aqui à cadeia de eventos sucessivos que culminaram com o golpe de 2016, identificando os atores políticos que participaram dessas tessituras, como a banca financeira internacional, consorciadas com setores da elite política e econômica, alinhavadas com segmentos da grande mídia e do judiciário. Como observa Petra Costa, somos uma república de famílias. Um dia eles se cansam e tomam o poder. Esse "cansaço" ou indisposição de nossa elite com as regras do jogo democrático, Petra Costa, na realidade é uma constante. O país vive de sobressaltos autoritários, com poucos momentos de tranquilidade e normalidade democrática. É uma democracia fadada a não consolidar-se.
Registro aqui uma entrevista concedida por um jurista americano que, bem antes do vazamento recente dos áudios do site The Intercept Brasil, já apontava as falhas clamorosas no processo que condenou o ex-presidente Lula à prisão. São flagrantes, desde então, as falhas na condução do processo que condenou Lula, como apontou sua defesa. O que o site traz de novo é a tessitura da armação dessa trama, consubstanciando aquilo que os juristas imparciais já haviam denunciado. Aliás, ao final da fala, o jurista conclui que a maior garantia de um julgamento justo para um réu é um juiz imparcial. Num país com um mínimo de normalidade democrática e ordenamento jurídico, o mal teria sido evitado desde os grampos ilegais e o posterior vazamento dos mesmos, uma afronta à Constituição.
Um conceituado jurista pernambucano, depois de assistir ao documentário, ficou impressionado com o sofrimento da presidente Dilma Rousseff. De fato, sim. Chora bastante ao lembrar do pavor imposto pelas sessões de tortura às quais foi submetida, o câncer que superou e a morte de nossa democracia. Concluído as eleições presidenciais, com a vitória de Dilma Rousseff, seus algozes já haviam decididos que ela não iria governar. Os vazamentos do site The Intercept Brasil - afirma-se que o material é robusto - nos ajudam a entender um pouco melhor a costura golpista, os interesses em jogo, assim como seus principais artífices. Como observou o jornalista Luis Nasiff, a república caiu juntamente com o avião que conduzia o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, disposto a impedir os excessos.
domingo, 23 de junho de 2019
sábado, 22 de junho de 2019
Direita, esquerda e a incompetência política contemporânea
(Foto: Harold Edgerton / Divulgação)
As semânticas políticas contemporâneas, à esquerda e à direita, aprofundam o uso daquilo que Armin Nassehi (no livro Die letzte Stunde der Wahrheit. Kritik der komplexitätsvergessenen Vernunft) chamou de “razão que esquece a complexidade” (komplexitätsvergessene Vernunft). Esta “razão” consiste basicamente na crença de que a sociedade possui um ponto central a partir do qual se pode conduzir e controlar a mudança social, oscilando entre a moral, a política, o direito ou a educação, mas nunca considerando a complexa situação de concorrência e incongruência simultânea entre estas esferas diferenciadas.
Tradicionalmente, cética de que a política pudesse realizar este papel, a direita via este ponto central de condução na reforma e na seleção moral de pessoas, no cultivo das virtudes, enquanto a esquerda tomava exatamente a política como o centro de condução e controle das mudanças na sociedade e em suas esferas. Frustradas com suas respectivas apostas, direita e esquerda tendem a inflacionar suas expectativas sobre a educação, como se esta pudesse direcionar a mudança das estruturas da ação social por meio da formação e da integração moral e cultural dos indivíduos e da sociedade. A dificuldade é entender e falar da mudança como algo que ocorre no plural, de modo simultâneo e não integrado em diferentes esferas da sociedade, sem um centro que conduza os diferentes processos de transformação, embora seja necessário para a política a produção de narrativas unificadoras. Não se trata de abrir mão destas narrativas, mas de entender que elas não resolvem todos os problemas da política e da arte de governar.
Em seu novo livro sobre o assunto (Gab es 1968?), Nassehi avança a tese de que 1968 se tornou uma “fonte de narrativas simplificadoras” sobre a transformação social, nutrindo uma moralização duradoura e amplificada da política e tornando a nova direita (nacionalista) e nova esquerda (identitária) cada vez mais parecidas em sua forma de fazer política: ambas tendem a propor a transformação da sociedade a partir da promoção das boas intenções, da pureza de princípios e da condenação ou conversão dos moralmente indesejáveis como âncora para a ação coletiva. Esta fusão semântico-discursiva entre moral e política aprofunda a “razão que esquece a complexidade”, pois, enquanto a sociedade se torna mais complexa e mais difícil de ser transformada a partir de um único ponto de condução, mais se cultiva a fixação por “histórias simples” do “bem” contra o “mal”.
Um dos sintomas mais fortes deste aprofundamento da “razão que esquece a complexidade” é o desprezo crescente pela “técnica” tanto na nova direita como na nova esquerda. Na direita, basta observar o “governo” Bolsonaro (um aborto, um feto que não nasceu e já parece morto) para perceber como a crença na fusão entre política e moral (“guerra cultural” contra a esquerda) leva a se desconsiderar a complexidade de uma sociedade diferenciada em esferas e lógicas que reagem a todo esforço de transformação externa pela moral e/ou pela política. Para ação prática, o maior problema é que isto implica em não perceber que os setores de políticas públicas precisam levar em conta a “tecnologia social”, ou seja, o modo como intervenções produzem efeitos pretendidos e não pretendidos, de acordo com as lógicas diferenciadas da economia, da educação, da segurança.
A ideologia neoliberal de Paulo Guedes não é exceção que confirma a regra. É a regra: não se trata, como é vendido pelo banqueiro e seus seguidores, de uma visão “técnica” da economia, comprometida em considerar a complexidade interna deste subsistema da sociedade, mas sim de mais uma “história simples”, igualmente moralista (como sabemos desde Reagan e Thatcher), sobre como gerar riqueza e prosperidade. A crença de Guedes de que as virtudes do livre mercado vão resolver os problemas da economia é tão subcomplexa como a crença de que o estado pode conduzir este subsistema. Guedes e os neoliberais não tem nada a ver com ciência econômica. Geram vergonha em liberais como Andre Lara Resende e Monica de Bolle, atentos à complexidade real do mundo econômico.
