pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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sábado, 20 de julho de 2019

Michel Zaidan Filho: Universidade sem futuro


                                                               

  

Durante os últimos anos do regime militar, nós – docentes universitários – lutamos bravamente contra o projeto de transformação das Autarquias Universitárias em Fundações. Alegavam os militares que a transformação traria mais autonomia de gestão aos reitores e eles podiam criar receitas para suas instituições, através da venda de serviços e produtos, sem a participação do governo federal. Era uma clara tentativa de transferir o ônus do financiamento público-estatal para a venda   de serviços ao mercado, às empresas e a investidores privados, numa tentativa de alienação da autonomia científica e didático-pedagógica das universidades públicas do país.

Essa tentativa espúria, que copiava o modelo de financiamento de algumas universidades americanas, onde o sistema de cátedras patrocinado por fundações privadas é comum, foi largamente rechaçado pelo movimento docente e sua entidade representativa, a ANDES. Agora, volta com nova roupagem, tentando seduzir os reitores com a promessa de mais recursos e mais autonomia administrativa. Ledo engano.  Está configurado aí um imenso passo curto para a privatização do sistema universitário brasileiro e sua domesticação ante os interesses das empresas privadas (e instituições de ensino privadas).

O sistema universitário brasileiro (onde predomina o modelo autárquico e financiamento público-estatal) é uma das grandes conquistas do nosso povo. Ele se destaca no contexto latino-americano. E algumas das nossas universidades públicas estão entre as melhores do mundo. E não é só pela acessibilidade pública, ampliada com o sistema de cotas raciais, étnicas e sociais. É pela excelência acadêmica, em todas as áreas de pesquisa, ensino e extensão. Se nossas instituições de ensino fossem meros apêndices de empresas privadas ou fundações empresariais, jamais teriam conquistado o respeito e a admiração e todo o mundo. Não há no planeta, países que se desenvolveram e se tornaram prósperos, sem universidades livres, fortes, autônomas e produtivas. Os únicos financiadores da pesquisa pura, das humanidades, das benfeitorias na saúde, na nutrição, no esgotamento sanitário, na construção de habitações populares, transporte público etc. são os órgãos do governo federal. 

Mas não de qualquer governo. Só os gestores que se inspiravam em objetivos nacionais e democráticos se preocupam com a vida das universidades.  Um presidente que se comporta como um gerente de empresas e investidores privados, pouco vai se importar com a qualidade pública e democrática da educação. Vai, sim, privatizá-las e neutralizar o potencial de crítica e invenção dessas instituições de ensino. Se o gerente não fosse tão estúpido, entenderia o valor das universidades públicas, inclusive para a reprodução do capital. Afinal, a ciência e a tecnologia transformaram-se há muito tempo em forças produtivas de primeira grandeza. Mas a miopia e o estreitamento de visão impede ao “analfabeto político” de entender essa afirmação.

Nenhum reitor que tenha sido eleito democraticamente pela sua comunidade vai se deixar seduzir por este autentico “canto das sereias” de mais liberdade administrativa, mais recurso e mais produção. Mas os oportunistas e carreiristas de plantão vão se manifestar – na hora difícil de defender o patrimônio  educacional público – a favor, entrevendo possibilidades de auferir muitas vantagens pessoais e profissionais com sua adesão a essa pá de cal se se jogará sobre as universidades brasileiras.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Quem defende o indefensável? Categorias psicopolíticas para entender o Brasil atual



  1. Marcia Tiburi
Quem defende o indefensável? Categorias psicopolíticas para entender o Brasil atual

Tais categorias dispostas aqui nos colocam diante da tarefa cada vez mais urgente do pensamento crítico (Arte: Revista CULT)

