pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Tijolinho do Jolugue: Ciro Gomes, o boca do inferno, poderá ingressar no PDT






Hoje especulou-se sobre a possibilidade do ex-ministro e e-governador do Ceará, Ciro Gomes, filiar-se ao PDT. Inteligente e preparado, Ciro Gomes é um homem de pavio curto. Sempre que pode, exercita sua bateria giratória contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, depois que este tornou-se um desafeto dos Ferreira Gomes, naquele episódio envolvendo o seu irmão, Cid Gomes. Cid fez duras declarações contra a composição dos deputados da Casa e já chegou ao recinto demitido do cargo de Ministro da Educação. Não disse nenhuma mentira, mas há verdades que não podem ser ditas. Foi um episódio melancólico. Cid foi praticamente expulso, sob apupos, daquela Casa. 

Foi um dos poucos ministros que defenderam o Governo Dilma com tamanha veemência. Já acuada por essa tal "governabilidade", Dilma entregou a sua cabeça aos seus algozes. Depois do episódio, Cid parece ter se recolhido aos aposentos. Pelo menos temporariamente. Já o seu irmão, pelas características conhecidas, nunca se afastou da boca do palco. Até recentemente se especulou que teria voltado a alimentar os sonhos presidenciais. O futuro dirá se isso é verdade ou não. 

Há quem assegure que o ex-ministro estaria entrando para a tropa de choque anti-golpista do Governo Dilma. O PDT é uma colcha de retalhos. Até recentemente, anunciou o afastamento da base de apoio do Governo Dilma. Não sei em que contexto o ex-ministro entra nessa legenda. Há algumas pessoas boas por ali, ainda vinculadas aos ideias do grande estadista Leonel de Moura Brizola. Espero que o ex-ministro entre na legenda com esse espírito.  

Tijolinho do Jolugue: Antônio Campos dá um ultimato a Geraldo Júlio





Sinceramente, não vejo como os familiares possam perde o controle do espólio político do ex-governador Eduardo Campos. Todas as demonstrações nos informam o contrário, a começar pela movimentação dos familiares, procurando ocupar os espaços de poder deixado pela morte do ex-governador. Claro que isso não é automático. Há muitas divisões internas nas hostes neo-socialistas tupiniquins e no plano nacional. Um bom exemplo disso é a recente perda do passe da ex-prefeita Marta Suplicy, cujas articulações de ingresso na legenda estavam bastante avançadas. Deu para trás. 

Marta já anunciou que deverá filiar-se ao PMDB, legenda pela qual deverá sair candidata nas eleições municipais paulistas de 2016. O curioso, conforme comentávamos ontem, é que senhora Marta Suplicy anda à procura de um partido não corrupto. Certamente, aterrissou no lugar errado. No plano local, há algumas divisões na legenda. Para complicar ainda mais o cenário, os atores ascendentes não possuem experiência política. Tanto o prefeito quanto o governador são do quadro "executivo". Homens escolhidos a dedo pelo ex-governador para cumprirem determinadas missões. De preferência quem não ameaçasse a sua hegemonia sobre o grupo. Eduardo, literalmente, isolou as raposas politicas da legenda, a exemplo de João Lyra e Fernando Bezerra Coelho.

Enquanto ele estava vivo para costurar as alianças, dirimir conflitos, impor os seus nomes, tudo ia muito bem. Com a sua morte, o rebanho neo-socialista ressente-se de um hábil articulador. Neste cenário, Geraldo Júlio, que deseja sua reeleição, teme a própria sombra. Trata-se de um jogador defensivo. Não se arrisca muito no tabuleiro político. As movimentações do irmão do ex-governador, o escritor Antonio Campos, no sentido de viabilizar sua candidatura à Prefeitura de Olinda, nas eleições de 2016, já se sabia disso, iria provocar um rearranjo aliancista, uma vez que o PSB sempre respeitou o tradicional reduto político do PCdoB. 

Nas dificuldades de reeleição de Renan Calheiro, o próprio ex-governador foi a Olinda ajudar o aliado. O acordo era tácito. Os comunistas apoiavam os socialistas no Recife e este os apoiavam em Olinda. A entrada de Antonio Campos no tabuleiro político da Marim dos Caetés, mexeu com esse arranjo. Geraldo não deseja perder o apoio do partido no Recife, tampouco o PCdoB parece disposto a apoiar um outro nome, que não seja o da deputada Luciana Santos, que pretende voltar a gerir os destinos da cidade histórica. Segundo o colunista Inaldo Sampaio, hoje, na Folha de Pernambuco, Antonio Campos teria ameaçado chutar o pau da barraca. Deu um prazo de 15 dias para o partido se definir sobre o apoio de sua candidatura. Do contrário, irá a procura de uma outra legenda para viabilizar a sua candidatura. Vamos ver como Geraldinho irá se sair dessa.

Cientistas políticos debatem protestos de direita

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Fernando Henrique Cardoso: Qual é a tua, cara?





Seria inevitável que os políticos mantivessem um certo grau de pragmatismo. Mas seria igualmente necessário que esse pragmatismo fosse acompanhado do respeito às regras do jogo democrático, do interesse público acima tudo. Espanta o comportamento do senhor Fernando Henrique Cardoso, um homem que já foi presidente do país por dois mandatos, manter uma postura temerária, oscilante - e de certa forma irresponsável - quando se trata de preservar as instituições de nossa já combalida democracia. Parece mover Fernando Henrique Cardoso uma torcida indisfarçável pelo malogro do Governo Dilma Rousseff. Para que não se sabe muito bem, uma vez que o consenso a que se chegou - mesmo entre os golpistas de turno - é que seria inoportuno uma ruptura institucional neste momento, onde todos teriam muito a perder. 

Na nossa época de peladeiro, desconfiávamos bastante daquele garoto que dizia que jogava bem em qualquer posição. Essa regra parece que se aplica ao ex-presidente Fernando Henrique. Consoante as mudanças das nuvens, ele se coloca como um conciliador, no dia seguinte aparece postando em sua página que a presidente faria um gesto de grandeza se renunciasse, porque o seu governo é legal, mas não é legítimo. Não satisfeito, conhecendo as divisões no ninho tucano, antecipou-se em procurar o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves no sentido de que eles afinassem o discurso. 

Conhecedor do desgaste do senador Aécio Neves, o governador Geraldo Alckmin foi um dos principais avalistas no abortamento dessa conspiração golpista. Ele disputa a vaga de concorrente em 2018 e sabe que isso só será possível com a manutenção das regras do jogo democrático. Do alto dos seus mais de 80 anos de vida, intelectual respeitado, duas vezes presidente da República, confesso que esperava mais comedimento do ex-presidente. Podia se dedicar agora a escrever seus artigos, dar suas palestras. Faria um bem danado ao país se ficasse na sua, como se diz aí fora. 

Zizek: O aumento do uso da violência no exercício do poder político



Penso que era o Alvin Toffler que tinha o hábito de encher a sua sala com recortes de jornais e, depois de observá-los, indicar as possíveis tendências de mudança do comportamento das pessoas em sociedade, traduzidas por ele com o nome sugestivo de "ondas". Mesmo com a advento das redes sociais, salvo algum engano, ele permaneceu com esse comportamento. Não necessariamente entrou nessa "onda". Zizek, sem dúvida é o filósofo marxista mais festejado da atualidade. Dentro e fora do circuito acadêmico. Ao apagar das luzes das grandes manifestações que ocorreram no Brasil, as chamadas Jornadas de Junho, o filósofo esloveno fez uma observação que passamos a ficar atento sobre o seu desdobramento desde então. 

