pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Editorial: CNJ determina que cartórios serão obrigados a emitirem atestados de óbito dos mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.



O país continua com uma dificuldade incomensurável de ajustar as contas com o seu passado. Depois dessa última tentativa de golpe de Estado - felizmente fracassada, para o bem de nossas instituições democráticas - percebe-se, nitidamente, a temperatura elevada na caserna, sobretudo no tocante ao que fazer em relação aos militares envolvidos naquela trama, em hierarquia e números elevados. Sugere-se que os comandantes que se recusaram a embarcar na aventura de ruptura institucional recente estão sendo mal vistos na tropa, exatamente por cumprirem seus deveres constitucionais, impedindo que tal transgressão se materializasse.  

Esses militares legalistas serão convocados a se pronunciarem em relação ao que houve de fato e isso, inevitavelmente, irá comprometer aqueles que estiveram no epicentro da trama golpista. Aliás, esse jogo de empurra, empurra tornou-se a tônica entre os militares que estão arrolados nessas tessituras. Ninguém assume que é golpista, que tentou um golpe de Estado, onde esteve em jogo até mesmo a eliminação física de autoridades da República. A estratégia de defesa é a mesma, ou seja, eu não tenho nada a ver com isso e a culpa é sempre do outro. Estão tentando tirar o corpo fora. Com isso, o que não se constitui na realidade numa surpresa, a gente descobre que golpistas também são covardes, uma vez que não assumem o que fazem diante do aperto da justiça. 

Neste contexto, a Comissão da Verdade sempre atuou com limitações evidentes, num jogo de escaramuças entre o poder civil e o poder militar. Mesmo assim, agora vem uma resolução do CNJ que determina que os cartórios serão obrigados a emitirem certidões de óbitos daquelas desaparecidos durante o regime militar, consoante as identificações procedidas pela Comissão da Verdade. Num dos nossos romances, Chaminés Dormentes, disponível na plataforma da Amazon, o terceiro, na trilogia sobre a industrialização têxtil no país tomando como referência a cidade-fábrica de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, abrimos um capítulo onde abordamos essa questão, relativo a dois casos emblemáticos, envolvendo um cidadão que desapareceu misteriosamente até hoje, em princípio, sem qualquer ligação com algum grupo de enfrentamento da ditadura militar. 

Um outro caso, relativo a um militante que morreu depois de ser submetido às frequentes torturas e, logo em seguida, sugere-se que ele havia morrido de outras causas que não em razão das torturas a ele infligidas. Havia médicos para emitiram esses laudos falsos. Este último caso chegou à Comissão da Verdade que, embora com suas limitações de origem, determinou que fosse emitido um laudo configurando que ele havia sido morto sob a tutela do Estado, depois de submetido às sessões de torturas e não havia resistido. 

Neste último volume da trilogia, como estamos tratando da década de 60, tornou-se inevitável as referências aos reflexos do Golpe Civil-Militar na cidade, onde havia, até mesmo, células do partido comunista atuando entre os operários da Companhia, organizadas pelo líder Gregório Bezerra. Outro fato marcante do período foi o Massacre da Granja São Bento, onde militantes da ALN foram eliminados fisicamente pelas forças repressoras comandadas pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, depois de serem delatados pelo infiltrado Cabo Anselmo. Entre os quais, Soledad Barret Vedina(foto acima), grávida de Anselmo, que deixou seu último poema, dedicado a sua mãe, reproduzido no romance. Estamos convencidos de que torturadores têm algum distúrbio neurológico sério. Fleury fez questão de passar pela famosa ciranda de Dona Duda, no Janga, antes de se dirigir ao local do massacre. Eles não tiveram a menor clemência com a gravidez de Soledad, encontrada dentro de um barril, com o feto que havia sido abortado, coberta de sangue. Convém a gente falar dessas coisas para aqueles que andam, irresponsavelmente, nas portas de quartéis exigindo intervenções militares.  

Editorial: A operação da PF no DNOCS da Bahia.


São curiosas as coisas neste país. Enquanto o presidente Lula suportava as intensas dores de cabeça e o cansaço para negociar com os líderes da Câmara e do Senado Federal a liberação das famigeradas emendas parlamentares, a Polícia Federal deflagrava uma mega operação na sede do DNOCS da Bahia, onde suspeita-se de desvios bilionário de verbas públicas em operações fraudulentas, envolvendo entes públicos e privados, através dessas mesmas emendas parlamentares. Um suspeito chegou a atirar uma mala com dinheiro vivo pela janela para não ser incriminado. Tudo em vão. Durante a operação, foram cumpridos 17 mandados de prisão, inclusive a de um dos ex-superintendentes do órgão. 

