pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Crônica do cotidiano: Chega nego


Tivemos algumas experiências interessantes na Bahia, seja quanto viajamos a trabalho ou mesmo a passeio com a família. Uma das mais significativas e gratificantes foi o deslocamento de Salvador à cidade de Cachoeira, na região do Recôncavo Baiano.  Ainda guardamos no paladar os sabores da culinária local, apreciadas aos finais de tarde, sob o por do sol, às margens do Rio Paraguaçu. Esta cidade está cercada por um conjunto de emblemas históricos e arquitetônicos do estado, alguns dos quais já tratados por aqui em momentos anteriores. Nossa passagem por ali foi retratada numa novela concluída recentemente, onde nos reportamos aos diálogos com o pessoal da Irmandade da Boa Morte e ao Coco de Roda de Dona Dalva, doutora Honoris Causa pela Universidade do Recôncavo Baiano. Dona Dalva também integra a Irmandade da Boa Morte. 

No afã de remontar toda a origem da Irmandade da Boa Morte, O texto ficou demasiadamente ensaístico, o que nos contingenciou aos reparos necessários. Ao romancear alguns fatos históricos, não raro nos empolgamos com as remissões  históricas, sociológicas  e antropológicas e isso pode comprometer os aspectos determinantes de um romance ou de uma novela. Romance é preciso ter ritmo, cadência. Caso contrário, podemos perder os leitores e leitoras. Ele pode simplesmente não se interessar em conhecer a História da Irmandade da Boa Morte e abandonar o texto. Trata-se de uma armadilha da qual raramente conseguimos escapar. Ainda em Salvador, conhecemos o CEAO ( Centro de Estudos Afro-Orientais), tudo dentro de nossa perspectiva de pesquisa, onde mantivemos alguns contatos com pesquisadores do centro. 

Um deles usou a expressão "chega nego" muito comum no estado, utilizada em diversos ambientes sociais da capital baiana, seja um bar, um ponte de encontro, uma praia, um sítio histórico. Mas, neste caso, o pesquisador a utilizou como um eventual ponto de desembarque de negros escravizados que chegavam à capital, possivelmente na cidade baixa, próximo onde hoje fica o Mercado Central. A cidade de Salvador sofreu várias intervenções urbanística ao longo dos anos não sendo possível precisar se, de fato ali, funcionava o local de desembarque de negros trazidos do continente africano. Um local conhecido como Porto da Misericórdia é mais utilizado pelos pesquisadores como ponto de referência neste sentido. O "Chega Nego" oficial. 

Ainda por exigências impostas pela pesquisa, tivemos que subir ao ponto mais alto e luxuoso da cidade, o chamado Corredor da Vitória, onde reside a nata da burguesia baiana. Nosso objetivo era conhecer uma instituição museológica local, detentora de um acervo importante para o nosso trabalho. Hoje, 19, uma referência na coluna Diário do Poder nos remeteu a tais lembranças. Segundo a coluna, para alguém que se espantou com a kitnet de milhões, é ali que reside o tal senador encrencado, num belo apartamento avaliado em 200 milhões, com píer e acesso de teleférico à Baía de Todos-os- Santos e, parafraseando um poema de Gilberto Freyre, de quase todos os pecados. 

Editorial: Lula passa a "ignorar" Flávio na corrida pelo Palácio do Planalto.


Em princípio, o suposto financiamento do ex-banqueiro  Daniel Vorcaro aos produtores do filme Dark Horse não teria causado um grande estrago à candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Pelo menos era isso o que mostravam as pesquisas de intenção de voto divulgadas logo após o episódio. Passada a tormenta, as últimas pesquisas de intenção de voto divulgadas mais recentemente mostram um distanciamento crescente entre os índices do presidente Lula e os escores obtidos pelo bolsonarista. Não é possível afirmar, categoricamente, que isso é um reflexo retardado do "Dark Horse" ou se isso ocorre em função de outros fatores. Fatores é o que não faltam, a começar pela estratégia do Planalto em jogar no colo do candidato de oposição a responsabilização pelas medidas amargas adotadas pelo Governo Norte-Americano. 

Algo está dando certo para Lula, depois de um longo e tenebroso inverno, onde seus assessores de comunicação não conseguiam identificar onde estava o problema. Mesmo nas redes sociais, habitat natural do bolsonarismo, o Planalto conseguiu alguns êxitos consideráveis no calor da crise do assédio ao nosso Pix. Compete aos seus marqueteiros e homens de comunicação identificarem o que exatamente está ocorrendo. Na pesquisa do CNT\MDA Lula abre 13 pontos de diferença em relação ao oponente Flávio Bolsonaro, ao passo que na pesquisa Nexus o morubixaba chega a abrir 9 pontos de diferença. Pesquisas qualitativas, com grupos fechados, poderiam ajudar bastante. 

A pesquisa da CNT\MDA ouviu, através de entrevistas presenciais, 20002 eleitores entre os dias 10 e 14 de junho e está registrada no TSE sob o número BR- 04256\2026. A pesquisa tem margem de erro de 2,2 p.p e índice de confiabilidade de 95%. 

Primeiro Turno: 

Lula(PT)         41,8%

Flávio(PL)      28,2% 

Editorial: Jaques Wagner afirma que continuará no Governo


Mesmo diante da repercussão negativa da nona fase da Operação Compliance Zero, realizada no dia de ontem, 18, que realizou buscas e apreensões em endereços do senador Jaques Wagner e pessoas ligadas a ele, a informação é que ele deverá mesmo permanecer no cargo de líder do Governo Lula no Senado Federal. O senador teria mantido um diálogo amistoso com o morubixaba petista, onde a hipótese de deixar o cargo foi descartada. Ontem passamos o dia acompanhando a repercussão dos desdobramento desta nova fase da Operação Compliance pelas redes sociais. A relação duvidosa entre entes públicos e privados envolve, inicialmente, a negociação da compra, realizada por um operador do Banco Master, de uma rede de supermercados estatal pertencente ao Governo da Bahia, o Cesta do Povo, que vendia produtos subsidiados aos servidores públicos do estado. A rede pertencia à Empresa Baiana de Abastecimento(EBAL).  

Com a aquisição da rede de supermercados estatais, o senhor Augusto Lima, segundo apurou a Polícia Federal, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, recebeu o sinal verde para a criação de um cartão de crédito denominado Credcesta, que operava com empréstimos consignados e créditos com descontos em folha dos servidores. É aqui que começam os problemas para os cidadãos e cidadãs comuns, simples servidores públicos do estado, em atividade e ou aposentados, e, acreditam os investigadores, os "subsídios" indevidos às autoridades públicas que estiveram diretamente relacionadas à facilitação dessas transações, arrolados aqui uma kitnet avaliada em 2,5 milhões num dos bairros mais caros de Salvador, o Horto Florestal.  

Mexer com este jogo espúrio de interesses é a pior atividade existente. Isso vale para uma simples milícia que opera numa favela e obriga os comerciante locais a adquirem a farinha de trigo de péssima qualidade comercializada por eles, até às decisões que são tomadas por membros da mais alta corte de justiça do país, o Supremo Tribunal Federal. Recentemente um comerciante foi morto por se recusar a adquirir o produto oferecido pela milícia local, no Rio de Janeiro. Os milicianos resolveram diversificar os seus negócios e hoje investem até no pãozinho francês. Nem ele escapa desta sanha. O ministro André Mendonça, relator do caso do Banco Master, numa sessão recente do STF, fez revelações preocupantes, como uma proposta de delação seletiva encaminhada por um dos escritórios de advocacia do banqueiro Daniel Vorcaro, assim como sugere possíveis ameaças veladas já recebidas. 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Editorial: Ações coordenadas contra o crime organizado


Há um adágio aqui na região onde se afirma que dois bicudos não se beijam. Lula sabe da importância de manter um diálogo permanente com o presidente americano Donald Trump, mais, internamente, faz questão de alfinetá-lo com as bravatas do soberanês, uma narrativa que pode até dá certo como estratégia de reeleição. Por outro lado, plantado no território do inimigo, interferindo diretamente nesse padrão de relação entre os dois presidentes, uma família, com acesso direto ao próprio Trump ou aos seus assessores diretos. Apesar de tratá-los como traidores entre nós, do ponto de vista estritamente estratégico da relação entre os dois países, a conta não fecha. 

