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sábado, 30 de maio de 2015

Vladimir Safatle: "A culpa das outros" e a busca da porta de saída pela esquerda


maio 29, 2015 15:44
Vladimir Safatle,  “a culpa dos outros” e a busca da porta de saída pela esquerda
Por Thiago Henrique Silva e Aristóteles Cardona Junior*
Especial para Escrevinhador
Acaba de ser publicado mais um artigo do Filósofo Vladimir Safatle, intitulado “Frente de esquerda pra quê?”.
O artigo deste intelectual merece ser debatido de forma clara e honesta, sob pena de acometer boa parte das mentes sãs da esquerda brasileira da “síndrome de pasárgada”.
Inspirado no resgate da sina de Isabelita Perón por Safatle, é importante também rememorarmos alguns elementos importantes de nossa história recente para não cairmos no lugar comum de naturalizar o presente.
Afinal, se estamos naquele interregno histórico onde “o velho já morreu e o novo ainda não nasceu” como afirma Safatle hoje – coisa que alguns setores da esquerda afirmam há 10 anos (vide texto “Refundar a esquerda para refundar o Brasil”) – é importante lastrearmos sempre a análise do hoje em suas raízes históricas sob pena de errarmos na análise do real, e consequentemente nas tentativas de proposição pro futuro.
Não se pode esquecer que o ciclo anterior da esquerda brasileira não se iniciou com o primeiro governo Lula. A derrocada política do regime militar – que ainda teve força para manter uma transição pactuada -, os avanços plasmados na Constituinte de 1988 e todas as conquistas civilizatórias que ocorreram nos anos 90 em nosso país – mesmo sob hegemonia neoliberal – fazem parte de todo um ciclo de lutas e avanços conquistados a ferro e fogo pelos trabalhadores e setores progressistas.
Das lutas deste ciclo participaram todos os setores da esquerda brasileira nas mais diversas trincheiras: sindicatos, movimento camponês, movimento estudantil, movimentos por moradia, universidades e na luta institucional nos parlamentos e executivos.
Foram décadas de disputa política que tiveram no PT a expressão maior deste ciclo. Este ciclo se caracterizou por paulatinamente dar mais fôlego e dedicar mais energias à luta na trincheira institucional do que a fortalecer a força social nas ruas e manter uma base social coesa e ideologicamente firme.
Ganhar prefeituras, governos estaduais, avançar nos parlamentos foi se constituindo como meta-síntese ao mesmo tempo que o “Lula-lá” galvanizava a iniciativa nacional e dava o tom dos objetivos fundamentais: conquistar a arena institucional e construir políticas publicas.
Ao mesmo tempo, a conjuntura internacional era altamente desfavorável aos trabalhadores do mundo com a queda do muro em 1989 e início do desmonte do Estado de bem-estar social europeu .
No Brasil as forças progressistas tentavam construir uma nação, avançar em direitos, conquistar saúde, educação, previdência, assistência social, acesso à terra e vários outros direitos negados ao seu povo durante toda sua história. Enfim, um sem-número de fatores influenciou a trajetória deste ciclo de nossa esquerda.
A esquerda brasileira em seu conjunto construiu este ciclo e conseguiu avançar na “trincheira civilizatória” conquistada a duras penas desde 1988. Inclua-se aí os governos de coalizão comandados pelo PT desde 2003, valendo registrar que foi uma vitória na arena institucional num momento de declínio importante da luta de massas e da consciência de classe em nosso solo.
Os governos Lula e Dilma evidenciaram os limites de escolhas e rumos históricos que não se iniciaram na Carta aos Brasileiros nem muito menos com as nomeações de Meirelles e Levy! Foram processos históricos e sociais intensos e complexos que fundamentalmente ajudaram a escamotear a luta de classes e a reduzir a política à dialética do possível.
Porém se deve chamar a atenção de que este não foi um “ciclo-de-um-partido-só”. Toda a esquerda brasileira precisa estar atenta e fazer o balanço deste período histórico principalmente rememorando o papel que cada força desempenhou, pois na hipótese de ser verdade que a hegemonia política ficou nas mãos dos setores mais atrasados da esquerda seu corolário é que os setores que se consideram mais avançados foram incapazes de mobilizar as massas para um projeto mais avançado de país. Trocando em miúdos: pau que dá em Chico, dá em Francisco!
A trincheira civilizatória resultante da intensa guerra de posições travada durante décadas é produto da luta de toda a esquerda. Como também o recuo recente desta trincheira com a ofensiva da direita em todos os planos – ideológico, político e econômico – também é resultado da fragilidade da esquerda em seu conjunto.
Não se pode desconsiderar que pautas que há muito tempo são tentadas pela direita – PL das terceirizações e redução da maioridade penal, por exemplo – estavam paradas há muito tempo no parlamento, pois o que tínhamos de setores progressistas nesta trincheira barrava seu avanço.
Com o recuo dos governos do PT diante da sua incapacidade de propor saídas pela esquerda, a direita avança com todos os seus cavalos. Não tenhamos dúvidas: a ofensiva da direita brasileira é contra a trincheira civilizatória construída pelo conjunto da esquerda em todos os seus planos: político, econômico e ideológico. E se a principal força existente que pode tentar fazer frente a esta ofensiva é o governo do PT tal qual ele é, não é só o PT que está em maus lençóis. A conclusão óbvia a que se chega não pode ser outra: a estratégia de achar “a culpa nos outros” não tem nos ajudado a encontrar a porta de saída dessa encalacrada.
Aqui quem fala é da terra: as Frentes que animam a esquerda
Tentando fincar os pés no chão é necessário se retomar uma lição fundamental que a história do mundo nos dá: a unidade das forças de esquerda não é apenas mais um elemento, mas condição para sua vitória.
Para não voltar muito no tempo e lembrar as frentes que levaram projetos progressistas ao poder no Equador, Venezuela e na Bolívia podemos nos contentar em dar como exemplo as Frentes que vem animando a esquerda mundial: o Siryza Grego e o Podemos espanhol.
Ambos emergem como resposta organizativa aos amplos movimentos de massa anti-austeridade surgidos em seus países. Ambos adotam como estratégia a definição de um inimigo claro: a austeridade que suprime empregos e piora a vida. Ambos apostam na ampla mobilização de massas contra este inimigo. E ambos são produtos de frentes de esquerda que se juntaram com um objetivo principal: organizar a defensiva e formular uma nova ofensiva das forças progressistas. Cada uma com sua particularidade que responde ao seu solo histórico, à sua formação social e aos seus desafios imediatos e estratégicos. E cada uma também com a sua limitação.
Experiências passadas ou até mesmo as mais recentes, como as já citadas do Syriza e Podemos, nos mostram claramente o quanto a realidade concreta é dura e exige mediações que dependem de força para superar. Mas todas elas também mostram que a saída, diante do avanço das forças conversadoras e retrógadas, necessariamente passa pelo exercício cotidiano da unidade entre as forças progressistas.
Pra variar, estamos em guerra: a necessária Frente de esquerda no Brasil
A unidade das forças de esquerda é condição de vitória. Porém, vemos como está difícil estabelecer os termos da tão sonhada unidade. Era de se esperar que neste tempo de reconfiguração das forças de esquerda as disputas de protagonismo para o novo ciclo se aflorassem, dificultando iniciativas unitárias. Mesmo assim iniciativas como a Campanha do Plebiscito Popular por uma Constituinte exclusiva e os atos chamados em todo o país pela CUT e MST frente às políticas de ajuste e terceirizações tem se mostrado iniciativas de algum fôlego.
Porém, como diria uma importante liderança social nossa, vamos ter que ver a água subir mais um pouco pra que toda a esquerda perceba que está no mesmo barco.
Safatle tem algum grau de razão ao se referir ao problema do nosso “Perón vivo”, ou seja, Lula. Porém a razão que lhe atribuímos ao se preocupar com a “questão Lula” se afasta veementemente de sua pretensa conclusão, de que uma Frente de Esquerda com Lula seria “a última capitulação da esquerda brasileira frente à sua própria impotência”.
Se o tempo em que vivemos é o tempo em que um indivíduo consegue mobilizar da sua cabeça uma tropa dezenas de vezes maior que o restante da esquerda, superá-lo é nosso desafio histórico! Se o tempo em que vivemos é o que o povo se vê entre acreditar no “volta lula” ou no “vem Aécio”, superá-lo é nosso desafio histórico! Se o tempo em que vivemos é o tempo de esgotamento do modelo lulista, mas a sociedade (e o PT) está convencida que frente a seu insucesso a saída é pela “via de Chicago”, superá-lo é o nosso desafio histórico!
O professor de dialética deve saber mais do que nós que a superação dialética não se dá pela negação a priori. Um movimento dialético que consiga superar (incorporando e negando) a dependência de Lula terá que dialogar com o fato de que o “Perón está vivo”, incorporar as conquistas do último ciclo da esquerda e negá-lo como solução futura a partir de suas contradições reais.
A nossa esquerda ainda não tem uma saída pronta. Não é um ajuntamento de pautas acertadas do ponto de vista programático – que nenhum cidadão de esquerda discordaria – que detém a capacidade de mudar a correlação de forças em nosso favor. É antes a construção de força social que deve submeter o programa a si.
Se a rejeição completa do modelo lulista fosse a solução para os problemas da esquerda era de se esperar que os setores que o fazem há 10 anos tivessem melhor sucesso eleitoral, porém ainda não foram capazes de voltar ao patamar das eleições de 2006 quando o eixo do moralismo deu o tom mais forte na campanha eleitoral. Se o ajuntamento de pautas acertadas não é a saída, nem tampouco o é a passividade de esperar pelos humores de Lula.
O papel das forças de esquerda deve ser o de forjar unidade nas lutas concretas que tenham a capacidade de intervir na conjuntura e de aglutinar força social. Uma frente de esquerda que tenha capacidade de captar o sentimento das massas trabalhadoras e iniciativa para colocar-se em marcha junto a elas.
Uma frente de esquerda que consiga se colocar ao escrutínio fraterno de que há de se ter uma meta-síntese política que aglutine suas pautas numa nova construção ofensiva. Sem este otimismo da vontade, podemos nos render ao pessimismo da razão de que o “Perón está vivo” e nos resguardarmos na caserna com posições doutrinárias. Este enigma de nosso tempo – tempos de “Perón vivo” e da necessidade de superar o “peronismo” ao mesmo tempo – só será solucionado na experiência concreta das massas em marcha, testando ao limite a capacidade de resposta aos problemas concretos colocados pela luta política.
Por fim, concordamos mais uma vez em parte com o professor. Falta algum grau de coragem. Falta coragem para a esquerda admitir porque é Lula e o lulismo que detêm tamanha força social e não um projeto mais “progressista”.
Falta coragem ao PT para voltar a construir força social ante a “eternização da correlação desfavorável das forças”. Falta coragem para o conjunto da esquerda admitir que seu fracionamento é o maior trunfo do seu inimigo principal.
Por último, relembrando o próprio Safatle de alguns meses atrás, falta coragem para a esquerda se juntar, organizar a defensiva e afirmar a todos os pulmões que é necessária a refundação do Estado Brasileiro através de uma Constituinte Exclusiva e passar à ofensiva definitiva.
* Médico de Família e Comunidade e militantes da Consulta Popular
(Publicado originalmente na Revista Fórum)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Marin, o algoz de Herzog, enfim na cadeia