Com Rubens Casara
Introdução
Em recente manifestação popular, alguns simpatizantes da ditadura militar instaurada em 1964 carregavam uma faixa em que era possível ler o slogan “pelo direito de não ter direitos”. Também se tornaram conhecidas as manifestações pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal “em nome da democracia”. Isso para não mencionar o apoio de parcela da sociedade a pessoas que, hoje, defendem explicitamente a prática da tortura ou a violação ao sistema de garantias constitucionais (que tem como única finalidade evitar o arbítrio e a opressão estatal contra os indivíduos, inclusive aqueles que se manifestam contra esses direitos e garantias). Mas não é só.
Há trabalhadores que defendem reformas do Estado que só favorecem os donos do capital. Há quem defenda o trabalho infantil e o fim do ensino público. Há dirigentes políticos que criticam o pensamento crítico e têm ódio do conhecimento. Há afrodescendentes que aplaudem medidas que potencializam o genocídio da população negra. Há mulheres que acreditam que o feminismo é puro ressentimento de mulheres feias e/ou lésbicas. E, mais recentemente, ficou evidente que não faltam aqueles que, em nome do combate ao crime, defendem a prática de outros crimes.
Em todas essas manifestações, há algo em comum: a defesa daquilo que deveria ser indefensável. Em outras palavras, tratam-se de manifestações que atacam valores, direitos e conquistas que deveriam ser objeto de consenso e de defesa em uma sociedade civilizada, republicana e democrática.
Esse fenômeno da “defesa do indefensável” aos olhos de qualquer pessoa que busque compreender a realidade, torna-se ainda mais interessante à pesquisa se estivermos atentos para o fato de que, não faz muitos anos, algumas dessas manifestações seriam imediatamente repudiadas no Brasil ou arrancariam risos diante do ridículo próprio a espetáculos de programas de auditório que recorriam a políticos inexpressivos e outras pessoas exóticas, dentre exorcistas, pessoas que se alimentam de luz ou novos messias. Os políticos que deveriam ser pessoas responsáveis pelo decoro, ocuparam o lugar desses personagens.
Mas infelizmente, embora bufões, esses políticos não estão de brincadeira. Pense-se, por exemplo, na defesa da tortura, que nem mesmo os governos militares pós-1964 ousaram admitir ou muito menos elogiar publicamente diante da repugnância que uma prática como essa provoca em qualquer pessoa com o mínimo apreço à dignidade humana.
Tendo isso em vista, a pergunta passa a ser: o que explica, no Brasil em 2019, a “defesa do indefensável”? Nessa primeira aproximação diante desse problema, estamos levantando a hipótese de que se trata de um problema complexo e, como tal, possui múltiplas causas, dentre elas destacando-se: a) a ignorância; b) a burrice; c) a vergonha; d) vantagem; e) o autoritarismo; f) a paranoia; e g) o cinismo. Não raro, mais de um desses fatores psicossociais se faz presente em uma mesma pessoa. Assim, por exemplo, a pessoa pode ser ignorante e burra, paranoica e autoritária, burra e envergonhada ou ainda ignorante, burra, autoritária e cínica.
Ignorância
A ignorância é a ausência de informação e conhecimento. Se o indivíduo possuísse informação de qualidade ou detivesse o conhecimento necessário à compreensão dos fenômenos, não “defenderia o indefensável”. Se, por exemplo, entendesse que o sistema de direitos e garantias existe para evitar o arbítrio de que ele mesmo pode ser vítima, se conhecesse os horrores históricos que levaram à criação e um sistema internacional de proteção aos direitos humanos, não defenderia a violação das garantias que derivam da Constituição e dos Tratados Internacionais. O ignorante tem salvação, mas é constantemente alvo de ações governamentais que tem por objetivo mantê-lo na ignorância e, portanto, passivo diante do absurdo.
Todo governo que precisa da ignorância para se manter (ou todo governo que deseja o povo “defendendo o indefensável”) adota medidas concretas para impedir o pensamento crítico (acabando com cursos de sociologia e filosofia, por exemplo), para solapar a credibilidade das universidades públicas (diminuindo os investimentos em pesquisa e educação), desvalorizar a educação, empobrecer a linguagem, destruir as palavras (ou criar novas como “conje”), suprimir e reescrever a história (atacar os cursos de história ou divulgar versões revisionistas que atendam aos objetivos do governo), reforçar a ideologia disfarçada de “neutralidade” (pense-se no movimento “Escola Sem Partido”), instrumentalizar a imprensa (perseguir jornalistas que ousam “fazer jornalismo”, por exemplo), desincentivar as artes (reduzir o investimento em cultura) e destruir os projetos de leitura etc.
Burrice
Nelson Rodrigues dizia que se a ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades, a burrice é uma força da natureza. A burrice é a incapacidade de articular e usar corretamente a informação que a pessoa possui. Uma pessoa burra consegue fazer o mal ao outro, mas também a si-mesma sem perceber a relação de causa e efeito entre a sua ação e o mal que vem a suportar.
Pode-se dizer que a burrice é, em certo sentido, uma categoria moral, na medida em que produz efeitos na esfera de terceiros. Mas, não raro, ela caminha junto com a arrogância e a prepotência que não permitem a alguém desvencilhar-se da própria burrice. O Burro defende o indefensável porque é incapaz de entender as consequências dessa defesa, inclusive para ele próprio. Pensem na manifestação em defesa do “direito de não ter direitos”. Uma vez vitoriosa, a “tese” levaria à perda do direito de se manifestar. Pensem na “defesa da tortura” que coloca o manifestante na condição de potencial alvo dessa prática contrária à defesa da dignidade da pessoa humana. O Burro é vítima da crença, efeito de sua falta de reflexão, de que ele não possa ser vítima de um erro judicial ou de uma armação da polícia.