Na esquerda, o desprezo pela “técnica” se dá, por exemplo, na hiperinflação do discurso de que “tudo é política”, especialmente como escapismo para a abstinência econômica que tomou conta com a “virada pós-estruturalista” que ensinou que tudo é poder. Falta um discurso econômico capaz de levar em conta a complexidade e a autonomia operativa da economia, com relações de causalidade, expectativas e processos construídos internamente que ressignificam e redirecionam as tentativas de intervenção pela política.
Em vez de estudar e levar em conta os desafios e os meios mais efetivos para que a intervenção estatal não seja neutralizada, mas sim potencializada pela economia, a esquerda se fixa no bordão do “tudo é poder” e joga a culpa do fracasso na ganância dos empresários, oscilando entre moral e política, sem passar pela inteligência. Ora, a ganância dos empresários, assim como desejo de poder dos políticos, são as razões sociais criadas pela sociedade complexa com suas esferas diferenciadas, com suas lógicas autônomas e simultâneas, e quando estas razões são desconsideradas, qualquer esforço de mudança social torna-se cego e inconsequente.
Não se trata de defender o “livre mercado” e desaconselhar a intervenção do Estado, mas sim de entender que a intervenção do Estado precisa levar em conta que a lógica e os motivos próprios da ação econômica são um fato da realidade, e que o sistema econômico vai observar e interferir na interferência do estado, com uma resultando que pode fazer os efeitos não pretendidos predominar sobre os pretendidos. A construção e a reconstrução das estruturais sociais da economia não podem ser diretamente conduzidas pelo estado, mas podem ser induzidas ou irritadas por ele. A impossibilidade de condução direta resulta da diferenciação de “tecnologias sociais”, entre as quais está a formação de relações mais ou menos seguras entre “causas” e “efeitos” específicos da lógica econômica.
A “razão que esquece a complexidade” prefere ignorar tudo isso e apostar na justificação moral de seu próprio fracasso: o que explica o fracasso das boas intenções são os “corruptos”, para a direita, e os “gananciosos e opressores”, para a esquerda. Que se tratam de “histórias simples” é fácil de ver na mudança dos personagens, mas nunca da estrutura narrativa: num momento é a “elite de rapina”, noutro o “lixo branco”; num os “corruptos”, noutro os “comunistas”.
Quando mais a política ignora a “complexidade” e a “técnica”, mais ela se torna incapaz de entregar o que promete. A necessidade de simplificar o discurso no momento eleitoral não pode significar a necessidade de simplificar o discurso sempre. Na construção e implementação das políticas públicas ignorar a “complexidade” e as “tecnologias sociais” é ignorar as condições de sucesso e fracasso das ações do estado, é praticamente amputar a política para entregar resultados (output) e assim se legitimar na sociedade (input). A aceleração e a fragmentação da esfera pública que orienta a ação política e governamental, com oscilações quase diárias entre as “histórias simples” relevantes para a opinião pública, tendem a aprofundar ainda mais a “razão que esquece da complexidade”: a necessidade de “lacrar” todo dia torna ainda mais difícil a busca de alternativas institucionais e organizacionais capazes de viabilizar mudanças sociais em uma sociedade complexa, ou seja, de “tecnologias sociais” adequadas. Atentar para a complexidade e a técnica como elementos indispensáveis para a mudança social não é defender governos fracos. Não se trata de ser contra as mudanças produzidas a partir da política, mas sim de entender sua complexidade. É defender, de modo consequente e realista, governos fortes e capazes de produzir mudanças, pois o que temos hoje, com o uso da “razão que esquece a complexidade” dominando a política, é um desaprendizado da arte de governar, compensada pelo cultivo da arte de contar “histórias simples” (lacrar) e atribuir a destruição do final feliz à maldade do outro lado.
As reflexões de Nassehi sobre a “razão que esquece a complexidade” na política alemã chegam a conclusões parecidas com as de Mark Lilla (O progressista de ontem e o do amanhã) sobre a política identitária nos Estados Unidos. A moralização excessiva da política, que Lilla identifica e critica na política progressista de viés identitário, torna a esquerda incompetente politicamente, tanto para ganhar legitimidade e formar maiorias, como para administrar o estado. A política identitária tende a reduzir a conduta política a discursos concorrentes de grupos com suas moralidades sectárias e “histórias simples” sobre como transformar a realidade – a mesma aposta na conversão ou reconversão moral e no ativismo inconsequente que Nassehi identifica na geração de 1968, com seus segmentos pró e contra, mas compartilhando o mesmo quadro de referência hiper-simplificador da realidade e de suas possibilidades de transformação. No momento político recente, as “histórias simples” da direita parecem ter mais sucesso que as da esquerda. Mas a disputa entre elas tende a agravar a incompetência, partilhada não tão secretamente por ambas, de governar e entregar resultados. A amplificação das disputas morais, ao substituir as habilidades de abertura ao outro, à realidade empírica e à dimensão “tecnológica” da vida social, cria o que Lilla chama de “pseudo-política”. Pseudo, aqui, não porque seja de esquerda ou de direita, mas sim porque é incapaz de realizar a função específica da política, seja com programas de direita ou de esquerda: produzir decisões coletivamente vinculantes para formar maiorias e para produzir e implementar transformações como resultado da ação do estado na sociedade.
A ingovernabilidade e o colapso da função política só interessam a quem deseja a manutenção do status quo, ainda que seja em rumo à catástrofe civilizatória, e à neutralização das decisões coletivas e das maiorias sociais e políticas no rumo da história. Só interessa à direita, não à esquerda.
O que é ser de esquerda? Dominar a arte de governar em um mundo complexo ou “contar histórias simples” que só servem para marcar uma identidade política cheia de moral e vazia de programa e inteligência?
Roberto Dutra é doutor em sociologia pela Humboldt Universitaet zu Berlin/Alemanha e professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF)
(Publicado originalmente no site da Revista Cult)
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Michel Zaidan Filho: A fragilidade da criatura humana
Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, descreveu um comportamento
patológico chamado de “narcisismo primário”. Todos nós, quando pequenos, temos
uma boa dose de narcisismo nas nossas atitudes. O duro e lento exercício de
descentramento do “eu”, ou seja, não se achar o centro do universo, leva muito
tempo. É uma etapa psicológica semelhante a do assassinato psicanalítico da
figura paterna. A maioria, contudo, se liberta desse comportamento, e aprende a
duras penas que não é o umbigo do universo, mas um grão de poeira ou uma cabeça
de alfinete, num vasto mundo que pouco se interessa pelas nossas fantasias de
onipotência. Ocorre que um grupo de pessoas não consegue jamais superar esse
“narcisismo”, e continuam, vida afora, a se acharem o centro de todas as
atenções. Estão inseridas nesse grupo certas personalidades do meio jurídico
que têm vida pública ou visibilidade pública através dos meios de comunicação
ou por ocuparem cargos públicos.