Randolfe Rodrigues*
Copa de Ouro da CONCACAF, 10 de fevereiro de 1998. A maioria da população, no Brasil e nos Estados Unidos, sequer via TV quando a Seleção Brasileira perdeu por 1 a 0 para a equipe norte-americana em um campo improvisado de Los Angeles, na Califórnia. Foi a única derrota do Brasil em 18 jogos. Isso até a goleada desta quarta-feira, 27 de maio de 2015, dia em que a Justiça dos Estados Unidos desmascarou uma das maiores quadrilhas do mundo, a Gang da FIFA, chefiada dentre outros por um dos vice-presidentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o notório José Maria Marin, também vice-presidente da FIFA.
Tomamos uma goleada, porque convivemos há décadas -- inertes, omissos -- com essa quadrilha verde-amarela. Eles mandam e desmandam em nossas federações estaduais e na confederação nacional. Organizam todos os grandes campeonatos nacionais e internacionais de que participamos e acompanhamos pela TV. Foram os gestores sem controle dos bastidores ainda mal contados e mal contabilizados da Copa do Mundo que aconteceu no Brasil em 2014. E, para decepção da torcida brasileira, acabaram sendo flagrados e presos não pela Polícia Federal brasileira, mas pelos agentes do FBI e da Justiça dos Estados Unidos.
Uma das acusações que pesa sobre o quadrilheiro José Maria Marin é a de receber propina na venda dos direitos de transmissão da Copa do Brasil. Não a Copa do Mundo, mas a nossa doméstica Copa do Brasil, uma competição nacional, realizada em solo brasileiro, disputada por 86 equipes brasileiras, televisionada para todo o País e retransmitida para o território norte-americano.
A prisão de 7 altos executivos da FIFA, incluindo o notório José Maria Marin, nos remete à vergonha dos 7 a 1 que sofremos na Copa do Mundo. Nosso consolo é que, agora, a prisão dos que roubam a alegria e a inocência do futebol faz a alegria dessa paciente e maltratada torcida brasileira. José Maria Marin é um fiapo da ditadura militar brasileira. É produto da pior fase de nossa história, foi um gestor público afinado com torturadores e com a ala dura do regime que torturou e assassinou toda uma geração.
José Maria Marin resume, como ninguém, os caminhos cruzados que fazem do futebol e da política um campo aberto onde se confundem os oportunistas, os canalhas e os corruptos. No campo do futebol, como na política, Marin sempre jogou na direita. Foi ponta-direita medíocre de times do interior paulista, no início da década de 1950, atuando por times como o São Bento e o Jabaquara. Chegou a enganar num time grande, o São Paulo, onde disputou apenas dois jogos oficiais e fez um único gol.
Esperto, Marin decidiu trocar de campo para enganar na política. Elegeu-se vereador na capital paulista por uma sigla ideologicamente adequada ao ex-ponta-direita: o PRP, fundado pelo líder integralista Plínio Salgado, guru da extrema-direita brasileira que se inspirava no III Reich de Adolf Hitler. Quando veio o golpe de 1964, Marin trocou de camiseta, sem mudar de time: filiou-se à ARENA, o partido da ditadura militar. Em 9 de outubro de 1975, no auge da violência do Governo Médici, o deputado estadual da ARENA José Maria Marin subiu à tribuna para denunciar a existência de comunistas na TV Cultura de São Paulo.
Duas semanas depois, o jornalista Vladimir Herzog, chefe de jornalismo da TV, foi encaminhado à sede do DOI-CODI, na sinistra rua Tutóia, o endereço mais sangrento da rede de tortura e barbárie da ditadura. Herzog chegou lá na manhã do dia 25 de outubro, 15 dias após o discurso furioso de Marin. No início da tarde daquele dia, Herzog estava morto.
Esta criminosa conexão foi revelada em 2012 pelo jornalista Juca Kfouri, ao afirmar que Marin é "fartamente" responsável pela prisão que resultou no assassinato de Herzog. Marin é um fóssil da ditadura, uma carcaça do entulho autoritário legado ao País por 21 anos de regime arbitrário. É uma pena que Marin tinha passado impune por tudo isso, imune às investigações da Comissão Nacional da Verdade, ignorado pela polícia e fora de alcance da Justiça brasileira. É uma vergonha para todos nós que, depois dos anos de chumbo e de sua gestão corrupta nas federações e na CBF, Marin só tenha sido preso por ação de órgãos investigativos e policiais dos Estados Unidos, e não do Brasil. Escapou da Polícia Federal, mas não conseguiu escapulir do FBI. A torcida sempre aplaude um gol de placa. Assim, palmas para o FBI!
Mas, não nos enganemos: Marin nunca andou só. Como cabe a todo quadrilheiro, ele tinha comparsas no crime. Foi ungido presidente na CBF por Ricardo Teixeira, seu antecessor, e sagrou o seu sucessor, o atual mandatário, Marco Polo del Nero. Ambos agora sob investigação pelo FBI e pela Justiça dos Estados Unidos. Ainda veremos outros gols de placa, espero!
Conseguiremos nós, brasileiros, dar conta da quadrilha instalada em nossos clubes e estádios? Temos duas oportunidades de faxina, nesse momento. A primeira missão é investigar esse esquema nacional e internacional em todas as frentes, inclusive a parlamentar. O senador Romário acaba de aprovar em tempo recorde no Senado Federal, com 54 assinaturas, uma CPI para investigar Marin e seus comparsas.
A corrupção no futebol é um moto contínuo, que não afeta uma única competição nacional ou internacional. É preciso desmascarar os corruptos, punir os envolvidos e garantir o ressarcimento dos valores pagos como propina para os cofres das entidades. Mas, isso só não basta. É fundamental uma segunda medida: aproveitar esse momento ímpar da história para reformar a estrutura decadente do futebol brasileiro. A Medida Provisória 671, que tramita no Congresso, é um gol de placa de um governo que anda meio ruim das pernas.
É preciso garantir, como prevê o texto original da MP, que órgãos como a CBF funcionem de maneira democrática, com participação efetiva dos jogadores, com direito a voz e a voto nas assembleias, e estabelecendo limite à reeleição dos dirigentes. Isso evitaria a apropriação da CBF e federações por clãs e gangues que se perpetuam e se acumpliciam. Tanto quanto de clubes e entidades, é necessário transparência na gestão de recursos, com a divulgação de balanços financeiros e o fim dos sigilos contratuais por onde se infiltra a corrupção.
Muito mais do que um negócio, o futebol é um patrimônio cultural do povo brasileiro. Quem administra o esporte não deve atuar como empresário de um negócio oculto. Ele deve ter a consciência de um gestor de patrimônio público, um bem valioso e caro às emoções de milhões de brasileiros. No campo sagrado e vitorioso do futebol, não existe espaço para gente da laia de José Maria Marin.