Em termos de emendas, são 186,3 bilhões de dinheiro público que escoa por tal expediente, de origem e destino incerto e não sabido. Em tais circunstâncias, não estranha os recorrentes casos de desvios de finalidades envolvendo tais emendas, a exemplo deste último no DNOCS da Bahia. Medidas tomadas pelo Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no sentido de impor regras republicanas às tramitações e prestação de contas dessas emendas estão se constituindo em verdadeiros obstáculos políticos junto ao Legislativo, onde se supõe que, quanto menos transparência melhor. Lula, por sua vez, sabe que se não conseguir o seu destravamento, mesmo em tais condições, pode esquecer a aprovação do pacote de ajustes proposto por Fernando Haddad. 

Preocupa sensivelmente a ampliação dessa fragilidade política do governo Lula3, ampliada a cada novo embate nas urnas. Depois que destravar as emendas, terá que abrir espaço na Esplanada dos Ministérios para atender às novas demandas políticas que dão sustentabilidade a essa frágil governabilidade. Frágil e incerta. Logo terá que se submeter às imposições do mercado, adotando o receituário por eles recomendados ou mesmo indicando alguém para conduzir a política econômica consoante suas diretrizes. Dilma já teria chutado o pau da barraca e deu no que deu. 

Charge! Pedro Vinício via Folha de São Paulo

 


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Editorial: O estado de saúde de Lula.

 


Sempre que uma autoridade pública é internada, submetida a algum procedimento cirúrgico, as especulações em torno do assunto são inevitáveis. Não poderia ser diferente me relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, ontem, segunda-feira, foi internado às pressas, sentido fortes dores de cabeça, segundo boletins médicos, decorrentes de uma hemorragia intracraniana. O presidente se submeteu a uma cirurgia com o propósito de realizar uma drenagem do sangue. Agora há pouco líamos o boletim médico emitido pelo Hospital Sírio Libanês, informando que o seu estado de saúde é estável. Assume a Presidência da República, na ausência do titular, o vice-presidente Geraldo Alckmin. É isso o que se sabe no momento. 

O quadro de saúde de Lula hoje é decorrente, provavelmente, da queda que ele sofreu há alguns meses, enquanto tomava banho, no Palácio do Planalto. As circunstâncias da queda, sim, ficaram muito mal explicadas, produzindo todo tipo de especulação ou ruídos em torno do assunto à época. As últimas movimentações ou gestos do morubixaba petista indicam que ele será o candidato das forças progressistas às eleições presidenciais de 2026. O quadro de saúde geral do presidente Lula, segundo os médicos que o acompanham, é muito bom, embora acidentes de percurso, como esta queda, por exemplo, possam fazer grande diferença. 

Sobretudo nesses momentos bicudos que o país atravessa, é uma temeridade contar com apenas uma grande liderança do campo progressista e republicano para travar o bom combate contra os assédios recorrentes da extrema direita. Eles possuem uma penca de nomes habilitando-se aos próximos pleitos presidenciais, enquanto do lado de cá, apenas Lula se apresenta como alternativa para enfrentá-los. Haddad, que no passado apresentou-se como alternativa, hoje se encontra enredado pelos problemas econômicos, quase sem chances de encontrar uma saída. 

Charge! Benett via Folha de São Paulo

 


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Editorial: Os espectros "T"emerários que rondam a capital federal.




O PT realizou recentemente o seu encontro em Brasília, onde algumas diretrizes ficaram estabelecidas, entre as quais a necessidade que se impõe no sentido de melhorar seus padrões de comunicação com a sociedade. Nesses encontros, marcados por uma profunda disputa interna e ideologização dos problemas, a autocrítica passa bem distante. No dia de ontem, 08, tivemos a oportunidade de acompanharmos uma profunda discussão em torno dos precedentes do que ocorreu em 2016, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi afastada do poder por se recusar a cumprir o receituário impostos por aqueles que haviam perdido as eleições. Dilma tornou-se tão fragilizada politicamente que teve que engolir nomes indicados pelo mercado para gerir as políticas econômicas. 