Vergonha
A vergonha costuma ser apresentada como uma condição psicológica e uma forma de controle relacionada ao medo ou consciência da desonra, desgraça ou condenação. Frequentemente, a vergonha relaciona-se com dogmas religiosos, preceitos jurídicos, valores políticos ou preconceitos sociais.
A vergonha pode explicar a tentativa do oprimido de se defender da recriminação e da condenação do opressor através do fenômeno do mimetismo. O oprimido passa a “defender” o que ele tenderia a considerar indefensável para se misturar com o opressor. Alguns exemplos podem ajudar a entender: o indivíduo que tem vergonha de sofrer o estigma de ser “pobre”, “favelado” ou “negro” passa a defender ações militares desordenadas e abusivas, que colocam em risco concreto a sua própria vida e a de seus familiares. Para tentar parecer “igual” ao opressor uma pessoa pode passar a aplaudir o discurso e a prática que a colocam na condição de vítima em potencial.
A vergonha também pode justificar a “defesa do indefensável” sempre que ela impedir o indivíduo de reconhecer que estava errado em um anterior julgamento ou manifestação. Para fugir da condenação moral diante do erro, o indivíduo revela-se capaz de se manter no erro e continuar a defender aquilo que, com o tempo, se revelou indefensável. Pense-se nas pessoas que passaram a adorar e a enaltecer falsos heróis e que agora, mesmo diante da revelação de que esses heróis eram de barro, se fecham em uma postura fundamentalista de defesa daquilo que não mais é defensável.
Vantagem
A vantagem é o ganho, a diferença a favor, que uma pessoa ou um ente exerce ou recebe de outra pessoa ou ente. O fato de uma pessoa, uma classe, um grupo econômico ou uma categoria levar vantagem com o “indefensável” não pode ser menosprezado ao se estudar manifestações que aos olhos de um indivíduo desinteressado pareceriam absurdas. Vale imaginar que um grupo econômico investiu em um projeto de poder e que, mesmo depois de uma série de ilegalidades de seus comparsas terem sido reveladas, insiste em defender o que se tornou indefensável.
Em uma sociedade em que o egoísmo passou a ser tratado como uma virtude, no qual os valores da utilidade e do interesse tornaram-se fundamentais e condicionantes da ação da maioria das pessoas, em uma sociedade em que muitas pessoas acham “normal” violar regras constitucionais para conseguir uma vantagem ou ter maior lucro, não é de se estranhar que também se “defenda o indefensável” para conseguir uma vantagem.
Autoritarismo
Se a personalidade democrática convive com a existência de limites tanto aos seus desejos quanto ao exercício do poder, a personalidade autoritária se caracteriza pela desconsideração de qualquer limite aos seus desejos e aos seus projetos. O autoritarismo leva ao culto da violência, ao ódio aos direitos humanos e ao conhecimento, ao medo da liberdade, à criação de inimigos imaginários, à confusão entre o julgador e o acusador, ao pensamento etiquetador (ao discurso empobrecido que recorre à chavões, slogans e frases feitas), à naturalização de preconceitos, à aceitação acrítica de fake news (em especial aquelas que confirmam os piores preconceitos do indivíduo autoritário) e, principalmente, à intolerância com qualquer limite ao poder e aos desejos do detentor da personalidade autoritária.
A razão, os direitos, os valores, as regras, os princípios e as práticas civilizatórias que impõem limites aos desejos forjados no autoritarismo passam a ser odiados e afastados. Nesse movimento, não raro, o autoritário passa a “defender o indefensável”, desde a “prática de crimes para combater a criminalidade” à solução final administrada pelos nazistas no século passado.
Paranoia
A paranoia costuma ser definida como uma espécie de psicose que se caracteriza por uma certeza delirante que se funda na ausência da inscrição do “não” (e, portanto, de limites) no psiquismo do sujeito. Há uma perda do simbólico e o sujeito passa a recusar limites externos e a substituí-los por uma espécie de “lei imaginária’, ou seja, a fazer aquilo que na cabeça dele é o certo e o legal.
O caso do juiz Daniel Paul Schreber, cuja biografia foi objeto da atenção de Freud, e que passou a acreditar que era destinado a ser a “mulher de Deus”, do ponto de vista dos quadros clínicos propostos pela psicanálise, não difere muitos daqueles que aderem a uma certeza delirante que precisa ser confirmada e, para tanto, precisam abandonar os fatos, as provas, as leis, a ética etc.
O paranoico, como se percebe, “defende o indefensável” para confirmar a sua certeza delirante, as hipóteses a que aderiu em razão de um quadro mental paranoico.
Cinismo
Para além de designar uma doutrina filosófica grega, por extensão, o significante “cinismo” busca dar conta da atitude ou caráter de uma pessoa que revela desconsideração pela moral vigente, pelas normas jurídicas e pelas convenções sociais. O cínico vive um pacto com a inverdade como se ela fosse verdade, porque nada que seja verdadeiro lhe importa. O cínico “defende o indefensável” por caradurismo ou desfaçatez. A inverdade lhe convém e a verdade não vem ao caso. Para que o cínico alcance sucesso ele precisa ser muito forte, muito vazio ou frio, emocionalmente falando. Além de suas características pessoais, é necessário um grupo de ignorantes (ver acima) e de burros (ver acima) que sirvam de audiência e forneçam apoio em um verdadeiro arranjo, um círculo cínico.
Tais categorias dispostas aqui para, humildemente, nos ajudar a pensar, nos colocam diante da tarefa cada vez mais urgente do pensamento crítico. E isso não é pouca coisa diante do cenário atual, fruto da ausência de pensamento que se expande em escala nacional. A luta é mais uma vez contra o obscurantismo sempre útil ao poder.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