Independentemente da vontade do Governo Lula, o Departamento de Estado acabou mesmo classificando organizações como o PCC e o CV como organizações narcoterroristas. Até recentemente, numa operação de forças militares americanas dentro do território da Venezuela, o que já não é mais alguma novidade, os americanos destruíram o que seria um acampamento da facção Tren de Aragua, matando Niño Guerrero, o chefão do cartel. Para que tenhamos uma ideia sobre como essas ações contra o crime organizado precisa de uma coordenação de inteligência e ações conjuntas, ontem, 18, a Polícia Civil do Rio de Janeiro, numa operação realizada no Aeroporto do Galeão, prendou o operador financeiro desta facção venezuelana, numa ação que confiscou 300 milhões de dólares e um automóvel Porsche. 

Esta organização criminosa já opera no Brasil há algum tempo, assim como facções brasileiras atuam em diversos ramos ilegais no exterior. No Brasil, sequer existe uma integração efetiva dessas ações envolvendo a União e os entes federados. A proposta do Governo Lula até acena para esta necessidade, mas, a rigor, sabemos que ela funciona bem apenas em relação há alguns entes federados, uma vez que os estados sob o controle da oposição, deliberadamente, evitam estabelecer esta parceria. Na região, observamos o estado da Paraíba como uma honrosa exceção. Gaeco, Ficco, Ministério Público, PRF, polícias militar e civil realizam várias operações conjuntas contra o crime organizado. Não sabemos se este padrão de articulação já é suficiente, mas, sim, é alvissareiro. 


Editorial: Nova fase da Operação Compliance Zero na Bahia.


Numa fala que veio a público durante uma sessão no Supremo Tribunal Federal, o Ministro André Mendonça, fez várias afirmações importantes, mas destacamos três delas. Num determinado momento ele afirmou que não mandava prender para arrancar delações premiadas, o que significa entender que a delação proposta pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro não assumiria uma importância capital no rumo das investigações sob a relatoria do ministro. Talvez exatamente por isso, por não "abrir" o jogo de elementos novos, tenha sido rejeitada.  Num outro momento, o magistrado observa que o escândalo do Banco Master é muito mais do que uma fraude do nosso sistema financeiro, com ramificações junto ao modus operandi da máfia e do crime organizado. 

Num outro momento, ele assegura que cumprirá seu dever de ofício de conduzir as investigações de forma republicana, não poupando nenhum dos envolvidos no caso. É de bom mister contar com servidores públicos investidos deste propósito e postura na condução dos trabalhos sobre esta que se acredita ser a maior fraude do sistema financeiro no mundo, mostrando, mais uma vez, que o Brasil não é para amadores. Hoje, 18, a Polícia Federal, por determinação do ministro, cumpre mais uma fase da Operação Compliance Zero, desta vez na Bahia, onde se especula que possa ter sido o "berço" das transações nebulosas e pouco republicanas das operações do Banco Master. Pelo menos no que concerne a esta promiscuidade entre fundos públicos e entes privados. O enredo da Bahia é, de fato, nebuloso, envolvendo autoridade da República que, supostamente, teria sido beneficiado através de parentes. 

Estão sendo cumpridos 18 mandados de busca e apreensão. A condução dos trabalhos é republicana, dentro do estrito cumprimento da lei e não se trata, em nenhuma hipótese, de perseguição política, como os adversários do ministro deverão tentar insinuar. Há uma robustês de evidências de maracutaias que deverão ser apurados e os responsáveis punidos. Embora a nova proposta de Vorcaro tenha sido mais uma vez recusada, como sempre ocorre, a imprensa divulgou alguns drops do seu conteúdo, evidenciando como atores dos Três Poderes da República estavam, de alguma forma, mancomunados com o ex-banqueiro. Gente de altíssima esfera, ocupando cargos de comando. Um deles considerou não haver nada demais o banqueiro ter financiado sua hospedagem em hotel de luxo em Portugal, com diárias nas nuvens. É lixo só. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crônicas do cotidiano: Os hábitos "esquisitos" dos escritores


O suíço Robert Walser era uma espécie de escritor para escritores. Dominava, com maestria, todos os gêneros e tornou-se o escritor preferido do tcheco Franz Kafka. Internado a contragosto numa clínica psiquiatra, depois de enfrentar alguns problemas psicológicos, dos médicos aos profissionais de saúde que o acompanhavam imploravam que ele continuasse escrevendo, ao que ele sempre respondia: "Eu vim aqui para ser louco. Não para escrever." Esta expressão nos deixou tão impressionados que costumamos repeti-la com frequência nos nossos textos literários. Para que os leitores tenham uma vaga ideia sobre a importância deste "ambiente" de escrita, mencionaríamos, igualmente, uma outra referência, desta vez alagoana, numa alusão ao escritor Graciliano Ramos. 

Um crítico literário teve a preocupação de comparar seus escritos, quando ele gozava de sua liberdade, dos escritos do período em que ele esteve preso durante a Ditadura de Getúlio Vargas, por suas atividades no Partido Comunista Brasileiro. O crítico concluiu que seus melhores momentos de criatividade estavam relacionados ao tempo em que o escritor se recolhia à sua escrivaninha, acompanhado de uma garrafa de cachaça, um pedaço de rapadura e os inseparáveis fumo de rolo. Assim, o velho Graça produziu um dos melhores acervos da literatura brasileira. Memórias do Cárcere já não reservaria o melhor de sua produção literária, exatamente porque longe do seu habitat natural de criação.

Ontem, 16, faleceu no Recife, vítima de um câncer terminal, o escritor pernambucano Raimundo Carrero. Noticiando o evento, o Blog do Magno, em matéria escrita pelo próprio jornalista Magno Martins, há referência a um diálogo entre ele e o escritor Raimundo Carrero, quando este se refere ao seu momento de criação, sob intenso suor do Sertão, acompanhado de uma cachaça. Desde de ontem essa imagem  não nos sai da cabeça. O que impressiona é que, talvez sob um friozinho de ar-condicionado, um cafezinho quente, uma mesa bem arrumada, bolachinhas de coco,  não tivéssemos produzido um escritor da envergadura de um Raimundo Carrero. 

Quando alisávamos os bancos do CAC, da UFPE, nas aulas de Teoria Literária, tínhamos o privilégio de a disciplina ser ministrada por alguém do "ofício", o poeta Marcus Accioly. Marcus tinha uma metodologia que animava os alunos de sua disciplina, ao mencionar suas experiências como escritor, levar os companheiros de escrita para os bate-papos em sala de aulas, coisas assim. Salas sempre repletas de alunos, ansiosos por sua experiências. Produzimos uma resenha de um dos seus livros, muito elogiada pelo autor, que fez questão de enfatizar, em sala de aula, que nenhum crítico literário havia produzido as observações que apresentávamos no texto. 

Sobre os hábitos curiosos de alguns deles, Marcus fazia referência a Friedrich Schiller, que sempre guardava maças pobres na gaveta de sua escrivaninha para se inspirar. Somente assim ele conseguia escrever. Kafka escrevia nu, noite adentro, compulsivamente. Dormia muito pouco. Truman Capote tinha uma cor de papel para cada gênero. Uma cor para romance, outra para o conto e assim por diante. Quando, por algum motivo, não dispunha desses papéis na cor específica do gênero, considerava que sua  produção já não era a mesma. Hemingway escrevia apenas pela manhã. Das 100 páginas escritas, confessaria, uma era uma obra-prima. 99 delas jogava no lixo. Sobre os tomadores de whiskies, deixemos para um outro momento. A lista é grande. 

Editorial: Elmano perde a compostura em evento e se aborrece durante entrevista.


Quando o indivíduo entra na vida pública deve estar ciente de algumas condições a ela inerente, como o fato de ser criticado pelos órgãos de comunicação, profissionais do ramo, analistas sociais, opositores e até o mais humilde pagador de impostos. Aqui em Pernambuco, terra das velhas oligarquias carcomidas da política que estão no poder desde 1500, isso se traduz num grandiosíssimo problema, por vez traduzido em perseguições sórdidas, utilização do aparato de Estado com propósito nada republicano ou legal, abertura de processos judiciais. Com o advento das tecnologias, hoje o indivíduo pode ser "cancelado" até pelas redes sociais, através dos criminosos disparos de WhatsApp, formado por grupos corporativos. 