* Randolfe Rodrigues é senador pelo PSOL do Amapá.

P.S do Realpolitik: Pode-se caprichar na tinta e afirmar que a Polícia Federal Americana, o FBI, botou para lascar nesse episódio de corrupção da FIFA. Deu um banho na Polícia e no Ministério Público Brasileiro, que permaneceu inerte durante todos esses anos, quando se sabia que ali atuava uma quadrilha muito bem organizada. O futebol era apenas uma "fachada", embora fosse a nossa paixão, o que movia nossos impulsos em comprar a camisa verde e amarela, algumas cervejas, umas linguiças calabresas, um sofá resistente e muita vibração. Se, por um lado, a operação merece nossos elogios, por outro, o pedido de cancelamento da copa prevista para Rússia soa destoante e cheira a propósitos nada nobre. 

Tijolinho Real: Renato Janine Ribeiro na Fundação Joaquim Nabuco


 

O Ministro da Educação, o filósofo Renato Janine Ribeiro, esteve na Fundação Joaquim Nabuco, ontem, dia 27 de maio. Alguém poderia afirmar que a visita não se deu num momento muito oportuno, naqueles momentos em que o gestor se sente à vontade para anunciar liberação de recursos, assinar convênios, viabilizar novos projetos e coisas do gênero. Ao contrário, o ministro nos visitou num momento em que setores da imprensa e da opinião pública criticam insistentemente o corte de verbas para a pasta da educação, algo que corresponde a 13% de um montante de 69,9 bilhões de cortes no Orçamento Geral da União. Para a pasta da educação especificamente, isso equivale a algo em torno de 9 bilhões. Não se sabe exatamente onde a tesoura cortou, mas já começaram a surgir alguns problemas em programas como o Pronatec e no Ciência Sem Fronteiras.

Algumas IFES também já sentiram o problema, anunciando possíveis greves, no nosso entendimento, precipitadas, uma vez que os governos de coalizão petista trataram com muito respeito os docentes; ampliaram os recursos para bolsas de pós-graduação; expandiram a rede física, através do Reuni; reativavam os restaurantes universitários; abriram editais de contratação de professores etc. Embora polêmicos, os argumentos levantados pelo professor Daniel Aarão Reis, professor da IFF, publicado no blog, expondo sua posição contrária à greve, são coerentes. 

Três aspectos merecem registro na fala do ministro, durante o encontro na Fundação Joaquim Nabuco. Aliás, todas as vezes em que escuto o professor Renato, guardo sempre uma boa impressão. Um primeiro aspecto é que ele tomará o PNE como uma espécie de manual de escoteiro, ou seja, será um guia que orientará suas ações naquela pasta. Aqui, ele precisará emendar os bigodes com o colega de ministério, Roberto Mangabeira Unger, que praticamente ignorou as diretrizes do PNE ao elaborar o seu plano para o Brasil, Pátria Educadora. A formação de professores também será motivo de suas preocupações na pasta. Neste aspecto específico, os programas de pós-graduação destinados aos professores já mantidos pela Fundaj assumem um status importante, posto que ele pretende contar com o concurso das IFES e outras instituições federais neste sentido. Todos os indicadores informam,  que a formação dos professores é uma questão crucial para a melhoria da qualidade social da educação no país.

Este seria um bom momento para se repensar a própria universidade pública brasileira, cuja crise não é apenas de recursos, mas de valores. As eleições para reitores é de fazer corar os métodos utilizados pela raia graúda da política brasileira, envolvendo expedientes como negociações de cargos, liberação de projetos, concessões de bolsa, abertura de editais e coisas do gênero. As disputas internas são acirradas e, entre outras coisas, isso vem contribuindo bastante para a baixa produtividade dos docentes, como nos informou alguém que acompanha o processo mais detidamente. O professor Renato também lembrou a necessidade de enfrentar os problemas da educação básica, o que é importante, mas advirto sobre os "gargalos" do ensino público médio. Eles estão se avolumando e não podem ser negligenciados. 

O diálogo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos pode começar pela educação básica. Mangabeira Unger, o oráculo de Harvard, pretende criar uma força tarefa para ajudar alunos do ensino básico cujos pais não possam ajudá-los nas atividades de escolares, assim como assessorar as escolas com baixo desempenho. Ressalta-se, aqui, a sensibilidade social do ministro, que retomou o tema das profundas desigualdades sociais do país. Sobre essa questão de cortes de recursos numa área tida como estratégica para o PT, duas questões precisam ser elencadas.

Cortar 9 bilhões para a área não deixa de ser significativo. Talvez, para evitar esse desgaste, melhor seria se Dilma ouvisse o seu ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, que recomendou a taxação de grandes fortunas, de preferência sem manteiga de cacau. Isso representaria algo em torno de 6 bilhões de receita para os cofres públicos todos os anos. Mas Dilma preferiu ouvir o atual gestor da pasta, Joaquim Levy, ou, simplesmente, achou melhor não cutucar o capital com vara curta. Tivesse adotado essa medida, talvez programas como o Pronatec, que goza de um grande apelo social não tivesse enfrentando tantos problemas. 

