quarta-feira, 28 de junho de 2017

Publisher: The best defense is the attack.


Resultado de imagem para michel temer


The advisers of President Michel Temer (PMDB) say that he is painted for war, that is, he will use all the resources he still has to get rid of a bigger trouble in the STF, where his fate would be uncertain, if The Federal Chamber authorizes the first request of investigation against him, formulated by the Attorney General's Office, where he is accused of the common crime of passive corruption. The Attorney General, Rodrigo Janot, has no doubt, especially from the information provided by the Federal Police, that the money of the suitcase was even for the president. The technical expertise performed in the audios also do not allow doubts about its authenticity, just as some parts of the recording became clearer, which further compromises Michel Temer. Still, with clenched teeth, Temer reaffirms that no one will destroy him, denouncing the prosecutor to accuse him without evidence. It is said that the "defense" strategy of President Michel Temer would have been advised by his marketer.

The playwright Nelson Rodrigues was right in concluding that this country is indeed an unlikely country. First, for the unusual of a President of the Republic, in full exercise of the mandate, to suffer the accusation of having committed a crime of passive corruption, locupletando of the functions to gain undue advantages. Then, the set of maneuvers that are set in the political field with the deliberate purpose of protecting him from the consequences of his acts, which, by the way, are common in this environment. I believe that it is only by this aspect that this self-protection of the political class is explained, practically all of it troubled by similar cases of attitudes incompatible with what is expected of a public man. A bunch of them have rolls to solve in the context of the investigations of Operation Lava Jet.

Submitting the accusations against President Michel Temer to be evaluated the eyedropper by the Federal Chamber may have been a strategy well thought out by Attorney Rodrigo Janot. There must be more and more intense popular pressure for him to be judged by the Supreme Court, and that, little by little, can undermine the resistance of the political field. They will surrender the head of Michel Temer when they realize that they can also lose theirs, if they persist in ignoring the appeals of the population. Temer's rejection rate is stratospheric. According to the latest survey released by the Datafolha Institute, only 7% of voters approve of its government. I do not think ex-President Dilma Rousseff would have gone down in her worst moments when she had the rope around her neck to take off.

A pity that our political system has reached this state of rot. Except in the case of a profound political reform carried out by new political actors, elected for this specific purpose, the remains that will still be kept in a possible departure from President Michel Temer are still worrying. In fact, we need a long process of political asepsis, Capable of sanitizing the political environment, placing it in the perspective of building citizenship, meeting the demands of society and not a political system aimed only at enabling corporate and capital interests represented by financial corporations. Corrupted and compromised as it is, the political system no longer serves those purposes.

Editorial: A melhor defesa é o ataque?


Imagem relacionada


Os assessores do presidente Michel Temer(PMDB) dizem que ele está pintado para a guerra, ou seja, irá utilizar-se de todos os recursos que ainda dispõe para livrar-se de uma encrenca maior no STF, onde seu destino seria incerto, caso a Câmara Federal autorize o primeiro pedido de investigação contra ele, formulado pela Procuradoria-Geral da República, onde é acusado do crime comum de corrupção passiva. O procurador-geral, Rodrigo Janot, não tem qualquer dúvida, sobretudo a partir das informações fornecidas pela Polícia Federal, de que o dinheiro da mala era mesmo para o presidente. A perícia técnica realizada nos áudios também não permitem dúvidas sobre sua autenticidade, assim como ficaram mais claros alguns trechos da gravação, o que compromete ainda mais Michel Temer. Mesmo assim, de dentes trincados, Temer reafirma que ninguém o destruirá, denunciando o procurador de acusá-lo sem provas. Comenta-se que a estratégia de "defesa" do presidente Michel Temer teria sido aconselhada pelo seu marqueteiro. 

Tinha razão o dramaturgo Nelson Rodrigues ao concluir que este país é mesmo um país improvável. Primeiro, pelo inusitado de um Presidente da República, em pleno exercício do mandato, sofrer a acusação de ter cometido crime de corrupção passiva, se locupletando das funções para auferir vantagens indevidas. Depois, o conjunto de manobras que se armam no campo político com o propósito deliberado de protegê-lo das consequências dos seus atos, que, por sinal, são comuns nesse meio. Creio que apenas por esse aspecto se explica essa autoproteção da classe política, praticamente toda ela encrencada em casos similares de atitudes pouco compatíveis com aquilo que se espera de um homem público. Uma penca deles possuem rolos a resolver no contexto das investigações da Operação Lava Jato.