terça-feira, 16 de julho de 2019

Michel Zaidan Filho: Fundamentalismo cristão de mercado.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Editorial: "Todo discurso é uma fraude"

 Michel Foucault 100+ Famous Authors and Their Writing Spaces – The Writing Cooperative
 
Pelos jornais e sites especializados, notícias dão conta de que os paladinos da moral e dos bons costumes pretendiam auferir vantagens financeiras da cruzada contra a corrupção, uma narrativa discursiva que, quase sempre, está na raiz de projetos autoritários. Teríamos aqui uma boa discussão para este editorial semanal, mas vamos cumprir o prometido, ou seja, tratar das categorias dos regimes de governos autoritários a partir da obra do escritor inglês George Oswell, conforme anunciamos na semana passada, a partir de uma obra recente do filósofo francês, Michel Onfrey, que observa na obra 1984, uma provável construção de uma teoria sobre as ditaduras, tema tratado por Rubens R.R.Casara num texto publicado pelo site da revista Cult. Destruir ou relativizar a liberdade - exceto a liberdade de consumir e circular o capital - observa Casara, constitui-se na primeira categoria dessas ditaduras de um novo tipo. A liberdade deixa de ser um direito inalienável dos indivíduos para tornar-se algo negociável, limitada, apenas permitida sob certas condições. Uma pena de 23 anos pode ser reduzida a 03 - com o preservação do patrimônio adquirido irregularmente - se, num acordo de delação premiada, o indivíduo resolver construir uma "narrativa conveniente."
O epicentro desse medo à liberdade teria ocorrido depois do atentado de 11 de setembro, quando se formulou uma espécie de novo contrato social, onde os cidadãos e cidadãs passaram a abdicar de suas liberdade individual e coletiva - com medo de possíveis atentados terrorista - abrindo maiores precedentes para as ações de vigilância e controle - e até abusos de autoridades - por parte de agentes públicos. Daí para as violações de direitos e garantias individuais e coletivas foram apenas um passo. Hoje, os tentáculos de controle e vigilância sobre os indivíduos atingiram níveis extremamente preocupantes, violando direitos mais comezinhos. Com toda a clarividência do seu texto, talvez nem o George Oswell poderia prever o aparato de vigilância utilizado pelos aparelhos de segurança do Estado, como o largo uso das câmaras de reconhecimento facial, inclusive no Brasil. 
Num debate recente, alguém observou que o Recife é uma das cidades estratégicas para a implantações desses sistemas de vigilância. Não explicou as razões, mas observou que há câmaras instaladas na avenida Guararapes que reagem ao barulho, com sensores que direcionam seu foco a partir de um som, por exemplo, de um tiro. Num texto bastante instigante, Para Além do Bem e do Mal, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche - que teve forte influência sobre o pensamento do filósofo francês Michel Foucault - observa que todo discurso é uma fraude e toda palavra é uma máscara. A verdadeira intenção de um discurso não está naquilo que ele revela, mas naquilo que ele omite, que se traduz na verdadeira intenção do autor do discurso. Os diálogos até agora disponibilizados pelo site The Intercept revelam as reais intenções daquela operação, conduzida de forma não republicana, ancorada num discurso falso de moralidade pública e amparada num projeto político. Caiu a máscara, meu caro Michel Foucault. O país, por sua vez, está mergulhado numa pulsão de morte. Estamos pagando um preço muito alto por essa insensatez política.

