pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO. : Editorial: O diário secreto de Herman Theodor Lundgren.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Editorial: O diário secreto de Herman Theodor Lundgren.

 




Há alguns anos, escrevemos uma série de três romances históricos\ensaísticos\memorialistas sobre a industrialização têxtil no Nordeste brasileiro, tomando como referência o caso específico da cidade de Paulista, localizada na Região Metropolitana do Recife, que, em seu apogeu, se tornaria num dos maiores polos têxteis não apenas do Brasil, mas da América Latina. Tudo o que ocorria na indústria têxtil no Brasil e no mundo, se refletia naquele parque industrial erguida pela família Lundgren em terras pernambucanas, ainda no início do século passado, ou seja, 1900, quando patriarca do grupo, o sueco Herman Theodor Lundgren, que havia feito fortuna trabalhando no Porto do Recife, adquiri centenas de hectares de terras na região e uma modesta fábrica de sacarias para embalagem de açúcar. 

O primeiro desses romances, Menino de Vila Operária, abarca o período que vai de 1900 a 1930, do início das atividades até o seu apogeu. O livro, publicado depois de conquistar o primeiro prêmio literário do escritor, encontra-se com a sua primeira edição esgotada. Outro dia, para nossa alegria, ficamos sabendo através das redes sociais um dos seus exemplares encontra na Biblioteca de Washington. Na realidade, nossa grande satisfação foi vê-lo circulando na rede de bibliotecas públicas do estado da Paraíba, cumprindo o seu verdadeiro papel, ou seja, o de fomentar o hábito de leitura e formar a consciência crítica de uma legião de leitores. O segundo romance, Memórias de uma Cidade Tecida, trata do período que vai de 1930 a 1960, quando, por uma série de fatores abordados no texto, as indústrias dos Lundgren enfrenta as dificuldades inerentes do setor naquele período, as indisposições com a ditadura do Estado Novo e, não menos importante, o despertar da consciência de classe dos operários locais, naquilo que denominamos de microfísica da resistência, nos apropriando de um conceito do filósofo francês Michel Foucault. 

Não se trata apenas de uma rebelião acerca das precárias condições de trabalho a que esses operários eram submetidos no interior das fábricas, mas ao próprio Sistema Paulista, ou seja, uma gestão da vida dos operários em todas as dimensões: econômica, política, social e religiosa. As fábricas eram dos Lundgren, assim como a vila operária, as terras, as matas, os armazéns, onde os operários realizavam suas compras de víveres e ficavam dependentes deste sistema eternamente, através das concessões de "vales", uma espécie de moeda sem valor algum fora da vila operária. Um processo de dependência absoluta, denominada pelo antropólogo José Sergio Leite Lopes como O Sistema Paulista. Sobre este tema em particular, cumpre aqui registrar uma suposta carta atribuída ao comendador Herman Lundgren, onde se refere aos operários e operárias como "unidades produtivas". 

O terceiro romance, Tramas do Silêncio, como o próprio nome sugere, trata da decadência da indústria têxtil na cidade, que, a partir de um determinado momento - acompanhado a crise no setor em todo o país - entra numa debacle que não teria mais retorno, até sua falência definitiva na década de 1980. Como se trata de um período historicamente emblemático para o país, analisamos os reflexos do Golpe Civil-Militar de 1964 sobre a cidade, que também deixaria suas marcas indeléveis, com denúncias de tortura, o Massacre da Granja São João, presos e desaparecidos políticos. Para construirmos essa narrativa, nos orientamos por inúmeros textos acadêmicos, ancorado, quase sempre, pelo trabalho minucioso realizado pelo antropólogo José Sergio Leite Lopes, sua tese de doutoramento, A Tecelagem do Conflito de Classe na Cidade das Chaminés. Certamente o livro mais bem documentado sobre o assunto. Uma referência obrigatória em qualquer estudo acerca deste tema. 

Este último romance, o terceiro do ciclo, tem algumas discussões interessantes acerca dos precedentes do Golpe Civil-Militar no país, principalmente no que concerne à organização da classe operária no município, embalada por um momento político sensivelmente favorável, com uma consciência de classe aguçada e com o apoio dos governos federal e estadual, na pessoa do Dr. Miguel Arraes de Alencar, então governador do Estado, que não permitiu que sua Polícia Militar reprimisse os trabalhadores em sua luta por reivindicações legítimas da categoria. O que se segue a este período já é História, mas cumpre registrar as consequências políticas para a Vila Operária daí decorrentes, como uma perseguição implacável ao movimento sindical e suas lideranças. Antes disso, porém, havíamos organizado um programa de alfabetização de adultos na Vila, que contou com Paulo Freire em sua aula inaugural. 

Achávamos que havíamos esgotado o assunto, mas ontem, assistimos durante uma hora um documentário apavorante sobre o "apagamento" da História de alguns aspectos da presença da família Lundgren na cidade. Alguns desses aspectos sombrios narrados no documentário sequer são registrados no livro do antropólogo e, consequentemente nos nossos romances, que tomou o livro como referência dos dados históricos. Vale aqui fazer algumas ressalvas, no entanto. Alguns desses fatos só seriam revelados muito depois, sob os escombros das fábricas de tecidos, como, por exemplo, os túneis encontrados depois de escavações realizadas por trabalhadores do município. 