Dizem que isso tem a ver com o nosso processo de formação histórica, na condição de capitania açucareira bem-sucedida. A patologia social  produzido pelo familismo amoral foi tão gritante que este processo acabou sendo reproduzido nas instituições do Estado, com a formação de núcleos feudais e microcapitanias hereditárias. O uso da máquina do Estado para atender às demandas de núcleos familiares e seu apaniguados levam esses senhores a desconsiderarem os menores princípios éticos ou cristãos em seus métodos e práticas persecutórias contra os desafetos. Nem precisa necessariamente ser um desafeto. Basta apenas criticá-los. Eles atropelam tudo em nome da preservação de tais interesses.  

O Governo do Ceará reunia recentemente em evento gestores municipais do estado. O evento, ao que se sugere, não foi bem-sucedido ou não atendeu às expectativas dos organizadores. O fato é que, alguns jornalistas após o encontro, formularam algumas questões delicadas ao governador Elmano de Freitas, que ficou aborrecido ao ser indagado por um deles, possivelmente um crítico de sua gestão, o jornalista João Mota, do site O Otimista.  Quando indagado pelo jornalista acerca dos altos índices de insegurança pública no estado e sobre o famigerado caso do "sumiço" do político conhecido como Bebeto do Choró, que teria supostamente, ligações com o crime organizado, Elmano foi taxativo: "Não lhe respeito".  

terça-feira, 16 de junho de 2026

Crônicas do Cotidiano: A morte de Raimundo Carrero



Assim como ocorre com outros escritores, tínhamos uma curiosidade enorme em conhecer as primeiras novelas escritas pelo pernambucano de Salgueiro, o escritor Raimundo Carrero, que faleceu na manhã de hoje, aos 78 anos de idade. Essa curiosidade é absolutamente natural, pois sempre aprendemos muito com os grandes mestres. O propósito em relação ao trabalho do escritor Raimundo Carreiro estava relacionado a conhecermos um pouco o seu estilo literário ainda jovem e o seu processo de aprimoramento ao longo do tempo. A nossa conclusão à época é que Raimundo sempre foi de boa lavra, sugerindo-se uma grande vocação para a literatura desde cedo. Entre seus grandes tutores literários, podemos citar o escritor Ariano Suassuna e o antropólogo Gilberto Freyre, de quem foi assessor de imprensa. O regionalismo de Gilberto é forte em sua produção literária. 

Além de escritor,  Carrero trabalhou no Diário de Pernambuco, onde atuava como jornalista, e na Fundação Joaquim Nabuco, onde exerceu o cargo de assessor de imprensa. Acreditamos que a sua cumplicidade com Ariano tenha sido maior, uma vez que, na década de 70, Raimundo integrou o Movimento Armorial e chegou a produzir um texto literário em conjunto - o que não é comum - com o autor do Auto da Compadecida. Tratamos Gilberto aqui como antropólogo, mas todos sabem que o que ele desejava mesmo era ser tratado como escritor. Maria Lúcia Pallares Burke, que escreveu a melhor biografia intelectual sobre o mestre de Apipucos descobriu essas pistas ao esmiuçar sua biblioteca, repleto de textos literários de grandes escritores da época. 

Conhecemos Raimundo Carrero em suas oficinas literárias na Fundação Joaquim Nabuco, sempre auxiliado por uma companheira de trabalho, que tinha por ele um carinho enorme. Sobre a análise da obra de Gilberto Freyre do ponto de vista ensaístico e literário daria um grande ensaio, mas não deixa de ser curiosa a sua ascendência sobre escritores como José Lins do Rego e Raimundo Carrero, de alguma forma, ter sido agraciado, mais de uma vez, com os melhores prêmios literários brasileiros e ter, ao mesmo tempo, sua obra não legitimada no campo literário. Os paraibanos não gostam muito dessa referência à ascendência literária de Gilberto sobre José Lins do Rego, mas foi o próprio escritor paraibano quem declarou que devia a Gilberto os seus romances. 

Há um relato do jovem Raimundo Carrero, contando a alegria de ter agendado um encontro com o antropólogo\escritor em sua residência de Apipucos, onde chegou com grandes expectativas acerca da avaliação que Gilberto havia feito em relação a um dos seus textos. Sugere-se que tal encontro tenha ocorrido quando Raimundo estava no início de sua carreira de escritor.  Quando foi acometido por um AVC, o escritor pernambucano, Raimundo Carrero revelou o que ele mais temeu naquele momento, como consequência da enfermidade: perder a capacidade de imaginar, condição fundamental para o exercício do seu oficio: escrever. 

Carrero continuou escrevendo e publicando livros, num dos casos, relatando sua experiência com a doença. Lembramos deste episódio ao ler, até recentemente, um texto da professora Eliana Robert Moraes, analisando o lugar da literatura na obra do filósofo francês, Michel Foucault. Como tudo que se refere a Foucault, trata-se de uma grande viagem, uma viagem para ser feita, preferencialmente de barco, o lugar da "heterotopia", ou seja, um espaço, que mesmo sendo localizável, se configura como um lugar à parte, constituindo uma espécie de contestação ao mesmo tempo mítica e real do espaço em que vivemos, consoante com Eliana Robert. A literatura de Carrero foi um pouco isso nos seus últimos anos no plano terrestre, ao se preocupar com a morte dos nossos meninos. 

Charge! Borega via Tribuna Feirense

 


Editorial: PGR rejeita nova delação de Daniel Vorcaro


Deu o esperado, conforme já havíamos previsto por aqui. A Procuradoria-Geral da República rejeitou a nova proposta de delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Quem tem a última palavra sobre o assunto é o Ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, mas a tendência natural é que ele acompanhe a posição da PF e da PGR. A PGR também rejeitou o pedido de prisão domiciliar encaminhado pelos advogados do ex-banqueiro, o que representa mais um grave problema para Vorcaro, uma vez que a PF já recomendou sua transferência da sala especial em Brasília, mas o STF não considera prudente encaminhá-lo para uma prisão comum. Por outro lado, a prerrogativa de cumprimento de pena na sede da Polícia Federal depende dos acertos na condução da proposta de delação premiada, que acaba de ser rejeitada pela segunda vez.  

Parece enredo de novela mexicana, onde os capítulos vão se arrastando indefinidamente, quando o essencial já foi dito. Neste caso, talvez não tenha sido dito, gerando enormes especulações pela imprensa em torno do assunto. Alguém já sugeriu que o ex-banqueiro está jogando bem, ou seja, mantém a proposta em aberto - usufruindo dos seus benefícios antecipados - ao mesmo tempo em que preserva alguns bons amigos dos tempos áureos, das viagens de contos de fadas, das degustações de whiskies caríssimos. Tudo é possível. Vorcaro não suportou apenas alguns dias preso numa cela comum de penitenciária. Ele sabe muito bem o que significa isso. 

Vamos aguardar os próximos capítulos ou o próximo escândalo que seja capaz de assumir protagonismo suficiente para ofuscar as manchetes em torno do escândalo do Master. Coisa de país como o nosso, que já aprendeu a "conviver" com essas maracutaias envolvendo entes públicos e privados. No Governo de Jair Bolsonaro ocorreram várias denúncias de eventuais irregularidades no uso dos cartões corporativos. Para fazer a coisa certa, o Governo Lula 3 jamais poderia permitir que o cidadão pagador de impostos ficasse privado do conhecimento sobre como tais recursos públicos estão sendo utilizados. Pois bem. Também decretou sigilo sobre o uso desses cartões. 

domingo, 14 de junho de 2026

O xadrez político das eleições estaduais de 2026 em Pernambuco: Por que Raquel virou o jogo?


Já antecipamos que não somos nenhum especialista em comunicação política. O pouco que sabemos sobre o assunto são ensinamentos observados no cotidiano ou através dos grandes mestres neste campo do conhecimento. Embora, como advoga a oposição, haja uma destinação substantiva para investimentos em comunicação institucional, não procede a informação de que a Prefeitura da Cidade do Recife, durante a gestão de João Campos, investiu mais em comunicação do que em obras na cidade. Ficar de olho na aplicação dos impostos recolhidos pelo ente público é obrigação de qualquer munícipe. A informação poderia ter sido obra de um equívoco cometido por parlamentares que elegeram a fiscalização da gestão municipal como plataforma dos seus mandatos, o que seria bastante natural. É esta a função ou atribuição principal do Legislativo Municipal. O "natural" aqui se refere à fiscalização e não à desinformação. 