Os especialistas em análise de discurso terão panos para as mangas pelos próximos anos. Comenta-se que são centenas de horas de gravação que estão sob o controle do site. Curioso observar que as palestras realizadas pelo ex-presidente foram logo apontadas como recebimento de propinas, irregulares ou com o propósito de obter vantagens indevidas. O ex-presidente tinha capital simbólico para realizá-las. Agora se sabe que os seus algozes, na realidade, estavam tentando construir esse capital a partir de sua condenação. Resta saber se teremos instituições ainda suficientemente fortes para coibir esses abusos. Sinto informar que possivelmente não. Na próxima semana, iremos tratar do empobrecimento da linguagem e do anti-intelectualismo, mais uma característica dos regimes fechados. Depois dos memes de envelhecimento que viralizaram nas redes, a queda do padre Marcelo Rossi, vou até à cozinha tentar aprender a fritar alguma coisa...

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

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quinta-feira, 11 de julho de 2019

Charge! Benett via Folha de São Paulo

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Editorial: Uma teoria da ditadura Oswelliana

 
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Há dois escritores com os quais tenho grandes afinidades, sobretudo em razão dos seus textos políticos: Franz Kafka e George Oswell. De alguma forma, os leitores mais perspicazes já devem ter percebido que eles estão presentes em nossas crônicas políticas, publicadas aqui pelo blog. Ambos são escritores muito citados nesses tempos obscuros de pós-verdade e pós-democracia. Ouvida no documentário de Petra Costa, Democracia em Vertigem, a presidente eleita e depois deposta num golpe institucional, Dilma Rousseff, declara: Eu me senti a própria senhora K, numa alusão ao senhor K de O Processo, famoso livro do escritor tcheco Franz Kafka. Surpreendentemente, A Revolução dos Bichos, de George Oswell, há semanas, é um dos livros mais vendidos no Brasil. Embora aborde aspectos políticos e sociais de regimes fechados - no caso especifico, o stalinismo na antiga União Soviética - o mais provável, para este momento de obscurantismo - seria o seu texto 1984, onde o filósofo francês. Michel Onfrey, observa a construção de uma teoria sobre a ditadura. (Théorie de la dictature).

De fato, a distopia de George Oswell disseca todos os meandros de uma arquitetura autoritária, desde de seus primórdios à sua consolidação, constituindo-se, assim, num aparato teórico para nos orientar sobre como nascem as ditaduras, como elas se consolidam e os possíveis meios para enfrentá-las. Apesar de uma obra de ficção política científica - pelo menos ao que sabe, George Orwell não tinha pretensão de construir uma teoria sobre as ditaduras - como bem "sacou" Onfrey, 1984 pode, sim, figurar nas estantes dos cientistas políticos como um bom guia para entender a dinâmica dos regimes autoritários. Nos Estados Unidos, ele teve um grande pool de vendas, depois da manipulação do número de pessoas presentes na cerimônia de posse do presidente Donald Trump, grotescamente alterados sob o argumento de "fatos alternativos", conforme a explicação de sua assessoria. O termo poder ser traduzido aqui como uma "mentira institucionalizada", consoante objetivos escusos em jogo, quando as verdades são "relativizadas", dependendo da condição dos atores políticos.

Numa primeira aproximação, é preciso reconhecer que os regimes autoritários guardam algumas semelhanças entre si, notadamente uma narrativa discursiva que apresenta suas grandes lideranças como redentoras, quase sempre ancoradas num discurso contra a corrupção,  em relação ao qual tudo se justifica, inclusive o esfacelamento do edifício democrático e a instalação de uma ditadura. Julgamentos seletivos e institucionalização de mentiras como "verdades absolutas", então, como prática de atingir os adversários, tornam-se procedimentos recorrentes. A verdadeira face de um regime autoritário apenas se torna perceptível depois de um momento de "lua de mel" com seus apoiadores e  consolidação do seu projeto de poder. Depois dessa fase, os tentáculos autoritários não mais podem ser escondidos sob o manto da tese de que "as instituições estão funcionando normalmente" e, começa, de fato, a materialização do projeto autoritário, traduzidos no arsenal de ações persecutórias aos inimigos, que inclui desde a cooptação à eliminação física. 