São parecidas àquelas notabilidades de aldeia, onde que tem pedigree
familiar ou estudou fora do país, realçam o seu brilho, como uma gota de água
no deserto. O velho Sergio Buarque de Holanda já tinha se referido ao caráter
retórico, vistoso, ligado à afirmação da personalidade da pessoa, de nossa
formação ibérica, portuguesa. Segundo ele, daríamos mais valor à afetação, ao
teatro, do que ao conteúdo do que falamos. Interessaria mais a impressão e o
modo do que dizemos/fazemos do que a mensagem propriamente dita.
Nosso
estado (ia dizer capitania hereditária), se ufana da sua longevidade histórica
e suas raízes coloniais e imperiais. Pernambuco vive desses fantasmas antigos
que sempre voltam ou são invocados para impressionar os vivos. Aqui, dizia o
conde da Boa vista, quem não é Cavalcanti é cavalgado. Pelo visto, as coisas
ainda caminham nesse passo. Os Cavalcantis permaneceram, com o seu brilho, sua
tradição retórica e sua vaidade. São como os “narcisistas primários” de Freud,
fazem de tudo (bom e ruim) para chamar a atenção. Trocam de lado na política,
apoiam candidatos fascistas e autoritários, desqualificam as comissões onde
pontificam e usam – como podem – os meios de comunicação para se expressarem
como “prima donas” num teatro burlesco e regional. Um arremedo de esfera
pública dominado por um punhado de famílias tradicionais e ricas torna-se o
palco, por excelência, dessas personalidades performáticos, onde o meio é a
mensagem. Ou seja, onde não há mensagem.
Rebentos da oligarquia ou associados a ela, por relações familiares,
acham que têm direito natural a tudo: cargos, influencias, posições de
prestigio etc. Quando são contrariados, fazem da frustração pessoal uma questão
política e assumem posições polêmicas e controversas. É o seu jeito de manifestarem
sua revolta pela contrariedade de seus desejos de onipotência infinita. Foi o
que ocorreu com o episódio das últimas eleições presidenciais no Brasil.
Pessoas de conhecida notabilidade local e regional, tomaram o lado do candidato
fascistóide, não por identificação ideológica ou política, mas pela vaidade
ferida, por terem sido “esquecidas” pelo governo petista para cargos, comissões
ou simples consultores. Acharam-se ofendidos, preteridos, quiçá perseguidos
pelo governo de turno. Lamentavelmente, esse tipo de gente pensa que tudo o que
acontece no universo tem a ver consigo, para o bem ou para o mal. Se são
lembrados e contemplados, ótimo. É merecimento natural. Se são esquecidos, é
crime de lesa-vaidade. E aí vem a retaliação na forma de ”ser do contra”, de
remar contra a corrente, independentemente de seu conteúdo ideológico, ético ou
político.
É
preciso considerar esse tipo de comportamento como uma patologia séria e
perigosa; se fosse possível criar um reino imaginário, um castelo de cartas, um
refúgio qualquer (como a religião) e colocar essas pessoas aí dentro, seria uma
terapia social de muita valia. Causaria menos danos à sociedade e a si mesmo.
Infelizmente, essas criaturas andam por aí pousando de sumidade jurídica, esperteza
político-ideológica, quando não de corregedores morais da nação. Muito triste
tudo isso.
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE
segunda-feira, 17 de junho de 2019
Crônica: As paixões de Joaquim Nabuco
José Luiz Gomes
Há poucas referências sobre a passagem de Joaquim Nabuco pelo Itamaraty. Isso talvez explique o sucesso de um ensaio que escrevi sobre esse período de sua vida profissional. Antecipo que tenho um grande respeito e identificação política com o abolicionista pernambucano, o que não nos impedem as reticências às suas posições sobre o panamericanismo, quando esteve em exercício no Ministério das Relações Exteriores. Posições que, aliás, o fizeram entrar em rota de colisão com outro ilustre diplomata, Oliveira Lima, com quem manteria rusgas nunca devidamente contornadas, culminando com a decisão de Oliveira Lima em doar uma estupenda biblioteca de "Brasilianas" a uma universidade americana, onde chegou a dar aulas. A princípio, antes das escaramuças das quais foi vítima, pensava em deixá-la no país. Osvaldo Aranha, amigo de Nabuco, mantinha Oliveira Lima sob estrita vigilância, temendo a "incontinência da pena" do diplomata.
Até outro dia, acompanhei um seminário na Instituição que foi criada em sua homenagem, aqui no Recife. O acervo do abolicionista foi doado pela família à Instituição, o que não deixa de ser motivo para um grande regozijo, em razão de sua importância. Uma preciosidade histórica de 15 mil peças que vem se juntar às outras 6 mil peças já existentes na Instituição. Se suas rusgas no Itamaraty nos privaram de uma grande biblioteca, por outro lado a Instituição Joaquim Nabuco recebe um acervo significativo, com um lastro histórico dos mais relevantes, que se junta ao de outro grande nome da luta antiescravagista no país, André Rebouças. Ambos se enquadram naquela condição de apontar a insuficiência de um ato formal, via instituições, para a libertação dos escravos, como a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. Seria preciso ir bem mais além para superar o racismo estrutural de uma sociedade assentada sob o trabalho escravo. Sabe-se o quanto esses visionários tinham razão. Nestes últimos 519 anos, o único quesito em que conseguimos algum avanço em relação à raça negra foi no sentido de facultar o acesso desses jovens ao ensino superior. Em relação a nenhum outro aspecto conseguimos qualquer avanço. A abolição da escravidão no país é como aquela Igreja de Sabará, Minas Gerais, que nunca foi concluída.
Entre essas preciosidades, uma carta de Machado de Assis para o pernambucano, informando-o sobre a leitura de Massangana, uma possível referência ao livro Minha Formação, onde ele narra seus verdes anos no Engenho Massangana, que pertenceu à sua família. O trabalho de fôlego realizado pelo amigo Diego José Fernandes Freire, Contando o Passado, Tecendo a Saudade, permitiu-nos uma correção histórica no campo da literatura. Quando se toma como referência a literatura de engenho - ou regional - as menções neste sentido vão sempre para A Bagaceira de José Américo ou aos textos memorialistas do também paraibano José Lins do Rego. Na realidade, como observa Diego, Minha Formação é um texto anterior a esses trabalhos, o que coloca Joaquim Nabuco na condição de precursor da literatura de engenho, ao lado do também pernambucano Mário Sette, com a sua Senhora de Engenho.