Ele chamou a atenção para o recrudescimento do uso da força no exercício do poder político. Recolhendo dados sobre segurança pública em alguns Estado da Federação, vejo com tristeza, por exemplo, os enormes gastos para manter as forças de ocupação militar nas favelas cariocas e de São Paulo. Um gasto muito superior aos investimentos sociais, o que, na realidade, evidencia a enorme ineficácia na manutenção dessas UPPs. O termos mais correto a ser aplicado aqui é mesmo "ocupação militar", com as suas graves consequências, como o uso do arbítrio, dos desaparecimentos de moradores, do uso de tortura e coisas afins. A propalada "presença do Estado" não passou desse estágio, mesmo com os enormes apelos dos especialistas, que sempre advogaram a ampliação dessas medidas, no sentido de enfrentar os problemas de educação, saúde, saneamento, mobilidade, lazer. 

O grande geógrafo Milton Santos costumava afirmar que a grande satisfação de um intelectual era saber que as suas teses estavam se confirmando. A julgar pelo que ocorreu ainda naquelas jornadas, sobretudo em Estados como Pernambuco e Rio de Janeiro, o Zizek tinha lá suas razões. Mais recentemente, mesmo que pontualmente, temos observado algumas situações que corroboram, também, com esta tese do filósofo, como a que ocorreu no Estado do Paraná, onde o governador tucano, Beto Richa, reprimiu com violência a greve dos professores daquele Estado. E isso parece não ser uma tendência marcada pela "ideologia", posto que o governador "comunista" do Maranhão, Flávio Dino, também caprichou no cassetete ao reprimir, com violência, movimentos sociais que reivindicavam a demarcações das terras e mais escolas. 

Nos últimos meses, observamos uma escalada da violência em alguns Estados. Bahia, Pernambuco, Maranhão, Paraíba, acompanhamos mais de perto. É preciso tomar alguns cuidados com esses números, tipificando, inclusive as modalidades de delito que, de fato, estão com os índices em alta. Por exemplo, Bahia e Maranhão tem registrado muitos assaltos a coletivos. Um outro fator que nos impõe cautela são as chacinas, que causam grandes comoções, mas que, na apuração fria dos índices, por vezes, não informam mudanças muito significativas. 

Wagner Braga Batista: O fascismo nos convida para jantar.









* Wagner Braga Batista

Ao adentrar num supermercado, deparei-me com uma cena grotesca. Duas mulheres, jovens, esbravejavam, ostensivamente. Uma delas gritava:

- Esta comida não se dá nem pra porco.

Prosseguiu:

- Ainda bem que AINDA não sou militar. Se fosse quebrava tudo.

Atônitas, pessoas dispostas nas enormes e costumeiras filas,  entreolhavam-se assustadas.

Os rompantes não cessaram:

- O culpado é este povo imbecil.

Imaginei que a furiosa fera estivesse interpelando algum destes Abilio Diniz, sócios de grandes redes de supermercados, franquias estrangeiras, que controlam a venda de bens no atacado, um destes atravessadores, que minam a economia popular, grandes frigoríficos, que cartelizam o preço da carne, fazendeiros, que utilizam trabalho escravo para alimentar bois, plantacions da sustentabilidade, que disseminam alimentos com agrotóxicos e nos envenenam, publicitários, que fraudam a quantidade e a qualidade de produtos ou habituais especuladores,  que inflacionam a inflação, para arrancar nossos olhos da cara.

Nada disto, a Mussolini de saias, agredia verbalmente uma das caixas. Intimidada e envergonhada, a moça sequer lhe dirigia o olhar.

Pendores autoritários, que estavam restritos a faustosas sacadas e varandas, nos últimos dias descem  dos pedestais da truculência.  Ganham as ruas e chegam às portas de supermercados. Trazem no bolso o protagonismo de sempre, culpam o pescoço pelo corte da guilhotina. Misturam militares, “povo imbecil” e intimidações como ingredientes do golpismo.  Esquecem-se da corrupção endêmica e da secular desigualdade social. Da anemia crônica da justiça e da democracia. Valem-se da crise fabricada para legitimar sua arrogância e autoritarismo.

Não seria temeridade dizer: a classe média sediciosa quer mostrar sua importância. Após subir na vida utilizando expedientes deploráveis, obter atestado de crédito e moralidade por meio cartões de agências bancárias, agora quer ser reconhecida por seus préstimos a quem nos sufoca.  Pleiteia acesso à sala de jantar de financistas e de oligarquias.  Não como convidada, mas como  serviçal. Satisfaz-se realizando serviços menores, algumas atividades insalubres e pequenas violações de  direitos, com as quais seus patrocinadores não se comprometem. Estes mantêm limpas suas mãos. Deixam o trabalho sujo para operadores, cães de guarda, criminosos comuns, jagunços do cerrado, ubermagistrados e habituais jornalistas do caixa dois.

Neste país desigual e injusto, os fatos não falam por si. Costumeiramente nos enganam. São subsumidos por suas versões. Ganham o colorido que donos de pautas e manchetes imprimem nas nossas cabeças. Como diz o samba canção, as dores da gente não saem nos jornais.

Há poucos dias, uma bomba pouco explosiva, causadora de falso atentado, importada da Venezuela, foi plantada em instituto em São Paulo, ardilosamente chamado Lula.  Coquetéis de gasolina, sabor suave e levemente inflamável, foram lançados de monomotor, para celebrar dias de férias de trabalhadores sem terra, acampados em Minas Gerais.

Alguns pareceres do Ministério Público são hilários. Isentam recursos e espaço públicos de malversação e uso privado, bem como abacaxis e jaboticabas de nascer nas pistas ociosas de Montezuma. Já que fraudes costumam fugir de gavetas, mandam arquivar  aeroportos e prender o mordomo.

Antiquados e eficazes aparelhos da burguesia estão sendo revitalizados pela modernosa restauração liberal.

Mas, versões e provocações se combinam. Ferem o senso crítico e desmerecem a consciência coletiva.

Outro dia, um cidadão, que se disse capitão de corveta, dirigiu-se a lançamento de livros no Rio de Janeiro. Afirmava trazer abraços de dois notórios fascistas para o autor, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto. Tratava-se de uma provocação? Jamais. Apenas um gesto de cordialidade.

Pequenos, mas emblemáticos fatos são reveladores da cultura que nos cerca.

O fascismo, reabilitado pela furiosa vanguarda liberal, não precisa recorrer às armas convencionais para golpear a democracia. Dispõe de armamento mais sutil e sofisticado. O dinheiro de bancos, parlamentos alugados por grandes empresas, indústrias da falsificação e da  inverdade, reverberações premiada pelo marketing da catástrofe,  ONGs sustentáveis e humanitárias de George  Soros, tribunais da injustiça, que sentenciam quem querem e bem  entendem.  Se este arsenal for insuficiente, apela para aparatos repressivos de costume, a exemplo do que ocorreu no Paraná e em São Paulo.

O fascismo é consórcio de gente parasitária. De camadas médias, autodenominadas empreendedoras, que se sentem ameaçadas pela ampliação de direitos, e de lumpens, dispostos a qualquer coisa em troca de favores. É a massa de manobra preferencial da aristocracia improdutiva, financeira e latifundiária, em franco processo de degenerescência. Esta gente não enxerga horizontes socializatórios. Ressuscita e mobiliza seus espectros, o ódio às minorias, a criminalização de movimentos sociais, a aversão a sindicatos, o jugo de mulheres, as máquinas  de terror, o belicismo e prisões, a discriminação de homossexuais, o desprezo por crianças e adolescentes. Reinventa, modernamente, sua barbárie passada com auxílio do marketing e da manipulação das “belas causas”.  Insidioso, convida-nos para sua celebração hedionda. Franqueia sua sala de jantar.

Cuidemo-nos, todos, para não ser parte do seu cardápio.


* Wagner Braga Batista é professor aposentado da UFCG

As afirmações e conceitos emitidos em artigos assinados são de absoluta responsabilidade dos seus autores, não expressando necessariamente a opinião da instituição

Tijolinho do Jolugue: Marta Suplicy parece mesmo que perdeu o prumo político.