Por outro lado, estudos indicam que os maiores problemas da educação brasileira não estão relacionados aos recursos aplicados, mas, sobretudo, como, onde esses recursos estão sendo aplicados, ou o que é aplicado dele, posto que há também os problemas de desvios. Um bom exemplo disso são os recursos do FUNDEB - que até aumentaram nos últimos anos, mas o mesmo resultado não se viu, entretanto, nos indicadores do IDEB. Eis aqui um exemplo emblemático, onde todas as possibilidades acima sugeridas entram como passíveis de serem checadas. Por falar em FUNDEB, durante anos essa rubrica apareceu como a mais visada pelos gatunos do erário público. 

Crédito da Foto: Octávio de Souza, divulgação. 

PS do Realpolitik - Ainda deve ter leitores assustados com o tamanho dos cortes. Eles foram significativos, mas não atingiram os 99,9 bilhões conforme, equivocadamente, registramos. Talvez fosse bem essa a intenção do ministro Joaquim Levi, que sequer compareceu à cerimônia do anúncio. Na realidade, em números exatos, os cortes foram da ordem de 69,9 bilhões. Pedimos perdão aos nossos leitores. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Altamiro Borges! Marim é preso na Suíça. Globo treme!

Marin é preso na Suíça. Globo treme!

Por Altamiro Borges

A prisão de José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e de mais seis dirigentes da Fifa nesta quarta-feira (27), na Suíça, deve ter preocupado os chefões da Rede Globo. Os cartolas são acusados de envolvimento num bilionário esquema de corrupção, que envolve fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e “acordos de transmissão televisiva”. Segundo investigação do Departamento de Justiça dos EUA, que solicitou à polícia suíça a “operação surpresa” de detenção contra os gatunos, a máfia do futebol operava há 24 anos e desviou mais de US$ 100 bilhões.

Além do cartola brasileiro, foram detidos Jeffrey Webb, Eduardo Li, Julio Rocha, Costas Takkas, Eugenio Figueredo e Rafael Esquivel. Eles estavam hospedados num luxuoso hotel em Zurique para participar do congresso da Fifa, que elegerá a nova direção da entidade máxima do futebol internacional na próxima sexta-feira. “O ex-presidente da CBF José Maria Marin, que atualmente é vice-presidente da entidade, foi escoltado por autoridades suíças na saída do hotel. Não há a confirmação para onde os detidos foram encaminhados”, relata o correspondente da Folha.

Em nota oficial, o governo da Suíça informou que as contas bancárias dos acusados foram bloqueadas. Elas eram usadas para receber subornos. A polícia local também recolheu documentos na sede da Fifa, em Zurique, em uma apuração relacionada à escolha das sedes das Copas de 2018 (Rússia) e 2022 (Catar). Ainda de acordo com as autoridades, além dos sete detidos, outros sete dirigentes da Fifa deverão ser acusados pelo envolvimento no escândalo – entre eles, os dois executivos responsáveis pelo marketing e transmissão televisiva – Jack Warner e Nicolás Leoz.

Na mesma operação, o Departamento de Justiça dos EUA confirmou o envolvimento na maracutaia de “uma grande marca esportiva americana” – a Nike, que é fornecedora da seleção brasileira desde os anos 1990. Em nota oficial, ele reafirma que o esquema envolvia “pagamento de propinas” em contratos de marketing e transmissão de jogos. Outro brasileiro é mencionado: José Hawilla, dono do grupo Traffic. Ele inclusive já teria confessado o seu envolvimento nos contratos da CBF e iniciado tratativas para reduzir a sua possível pena, segundo relatos da imprensa estadunidense. Como lembra o blogueiro Paulo Henrique Amorim, “J. Hawilla é proprietário da TV TEM, afiliada à TV Globo”.

O autor do blog “Conversa Afiada” não vacila: “Globo vai em cana com o Marin?”. Ele lembra que até hoje o império global não mostrou o comprovante do pagamento dos tributos referentes à transmissão dos jogos da Copa. “A história do DARF é por causa disso aí: ‘transmissão televisiva’… Claro que no Brasil os filhos do Roberto Marinho – como na Vara do Moro – só seriam incriminados depois de mortos. Mas, depois do Marin ir em cana, os filhos do Roberto Marinho, que não têm nome próprio,– ficarão como o Maluf, que não pode botar um dedinho fora do território nacional. Mas, aqui, aqui eles são inimputáveis! Viva o Brasil da CBF, não é isso Galvão?”, ironiza Paulo Henrique Amorim.

De fato, a prisão de José Maria Marin e de outros mafiosos da Fifa vai respingar na Rede Globo. A emissora sempre fez fortunas com os sinistros esquemas de transmissões do futebol. Em dezembro último, o jornalista Daniel Castro, do site “Notícias da TV”, mostrou que a “Copa do Mundo salvou a Globo” no ano passado:

“A Globo vai fechar 2014 com um crescimento de 8% nas vendas publicitárias e um faturamento líquido de R$ 12,4 bilhões. Isso quer dizer que ela vai arrecadar só com propaganda o equivalente a mais de seis Records (R$ 2 bilhões) e 12 SBTs de São Paulo (R$ 1,1 bilhão), segundo estimativas confiáveis do mercado... A Globo vai faturar mais por causa da Copa. O evento esportivo concentrou verbas na emissora, principalmente no primeiro semestre, e compensou a queda nos investimentos publicitários na segunda metade do ano”.

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Em tempo: Será que o cambaleante Aécio Neves – que os meninos da marcha golpista apelidaram de “arregão” – vai se solidarizar com o grande amigo José Maria Marin, que o apoiou de forma efusiva na frustrada disputa presidencial de outubro passado? Ou ele é mesmo um “arregão”?

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Michel Zaidan Filho: Universidade e corporativismo.





A política moderna é marcada pela afirmação do auto-interesse. Os clássicos do pensamento político moderno (com a exceção de Rousseau e Hegel) elegeram a chamada "sociedade civil" como a esfera, por excelência, dessa afirmação do auto-interesse. E reduziram a política a uma fórmula estratégica de maximização dos lucros e vantagens individuais. 0 Estado, na definição de Marx não passava de um mero comitê executivo a serviço desses interesses, a despeito de sua forma ou da classe social no poder. Mais ainda, o movimento sindical moderno cujo principal objetivo é a conquista de direitos e conquistas redistributivistas, materiais. Só recentemente, os sindicatos começaram a discutir uma pauta mais ampla relacionada à AIDs, o desemprego, o assédio sexual, as políticas ambientais etc.

Quando a ANDES (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DOCENTES DO ENSINO SUPERIOR)  foi criada, nos idos de 1980, havia ainda uma indefinição entre um estatuto meramente sindical da entidade ou de uma Associação preocupada com a carreira Docente, as políticas educacionais, a liberdade de cátedra etc. E esta indefinição pesou muito na hora das deliberações sobre a entrada e saída de greve. Finalmente, a ANDES se definiu como um sindicato nacional de docentes universitários, filiou-se à CUT e passou a se comportar como tal em sua relação com o governo e os professores. A simplificação da pauta tem suas vantagens organizativas e mobilizadoras, mas afasta o movimento da sociedade, que o enxerga como um movimento puramente corporativista, preocupado unicamente com os interesses materiais (salariais) dos docentes universitários, embora mencione outros pontos e reivindicações.
Esse corporativismo acentuou-se com a deformação profissional da carreira docente, fenômeno também conhecido como "neo-taylorismo intelectual". A definição de critérios quantitativos e auto-declarativos que dominam a carreira docente, sob o estímulo das agências de fomento à pesquisa. Aqui, caberia como uma luva o conceito nietzschiano de "cultura filistéia" e a menção extensiva e quantitativa da experiência docente como critério de excelência acadêmica. 0 docente universitário,se não é um operário (na produção de "papers" ou declarações e certificados) de linha de montagem, é um filisteu - na acepção de Frederico Nietzsche, ou seja, alguém que fez do acúmulo da experiência de vida (profissional) seu evangelho. Naturalmente que há muitas políticas e orientações sindicais-docentes que buscam tirar partido desse corporativismo. E a nossa ADUFEPE não está fora desse movimento. 