Mesmo diante de circunstâncias tão adversas, Dilma Rousseff cutucou o diabo com vara curta, como se diz popularmente. Este pacote de ajuste fiscal - que alguns consideram que de ajuste fiscal não tem nada - representou um ponto de inflexão importante para o PT. Informam algumas coisas, como a bílis permanente que o partido destila contra o mercado, onde não ocorreu nenhuma retração, assim como uma nova candidatura do morubixaba petista nas eleições presidenciais de 2026. As ebulições políticas que estavam ocorrendo em 2015, um ano antes do impeachment de Dilma Rousseff, sobretudo quando se toma como referência essa queda de braços do Governo com o mercado, assim como a conjuntura política sensivelmente delicada que o Governo Lula enfrenta, lembra muito o que ocorreu em 2016. 

Desta vez com alguns agravantes, ou seja, a temperatura alta na caserna, seja em razão das mudanças propostas em relação à aposentadoria, seja em relação ao esfriamento da tentativa de golpe de 2022, quando será necessário que os civis punam exemplarmente os militares envolvidos. Em termos de arranjos políticos, se Lula perder o apoio de parte do Centrão, a situação entra numa espiral perigosa. Para assegurar tal alinhamento governamental, por outro lado, vai precisar abrir espaços estratégicos, talvez tendo que ceder o Ministério da Saúde, um dos mais cobiçados em razão das verbas que movimenta. Imaginem a encrenca com a base de sustentação histórica. Tirar Nísia Trindade para entregar a pasta a alguém indicado por Lira ou talvez o próprio Lira, como se especula.  

Charge! Aroeira via Facebook.

 


Editorial: A comunicação do PT.

Crédito da Foto: Fábio Rodrigues. 


De fato, deve haver algo errado com a comunicação institucional do Governo Lula3. Somente com a emissora do plim plim o Governo já gastou, nesses dois anos, em publicidade institucional, mais do que todos os quatro anos do Governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foram 177,2 milhões, consoante dados divulgados pela revista Veja. Mas, em princípio, não é nosso objetivo entrar aqui nessas miudezas de alguns milhões. No último encontro da legenda, ocorrido recentemente em Brasília, os problemas de comunicação foram um dos temas mais debatidos pela militância. Algumas questões fazem sentido, como a constatação de que as boas realizações da legenda precisam chegar ao conhecimento da população. Um bom exemplo disso são os dados do IBGE, que evidenciam a diminuição da pobreza no país, a melhor performance na série histórica, conforme o presidente do órgão, Márcio Pochmann. 

Sabe-se que órgãos da grande imprensa, alguns deles já de rabo preso com os projetos conservadores, não têm grandes interesses em dar os créditos ao partido. Por outro lado, os investimentos na comunicação pelas redes sociais - onde o partido apanha feio da extrema direita - são bem-vindos, mas há três problemas que se apresentam: a) Conforme enfatizamos por aqui em outras ocasiões, hoje não se trata apenas do como dizer, mas sobre o que dizer. Algumas narrativas do partido ficaram caducas ao longo dos anos, impondo-se a necessidade de mudanças programáticas que se reflitam no seu discurso, reestabelecendo esse link com amplos segmentos sociais, que hoje viram a cara para o partido. Apenas proceder mudanças de nomes na condução da publicidade institucional não irá resolver este problema. b) São bem-vindos as preocupações com as redes sociais, terreno fértil utilizado pela extrema direita, mas é preciso entender as limitações da legenda neste campo, operado magistralmente pela extrema direita, sobretudo a partir de 2013, sempre contando com uma forcinha inestimável desse tal de algoritmo. Eles nadam de braçada por ali, e isso não se resolve apenas com a contração de um influencer amigo ou coisa parecida. Leva tempo e estratégia adequada para equilibrar essa correlação de forças. A extrema direita entrou por aqui com muito planejamento estratégico. Nada foi feito de improviso. Eles estão atacando as resistências das forças do campo democrático e progressistas em várias frentes, de forma coordenada, e as redes sociais podem ser apenas a ponta do iceberg. c) Disputam internas geralmente turvam os raciocínios mais coerentes. Difícil afirmar, com precisão, se a questão da comunicação institucional seja o grande gargalo do Governo Lula3. Sugere-se que há outras questões, igualmente importantes, que possam estar sendo ignoradas. 

domingo, 8 de dezembro de 2024

Charge! Renato Aroeira via facebook

 


Editorial: Os planos "A", "B" e "C" da direita é o próprio Bolsonaro?



É curioso o cálculo político do ex-presidente Jair Bolsonaro em relação às eleições presidenciais de 2026. Na medida em que as encrencas jurídicas se ampliam, ele reforça a disposição de se tornar o candidato único do campo conservador às próximas eleições presidenciais. Por inúmeros fatores, é muito pouco provável que ele esteja naquela disputa. Sugere-se que seja mais um impulso ou um desejo pessoal. A tábua de salvação talvez seja mesmo as articulações no Legislativo no que concerne ao PL da Anistia, em estágio avançado negociações, em razão da disputa pela Presidência da Casa, mas, mesmo assim,  algo ainda incerto, principalmente depois que Hogo Motta sentar no trono.   