A ex-senadora Marta Suplicy, segundo dizem, está de malas prontas para ingressar no PMDB. As articulações em torno de uma possível filiação ao PSB, por algum motivo, não prosperaram. Não se pode mesmo levar os políticos brasileiros a sério - com raríssimas exceções - porque, em última análise, a ex-senadora teve a coragem de afirmar que estava à procura de um partido menos corrupto do que o PT. Isso só pode ser brincadeira. Salvo algum engano, Marta Suplicy entra mesmo no seu outono político. O capital político construído ao longo de sua militância no Partido dos Trabalhadores - onde, até certo ponto, se identificava com uma plataforma política mais progressista - aos poucos, está se esvaindo. 

É preciso ter muito cuidado com essas coisas, mesmo conhecendo as fragilidades do eleitorado brasileiro. Em alguns casos, ele não costuma perdoar essas mudanças repentinas de rumo político, motivada tão somente pelo jogo pragmático das disputas eleitorais. Marta Suplicy começou a perder o prumo político quando foi preterida pelo partido nas eleições de 2012, para a prefeitura da capital, em São Paulo. Não necessariamente pelo partido, mas por Luiz Inácio Lula da Silva, que acabou impondo o nome de Fernando Haddad como candidato. Na realidade, desde então, as feridas nunca foram devidamente cicatrizadas. 

Embora ministra de Dilma, Marta era um poço até aqui de mágoas. Em sua carta de despedida do Ministério da Cultura, já esboçava suas insatisfações com o Governo de Dilma Rousseff. A escolha do nome do sociólogo Juca Ferreira para substitui-la naquela pasta, igualmente, suscitou em Marta Suplicy mais uma motivação para as críticas. Desta vez, ainda mais contundentes, com ilações sobre a conduta do indicado. É difícil saber qual o cálculo político da senhora Marta Suplicy. Ela pode, inclusive, está realizando alguns cálculos equivocados. A filiação ao PSB envolvia alguns lances curiosos, a começar por um possível apoio do atual governador tucano, Geraldo Alckmin, à sua candidatura à Prefeitura da Cidade de São Paulo. 

Isso não seria inusitado se considerarmos a "camaradagem" do governador paulista com os neo-socialistas, a começar pelo ex-governador Eduardo Campos. Porque essas entabulações não prosperaram é um grande mistério. Também não sabemos qual o preço do seu passe nas hostes peemedebistas, mas, possivelmente, deve concentrar-se numa possível candidatura nas eleições de 2016. Se isso ocorrer - e caso venham a se confirmar as previsões - ou os desejos - de João Santana, marqueteiro oficial do Planalto - ela poderia bater chapa com o próprio Lula. Já imaginaram?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Brasil é um caso perdido?




José Luiz Gomes

O Planalto amanheceu mais calmo nesta segunda-feira. De uma certa forma, o arrefecimento em torno das possíveis mega manifestações contra a presidente Dilma Rousseff, apenas se confirmaram. O comitê de crise foi instaurado, cumpriu suas formalidades, mas, no final, pode comemorar uma vitória parcial. Aliás, no Governo Dilma, tudo se tornou muito parcial, inclusive essa vitória nas ruas. Os "consensos" de governabilidade construídos nessa gestão estão muito fragilizados, movidos por tréguas temporárias, cessão às chantagens, um alto custo republicano e prazos de validade exíguos. A linha de políticas públicas que se propunham ao enfrentamento das nossas históricas desigualdades sociais e ausência de oportunizações ao andar de baixo da pirâmide social - tão elogiada em todo o mundo, em razão das conquistas irrefutáveis - penso, terá que esperar alguns anos. Isso para não dizerem que somos pessimistas.

Sinceramente, não creio que, nessa conjuntura política e econômica, possamos ter a retomada dessas políticas estruturadoras. Não com o mesmo vigor de outrora. As negociações em torno de sua materialização estão irremediavelmente comprometidas, até mesmo pelo "ranço" de nossas elites, que nunca viram com bons olhos essas concessões ao andar de baixo. Não sei quanto tempo ainda vamos esperar por isso, mas, a rigor, este "país" continuará cindido, marcado a ferro e fogo, em suas relações sociais, pelas origens da Casa Grande & Senzala, como dizia o sociólogo Gilberto Freyre. 

Pontualmente, as manifestações do dia de ontem dão bem a dimensão disso. A classe média e a elite não escondiam o rancor, o preconceito, a intolerância, a incompreensão contra aqueles que ousaram reconhecer os direitos inalienáveis dos segmentos mais socialmente fragilizados da sociedade brasileira. Coisas horrorosas foram vistas nas ruas no dia de ontem, como cartazes pedindo socorro aos militares; outros lamentando que Dilma não tenha sido morta durante a ditadura militar; outros ainda lamentando que essa "corja" não tenha sido exterminada naqueles idos. Confesso que não sei sequer como qualificar isso. Despreparo? Falta de informação? De responsabilidade? Talvez um misto de tudo isso. 

Custa a acreditar que alguém, em sã consciência, possa pedir "socorro" aos militares. Eles não fazem ideia do que representou para o país uma ditadura militar, que torturou; censurou; cassou parlamentares; exilou nossos melhores intelectuais; perseguiu os opositores; abortou as reformas de base etc. Num excelente artigo, publicado aqui pelo blog, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, defende a tese de que, até mesmo as conquistas sociais obtidas nas administrações petistas foram negociadas com possíveis permissividades às orgias com o desvio dos recursos públicos. Por fora, alguns petistas de caráter mais duvidoso, também teriam cedidos à tentação. 

É neste sentido que fica mais evidente que o Governo acabou. Não há solução a curto prazo. O sistema político está irremediavelmente comprometido por um câncer em estado avançado. Por que não haverá mais golpe? Porque, em última análise, ele já foi dado, conforme afirmamos antes. O capital dita suas regras na condução da política econômica e,na política, o grande avalista do Governo hoje é um cara que atende pelo nome de Renan Calheiros. O Brasil é um caso perdido. 

Crédito da foto: Bruno Toturra.   

Arena Pernambuco: Um mega esquema de corrupção



Numa operação denominada Fair Play, a Polícia Federal apontou inúmeras irregularidades com os contratos da Arena Pernambuco, envolvendo políticos e empreiteiros. Artigo publicado aqui no blog, escrito pelo professor da UFPE, Michel Zaidan, cobrava providências quanto às denúncias, assim como o pronunciamento dos políticos arrolados, diretamente responsáveis pelos contratos. A principal irregularidade está relacionada a um superfaturamento, acima dos 42 milhões. A Arena da Copa tornou-se um grande monstrengo. Penso não ter exagerado, a julgar pelo andar da carruagem polícia, em ter afirmado que o único êxito da tal arena parece ter sido mesmo em constituir-se num duto por onde escoaram verbas públicas, que foram parar nas mãos de empreiteiros, lobistas e políticos inescrupulosos. Uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, que deve ter feito a festa de muita gente. 

Agora talvez se entenda tanto empenho público e privado em construir aquele monstrengo para lá dos macacos, como dizia o ex-governador Agamenon Magalhães. Hoje, em artigo, a vereadora Marília Arraes também cobra um pronunciamento dos nomes citados na operação Fair Play. As notas dos possíveis envolvidos foram muito pontuais, elaboradas com o discurso oficial característico, que, quase sempre falacioso, remetem ao vamos aguardar as apuração dos fatos. De nossa parte, as autoridades públicas terão todo o apoio no rigor e transparência das investigações. Simples formalidades que cumprem, tão somente, o dever de dar uma satisfação à opinião pública. Os jornais pernambucanos, por sua vez, estão cada vez mais comedidos. Comedido talvez não seja o adjetivo mais apropriado para descrever a situação, mas, em todo caso, as pessoas sabem onde estamos queremos chegar. 

