pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

O pulo de Anna Kariênina

Juliana Cunha

O pulo de Anna Kariênina
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“Anna Kariênina” coloca uma importante contribuição ao debate contemporâneo sobre gênero ao acertar um ponto nevrálgico (Foto: Reprodução)

 

 

Em A morte de Ivan Ilitch, Tolstói cria um protagonista que se regozija em ser agradável com gente que ele sabe muito bem que poderia esmagar. Juiz de instrução, um de seus grandes prazeres é receber uma pessoa em seu escritório e atendê-la com extrema cortesia, ciente, no entanto, de que essa polidez é inteiramente opcional. Se tivesse vontade, poderia usar sua posição para humilhar o requerente.

Publicada em 1886, a novela repete uma ideia latente em Anna Kariênina: a de que a falta de horizontalidade entre as pessoas torna a condescendência dos de cima um mero espetáculo de decência — um outro jeito de fruir a hierarquia. Assim como Ivan Ilitch tira seu gozo de uma humilhação que não cometeu, Anna se ressente de uma humilhação ainda não sofrida, e sofre por um amor que ainda não perdeu.

Após abandonar o marido pelo amante, a heroína de Tolstói é tomada por um senso de humilhação oriundo do fato de que o amante pode tudo em relação a ela. Para Anna, a consciência desse poder é degradante em si mesma, ainda que ele opte por não exercê-lo. Essa é uma ideia que lhe ocorre no momento exato em que se entrega ao adultério pela primeira vez, quando lhe diz: “Está tudo acabado. Não tenho nada além de você”. Escritos com uma década de intervalo, Anna Kariênina e Ivan Ilitch se encontram em lados opostos da mesa, mas chegam à mesma conclusão: a de que a consciência do poder seria mais do que o suficiente, relegando sua prática ao segundo plano.

A boa notícia que nos traz de volta a Tolstói é a nova edição de Anna Kariênina, traduzida do russo por Irineu Franco Perpétuo e publicada pela Editora 34. O livro vem acompanhado de um posfácio do tradutor e de uma resenha de Thomas Mann inédita em português. Antes do trabalho de Perpétuo, a obra já havia sido traduzida do russo por Rubens Figueiredo, que assina a versão publicada pela Cosac & Naify em 2013 (no catálogo da Companhia das Letras desde 2017). Se até a década de 1990 esses livros geralmente chegavam ao Brasil em retraduções do francês, agora temos o luxo de cotejar diferentes versões diretas.

Concluída em 1877, quando o autor tinha 49 anos, Anna Kariênina é a segunda grande obra de Tolstói e dá seguimento ao projeto iniciado por Guerra e Paz. Ambientado na rebarba das reformas liberais implementadas pelo imperador Alexandre II, o enredo se passa meio século após os acontecimentos de Guerra e Paz. Enquanto seu predecessor narra a Invasão Francesa da Rússia e o impacto da Era Napoleônica sobre a sociedade czarista, Anna Kariênina retrata a perda de importância da aristocracia diante de mudanças que, na visão do autor, descaracterizam a cultura nacional em nome de um progresso vazio e importado. Se Guerra e Paz mostra uma Rússia que, aos trancos e barrancos, reconquista seu território e sela seu destino enquanto nação, em Anna Kariênina o prognóstico parece cinzento.

O enredo é centrado em uma personagem magnética, que atrai não só o leitor como a todos os personagens. Casada com um burocrata do alto escalão do império czarista e mãe de um menino de oito anos, Anna é uma das mulheres mais respeitadas da sociedade de São Petersburgo. Isso até se apaixonar pelo genérico conde Vrónski. O que poderia ser uma discreta pulada de cerca — coisa que na aristocracia francesa e mesmo na tradicional sociedade russa não seria necessariamente o fim do mundo — se transforma no desejo de ter uma vida completamente nova: algo que não constava no rol de opções da personagem.

Embora existisse divórcio na Rússia Imperial, na prática sua obtenção dependia do favor do marido, e colocava a mulher divorciada em um patamar social inferior, ainda que aceito em círculos menos exigentes. Anna, no entanto, jamais chega a se divorciar: ela simplesmente abandona o marido em nome do amante, colocando-se em uma posição de persona non grata mesmo aos olhos dos membros mais liberais e menos ilibados da aristocracia russa. Excluída da convivência com outras mulheres de sua classe, a protagonista tenta se recriar como escritora, dama de salão aos moldes de uma Madame de Staël, professora dos filhos dos criados e benfeitora da educação feminina. Essas ambições são cortadas no caule pelo amante, que acaba mostrando que tinha expectativas bem diferentes para a vida a dois. Há ciúmes, orgulho, conversas desencontradas e paranoia de ópio. O baque da perda do filho e da reputação é duro, mas não o bastante para esmagá-la. Anna é derrotada pela ideia de que o mínimo de dignidade que conseguiu forjar em sua posição dependia de sentimentos tão fugidios e abstratos quanto o amor de um homem e seu respeito por ela. A ruptura do casamento acaba tornando-a dependente do amante em todos os aspectos: social, financeiro, emocional. É assim que a mulher mais bonita e inteligente de seu tempo abre mão da relativa salvaguarda oferecida pela maternidade e pelo casamento para tentar a sorte em veredas que pouco a pouco se revelam impossíveis.

Artista que viria a escrever contra a arte, veterano de guerra pacifista, pai de 13 filhos apavorado com o sexo, homem de fé excomungado pela igreja, poliglota viajado e xenófobo, Tolstói nasceu e viveu no mesmo pedaço de chão, nunca passou um perrengue financeiro considerável e teve que inventar suas próprias crises. Era um sujeito que sentia culpa por escrever bem e por claramente gostar do que fazia, e achava que a diversão só se justificava se pudesse educar seus leitores sentimental e socialmente. “Nosso ofício é horrível. Escrever corrompe a alma”, dizia esse pobre gênio abastado.

Em sua obra, a rachadura entre intenção e gesto que aparece em tantos autores está mais para um dano estrutural. Ele não faz o que anuncia, não faz o que queria fazer. No projeto do escritor, Anna Kariênina seria uma advertência ao adultério, uma versão russa e moralizante de Madame Bovary, publicado duas décadas antes. O resultado, no entanto, é bem mais dúbio. O verdadeiro “trair ou não trair” não é o de Capitu contra Bentinho, mas o de Tolstói contra a sua Kariênina.

Essa distância entre a intenção autoral e a ambiguidade incontornável de sua ficção é exposta pelo clássico ensaio no qual o filósofo Isaiah Berlin divide escritores e pensadores ocidentais entre “ouriços” e “raposas”, chegando à conclusão de que Tolstói seria o único a escapar a essa definição por ser contraditório demais — uma espécie de raposa que quer ser ouriço. Nesse ensaio, Berlin retoma o aforismo do poeta grego Arquíloco: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante”. Para ele, ouriços seriam os escritores cuja obra possui uma ideia central da qual tudo deriva, que oferecem uma grande chave explicativa supostamente capaz de abrir todas as portas. Já o pensamento da raposa seria movido por interesses e ideias múltiplas, bem mais desagregador e interessante, porém bem menos eficaz que o do ouriço quando o objetivo é mudar o mundo. O drama de Tolstói seria tentar encaixar sua natureza de raposa em ambições que só caberiam a um ouriço.

Essa não foi a primeira vez que Tolstói tentou produzir seu próprio Madame Bovary. Antes de Anna, houve Mária, narradora-protagonista de A felicidade conjugal. Publicado em 1859, no calor da recepção de Flaubert, o livro narra a história de uma órfã que se apaixona pelo único homem de sua classe social com quem teve contato. O alvo do amor de Mária é Sierguiéi Mikháilitch: um homem de 36 anos que acaba sendo uma espécie de rascunho do Lióvin, de Anna Kariênina. É um bom aristocrata do campo. Reto, simples, trabalhador, simpático aos mujiques e refratário a bailes e salões: exatamente como o autor achava que a elite russa deveria ser. Amigo do pai de Mária, ele assume os negócios da família em benefício da órfã, motivo pelo qual faz visitas periódicas à sua casa isolada. Aos 17 anos, a menina se apaixona e Sierguiéi diz o óbvio: “muito nova. Em seis meses, vai cansar de mim”. Mária insiste e os dois se casam. Há um período idílico — a felicidade conjugal —, logo interrompido por uma viagem do casal a Moscou, onde ela conhece seu primeiro baile, recebe a primeira corte de um príncipe e é tragada, durante dois anos, por uma vida perdulária de jantares e salões.

Essa primeira Bovary de Tolstói não dá um só beijo na boca. Uma noite, escuta dois homens da sociedade comparando-a de um jeito vulgar à mais nova beldade e volta para casa horrorizada. Sierguiéi, no entanto, é incontornável: aceita a mulher de volta somente para uma relação de cortesia e cuidado com os filhos. Felicidade conjugal, nunca mais. Tolstói rapidamente renegou esse livro. Talvez o problema essencial é que seja fácil demais perdoar uma narradora visivelmente arrependida de seus erros de adolescência. Embora tenha momentos interessantes de indignação, Mária se considera inteiramente responsável pela perda do amor do marido, e a frustração final do leitor é com a limitação da possibilidade de perdão. É com o marido.