Mais grave é quando os dirigentes universitários procuram manipular esses pequenos interesses (bolsas, cargos, editais de pesquisa etc.) de seus representados para galgar postos de importância na instituição universitária. Não sabem os dirigentes que reforçando essa limitação política, acadêmica e sindical dos docentes, contribuem para minar o moral de sua comunidade acadêmica. Professores que não enxergam um palmo à frente do nariz, quando se trata de questões políticas (redistributivas ou não), tendem a apoiar os acenos "desinteressados" desses dirigentes e manifestar o velho preconceito ideológico contra os comunistas, os esquerdistas, os grevistas profissionais etc.

Isso acontece num momento em que se desenha no ar uma greve nacional dos docentes universitários, em face das restrições econômicas ditadas pelo ajuste fiscal, numa universidade  onde o dirigente sindical apoia publicamente o gestor, e o gestor tem dado claros sinais de se comportar como "um bom moço" aos olhos do Governo Federal. É lamentável, muito lamentável mesmo, que tenhamos que arrostar com o preço pago por esse corporativismo atrasado e desmobilizador.


Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD/UFPE


Precisa ler também:

Sobre a precipitação da greve das Universidades Federais.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Daniel Aarão Reis afirma que greve federal não é legítima


Agência O Globo - / Portal do Holanda24/05/2015 às 16h56
RIO - O anúncio de greve em diversas universidades federais já começa a criar divergências entre os professores universitários. Anunciada para o próximo dia 28, a greve de instituições de ensino superior tiveram a adesão da Universidade Federal Fluminense (UFF) na semana passada. Docente da casa, o historiador Daniel Aarão Reis publicou uma carta discordando da iniciativa e afirmando que falta legitimidade nas paralisações.
"A proposta (de greve) é anunciada, discutida e decidida por pequenas minorias de ativistas iluminados, sem representatividade, concentradas em assembleias não precedidas de reuniões locais ou setoriais (departamentos, institutos, etc.). Carecem, portanto, de legitimidade. Trata-se também de um dispositivo tradicional, que isola as entidades de suas bases sociais. Para uma luta de longo fôlego, como a que teremos pela frente, não é um bom começo", afirmou Aarão Reis na carta.
As críticas do professor também foram direcionadas a efetividade deste tipo de ação nas universidade. Historicamente, aponto o professor, a greve não traz resultados positivos para as instituições.
"Quem não se lembra da paralisação da semana passada? Onde vingou, o que tivemos? Uma universidade deserta, sem viv’alma, fechada. Debate? Zero! Discussão? Zero. Capacidade de pressão? Nula", afirmou.
Sobre a Greve
Prezad@s, saúde e paz, conforme disse em sala de aula, aqui vão algumas reflexões sobre o movimento grevista que ora se anuncia na Universidade Federal Fluminense e em outras universidades públicas.
Vivemos hoje, e tudo indica que viveremos nos próximos anos, tempos difíceis do ponto de vista das relações entre governo e educação, em geral, e entre governo e universidades públicas, em particular. A presidenta, uma vez eleita, e ao contrário de tudo o que prometera na campanha que a elegeu, resolveu definir como política de "saída de crise" um conjunto de propostas que se assemelham em tudo e por tudo ao que seus adversários queriam realizar. Como em muitos países do mundo, vem por aí um "ajuste", cujo custo será pago pelos trabalhadores e pelas camadas populares. A cartilha já foi aplicada na Europa e em outras partes do mundo. O resultado? Menos e mais precários serviços públicos, menos e mais precários direitos sociais, menos e mais precárias perspectivas para a melhoria do padrão de vida das grandes maiorias.
As Universidades Públicas sofrerão, já estão sofrendo, o impacto deste "ajuste" – verbas "contingenciadas", ou seja, cortadas; salários congelados ou, no melhor dos casos, reajustados abaixo da inflação, cujos índices são maquiados. Nem preciso falar dos resultados, eis que são visíveis a olho nu.
Para enfrentar, e superar positivamente, as ameaças, vai ser preciso muito conversar e debater, e lutar, para lidar com esta conjuntura que se anuncia de "vacas magras" (podem por magreza nisto). Para isto, a universidade deve continuar funcionando, viva.
Entretanto, como de sua tradição, as entidades de professores, funcionários e estudantes voltam a propor a sua cantiga de uma nota só: "vamos à greve˜!
A proposta é anunciada, discutida e decidida por pequenas minorias de ativistas iluminados, sem representatividade, concentradas em assembleias não precedidas de reuniões locais ou setoriais (departamentos, institutos, etc.). Carecem, portanto, de legitimidade. Trata-se também de um dispositivo tradicional, que isola as entidades de suas bases sociais. Para uma luta de longo fôlego, como a que teremos pela frente, não é um bom começo.
Mas não me oponho a esta greve, como me opus a outras, apenas por estas considerações, já bastante relevantes em si mesmas.
O que me parece também muito importante é que, nesta greve, como em outras, do passado, apenas são penalizados os cursos de graduação. Só param, quando param, as aulas dos cursos de graduação. As pesquisas continuam a todo o vapor. Os Programas de Pós-Gradação, também. Continuam sendo escritos artigos e livros, apresentados em Congresso não adiados, ou desmarcados. Projetos financiados continuam a ser implementados. É tão evidente que chega a ofuscar: só param mesmo os cursos de graduação.
O prejuízo seria, porém, concebível, se a forma de luta adotada fosse eficaz. Mas não é. Quem não se lembra da paralisação da semana passada? Onde vingou, o que tivemos? Uma universidade deserta, sem viv’alma, fechada. Debate? Zero! Discussão? Zero. Capacidade de pressão? Nula.
A verdade é que, como já foi demonstrado em muitos outros momentos, a situação do sistema educacional torna-se assunto "público", e se realizam pressões efetivas em prol de medidas positivas para a educação pública, quando estudantes, professores e funcionários conseguem ir para as ruas, apresentando à sociedade suas reivindicações, impondo-se, pelo seu movimento social, à atenção das gentes e à agenda dos governos. A greve nos serviços públicos é uma infeliz mimetização dos movimentos operários, ou dos segmentos que trabalham nos setores produtivos. Ao invés de prejudicar os patrões, prejudica apenas e tão somente os usuários dos serviços, no nosso caso, os cursos de Graduação.
A greve, "por tempo indeterminado", não qualifica o debate, anula-o; não acumula forças, dispersa-as; não concentra, fragmenta e pulveriza; não fortalece, enfraquece.
Não é uma forma de luta consequente e por isso deve ser evitada e rejeitada. Só é razoável concebê-la em momento ou dias de manifestação. Aí, sim, ela pode se justificar. Parar aulas e cursos, e redação de artigos e provas, para ir às ruas, protestar nelas, agitando, politica e culturalmente, a sociedade.
Acresce ainda, e finalmente, uma última razão. É que os grevistas do serviço público no Brasil, pelo absoluto descaso com que são estes últimos tratados pelos governos, têm seus salários regularmente pagos no fim de cada mês, estejam ou não trabalhando. Como já disse em outros momentos, se os trabalhadores do mundo soubessem que é possível fazer greve ganhando salários...ai do Capitalismo, não haveria um que não paralisasse imediatamente o trabalho.
Por todas estas razões, prezad@s, continuarei oferecendo meus cursos. Se a universidade estiver fechada, trabalharemos nos gramados do campus, com belas vistas para o mar e para as montanhas. Reconhecerei o direito dos estudantes que divergem destas considerações e não computarei suas faltas, oferecendo-lhes, quando, e se voltarem, às aulas, avaliações de conhecimentos apropriadas. Mas informo, desde já, que não pretendo repor aulas. Por duas razões: porque elas terão sido dadas, e por não acreditar na eficácia da reposição, mesmo quando ela se realiza, o que não é sempre o caso, infelizmente.
Divulgarei o presente texto para minhas bravas turmas e para os professores de História. É livre, naturalmente, sua divulgação.
Que todos façam o que lhes ditarem as próprias consciências.
Quanto a mim, como disse um velho revolucionário em momentos de incerteza: Dixi, et salvavi animam meam (Disse, e salvei a minha alma).
Saludos,
Daniel Aarão Reis