Com raras e honrosas exceções - inclusive na pessoa do corajoso e íntegro professor Michel Zaidan, não necessariamente representando a academia - há um silêncio sepulcral sobre o assunto. A explicação mais óbvia é que a tal construtora envolvida financiou a campanha de muitos políticos pernambucanos. Alguns deles estavam na marcha contra o Governo Dilma no dia de ontem. Já afirmamos isso em outros momentos, mas volto a repetir. Aqui no Estado estava sendo montada uma grande obra de engenharia de corrupção na máquina pública no sentido de lesar o erário. Tudo muito bem arranjado, já com ramificações federais e distribuídas pelos prefeituras da região metropolitana do Recife. Vocês podem imaginar o estrago, para o nosso arremedo de  república, se essa gente passasse a tomar conta do cofre federal.

domingo, 16 de agosto de 2015

Altamiro Borges: Os "coxinhas", que voltarão a esbanjar ódio de classe neste domingo, vão fazer selfies com os policiais de Osasco?

publicado em 16 de agosto de 2015 às 10:34

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Vai ter selfie com os PMs de Osasco?
Nas marchas golpistas de março e abril, uma cena patética virou motivo de galhofa nas redes sociais. Dignos representantes das elites paulistas, hoje batizados de “coxinhas”, fizeram questão de tirar suas egocêntricas selfies com soldados do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ao mesmo tempo que rosnavam pelo “Fora Dilma” e até pela volta dos generais ao poder, eles explicitaram o seu apoio incondicional à repressão policial. Neste domingo (16), estes adoradores da violência e do ódio bem que podiam fazer uma homenagem aos soldados da PM que assassinaram 18 pessoas em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. Golpistas e carrascos em selfies simbólicos da barbárie.
A chacina ocorreu na quinta-feira (13). Homens encapuzados, de armas em punho, entraram em um bar na periferia da cidade e fuzilaram oito clientes. Na sequência, os assassinos percorreram outros 11 locais. Em cerca de três horas, 18 pessoas foram mortas e seis ficaram feridas em Osasco e Barueri. Apenas seis dos mortos tinham passagem pela polícia. A cena de violência revoltou os moradores da região. “Quando morre um policial, pode saber que em até 15 dias vai ter chacina. Nunca vai mudar, aqui não existe Justiça”, lamenta a costureira Rosângela Gonçalves – que há três anos perdeu um filho numa chacina e que na quinta-feira perdeu um amigo.
Tudo indica que o massacre foi planejado por um grupo de extermínio formado por PMs dispostos a vingar a morte de um policial na semana passada em um posto de gasolina – cena que ganhou enorme repercussão nos programas policialesco da televisão. “Se a hipótese for confirmada, o episódio não constituirá caso isolado. Ao contrário, a desconfiança quanto à participação de agentes de segurança se repete nas cinco principais chacinas registradas em São Paulo desde 2013″, aponta o editorial da Folha deste sábado (15). Nestes cinco massacres foram mortas 42 pessoas.
“Manifestações desse tipo expressam com crueza o quanto há de nefasto na existência de esquadrões da morte. Se as forças legalmente constituídas para garantir o respeito às leis não hesitam em violá-las, por que a população deveria confiar no Estado de Direito? O combate ao crime é um desejo de toda a sociedade, mas não pode ser feito ao arrepio das instituições. Fora dos marcos constitucionais não há ordem, mas barbárie; do ‘cada um por si’ resulta apenas mais violência e insegurança”, alerta a da Folha tucana, que sempre fez esforços para blindar o governador Geraldo Alckmin.
Será que os “coxinhas”, que voltarão a esbanjar seu ódio de classe contra pobres, negros e moradores da periferia neste domingo, vão tirar suas selfies sorridentes com os policiais da Osasco? Ou será que terão o mínimo de dignidade e exigirão uma imediata atitude do “picolé de chuchu” que ajudaram a eleger no primeiro turno das eleições de outubro passado? Os leitores já conhecem a resposta!
(Publicado originalmente no site Viomundo)


Tijolinho do Jolugue: O que, afinal, deseja o senhor Jarbas Vasconcelos?



Confesso que não entendi muito bem essa do Deputado Federal, Jarbas Vasconcelos, abandonar o seu tradicional "cozido" dos domingos, para ir a Boa Viagem, tradicional reduto da classe média recifense, para protestar e pedir a renúncia da presidente Dilma Rousseff. A única coisa passível de uma compreensão aqui, pode ser a eventualidade de uma possível candidatura do político às eleições municipais de 2016, onde ele já estaria,em tese, se reapresentado ao eleitorado, num momento oportuno. No mais, somente Friedrich Nictzsche poderia nos ajudar. O filósofo alemão, num dos seus livros, informa que toda palavra é uma máscara e todo discurso é uma fraude. Jarbas, segundo se especulou, chegou a ser sondado como um possível candidato a substituir o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, caso ele viesse a ser afastado. O número de postulantes não era muito, penso que apenas três, e o pernambucano poderia entrar nesse jogo com alguma chance, sobretudo pelo seu trânsito com setores os mais conservadores do Congresso. Embora um crítico ferrenho do PT - quiçá em função do seu passado de lutas contra a ditadura militar no Brasil - ele sempre se manifestou pela defesa da legalidade, contra medidas que pudessem interromper o mandato da presidente, conquistado legitimamente nas urnas. O que, afinal, fazia ele naquela manifestação dos coxinhas contra a presidente Dilma Rousseff?

Tijolinho do Jolugue: A manifestação dos insensatos!


Tijolinho do Jolugue: Somos milhões de Cunhas!




   Se, com um Cunha só já estávamos encrencados, imagina com milhões deles. 

Editorial: 16 de agosto, um dia decisivo para a democracia. Que democracia?


Hoje, 16 de agosto, será um dia decisivo para a democracia. Certamente, em razão de uma série de fatores - alguns deles tratados aqui pelo blog - as mobilizações contra o Governo Dilma serão esvaziadas. Para esvaziar essas manobras, a presidente Dilma Rousseff cedeu a todas as pressões da oposição, desconfigurando completamente o seu Governo. Não haverá golpe, mas também não haverá o Governo de Coalizão Petista, que se caracterizou por implementar um conjunto de políticas públicas de corte inclusivo, responsável por diminuir o fosso que separa o andar de cima do andar de baixo da sociedade brasileira. Nunca se avançou tanto neste país em termos de conquistas sociais. 


Em última análise, as investidas contra este governo e o PT tiveram origem exatamente na dificuldade de nossas elites em aceitarem, com naturalidade, a necessidade de construirmos um país mais "horizontalizado", menos hierarquizado, mais justos, mais integrado. Nossa elite gosta mesmo é de preservar suas demarcações sociais. Se afirmam na diferença. Infelizmente, não há solução para o Brasil. Mesmo as concessões ao andar de baixo obtidas nos últimos governos, segundo o professor Wanderley Guilherme dos Santos, foram possíveis apenas num cenário de permissividades e "descuidos" com a condução da coisa pública, o que resultou nos escândalos que vocês acompanham todos os dias nos jornais e nas redes sociais. Isso quando a imprensa escrita resolve publicá-los, já que alguns atores políticos estão rigorosamente blindados.

Aqui em Pernambuco, por exemplo, as notícias sobre o mega esquema de corrupção na construção da Arena Pernambuco, batizado pelo Polícia Federal de Operação Fair Play, contou apenas com algumas notinhas pontuais, no interior dos cadernos de economia. Dilma agora deverá fazer o governo que eles desejam, tutelada pelo mercado e seus asseclas. A Agenda Positiva apresentada pelo presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, é um bom exemplo disso. É a cartilha dos banqueiros, dos latifundiários, da bancada ruralista, dos planos de saúde, concebida sob medida para "emparedar" a presidente Dilma Rousseff. É neste sentido que as mobilizações de rua que devemos ficar atentos é a do dia 20 de agosto. Para conhecermos o tamanho da erosão do capital político do PT - e da doutora Dilma Rousseff - junto às suas tradicionais base de sustentação política. Aliás, a rigor, nem precisa esperar para o dia 20. O capital político da presidente Dilma Rousseff, chegou aos níveis mais baixos da história recente do país.