Os arranjos indicam que a tendência é o próprio sistema político expelir o ex-presidente Jair Bolsonaro. Pesquisas recentes apontam que 93% do mercado já teria batido o martelo em favor do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Já se conjugam em torno desse ator uma confluência de forças que alicerçam um consenso conservador em torno do seu nome. Ele está sendo lapidado para o cargo, mas alguns dos seus apoiadores diretos acreditam que o momento certo é 2030. Bolsonaro, aliás, na percepção de Gilberto Kassab, estaria dando o termômetro dessa largada de Tarcísio de Freitas rumo ao Planalto. Sugere-se que nem a direita suporta essa intempestividade do ex-presidente Bolsonaro. Na prática, mesmo com as fragilidades das instituições democráticas, oriundas das investidas autoritárias recentes, é improvável que alguém com alto risco de incertezas, a exemplo de Bolsonaro, passe no escrutínio do sistema político. 

A fala recente, afirmando que seria o plano A , B e C é do próprio Bolsonaro, desestimulando disputas internas no campo conservador, inclusive a do filho Eduardo Bolsonaro. Independentemente de Bolsonaro disputar as próximas eleições presidenciais, as forças do campo conservador estão muito bem arregimentadas, enquanto as fragilidades do campo progressista são evidentes. É uma tendência e eles continuarão a fazer um barulho cada vez mais ensurdecedor daqui para frente, seja com o capitão, seja com algum outro nome. 

Editorial: O encontro do PT.


Ao longo dessas quatro décadas de existência, o PT mudou bastante, mas guarda, ainda, algumas características de sua origem, quando as cartas de sua fundação foram jogadas no Colégio Sion, naquela histórica reunião no dia 08 de fevereiro de 1980. O cientista político italiano Ângelo Panebianco dizia que, por mais que uma instituição política sofra mudanças ao longo de sua existência, algumas coisas permanecerão perenes. Isso tem um lado bom e um lado ruim. São esses grupos mais autênticos ou orgânicos da legenda que ainda preservam os valores da democracia interna do partido; resistem ao processo de crescente burocratização\oligarquização; assim como mantém os laços - ainda que hoje precários - com os movimentos e entidades sociais de base, alicerce da criação da legenda. 

O lado ruim é que segmentos do partido, de alguma forma, ainda mantém o sotaque da militância, impedindo que alguns dos seus membros enxerguem o processo político de uma maneira mais ampla e consequente. A responsabilidade fiscal, por exemplo, é uma questão de ajustes de contas públicas. Não pode ser encarada como uma sabotagem do mercado contra o governo ou coisa que o valha, como se sugere neste último encontro da legenda, ocorrido no último dia 07. É uma continha simples. Sugere-se, para as famílias e para o ente público, não gastar mais do que se arrecada. Nos últimos meses a inadimplência aumentou sensivelmente, como consequência desses desajustes. Fala-se dos juros altos, mas a decisão de endividar-se é do indivíduo. Rolar a fatura do cartão, por exemplo, pode trazer consequências desastrosas para as finanças domésticas. 

O Governo Lula3 está se endividando, estourando o orçamento para honrar os programas sociais. Nada contra os programas redistributivos de renda, que, aliado a melhoria dos índices de emprego, estão dando sua contribuição inestimável para a diminuição da pobreza no país, um feito que o governo pode comemorar. Agora é preciso entender que as contas públicas em desordem podem colocar  tudo a perder, com o dragão da inflação à espreita hoje já nas gôndolas dos supermercados, esperando apenas o momento certo para lançar suas chamas, penalizando, sobretudo os mais pobres, que não possuem investimentos rentáveis para proteger-se.

Charge! Benett via Folha de São Paulo

 


sábado, 7 de dezembro de 2024

Editorial: Governo Lula comemora diminuição da pobreza no país.

 


Um dos grandes problemas de nossa democracia política diz respeito às profundas desigualdades sociais que o país ainda enfrenta, naquilo que os especialistas denominam de democracia substantiva ou econômica. Esta relação é tão orgânica que o cientista político polonês Adam Przeworski, em suas pesquisas, chega a concluir que a renda per capita é um fator determinante para a sobrevivência de um regime democrático. Ou seja, se há uma boa distribuição de renda para a população, as chances das aventuras golpistas ou retrocessos autoritários diminuem sensivelmente. Os governos petistas podem se orgulhar de ter dado uma grande contribuição à democracia do país neste sentido. 