O cidadão comum dificilmente reservaria algumas horas do seu dia para acompanhar os "balanços" de prestação de conta do município. Por que, então, João Campos é apresentado como aquele que faz, aquele que realiza, aquele que entrega, levando-o a assumir, durante meses, a liderança nas pesquisas de intenção de voto para o Governo do Estado? Esta pergunta foi respondida pelos estrategistas de comunicação da governadora Raquel Lyra, que acaba de, não apenas virar o jogo, mais abrir uma diferença razoável na disputa pela reeleição ao Governo de Pernambuco. Conforme enfatizamos durante essas nossas discussões acerca da disputa política no estado, não há um único fator que, isoladamente, explique essa virada, mas múltiplos fatores que, agregados e agindo em sintonia, são os responsáveis por tal mudança de cenário na disputa.  

Há pouco dias reportamos por aqui a presença da governadora Raquel Lyra anunciando, em suas redes sociais, as obras do Arco Metropolitano, que se estendiam pela madrugada adentro. Ela não apenas anuncia a obra, mas põe a mão na massa, conversa com os operários e, principalmente, se envolve diretamente com os beneficiários desses empreendimentos, mostrando o que pode mudar na vida dessas pessoas. Se é uma creche, ela aparece abraçando as crianças; se é uma obra para as mulheres, ela faz uma live com as companheiras; se é para alunos da rede pública, ela aparece em sala de aulas abraçando os alunos, se é uma obra com os peladeiros de várzea, ela ensaia alguns toques na bola. Por sinal, a governadora está até em boa forma. Pena que não encontramos nenhuma foto específica, porque os vídeos curtos são os preferidos de sua equipe.  

Isso fica mais registrado na mente dos eleitores. É muito mais do que simplesmente anunciar uma obra. É o emocional que está sendo trabalhado, o que tem um peso muito maior na hora de definição do voto. Sua equipe de comunicação institucional está no caminho certo. João, apesar de jovem e bem-avaliado como prefeito do Recife, carrega o ônus pesado dos 16 anos em que o seu partido, o PSB, manteve-se à frente do Palácio do Campo das Princesas, um inquilinato que os eleitores pernambucanos já haviam emitido uma ordem de despejo ao eleger Raquel Lyra pela primeira vez. Havia uma inevitável "fadiga de material" socialista. Será que ele terá as "credenciais" necessárias para comunicar os eleitores que faria diferente?  

Este texto foi produzido por ocasião da publicação da pesquisa do Instituto Datafolha, aquela que apontava a virada de mesa da governadora. Logo em seguida, vieram outras pesquisas apontando um reequilíbrio na disputa entre João Campos(PSB-PE) e a governadora Raquel Lyra(PSD). Difícil dizer "o que" e "se houve" essa mudança tão significativa desde a divulgação da pesquisa do Datafolha. A verdade é que Raquel ter superado João de forma tão significativa é o grande "divisor de águas" na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas. 

sábado, 13 de junho de 2026

Editorial: A repercussão da denúncia contra o Presidente do Senado Federal


Há muita curiosidade da imprensa acerca do teor efetivo dessa colaboração do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Sobretudo em razão deste fato, convém tomar as precauções devidas em relação a assunto. Pela segunda vez a proposta é rejeitada, sempre sob o argumentos de que o que ele está propondo é insuficiente. Talvez o ex-banqueiro esteja, na realidade, tentando proteger os amigos mais próximos, sugerem os investigadores. Ademais, muito do que está se divulgado não ultrapassa a linha da quebra do seu sigilo telefônico, processo já em andamento na Polícia Federal. A PF tem vários celulares do ex-banqueiro em seu poder. Do ponto de vista dos trabalhos de investigações, a rigor, supõe-se que ele poderia colaborar muito mais. 

Neste sentido, orientando por tal linha de raciocínio, faz sentido esta segunda rejeição, algo que poderá ser seguido pela PGR. Sobre a rede de ramificações perigosas do dono do Master com autoridades dos Três Poderes da República, disfarçadas de "serviços prestados", igualmente este fato está cabalmente evidenciado. Pelos cargos ocupados por esses senhores, sabe-se que o céu era o limite para os operadores do esquema do Master. Neste final de semana, a revista Veja trouxe uma matéria de capa tratando deste escândalo nebuloso do nosso sistema financeiro. A repercussão foi grande no meio político, lembrando as grandes reportagem da revista de outrora, com o potencial de pautar os rumos da política nacional. 

Na matéria, segundo apurações da publicação, nesta segunda proposta de delação premiada do senhor Daniel Vorcaro ele afirmaria que um dos seus operadores teria feito um depósito da ordem de 33 milhões de dólares numa conta no exterior, cujo beneficiário, supostamente, seria o Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, que informou que estaria acionado juridicamente o ex-banqueiro em relação à veracidade ou não desta denúncia. Vamos aguardar os próximos desdobramento desta informação, já se sabendo que a tendência é a confirmação da recusa de mais uma proposta de delação premiada do ex-banqueiro. Em qualquer país civilizado do mundo o escândalo do Banco Master já seria suficiente para fechar a conta e passar a régua. No Brasil, a gente fica aguardando o próximo escândalo. 

O xadrez político das eleições estaduais de 2026 em Pernambuco: PL pode lançar candidatura ao Governo do Estado


Alguns movimentos da política pernambucana suscitam algo que instiga uma discussão mais efetiva. Sempre questionávamos por aqui as razões pelas quais os bolsonaristas não lançaram ainda uma candidatura ao Governo do Estado de Pernambuco. Há espaço, há eleitores, há alternativas. Principalmente quando consideramos que eles hoje estão sob o guarda-chuva do Palácio do Campo das Princesas, onde, a rigor, não há espaço suficiente para as suas aspirações. Numa entrevista recente a revista Veja desta semana, a governadora Raquel Lyra não se comprometeu com nenhum candidato presidencial. Nem com Lula, nem com Caiado, que é do seu partido, muito menos com Flávio Bolsonaro. Com Lula, segue o efetivo diálogo institucional em nome do interesse público - como não poderia deixar de ser - assim como suas cordiais relações com o Planalto. Se não estivermos juntos, também não vamos estar separados. 

Chegamos a pensar que os bolsonaristas poderiam compor com o Novo, mas o partido resolveu indicar outro rumo ao vereador Eduardo Moura, que deverá disputar uma vaga de deputado federal pela legenda. O principal dirigente do PL no estado, o ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira, já antecipou que estaria abdicando da disputa ao Senado Federal. Também optou por disputar uma vaga de deputado federal. Na próxima semana os bolsonaristas locais se reúnem para definir o rumo que tomarão nas próximas eleições no estado. Pernambuco tem uma robusta representação bolsonarista, integrada por militares, religiosos e empresários. É forte o peso político dos bolsonaristas no estado, a despeito da hegemonia lulista indicada pelas pesquisas de intenção de voto.  

A ausência de uma definição mais precisa dos bolsonaristas, levou o Palácio do Campo das Princesas a penetrar sensivelmente neste reduto. A esta altura do campeonato político, talvez eles optem por não lançar uma candidatura ao Governo do Estado, embora deva estar havendo cobranças efetivas da direção nacional do PL neste sentido, quando se sabe da necessidade de montagem de um palanque para Flávio Bolsonaro no estado. Um dado curioso observado na última pesquisa do Datafolha é a performance do deputado federal Mendonça Filho(PL-PE), que aparece muito bem na disputa ao Senado Federal quando sequer é pré-candidato. Mendonça é hoje um nome alinhadíssimo ao Campo das Princesas e, possivelmente, não encampará o projeto de uma candidatura própria do PL. 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O xadrez político das eleições estaduais de 2026 em Pernambuco: Raquel nas páginas amarelas de Veja


Crédito da Foto: Germano Lüders\Veja


Recentemente, a governadora Raquel Lyra apareceu numa de suas redes sociais acompanhando obras do Arco Metropolitano, que se estendiam pela madrugada adentro. Mais do que uma estratégia de sua equipe de comunicação institucional, a gestora consolida uma imagem de "tocadora" de obras, algumas delas deixada para trás nos 16 anos de gestão do PSB no estado. Um dado que ninguém tem enfatizado acerca desta subida das intenções de voto da governadora é que, além das razões já elencadas por este editor, há um fato "velho" que ela fez questão de enfatizar em sua entrevista à revista Veja que sai às bancas nesta semana: Quando foi eleita governadora, o povo estava cansado da permanência dos socialistas no Palácio do Campo das Princesas. 