Mesmo para compreender as ditaduras de "um novo tipo", o livro de George Oswell nos oferece algumas contribuições importantes, o que nos leva aqui a fazer rasgados elogios à sua clarividência. Nem a forma predadora com que essa turma trata as questões ambientais escapou às suas críticas. A "produção" da ignorância e a perseguição de caráter anti-intelectualismo igualmente. A sanha é dirigida a toda pulsão de vida, o que talvez explique esse momento de "depressão coletiva" experimentada por aqueles brasileiros que ainda conservam a lucidez. Os loucos ensandecidos, estes já estão nas ruas, agredindo homossexuais, negros, índios, praticamente de religiões de matriz africana e afins. Com base num excelente texto publicado no site da revista Cult, de autoria de Rubens R.R.Casara, ponto por ponto, vamos discutir os aspectos dessa teoria da ditadura oswelliana pelas próximas semanas.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Editorial: Uma charge contra a intolerância

OS CORPOS NA SOCIEDADE

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O mito fundador de Stonewall

  Renan Quinalha :


O mito fundador de Stonewall

Primeira Marcha do Orgulho Gay, em Nova York, um ano após Stonewall (Foto: Leonard Fink/Arquivo da História Nacional do Centro Comunitário LGBT)

Stonewall Inn era um singelo bar frequentado pela população LGBT+, localizado no bairro nova-iorquino de Green2wich Village. O público mais cativo do bar eram os setores mais marginalizados da sociedade: travestis, gays afeminados, lésbicas masculinas, michês, drags, pessoas em situação de rua, enfim, LGBT+ pobres, negras e latinas que pertenciam a um “submundo” e que, por isso, não gozavam de reconhecimento como cidadãs.
Um bar destinado a esse público e que era um dos únicos lugares disponíveis para LGBT+ que queriam dançar e curtir só poderia existir no interior de um gueto culturalmente arejado de uma grande metrópole. Mas isso só era possível em tensão constante com as forças de segurança pública. Não à toa, Stonewall Inn era controlado, desde 1966, por máfias que subornavam as autoridades policiais para manter o funcionamento da casa, que nem sequer tinha licença para comercializar bebidas alcoólicas, além de outras irregularidades. Periodicamente, policiais passavam no bar para receber suas propinas, mas também aproveitavam para dar batidas de modo a humilhar, identificar, chantagear, prender e extorquir os frequentadores. A corrupção e a violência eram, assim, parte do cotidiano da experiência LGBT+ nos poucos lugares de sociabilidade existentes.
Mas algo começou a mudar no dia 28 de junho de 1969. Já era madrugada quando a polícia apareceu e começou a abordar, de forma agressiva, as mais de 200 pessoas que ali estavam curtindo a noite. Algum desajuste ocorrera no acordo entre polícia e máfia. Os agentes policiais começaram a revistar, já separando aqueles que seriam detidos e os que seriam soltos, como sempre faziam. Também começaram a apreender as bebidas alcoólicas. Mas os poucos policiais e viaturas não eram suficientes para a prisão de tanta gente. Foi preciso esperar a chegada de reforço e foi nesse contexto que eclodiu uma revolta espontânea e violenta por parte das pessoas LGBT+.
Diversas são as memórias e as diferenças nas narrativas de como se deu esse acontecimento histórico. Fala-se em quem deu o primeiro grito contra um policial, quem jogou a primeira pedra na viatura, quem liderou a rebelião. Apesar das diferenças, todos os relatos convergem, contudo, para a descrição de um motim que começa a se formar sem planejamento prévio, por meio de combinação de pequenas desobediências individuais tais como pessoas se negando a entregar documentos, não se deixando algemar e nem ficando em fila conforme o comando das autoridades. As LGBT+ que foram liberadas não foram embora, mas permaneceram na frente do bar acompanhando as discussões e tensões. A polícia tentou impor suas ordens e as pessoas resistiram e começaram a jogar latas, garrafas e pedras contra a polícia. Alguns dos oficiais ficaram protegidos dentro do bar. A população atirava também dinheiro aos gritos de “policiais corruptos”. O reforço demorou a chegar e a temperatura aumentou nas horas seguintes, com o envolvimento das pessoas que estavam na rua e que começaram a se dirigir para a frente do Stonewall, inflando a aglomeração de gente.
A humilhação, desta vez, fora imposta à polícia pelo “gay power” que emergira naquele episódio. A rebelião do primeiro dia só terminou com a dispersão no começo do amanhecer por uma tropa especial da segurança pública que foi chamada para resolver a insólita situação. Nos dias seguintes, a repercussão nos jornais e nos panfletos distribuídos pela comunidade vão provocando novas revoltas que seguirão desafiando a repressão estatal. Os conflitos tomavam as ruas de modo que não podiam mais ser escondidos. As pessoas LGBT+ expressavam seu orgulho e já não queriam mais voltar aos guetos e armários nas noites seguintes.
Essa breve descrição tenta dar conta do clima efusivo e esperançoso que marcou os levantes de Stonewall. Mas um olhar mais cuidadoso para a história revela que não foi essa a primeira vez que a população LGBT+ irrompeu na cena pública reivindicando direitos e combatendo a violência policial. Há registros de confrontos em bares na Costa Oeste dos Estados Unidos na década de 1960, destacando-se, por exemplo, a experiência da revolta da Compton’s Cafeteria em São Francisco, ainda em 1966.
Mesmo não sendo um acontecimento inédito ou exclusivo, algumas razões ajudam a compreender a singularidade que caracterizou Stonewall. Primeiro, Nova York já era uma das cidades mais cosmopolitas do mundo naquele momento. Ao funcionar como epicentro econômico do capitalismo norte-americano, ela também se tornou um lócus privilegiado de desigualdades sociais e um refúgio para milhares de pessoas LGBT+ que migravam em busca do anonimato da vida em uma grande cidade. A mistura de “desajustados” de diferentes raças e classes sociais presentes em Stonewall era um ponto de partida propício para uma revolta coletiva.
Segundo, as lutas por liberdade sexual e igualdade de gênero fermentadas durante as décadas de 1950 e 1960 sedimentaram as condições para a emergência de novas perspectivas sobre o corpo, o desejo e a sexualidade. Além disso, foi fundamental nesse processo de questionamento de valores tradicionais a contracultura hippie, as lutas pelos direitos civis de mulheres e negros, as mobilizações contra a Guerra do Vietnã e a geração beat.
Terceiro, a afirmação de uma identidade homossexual coletiva e igualitária, resumida na palavra “gay”, que não se hierarquizava mais tão centralmente pelos papéis de gênero, permitiu a criação de laços de solidariedade e a formação de uma subcultura mais adensada.
Quarto, os Estados Unidos contavam, em grande parte dos seus estados, com legislações discriminatórias e de criminalização das homossexualidades, tendo havido uma campanha de perseguição contra a população LGBT+ durante o macarthismo, que ficaria conhecida como Lavender Scare, na qual quase cinco mil homossexuais teriam sido cassados dos cargos públicos civis e militares entre 1947 e 1950. Isso despertou resistências importantes na aglutinação dessa identidade gay em busca de mudanças legais e maior aceitação.
Além dessas condições, Stonewall deixou legados notáveis. Apesar de não inaugurar o ativismo LGBT+ nos Estados Unidos, as revoltas marcam um ponto de inflexão, mudando o estilo de militância. Acusava-se a Mattachine Society, organização homófila fundada em 1950, de ser bem-comportada e assimilacionista, por pregar para uma postura mais tradicional e descolada de outras agendas. Stonewall inauguraria, ao menos na visão de seus protagonistas, uma militância mais combativa e orgulhosa. Não bastava lutar pela tolerância, era preciso mudar as estruturas da própria sociedade que estigmatizava as pessoas LGBT+.
Antes de Stonewall, diante da injúria e da vergonha na sociedade patriarcal e heteronormativa, a saída era construir uma imagem socialmente respeitável de homossexual, batalhando por uma integração à normalidade para conseguir acessar as migalhas de alguns direitos. Depois dessa revolta histórica, o melhor jeito de lidar com o preconceito era o embate, a denúncia e a não conformidade. Desse modo, houve um deslocamento no estilo de ativismo, com o orgulho funcionando como vetor ideológico principal de um modo eroticamente subversivo de ser.
Tanto que, depois de Stonewall e graças a ele, serão fundados grupos que pela primeira vez estamparão orgulhosamente a expressão “gay” nos seus nomes: o Frente de Libertação Gay, que remete às frentes de libertação anticoloniais, e o Aliança de Ativistas Gays. Além disso, nas maiores cidades americanas –  depois exportadas para todo o mundo – começarão a ser realizadas, já em 1970 e anualmente, as Paradas do Orgulho LGBT+ e que expressam, justamente, o espírito de Stonewall: ocupar as ruas e romper com a invisibilidade imposta pelo gueto e pela violência.
No entanto, deve-se frisar que Stonewall tornou-se o “mito fundador” do movimento LGBT+ global também pelo imperialismo cultural norte-americano. James N. Green, em seu artigo, aponta como havia experiências de organização de pessoas LGBT+ em estilo muito semelhante àquele produzido por Stonewall já em 1967 na Argentina e, poucos anos depois, também no México. Enquanto países latino-americanos estavam construindo seus próprios referenciais de “stonewalls”, o Brasil vivia o período mais agudo da repressão ditatorial a partir de 1968, atrasando a emergência do movimento LGBT+ entre nós.
Por sua vez, Symmy Larrat chama atenção para os apagamentos e invisibilizações de outras letras da sigla LGBT+ nas disputas de memória em torno de Stonewall, lembrando como travestis foram fundamentais naquele acontecimento histórico, entre eles Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. Symmy também nos lembra como a continuidade da violência policial ainda é uma constante na vida de LGBT+ pobres nas áreas periféricas das cidades brasileiras, mesmo passados 50 anos desde o marco de Stonewall.
Desse modo, mais do que comemorar, o objetivo deste especial é trazer uma leitura crítica e contextualizada de Stonewall, feita desde a realidade brasileira e considerando as dificuldades presentes na atual conjuntura, marcada pelo crescimento da LGBTfobia em ato e em discurso. Conhecer a história de lutas da comunidade LGBT+ é não somente um modo de aprendizado para pensarmos táticas e estratégias, mas também uma maneira de nos inspirar para estar à altura dos desafios do presente.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

A crítica de Guimarães Rosa

  Sílvio Holanda

A crítica de Guimarães Rosa
Benedito Nunes em seu escritório-biblioteca “abarrotado de livros” (Fotos: Patrick Pardini)