Em Anna Kariênina, os entraves à mensagem são removidos. Anna não tem 17 anos, tem quase trinta. Não é ingênua, mas escolada na vida social. Casou-se muito cedo, mas não com o primeiro que apareceu. Seu marido, Karenin, é muito mais flexível do que Sierguiéi: perdoa, concede, na prática até autoriza uma discreta pulada de cerca. Por um breve momento, oferece mesmo o divórcio. Mas Anna não quer um caso, um adultério elegante, um puxadinho, um gesto de condescendência. “De que ela é culpada? Ela quer viver”, diz o narrador.

Antes de tomar sua decisão final, Tolstói pensou em intitular a história de “Dois casamentos”. O contraste mais evidente é entre o imbróglio trágico dos Karenins e o idílio matrimonial de Lióvin e Kitty, casal declaradamente baseado em Tolstói e sua esposa, Sofia. O romance, no entanto, já começa com uma outra comparação: aquela estabelecida entre Anna e seu irmão, o adorável e egocêntrico Stepan Arcadievitch. O primeiro deslize da personagem é cometido justamente em nome desse irmão: quando ela deixa o filho sozinho em São Petersburgo pela primeira vez e vai à luxuriosa Moscou para interceder em favor de Stiva, cuja mais recente pulada de cerca acaba de ser descoberta. Preguiçoso, gastão, endividado e egoísta até não poder mais, Stiva impõe à mulher a humilhação da traição sistemática e mal disfarçada, da falta de dinheiro e, por fim, do exílio dependente na casa do cunhado. Faz tudo isso não apenas sem consequências, como sem ouvir sequer uma reprovação. Enquanto a protagonista se casa sem amor com um homem vinte anos mais velho, sua cunhada tem uma união por amor com um homem da sua idade, e termina sendo tratada como uma mala velha aos 34 anos e seis filhos. A função narrativa de Dolly e Stiva é demonstrar a desigualdade entre os gêneros no matrimônio e evitar a impressão de que bastaria uma esposa honrada para garantir a felicidade conjugal.

Mas Anna não é uma vítima indefesa. Ao contrário de Emma Bovary, ela possui uma margem de ação relativamente ampla. É uma aristocrata da mais alta classe, não uma burguesa interiorana que endividou a família para dar um chicote de presente ao amante. Emma é a leitora típica das camadas médias que se deixa enganar por enredos sentimentais. Anna é a melhor das leitoras, inclusive escreve livros infantis. Perto de sua morte, o plano era publicar um livro. Emma nunca foi verdadeiramente amada e seus homens estavam longe de almejar grandes gestos: ninguém quer fugir com ela, ninguém lhe dá uma opção. Já Vrónski e Karenin têm seus limites, mas não chegam a ser rebaixados.

O romance salienta reiteradas vezes a influência do meio e a corruptibilidade do melhor dos seres humanos. Anna começa a história como uma das mulheres mais íntegras da sociedade de São Petersburgo: basta um baile, um descuido, para isso começar a ruir. A ideia do baile, da vida citadina, do ócio, do cosmopolitismo e da extravagância como portas de entrada para drogas mais pesadas é uma constante no século 19. Em Tolstói, esses elementos criam o ambiente para que o sujeito se entregue aos maus instintos e cale a voz da consciência. Para o autor, o ser humano não nasce mau, mas precisa de uma estrutura que o ajude a manter sob controle certas inclinações. Essa estrutura seria oferecida pela religião, pela família, pelo trabalho, pela tradição e, sobretudo, pela cultura. É por isso que, ao ser acusado de gostar dos camponeses, Lióvin explica que camponeses há muitos e de todos os tipos. Em seu entendimento, os mujiques não seriam melhores do que os aristocratas como indivíduos: a questão é que, enquanto grupo, sua cultura seria mais saudável.

O primeiro contato entre Anna e Vrónski é seguido justamente da morte de um mujique: um vigia da estação que, sem perceber o recuo do trem, foi atropelado. Na interpretação do crítico Richard Gustafson, o atropelamento do vigia antecipa o dilaceramento da consciência do futuro casal, que cala seu grilo falante interno para ceder à paixão. Embora isso pareça se aplicar a Anna, a verdade é que Vrónski nem tinha uma consciência moral para calar. Os únicos freios às suas vontades individuais parecem ser os valores aristocráticos clássicos, como a coragem e a generosidade, além de um conjunto nebuloso de idiossincrasias. A ideia de uma moral verdadeira só parece iluminar os pensamentos do amante na passagem da doença de Anna, quando ele percebe sua baixeza em contraste com a grandeza do marido humilhado e da esposa momentaneamente arrependida. Diante desse choque em sua autoimagem, a reação de Vrónski é recorrer ao clichê da tentativa de suicídio: um gesto bastante diferente do de Anna não só pelo fracasso da empreitada como pela motivação antiquada e sentimental. Esse antagonismo entre os dois surge até no método de suicídio: ele com uma arma, símbolo da nobreza guerreira, ela nos trilhos do trem, atravancando um símbolo do progresso nacional. Enquanto o tiro de Vrónski é um retorno ao passado, o pulo de Anna é um reconhecimento da impossibilidade de futuro.

O problema de Anna Kariênina não é um homem, é a Rússia. Na obra-prima de Tolstói, sua heroína testa caminhos que já poderiam ser viáveis para mulheres de outros contextos e percebe que, no caso dela, as rotas continuam fechadas. Contemporâneo ao debate da educação e da emancipação feminina na Rússia, Tolstói tem opiniões singulares e contraditórias sobre o tema, sendo impossível classificá-lo como “progressista” ou “reacionário”. Já o livro parece fazer um aceno dúbio, porém empático à causa feminina. O romance é entrecortado por conversas — sempre interrompidas — acerca da educação feminina, do direito de ocupar cargos públicos e da desigualdade entre os gêneros dentro do casamento. A mais eloquente delas ocorre em um jantar na casa do irmão da protagonista, quando um personagem secundário chamado Piestsov faz uma defesa apaixonada da equidade de gênero, para a galhofa geral da mesa. Os outros convidados tratam a matéria como mais um assunto para ter após o jantar e imediatamente trocar de conversa caso alguém pareça desconfortável. No fim, o tema é encerrado sob piadas de que uma mulher em busca do fardo de um cargo público seria uma coisa tão absurda quanto um homem reclamando o direito de ser ama de leite.

Essas discussões correm em paralelo à ação errática da protagonista, que busca inutilmente novos papéis para si. Anna parece abrir frentes em basicamente todas as ocupações nas quais uma mulher poderia ter chances: como escritora, ao tentar publicar um livro infantil; como professora, ao educar os filhos dos criados; como filantropa, ao acolher a filha de um criado alcoólatra e educá-la; como dama de salão, ao organizar uma sociabilidade em torno de sua casa. Com insistência pouco sistemática, a personagem vai forçando os limites sociais com o único objetivo de não andar para trás. Ousada, sua estratégia jamais permite recuos. A cada porta fechada, Anna dobra a aposta.

Em um país onde as mulheres não tinham existência jurídica fora do matrimônio e nem sequer possuíam documentos como um passaporte, é redundante dizer que elas eram dependentes. Mas isso não significa que não haja graus de dependência, e que Anna Kariênina não tenha se colocado no pior de todos. Dentro do casamento, a mulher contava com laços de obrigação familiar, social, religiosa e marital que a ligavam ao marido. O marido podia muito, mas não podia tudo. Já como amante, o único laço existente era o do amor. A mulher era destituída de suas posses e de suas proteções sociais mínimas. No casamento, o marido que não ama é instado a cumprir um protocolo mínimo em relação à mulher, e a posição de não ser amada não é necessariamente uma falta. Já uma amante que deixou de ser amada é simplesmente descartada ou — o que parece ainda pior na perspectiva de Anna —, mantida por mera condescendência do ex-amante.

Após uma saga heroica e infrutífera, Anna Kariênina é esmagada pela consciência dessa dependência. Ao imaginar que Vrónski estaria interessado em outras mulheres, a personagem começa a pensar reiteradamente na humilhação material de sua condição. Esses pensamentos se aceleram após uma briga do casal e antecedem sua decisão pelo suicídio. “Não conseguia entender como pudera se rebaixar ao ponto de passar mais um dia inteiro com ele, na casa dele”, pensa Anna em meio à crise final. “Esses cavalos, essa caleche — como tenho nojo de mim mesma nessa caleche —, é tudo dele”, reflete em agonia. Antevendo o desespero de ser uma amante não amada, ela projeta em Vrónski frases que ele nem sequer disse, mas que “obviamente desejava dizer, e podia dizer”. Eram palavras como “não vou retê-la (…), pode ir para onde quiser. (…) Se precisar de dinheiro, eu dou. De quantos rublos precisa?”. “As palavras mais cruéis que um homem rude poderia dizer ele lhe dissera em sua imaginação, e ela não o perdoava, como se ele de fato as tivesse dito”, afirma o narrador. O problema objetivo parece ser o poder, e não o fazer. Uma pessoa que pode ser humilhada em larga medida já está sendo humilhada.

A bordo da carruagem que a levaria à estação de trem do seu suicídio, a personagem se pergunta para que tanto desespero, se por acaso não poderia viver sem o amante. Sem responder a si mesma como o faria, ela começa a ler placas de escritórios de profissionais liberais. “‘Eu suplico o seu perdão. Eu me submeti a ele. Reconheci que a culpa é minha. Para quê? Por acaso não posso viver sem ele?’ E, sem responder à pergunta sobre como viveria sem Vrónski, Anna pôs-se a ler os letreiros. ‘Escritório e armazém. Dentista. Sim, vou contar tudo a Dolly. Ela não gosta de Vrónski. Será vergonhoso, doloroso, mas contarei tudo. Ela gosta de mim e vou seguir os seus conselhos. Não vou submeter-me a ele; não permitirei que ele me dê lições’”, pensa a heroína.