O que está em jogo, parece ser mesmo a defesa da "democracia", do respeito às regras do jogo, do Estado Democrático de Direito, onde Dilma, circunstancialmente, representa essa "legalidade". Não haverá golpe. É certo. Mas também não haverá um governo orientado pelas conquistas sociais obtidas pela sociedade brasileira nos últimos anos. Os que vão às ruas no próximo dia 20 de agosto deverão deixar isso bem claro para a presidente Dilma Rousseff. Ainda bem que, urdidos nas lutas sociais, eles continuarão defendendo o Estado Democrático de Direito. Sabem o que representa uma ruptura institucional.

Ontem, o Jornal Nacional, da Rede Globo, tratou apenas anpassant sobre as manifestações do dia de hoje. Não haverá golpe porque, em tese, ele já foi dado. Uma espécie de golpe branco, profundamente lesivo ao interesse do trabalho, em favor do capital, como se observa no conjunto de medidas anunciadas, que mexeram com o seguro desemprego, com o abono salarial, com o PIS, com a aposentadoria, com o SUS, com o rigor na preservação do uso das terras indígenas demarcadas etc. A esquizofrenia é tão clara que, ainda na sexta-feira, ali na Praça do Parnamirim, aqui no Recife, quando nos dirigíamos à Fundação Joaquim Nabuco, observei uma faixa onde os "coxinhas" convocavam a população para o "Impeachment de Dilma" exatamente em torno dessa agenda que atingiu os direitos dos trabalhadores e de outros segmentos sociais mais fragilizados. Vejam que contradição... ou manipulação grosseira.

sábado, 15 de agosto de 2015

Tijolinho do Jolugue: Gente, prenderam o palhaço Tico Bonito!




Os índices de violência estão numa escalada preocupante, em vários Estados da Federação. Estamos acompanhando esses dados e, muito breve, estaremos disponibilizando para os leitores. Antes, estaremos repassando para a entidades que nos solicitaram esses indicadores. Dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Maranhão, Bahia, invariavelmente, recebemos os dados atualizados. Acabamos de receber, por exemplo, a informação da morte de dois assaltantes de ônibus num bairro da periferia de Salvador. Após cometerem o assalto, quando já se deslocavam do local, um transeunte não identificado disparou contra os dois adolescentes, que morreram no local. Eis uma modalidade de delito que está se ampliando naquele Estado. Estamos no dia 15 de agosto e já são contabilizadas 42 mortes por causas violentas no Estado do Maranhão, somente neste mês. O Estado parece que está perdendo o controle da situação. Enquanto isso, quando se trata de reprimir com violência os movimentos sociais e culturais, o pau como no centro, como diria nossos avós. A prisão de Tico Bonito, um palhaço que fazia uma apresentação de rua em Cascavel, no Paraná, dá bem a dimensão do que estamos falando. Ele foi detido apenas por criticar a Polícia Militar do governador tucano Beto Richa.   

Tijolinho do Jolugue: O exemplo que vem de Paulista.



Os anos passam e a qualidade dos gestores públicos da cidade de Paulista apenas decaem. Circula pelas redes sociais a imagem de um prefeito tatuado com as figuras dos ex-governadores Miguel Arraes e Eduardo Campos. Numa sociedade polarizada como a nossa, manifestações explícitas de babação não seriam inusitadas, mas, até para isso, é preciso estabelecer algumas ponderações. Penso que o cidadão errou na dose. Tornou-se ridículo. Mas não pensem que as coisas param por aí. Em plena missa em homenagem à passagem de um ano da morte do ex-governador Eduardo Campos, eis que o chefe da edilidade municipal, num gesto de abnegação e espírito público elevado, anuncia uma redução do seu salário e dos seus secretários para fazer frente às dificuldades de finanças do município. Todos sabemos que estamos num momento de contenção de despesas. A crise atingiu a todos. 

Gestões de diminuição e redução dos gastos públicos serão sempre bem-vindas. Ocorre que esse gesto é apenas demagógico, sem qualquer efeito concreto sobre as finanças municipais. O rapaz está precisando de assessoria, de alguém com a coragem de abrir os seus olhos, evitando-se essas bravatas, esses atos impensados. Gestão pública não é nenhuma brincadeira. Exige respeito por cada centavo do contribuinte; exige o esforço para melhorar a vida do cidadão; disposição e trabalho para superar as dificuldades; melhoria dos índices de indicadores sociais essenciais, como educação, saúde, mobilidade, habitação, meio ambiente etc. Certamente, não é com atitudes assim que vamos melhorar a gestão da coisa pública. 

Vamos ficar por aqui porque não tenho mais estômago para falar sobre os problemas de malversação de recursos públicos, onde o município, tudo leva a crer, cumpria um papel importante nessa engrenagem montada no Estado, que está sendo desbaratada. A nós não causaria nenhuma estranheza se a Polícia Federal - que está aqui pertinho - se deslocasse para o município nas próximas horas, destrinchando essas "ramificações nebulosas". Pernambuco parece ter sido loteado entre os gatunos do erário. 

Tijolinho do Jolugue: O grande êxito da arena pernambuco



As investigações da Polícia Federal, apontando uma série de irregularidades na Arena Pernambuco, apenas confirmam aquilo que todos já sabíamos. A montagem de um mega esquema de corrupção dentro da máquina pública estadual, patrocinada por lideranças políticas até recentemente homenageados como heróis, como políticos exemplares e probos. Aqui se observa a absoluta inversão de valores, induzida por critérios relacionados à condição social do indivíduo, o que lhes faculta agir de maneira fraudulento, mas que são blindados pela engrenagem do sistema, cujas padrões de "permissividades" mudam consoantes critérios arbitrários, construídos Deus sabe lá como. Talvez o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, que se dedicou tanto a estudar essas "desigualdades" em sua vida acadêmica tenha alguma explicação para isso. Mais uma vez, volto a repetir, se confirma a nossa premissa de que a morte daquele governador dos olhos verdes foi providencial. Mesmo aqui na província, os tentáculos da corrupção já haviam atingidos a esfera nacional. Vocês podem imaginar o perigo para os interesses republicanos se esses "caras" chegassem a controlar a máquina a partir do Planalto. Parece que o único sucesso dessa Arena Pernambuco foi mesmo o ralo de dinheiro público desviado que, certamente, não vieram parar em nossas mãos. Cumpre informar as leitores que o gerente do grupo que ficou responsável pela arena é candidato à reeleição em 2016. 

Crônicas do cotidiano: O outono do patriarcado rural nordestino.







José Luiz Gomes

Os capítulos finais do livro de Diego Fernandes Freire, Contando o Passado, Tecendo a Saudade, são dedicados à decadência dos tradicionais engenhos banguês na região Nordeste. Dois romances do escritor José Lins do Rego, Fogo Morto e Banguê, são tomados como referências. São relatos chocantes, de caráter saudosista, onde o patriarcado rural, antes tão prepotente e onipresente, começa a emitir os sinais de um outono, sem retorno. Apesar de pertencer a uma família ligada à aristocracia açucareira paraibana, o escritor José Lins nunca demonstrou a menor vocação para o trabalho no eito. Enquanto os engenhos entravam em ruínas, nos momentos que descreve que passou com a família, sua lida diária consistia em passar horas e horas deitados numa rede, ruminando, contemplando os sinais de fragilidade do coronel José Paulino, ainda batendo com o cacete no piso do alpendre da Casa Grande do Engenho Corredor, mas sem o vigor de outrora. Sem aquele vigor dos 18 anos, como diriam as assanhadas. 