Joaquim Nabuco foi um homem de grandes causas e paixões arrebatadoras, mas sempre orientou sua vida baseada numa retidão de caráter invejável, fato mais uma vez confirmada pela fala de uma palestrante, no Seminário que faço referência acima, sobre o abolicionista pernambucano. De acordo com sua fala - a partir de um diálogo com seus familiares - uma de suas filhas preparava-se para se casar. Estava tudo certo até o pretendente perguntar a Joaquim Nabuco sobre o tal dote. Foi expulso da casa. Não houve mais casamento. Por que essa informação é importante acerca do caráter de Joaquim Nabuco? Porque nos ajudam a entender algumas nuances da relação de Joaquim Nabuco com Eufrásia Teixeira Leite, a rica e bela Eufrásia, com quem manteve uma tórrida paixão por 14 anos sem nunca ter se casado com ela.
Eufrásia conheceu Nabuco num cruzeiro, por quem se apaixonou. Os historiadores alegam que ele não se casou com Eufrásia em razão de sua condição de abolicionista. Eufrásia era filha de um rico fazendeiro que possuía centenas de escravos em sua fazenda em Vassouras, no Rio de Janeiro. O casamento, em tese, poderia macular sua imagem de abolicionista. Desafetos, pois integravam partidos distintos, o escritor cearense, José de Alencar, escreveu Senhora com o propósito de dar umas estocadas no pernambucano. O fato concreto - agora confirmado em razão de sua reação à proposta do pretendente à mão de sua filha - é que, Joaquim Nabuco, de fato, temia ser acusado de dar o golpe do baú. O mais curioso e emblemático ainda é que, num momento de dificuldades financeiras, Eufrásia lhe ofereceu ajuda e ele a recusou peremptoriamente, antecipando o fim do relacionamento.
Herdeira de uma grande fortuna, Eufrásia teria doado esses bens aos pobres da cidade onde nasceu. Festejado pelas donzelas da época -que atiravam pétulas de rosa depois dos seus discursos inflamados no Teatro de Santa Isabel - Joaquim provocava muito ciúme em Eufrásia, sendo este o principal motivo de indisposições entre ambos. Com o fim do relacionamento, Nabuco pediu de volta as cartas dirigidas a ela, no que nunca foi atendido. Já as cartas dela para Joaquim Nabuco, salvo melhor juízo, estão disponibilizadas entre o seu acervo, sob a guarda da Fundação Joaquim Nabuco.
sábado, 15 de junho de 2019
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Cláudio Willer, o memorioso
Wilson Alves-Bezerra
O poeta e ensaísta Claudio Willer (Foto: Reprodução)
Em que idade um escritor deve escrever suas memórias? O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues iniciou as suas precocemente, em 1967, aos 54 anos de idade, nas páginas do Diário da Manhã. Depois recolheu-as em livro, sob o título A menina sem estrela. Eladio Linacero, personagem literário do uruguaio Juan Carlos Onetti do romance El Pozo (1939), achava que o momento era antes: “Isto que escrevo são minhas memórias. Porque um homem tem que escrever a história de sua vida ao chegar aos quarenta anos, ainda mais se lhe aconteceram coisas interessantes. Li isso não sei onde.” O argentino Ricardo Piglia queria para suas memórias um eterno presente, de modo que optou prematuramente por escrever um diário de escritor: iniciou-o aos 17 anos e adiou a publicação até os 75 anos, quando rearticulou-o transformando seu eu pessoal em um de seus personagens; assim nasceram os três volumes de Os diários de Emilio Renzi.
O poeta e ensaísta brasileiro Claudio Willer, aos 78 anos acaba de publicar suas memórias, que seguem uma quarta via: velar o caráter memorialístico da obra – Dias ácidos, noites lisérgicas (Córrego) – com um despretensioso subtítulo: crônicas. Tampouco são suas primeiras memórias: também precocemente, há duas décadas, escreveu Volta (Iluminuras, 1996), livro que além de ser um ensaio sobre surrealismo, contava muito de suas experiências pessoais nos anos 60 e 70 e era ainda a história singular da circulação de um livro de nome circular, e da memória de um poeta – Augusto Peixoto – sobre a Terra. Dias ácidos, no entanto, é sobretudo memorialístico. São quinze textos, alguns recentes, outros recolhidos de cadernos antigos e há ainda os reaproveitados de entrevistas ou pesquisas não publicadas, agora reescritos, como o longo texto que descreve suas experiências lisérgicas e que dá título ao volume.
É um livro relativamente curto, mas não por isso menos intenso. O poeta passa como um raio sobre vários acontecimentos pessoais, sem se preocupar em torná-los grandiosos. Assim, de passagem, na página 134, ficamos sabendo que foi o livro de estreia de Willer, Anotações para um apocalipse (Massao Ohno, 1964), que inspirou o romancista Roberto Freire a criar o personagem “Claudio, poeta surrealista” de seu romance de estreia, Cleo e Daniel (Brasiliense, 1965). Na página 127 sabemos também que o poeta, ainda aluno de psicologia na USP, fora aluno de Durval Marcondes, um dos importantes difusores da psicanálise freudiana em São Paulo, trazida à universidade pelas mãos de Franco da Rocha, seu professor. Mas esses são dados laterais, o livro é outra coisa.
Dias ácidos, noites lisérgicas se constrói em uma curiosa contraposição entre a leveza da crônica e a força de tempos e cenários idos – sobretudo de São Paulo – que os textos evocam. Claudio Willer não busca o ordenamento cronológico: quase todos os textos têm data, e são de diferentes épocas, entre os anos 60 e a atualidade. O poeta busca não um monumento para si mesmo, mas um mosaico distorcido, uma imagem fugidia, tal qual o espelho do antigo bar Persona, no Bixiga, criado pelo artista plástico Roberto Campadello. Nele, há “no porão, espelhos reversíveis e lanternas, conforme se iluminava, você se enxergava, via quem estivesse do outro lado ou fundia as imagens, podia ser um ou outro.” Não é um livro sobre Claudio, é um livro sobre ele e seus leitores.