Em outros países, em outras classes sociais, o trabalho seria uma opção digna para Anna. Foi nesse trabalho que mademoiselle Varienka forjou uma posição aceitável para si. Foi esse trabalho fora da família que a própria Kitty chegou a considerar antes do noivado com Lióvin. Sem essas opções, Anna busca o que podia chegar mais perto de uma atividade profissional: a escrita. Além das guerras, das contingências e da pobreza, as atividades que incorporariam valores e habilidades do cuidado e da maternidade seriam a grande porta de entrada feminina para o mundo do trabalho. Professora, benfeitora, escritora de livros infantis. Os planos da personagem vão justamente por esse caminho.

Em A ascensão do romance, Ian Watt revela que, na Inglaterra, as mulheres não apenas consistiam no grosso do público leitor como também escreveram a maior parte dos romances publicados ao longo do século 18. Embora as obras de maior sucesso tenham sido assinadas por homens, o time de escritores que abastecia a insaciabilidade do leitorado da época era majoritariamente feminino. Parte dessas mulheres escrevia por prazer, mas basicamente todas escreviam também por dinheiro. Ainda que não fosse um bico viável para um número substancial de mulheres, escrever era uma forma de costurar para fora, abrindo uma brecha de independência para uma nata de privilegiadas das quais Jane Austen seria o exemplo mais consagrado.

O truque só poderia ser replicado em países com um bom volume de leitores, o que claramente não era o caso de uma Rússia analfabeta. Talvez a ambição literária de Anna fosse um mero capricho, mas quando computamos as conversas sobre educação e emancipação feminina, o detalhe do livro infantil e a humilhação em torno da dependência, é menos absurdo pensar que a personagem estivesse buscando uma alternativa a essa posição, ainda que nenhuma delas parecesse possível em seu país, em sua classe.

Existe uma tensão intrínseca à leitura de obras distantes de nós no tempo e no espaço: a tensão de que é preciso evitar anacronismos grosseiros e respeitar o texto o suficiente para que ele continue sendo ele mesmo, não uma mera projeção da sensibilidade do leitor com um fundo de época. Ao mesmo tempo, é preciso abrir uma brecha que permita que a leitura renove o texto: que ele continue relevante, continue gerando novos significados, que seja apropriado pelos novos leitores. Especialmente no caso do romance, é preciso não transformá-lo em um mero documento, nem transformar a leitura em uma observação imparcial de hábitos e costumes exóticos. Ler romances implica um envolvimento que não permite um respeito exagerado, porque colocar-se no lugar do outro exige certa intromissão.

Seria doido classificar Anna Kariênina como um romance feminista — como uma defesa do ingresso da mulher aristocrata russa no mercado de trabalho em pleno 1877, quando nem as francesas de classe média trabalhavam e nenhuma europeia tinha direito ao voto. Mas se tomarmos como base a definição de “clássico” defendida por Italo Calvino — a de que clássicos são aqueles livros que ainda não terminaram o que tinham para dizer — a obra-prima de Tolstói é uma importante contribuição ao debate contemporâneo sobre gênero ao acertar um ponto nevrálgico: o de como a mera consciência do poder altera e distorce as relações humanas, criando indulgências e torturas psicológicas.

A educação feminina está na própria matriz dos conflitos entre Anna e Vrónski. Há ciúmes, medo do descarte, humilhação e ressentimento pela perda do filho e do nome, mas antes de tudo, há o desdém de Vrónski em uma conversa casual sobre os liceus femininos. “Ficou muito tempo sem conseguir crer que a desavença tivesse começado com uma conversa tão inofensiva e distante do coração de ambos. E, de fato, tinha sido assim. Tudo se iniciara porque ele se rira dos colégios femininos, considerando-os desnecessários, enquanto ela os defendera. Ele se referira desrespeitosamente à educação feminina em geral, dizendo que Hannah, a inglesa protegida de Anna, não tinha necessidade nenhuma de saber física. Isso irritou Anna. Ela via ali uma alusão de desprezo à sua ocupação”, diz o narrador.

Se em outras passagens o amante parecia orgulhoso dos conhecimentos de Anna sobre arquitetura, ciências e sobre todos os assuntos do dia, no fim fica claro que, no seu entendimento, esses conhecimentos deveriam se limitar ao entretenimento das visitas. Desde que a gravidez de Anna muda tudo no relacionamento, o plano de Vrónski é conseguir o divórcio, casar-se com ela e resolver a situação legal de sua filha. É trazer Anna de volta a um lar menos digno do que o de Karenin, mas ainda assim um lar, seu lar. O pulo de Anna na frente do trem é uma recusa radical a esse retorno.

Juliana Cunha é Professora da Escola de Relações Internacionais da FGV e doutoranda do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

(Publicado originalmente no site da revista Cult)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Charge! Duke via O Tempo

 


Editorial: Nossas instituições democráticas, no discurso de Fux, não admitirão retrocessos autoritários.


Creio que, em nossa História, nunca um 08 de setembro foi mais importante do que o dia 07, feriado dedicada à Independência do Brasil. Mas, nesses tempos bicudos que enfrentamos, foi isto mesmo o que ocorreu. Ontem, em editorial aqui publicado, comentamos - ainda que anpassant - sobre os preparativos dos protestos que estavam previstos para ocorrer em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Recife e outras praças do país,  durante o dia 07, organizados por grupos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro(Sem Partido). Pelo o andar da carruagem política - e pelo clima de animosidades e polarizações gerados ao longo dos últimos anos - era de se supor que os protestos em apoio ao presidente pudessem adquirir uma enorme magnitude, como, de fato, se verificou. A capital federal havia esgotado a sua capacidade de leitos em sua rede de hotéis e haviam filas de caminhões estacionados nos arredores de Brasília, prontos para entrarem na cidade.

Como enfatizamos por aqui, em inúmeras oportunidades, nosso tecido democrático, por razões históricas, não é dos mais resistentes e temos sérias dúvidas sobre se ele suportará o repuxo. Nossa experiência democrática, ao longo de décadas, convive constantemente com solavancos autoritários, assim como um carro em estrada esburacada, o que exige um piloto do Executivo movido por propósitos republicanos, provido de espírito público e bastante consciente de suas responsabilidades constitucionais. 

O dia 08, portanto, será de fundamental importância para o observarmos o cenário político criado pelas mobilizações de rua e, mais importante, avaliar a solidez de nossas edificações democráticas. Consideramos imprudente que a oposição ao Governo Bolsonaro tenha organizados protestos de rua para o mesmo dia, ampliando esses focos de atritos, mas, felizmente, não ocorreram confrontos. Trata-se de um procedimento perigoso, uma vez que as rédeas democráticas estão sendo afrouxadas há algum tempo no país. Em escala global, o mercado vem mitigando os regimes democráticos, em razão de sua perversa e insana lógica acumulativa, que já não se coaduna com as regras que regem uma democracia. 

O retrocesso político que enfrentamos nos últimos anos foi dos mais significativos, embora praticado sutilmente, avançando devagarinho, casa por casa. Nossas instituições democráticas foram muito complacentes com os constantes assédios e, quando resolveu reagir, foi num momento em que a capilaridades dos inimigos da sociedade livre - parafraseando Karl Popper - já haviam ganho força e musculatura, com uma narrativa discursiva construída com o propósito de enganar os "incautos", ou seja, o de que quem não deseja a democracia somos nós e não eles. Uma narrativa discursiva bastante identificada com uma "perversão ou doença política", que nunca foi completamente extirpada do mundo civilizado. Está sempre ali, esperando um momento certo ou uma circunstância política propícia para germinar. O que não faltam são jardineiros diligentes para adubar essa erva daninha.

É preciso ficarmos muito atento aos danos provocados por essas narrativas, construídas para dar suporte a um projeto político bem específico, que as utilizam com método, propósitos bem definidos, provocando danos irreparáveis aos atingidos. Pelas redes sociais, é comum observarmos a veiculação de vídeos com a agressividades e ameaças ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, que se tornou uma espécie de guardião de nossas instituições democráticas. Isso é inadmissível, intolerável dentro do escopo de um jogo jogado  dentro das quatro linhas das regras constitucionais. Louvável a fala do senhor ministro Luiz Fux, Presidente do STF, ao repelir, veementemente e de forma republicana, as agressões àquela Corte Suprema.   

domingo, 5 de setembro de 2021

Charge! Duke via O Tempo


 


Editorial: Um sisudo Paulo Câmara recebe o presidente Jair Bolsonaro.

Com o tempo, a gente acaba aprendendo a conviver com as circunstâncias de viver num Estado onde as oligarquias políticas não são afeitas às críticas, embora se apresentem como defensoras da liberdade de expressão, o que significa, necessariamente, a produção de dissensos - em tese algo permitido apenas nos regimes democráticos - daí a necessidade de sua defesa ferrenha. Mas, como vaticinava o filósofo alemão Friedrich Nietziche, "toda palavra é uma farsa e todo discurso é uma fraude." Infelizmente, porém, nosso processo de colonização produziu oligarquias infensas à convivência democrática, incapazes de conviver com as críticas ou resolvê-las através da dialética, do argumento e não da força, da perseguição. 