Ainda em Menino de Engenho, seu livro de estreia, José Lins do Rego se pega refletindo, sobre a sua impotência e absoluta incapacidade de reverter aquela situação: Aqui, deitado numa rede, dizia ele, pensando no futuro do Santa Rosa. Certa vez, para fazer uma média com o avô José Paulino, Carlinhos, acordou disposto, pegou o cavalo e foi, sozinho, inspecionar o trabalho na bagaceira. Voltou todo orgulhoso e, apenas numa única pergunta, o coronel José Paulino lhes fez ver a sua completa inaptidão para o trabalho no campo: Quantos homens havia no eito. Ele, naturalmente, não soube responder. 

Numa viagem telúrica, os dois meninos de engenho, José Lins e Gilberto Freyre, ainda realizariam uma longa volta ao passado pelas terras dos parentes do escritor, em solo paraibano. Tratou-se, na realidade, de uma viagem onde ambos remontaram ao seu passado, cheio de saudades e tradições. Essa era, na realidade, a praia do sociólogo Gilberto Freyre. Alguns biógrafos do autor de Casa Grande & Senzala apontam a compra do Solar de Apipucos, um casarão colonial localizado no bairro do mesmo nome, como uma forma de se sentir, ele próprio, um senhor de engenho. Gilberto passava suas férias num engenho de um tio, em São Severino dos Ramos. Sua identificação com a aristocracia açucareira do Estado era inegável. 

Ali, naquela solar imponente, com a vegetação preservada, de pitangas roxas - como diria um colega - Freyre costumava receber os amigos com a calorosa recepção de um famoso licor preparado com o fruto. A receita era do próprio escritor, hoje reproduzida pelos familiares. A única exceção deve ter sido para o ex-presidente da República, Jânio Quadros, que, apesar de ter chegado no Solar nas primeiras horas da manhã, para visitá-lo, já estaria "mamado". Nunca entendi muito bem porque o cronista Joel Silveira considerou esse ritual de Gilberto Freyre  como o mais esquisito entre os costumes dos políticos brasileiros. Muito gente boa, entre políticos e intelectuais, experimentaram esse licor e saíram tecendo muitos elogios ao sabor, sem que esse hábito pudesse ser considerado "bizarro". 

Nos relatos de ambos os escritores sobre este tema, é visível um sentimento de melancolia e desapontamento. Um leitor mais atento deve lembrar-se que, assim que chegou no Santa Rosa, José Lins passou horas a fio encantado com o maquinário do engenho moendo a cana para a fabricação do açúcar.Sua descrição é uma das mais emocionantes do Menino de Engenho. Todas as crianças passam por algum momento de "encantamento" na vida, como na letra de Vivências, da Banda de Pau e Corda: O canto do ferreiro, a casa do doutor. Na nossa inocente infância, na cidade de Paulista, um desses "encantamentos" era observar as águas turvas da "levada da tinta", um riachozinho de águas sempre coloridas, provocadas pela poluição da tinturaria da Companhia de Tecidos Paulista. Ficávamos ali, horas a fio, depois das aulas, um monte de guris, sem noção do perigo, tentando acertar a cor da água na próxima enxurrada. 

A convite da prefeita local, uma leitora do blog, tive a oportunidade de conhecer o Engenho Corredor ainda na época da floração das cajaranas, entre junho e julho. Isso só pode ter sido de propósito, prefeita. O Engenho fica a poucos quilômetros do centro da cidade de Pilar. Por essa época, os litígios judiciais entre a família e o poder público já estariam sendo equacionados e tivemos a oportunidade de conversar com os familiares do escritor, que fizeram questão de mostrar, ainda, o buraco feito no piso pelo cacete do velho coronel José Paulino. Assim como descrito no Menino de Engenho, ainda foi possível sentir o cheiro das cajaranas em flor, de suas frondosas árvores, naquele passeio com as tias, realizadas por Carlinhos, numa manhã fria, característica desses meses do ano.   

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O xadrez político das eleições municipais de 2016, no Recife: A falta que faz um pêndulo político entre os neo-socialistas locais.





José Luiz Gomes

No último dia 13 de agosto foi comemorado um ano da morte do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Por sinal, muito bem comemorada, envolvendo um conjunto de celebrações e homenagens. Pelo andar da carruagem política, sua memória não se apagará tão cedo entre os pernambucanos, seja da capital, seja do interior, como bem observou o cientista político e professor da UFPE, Michel Zaidan Filho. No interior, inclusive, essas homenagens revestiram-se de um caráter telúrico, genuíno, assim como a feijoada, a tapioca, a buchada de bode ou a rapadura. Na ausência física do líder político do grupo, muitos deles tentarão sobreviver desse banquete totêmico, embora as diferenças internas estejam cada vez mais evidentes, indicando que, do além, o ex-governador não teria condições de manter sob rédias curtas o destino do grupo político que ele arregimentou - e, de certa forma formou - aqui no Estado. 

Momentos cruciais para observarmos esse termômetro das possíveis cisões internas são as eleições. Aqui as disputas são por postulações. Se o grupo mantém a hegemonia de poder, ainda assim, é possível acomodá-los de alguma forma. Se o grupo perde as eleições, aí, então, ninguém sustenta a sangria, muitas vezes justificadas em torno da procura de "bodes expiatórios", apontados como culpados pelo desfecho negativo. Em 2016 teremos um primeiro e decisivo teste para o grupo político do ex-governador. No apogeu da "crise de gestão" do ex-prefeito João da Costa(PT), não sei se vocês se lembram, o PSB se propôs a ajudá-lo, com conselhos e um conjunto de medidas que poderiam contribuir para a melhoria do desempenho da máquina pública municipal. Sob a rubrica das parcerias entre a máquina estadual e a máquina municipal - e com o intuito de articular as ações - tratou-se, para alguns analistas, na realidade, de uma intervenção branca. 

Em vários momentos, o PT mordeu a isca jogada pelo ex-governador, fragilizando, segundo ainda Michel Zaidan, a possibilidade de constituir-se numa força política independente e autônoma no Estado. Uma oportunidade única, onde o cavalo selado parece que passou batido. O assédio do PSB ao Palácio Antonio Farias era evidente e ainda contava com o apoio de alguns petistas do tipo queijo do reino.Naquela época, penso que muito em razão dos projetos presidenciais do ex-governador - e também de olho grande numa capital de projeção nacional como o Recife - havia algumas motivações evidentes, além da existência dos estrategistas e formuladores do grupo. 

Com a morte do ex-governador, parece ter sobrado apenas os executores, cumpridores de missões, como é o caso de Geraldo Júlio e do governador Paulo Câmara. Falta inspiração a ambos, criatividade para o manejo da máquina. Habilidades políticas não se desenvolvem do dia para a noite. Há aqui um flanco que permanecerá aberto durante alguns anos nas hostes neo-socialistas do Estado. Uma fenda de jogada estratégica do tabuleiro que, se bem explorada pela oposição, poderá jogar os "executivos" do grupo no limbo da história política do Estado. 

Não sei quem poderá assumir o papel de "condutor político" do grupo. Existem alguns nomes com este perfil, mas foram, ao longo dos anos, submetidos à liderança incontestável do ex-governador, posto que mais independentes em relação aos "executivos". Alguns desses nomes, preteridos no processo, são um poço até aqui de mágoas. Estes elegeram até os "novos aliados" como interlocutores mais privilegiados e confiáveis para os seus diálogos políticos. Dizem que essas conversas não tem nada a ver com a província, mas não engolimos essa história. Um nome que se coloca como herdeiro político do grupo é o escritor Antonio Campos que, pelo andar da carruagem política, deverá candidatar-se às eleições municipais de 2016, na cidade de Olinda. 