O texto de abertura, “A voz” se constrói a partir leitmotiv “Baudelaire”, dito pela boca de um gringo magricela, no Maranhão, em 1964, um lugar anterior ao culto à cor local, onde comia-se filé à parmegiana e não frutos do mar, lugar “não existente. O exótico para além do exótico: desconhecia-se”. O que fazia Claudio lá? Não sabemos. Mas vemos uma outra São Luís pelos olhos do jovem poeta. Sabemos de suas incursões, dos lugares por ele frequentados, mas tal qual nos espelhos do Persona, falta uma parte, uma imagem coesa de fundo, falta o poeta afirmando: “eu sou isso”. O principal, no entanto, não falta: suas leituras de Baudelaire e dos baudelaireanos Rimbaud, Desnos, Bataille, Lautréamont.
Complete a história quem quiser, parece dizer o autor, que passa adiante, retrocedendo a 1959, com “A festa e o homofóbico”, uma saborosa crônica sobre a repressão à sexualidade, com a lembrança de um rapaz da Associação Cristã de Moços, Milton, um homofóbico contumaz que de repente se libera numa festinha na casa do poeta, no bairro do Brooklin, em São Paulo, fazendo em público um ménage com dois outros rapazes. Os nomes? Não sabemos e não importa.
Páginas adiante, lemos “Muradas”, texto resgatado de um caderno, com data de março de 1967: nele, Claudio aclimata Proust, ao evocar uma mítica banana split do bar Muradas – da rua Martins Fontes, no centro de São Paulo – consumido depois de sessões de maconha, música e álcool com os amigos. Já então o jovem de 27 anos queixava-se do desaparecimento da iguaria, do advento anódino dos sorvetes de máquina da rua Augusta. Para os leitores de 2019, um mundo desaparecido comentando outro mundo desaparecido, mas também uma experiência familiar de perda na paisagem sempre movente da cidade, a cidade que não cessa de se transformar.
O texto seguinte “Dias ácidos, noites lisérgicas” é a narração de memórias a partir de paraísos artificiais, desde os anos sessenta até a atualidade, texto poderoso que termina em tom menor ao evocar as quebradas da zona sul de São Paulo, nas fronteiras da cidade em expansão rumo à periferia.
Ao fim do livro, o leitor vacila: não sabe se leu um livro de memórias de um poeta, ou se leu um livro das memórias de uma cidade, ou ainda, se leu memórias inventadas suas ou memórias da literatura de outros. Pois Dias ácidos, noite lisérgicas é tudo isso ao mesmo, e ainda mais: é o relato de experiências lisérgicas, sexuais, afetivas de um homem cujas memórias se inscrevem no corpo da cidade, sua cidade – um ente vivo que se metamorfoseia enquanto ele a rememora.
Wilson Alves-Bezerra é crítico, tradutor e escritor. Escreveu Vapor barato (Iluminuras, 2018), O pau do Brasil (Urutau, 2016), entre outros
(Publicado originalmente no site da Revista Cult)
Existe uma sociologa weberiana?
Max Weber, conhecido como um dos fundadores da sociologia moderna (Foto: Reprodução)
Embora seja usual falar-se de uma sociologia “weberiana” e de sociólogos “weberianos”, ou de uma escola “weberiana”, não podemos aceitar rigorosamente essas classificações, a não ser quando se pretende demarcar uma tendência dominante, em certos autores e obras, da influência de conceitos e perspectivas desenvolvidos nos diferentes trabalhos de Max Weber. Mesmo assim, não há nada, nesse caso, comparável, por exemplo, seja à apropriação e desenvolvimento das teorias de Marx no marxismo, seja à apropriação e desenvolvimento das teorias de Freud na psicanálise. Não há nada na obra de Weber que permita desenvolvimento similar ao do marxismo e ao da psicanálise, e isso por duas razões.
Em segundo lugar, Weber reivindica a tradição acadêmica e científica da pesquisa histórico-social de seu tempo, mesmo quando de sua contribuição original para essa ciência, a sociologia, que também se desenvolve, independentemente de sua obra, e com base em outros paradigmas, em outros lugares. Ainda que proponha métodos e conceitos suficientemente abrangentes e rigorosos para entronizá-lo como fundador de uma escola, sua obra não produziu influência dessa maneira, mas de outra, mais difusa, e também mais coerente com o sentido que a distinguia das demais.
Weber não formou uma escola, como aconteceu com Marx e Freud, e mesmo com Durkheim. Não teve discípulos diretos, com os quais precisasse retificar constantemente o desenvolvimento de seu próprio paradigma. No entanto, é indubitável que no desenvolvimento da sociologia, tal como vem se realizando desde o início do século, a contribuição weberiana é decisiva, fundamental mesmo, por demarcar um de seus principais paradigmas. Curiosamente, embora Durkheim tenha uma posição análoga à de Weber por ter também contribuído com outro paradigma fundamental, e ao mesmo tempo divergente do dele, não é usual falar atualmente de sociólogos “durkheimianos” ou de uma sociologia “durkheimiana”, e isso quando se sabe que a influência de Durkheim foi mais sistemática que a de Weber, a ponto de ter existido uma “escola durkheimiana” na França, o que nunca ocorreu com Weber, nem mesmo na Alemanha.
A influência da obra de Weber, embora crescente ainda quando ele estava vivo, não era do tipo que possibilitasse uma escola. Mesmo essa influência foi drasticamente interrompida, na Alemanha, 12 anos após sua morte, pela chegada dos nazistas ao poder. Suas principais obras, com exceção de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, permaneceram esgotadas e sem reedições durante quase 20 anos, e em grande parte espalhadas em revistas e periódicos de pouco acesso ao público não germânico. Apesar disso, sua influência foi decisiva em obras que foram publicadas antes da Segunda Guerra, algumas das quais vieram conformar grande parte do quadro atual da sociologia. Entre essas obras, basta citar Ideologia e Utopia, de Karl Mannheim; História e Consciência de Classe, de Georg Lukács; Estrutura da Ação Social, de Talcott Parsons; e Fenomenologia do Mundo Social, de Alfred Schutz.
O weberianismo como contrassenso
Desde aqui já se pode notar a abrangência e o tipo de influência que a obra de Weber começará a exercer. Nenhum desses trabalhos é “weberiano” e, no entanto, todos estão numa relação fundamental com a obra de Weber; em todos eles, também, a posição weberiana é posta em situação de interlocução, de diálogo com outros pensadores-chave; Lukács e Mannheim, de modo diferente e pesos desiguais, põem Weber em relação com Marx, e daí destilam suas contribuições originais; Parsons põe Weber em relação com Durkheim e Pareto; Shutz coloca Weber em relação com Husserl.