O programa de cotas, por exemplo, que permitiu o acesso ao ensino superior de expressivos contingentes da população pobre brasileira, ao longo desses 524 anos de Brasil, foi o único indicador onde se verificou mudanças significativas em relação à população negra. Na realidade, o único indicador onde esta população avançou foi no acesso ao ensino superior. Um feito gigantesco em termos de combate às desigualdades. Curioso que um grande jornal paulista, ao se debruçar sobre este indicador, para não dar os créditos à gestão petista, se refere genericamente à décadaEm 2023, 8,7 milhões de pessoas deixaram a pobreza no país, conforme dados recentes do IBGE, como resultado concreto de melhoria dos níveis de emprego e igualmente decorrente dos programas redistributivos de renda. 

O pacote de ajuste fiscal, conforme discutimos ontem por aqui, deixou 90% do mercado insatisfeito. Dissemina-se a falsa versão de que o Governo Lula3 tenha algo contra o setor produtivo. Por outro lado, é nítida a opção do PT em continuar com a sua política econômica histórica, independentemente do humor do mercado financeiro. Agora, é preciso dizer que há equívocos nessa linha de raciocínio, que pode conduzir o país a uma recessão. O plano é uma colcha de retalhos, uma vez que atinge cortes que, igualmente, desagradaram bastante a base de sustentação histórica do petismo, daí nossa conclusão de que tanto a Faria Lima quanto o Beco da Fome não ficaram plenamente satisfeito com as tesouradas. 

Charge! Marília Marz via Folha de São Paulo

 


sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Editorial: Ninho de intrigas entre os conspiradores.


Sugere-se que já entramos na fase do dilema do prisioneiro no que concerne aos envolvidos na trama golpista recente. Na terça-feira, a Polícia Federal voltou a ouvir o ex-ajudante de ordens da Presidência da República no Governo Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid. Antes mesmo de sua oitiva, passaram a circular um monte de informações pela imprensa, todas relativas aos atores envolvidos na tentativa de golpe. Com o passar dos anos, vamos sentir falta de um René Armand Dreiffuss, que procedeu um esmiuçamento tão rigoroso sobre o golpe civil-militar de 1964, ajudando-nos a esclarecer alguns fatos inéditos que estiveram por trás dos bastidores do que fora oficialmente divulgado. 

Oxalá, surjam novos pesquisadores com o seu rigor científico e disciplina para se debruçaram sobre os arquivos, relatórios, dossiês, áudios sobre este caso mais recente, uma vez que há bastante desencontro de informações, algo que talvez esteja sendo plantado propositadamente pelos próprios atores envolvidos. Hoje se fala numa espécie de suposto espião do Judiciário entre a tropa, assim como eventual comandante militar, que exercia papel estratégico à época, que teria dado sua anuência às tessituras golpistas, mas não está arrolado nos relatórios. 

Alguns foram atacados veementemente por golpistas e bolsonaristas radicais, seja nos convescotes intramuros, seja nas redes sociais, como foi o caso do então Chefe do Estado-Maior do Exército, o general Valério Stumpf Trindade, que se recusou a ingressar na aventura golpista, cumprindo seu dever de zelar pelos princípios constitucionais e legalistas inerentes à tropa. Uma atitude cívica louvável, porém mal interpretada por aqueles que defendiam um golpe de Estado no país, que atacaram sua honra injustamente. O general afirma que, não apenas ele, mas membros de sua família também foram atingidos pelos petardos desferidos pelos militantes golpistas. 

A Polícia Federal já indiciou 37 e, pelo andar da carruagem, cabe mais gente neste trem golpista. Os envolvidos estão fazendo um jogo que busca inverter a ordem natural das coisas, ou seja, golpistas dando uma de vítimas, tentando imputar a culpa naqueles que se recusaram a entrar nesta canoa furada. A PF, no entanto, com maestria, vai emendando os fios soltos, observando as contradições, apurando novos fatos, realizando diligências e oitivas no sentido de desvelar toda a trama que esteve por trás de mais uma tentativa de golpe de Estado no país. 

Editorial: 90% do mercado não aprova pacote de Lula.