O escritor, um ilustre desconhecido das urnas, embora bem articulado no campo literário, em mais de um momento, já deixou claro que o capital político construído pelos Arraes/Campos não seria abandonado. Se ele for bem-sucedido na empreitada, poderá tornar-se numa espécie de "batedor", ou seja, aquele que abrirá as trilhas por onde deverão caminhar as novas gerações familiares.Certamente, a família Campos não abdicará de ceder o espólio político para qualquer um. O candidato a sucessor político do ex-governador deverá sair mesmo do clã familiar. Os dois filhos mais velhos de Eduardo Campos já começam a usar o púlpito, numa demonstração inequívoca de que estão se preparando para assumir o leme político do grupo. 

Ainda é cede para dizer quando eles entrarão de sola no jogo, disputando eleições, mas o terreno sem dúvida está sendo preparado. Pensou-se até que a viúva, Renata Campos, poderia assumir esse papel, mas a observo um pouco reticente, como quem deseja, de fato, que os rebentos possam cumprir essa missão. Num momento de incontinência verbal, o governador Paulo Câmara deixou escapar que poderá apoiar o nome de Pedro Campos, filho do ex-governador, já nas eleições de 2018.Essas "peças" entretanto, que poderiam representar uma possível esperança de sobrevivência política do grupo, pelas razões expostas, ainda não poderão ser acionadas a todo gás, apenas pontualmente, como, aliás, já vem ocorrendo, nos eventos alusivos ao ex-governador.

Ora pela prematuridade e ausência de preparação, ora pelo perigo de "queimar o cartucho", expondo-as a uma situação desfavorável, num momento ainda inoportuno. É preciso tomar muito cuidado nessa hora. "Muito cuidado" nessa hora, entretanto, poderá estimular as lutas internas pelo espólio político do grupo do ex-governador, num jogo intrincado de alianças internas, expondo feridas nunca devidamente cicatrizadas. É neste cenário que o senhor Geraldo Júlio deverá enfrentar as urnas, em 2016, para continuar como inquilino do Palácio Antonio Farias, por mais 04 anos.

Não está sendo fácil. A despeito das pesquisas de avaliação de gestão apontarem um quadro minimamente sob controle, os eleitores, cotidianamente, dizem justamente o contrário. A eduardodependência também se constitui num grave problema. Penso que a Pedagogia da Autonomia não era, necessariamente,  o livro de cabeceira do ex-governador. Tanto no Palácio Antonio Farias quanto no Palácio do Campo das Princesas é visível a ausência de um pêndulo político que atendia pelo nome de Eduardo Campos. Diante do exposto, como dizem os advogados, com os flancos abertos, Geraldo terá inimigos ousados dentro e fora do contexto de sua composição política, alguns deles dispostos a reassumiram a condição de grandes lideranças políticas de um passado recente.


Há um deles, ex-governador e prefeito por dois mandatos, que está recebendo romarias de políticos com regularidade. Todos esses políticos estariam fazendo um chamamento para que ele assuma uma candidatura à Prefeitura do Recife nas próximas eleições. Conforme já afirmamos, há um evidente vácuo de liderança política no Estado. E, em política, esses vácuos não costumam deixar de ser ocupados por muito tempo. O assanhamento das raposas é visível. Sem traquejo para o manejo político do grupo, o senhor Geraldo Júlio deverá sofrer bastante com o fungado no cangote. Política não é para amadores. 

P.S.: do Realpolitik: Um leitor assíduo observou que nessa série de artigos, carregamos menos nas críticas, o que deixa transparecer uma contradição com a linha editoral do blog. De fato, ele tem razão. Ocorre, porém - se isso justifica alguma coisa  - que essa série de artigos preocupa-se apenas em observar as movimentações dos atores políticos no tabuleiro, suas investidas, seus recuos, reticências, jogadas equivocadas, lances acertados. Anpassant, mais apenas anpassant, não deixamos de tecer nossas ponderações críticas, mas com a tinta menos carregada do que em outros momentos. Ademais, caro leitor, o artigo é sempre escrito próximo aos finais de semana, junto com as crônicas do cotidiano, quando nossos pensamentos estão mais leves, de olho nas verdinhas com joelho de porco, das sextas-feiras. Um forte abraço e apareça sempre por aqui. 

   








Tijolinho do Jolugue: Não haverá golpe...mas também não haverá governo.


Não haverá golpe e as mobilizações contra o Governo Dilma foram previamente abortadas. Como afirmamos antes, a manifestação que, de fato, é simbólica, será a que está programada para o dia 20 de agosto, quando os movimentos sociais e outras entidades da sociedade civil deverão ir às ruas para "defender o Governo". Afinal, cabe a pergunta: que governo eles irão defender? Certamente, são será o governo que aí está, encilhado com uma agenda liberal dantesca, lesiva aos interesses nacionais e dos trabalhadores. Esse foi o preço a ser pago no xadrez político que impediu as movimentações no sentido de derrubada ou impedimento - o que seria a mesma coisa, já que não haveria condições legais que justificassem um impeachment - do Governo da presidente Dilma Rousseff. 

Três atos determinaram o fim do assanhamento em torno da ilegalidade, todas patrocinadas por atores ligados, de alguma forma, em menor ou maior proporção, a essas urdiduras. Talvez a exceção fosse mesmo para o Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros(PMDB). Mas, a rigor,  com a tal agenda positiva apresentada, nem precisava conspirar contra o Governo Dilma. O primeiro ato seria a declaração de João Roberto Marinho, um dos donos da Rede Globo, informando que o sucessor da presidente Dilma Rousseff assumiria em 2018, num evidente recuo em torno da manutenção das regras do jogo democrático que elegeu Dilma Rousseff. O segundo ato, deveu-se ao tucano Geraldo Alckmin, informando que a legalidade deveria ser mantida. Não seria por aqui que os tucanos marchariam unidos. 

Geraldo Alckmin alimenta aspirações presidenciais e, de certa, forma, interessa a ele o desgaste do senador Aécio Neves, golpista até nos sonhos e nos atos falhos. Fica cada vez mais evidente que ele não possui "envergadura" para o cargo de presidente da República Federativa do Brasil. O terceiro ato coube, como antecipamos, ao Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, com a sua agenda tirada do bolso, costurada sob medida com os interesses das forças mais retrógradas do país. Infelizmente, Dilma Rousseff, contingenciada pelas circunstâncias políticas, emparedada no tabuleiro, submeteu-se a tal agenda. Seis meses depois, acaba o Governo da presidente Dilma Rouseff. Não haverá golpe. É certo. Mas também não haverá um governo orientado pelas conquistas sociais obtidas pela sociedade brasileira nos últimos anos. Os que vão às ruas no próximo dia 20 de agosto deverão deixar isso bem claro para a presidente Dilma Rousseff. Ainda bem que, urdidos nas lutas sociais, eles continuarão defendendo o Estado Democrático de Direito. Sabem o que representa uma ruptura institucional.    

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Dilma Rousseff: Pai, afasta de mim esse cálice.


 


José Luiz Gomes

Tenho lido muitos artigos e comentários lúcidos sobre este momento de turbulência da política brasileira. Embora polêmico, o artigo de Gregório Duvivier, publicado em primeira mão no Jornal Folha de São Paulo, é um deles. Não menos importante, as reflexões do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que suscitaram um outro artigo escrito por nós. O artigo do articulista Duvivier, por alguma razão desconhecida - talvez pelo fato de ter sido publicado num espaço como a Folha de São Paulo - provocou maiores polêmicas do que o artigo do professor do IUPERJ, Wanderley Guilherme, inevitavelmente com algum sotaque acadêmico, o que pode ter inibido alguns leitores desavisados. Não sabem o que perderam. Wanderley Guilherme é um dos mais argutos observadores da nossa realidade política.  O artigo foi publicado no blog pessoal, mantido pelo professor. No final, ambos vão convergir para a encruzilhada política em que o PT se meteu, fazendo concessões demasiadas a essa corja de políticos fisiologistas, empreiteiros, banqueiros e empresários sem o menor pendor de espírito público, que, por fim, conduziram a legenda a esse cadafalso, esse beco sem saída, esse caminho sem volta, com alguns integrantes, possivelmente, envolvidos em ilícitos, como está sendo evidenciado em alguns casos.  