Trata-se aqui de mais uma preocupação entre os socialistas: Depois de uma gestão que conta com 67% de aprovação, uma "tocadora" de obras à frente da gestão estadual, o povo pernambucano estaria disposto a devolver o assento do Campo das Princesas a um socialista? Ela fez apenas algumas ponderações durante a entrevista, mas este fato é bastante relevante, sobretudo se considerarmos que um dos fatores da derrota de Marília Arraes naquelas eleições foi justamente este "perdão" aos socialistas. Raquel vem ajustando sua gestão em todas aqueles aspectos que poderiam ser elencados como "vulneráveis", como o quesito da segurança pública, hoje um dos fatores determinantes nas próximas eleições. Seria o fator mais determinante nessas eleições, mas o fator "bolso" começou de novo a cobrar a fatura. 

Convém esclarecer que Pernambuco sempre foi um estado muito violento, independentemente das colorações ideológicas. O quadro hoje se agrava em todo o país. Pernambuco hoje sofre o assédio perigoso da presença de facções do crime organizado, além de ser um estado com uma vizinhança sensivelmente perigosa. A governadora teve que, inclusive, responder uma questão da revista sobre este assunto. Segurança Pública é um tema complexo e delicado. Na semana passada comentamos por aqui um atentado ocorrido no bairro do Rangel, em João Pessoa, onde dois jovens perderam a vida. Eles estavam pintando os muros com as cores da seleção brasileira. Aventamos algumas hipóteses, mas logo em seguida, um outro atentado contra um cidadão que estava também pintando o muro com as cores verde e amarelo. Os atentados podem ter ocorrido simplesmente pelo fato de essas pessoas estarem pintando os muros. Dá para entender isso? 

Editorial: Mais um capítulo da delação premiada de Daniel Vorcaro

Crédito da foto: Ana Paula Paiva\Valor


A matéria de capa da revista Veja desta semana é sobre a proposta de delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Hoje, 12, os jornais trazem a notícia de que a Polícia Federal rejeitou mais uma de suas propostas de delação premiada, decisão que deve ser acompanhada pela Procuradoria-Geral da República. Segundo a matéria, a PF suspeita que o ex-banqueiro esteja tentando proteger os amigos, assim como há, na delação, a ausência de elementos comprovatórios suficientes, ou seja, ele não apresenta provas objetivas de suas afirmações. Na realidade, o que a imprensa andou divulgando acerca dessa nova delação premiada já se sabia a partir das investigações conduzidas pela própria Polícia Federal. Possivelmente, o único nome novo é o de um ministro do Governo Lula. 

O esquema de compra de autoridades públicas dos Três Poderes para auferir vantagens para o grupo está escancarado. Esta engenharia de cooptação de agentes públicos com tal finalidade já é conhecida. Segundo a matéria, com informações apuradas a partir do teor desta nova proposta de delação premiada, um parceiro do esquema teria depositado a quantia de 30 milhões de dólares no exterior para favorecer resoluções do Legislativo favorável aos seus negócios. Recentemente, um ministro do STF anulou um processo e determinou o desbloqueio de bens de um dos envolvidos na Operação Calvário, um escândalo de desvios de verbas públicas na área da saúde, ocorrido na Paraíba. 

Uma delatora entregou o esquema, dando detalhes e até as senhas que comunicavam a entrega de propina a agentes públicos arrolados à época. Falou até sobre o local onde os corruptores entregavam as malas com dinheiro, que ocorria num estacionamento do Shopping Manaíra. Nada disso foi suficiente para se caracterizar a culpa dos envolvidos. De fato, é preciso tomar todos os cuidados possíveis com essas narrativas, por vezes decorrentes do efeito manada. Alguém "planta" algo e as pessoas saem reproduzindo aquela informações, sem sequer se preocuparem sobre a sua veracidade ou não, colaborando com a estratégia explícita de destruição de reputações, algo que se tornou rotineiro nesses tempos bicudos. Neste caso da Operação Calvário, a cidadã delatora também estava envolvida no esquema. Em tese, não teria porque mentir.  

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Editorial: A "judicialização" das pesquisas de intenção de voto?


Neste climão de polarização política, o "terrível" editorialista de O Estado de São Paulo já foi acusado de fazer o jogo do governo de turno pelos bolsonaristas, assim como já foi taxado de direitista pelos petistas. O humor de ambos os lados muda conforme as opiniões emitidas pelo jornal da família Mesquita. Leio-o sempre e, não raro, comentamos por aqui as suas opiniões. Hoje, 11, por exemplo, o editorial é uma crítica à recente medida tomada pelo presidente do TSE, o Ministro Nunes Marques, que proibiu a veiculação de uma pesquisa do Instituto Atlas\Intel, atendendo a uma solicitação do pré-candidato Flávio Bolsonaro. Salvo melhor juízo, na Paraíba uma outra decisão judicial proibiu a divulgação de uma pesquisa do Instituto Veritá sobre a corrida estadual naquele estado. 

Como observa o editorialista, esta é uma situação das mais polêmicas, sobretudo se entendermos que, a rigor, não compete ao Poder Judiciário a prerrogativa de proibir divulgações de pesquisas, sobretudo aquelas que cumpriram os critérios técnicos e legais previstos, o que, certamente, deve orientar os procedimentos desses institutos. Não é bem este o caso desses dois institutos - com uma larga experiência e tempo de atuação no mercado - mas o que consideramos curioso é o número surpreendente de institutos que surgem durante as eleições. Aqui observamos alguns problemas. Talvez precisássemos melhorar os "filtros" para a constituição desses institutos. 

Metodologias utilizados podem ser responsáveis por grandes discrepâncias entre os institutos de pesquisas. Há uma semana o Datafolha mostrou a liderança da governadora Raquel Lyra(PSD-PE) sobre o seu concorrente João Campos(PSB-PE), na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas. Hoje, 11, já há uma outra pesquisa, desta vez realizada pelo Real Time Big Data, apontando que João teria "revertido" tal desvantagem. O que ocorreu entre uma semana e outra que possa justificar tal mudança? Tal mudança de cenário na disputa, de fato, ocorreu? Não seria melhor aguardarmos um pouco mais e mantermos o quartel de prontidão? Observar o comportamento dos tracking ou uma média ponderada entre os levantamentos dos diversos institutos?  

Charge! Kleber via Correio Brasiliense

 


Editorial: A "novela" da delação de Daniel Vorcaro


Ontem, 10, o jornal Folha de São Paulo trouxe mais uma informação pessimista em relação à aceitação da proposta de delação premiada oferecida pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Oficialmente, é isto o que se sabe. Por outro lado, vários canais de comunicação passaram a divulgar supostos elementos que constariam dessa proposta de delação. Pelo que está sendo divulgado, só há mesmo um elemento novo aqui, ou seja, a confissão de que os recursos repassados a entes privados e autoridades da República, na realidade, trata-se mesmo, como se previa, de propinas ou tráfico de influência disfarçados de serviços prestados. Pelo menos no que está sendo divulgado pelos canais de comunicação, salta aos olhos que não há nada de novo no front, de onde se conclui que a proposta seja novamente recusada, conforme prevê o jornal paulista.  

Por outro lado, a Polícia Federal continua trabalhando. Ontem esteve aqui em Pernambuco, mais precisamente na cidade de Paulista, Região Metropolitana do Recife, onde se presume que o poder público municipal tenha investido mais de três milhões em papéis podres do Master, através dos fundos de previdência municipal. Há outras tantas prefeituras envolvidas pelo país afora e sabe-se lá em que condições esses investimentos foram realizados, mas existe a possibilidade de estarmos lidando com o mesmo modus operandi do RioPrevidência, onde até uma diretoria do órgão foi trocada para facilitar as transações. Isso, aliás, ocorreu no país inteiro. O esquema do Banco Master é gigantesco. O mais grave é que talvez tenhamos que pagar essa conta, através do FGC. 