A notícia acima, depois de uma pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, caiu como uma bomba no colo da Direção Nacional do PT, que reagiu com veemência a tal informação. Não se briga com os números. A insatisfação de amplos setores do mercado em relação ao pacote de ajuste fiscal anunciado pelo Governo Lula3 deixou, é algo pacificado, deixando muita gente decepcionada, inclusive com declarações públicas, como foi o caso do empresário Rubens Ometto, que, numa linguagem talvez pouco formal ao campo onde atua, taxou um "Estamos ferrados". Na realidade, na rinha interna do Governo, venceu a ala que abomina o mercado, destilando contra essa entidade a mesma bílis dos tempos de bancos acadêmicos ou da militância partidária, esquecendo que agora precisam assumir a responsabilidade de governo. Infelizmente é isso. 

Não se motivos, logo após o anúncio o presidente Lula retomou o diálogo com a sua base histórica de apoio, de olho nas eleições de 2026, sinalizando que não se submeterá às amarras impostas pelo ajuste fiscal. Gleisi Hoffmann, a Presidente Nacional do PT, fez um pronunciamento contundente contra a pesquisa, mas os números refletem, na realidade, este momento atual, onde se impõe um ajuste rigoroso das contas públicas, com eventuais implicações sobre as políticas desenvolvidas pela governo, mas que se configura como urgente e absolutamente necessário.  Sobrevivendo à tempestade, com as contas arrumadas, retomando os investimentos, com credibilidade, melhorando a arrecadação de impostos, seria o momento mais oportuno para distribuir renda, combater as desigualdades sociais. A conta é simples, mas os petistas mais radicais veem na adoção desse receituário uma conspiração do mercado para atrapalhar o projeto de poder do partido. 

A necessidade desse ajuste fiscal representou um ponto de inflexão na legenda. Foi o momento onde as cartas para as eleições presidenciais de 2026 foram postas nas mesas. Reforma ministerial para os ajustes políticos - talvez incorporado segmentos evangélicos sob a crença de isso seja suficiente para reverter a demonização do PT neste nicho eleitoral ; reaproximação com a sua base histórica de apoio, como os Sem Terra, indígenas e quilombolas; ajustes de gastos aqui e ali, tudo muito pontual, bem distante do desejável.  

Charge! Cláudio Mor via Folha de São Paulo

 


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Charge! Renato Aroeira via Brasil 247

 


Editorial: As nuvens cinzentas que rondam o país.



Num país onde um simples twitter - ainda era Twitter - emitido por uma autoridade militar - foi capaz de produzir um rebuliço na república, é preciso analisar com muita prudência esse vídeo da Marinha Brasileira acerca das mudanças propostas pela equipe econômica no tocante à reforma da aposentadoria dos militares. Principalmente depois da divulgação da relatório da Polícia Federal sobre as tessituras de mais uma aventura golpista no país. O país ainda se encontra caminhando sobre areia movediça, mergulhado numa instabilidade institucional, sob o assédio de forças da extrema direita, cada vez mais fortalecidas interna e externamente. Antes tal constatação fosse apenas o resultado dos delírios de uma mente perturbada pela teoria da conspiração. Não é. Mesmo uma tentativa de golpe atabalhoado se monta sobre dispositivos, em princípio, bem estruturados e terrenos férteis. Sabe-se lá se, depois de punidos os responsáveis, as forças do campo democrático reunirão as condições políticas suficientes para removê-los. Aquela varredura necessária que se impõe para limpar o terreno. Neste momento, por exemplo, faz sentido as inquietações acerca das eleições presidenciais de 2026.   

Há ainda o agravante de o vídeo haver sido veiculado por uma das Forças que, segundo o próprio relatório da PF, havia um comandante implicado por suposta adesão ao projeto de ruptura institucional. O Ministério da Defesa havia tomado conhecimento deste vídeo com  antecedência? autorizou-o?  São questões muito mais relevantes do que o teor do vídeo em si, onde questiona-se eventuais privilégios dos militares em relação ao civis no tocante à aposentadoria. O teor do vídeo é coisa para cineastas e não para cientistas políticos, que devem se ater às circunstâncias ou entrelinhas de sua veiculação neste momento, estas sim relevantes para medirmos a temperatura do embate que se trava entre as forças republicanas, legalistas, democráticas e constitucionalistas e aqueles atores que desejam uma ruptura da ordem democrática. 

Sugere-se que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tenha gostado da nota, mas não houve uma manifestação mais contundente do Palácio do Planalto em relação ao assunto. A Presidente Nacional do PT, a deputada federal Gleisi Hoffmann, por sua vez, condenou veementemente o vídeo veiculado pela Marinha do Brasil. Antes se dizia que o partido não se manifestava sem a anuência do morubixaba. Hoje, já não temos tanta certeza assim, em razão das disputas internas. Gleisi gostaria de fazer um sucessor nordestino, enquanto o grupo de Lula e Dirceu preferem o nome de Edinho Silva. João Pedro Stédile, antes um aliado de primeira ordem, já está sendo malhado depois das críticas à gestão do Governo Lula3 que, segundo ele, distancia-se cada vez mais dos anseios de sua base histórica de sustentação.  