Alguns analistas sociais advogam, inclusive, que o filósofo francês, Michel Foucault, deu a devida importância a esta observação de Nietziche, em momentos específicos de sua excepcional produção teórica. Seu biógrafo, Didier Eribon, concordaria com esta premissa.  Num período mais ativo do blog, ficamos surpresos com a sanha engendrada contra este blogueiro, pelo simples fato de emitirmos nossas opiniões sobre a cena política local e nacional, sempre pautado pela defesa de princípios republicanos, defendendo ardorosamente os esteios ou pilotis do edifício de nossas instituições democráticas, mesmo conhecendo suas fragilidades históricas. 

Ao longo desses anos, longe desses expedientes terem sido superados. Seria mais conveniente entendermos pelo seu agravamento, posto que, hoje, basta defender a engenharia institucional da nossa democracia para tornar-se vítima das hordas digitais que espalham fake news com o propósito de promover assassinatos de imagem dos seus adversários políticos. Não precisa nem se contrapor frontalmente a essa gente, mas, simplesmente, defender a democracia dos seus algozes. Ser um democrata é o quanto basta para incomodar quem tem pendores autoritários. E olha que eles estão assanhados, em razão da proximidade do dia 07 de setembro, onde estão prometendo uma grande mobilização em Brasília. Esta semana não haverá sessão da CPI da Covid-19 e a rede hoteleira está com lotação esgotada na capital federal.    

As páginas amarelas da revista Veja desta semana traz uma entrevista com o governador Paulo Câmara(PSB-PE), onde ele analisa o cenário político do país, demonstrando uma profunda identidade com o projeto da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT-SP), nas eleições presidenciais de 2022. Admite o equívoco pelo fato de o PSB ter apoiado o impeachment da presidente Dilma Rousseff(PT-MG), em 2016, admitindo que o país desceu a ladeira do retrocesso político desde então. Tudo isso nós já sabíamos, mas não deixa de ser relevante o fato de que um Governador de Estado e vice-presidente nacional da legenda socialista tenha chegado a esta mesma conclusão - de alguma forma concordando com este blogueiro - no sentido de que o precedente do golpe institucional trouxe prejuízos incomensuráveis à nossa saúde democrática.  

Li a entrevista com o propósito de talvez encontrar algumas pistas para entender melhor o processo de "fadiga de material" provocado pelos 16 anos de exercício do poder pelos socialistas no Palácio do Campo das Princesas. Esta constatação não se resume apenas aos atores políticos da oposição, mas até mesmo entre atores políticos identificados historicamente com o mainstream, como é o caso de um empresário conhecido, que se pronunciou sobre o assunto até recentemente. Possivelmente, este fardo pesado estaria respingando no padrão de relação entre o atual governador, Paulo Câmara(PSB-PE), e o Secretário de Desenvolvimento Econômico, Geraldo Júlio(PSB-PE), supostamente ungido como candidato ao Governo do Estado nas eleições de 2022. Hoje, a relação entre ambos não seria das melhores, conforme a imprensa tem noticiado. 

Ambos possuem uma trajetória política bastante parecida, ou seja, são quadros técnicos que assumiram status político depois de ungidos pelo ex-governador Eduardo Campos, por serem de sua absoluta confiança. Confiança que, aliás,  possivelmente, não seria absoluta no staff político que o acompanhava. A afinidade entre ambos já foi absoluta, principalmente em razão da necessidade de se ajudarem mutualmente para enfrentar a orfandade política deixado pelo ex-governador. Durante a entrevista, o governador Paulo Câmara(PSB-PE) é incisivo em suas críticas ao Governo do presidente Jair Bolsonaro(Sem Partido), apontando ser a sua retirada do poder o principal objetivo da oposição nas eleições presidenciais de 2022.

E, por falar no presidente Jair Bolsonaro, ontem ele desembarcou aqui o Recife, onde cumpriu agenda política e administrativa. Ambos estiveram juntos, numa cerimônia oficial, por ocasião da transferência de comando do IV Exército, no bairro do Curado, onde  os cumprimentos se limitaram às meras formalidades. Para este humilde observador da cena política, duas questões precisam ser melhor entendidas no que concerne à visita do presidente Bolsonaro ao Estado de Pernambuco: A  razão pela qual Santa Cruz do Capibaribe tornou-se uma cidade bolsonarista raiz - emprestando seu apoio ao presidente nos dois turnos das últimas eleições presidenciais passadas - e; a segunda questão diz respeito à montagem do seu palanque aqui no Estado. 

Um homem do povo - sem o amparo das pesquisas, mas guiado apenas pela intuição - observou para este blogueiro que Santa Cruz do Capibaribe é uma cidade onde existe uma expressiva concentração de comerciantes de outros Estados da Federação, inclusive de São Paulo, que podem exercer um poder indutor no componente  do voto naquela cidade. Fica aqui a dica para os pesquisadores incluírem essa variável nos seus levantamentos.  

Sobre o palanque, o próprio presidente deu algumas pistas a este respeito, ao convidar seu amigo e ministro do turismo, Gilson Machado, para acompanhá-lo na garupa da moto, o que ele já havia admitido tratar-se de uma honraria. Como o martelo ainda não foi batido sobre este assunto, o pré-candidato que mais se aproxima deste projeto, a princípio, é o prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira(PSC), que o recepcionou no Aeroporto dos Guararapes. A família Ferreira mantém os canais bastante azeitados com o Governo Federal e a identidade ideológica de ser um grupo político que tem berço nas igrejas evangélicas, um dos núcleos duros do bolsonarismo. 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Editorial: Um nome para o eleitor da terceira-via chamar de seu



Como estamos discutindo por aqui há algum tempo, o eleitorado brasileiro demonstra um certo desconforto com a polarização da política brasileira, hoje praticamente cindida entre as alas lulista e bolsonarista. Tanto as pesquisas quantitivas quanto as pesquisas qualitativas indicam um espaço reservado a algum candidato que se apresente como alternativa concreta a esta polarização, que leve o país a voltar a crescer, minimize o conflito entre os poderes e enfrente o desemprego e a inflação em alta. De preferência um líder que recupere a agenda positiva que o país já ocupou no cenário mundial, onde estamos com a imagem arranhada no tocante aos valores democráticos e nos cuidados com o meio-ambiente. 

Mas, como se diz no Nordeste, é aqui que a porca torce o rabo, ou seja, há uma série de complicadores na construção dessa alternativa de terceira-via e algo nos diz que esses problemas não seriam contornados antes das eleições presidenciais de 2022. Começa por um dado primário: até este momento, nenhuma das possíveis alternativas testadas ou apresentadas ao eleitorado, foi do seu "agrado". Sabedores desse "espaço alternativo', lideranças partidárias se movimentam no sentido de apresentarem novos nomes ao eleitorado, em alguns casos, amparados pelas pesquisas qualitativas, que tentam esquadrinhar este retrato falado e, principalmente, o seu perfil, assim como o seu eventual programa de governo. 

Um desses partidos é o DEM, que já realizou alguns levantamentos neste sentido e acaba de fechar uma aliança com o PDT de Ciro Gomes, um acordo circunscrito - ainda - ao Nordeste brasileiro. Tivemos acesso ao resultado dessas pesquisas qualitativas e ficamos gratamente surpresos com a capacidade de os eleitores identificiarem, de uma maneira tão objetiva e fidedigna, as características desses nomes que já se apresentaram como de "terceira-via" e, principalmente, porque eles estão sendo preteridos na corrida presidencial de 2022.Um é estorvado demais, esquentado, de pavio curto, outro é falso, sonso, oportunista  e dissimulado.    

Se, neste momento, o DEM sinalizou, mesmo que pontualmente, para o candidato Ciro Gomes(PDT-CE), é porque deve considerar a hipótese de que a fera possa ser domada. Todos sabem que um dos problemas de Ciro é o temperamento explosivo. Isso talvez explique o fato de que o seu "namoro' com este eleitorado está relativamente melhor depois que João Santana assumiu a sua estratégia de comunicação. 

Dois outros movimentos estão em jogo, sempre na procura de um rosto que o eleitor da terceira-via possa chamar de seu. Em entrevista às páginas amarelas da revista Veja desta semana, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, dá os contornos do atual momento político vivido pelo país e aponta as razões pelas quais está sondado o nome do atual Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco(DEM-MG), para o projeto de uma candidatura presidencial. Para evitar essas confusoes de siglas partidárias, explico que, caso Rodrigo Pacheco aceite o convite, deve deixar o DEM e filiar-se ao PSD.  

Outro nome que pode ser apresentado a este eleitorado é o da senadora Simone Tebet, do MDB, que vem realizando um excepcional trabalho na Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19. Será que é ela? Aqui na província, a notícia de que o governador Paulo Câmara(PSB-PE) deve mesmo disputar uma vaga ao senado nas eleições de 2022. O conclave entre socialistas e petistas para a definição de um nome para disputar o Governo do Estado nas eleições de 2022 promete ser demorado.  

Crédito da charge: André Dahmer, Folha de São Paulo. 

Publisher: A dark September for our democratic institutions?



The week begins with a high temperature and the following month promises to be a dark September for our democratic institutions, which are now significantly weakened in this struggle between the Executive and Judiciary powers. Today, the 23rd, twenty-two governors of the federated states are meeting in Brasília with the purpose of containing the spirits and putting out the fire - before it's too late - since the rope has already been stretched too far. The future is uncertain when litigants refuse to lay down their arms and this is the situation we find ourselves in right now. Readers who follow us know that the topic of democracy is widely discussed here, not without some pessimism on the part of this editor, especially because we know our level of institutional starvation, as a reflex produced by Portuguese colonization.