O bom mesmo seria a abertura de uma CPMI, que prestaria um papel relevante de esclarecimentos à opinião pública sobre os meandros desse escândalo de corrupção nebuloso. Infelizmente, as "forças ocultas" não permitem a sua instauração. Nem mesmo foi permitido a uma comissão já instaurada, a do CPMI do INSS, a continuidade dos seus trabalhos, o que nos permitiria avançar sobre os famigerados empréstimos consignados do banco, outro duto por onde, supostamente, o cidadão comum pode ter sido igualmente lesado. Lá vem o Brasil descendo a ladeira. 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O xadrez político das eleições estaduais de 2026 em Pernambuco: "Comigo ou sem migo o náutico vai vencer"?

 



Na década de 70 o Clube Náutico Capibaribe tinha um excelente plantel de jogadores, o que proporcionou ao time grandes conquistas nos gramados pernambucanos, fazendo a alegria de sua fiel torcida. Entre esses jogadores, destacava-se o folclórico ponta Dedeu. Num determinado momento, por problemas de contusão, Dedeu não pode entrar em campo, levando um repórter a questioná-lo acerca das dificuldades que o time enfrentaria com a sua ausência. A resposta de Dedeu entrou, definitivamente, para o folclore futebolístico pernambucano: "comigo ou sem migo o náutico vai vencer". Isso nos fizeram lembrar da polêmica produzida através de uma entrevista concedida pelo Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, ao jornal O Globo, onde ele insinua que Lula poderia ter um palanque duplo em Pernambuco. 

Wellington Dias falou com a autoridade de quem está investido da responsabilidade de coordenar a campanha de Lula no Nordeste. O assunto provocou uma polêmica enorme na crônica política local, além de uma verdadeira operação de guerra dos socialistas em busca de um desmentido do Planalto e a ratificação de que o candidato João Campos(PSB-PE) tem primazia exclusiva do palanque do morubixaba petista no estado. Edinho Silva, Presidente Nacional do PT, além de conversar com Wellington Dias a este respeito, confirmou que o palanque de Lula no estado é ao lado do socialista. Aliás, logo após a divulgação da pesquisa do Datafolha - que tirou João Campos de uma confortável zona de conforto na liderança das pesquisas de intenção de voto - as inquietações começaram. Já elencamos por aqui as razões que levaram a governadora Raquel Lyra(PSD-PE) a superar sua desvantagem nas pesquisas de intenção de voto. Com 67% de aprovação do eleitorado pernambucano, Raquel Lira reúne as premissas básicas para renovar seu contrato de locação com o Palácio do Campo das Princesas. 

Era preciso alguns ajustes na comunicação institucional - o que foi feito - aparar algumas arestas em sua relação com o parlamento, afagar os gestores municipais com as entregas e tomar medidas em relação à nevrálgica questão da segurança pública. Em política - como de resto em tudo - posicionamento é algo muito importante. João Campos já foi eleito prefeito pela primeira vez com um posicionamento claramente antipetista, angariando apoio de uma classe média simpática ao bolsonarismo, que hoje se encontra mais inclinada a apoiar o projeto de reeleição de Raquel Lyra. Com a formação de uma chapa puro-sangue João Campos perdeu a interlocução com este eleitorado, que em Pernambuco é representativo. Agora, parafraseando o craque Dedeu, a pergunta que se faz é: com Lula ou sem Lula será que ele consegue superar essas dificuldades?  

Editorial: Genial\Quaest aponta ampliação da vantagem de Lula no segundo turno.



O que se concluiu, pelo resultado das últimas pesquisas de intenção de voto, é que o famoso financiamento do filme Dark Horse não teria prejudicado sensivelmente a candidatura do bolsonarista Flávio Bolsonaro. A pesquisa do Instituto Quaest divulgada no dia de hoje, 10, no entanto, mostra uma ampliação dos índices do presidente Lula sobre o seu opositor, Flávio Bolsonaro, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Esta questão do "Dark Horse", inclusive, levou o candidato Flávio Bolsonaro a fazer questionamentos acerca de uma pesquisa divulgada recentemente, argumentos que levaram o TSE a proibir a divulgação dos dados ali encontrados. Há indícios técnicos dos chamados "vieses" na condução ou aplicação dos questionários. 

Argumentos técnicos são sempre bem-vindos. É até uma forma de aprendizagem, de aprimoramento dos trabalhos dos institutos que se dedicam a inferir o humor do eleitorado nas eleições. A estratégia de focar na defesa da soberania e responsabilizar o adversário pelos assédios e medidas do Tio Sam, por outro lado, podem estar surtindo efeito. Há aqui apenas uma hipótese que poderia ser evidenciado ou não através de pesquisas qualitativas. O Planalto, por outro lado, mesmo sem lastro, adotou nos últimos dias um pacote de bondades que podem estar ajudando o projeto de reeleição de Lula, como os estrategistas sugeriram que poderia ocorrer. 

A pesquisa do Instituto Quaest foi encomendada pelo Banco Genial, ouviu, através de entrevistas, 2.004 pessoas, entre os dias 5 e 8 de junho, com margem de erro de 2 pp e escore de confiabilidade de 95%. Está registrada com o número BR-07661\2026

Primeiro Turno: 

Lula(PT)                           39%

Flávio Bolsonaro(PL)    29%

Renan Santos(Missão)   3%

Segundo Turno:

Lula(PT)                             44%

Flávio Bolsonaro(PL)       38% 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Editorial: Os infiltrados


O título deste editorial poderia ser confundido perfeitamente com uma série da plataforma de streaming como a Netflix, mas, infelizmente, não é. Repercute hoje no país uma matéria do jornal Folha de São Paulo, acerca dos infiltrados, ou seja, um chefe de investigação da Polícia Civil, um agente e um estagiário, tratados como "infiltrados" do PCC dentro da Polícia Civil de São Paulo, lotados em Campinas. Eles estariam envolvidos numa trama para matar um agente do GAECO. Tá feia a coisa. Na semana passada fomos instados a comentar por aqui uma reportagem do Programa Fantástico, da Rede Globo, sobre uma investigação da Polícia Civil da Paraíba, do Gaeco e do Ministério Público do Estado acerca de eventual envolvimento de policiais civis com o crime organizado. São dois agentes e um delegado de Polícia Civil do Estado. 

Em respeito ao trabalho brilhante que vem sendo desenvolvido pelas polícias civil e militar do estado no enfrentamento ao crime organizado não comentamos o assunto. Na realidade, a PCPB vem realizando um trabalho hercúleo, num estado que hoje se encontra num estágio de vulnerabilidade, bem próximo ao que já ocorre na Bahia, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Dois atentados ocorridos na Grande João Pessoa recentemente é um prova cabal do que estamos falando. Um deles ocorreu no bairro da comunidade de Paulo Afonso, no bairro de Jaguaribe, onde dois jovens foram mortos e três deles encontram-se internados no Hospital de Traumas de João Pessoa. Chacina, na realidade, se caracteriza quando há óbitos num total de, no mínimo, quatro pessoas. Ontem, uma nova tragédia, desta vez no bairro do Rangel, onde dois jovens foram mortos e dois deles se encontram também no Hospital de Traumas. 

O pavoroso neste caso é que os dois jovens mortos tinham apenas 16 anos de idade, não tinha nenhum envolvimento com entorpecentes e provavelmente foram mortos porque estavam pintando a rua com as cores da bandeira do Brasil, em função da Copa do Mundo, que começa daqui há dois dias. Sonhos desfeitos, para desespero de seus familiares. Os dois jovens sonhavam em se tornarem jogadores de futebol profissional. É possível que a facção que controla o local tenha entendido que eles talvez estivessem apagando suas inscrições de domínio territorial ou colocando o nome de alguma outra fação. Essas coisas estão se tornando tão óbvias que nem precisa investigar. 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Editorial: Semana decisiva para a delação de Daniel Vorcaro


Esta é uma semana decisiva para a aceitação ou recusa da proposta de delação premiada oferecida pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso na sede da Polícia Federal, em Brasília. Hoje, 08, já tivemos acesso a duas matérias tratando deste assunto, todas pessimistas em relação a uma aceitação da proposta, o que significaria o prenúncio de um martírio para o ex-banqueiro, que corre um sério risco de voltar a cumprir pena num presídio convencional, quando todos sabem o que significa isto no Brasil. Numa dessas leituras, há a suposta conclusão de que Vorcaro estaria tentando proteger alguns figurões, fatos, ou seja, propondo entregar apenas parte do maior esquema de fraudes bancárias já ocorrido no país. 