Randolfe Rodrigues denuncia arbítrio e truculência de Eduardo Cunha


publicado em 26 de maio de 2015 às 15:09
Eduardo Cunha
Eduardo Cunha afronta o Congresso e a Democracia
por Randolfe Rodrigues*
O deputado Eduardo Cunha afronta os parlamentares, rebaixa a Câmara dos Deputados, constrange o Congresso Nacional e espanta a Nação brasileira com sua mais recente demonstração de arbítrio e truculência.
Desrespeitando os 68 deputados federais de vários partidos da Comissão Especial que, durante três meses, debateram com seriedade a esperada Reforma Política, o deputado Cunha acaba de cancelar, arbitrariamente, a reunião final que faria a avaliação do relatório a ser encaminhado ao plenário.
Pior: o deputado Cunha destituiu, na prática, a Comissão Especial, chamando a Reforma Política para uma precoce votação em plenário nesta terça-feira (26).
Será uma votação apressada, estouvada, sobre mudanças fundamentais da vida brasileira, com impacto direto para os cidadãos e eleitores que todos representamos nas diferentes instâncias do Legislativo brasileiro – no plano municipal, estadual e federal.
A Reforma Política implica discussão séria sobre fatos de repercussão permanente, como o financiamento das campanhas eleitorais, a reeleição e o sistema proporcional ou não na eleição de deputados e vereadores, entre outras questões relevantes.
São mudanças que devem refletir a vontade do povo brasileiro, aqui representado no Congresso Nacional pela vontade majoritária, soberana e democrática dos Deputados Federais.
O gesto antidemocrático e personalista do deputado Cunha se explica por seu receio de que seja derrotado em questões pontuais de sua exclusiva preferência, como a instituição do nefando ‘distritão’, modelo que acaba com o sistema proporcional de eleição e massacra as siglas partidárias, e a manutenção do contaminado sistema de financiamento privada das campanhas eleitorais, matriz de corrupção sistêmica comprovada nas investigações da Polícia Federal sobre a Operação Lava Jato.
O deputado Cunha deve entender que, embora presidente da Câmara, ele é apenas um parlamentar entre 513 deputados federais.
O deputado Cunha precisa compreender que sua vontade pessoal e seu arbítrio não podem sufocar a vontade da maioria e não podem comprometer o futuro do País.
Como diz o frustrado relator da Comissão Especial, deputado Marcelo Castro, o trabalho exaustivo cumprido durante três meses por 68 parlamentares será substituído, de repente, pelo relatório oral de cinco minutos em plenário executado de forma submissa por um deputado da exclusiva e absoluta confiança do deputado Cunha.
A Câmara dos Deputados e o Congresso Nacional não são quintais do arbítrio e da truculência do deputado Cunha.
A Câmara, o Congresso e o Brasil merecem respeito, deputado Cunha!
Minha solidariedade aos nobres Deputados Federais e à Câmara dos Deputados, tão desrespeitada nesse momento de barbárie pessoal e violência institucional exercida justamente pelo parlamentar que deveria defender a instituição e a democracia.
Deputado Cunha, uma advertência final ao Senhor: os seus brutais métodos políticos, aqui no Senado Federal, não passarão!
(Publicado originalmente no site Viomundo)

Tijolinho Real: As grandes fortunas ficam de fora dos ajustes.



 
Este país tem algumas coisas curiosas. Nos Governos de Luiz Inácio Lula da Silva os bancos nunca lucraram tanto. Penso que a lógica se repetiu no Governo de Dilma Rousseff, ou seja, o grande capital sempre escapou incólume, mesmo nos governos da coalizão petista. Agora a tesoura do Joaquim Levi procedeu cortes profundos no orçamento, algo em torno de 69,9 bilhões, 13% dos quais apenas na pasta da Educação. Gostaria muito de saber como o Renato Janine vai se arranjar. De alguma forma, esses cortes já estão repercutindo nas IFES, algumas das quais com indicativo de greve. Por aqui, as duas federais resolveram não aderir à paralisação, acredito que muito em razão do saldo positivo que os governos da coalizão petista ainda possuem junto à comunidade acadêmica. Mas há de se perguntar: por quanto tempo? O que se comenta nos bastidores é que o ex-ministro da pasta da Fazenda, Guido Mantega, já havia deixado instruções nos sentido de taxar as grandes fortunas, o que envolveria algo em torno de 200 mil contribuintes. Segundo cálculos da assessoria do Senado Federal, a arrecadação chegaria a 6 bilhões por ano. Um montante nada desprezível, proporcionalmente o equivalente ao que o Governo pretende economizar com as mudanças no Seguro Desemprego. Por alguma razão, Joaquim Levi recuou da proposta. Só consigo imaginar que, provavelmente, foi uma determinação da própria presidente, quiçá, preocupada em não criar mais arestas ao seu Governo, já tão fustigado. Não sei, mas, assim como ela peitou a recondução de Janot para a PGR, também deveria ter peitado a cobrança sobre essas grandes fortunas. Dava um refresco para nós, do lado de cá, que torcemos tanto por ela.

A charge é de Renato Aroeira, publicada hoje, no Jornal Brasil Econômico

Tijolinho Real: Qual era mesmo o nome das duas babás, Luciano Hulk?






White Collor e Blue Collor nunca foram mesmo uma questão de opção ou preferência pessoal. Antes de qualquer outra coisa, representam um código, que indica a posição que o sujeito ocupa nas relações sociais de produção. Na França é muito comum as pessoas indicarem no nome o local de sua origem, um indicativo da posição ou status que ela ocupa na sociedade francesa. Teóricos como Pierre Bourdieu - de origem humilde e caipira - fizeram um esforço enorme para se afirmarem na academia francesa, principalmente a parisiense. Em toda a sua obra perpassa esse preconceito sofrido. No final, acabou dando aula no Collège de France, que reúne os top de linha de cada área de conhecimento, mas, a rigor, nunca superou o trauma. Faço essa introdução para também repercutir o caso da família dos apresentadores de televisão, Luciano Hulk e Angélica, que foram recentemente atendidos numa unidade do SUS,o serviço público de saúde. Nossa sociedade é pródiga nessas hierarquizações. O primeiro fato a ser observado é a estranheza do casal ter sido atendido num hospital público, como se isso fosse o fim do mundo. Um dos melhores hospitais de Pernambuco é o Hospital da Restauração, aqui no Recife. Para algumas situações específicas - como múltiplos traumatismo e queimaduras - simplesmente único. Alguns anos atrás um dos seus médicos fez uma cirurgia de coração que repercutiu mundialmente nos anais da medicina. O seu grande problema é mesmo de demanda. Não há como atender bem à população que o procura cotidianamente. Mesmo com a implantação de unidades de "retenções" - hospitais e UPAS - concebidas para a triagem da população do interior e da região metropolitana que se dirigiam ao HR - parece-nos que os problemas continuam. Portanto, não vejo nenhum problema pelo fato de o apresentador e família terem sido atendidos num hospital do SUS. A casa grande e a senzala ficaram evidentes não aqui, mas na sequência de informações que sucederam o episódio. A começar pela declaração de um dos médicos de plantão, informando do rebuliço que provocou no hospital a chegada da família Hulk. Até aqui tudo bem, não fosse as circunstâncias do privilegiamento no atendimento da família do apresentador, em detrimento de outros pacientes. Existem duas babás nessa história, propositadamente invisibilizadas tanto pelo apresentador quanto pela mídia, ao abordar o episódio. Seus nomes não são mencionados. Foram deliberadamente "despersonalizadas", numa sociedade de profundas desigualdades sociais, historicamente forjada no "você sabe com quem está falando"? 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tijolinho Real: O Papa leu a Pedagogia do Oprimido