Lamentavelmente, segundo Wanderley, essa parece ter sido a única forma de engenharia política possível, que permitiu a adoção das políticas públicas redistributivas adotadas nos Governos da Coalizão Petista. Sempre soubemos que a decisão de atender às demandas dos setores desafortunados foi alcançado com muito custo, mas não imaginávamos o quanto. Aos poucos, o Governo Dilma vai perdendo completamente a sua identidade, se aprofundando num terreno pantanoso, de futuro incerto. Pelas redes sociais, pululam as convocações de manifestações contra e a favor do Governo. Uma para o dia 16, contra, e a outra pra o dia 20 de agosto, esta a favor. Mais uma vez, nos intervalos dessas possíveis polarizações, perde-se muito em termos de análise.  

Melhor seria dizer que ambas são contra o Governo e a do dia 20 pode ter um caráter até mesmo mais emblemático, demonstrativo de que o Governo vem perdendo espaço na sua base de apoio popular, o que pode ser até mais grave do que essas manifestações convocadas pelos "coxinhas".  Apoios aqui Dilma nunca teve mesmo. O problema maior é a erosão do capital político do PT junto às suas bases de sustentação política históricas. A cada dia o Governo Dilma aprofunda esse hiato. Por último - numa manobra política de sobrevivência até compreensível - está sendo comemorado com grande alarde a tal agenda política positiva do senador Renan Calheiros, presidente do Senado Federal. 

Um primor de agenda neoliberal, capaz de fazer corar os mais ilustres representantes do tucanato. Alguns pontos, como a frouxidão na legislação de proteção às terras indígenas; possíveis pagamentos às intervenções realizadas pelo SUS, consoante a faixa de renda dos indivíduos atendidos, e o não estabelecimento de índices que amarrariam os investimentos de verbas públicas destinadas à educação, acreditamos, nem eles mesmos teriam a ousadia de propor. Acuada, Dilma Rousseff disse com todas as letras que essa era a agenda para o país, sem qualquer reparo à proposta do senador. Aliás, tudo aqui cumpre um script. Renan é mais uma peça da engrenagem anti-golpista. Por outro lado, também é um fato que Dilma "loteou" o seu Governo entre os seus algozes, descaracterizando-o completamente. O mercado conduz as políticas econômicas, o PMDB traça as linhas políticas, num clima de equilíbrio instável, disposto a assumir o leme no menor vacilo. Um cheiro bizarro no congote da presidente Dilma Rousseff, como bem ilustrou em charge o colega Renato Aroeira. 

O que fazem Dilma e o PT?apenas observam, sem reunirem as condições necessárias para uma reação, aceitando essas imposições, ampliando o fosso que os separa dos movimentos sociais. Este, definitivamente, como disse uma amiga internauta no dia de ontem, não é o meu governo, não é o governo que ajudamos a eleger. O legado de conquistas sociais obtidas nos últimos anos, embora esteja muito longe de horizontalizar a sociedade brasileira, é inegável. Essas reformas substantivas, acredito que apenas um partido com as características do PT poderia implementá-las. 

Defenderemos até as últimas consequências o seu mandato, constitucionalmente obtido nas urnas, dentro de um esquadro de legalidade; não há nada que justifique um pedido de impeachment e isso seria muito traumático para a saúde de nossa frágil democracia. Mas, infelizmente, política é feita de circunstâncias e estas se tornaram sombrias logo no início deste segundo mandato. Dilma já não faz aquele governo para o qual foi eleita. Foi literalmente atropelada pelo torniquete político e econômico imposto pela oposição. Ela é muito forte, forjada na luta. Do tipo que cai de cabeça erguida, mas, lá no fundo, pode estar repetindo o refrão da música do Chico Buarque de Hollanda: Pai, afasta de mim essa cálice. 

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Michel Zaidan Filho: Festa de interior

 
 
Tendo escrito alguns artigos críticos sobre as comemorações pelo primeiro aniversário da morte do ex-governador Eduardo Campos (por quem teria uma fixação, conforme um leitor), alguém me replicou se não teria havido algum avanço na política de Pernambuco, com o reinado do "Imperador". É interessante a pergunta porque a oligarquia dos Campos pôs em circulação várias caras novas (de auditores fiscais) na administração municipal e estadual e ainda trouxe o afilhado do cacique do PMDB para a vice-governança do Estado. Num debate radiofônico com o sociólogo José Arlindo Soares, a alegação de renovação política foi exatamente esta: as caras novas arregimentadas pelo ex-governador. Mas será que isso é o suficiente para se falar de renovação?

Vamos aos fatos. O nosso Estado sempre foi caracterizado por uma   intensa polarização política entre dois lados, duas correntes políticas, desde a época da UDN e o PSD/PTB/PSB/PCB.  Polarização que se acentuou com bipartidarismo oficial criado pela Ditadura Militar. Depois da redemocratização, continuou com o PFL e o PMDB, até a aliança de Jarbas Vasconcelos com a direita pefelista. A partir dai, abriu-se uma novação polarização entre a aliança conservadora jarbista e a frente popular de Pernambuco, com o PSB/PC do B/PT etc. Era o lado da direita e o lado da esquerda. As tímidas e frágeis tentativas de se achar uma  terceira via em nosso Estado nunca deram certo: primeiro o PPS, depois o PT, agora o PSOL etc. A polarização se mantém. 

A derrota do PT em Recife e na eleição passada contribuiu muito para o reforço dessa polarização. Se o PT não tivesse cometido os erros internos e em sua política de alianças que cometeu, nas duas eleições passadas, poderia ter criado essa terceira via, a partir da Prefeitura do Recife. Infelizmente, mordeu a isca envenenada atirada  pelo ex-governador e o seu cavalo-de-troia: Maurício Rands. A derrota do PT  fortaleceu muito a hegemonia da oligarquia dos Campos, porque a política estadual retomou a sua polarização imobilista e atrasada. Pior: com a desestruturação do quadro partidário de Pernambuco, cooptou a direita, ampliou o palanque, e a mitologia de um Estado de tradições tão aguerridas foi trocada pela foto de uma cidade do interior, onde quase todos (inclusive, a ex-oposição) passou a "comer na mão" do prefeito e do governador. Antigos adversários (como o PPS) estão a ponto de se fundir com o PSB, numa espécie de oportunismo eleitoral e partidário que dá  dor.

Mais desolador é o retrato, a imagem dessa política interiorana na comemoração necrófila da morte do ex-governador. A pobre viúva, carregando nos braços o filho caçula, rodeada pelos infantes e os cortesães. Nunca a política pernambucana esteve tão próxima da socialização política interiorana: a família, os parentes, os afilhados e protegidos e os oportunistas de todos os matizes. O familismo amoral na sua essência mais pura, mais telúrica e regional, como uma tapioca ou uma feijoada.

Capítulo à  parte foi a publicação dos discursos, palestras, conferências, intervenções do líder, do chefe tragicamente desaparecido. Surpresa: ninguém sabia dos dotes literários do ex-governador. O ghostwriter  deve ter trabalhado muito para lustrar a prosa do chefe e transformá-lo na personalidade política do ano ou da década, quem sabe. Este festim diabólico deve ter convencido a opinião pública nacional que aqui em Pernambuco são os mortos, os desaparecidos que comandam a política dos vivos, que continuam carpindo chorosamente a morte do falecido como forma de se manter e ampliar o  seu poder oligárquico. E haja retrocesso!

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da UFPE e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

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