Esta versão bate com a da Polícia Federal, se considerarmos os motivos da recusa de sua primeira proposta de delação premiada. Por outro lado, há uma jornalista muito bem informada sobre os bastidores de Brasília, que chega a insinuar que, na realidade não seria bem assim, ou seja, em alguns momentos o banqueiro pode ter desejado entregar mais da conta daquilo que o sistema suportaria. Como nós não temos acesso a essas propostas, vamos ficar no aguardo de uma avaliação da PF, da PGR e, principalmente, o Ministro André Fernandes, que deve ter a palavra final sobre este assunto. Uma CPMI poderia ajudar bastante aos brasileiros e brasileiras tomarem conhecimento sobre este enredo nebuloso, mas já se sabe que não existe qualquer possibilidade de sua viabilidade. 

Mais curioso do que esta polêmica em torno da proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro só mesmo os "argumentos" apresentados pelo Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, afirmando que não abriria a CPMI porque ela se tornaria uma espécie de palanque eleitoral. Ele parece ignorar o interesse público que está por trás desta abertura de CPMI, considerando-se estarmos diante o maior escândalo de fraudes bancárias do país, com milhares aplicadores lesados, aposentados e pensionistas ludibriados através dos famigerados empréstimos consignados, assim como e o cidadão comum pagando a conta através do Fundo Garantidor de Créditos. 

O xadrez político das eleições estaduais de 2026 em Pernambuco: Lula terá palanque duplo em Pernambuco


Neste final de semana, o Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo, trazendo alguns fatos que estão repercutindo bastante aqui no estado. Há algumas semanas atrás o Instituto Datafolha divulgou uma pesquisa onde aponta que a governadora Raquel Lyra(PSD-PE) teria ultrapassado o ex-prefeito do Recife, João Campos(PSB-PE) na corrida pelo Palácio do Campo das Princesas. Discutimos por aqui, inclusive, as razões pelas quais a governadora havia obtido tal resultado, ancorada em entregas de obras por todo o estado, suporte exitoso da comunicação institucional, bons índices de aprovação e enfrentamento de uma questão decisiva neste pleito, ou seja, o medo da população, refém dos altos índices de criminalidade e da atuação das facções do crime organizado. Pernambuco não é uma ilha, faz fronteira com estado em situação delicada no quesito de segurança pública, já sentindo seus reflexos, como no caso de Petrolina, no Sertão do São Francisco, assim como Goiana, no Litoral Norte, onde grupos facionados oriundos da Paraíba já atuam na área. 

Faz até um certo tempo que não publicamos postagens sobre a quadra política aqui de Pernambuco, uma vez que estamos numa espécie de brigas intestinas, sobretudo em relação à composição ao Senado Federal na chapa da governadora Raquel Lyra, onde não se sabe se o PP ou o União Brasil deverá representar a poderosa União Progressista. Mas voltando a Wellington Dias, durante o a entrevista concedida ele afirmou que Lula poderá ter diversos palanques duplos, inclusive em Pernambuco. Ele tem toda razão quando informa que há setores do PT que apoiam o projeto de reeleição da governadora Raquel Lyra. Inclusive um setor no exercício de mandato parlamentar, que integra a base apoio da governadora na Alepe, a exemplo do ex-prefeito João Paulo, que já afirmou que se submete às deliberações do partido, mas acredita que a governadora deverá vencer o pleito.  

Já houve um movimento de um militante veterano da legenda, Fernando Ferro, inclusive, no sentido de apoio ao nome de Ivan Morais, do Psol. É a velha guarda da mangueira petista que continua com o pulso firme a pressão em ordem. Fernando Ferro foi um dos nossos entrevistados para a dissertação de mestrado. Durante o momento de arguição, como fazíamos referência à Lei de Ferro das Oligarquias, do sociólogo alemão Robert Michels, um dos arguidores brincou se não estávamos nos referindo ao Ferro do PT. A relação do PSB com o PT vem sofrendo desgaste desde algum tempo. Os socialistas reclamam dos espaços ocupados na burocracia da máquina petista e, mais recentemente, quase Alckmin foi rifado na composição da chapa de reeleição de Lula. 

Raquel também tem seus contatos em Brasília e, a rigor,  sempre esteve ao lado do Governo Lula. Nunca se posicionou como oposição a Lula. Quando esteve aqui em Pernambuco, o Ministro da Casa Civil, Rui Costa, um dos poucos interlocutores com a cesso direto ao presidente, disse que ela era uma aliada. Wellington Dias irá coordenar a campanha de Lula aqui no Nordeste. Já tratamos por aqui em alguns momentos das dificuldades que o partido enfrenta na região, antes uma fortaleza eleitoral inexpugnável da legenda, principalmente em razão dos efeitos dos programas sociais. Fadiga de material, má gestões e o avanço do crime organizado estão fragilizando tal fortaleza. 

domingo, 7 de junho de 2026

Crônicas do cotidiano: Um diálogo improvável entre Lima Barreto e Gilberto Freyre



O jornalista, ensaísta e acadêmico Francisco de Assis Barbosa escreveu a mais importante biografia do escritor Lima Barreto. O projeto era mais ambicioso. Por recomendação de um editor, entusiasmado com o texto de Triste Fim de Policarpo Quaresma, pediu ao jornalista que organizasse toda a sua obra para reuni-las numa publicação. Diante das dificuldades encontradas na tarefa, Francisco de Assis Barbosa optou por escrever uma biografia de Lima Barreto. Mesmo assim, Francisco de Assis Barbosa ainda solicitou a alguns escritores e estudiosos brasileiros que escrevessem a introdução de algumas obras do escritor. Inadvertidamente, solicitou ao antropólogo pernambucano, Gilberto Freyre que fizesse a introdução dos Diários de Lima. 

Na realidade, há duas biografias escritas sobe Lima Barreto. Uma escrita pelo jornalista e outra escrita pelo historiadora Lilian Schwarz. Ambas são excepcionais, mas enaltecemos aqui a escrita pelo jornalista, uma vez que o texto foi capaz de chamar a atenção dos brasileiros e brasileiras sobre um grande vulto da literatura brasileira que estava praticamente no esquecimento. Foi um resgate não apenas da obra, mas da vida do grande Lima Barreto. O texto de Francisco cumpriu este papel importante. Lima tinha uma verdadeira obsessão por esta discussão sobre raça, enfatizando isso em toda a sua obra, ao ponto de descer aos pormenores na descrição dos personagens de suas tramas. Era um combatente feroz do racismo estrutural brasileiro, ao ponto de sua obra ser classificada como uma obra de literatura militante. 

Por outro lado, o contato com Gilberto Freyre ocorreu num momento "inoportuno", quando o sociólogo pernambucano havia sido convidado pelo Governo Português para uma série de palestras pela África e Asia, nos países que haviam sido colonizados pelos portugueses, dentro da estratégia salazarista do Luso-Tropicalismo, depois que o antropólogo havia tecido loas ao projeto colonial português no Brasil. Era algo que tinha tudo para dá errado e deu mesmo. Os críticos de Gilberto costumam sempre apontar a mania que o antropólogo tinha de pontuar o "branqueamento" de algumas personalidades brasileiras negras ou mulatas como evidência de nossa democracia racial. Lima nasceu negro, viveu negro e morreu negro e no esquecimento,  a despeito de ser um dos maiores romancistas brasileiros. 

Editorial: Um jogo burocrático da Seleção Brasileira.