Dois livros nos chegaram às mãos, ainda na adolescência, acredito que por razões contingenciais. Já nascemos utópicos e continuamos assim até hoje.  A Pedagogia do Oprimido e a Geografia da Fome. O primeiro, do educador Paulo Freire, e o segundo, do sociólogo Josué de Castro. Deram o balizamento de nossas posições sociais até hoje, mesmo que entremeadas por uma série de outras leituras, algumas delas até criticando esses autores. É aquela história do "divisor de água" ou da nódoa de caju. Não há mais como nos afastarmos de sua influência. Quem acompanha as nossas postagens aqui pelo Face ou pela blogosfera sabe muito bem do que estamos falando. Paulo Freire ainda alcançou a descompressão do regime militar e, consequentemente, ainda conseguiu ser reabilitado, voltou  a dar aulas, orientar teses e dissertações, assumiu cargos públicos.  Reabilitado no Brasil, uma vez que conquistou o reconhecimento internacional pelo seu trabalho. Josué de Castro não teve a mesma sorte. Morreu no exílio, em Paris, deprimido, implorando para voltar ao país. Os jornais brasileiros foram proibidos de anunciar sua morte. Barbosa Lima Sobrinho, que passava pelo local, é quem encarregou-se de fazer as honras, ao saber de quem se tratava. Por falar em reabilitação, O Papa Francisco vem se notabilizando como o Papa da reabilitação. Conversou com todos os principais expoentes da Teologia da Libertação​. Recentemente, beatificou o arcebispo de San Salvador, Dom Oscar Romero​. Agora, ficamos sabendo que recebeu a viúva de Paulo Freire no Vaticano, a quem informou ter lido a sua obra seminal, a Pedagogia do Oprimido. Vou cometer uma outra heresia para os católicos, mas, bem aqui para nós, que Papa da cacete!

Antonio Lassance: Lula está pronto para voltar.




 

É cedo para dizer se Lula voltará em 2018 para ser candidato a presidente da República. No entanto, pela entrevista concedida a Carta Maior, o que se pode afirmar, com toda a certeza, é que ele está pronto e motivado para encarar mais um mandato – ou melhor, dois. 
Ouçam bem e prestem atenção ao que diz o ex-presidente, lá pelas tantas, em sua conversa. Ele usa duas analogias que retomam uma metáfora do início da entrevista. As analogias são a da estação ferroviária e a dos Dobermans. Um governo, diz ele, é composto por uma locomotiva, que é o governo; e pelo serviço público, que são as estações. Os governos passam. As estações ficam. Os governos são efêmeros. A burocracia é permanente.
Os políticos são eleitos, têm mandato, precisam de voto e de aprovação popular. São especialistas na arte de conquistar apoio público para suas decisões. A burocracia, não. É preciso todo um trabalho de convencimento. Não adianta obrigá-la a fazer o que não está convencida. Se a burocracia for convencida, fará com prazer o que deve ser feito. Se não se convencer, não fará. "Se ela tiver medo, ela fingirá e mentirá para você" - assevera.
Os ministros, mestres do convencimento público, nem sempre agem com presteza burocrática. Para isso, Lula brinca, usaria uns três Dobermans. Naquilo que é mais importante fazer e de um presidente acompanhar, ele esfregaria as roupas de seus ministros no nariz dos farejadores e os soltaria para encontrar seus auxiliares, saber o que estão fazendo e por que trilhas.
Mas cobraria dos ministros, também, maior envolvimento com sua própria burocracia. As políticas andam mal das pernas se os ministros não são capazes de convencer a sua própria equipe técnica da clareza e correção de propósitos, da certeza dos objetivos, da lisura dos processos. O desafio duplo, político e burocrático, deve convergir para o objetivo de melhorar a ação de governo.
Em 2006, Lula pagou para ver se seria abatido pela maldição do segundo mandato, aquela que diz que os primeiros quatro anos são insuperáveis, e os últimos quatro são só ladeira abaixo. Mirando o horizonte, deixa nítido que não veria risco em uma futura presidência. Muito pelo contrário. Por melhor que seu governo tenha sido avaliado, ele ainda se considera longe do último degrau. Lula já faz parte da história, mas está distante de se pretender passado.
"Eu talvez fosse o melhor opositor ao meu governo, hoje, porque hoje eu sei o que eu deixei de fazer e sei que é possível fazer mais" - diz. "Nós temos uma escada de dez degraus; nós subimos dois degraus, três degraus; ainda falta muito degrau". Essa é a metáfora. Esse é o recado.
Em 2018, se precisarem de um maquinista experiente, Lula saberá, melhor do que ninguém, como colocar mais lenha na fogueira. Estará pronto para subir na máquina e fazê-la seguir em frente, a pleno vapor.
 
Antonio Lassance, Cientista Político.
 
(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)

Tijolinho Real: Vassoura ungida por mil reais. Quem vai?

 


Não costumo me envolver com essa temática religiosa por dois motivos muito simples. Primeiro, pelo respeito devido a quem professa qualquer fé ou se identifica com alguma denominação religiosa. E, depois, pela capacidade de tolerância que conseguimos construir pelos anos de existência. Respeito e tolerância são duas palavrinhas mágicas que devem orientar nossas condutas em muitos assuntos polêmicos, inclusive em assuntos religiosos. Sou católico apostólico romano e sigo o Papa Francisco, sobretudo agora que ele resolveu ser "comunista" e está canonizando os clérigos insurgentes contra a Casa Grande, a exemplo de Dom Oscar Romero​, arcebispo de San Salvador assassinado por grupos paramilitares, e está a caminho de canonizar também o eterno arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. Quando de nossas incursões às comunidades quilombolas de São Lourenço, em Goiana, está na programação dos alun@s uma visita aos terreiros de catimbó, liderado por Dona Irene. Outro dia, esta senhora confidenciou para mim que resiste o quanto pode ao assédio das seitas neopentecostais já existentes na localidade. Não tenho nada contra, como já afirmei, em relação aos neopentecostais, mas, não raro, eles extrapolam os limites do bom-senso. Outro dia observamos que a Igreja Universal estava montando uma espécie de milícia, com treinamento militar e tudo mais. Um desses pastores chegou a sugerir que os irmãos doassem o dinheiro do aluguel à igreja. Agora vieram as vassouras ungidas, adquiridas pela modesta quantia de R$ 1.000,00. Se há uma coisa que admiramos nessa gente é o incrível poder de convencimento. Como alguém pode pagar mil reais por uma vassoura?Não é à toa que eles prometem cura até para homossexuais. Se a moda pega, certamente os fabricantes de vassouras vão escapar da crise econômica.

domingo, 24 de maio de 2015

Tijolinho Real: Até o dia primeiro, Paulo Rubem Santiago.