Charge! Laerte via Folha de São Paulo

 


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Editorial: O drama da violência policial crescente no país. Tropa sem controle.



Uma declaração recente do ouvidor da Polícia Militar de São Paulo, indignado com uma ocorrência recente, quando um policial militar atirou de uma ponte um jovem motoqueiro, ainda não entendemos em que circunstâncias, mas sem registro policial, dá a dimensão do drama que o país enfrenta neste momento no tocante à violência policial. Cláudio Aparecido da Silva, depois de determinar as providências republicanas que se esperava de sua função, declarou que a a tropa estava descontrolada. De imediato, o governador Tarcísio de Freitas e o Secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite determinaram o afastamento de 13 policiais de alguma forma envolvidos com o caso. 

Mas tudo é ainda muito confuso, pois logo em seguida falou-se uma ouvidoria paralela. Ouvidoria paralela? No dia de hoje, 04, novas cenas de excessos, com vários policiais militares espancando um outro motoqueiro foram mostradas nas redes sociais, evidenciando as preocupações do ouvidor Cláudio Aparecido da Silva. De São Paulo a Pernambuco. Ainda repercute uma ação insana de um policial militar que atirou e matou um motoboy que o havia transportado até a sua residência. O policial militar se recusou a pagar os R$ 7,00 da corrida e atirou no rapaz.

Os gestores públicos precisam tomar cuidados redobrados em relação a essas questões. Às vezes, um simples posicionamento em relação à defesa da tropa pode ser mal interpretado como uma licenciosidade, uma permissividade, abrindo espaço para esses excessos. É essa atmosfera nebulosa que vem produzindo seus efeitos danosos para a população brasileira. O terreno é pantanoso, sensível, suscetível, inclusive, às aventuras golpistas que levantam sérias preocupações sobre o futuro. 

Charge! Via "X".

 


Charge! Renato Aroeira via Brasil 247

 


Charge! Pedro Vinício via Folha de São Paulo

 


Editorial: A banalização dos acordos de delações premiadas.

 


Os acordos de delações premiadas, por motivos que escapam à nossa alçada, estão sendo banalizados no país. A anulação dos acordos celebrados neste sentido no curso da Operação Lava Jato, todos praticamente anulados posteriormente, deram sua contribuição neste aspecto. O mais recentes, como os do ex-militar Ronnie Lessa, autor confesso do assassinato da vereadora Marielle Franco, assim como o do ex-ajudante de ordens da Presidência da República no Governo Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid, também tiveram seus problemas. Neste último caso, a Polícia Federal teria recomendado ao Supremo Tribunal Federal reavaliar o acordo, depois que verificou que algumas informações foram suprimidas pelo beneficiário. 

Como a imprensa vaza tudo, segundo dizem, no encontro com o Ministro Alexandre de Moraes, ele já teria preparado a mala para uma nova determinação de prisão. A oitiva foi positiva e o acordo foi mantido pelo ministro. Pelo andar da carruagem política, com todo mundo querendo tirar o corpo fora da tentativa de golpe, novos acordos de delação premiada estão sendo cogitados. O general Mário Fernandes, acusado de ter participado das tessituras golpistas de acordo com relatório da Polícia Federal, certamente insatisfeito com a linha de defesa que vem sendo adotada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, supõe-se que teria manifestado o deseja de fazer delação sobre o caso. 

Estaria sendo aconselhado neste sentido pela sua família e por sua defesa. Fernandes estaria muito abalado psicologicamente. Um fato curioso é que o Exército teria vetado o acesso à sua dissertação de mestrado. Isso vem repercutindo enormemente pela imprensa, principalmente numa era dos repositórios, onde as universidades públicas e privadas fazem questão de dar publicidade aos trabalhos dos seus alunos e alunas dos programas de mestrado e doutorado. Salvo melhor juízo, um jornal das Alterosas antecipou-se ao veto e divulgou o teor do que fora discutido na dissertação. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

PEC do corte de gastos chega ao Congresso | Política na Veia AO VIVO

Charge! Benett via Folha de São Paulo

 


Editorial: Rubens Ometto: "Estamos ferrados".