Submeter as acusações contra o presidente Michel Temer para serem avaliadas a conta-gotas pela Câmara Federal pode ter sido uma estratégia bem pensada pelo procurador Rodrigo Janot. Deverá haver uma pressão popular cada mais intensa no sentido de que ele seja julgado pelo STF e isso, pouco a pouco, pode ir minando as resistência do campo político. Eles entregarão a cabeça de Michel Temer quando perceberam que também poderão perder as suas, se persistirem em ignorar os apelos da população. O índice de rejeição a Temer são estratosféricos. De acordo com a última pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, apenas 7% dos eleitores aprovam o seu governo. Creio que nem a ex-presidente Dilma Rousseff teria descido a tanto, nos seus piores momentos, quando estava com a corda já no pescoço para a decola. 

Uma pena que o nosso sistema político tenha chegado a este estado de podridão. Salvo no caso de uma reforma política profunda, realizada por novos atores políticos, eleitos para este propósito específico, os resíduos que ainda serão mantidos num eventual afastamento do presidente Michel Temer ainda são preocupantes.De fato, precisamos de um longo processo de assepsia política, capaz de sanear o ambiente político, colocando-o na perspectiva de construção da cidadania, atendendo as demandas da sociedade e não um sistema político voltado apenas para viabilizar os interesses corporativos e do capital, representado pelas corporações financeiras. Corrompido e comprometido como está, o sistema político já não atende a esses propósitos. 

Por que é que a Revolução Russa importa?


Há 100 anos, a insurreição bolchevique dirigida por Lénine derrubou séculos de feudalismo na Rússia. Mas o que é que isto significa para o mundo de hoje?



.China Miéville

Mais do que qualquer outra coisa, a revolta socialista na Rússia, em outubro de 1917, é uma história extraordinária. O culminar de meses de grandes transformações durante esse ano, iniciados em fevereiro após o derrube popular do czar Nicolau II e do seu regime, é um jogo intenso de intriga, violência, lealdade, traição e coragem.

Mas qual o sentido atual desses extraordinários eventos que tiveram lugar em tempos e mundos distantes? Após 1989i e a queda do estalinismo, a cultura mainstream colocou a Revolução no túmulo e celebrou o seu enterro – em concordância com a afirmação falaciosa de que o derrube de regimes escleróticos e despóticos representava a derrota da Revolução. Estes eventos extraordinários são hoje apenas avisos ameaçadores? Ou serão outra coisa? A Revolução importa sequer?

Importa. Porque as coisas já foram diferentes uma vez. Por que é que não poderiam ser diferentes novamente? Embora tenha um enorme fascínio e tenha sido muito inspirado pela Revolução Russa, que celebra este ano o seu centenário, quando me perguntam por que é que ela ainda importa, a minha primeira reação é uma hesitação. Um silêncio. Mas, tal como as palavras, uma chave para perceber a Revolução de Outubro é uma certa ausência de palavras.

Podemos saber no nosso âmago que ela importa, mas parece uma forma defensiva, arrogante e dogmática “explicar” a “importância” da Revolução: uma propensão para “explicar” tudo não é um problema exclusivo da esquerda, mas é particularmente exasperante quando vem de radicais comprometidos, pelo menos teoricamente, com a discussão da história contra a corrente, com a criação de contra-narrativas, com o questionamento de opiniões recebidas, incluindo as suas próprias. (Um impacto benéfico dos últimos acontecimentos políticos invulgares – Corbyn, Sanders, Trump, as eleições presidenciais francesas, e com mais a surgir proximamente – tem sido a carnificina das certezas políticas, a humilhação daqueles que tudo sabem).