This institutional crisis we are facing is inopportune and deeply marked by nonsense. We would already have enough problems to worry about, such as the sanitary, social and economic crisis, which is throwing thousands of Brazilian citizens into poverty, begging for meat bones in butcher shops. Every economic crisis has its "emblems". This one, without a doubt, is from the Row of Bones, a Dantesque spectacle, difficult to follow. Sad and embarrassing for a country that is one of the biggest meat exporters in the world. Gone are the days when the poorest and most fragile outskirts of the favelas indulged in the "luxury" of a skirt steak on the roof, accompanied by some beer brewed with corn. But who cared? Today, even chicken wings aren't there present, as the other meats tend to increase in almost the same proportion, accompanying the rise in beef.

All government efforts should be focused on tackling these problems. The aggravation of a political and institutional crisis at a delicate moment like this could have extremely harmful consequences for our social fabric, which has already suffered so much. In fact - to be honest - there is no opportune moment for a political crisis. Much less at a time like this, as it would lead to a deepening of these problems. Thankfully, the most consequential political actors are trying to put out this fire, whether in their speeches and public meetings - such as the state governors - or through the seams of backstage, checking the temperature of the barracks.

But there are also, regrettably, those incendiary political actors, who try to promote chaos, which would, by this calculation, give rise to undesirable - at least for convinced Democrats - military interventions. The mobilizations that are being planned by more radical groups, for the month of September, on the occasion of the celebration of our independence, fit this profile. September promises to be a Black September, should these predictions come true. Sincerely? We do not understand how anyone can defend a non-democratic regime, which has limitations on their own individual and collective freedoms. Generally, its supporters are the first to feel the strong arm of authoritarianism or the State of Exception, as history has demonstrated in past experiences.

O paradoxo da experiência: raça e as (in)autenticidades da vida intelectual

 

Gustavo Rossi e Rafael do Nascimento Cesar

O paradoxo da experiência: raça e as (in)autenticidades da vida intelectual
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Se a posicionalidade, mais conhecida no debate público como lugar de fala, não é narcisismo, por que vemos surgir mais constrangimento do que reflexão por parte de quem não se acostumou a ter sua neutralidade posta em xeque? (Foto: David Kuko/Pexels)

 

 

Logo no início de A marca humana, romance de Philip Roth escrito na virada do último século, o professor universitário Coleman Silk é acusado de racismo ao se referir a dois alunos negros com a expressão spooks. O sentido ambíguo do termo, denotando ao mesmo tempo “assombração” e, com conotação pejorativa, “negro”, é recebido de maneira incômoda pela classe. Apesar de se defender com base na primeira acepção da palavra, Silk é forçado a pedir exoneração da universidade, dando sua carreira por encerrada. A trama se desenrola e descobrimos que o docente, cuja aparência e história pessoal outorgavam-lhe uma branquitude insuspeita, era na verdade um afro-americano que na juventude decidiu passar-se por um branco de ascendência judaica de modo a perseguir suas aspirações intelectuais num país ainda legalmente segregado. A revelação dessa identidade secreta, por assim dizer, bem como os seus desdobramentos perante a comunidade acadêmica de Athena, no estado de Nova Jersey, se nos mantêm ligados à narrativa, tornam insustentável a vida do protagonista. O mal entendido, decorrente do uso de uma palavra carregada de significados por alguém igualmente repleto deles, deflagra a impossibilidade da ambivalência, além de exigir uma reparação: a “expiação do sangue pelo sangue”. O que remete à epígrafe do livro, uma passagem da tragédia Édipo Rei, de Sófocles: “Édipo: Qual o rito de purificação? De que modo há de ser feito? / Creonte: Pelo desterro, ou pela expiação do sangue pelo sangue…” (Roth, 2014, p. 5).

Passar-se por branco(a) como estratégia de mobilidade social, transgredindo para isso fronteiras racializadas, está longe de corresponder a um tema episódico. Como outras antes dela, a personagem de Roth encarna muitos dos temores, ansiedades e fantasias raciais que fizeram do chamado passing um tropo significativo do imaginário cultural estadunidense, sobretudo entre meados do século 19 e 20. Em especial, o tema do passing ficou consagrado em dois romances considerados clássicos da literatura afro-americana: The autobiography of a ex-colored man (1912), de James Weldon Johnson, e Passing (1929), de Nella Larsen. O primeiro debruça-se sobre a trajetória de um personagem inominado que fizera do passing uma forma privilegiada de escapar dos estigmas associados à negritude, almejando assim acessar espaços, direitos e vivências que, de outra forma, lhe teriam sido impossíveis. O segundo, por sua vez, narra o reencontro das amigas Irene Redfield e Clare Kendry, elegendo como fio condutor a “ruptura” desta última “com tudo o que havia de familiar e amigável para aventurar-se em outro ambiente, talvez não inteiramente estranho, mas certamente não inteiramente amigável” (Larsen, 1992, pp. 186-7, trad. nossa).

Mais que sensibilizar os leitores acerca dos dramas pessoais de Coleman Silk ou convencê-los de sua astúcia em dissimular marcas corporais, o tema do passing continua a fascinar pela maneira como coloca em suspeição (e em suspensão) muitos dos pressupostos que orientam nosso entendimento sobre raça. Afinal, reafirmar aqui os fundamentos sociais das diferenças raciais não cancelam o fato de que elas continuam a ser cotidianamente percebidas e vivenciadas como realidades biológicas pré-discursivas, como se nas superfícies dos corpos fôssemos capazes de buscar a “verdade” sobre a raça. Crentes de que ali a encontraremos nua e crua, comparamos tons de pele, texturas de cabelos e outras marcas corporais que comprovem ou não a autenticidade do ser racial. Talvez por isso mesmo o passing provoque tanto espanto: ele subverte nossas expectativas quanto a esse “ser” ao evidenciar as falhas dessas verdades que insistem em inscrever no domínio da natureza o que é essencialmente uma produção social e cultural (Gayle Wald, Crossing the line: racial passing in Twentieth-Century U.S literature and culture, 2000).

Em 2015 e 2020, o assunto voltou com força no cenário intelectual norte-americano com os escândalos envolvendo respectivamente a advogada Rachel Dolezal e a historiadora Jessica “La Bombalera” Krug, ambas brancas. Estudiosas e ativistas da questão racial, elas construíram carreiras como intelectuais “negras” vinculadas a instituições de ensino, pesquisa e direitos civis nos Estados Unidos. Carreiras que, assim como a de Silk, tornaram-se insustentáveis após a revelação de seus passados. Krug, ao confessar ter ocultado a experiência de criança judia criada no estado de Kansas, assumiu a inautenticidade de seu passing e a si mesma como impostora (Lauren Michele Jackson, The Layered Deceptions of Jessica Krug, the Black-Studies Professor Who Hid That She Is White, 2020). Dolezal, por sua vez, se recusou a abrir mão da conexão “espiritual” com a negritude, não havendo para ela mal entendido entre sua subjetividade e o ato de passar-se por negra. Não se tratava, concluía ela, de vestir uma “fantasia”, mas assumir uma verdade alternativa sobre si mesma (Allison Samuels, Rachel Dolezal’s true lies, 2015). Ainda assim, a reação irada do público recaiu no fato de Dolezal e Krug terem a um só tempo apropriado e expropriado a identidade negra no intuito de obter benefícios pessoais e ocupar posições autorizadas no âmbito da luta antirracista. Mesmo que enredado por discursos de igualdade racial, o uso indevido da experiência negra e dos símbolos que lhe dão corpo (linguagem, visual, ancestralidade) foi sentido pela comunidade afro-americana como traição e, consequentemente, como racismo.

Implícito a esse roubo identitário subjaz a suposta incongruência entre o engajamento das ativistas e a materialidade de seus corpos brancos, como se a descontinuidade entre a produção do conhecimento sobre raça, de um lado, e a raça do sujeito que o produz, do outro, pudesse invalidar qualquer iniciativa de combate ao racismo. Vale perguntar, no entanto, de que maneira os casos envolvendo Dolezal e Krug iluminam os nexos de sentido entre a atividade intelectual contemporânea e a autenticidade da experiência. Diversas autoras feministas chamaram atenção para essa intrincada relação ao questionarem os limites da objetividade científica e o estatuto problemático da experiência enquanto grau zero do conhecimento e da vida política. Como consequência, a sedimentação dessa crítica nas comunidades acadêmicas estadunidense e brasileira vem fazendo da posicionalidade dos sujeitos e seus saberes um problema incontornável. “Longe de ser uma preocupação narcisista ou trivial”, afirma Patricia Hill Collins, “posicionar o ‘eu’ no centro da análise é fundamental para a compreensão de uma série de outras relações” por meio das quais nos subjetivamos e somos subjetivados como produtores de conhecimento (Pensamento feminista negro, 2019, p. 203). Explicitar tais relações, dando a ver como elas constituem os sujeitos, não implicaria constranger os horizontes da prática científica, mas libertá-la da premissa de um sujeito “neutro” e da impossível missão de nomear realidades transparentes e incontestadas.