Principal acionista e Presidente do Conselho de Administração da COSAN, um dos maiores grupos empresariais do mundo, o empresário Rubens Ometto declarou, num encontro recente entre empresários e o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao analisar o pacote do Governo Lula3, que "Estamos ferrados". Fomos assistir o vídeo onde o empresário fala com tanta espontaneidade sobre um assunto tão sério, o ajuste fiscal reclamado pela sociedade brasileira, que, caso não se materialize, pode levar o país a uma situação de caos econômico, de consequências funestas. Falando assim, sugere-se que começamos o dia como oráculo do fim do mundo. Antes fosse apensas pessimismo. Não é. Já há economistas prevendo aumentos sensíveis da inflação nos próximos meses. Não há parâmetro mais seguro para a aferição do humor deste monstro do que as gôndolas dos supermercados. 

Isoladamente, Rubens Ometto foi o principal doador de campanha do PT nas eleições presidenciais de 2022, quando Lula foi eleito. Isso não vem ao caso, uma vez que o empresário fez doações generosas aos demais candidatos. É uma política do grupo. Nas entrelinhas de sua fala, percebe-se a sua postura crítica ao plano posposto pelo governo, anunciado de forma atabalhoada, com uma cosia dentro da outra - talvez para minimizar as verdadeiras intenções - que ele considera que sinaliza muito mais a intenção de gastar do que cortar gastos. 

Não desejamos nos alongar sobre o assunto, uma vez que, por inúmeros momentos emitimos a nossa modesta opinião sobre o tema. Na queda de braços, a ala política do Governo Lula3 saiu vitoriosa sobre a equipe econômica. Com toda a desgraça, o Governo Bolsonaro entregou o governo com superávit fiscal, acima de 5o bilhões. Começaram a estuporar antes mesmo da posse do terceiro mandato do morubixaba. Enterrou-se a opção Haddad antes mesmo do que se esperava. Lula vai tentar um quarto mandato. Nos corredores de Brasília já se especula sobre quem seria o vice ideal, uma vez que Geraldo Alckmin não está bem cotado nas bolsas de apostas. Apertem o cinto.  

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O fogão dos sonhos no traço do Renato Aroeira.

 


Editorial: Ainda a polêmica em torno da aposentadoria dos militares.


No país do hímen complacente ou onde tudo se resolve com um tapinha nas costas, não causa surpresa os rumores em torno de gestões que estariam sendo perpetradas no sentido de minimizar os estragos na tropa em relação àqueles militares que estariam envolvidos nas tessituras golpistas mais recentes. Além de uma punição efetiva, a sociedade brasileira exige que medidas sejam tomadas no sentido de minimizar a possibilidade de novas armações antidemocráticas e inconstitucionais. Isso implica, naturalmente, numa reestruturação na caserna, que passa, necessariamente sobre o aspecto de formação dos militares. 

A questão da aposentadoria não passa por tal preocupação. A questão aqui diz respeito a dinheiro mesmo. Ou, para sermos mais preciso, pela  ausência dele. Há um déficit gigantesco e é preciso estancar a sangria de alguma forma. Há distorções entre as aposentadorias entre servidores civis e militares e elas precisam serem corrigidas. Quando o servidor público civil se aposenta, já com idade acima dos 60 anos, continua com descontos previdenciários em seus vencimentos, o que se constitui numa excrescência. Já existem alguns movimentos no Legislativo no sentido de rever essa contribuição pós aposentadoria.  

Ao morrer, existe hoje uma série de dispositivos legais, todos no sentido de subtrair seus vencimentos, que caem, em média, pela metade. Isto é resultado das sucessivas reformas previdenciárias impostas sobre os servidores civis, às quais os militares sempre estiveram ausentes. Foi em razão deste histórico que concluímos sobre os ruídos que este tema iria provocar entre a tropa. A Marinha lançou uma nota contrariando aquilo que eles consideram que esteja sendo tratado como privilégios. Exército e Aeronáutica não se manifestaram, mas sabe-se que o drama é o mesmo. Mexeu-se num vespeiro e o Planalto deveria ter em mente o tamanho da encrenca.  

Salvo melhor juízo, o raciocínio não se aplica aos militares que, quando se aposentam, em alguns casos, são promovidos ou dados como mortos, inflando seu proventos. A União gasta uma fábula com as filhas dos militares que não se casaram, que podem herdar a pensão dos pais falecidos. Matéria do Estadão verificou que uma delas receberia a quantia de R$ 117 mil reais por mês. A União gastou em 2020 R$ 19 bilhões somente com essas viúvas. 60% do montante gasto com a aposentadoria dos militares é para pagar essa conta.