Para cada uma dessas posições, enfatiza-se um aspecto da obra de Weber. Pode-se dizer que são Webers diferentes os que saem dessas posições: um Weber subsumido no marxismo hegeliano de Lukács; um Weber que retifica e modera Marx, na sociologia do conhecimento de Mannheim; um Weber fenomenológico, intuicionista, neoidealista, na “síntese” de Shutz. No campo substantivo da influência, a abrangência e a variedade não são menores. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é o rosto mais badalado da influência, mas não é nem a principal nem a mais duradoura, apesar de ter produzido um dos grandes veios polêmicos do século. Weber trabalhou sobre campos extraordinariamente diversos e sua influência acompanha essa diversidade, que vai do direito à sociologia da música, da história econômica à sociologia das religiões, da filosofia da ciência à política alemã. Conceitos como “tipo ideal”, “ação social”, “compreensão”, “autoridade”, “dominação”, “carisma”, “vocação”, “racionalidade”, “burocracia”, “estamentos”, “legitimidade” e muitos outros estão inteiramente orientados, na sociologia contemporânea, pela influência de Weber.
O peso das interpretações pioneiras de Weber, em especial por sua influência sobre toda a sociologia acadêmica mundial, aquela que veio da obra de Talcott Parsons, vem passando por ampla reavaliação crítica há quase cinco décadas. Os resultados dessa reavaliação, que incluiu um renovado interesse dos marxistas por sua obra, têm possibilitado – 90 anos após sua morte – o conhecimento de um Weber muito mais profundo e contemporâneo do que as primeiras interpretações poderiam fazer supor. Não é exagerado afirmar que sua influência, hoje, é comparativamente mais abrangente, mais sistemática e mais rigorosa do que em sua própria época ou em qualquer outra, não obstante manter sua característica de não formar escola. O propalado “weberianismo” é um contrassenso com a própria perspectiva científica de Weber, e o próprio Weber testemunha contra esse equívoco: “Na ciência, sabemos que nossas realizações se tornarão antiquadas em dez, vinte, cinquenta anos. É esse o destino a que está condicionada a ciência: é o sentido mesmo do trabalho científico… Toda realização científica suscita novas ‘perguntas’: pede para ser ‘ultrapassada’ e superada. Quem deseja servir à ciência tem de resignar-se a tal fato”.
A influência de Weber, apesar disso, ultrapassou seus próprios cálculos e merece uma reflexão porque é isso que ainda legitima o emprego de expressões como “weberianismo”. A ciência social carrega a bendita maldição filosófica de sua origem: a política. E como a filosofia e a política, o marxismo e a psicanálise, a sociologia precisa desenvolver-se renovando sempre suas relações teóricas com seus pais-fundadores: a reinterpretação das obras clássicas acompanha e indica esse desenvolvimento, tanto quanto os avanços obtidos nos campos substantivos (empírico e teórico). Não é impossível escrever uma história da sociologia com base na sucessão das reinterpretações de seus clássicos. Essas reinterpretações são tão inesgotáveis quanto sua tendência para avançar para além do que estava originalmente escrito, conferindo-lhe uma nova dimensão, só possível pelo avanço substantivo efetivamente realizado. O que define uma obra como “clássica” é exatamente isto: manter-se contemporânea.
A influência disseminada
Talcott Parsons, cuja obra dominou a sociologia norte-americana por mais de duas décadas (1950-1960) e exerceu – e ainda exerce (embora seja declinante) – influência sobre toda a sociologia acadêmica mundial, travou contato com a obra de Weber ainda nos anos 1930, na Alemanha. Sua tese de doutoramento versava sobre o conceito de capitalismo em Weber e Sombart, o que lhe permitiu preparar o terreno teórico sobre o qual desenvolveria, em 1937, uma original tentativa de síntese sociológica, a primeira elaboração de sua teoria geral da ação. O livro, um grosso calhamaço de mil páginas, intitulado Estrutura da Ação Social, dedicou quase um terço das páginas à interpretação parsoniana de Weber. No entanto, sua apropriação de Weber caracteriza-se pela ênfase posta sobre as normas e valores sociais, em função de sua preocupação em construir as bases de uma teoria da integração social. Se isso lhe permitiu aproximar Weber de Durkheim muito mais facilmente do que é efetivamente possível, facilitou, no entanto, uma apropriação da obra de Weber nos Estados Unidos que, além de incorreta e problemática, enfatizava excessivamente sua utilização conservadora. No entanto, a influência de Weber na sociologia norte-americana, até então pequena, pegou carona no funcionalismo parsoniano e cresceu, até que no fim dos anos 1960 a revisão interpretativa de suas contribuições começasse a ser feita, resgatando-o contra Parsons. Quanto a isso, o pioneiro foi C. Wright Mills, cuja obra reflete uma influência weberiana bastante diferente daquela encontrada em Parsons e sua escola.
Se Parsons procurou aproximar Weber do funcionalismo durkheimiano, Wright Mills fez a aproximação com a tradição marxista, extraindo daí não só uma interpretação, mas um efeito – em suas próprias obras – crítico e politicamente renovador. Mills foi praticamente uma voz isolada numa América conservadora e exposta ao maniqueísmo da Guerra Fria, e uma voz que se calou precocemente (ele morreu aos 47 anos, em 1961). Apesar disso, sua influência na renovação antiparsoniana da sociologia norte-americana dos anos 1970 deveu-se, em grande parte, à extração marxista de sua apropriação de Weber, que lhe permitiu enfatizar, ao contrário de Parsons, os conceitos de classe, de interesse e de conflito. No entanto, ao contrário daquele, Mills jamais tentou uma sistematização conceitual que lhe permitisse construir uma abordagem tão abrangente quanto a parsoniana. Por isso, sua contribuição terminou confinada à sua época.