Apoiado em um sentido humanístico de ampla formação acadêmica, aberto e de contornos fluidos, o ensaísmo de Benedito Nunes contribuiu para a elucidação crítica de nomes importantes da cultura brasileira, como Farias Brito, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Oswald de Andrade etc. Em relação a Guimarães Rosa, o professor paraense também trouxe uma interpretação original, cujos contornos se desenham entre a dimensão imagético-poética e o nível conceitual das especulações filosóficas, planos esses articulados por uma constante interpelação da própria linguagem, à luz de pensadores como Heidegger e Sartre.
A produção bibliográfica nunesiana conta com aproximadamente vinte e seis artigos e cinco capítulos de livros. Os textos publicados em jornais e revistas datam do período que vai de 1957 a 2007, perfazendo cinco décadas de uma produção ensaística relevante para os estudos rosianos no Brasil e no exterior. Publicados em revistas brasileiras e estrangeiras ou nos mais importantes suplementos literários nacionais, tais textos abordam, sob diversas perspectivas, temas como a tradução, o menino, o amor, a viagem etc., com base no estudo interpretativo de diversas obras rosianas, como Sagarana, Grande sertão: veredas, Corpo de baile, Tutaméia, entre outras.  
Sintetizar tais textos, cuja dimensão material supera, em muito, o artigo dos nossos dias, levando em consideração sua base teórico-crítica, é uma tarefa que aqui não é possível, contudo salientemos suas linhas de força, centradas em temas fundamentais como a concepção erótica da vida e as relações entre poesia e filosofia. No ensaio “O amor na obra de Guimarães Rosa” (1964), republicado em O dorso do tigre, considerando as obras Grande sertão: veredas, Corpo de baile e Primeiras estórias, o crítico postularia a tese da centralidade do amor, no que diz respeito à cosmovisão rosiana: “O tema do amor ocupa, na obra essencialmente poética de Guimarães Rosa, uma posição privilegiada. Em Grande sertão: veredas, onde aparece entrelaçado com o problema da existência do Demônio e da natureza do Mal, atinge extrema complexidade e envolve diversos aspectos que compõem toda uma ideia erótica da vida”.
As três espécies de amor existentes na obra rosiana poderiam ser representadas por Otacília (o enlevo), Diadorim (a dúbia paixão pelo amigo) e Nhorinhá (a volúpia). Embora os tipos de amor sejam qualitativamente diversos, ocorre uma interpenetração entre eles. Sem recorrer à interpretação alegorizante dos trabalhos de Heloisa Araujo, o professor paraense buscará mostrar que a temati­zação do amor, na obra rosiana, remonta ao platonismo, porém numa perspectiva mística heterodoxa, “que se harmoniza com a tradição hermética e alquímica, fonte de toda uma rica simbologia amorosa, que expri­me, em linguagem mítico-poética, situada no extremo limite do profano com o sagrado, a conversão do amor humano em amor divino, do erótico em místico”.
A visão erótica da vida, em Guimarães Rosa, assim, segundo Benedito Nunes, permitiria a aproximação entre o profano e o sagrado. Assim, de Nhorinhá a Otacília, há uma como uma ascensão, partindo da explosão erótica de Nhorinhá à imagem angelical de Otacília, objeto ideal, à semelhança do mundo inteligível de Platão. Dessa forma, o platonismo está subjacente a essa ideia de amor, uma vez que se pode falar numa espécie de conversão do carnal em espiritual.
Grande parte dos trabalhos lançados inicialmente em periódicos foi republicada em livros organizados pelo autor ou por outrem: O dorso do tigre (1969 e 1976), Teoria da Literatura em suas fontes (2. ed., 1983), Seminário de ficção mineira II (1983), O livro do seminário (1983), Guimarães Rosa (1991), Crivo de papel (1998), Veredas no sertão rosiano (2007). Como se trata de livros muito conhecidos e debatidos pela crítica especializada, propõe-se uma breve referência ao primeiro texto rosiano escrito por professor Benedito Nunes em 1957: “Primeira notícia sobre Grande sertão: veredas”, estampado no Jornal do Brasil de 10 de fevereiro de 1957.
O artigo de 1957, lido em confronto com a tradição crítica que se formou em torno de Guimarães Rosa na última década, põe em foco o vínculo entre Guimarães Rosa e Mário de Andrade. Além disso, discutem-se a linguagem, o processo narrativo, o problema do gênero, entre outros aspectos.
O texto rosiano apresenta-nos em uma “nar­ração inteiriça” e oscila, abandonando-se a língua culta, entre dialeto regio­nal e criação arbitrária. A inovação introduzida pelo autor mineiro se justifica esteticamente pela “necessidade irrecorrível, exigida pela natureza do próprio romance, cuja tra­ma, situações e personagens demandavam forma especial de tratamento”.
No que diz respeito à técnica narrativa, Benedito Nunes apoia-se no conceito de discurso livre para explicar a autonomia do narrador em relação ao romancista. “Ele não é, entretanto, o narrador controlado pelo romancista que, em geral, quando adota este recurso de fa­zer com que o personagem exponha os acontecimentos ou as próprias ideias, não desaparece atrás de sua criação e com ela não se confunde. Mas, nesse romance, o autor quis se enredar num problema dificílimo de técnica. Como permitir que Riobaldo falasse, num discurso livre, ele mesmo contando a sua história, sem desfigurar-se a condição humana do sertanejo, inculto, mas extremamente sensível, ligado ao mundo pelo constante pelejar, com um código moral diferente do nosso, sem dúvida e, ainda, com seu linguajar próprio, limitado, regio­nal?”.
A relação entre Mário de Andrade e Guimarães Rosa – depois retomada por Mary Daniel e outros intérpretes – é um dos eixos do artigo de 1957. O linguajar do sertão se transforma em linguagem artística, em estilo, resolvendo o problema do regionalismo, debatido desde a recepção crítica primeira de Sagarana. “Sob esse aspecto, o processo de Guimarães Rosa não é novo. Mário de Andrade em Macunaíma fez, guardadas as proporções, o mesmo, for­jando uma língua que reuniu várias moda­lidades linguísticas existentes no país; en­trosou os termos de origem indígena aos de origem africana, alterou a sintaxe, deu vi­gor literário às expressões familiares e de gíria”.
Assim, relacionando, de modo original, a linguagem ao tema, às situações e aos personagens, fazendo daquela “instrumento psicológico”, cuja intensidade garante a unidade da obra e o seu “poder expressivo que confina com a poesia”.
Não se limitando a uma gesta do sertão, Grande sertão: veredas ultrapassa o âmbito regional, pois, no drama do sertanejo ou do jagunço, “irrompem os grandes problemas humanos – seja a luta do homem contra natureza que o estimula e o abate ao mesmo tempo, seja o ímpeto do jagunço que se põe em armas para defender uma causa indefinível, adota a lei da guerra menos pela rudeza de seu espírito do que pela necessidade de viver e de realizar o seu destino”.
Antecipando tanto leituras sociológicas quanto esotéricas da obra-prima rosiana, Benedito Nunes postula uma interpretação “espiritual” da terra e do povo que nela vive. Os fatores mesológicos, sociais e históricos, na mesma linha do conceito de reversibilidade de Antonio Candido, tomam a forma de um problema mais amplo (o Diabo existe ou não? O que leva o homem à crueldade e à violência?). Ademais, o crítico refere à presença, no texto, de “expressões acordes com a tradição do misticismo – tanto no oriente como no ocidente”. Entre essas, cite-se: “Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas e as coisas não são de verdade”.
Em consonância com a crítica estilística então vigente, o estudioso aponta a saturação de elementos pitorescos na linguagem de Grande sertão: veredas, a fim de defender um estilo afim do poético, dada a sua peculiar configuração rítmica, algo que Oswaldino Marques já fizera para a obra até então publicada por Guimarães Rosa: “Mas quase sempre o estilo é extremamente poético. A prosa tem ritmo: é célere ou lenta conforme a situação exige. […] Mas raras são as mudanças do léxico e da sintaxe que não correspondam a uma contorsão necessária, para dilatar o poder expressivo da linguagem. […] Mas devido mesmo à comunicação emotiva que se estabe­lece, participamos de seus problemas, de suas lutas, alegrias e aflições”.
Ao lado das deficiências, entre elas o abuso de desarticulações sintáticas, contrações e elipses, o crítico salienta, no “livro tumultuoso e imenso”, episódios hoje consagrados pela crítica brasileira e estrangeira: o amor de Riobaldo por Diadorim, a morte dos cavalos assassinados pelos cangaceiros, o encontro da tropa de jagunços com os catrumanos, as lembranças tumultuosas de Riobaldo, os últimos combates entre os dois bandos que dividiam o domínio dos “gerais” e a descoberta de que Dia­dorim é mulher.
Como se viu, o artigo de 1957, lançado nas páginas do Jornal do Brasil, onde já atuava Mário Faustino, embora datado e ligado a circunstâncias diversas, insere-se na tradição crítica rosiana, tanto pelas vias que abriu, como a aproximação com Mário de Andrade, quanto pela retomada de perspectivas já em consolidação, como a via da crítica estilística de um Oswaldino Marques e de um Cavalcanti Proença. A esse primeiro trabalho, viria somar-se um conjunto de textos que, malgrado a modéstia do crítico paraense, mudaram, definitivamente, a leitura crítica do maior romancista brasileiro do século 20.