Futebol não é um tema recorrente por aqui, mas, por ser um domingo - e principalmente para evitarmos os temas mais espinhosos - vamos comentar um pouco sobre o jogo de ontem, 06, entre o selecionado brasileiro e o egípcio. A seleção brasileira não foi bem. Pelo andar da carruagem, nada sugere que tenhamos um bom desempenho durante o Campeonato Mundial de Futebol de 2026. Isso nos fez lembrar dos bons tempos do nosso glorioso Monte Castelo Futebol Clube, um time de várzea que mantínhamos quando adolescente, responsável por algumas conquistas inesquecíveis. No nosso primeiro romance dedicamos uma das partes a este time de futebol, formado entre os amigos peladeiros da infância. 

Alguns dos jogadores do time chegaram a defender a camisa do time oficial da cidade, que chegou a integrar a liga profissional de futebol do estado. Ainda éramos dos tempos do futebol arte, dos dribles desconcertantes, da criatividade, das malandragens dentro das quatro linhas. O que vimos ontem, durante o jogo entre Brasil e Egito, foi um jogo burocrático, medíocre mesmo. Jamais um Ronaldinho Gaúcho, um Ronaldo Fenômeno ou um Romário perderiam aquele gol perdido pelo Vini Jr, praticamente um atraso para o goleiro do time adversário.  Acreditamos que o técnico Carlos Ancelotti tem feito o possível, mas trabalha com um plantel com inúmeras limitações. Não vai fazer milagres. 

Numa das memoráveis partidas do Monte Castelo Futebol Clube, pela final da liga de futebol de várzea, metemos 4X1 no time da oligarquia industrial local. Os meninos da Vila Operária, com seu futebol arte, haviam derrotado, dentro de campo, a arrogância e a prepotência dos oligarcas suecos. Dias de festa na Vila. Para coroar o enredo, dois golaços do Nego Tom, um moleque descendente de escravizados da Zona da Mata Sul do estado, que jogava uma bola redonda. Saudade dos craques de bola de antigamente, dos nosso tempos de infância. 

sábado, 6 de junho de 2026

Editorial: Lula e a Inconfidência Mineira



O presidente Lula não seria o primeira a fazer alguma confusão em relação à Inconfidência Mineira. Aqui mesmo em Pernambuco tivemos movimentos nativistas mais importantes e consistentes, mas, a rigor, desde aqueles tempos, algumas "narrativas" se consolidam, enquanto outras são esquecidas. Quem devassou o movimento Inconfidência Mineira foi o brasilianista Kenneth Maxwell, no texto A Devassa da Devassa, um livro definitivo sobre aquele fato histórico tão exaltado pelos brasileiros e brasileiras. Kenneth chegou a ser acusado de espião da CIA atuando no Brasil, a exemplo de outros brasilianistas famosos, mas alegou sempre absoluta inocência, tendo optado em estudar o país pela simples ausência de disciplinas oferecidas numa universidade americana onde estudava. 

O livro de Kenneth desmonta muitos mitos em torno deste assunto. Ao final da leitura o leitor descobre que o suposto movimento nativista de libertar o país da Coroa Portuguesa, ocultava, na realidade, uma classe média desejosa de se livrar de suas dívidas pessoas. O benefício concedido a Joaquim Silvério do Reis foi exatamente o perdão de suas dívidas junto à Coroa. Num discurso em Goiás, o pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva, ao fazer insinuações acerca do seu adversário, Flávio Bolsonaro e à sua família, acabou confundindo os "Joaquins". Na bravata de pré-campanha, acabou sugerindo que Flávio merecia o mesmo fim de Tiradentes, o que produziu uma ação do pré-candidato junto ao STF, alegando ameaça de morte. 

Além de não permitir alternativas ao eleitorado, outro grave problema da polarização política está relacionadas à ausência de propostas para o país. Predominam as acusações de lado a lado, sem que o eleitor comum, na realidade, vote acerca de um programa de governo. Problemas de condução da máquina não importam, assim como os escândalos de eventuais corrupções. Isso se repete desde algum tempo. Infelizmente. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Editorial: IPSO\IPEC aponta liderança de Lula no primeiro e segundo turnos


Estão ainda fresquinhos os dados da pesquisa realizada pelo Instituto IPSO\IPEC sobre a corrida presidencial de 2026. Os dados foram coletados entre os dias primeiro e 03 de junho, através de entrevistas realizadas com 2.100 eleitores de todo o país. É curioso como o candidato Lula consegue manter a liderança na disputa, mesmo não havendo mudanças substantivas em relação à reprovação de sua gestão, que continua alta. Este fenômeno se explica, conforme discutimos no dia de ontem, pela ausência de alternativas ao eleitorado, que fica sempre refém dessa polarização política renitente. Segundo um especialista em pesquisas aqui do estado, as chances de um candidato viabilizar seu projeto de reeleição com taxas de reprovação de 49,2% são reduzidas.  

Na realidade, segundo suas análises, a rejeição é o grande adversário de Lula em 2026. Lula sabe que esses índices podem prejudicá-lo e precisam ser revertidos até as eleições. Na pesquisa divulgada hoje, o petista vence seu principal oponente nos dois turnos das eleições de outubro próximo. Este conjunto de "bondades" - que podem ficar muito salgados para as contas públicas mais adiante - deve estar ajudando significativamente o petista. Alguns analistas observaram não haver uma relação "orgânica" entre algumas medidas e o desempenho do petista, mas, a rigor, isso acaba se refletindo em algum momento. Neste mesmo raciocínio - e pelas mesmas razões da polarização - o "Dark Horse" sequer arranhou os índices de Flávio Bolsonaro. 

A relação com o Governo dos Estados Unidos é um outro fator que pode animar as indisposições entre os dois candidatos no pleito, principalmente quando se entende a jogada do petista em atirar no colo do adversário a responsabilidade pelo aumento das tarifas e o assédio ao sagrado PIX. A pesquisa trabalha com margem de erro da ordem de 2.15p.p, coeficiente de acerto da ordem de 95% e está registrada no TSE-BR- 08016\2026. 

Primeiro turno: 

Lula(PT)              42,1%

Flávio(PL)           33,6%


Segundo turno: 

Lula(PT)              42,8%

Flávio(PL)           41,3%


Editorial: A nova proposta de delação de Daniel Vorcaro


A defesa de Daniel Vorcaro entregou uma nova proposta de delação premiada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. Está em fase de análise entre as duas instituições. Vorcaro já teve uma de suas delações rejeitada pela Polícia Federal, uma vez que órgão entendeu que o que o banqueiro estava propondo não acrescentaria muito às investigações em torno da maior fraude do sistema financeiro nacional. Caso a nova proposta nãos seja aceita, Vorcaro corre um sério risco de cumprir sua pena num presídio comum, que pode ser a Papuda. Perderia, de imediato, a prerrogativa de cumprir sua pena numa unidade mais segura. Ontem passou a circular nas redes sociais suas fotos numa estância de férias de inverno na França, acompanhado de um conhecido senador da República, hoje já encrencado com o andamento das investigações sobre o ex-banqueiro. A foto foi obtida por um órgão de imprensa que assegura que, supostamente, o ex-banqueiro bancou a farra do senador, avaliada em mais de 2 milhões de reais. Um escárnio. 

Bons tempos aqueles. Cartões sem limite, bons vinhos, boas companhias. Entende-se perfeitamente o seu desespero quando colocado numa prisão comum. A cada dia surge um escândalo financeira mais cabeludo do que o outro. Parece que estamos disputando um campeonato de corrupção.  Este mais recente envolve transações com termoelétricas. Vamos aguardar mais informações. Enquanto isso, permanece a birra entre petistas e bolsonaristas, desta vez em torno do PIX. Nem sabíamos que os Estados Unidos tem uma espécie de PIX, o Zelle, que passa horas para ser efetivado, o que se constitui num verdadeiro problema, principalmente para pequenos comerciantes. 

Aqui em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra(PSD-PE) faz entrega de armamento e equipamentos de logística operacional para as forças se segurança do estado. Antes já havia contratado efetivos para as polícias civil e militar, num indicativo de que a gestora tem consciência acerca da nefrálgica situação de segurança pública no país como um todo, com seus reflexos entre os entes federados. Essas medidas não encerram, mas "integram" uma política de segurança pública, algo que pode estar contribuindo para a melhoria dos seus índices de popularidade. Os "laranjinhas de Raquel" inundam as ruas do Recife, Região Metropolitana e interior do estado.