Quando escrevemos os  nossos romances, isso era dado apenas como algo folclórico, inventado pelos moradores da Vila Operária, creditado ao imaginário social. Os túneis de fatos existiam, ligando a linha de produção da Companhia até a residência dos Lundgren, com  um acesso ao Porto Arthur e, finalmente, ao Rio Paratibe. Com que finalidade, afinal, eles foram construídos? No nosso primeiro romance, o Menino de Vila Operária, alimentando o folclore popular em torno do tema, até o líder nazista Adolpho Hitler teria feito uma visita secreta à família Lundgren, em Paulista, e chegado através de um desses túneis, possivelmente o do Porto Arthur. Aqui começa um histórico nebuloso de "apagamento" sistemático da História local. Antes mesmo de investigar sequer as rotas existentes, suas extensões, o poder público municipal mandou soterrar os túneis, construindo por sobre eles. 

O fato mais nevrálgico ocorreria, no entanto, ente 5 e 7 de março de 1963, um ano antes do golpe militar, portanto. Um dia antes, os trabalhadores realizaram uma espécie de motim, deixando de comparecer, em massa, à linha de produção das fábricas de tecido. O que se sucedeu está envolto até hoje em grande mistério. Há relatos de um médico, concedido a um professor da UFPE, falando sobre dezenas de operários feridos, atendidos por ele,  assim como a presença maciça de carros militares no entorno da Vila Operária. Não há qualquer menção ao assunto no livro de José Sergio Leite Lopes. Por esse época, os operários já eram bastante politizados, em razão de sucessivos processos grevistas ocorridos na Companhia. Tão politizados que, mesmo quando a Companhia estava funcionando, eles pararam suas atividades para emprestar solidariedade aos operários em greve da Fábrica da Macaxeira, no Recife. Nunca saberemos a dimensão correta do que ocorreu naquela episódio. 

Há registros de cemitérios clandestinos encontrados durante escavações de servidores da prefeitura, por ocasião de obras de saneamento na antiga Vila Operária. Numa dessas valas foram encontrados esqueletos de aproximadamente 15 a 25 pessoas com marcas de tiro em alguns deles. A Medicina Legal iniciou as investigações, mas logo em seguida interrompeu os trabalhos. Como não temos dados precisos sobre o assunto - até porque se tivéssemos teríamos abordados em nossos textos - recomendamos aos leitores assistirem ao documentário A História Proibida do Casarão dos Lundgren: O cemitério que o Governo lacrou, disponível no canal do Youtube Patrimônios Imperiais. Tirem suas próprias conclusões. Isso evita que cometamos o erro de transmissão de notícias falsas ou imprecisas. 

Como já criamos couraça para as injustiças, o fato que mais nos chamou a atenção no documentário foi um achado - igualmente depois de escavações procedidas por funcionários da Prefeitura Municipal de Paulista, de um baú, ainda preservado, onde, no seu interior, bastante protegido por capas de couro, alguns escritos deixados supostamente pelos operários da Companhia, onde se lia em destaque a expressão: Para que vocês saibam que resistimos. Perdão pela imprecisão na descrição da frase correta, daí a necessidade, mais uma vez, de ver o documentário. Durante a sua pesquisa de doutoramento, traduzida no livro aqui já citado, o antropólogo José Sérgio Leite Lopes faz referência a um outro texto de memórias produzidos por um operário da Companhia e entregue a ele. Esse texto rendeu muitas tintas acadêmicas. 

Um fato alvissareiro é que, diferentemente dos outros apagamentos, o teor dos documentos encontrados neste baú estaria no Arquivo Público Estadual. O documentário traz alguns fatos curiosíssimos, como uma referência aos diários do comendador Herman Theodor Lundgren, assim como sobre a doação de sua biblioteca particular à Biblioteca Pública Municipal, de onde, misteriosamente, de um montante de tantos livros inicialmente doados, um outro montante expressivo teria sido, supostamente, apagados dos registros. Assistem ao documentário e, principalmente, leiam os nossos três romances sobre o assunto, disponíveis na plataforma da Amazon, que podem ser acessados clicando na foto das capas que aparecem no canto esquerdo deste blog. 

Aqui cumpre fazer alguns esclarecimentos acerca de nossa referência à presença de Adolph Hitler na cidade, sobretudo em razão das especulações em torno de uma suposta simpatia da família Lundgren pelo Nazismo. O assunto é controverso, mas nada que se possa inferir como procedente. Confessamos termos lidos teses acadêmicas afirmando categoricamente que sim, ao passo que outros estudiosos descartam completamente tal possibilidade. Não há elementos para afirmar que sim. É possível que entre os engenheiros "galegos" - apelido dado pelos operários aos engenheiros alemães que trabalhavam na indústria têxtil - houvesse alguém que simpatizasse pelo Nazismo. Mas só isso. Nem mesmo o DOPS - A Polícia Política do Estado Novo - com seus inúmeros prontuários sobre os movimentos de estrangeiros na Companhia - conseguiu encontrar uma evidência que ligasse os Lundgren ao Nazismo. 

Uma das melhores satisfações para quem escreve é o feedback dos seus leitores. Um dos nossos maiores prazeres como estudante era quando o professor e poeta Marcus Accioly, depois de recomendar a leitura de algum livro, levava o autor à sala de aula para debater com os alunos. Marcus era professor de Teoria Literária, no Curso de Letras da UFPE. Nos preparávamos com esmero para os debates. Outro momento de grande satisfação era encontrar com Gilvan Lemos, aos sábados, na tradicional batida de maracujá na antiga Livro 7. Esses encontros estão registrados no último tomo dos romances, ou seja, Tramas do Silêncio. Ambos já faleceram. É uma espécie de homenagem. Enviem seus feedback depois das leituras. 

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