Está marcada para o dia primeiro de Junho, uma segunda-feira, no espaço onde funcionará o futuro Cinema do Museu, na AV. 17 de Agosto, 2187, no bairro de Casa Forte, a sessão solene que dará posse ao ex-deputado Paulo Rubem Santiago na presidência da Fundação Joaquim Nabuco. Como professor e parlamentar, é conhecido o envolvimento de Paulo Rubem Santiago com o tema educação. Paulo assume o comando da Instituição num daqueles momentos de inflexão. A Fundaj elabora um Plano de Desenvolvimento Institucional com o objetivo de inseri-la nas políticas públicas para o setor, concebidas pelo Ministério da Educação. Dos presidentes que passaram pela Instituição, certamente Paulo Rubem é o mais sintonizado com o tema, uma vez que sua atuação parlamentar o colocaram diante de todos os debates e discussões mais importantes sobre essa questão. Trata-se de um capital fundamental para tocar os destinos da Instituição. Um outro aspecto a ser ressaltado, é que Paulo sempre esteve do lado de cá, do lado do aluno de escola pública, do lado dos trabalhadores em educação, do lado das conquistas contingenciais de verbas para a área, do lado da construção de uma engenharia institucional que garantisse os direitos dos professores. 


Tijolinho Real: Viva Paulo Cavalcanti!


Amanhá será comemorado os 100 anos do escritor, do militante comunista, do promotor, do deputado Paulo Cavalcanti. Homens como Paulo Cavalcanti são raros. Paulo guardou a marca da coerência, da sensibilidade social e da solidariedade por toda a sua vida. Lembro de ter lido os 03 volumes de suas memórias, O Caso Eu Conto Como o Caso Foi, de um fôlego só. Esses livros retratam um bom período de nossa história, que foram fundamentais para os nossos estudos da quadra política pernambucana. Paulo era daqueles homens honrados que integraram as fileiras do Partido Comunista Brasileiro, a exemplo de Cristiano Cordeiro, Gregório Bezerra. Ficaram para a história. Já não se fazem comunistas como antigamente. As poucas siglas que ainda se dizem herdeiras dessa tendência política fazem corar a mais renhida direita, como chegou a insinuar, outro dia, o filósofo Renato Janine Ribeiro, Ministro da Educação. Nossos cumprimentos, Santos! Era assim que ele era tratado nos prontuários dos órgãos repressores da Ditadura Militar.

sábado, 23 de maio de 2015

Tijolinho Real: O que está por trás e pela frente da greve dos professores de Pernambuco.






O Secretário de Administração do Estado de Pernambuco, Milton Coelho, concedeu uma entrevista a um portal de notícia local. Naturalmente que, entre outros assuntos, veio à tona a greve dos professores, já definida, com data de início para o dia 29 de maio. O secretário declara-se surpreso com a decisão do SINTEPE, homologada democraticamente em assembléia da categoria. É como se os professores tivessem voltado atrás em relação aos acordos já firmados com a categoria, como a supressão das penalidades aplicadas, reajuste de 7%, entre outras questões. Ora, seguindo o seu raciocínio, se os professores vão entrar em greve, revogue-se todos os acordos assumidos pelo Governo. Voltaríamos a um estágio onde as medidas punitivas seriam novamente aplicadas. Por outro lado, o senhor Milton Coelho observa um componente político nessa greve, como se os professores estivessem sendo movidos por outros interesses que não os meramente relacionados às suas condições de trabalho. Neste ponto parece que ele está procurando chifre em cabeça de cavalo. 

O quer está por trás da greve dos professores é, exclusivamente, questões relacionadas às condições de trabalho da categoria. Agora, a rigor, toda greve tem um componente político e, naturalmente, desgasta quem está no exercício do poder. Nunca entendi muito bem - já comentamos isso outras vezes - como o senhor Paulo Câmara, que conhecia as fragilidades das receitas estaduais, prometeu dobrar o salário dos professores. Se nos permitem, ele foi muito infeliz. Deve estar profundamente arrependido, assim como os professores que acreditaram nessa promessa. A expressão "por trás" foi muito usada nessa entrevista. Quem sabe um analista de discurso poderia identificar o que está "por trás" disso. Mas, vamos inverter essa tendência e procurar identificar o que vem pela frente. Primeiro, há um questionamento, pelas redes sociais, em torno desses 7%. Há quem informe que as coisas não são bem assim. Na verdade a proposta limitava-se à mudança de faixa, do tipo A para B, B para C. Depois, seria natural que o SINTEPE consultasse a categoria sobre o assunto, que poderia recusá-la. Parece-nos que foi isso o que ocorreu, o que não significa, necessariamente, um recuo. 

Como afirmamos desde o início, estamos diante de um impasse. A sequência de fatos envolvendo essa greve não tem sido satisfatória para os professores. Infelizmente. O Governo endureceu o discurso, chegou a demitir professores, atrasou a folha para descontar os dias parados, mobilizou o aparato repressor para impedir que os professores tivessem acesso a um evento que ocorria no Centro de Convenções. Deu vários indícios sobre como irá lidar com essa questão. A Justiça, por sua vez, foi célere no julgamento das ações movidas pelo Estado contra a greve. 

Para completar o enredo, a pasta é comandada por um burocrata, que já foi gestor de SUAPE, mas não entende patavinas de educação. A rigor, esses caras não estão preocupados com o que acontece no cotidiano das salas de aula. Organismos empresariais passaram a ter uma influência substantiva nos rumos das políticas publicas de educação no Estado. Isso desde aquele governador dos olhos verdes, um admirador confesso do modelo gerencial aplicado por aquele senador mineiro, derrotado nas últimas eleições. Como afirmou um comentarista às nossas postagens, o que eles querem é apenas alguns números pontuais para apresentarem no exterior, como, por exemplo, o "montante" de alunos que tiveram acesso aos programas de imersão de inglês no exterior. Mostram as famílias chorando no Aeroporto Internacional dos Guararapes e o "circuito" de publicidade institucional está montado. Já ia esquecendo: Para isso não falta dinheiro não. 

Você precisa ler também:

Vamos à luta, professores de Pernambuco.  

P.S do Realpolitik: Na realidade, senhor secretário, o que está por trás dessa greve são as precárias condições de trabalho da categoria, com a sua dignidade aviltada, não apenas pela perda do poder de compra dos salários,mas, igualmente, em razão das circunstâncias em que o "fazer pedagógico" hoje se materializa nas unidades de ensino. Precisaríamos de um outro artigo para enumerá-las tanto para você quanto para o secretário de educação do Estado.   

Tijolinho Real: Saiu a beatificação de Dom Oscar Romero


O Papa Francisco pediu aos seus assessores que tivessem agilidade no processo que envolvia o pedido de beatificação do ex-arcebispo de San Salvador, Dom Oscar Romero. Penso que eles cumpriam à risca a determinação do sumo-pontífice. Dom Oscar Romero foi assassinado enquanto celebrava uma missa, durante o período mais crítico da guerrilha que acontecia naquele país. Se antes havia suspeitas, hoje se tem certeza sobre os seus algozes, ou seja, grupos de direita que contavam com o apoio dos Estados Unidos, dispostos a impedir, a todo custo, a vitória dos grupos insurgentes de esquerda. Oscar Romero lutava pelo respeito aos direitos humanos e a justiça social naquele país. Sua beatificação acaba de ser anunciada. Uma beatificação que foi aguardada com muita expectativa por todos aqueles que se identificam com a sua luta. O próximo, certamente, será o eterno arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. Bravo, Francisco!