Mas se a posicionalidade, mais conhecida no debate público como lugar de fala, não é interdição ou tampouco narcisismo, por que vemos surgir mais constrangimento que reflexão por parte de quem não se acostumou a ter sua neutralidade posta em xeque? Não seriam as acusações de infiltrações de um “mercado epistêmico” no bom fazer científico ou de revoluções travestidas de neoliberalismo reações, elas sim, narcísicas ao problema da situacionalidade? Vistas deste ângulo, tais acusações emergem não como respostas a um debate epistemológico necessário, mas como tentativas emocionadas de contorná-lo, reduzindo a posicionalidade a um jogo identitário no qual pessoas como Dolezal e Krug sairiam perdendo. Daí o medo, não raro partilhado à boca pequena nos corredores de universidades ou em textos incendiários (e anônimos), de que falas estariam sendo “canceladas” pela ação de “patrulhas identitárias”, ou ainda de que certos temas, antes disponíveis a quem quisesse estudá-los, agora haveriam se tornado propriedade exclusiva de sujeitos cuja posicionalidade nunca foi uma escolha, mas a sanção compulsória da estigmatização. A fantasia por trás desse medo é comprovada ao testemunharmos, dia após dia, mais (e não menos) pessoas tomarem a palavra, mesmo que em benefício da discórdia e da contradição.

A angústia quase inerente a esse debate, por vezes traduzida em um sentimento de perda seguido de melancolia, revela um curto-circuito semântico entre a produção do conhecimento nas ciências humanas e a maneira como a experiência é muitas vezes chamada a referendá-lo, assumindo o papel de uma evidência irrefutável sobre algo ou alguém. Poder afirmar vínculos com a comunidade pesquisada que vão além do compromisso ético e da solidariedade, chegando a uma identificação próxima a do parentesco, parece oferecer à(o) pesquisadora(o) a caução perfeita para as suas interpretações, um controle sobre o discurso imune à contestação, uma vez que emanado das entranhas do corpo e da alma. Para quem lida diariamente com as contendas da ciência, a possibilidade de usufruir de tal controle exerce uma atração inegável; para Jessica Krug, uma espécie de Silk às avessas, ela foi tão forte a ponto de a autora dedicar o livro Fugitive Modernities a seus “ancestrais desconhecidos, inominados, que deram a vida por um futuro o qual não tinham razão nenhuma para acreditar que deveria ou poderia existir” (2018, p. v).

Por mais que cheire a novidade, o problema é antigo. Segundo a historiadora feminista Joan Scott, as tentativas de escrever sobre a “diferença” ao longo do século 20 elegeram como ponto de partida de suas narrativas a experiência dos oprimidos, dos subalternos, dos invisíveis, em suma, dos “diferentes”. Embora animados pela melhor das intenções críticas – afirmar que o discurso histórico nunca é neutro e esconde tanto quanto diz relevar –, esses “historiadores da diferença” seguiram os passos daqueles contra os quais se dirigiam. Isso porque, ao verem na experiência desses outros e outras um acesso privilegiado ao real, eles estariam perdendo uma parte importante da questão: a experiência nunca é um dado supostamente dedutível das marcas corporais ou das práticas atribuídas a determinados sujeitos. Ao contrário, ela é algo bem mais difícil de apreender, pois depende daquilo que, em um certo momento histórico e a partir de uma linguagem específica, conta como experiência. Sem essa dimensão processual, as “histórias da diferença” representam tão somente uma mudança de objeto, mas não de método. Assim como o discurso que pretendem atacar, elas estariam naturalizando a experiência em prol da estabilidade do sujeito, reinscrevendo-a na dimensão do óbvio ululante. Afinal, o que poderia ser mais verdadeiro que o relato de quem estava ali?, provoca-nos Scott (The Evidence of Experience, 1991, p. 777).

Dizer que os sujeitos “têm” experiência, comparando-a a uma espécie de espólio ou promessa, pressupõe a ideia de um “eu” pronto a “tê-la” e preexistente a tudo aquilo responsável por torná-lo sujeito. Dessa forma, noções como “raça”, “gênero” e “sexualidade” serviriam apenas para confirmar marcas previamente constituídas nos corpos e nas biografias, como se as diferenças fossem fixas no tempo e existissem a despeito das palavras que usamos para nomeá-las. Dito de outro modo, ao situarmos a experiência na origem do conhecimento, garantindo-lhe de saída o acesso a pontos de vista “autênticos” sobre a realidade, caímos na cilada de tomar por evidência o que seria, na verdade, um efeito do conhecimento e da linguagem. Menos que o acúmulo de vivências individuais, a experiência é uma forma de organizar o vivido ou, nas palavras de Scott, é a “história de um sujeito”.

Ao se passarem por mulheres negras, Krug e Dolezal se refugiaram em noções caricatas de uma negritude ativista e traumatizada de forma a legitimar suas vozes com a autenticidade da raça. Nesse sentido, a autovigilância com que tentaram afirmar experiências isentas de ambivalências ou contradições converteu-se, ela mesma, em uma contradição caricatural diante das inúmeras maneiras de se viver a negritude. No caso de Krug, uma historiadora ligada à academia, o conhecimento por ela produzido ficou inevitavelmente manchado após seu desmascaramento, e o livro Fugitive Modernities, concebido como um exemplo acerca da posicionalidade do sujeito, acabou por atestar, no fundo, a indisponibilidade de sua autora em se posicionar como uma mulher branca, tornando-se ilegível fora da chave da suspeição e da impostura. E pior, ao se deixarem guiar pela fantasia de assumir um outro racial, Dolezal e Krug reencenam a ferida narcísica da branquitude: renunciar ao “truque de Deus”, como adverte Donna Haraway, de “ver tudo de lugar nenhum”, ao direito “universal” de falar sobre e por todo(as) (Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial, 1995, p. 19).

A posicionalidade, por certo, não pode ser equiparada nem reduzida a um discurso identitário. Se hoje vemos isso acontecer na sociedade brasileira é porque a entrada de novos sujeitos, de novos corpos, na vida acadêmica se faz, em grande medida, através de uma luta política para a qual as categorias identitárias são fundamentais para a reivindicação e ampliação do acesso a espaços de produção de conhecimento até então a eles interditados. Enquanto uma postura crítica, politizar a posicionalidade significa requerer não a autenticidade da fala, como imaginaram Krug e Dolezal, mas a necessária reflexividade quanto ao fato de que os sujeitos produzem conhecimentos em contextos determinados, e não a despeito deles. Como bem colocou Eric Fassin ao problematizar sua posicionalidade como homem branco, assim como os autores deste ensaio, a interrogação “De onde falo?” solicita “análise e não uma confissão: ela não convida a se abrir, mas a se pensar” (Sou um homem branco: epistemologia política do paradoxo majoritário, 2021, p. 9). Solicita, assim, não um mero protocolo de confissão de nossas próprias autorrepresentações, mas uma reflexão sobre os modos como nossos corpos e nossas posições implicam, ao mesmo tempo como limite e possibilidade, o conhecimento que produzimos.

Abrir o jogo, desnaturalizar o lugar a partir do qual se fala, significa, enfim, requerer o compartilhamento da responsabilidade científica e política de que não só os “sujeitos minoritários” tem que lidar com a particularidade de suas falas e ideias, mas também – e sobretudo – os “sujeitos majoritários” (notadamente brancos, masculinos e heteronormativos), os quais durante muito tempo e em nome da ciência, invocaram o poder de falar e nomear o ponto de vista dos outros sem que o deles próprios pudessem ser contestado.

 

Gustavo Rossi é pesquisador PNPD-Capes do Departamento de Antropologia da Unicamp, coordenador do Bitita (Núcleo de Estudos Carolina Maria de Jesus) e membro do Apsa (Ateliê de Produção Simbólica e Antropologia). É autor do livro O intelectual feiticeiro: Edison Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no Brasil (2015).

Rafael do Nascimento Cesar é mestre e doutorando em Antropologia pela Unicamp e desde 2016 estuda relações raciais e música popular brasileira. É membro do Apsa (Ateliê de Produção Simbólica e Antropologia) e do Pagu (Núclo de Estudos de Gênero da Unicamp).

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)

domingo, 29 de agosto de 2021

Editorial: Alianças políticas orientadas unicamente pelo cálculo eleitoral.





Em meio ao turbilhão da crise generalizada que o país enfrenta, intensificou-se claramente, nos últimos dias, as movimentações dos candidatos à Presidência da República. Alguns deles, caso dos governadores João Doria(PSDB-SP) e Eduardo Leite(PSDB-RG) ainda precisam superar a etapa das prévias partidárias no grêmio tucano. No caso do candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva(PT-SP), apesar da folgada dianteira nas pesquisas de intenção de voto, as costuras políticas não estão nada fáceis e ele tem se mostrado reticente quanto a assumir, de fato, que é candidato. Na próxima semana, Pernambuco recebe o candidato à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro(Sem Partido), que cumprirá compromissos políticos aqui na província e participará de uma motociata na região do Agreste, inclusive na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, única cidade pernambucana onde venceu nos dois turnos das últimas eleições presidenciais. A motociata terminará no Pátio do Forró, em Caruaru, uma cidade estratégica nos projetos de quem deseja ocupar o Palácio do Planalto. 

Em tese, Jair Bolsonaro ainda não tem um palanque montado aqui em Pernambuco, embora existam alguns atores políticos afinados com o seu projeto de reeleição, como o ministro do turismo,Gilson Machado Neto, que, muito provavelmente o acompanhará nesta motociata. Quem sabe até na garupa da moto, que ele já disse que seria uma honra. Conforme afirmamos em outros editoriais, os interesses e as composições políticas engendradas no plano nacional, não necessariamete, se reproduzem no plano estadual, onde outros arranjos e interesses podem prevalecer sobre as composições políticas nacionais.  