Sílvio Holanda é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professor associado do Instituto de Letras e Comunicação da UFPa

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Publisher: Democracy in vertigo

 
 
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I just watched the documentary by Petra Costa, Democracy in Vertigo, recently released by Netflix. There are already four documentaries produced addressing the 2016 coup in Brazil: The Process (Maria Augusta Ramos), Excellencies (Douglas Duarte), The Wall (Lula Buarque) and Democracy in Vertigo (Petra Costa). I have not had the opportunity to watch the others yet. Petra's documentary has received a lot of praise and even a possible nomination for an Oscar for the documentaries category. I analyze the documentary by Petra Costa as a political scientist, refraining from making other considerations, certainly more pertinent to the people of the cinematographic field, which is not our beach.


Our lens is the lens of Political Science. In this aspect, the documentary does not bring great news, except for the blatant scenes of savagery produced by the intensification of the political moods of those dark days, with reflections to this day. A sharpening, indeed, intensely stimulated, when it should be restrained, in the name of a civilized coexistence. We refer here to the chain of successive events that culminated in the coup of 2016, identifying the political actors who participated in these tessituras, such as the international financial banking, consorted with sectors of the political and economic elite, aligned with segments of the media and the judiciary. As Petra Costa notes, we are a republic of families. One day they get tired and take power. This "tiredness" or indisposition of our elite with the rules of the democratic game, Petra Costa, is in fact a constant. The country lives of authoritarian upheavals, with few moments of tranquility and democratic normalcy. It is a democracy bound to be unbound.


I recorded here an interview granted by an American jurist who, well before the recent leak of the audios of The Intercept Brazil, already pointed out the clamorous flaws in the process that condemned the former president Lula to the prison. The failures in the conduct of the process that has condemned Lula, as his defense has pointed out, are blatant since then. What the website brings again is the fabric of the frame of this plot, consubstantiating what impartial lawyers had already denounced. Incidentally, at the end of the speech, the jurist concludes that the greatest guarantee of a fair trial for a defendant is an impartial judge. In a country with a minimum of democratic normality and legal order, the evil would have been avoided since the illegal staples and the subsequent leakage of them, an affront to the Constitution.


A renowned jurist from Pernambuco, after watching the documentary, was impressed by the suffering of President Dilma Rousseff. In fact, yes. She cries a lot when she remembers the fear of the torture sessions she was subjected to, the cancer that she has overcome, and the death of our democracy. After the presidential elections, with Dilma Rousseff's victory, her executioners had already decided that she would not rule. Leaks from The Intercept Brazil site - the material is said to be robust - help us understand the coup sewing, the interests at stake, and its main architects. As the journalist Luis Nasiff observed, the republic fell along with the plane that drove former Federal Supreme Court Justice Teori Zavascki, who was determined to prevent excesses.