Lukács, o grande pensador marxista, frequentou assiduamente o Círculo de Heidelberg, que se reuniu na casa de Weber por quase uma década. Nos dois últimos anos da vida de Weber, quando já se tornara marxista, Lukács, ainda sob sua influência, redige alguns dos trabalhos que vão compor seu livro mais célebre. Além de abundantes referências aos trabalhos de Weber, Lukács promove uma inusitada aproximação marxista com a problemática weberiana da “racionalização”, cuja influência posterior não deve ser negligenciada. Mannheim, que foi chamado de “marxista burguês” e de weberiano “marxista” (sic), escreveu suas principais obras entre as décadas de 1920 e 1940. Sua influência, particularmente no campo da sociologia do conhecimento, é decisiva, e tão grande quanto sua pretensão de construir uma ponte entre Weber e Marx que resolvesse algumas das antinomias postas por essa relação. Sua influência sobre Mills permitiu a este se apartar da todo-poderosa interpretação parsoniana de Weber. Do mesmo modo, sua obra permitiu aos funcionalistas manter uma porta aberta ao marxismo (pelo menos nessa área da “sociologia do conhecimento”), como no estudo de Robert K. Merton sobre sociologia da ciência.
No pós-guerra, a influência de Weber alastra-se pela Europa e pela América. Raymond Aron, na França, forja o conceito de “sociedade industrial” e se apoia em Weber para criticar o marxismo. Ralf Dahrendorf, na Alemanha, sob forte influência weberiana, revisa o conceito de classe e, como Aron, substitui capitalismo por “sociedade industrial”, para enfatizar a dimensão mais abrangente (principalmente política) dos conflitos sociais do capitalismo tardio. A sociologia inglesa renova-se com a influência de Weber, principalmente nas obras de John Rex, J. Goldthorpe, David Lockwood, Frank Parkin e Anthony Giddens. Na França, Michel Crozier e Alain Touraine estudam a burocracia e a classe trabalhadora em aberto diálogo com as hipóteses weberianas, e Pierre Bourdieu reinterpreta Weber em seus trabalhos de sociologia da cultura.
Apesar da forte influência de Parsons, a sociologia norte-americana reencontrou Weber de diversas maneiras, desde o pós-guerra até hoje. Obras muito importantes como as de Seymour M. Lipset, Reinhardt Bendix, Robert Bellah, Clifford Geertz, Randall Collins e S. Eisenstadt, entre outros, foram desenvolvidas em constante recuperação e reinterpretação das hipóteses weberianas. Tendências que aparecem na época da Guerra Fria, como a sociologia fenomenológica, a etnometodologia, a sociologia radical, o interacionismo simbólico, retomam Weber exatamente onde Parsons o havia recalcado: no seu “idealismo”, na sua “sociologia compreensiva” e nas minuciosas questões metodológicas.
Em compensação, o “materialismo” de Weber é recuperado pelo marxismo do pós-guerra, que antes lhe havia reservado a indiferença dogmática ou o ataque superficial. Essa indiferença não existiu nos clássicos do marxismo, mas tornou-se dominante no período stalinista. Kautsky, Bukhárin, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács e Max Adler citam Weber e quase sempre em apoio às suas próprias ideias. Mas o conhecimento da obra de Weber era ínfimo, se comparado ao que os marxistas contemporâneos passam a ostentar a partir dos anos 1960. A influência de Weber na Escola de Frankfurt é reconhecida e bastante significativa, principalmente na obra de Habermas. A crítica superficial foi abandonada e o rigor com que muitos marxistas reavaliam a obra de Weber não fica nada a dever ao ostentado pelos “weberianos”.
Uma verdadeira história das reinterpretações de Weber e de suas disputas teria, agora, que descer ao campo temático e conceitual. Acompanhar a disputa dos conceitos, a detecção de suas ambiguidades originais, o aparecimento de novos problemas sobre os escombros de problemas que pareciam resolvidos, enfim, teria de ser uma história da constante reatualização de Weber, como a feita brilhantemente por Wolfgang Schluter nas últimas décadas. Aqui entrariam, por exemplo, a penetrante e nem sempre admitida influência de Weber sobre as obras seminais de Norbert Elias e Michel Foucault, apenas para citar dois nomes que continuam em evidência. Naturalmente, isso não pode ser feito aqui. De qualquer modo, será feito por cada sociólogo, em sua área específica de atuação. Isso será inevitável sempre que se descobrir que o sociólogo “weberiano” se dedica a uma coisa “que na realidade jamais chega, e jamais pode chegar, ao fim”.
Quem foi
Max Weber é conhecido como um dos fundadores da sociologia moderna,
ao lado de pensadores como Vilfredo Pareto (1848-1923), Émile Durkheim
(1858-1917) e Georg Simmel (1858-1918). Seu pensamento é marcado por uma
crítica do materialismo histórico, que, em seu dizer, petrifica as
relações entre as formas de produção e de trabalho e as outras
manifestações culturais da sociedade. Para ele, o pensador social deve
estar disposto a reconhecer a influência que as formas culturais, como a
religião, por exemplo, podem exercer sobre a própria estrutura
econômica.Karl Emil Maximilian Weber nasceu em Erfurt, em 1864, em uma
família protestante.A partir de 1869, instala-se com a família em
Berlim. Seu pai foi deputado do Partido Nacional Liberal, e, graças a
ele, Weber, desde cedo, teve contato com homens políticos e pensadores
influentes que eram frequentemente convidados à sua casa.O jovem Max, entediando-se na escola e tendo pouco contato com os colegas de sua idade, tornou-se um leitor insaciável. Suas leituras (Cícero, Maquiavel, Kant etc.) testemunham sua grande precocidade intelectual. Terminada sua formação básica, Weber inscreve-se na Faculdade de Direito de Heidelberg, seguindo igualmente cursos de economia política, filosofia, história e teologia.Em 1889, Weber conclui seu doutorado sobre o desenvolvimento das sociedades comerciais nas cidades italianas da Idade Média. Em 1891, termina o trabalho A Importância da História Agrária Romana para o Direito Público e Privado, que o qualifica para ser professor na universidade. Esses anos foram decisivos na formação de Max Weber, porque o fizeram se interessar pelos problemas sociais de sua época.Aos 29 anos, em 1893, assume o cargo de professor de história do direito romano e de direito comercial na Faculdade de Berlim. Casa-se com Marianne Schnittger, ícone da causa feminista e intelectual engajada em questões políticas. Ela terá um papel decisivo na edição da obra de Weber, supervisionando principalmente a publicação dos escritos póstumos de seu marido, em especial de sua obra magna Economia e Sociedade.