Hoje, entre os postulantes ao Governo do Estado mais identificados com o presidente Jair Bolsonaro, poderíamos citar o nome do prefeito Anderson Ferreira(PSL), de Jaboatão dos Guararapes, que realiza um périplo pelo Estado com o propósito de viabilizar o seu nome, pela oposição, como candidato ao Governo do Estado nas eleições de 2022. Embora bastante afinado com o Governo Federal - que não mede esforços em celebrar convênios com o município -  ainda não assume que montará o palanque do presidente aqui na província. Alguns analistas advogam que o candidato dos sonhos do presidente Jair Bolsonaro seria o seu ministro do turismo, que não esconde seus projetos políticos, guardados,  por enquanto, em banho maria. 

Mas, como dissemos, neste primeiro freio de arrumação, o quadro ainda se apresenta bastante confuso. É dado como certa a filiação do senador Fernando Bezerra Coelho(MDB-PE) ao Democratas, num acordo nacional, que viabilizaria a candidatura do seu filho, Miguel Coelho(MDB-PE) ao Governo do Estado nas eleições de 2022. O senador, então, deixaria a liderança do Governo no Senado Federal? Por outro lado, o presidente daquela Casa Congressual, Rodrigo Pacheco(DEM-MG), estaria entabulando conversas com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab(PSD-SP), como candidato à Presidência da República. Salvo por uma mudança de sigla, a rigor, o DEM poderia ter um candidato à Presidência da República e o seu nome não seria Ciro Gomes(PDT-CE), com quem seu dirigente nacional, ACM Neto (DEM-BA), estaria firmando uma aliança "regional', ou seja, circunscrita à região. Ou seja, o acordo do PDT com o DEM é um e o acordo do PSD com o DEM é outro. Exceto, se entendermos que Rodrigo Pacheco estaria de malas prontas para desembarcar no partido de Kassab.

Este conjunto de interesses difusos nos Estados - orientados unicamente pelo cálculo eleitoral,inclusive na região Nordeste, talvez seja a razão pela qual Lula ainda se mostra ponderado a assumir, de fato, sua candidatura à Presidência da República, embora seus apoiadores nem discutam mais este assunto, posto que dado como certo. Essa esquisofrenia entre as alianças celebradas no plano nacional e como elas reverbaram no planos estaduais e nos municípios é histórica e reflete a fragilidades do nosso sistema partidário, aliado a outros fatores. 

O MDB, por exemplo, funciona como um partido de feudos estaduais, controlados por verdadeiras oligarquias políticas familiares. Nosso sistema partidário seria uma ótima fonte de inspiração para o sociólogo alemão Robert Michels, que cunhou o conceito da Lei de Ferro das Oligarquias, mostrando que este fenômeno seria inevitável no que concerne aos partidos políticos e organizações sindicais. Nem o PT, que, na sua origem era um partido orgânico, de base, surgindo nos movimentos sociais, escapou a este processo. Uma candidatura que tiver apenas o apoio das bases e militâncias autênticas - e contar com a rejeição das cúpulas partidárias - terá poucas chances de viabilizarem-se. Aqui em Pernambuco, um bom exemplo é o da Deputada Federal Marília Arraes, uma guerreira que move moinhos de ventos pelo Estado, mas é ignorada pelos arranjos aliancista celebrados pela cúpula do Partido dos Trabalhadores.   

sábado, 28 de agosto de 2021

Tijolinho: Em Caruaru, Doria já se posiciona como candidato


Antes da pandemia - que obrigou a todos um confinamento compulsório - sempre nos meses de Outubro, costumava levar as crianças para a cidade de Caruaru, na região do Agreste Pernambucano. Cidade de clima ameno nesta época do ano, boa gastronomia, parques ecológicos e equipamentos culturais bem preservados e um distrito inteiro dedicado à arte popular com barro, como é o caso do Alto do Moura, com suas cazinhas simples, um ambiente de vila rural. Na agenda, um espaço para arruar na Feira de Caruaru, para matar a saudade da comida tipicamente nordestina e apreciar os artefatos de couro, outro atrativo para este editor. O sociólogo espanhol - Galego para ser mais preciso - Manuel Castells Oliván afirmou que esta pandemia iria nos levar a uma valorização das coisas mais simples da vida, aquelas que realmente importam. Do que sentiremos falta mesmo? Perguntava ele? De uma conversa sem compromisso,no final de tarde, acompanhada de uma cervejinha gelada e um petiscozinho qualquer. Qualquer, não, Castells! Pode ser uma panceta de porco? 

Conforme o blog antecipou em uma semana, hoje a cidade de Caruaru recebeu o governador de São Paulo, João Doria(PSDB-SP), que veio à cidade em campanha para as prévias do tucanato, que devem escolher seu candidato às eleições presidenciais de 2022. A rigor, há quatro nomes no páreo,mas, à medida que o tempo passa, dois deles já parecem derrotados antes mesmo das disputas internas, como é o caso do senador Tasso Jereissati(PSDB-CE) e o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio(PSDB-AM). Quem, de fato, está se mobilizando pelo eleitorado são os governadores João Doria(PSDB-SP) e Eduardo Leite(PSDB-RG), governador do Estado do Rio Grande do Sul. Pode até ocorrer alguma surpresa aqui, mas é pouco provável. O nome de Arthur Virgílio sequer entra na bolsa de apostas.   

Doria já se posiciona como um candidato presidencial de fato, talvez em razão de sua experiência corporativa na iniciativa privada, onde estratégias tem um grande significado, inclusive o motivacional. Já fala em projetos para a região Nordeste, na eventualidade de chegar ao Palácio do Planalto. Fez rasgados - e merecidos - elogios à gestão da prefeita Raquel Lyra(PSDB-PE), que está no páreo para a disputa ao Governo do Estado de Pernambuco nas eleições de 2022. Como não poderia deixar de ser, depois dos compromissos políticos, aproveitou a ocasião para experimentar um prato típico do café da manhã do nordestino, ou seja, um bode guizado com cuscuz e um cafezinho no ponto. Aprovou sem arrodeios. Imagina se não aprovaria.     

Tijolinho: Um acordo difícil entre os "menudos" da oposição.



Conforme antecipamos por aqui, dificilmente será consturado um acordo político entre os jovens prefeitos de oposição no que concerne à escolha de um nome de consenso entre eles, de olho na disputa das eleições estuduais de 2022, em Pernambuco. Em seus périplos pelo interior do Estado, o prefeito do segundo maior colégio eleitoral do Estado, Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira(PSC-PE), já é abertamente tratado como candidato ao Governo do Estado por alguns apoiadores. A prefeita de Caruaru, Raquel Lyra(PSDB-PE) tem recebido os pré-candidatos à Presidência da República, do seu partido, o PSDB, que disputam as prévias tucanas. Já recebeu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite(PSDB-RG) e, neste sábado, dia 28, acompanhou o governador João Dória(PSDB-SP)em sua visita à cidade, onde conheceu a tradicional Feira de Caruaru e tomou um tradicional café da manhã nordestino, ou seja, cuscuz com bode guisado. Dizem que aprovou com distinção.É tratada pelos tucanos de bico fino como candidata ao Governo do Estado nas eleições de 2022. Prego batido, de ponta virada como se diz por aqui.    

A mesma movimentação política observa-se em relação ao jovem prefeito de Petrolina, Miguel Coelho(MDB-PE), que já aduba as bases há algum tempo e, naturalmente, aguarda o tempo certo para colher os frutos produzidos. E, o tempo certo, parece ser mesmo as próximas eleições previstas para 2022. Como o MDB parece ter outros planos, todo o grupo político pode desembarcar do partido e ingressar no DEM, onde o prefeito objetiva viabilizar sua candidatura. O deputado federal Fernando Bezerra Coelho Filho já é filiado ao Democratas, assim como o deputado estadual Antonio Coelho.    

Como as eleições estauduais são casadas com as eleições nacionais para a Presidência da República, há uma série de arranjos em jogo, o que envolve acordos com os candidatos para montagem de palanques estaduais, assim como os inevitáveis ajustes ou composições partidárias, o que transforma a tarefa de construção de consensos ainda mais complexa. Tão complexas que, não raro,ocorrem situações onde os estados federados não reproduzem, necessariamente, as alianças celebradas no plano nacional. Comenta-se, por exemplo, sobre a possibilidade do grupo político dos Coelho se afinarem com a candidatura presidencial de Ciro Gomes(PDT-CE), quando se sabe dos acordos entre os Democratas e o presidente Jair Bolsonaro(Sem Partido) no plano federal. Pelo acordo, o pastor Silas Malafaia abocanha um naco político importante no Estado do Rio de Janeiro. 

P.S: CONTEXTO POLÍTICO: Raposa política cevada no "carlismo', o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, celebra acordos políticos com Deus e com o Diabo. Na semana passada se noticiou que ele teria construído uma ponte com o Governo Jair Bolsonaro(Sem Partido), sobretudo direcionado ao Rio de Janeiro, com o objetivo de isolar o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que acaba de ser nomeado para um cargo no Governo de João Doria(PSDB-SP). O acordo, na medida em que interdita a influência da família Maia no diretório do partido naquele Estado, abria as porteiras para o pastor Silas Malafaia, assim como Moisés, cruzar o mar Vermelho - se é que me entendem - e conduzir seu rebanho para o suporte da candidatura à reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Hoje, porém, já se dá como certo a celebração de uma aliança entre Democratas e Pedetistas, capitaneados por ACM Neto e Carlos Lupi, colocando o neto de Antonio Carlos Magalhães no projeto de Ciro Gomes(PDT-CE) presidente, arranjo que, no plano local, viabilizaria a candidatura de Miguel Coelho ao Governo do Estado de Pernambuco nas eleições de 2022. O senador Fernando Bezerra Coelho, líder do Governo Bolsonaro no Senado Federal, também estaria se filiando ao Democratas. 

Cabe, aqui, um outro adendo, já devidamente tratado num editorial, consoante a necessidade de esclarecer as eventuais dúvidas produzidas por esta política de alianças partidárias e dança de cadeiras entre os atores políticos. A aliança que o DEM celebrou com o candidato Ciro Gomes(PDT-CE) é uma aliança do tipo "regional", ou seja, vale apenas para a região Nordeste, o que, possivelmente, não o impediu de fechar alguns acordos com o presidente Jair Bolsonaro no que concerne à arena política específica do Estado do Rio de Janeiro. Em todo caso, o ex-governador e grande lideraça política brasileira, Leonel Brizola, deve estar revirando na tumba.    

Charge! Duke via O Tempo

 


Editorial: Rodrigo Pacheco: Uma aposta de Gilberto Kassab como candidato à Presidência da República.


O quadro sucessório das eleições presidenciais de 2022 ainda não está definido. Há um longo percurso pela frente e, parafraseando um experiente cientista político aqui da província, tudo seria possível acontecer, inclusive nada. Vale aqui a lição de um macaco velho, daqueles que não põe a mão na cumbuca antes de ter certeza sobre o que encontrará lá dentro. O presidente Jair Bolsonaro(Sem Partido) - que pretende continuar como inquilino do Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos - não muda uma vírgula de sua estratégia de comunicação, embora as ruas sinalizem que sua postura deveria ser repensada, em razão de estar perdendo inserção junto a um eleitorado não necessariamente raiz. Há indícios que apontam que o seu ministro das comunicações, Fábio Farias,  possa ser seu companheiro de chapa, na condição de candidato a vice-presidência. Quem sabe ele o convença sobre a necessidade de alguma mudança neste sentido.
   
Jair Bolsonaro(Sem Partido) sabe que não está num céu de brigadeiro, diante de uma crise sanitária em curso e uma economia combalida, com altas taxas de desemprego, inflação crescente e sob a perspectiva sombria de uma crise energética pela frente, algo que deve pesar não apenas no bolso, mas no humor dos eleitores. Com índices de aprovação em queda, a sua reeleição  torna-se bastante incerta, se considerarmos a radiografia deste momento. Especialistas em pesquisas de aprovação de governos asseguram que um escore abaixo de 45% de bom e ótimo podem interditar uma reeleição. 

Aparecendo bem nas pesquisas de intenção de voto, o provável candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva(PT-SP), tem articulado conversas com lideranças políticas da região Nordeste, o principal reduto eleitoral daquela agremiação partidária. Essas costuras não estão bem alinhavadas, em razão dos vários interesses políticos em jogo nos Estados da região, à exemplo do caso do Ceará, que possui um candidato à Presidência da República, Ciro Gomes(PDT-CE), e um senador que objetiva disputar as prévias tucanas, Tasso Jereissati(PSDB-CE), igualmente com o mesmo propósito. Camilo Santana(PT-Ceará), atual governador daquele Estado, já teria fechado um acordo com o grupo político liderado pelos Ferreira Gomes para viabilizar seu nome como candidato ao Senado Federal em 2022, numa composição onde o PDT lançaria o nome de Roberto Cláudio (PDT-CE) como candidato ao Governo do Estado. Camilo Santana parece não ter esperado uma sinalização do cacique petista para fechar um acordo com os Ferreira Gomes.  

O Maranhão é outro desses Estados onde as composições políticas estão confusas. Quando esteve por aquelas bandas, Lula almoçou com o Flávio Dino(PSB-MA), mas não se fez de rogado ao aceitar um convite da família Sarney para um repasto de jantar com o grupo da velha oligarquia comandada pelo cacique José Sarney, um antigo aliado do petismo no plano nacional.E olha que não foi apenas em função das guloseimas da rica culinária maranhense. Aqui na província pernambucana, onde o morubixaba petista também já esteve, o quadro também parece indefinido, em razão dos "estragos" causados pelo candidato Ciro Gomes(PDT-CE) desde as eleições municipais passadas,onde esteve presente no processo de eleição do prefeito do Recife, João Campos(PSB-PE). 

Na fotografia deste momento, as pesquisas apontam para um alto índice de indefinição entre o eleitorado e uma expécie de cansaço com esta polarização entre bolsonaristas e lulistas, o que alimenta as expectativas dos candidatos que correm pela raia da terceira via, como é o caso do governador paulista João Dória (PSDB-SP), que já iniciou um périplo pelo país - desembarcando aqui na província pernambucana neste sábado - de olho nas eleições presidenciais de 2022. Os tucanos passarão por um processo de prévias, onde há quatro nomes no páreo: O do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite(PSDB-RG), Tasso Jereissati(PSDB-CE) e Arthur Virgílio(PSDB-AM), além de Dória, que, neste momento, já está na tradicional feira de Caruaru, acompanhado da prefeita Raquel Lyra(PSDB-PE).  

É neste contexto que entendemos as movimentações do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, no sentido de manter a capilaridade política do seu partido nas próximas eleições. O PSD foi um dos partidos que mais cresceram nas últimas eleições municipais, tornando-se uma agremiação política estratégica num projeto presidencial. Há evidentes sondagens do partido no sentido de atrair o atual presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco(DEM-MG) para este projeto. O martelo ainda não foi batido, mas as conversas estão bastante avançadas. Rodrigo Pacheco tem se notabilizado nacionalmente por sua defesa intransigente da democracia, das suas instituições, da autonomia e independência dos três poderes. Segue à risca o que determina a Constituição Federal, cumprindo o papel que se espera de um homem público.  Uma postura republicana importante, nesses tempos bicudos de assédio às instituições democráticas.  

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Editorial: Um setembro negro para as nossas instituições democráticas?


A semana começa com a temperatura alta e o mês seguinte promete ser um setembro negro para as nossas instituições democráticas, hoje sensivelmente fragilizadas nesta queda de braços entre os poderes Executivo e Judiciário. Hoje, dia 23, vinte e dois governadores dos Estados federados estão se reunindo em Brasília com o propósito de conter os ânimos e apagar o incêndio - antes que seja tarde demais - posto que a corda já foi demasiadamente esticada. O futuro é incerto quando os litigiantes se recusam a baixarem as armas e  esta é a situação em que nos encontramos no momento. Os leitores e leitoras que nos acompanham sabem que o tema democracia é bastante abordado por aqui, não sem algum pessimismo por parte deste editor, sobretudo por conhecermos o nosso nível de inanição institucional, como reflexo produzido pela colonização portuguesa.  

Esta crise institucional que estamos enfrentando é inoportuna e profundamente marcada pela insensatez. Já teríamos problemas suficientes para nos preocupar, como a crise sanitária, social e econômica, que está jogando milhares de cidadãos e cidadãs brasileiros na miséria, mendigando ossos de carne nos açougues. Cada crise econômica tem seus "emblemas". Esta, sem dúvida, é da fila dos ossos, um espetáculo dantesco, difícil de acompanhar. Triste e constrangedor para um país que é  um dos maiores exportadores de carne do mundo. Longe se vão os tempos em que a periferia mais pobre e fragilizada das favelas se dava ao "luxo' de um churrasco de fraldinha na laje, acompanhada por alguma cerveja fermentada com milho. Mas quem se importava? Hoje, nem as asinhas de frango estão presente, pois as demais carnes costumam aumentar quase na mesma proporção, acompanhando a alta da carne de boi. 

Todos os esforços governamentais deveriam ser concentrados no sentido de enfrentamento desses problemas. O agravamento de uma crise política e institucional num momento delicado como este poderia trazer consequências extremamente danosas para o nosso tecido social, já tão castigado. Aliás - a bem da verdade - não há momento oportuno algum para uma crise política. Muito menos num momento como este, pois acarretaria um aprofundamento desses problemas. Ainda bem que os atores políticos mais consequentes estão tentando apagar este incêndio, seja em seus pronunciamentos e encontros públicos - como o dos governadores dos Estados -  seja através das costuras de bastidores, checando a temperatura dos quartéis.  

Mas há, também,lamentavelmente, aqueles atores políticos incendiários, que tentam promover o caos, o que oportunizaria, por este cálculo, as indesejáveis - pelo menos para os democratas convictos - intervenções militares. As mobilizações que estão sendo programadas por grupos mais radicais, para o mês de setembro, por ocasião da comemoração de nossa independência, se encaixam neste perfil. Setembro promete ser um Setembro Negro, caso essas previsões se confirmem. Sinceramente? Não entendemos como alguém possa defender um regime não-democrático, o que incide em limitações de suas próprias liberdades individuais e também coletivas. Geralmente, seus apoiadores são os primeiros a sentir o braço forte do autoritarismo ou do Estado de Exceção, como a História tem demonstrado em experiências passadas.