De 1897 a 1903, Weber sofre de uma grave depressão nervosa, sendo obrigado a interromper seu magistério. Em 1903, retomando suas atividades intelectuais, reorienta suas pesquisas para a sociologia. É nesse contexto que ele publica A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Em 1909, funda a Sociedade Alemã de Sociologia.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Weber inicia a redação de seu vasto projeto de sociologia comparada das religiões mundiais. Em 1919, muda-se para Munique, a fim de ocupar a cátedra de sociologia que a universidade havia criado especialmente para ele. É nessa ocasião que ele pronuncia duas de suas mais conhecidas conferências: “A Ciência como Vocação” e “A Política como Vocação”. Morreu subitamente em 1920, em consequência de uma pneumonia mal tratada.
Michel Misse é professor de sociologia da UFRJ
(Publicado originalmente no site da Revista Cult)
Editorial: Capitalismo Gore

No contexto deste debate que promovemos por aqui, em torno das instituições democráticas brasileiras, nesta semana gostaríamos de sugerir a leitura de um livro, assim como propor uma reflexão a partir de um posicionamento do professor Daniel Aarão Reis, em sua página, acerca da "oportunidade perdida" pelos partidos e coalizões de governo que assumiram o poder após o processo de redemocratização política. No entender do professor, os flancos ficaram abertos ou desguarnecidos, colocando nossas instituições da democracia numa condição de vulnerabilidade, susceptíveis às investidas de caráter autoritário. Os tucanos, embora tivessem estabilizado a economia, celebraram alianças com partidos cevados nos estertores do regime militar, como o PFL, interditando avanços mais significativos no sentido de democratizar a democracia. A coalizão petista, por seu turno, embora tenha distribuído renda - um dado importante no que concerne à democracia substantiva - e ampliado as conquistas e reconhecido o direito de minorias, igualmente alinhavou-se como forças políticas conservadoras, impossibilitando a materialização de reformas importantes, assim como não mexeu nos interesses da banca, permitindo lucros estupendos ao setor financeiro.
Em linhas gerais, consoante as reflexões do professor, perdeu-se uma oportunidade de aperfeiçoar as instituições da democracia, assim como republicanizar o país, tornando-o infenso às investidas de caráter antidemocráticas. É a surrada conciliação de classe, que, no Brasil, significa não apenas não mexer nos espúrios interesses dessa elite política e econômica, assim como ficar a mercê das mesmas, tornando-se refém na primeira oportunidade, quando eles decidirem que a brincadeira deve acabar.
Está se tornando cada vez mais evidente o conflito entre as instituições da democracia e as novas formas de acumulação do capital. O mercado editorial brasileiro, nos últimos meses, foi literalmente inundado por publicações que tratam da crise da democracia aqui e alhures, uma vez que se trata de uma onda conservadora que varre o planeta. Mas, no tocante à recomendação de leitura que fiz no início deste editorial,o texto é de Ellen M. Wood, Democracia Contra o Capitalismo, editado no Brasil pela editora Boitempo. Registre-se, um excelente texto, onde evidencia-se os condicionantes dessas engrenagens acumulativas, cada vez mais incongruentes com a manutenção da engenharia da democracia liberal, ferindo de morte suas instituições.
Ao longo de séculos de existência, o capitalismo passou por algumas transformações, mas manteve, em essência, inabalável, a lógica que o caracteriza: o processo reprodutivo do capital, sob quaisquer circunstâncias. Se cometo alguma impropriedade aqui, peço desculpas ao senhor Karl Marx, que dedicou uma vida a estudar esse modo de produção. Essa lógica hoje implica entender que os indivíduos não consumidores podem ser perfeitamente descartados. Mas, até neste particular, essa lógica objetiva auferir algumas vantagens, ou seja, lucrar com esses descartes.O termo gore está associado a uma situação de extrema violência, ou seja, implica dizer que
o atual estágio de acumulação do capital traz, no seu bojo, algumas
características bem definidas, observadas em cidades que tem sido o
palco dessas barbáries, como é o caso da cidade de Tijuana, no México que
faz fronteira com os Estados Unidos, que ostenta taxas elevadíssimas de violência. Salvo melhor juízo, há uma serie da Netflix abordando a
violência nessa cidade Mexicana, onde os assassinatos são cometidos com
requintes de crueldade, daí o termo gore.
Convém registrar que esses
corpos inertes, meu caro Michel Foucault, traduzem, por assim dizer, uma identidade com a própria
dinâmica da economia nesses tempos de cólera, descrito pela autora
Sayang. O livro relata a experiência do estado mexicano com essa nova
modalidade de reprodução do capital, mas, como estamos num mundo globalizado, essa modalidade de capitalismo já começa a demonstrar seus
reflexos em cidades como o Rio de Janeiro, onde milícia, polícia, política e
Estado acabam se tornando a mesma coisa, com reflexos diretos sobre a
vida do cidadão comum. O mais grave é que a eliminação físicas de desafetos não ocorre apenas por suas teses - que contrariam os interesses desses grupos - mas pela tonalidade de sua pele, por sua opção sexual, por sua posição na pirâmide social. Custoso entender aqui que a militante Marielle Franco não morreu apenas por suas teses - que, de fato, incomodavam bastante - mas por ser mulher, negra, da favela e homossexual.
Outro dia li um artigo bastante interessante
sobre a origem das milícias no Rio de Janeiro. Contraditório observar
que o próprio poder público esteve diretamente ligado à formação desses
núcleos milicianos. As milícias surgiram na Zona Oeste, como simples
associações de moradores. Logo criariam tentáculos absurdos, impondo
suas diretrizes através de muita violência, o que inclui o assassinato de
desafetos. Saiu completamente do controle do poder público, com
negócios que vão desde transporte - ocupam o espaço onde a Uber não
entra -, extorsão de comerciantes, gás, energia elétrica, água, moradia
através da grilagem de terra, e, mais recentemente, a morte por
encomenda, assim como o trafico de drogas, o que as torna em
narcomilícias. Ainda mais grave, seus tentáculos penetraram no aparelho repressor do
Estado, assim como colocaram seus representantes no Executivo e no Legislativo, já que esses
contingentes habitacionais, onde essas milícias atuam, são responsáveis
pela eleição de parlamentares em todos os níveis. As teses levantadas
por Sayak Valência, assim como pelo pensador africano, Achille Mbembe, portanto,
se aplicam tanto à realidade do México quanto à realidade brasileira,
com seus componentes já observados em Estados como o Rio de Janeiro.
terça-feira, 11 de junho de 2019
sábado, 8 de junho de 2019
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