Na Rússia, o estado de Putin sabe que a Revolução importa, o que o coloca numa posição estranha. Comprometido com o capitalismo (o capitalismo gangster não deixa de ser uma forma de capitalismo), dificilmente se poderá reclamar como herdeiro de uma insurreição contra esse sistema: ao mesmo tempo, a curiosa nostalgia simbólica, oficial e semi-oficial, com a Grande Rússia, incluindo a que remete para o estalinismo, impede que a Revolução seja banida da memória coletiva. Arrisca-se a ser, como o historiador Boris Kolonitsky aponta, "um passado bastante imprevisível".

Numa viagem recente a São Petersburgo, perguntei a amigos russos como é que o governo lidaria com esta contradição, se a isso fosse obrigado. Recordaria o centenário com uma celebração ou como uma maldição? "Dirão que houve uma luta ", foi-me dito, "e que, no final, a Rússia venceu."

Esta é uma das grandes tragédias da Revolução: a sua pertinência é afirmada enquanto a sua substância é esvaziada. Uma visão da emancipação global expressa como uma melodia num enorme ressoar chauvinista.

Num certo sentido, é indubitável que 1917 importa. Afinal, pertence à história recente, e não há nenhuma esfera do mundo moderno que não tenha sido tocada pela sua existência. Não influenciou apenas os partidos social-democratas, fundados em oposição a abordagens revolucionárias – e obviamente constituindo-se enquanto seus inimigos –, mas também à grande escala da geopolítica, onde os padrões mundiais de submissão e competição e os estados que constituem o sistema foram claramente alterados pela Revolução, da sua degeneração e de décadas de impasse. Da mesma forma, bastante afastados do reino austero do estado, os artistas russos de vanguarda Malevich, Popova e Rodchenko, entre outros, permanecem inseparáveis da Revolução que tantos deles abraçaram.

A sua influência é incomensurável: Owen Hatherley, crítico de cultura, apelida o construtivismo como sendo “provavelmente o movimento artístico e arquitetónico mais intenso e criativo do século XX”, que influenciou ou antecipou movimentos como "a arte abstrata, o pop art, o op art, o minimalismo, o expressionismo abstrato, o estilo gráfico do punk e do pós-punk ... o brutalismo, o pós-modernismo, ohi-tech e o desconstrutivismo”. Podemos traçar a Revolução no cinema e na sociologia, no teatro e na teologia, na realpolitik e na moda. É, portanto, óbvio que a Revolução importa. Tal como Lénine pode ou não ter dito, “Tudo está relacionado com tudo o resto”.

Mas surge de novo uma hesitação, uma sensação de que esta abordagem, por muito importante que seja, contorna a questão fundamental sem lhe responder. Por outras palavras, por que é que a discussão enfurece as pessoas?

Tornou-se senso comum admitir que a história é mais tenaz do que Francis Fukuyama sugeriu, mas ainda nos encontramos, apesar de tudo, na era pós-Tatcher da TINA – there is no alternative [não há alternativa] – em que, tirando momentos específicos de exceção que são cada vez mais reduzidos, os fundamentos da sociedade não devem ser postos em causa. Até mesmo discutir um sistema baseado em algo além de lucro, controlado pela base, é olhado com desdém, apesar da implementação cada vez mais sádica da austeridade. É precisamente esta visão de uma alterativa, e de uma que teve a audácia, no início, de ser bem-sucedida, para derrubar o in- ou o ainda não-defensável, que outubro importa. É por isso que existe raiva, em todos os lados, mais do que irritação ou divertimento. Porque o que está em jogo não é apenas a interpretação da história, mas é também a do presente. A questão de se as coisas tinham ou se têm de ser desta maneira.

O que é partilhado pela maioria daqueles que se opõem a tudo mas que lamentam a Revolução de 1917 é a convicção de que a última excrescência do estalinismo foi o resultado inevitável da Revolução. Certamente que isto pode ser argumentado: na maior parte dos casos é, contudo, tomado como mais ou menos autoevidente. Não que exista algo que se aproxime de uma perspetiva monolítica anti- ou pró-revolucionária, que englobe socialistas de várias filiações, liberais, conservadores, fascistas e outros.

Enquanto alguns podem descrever os bolcheviques como equivocados e trágicos, é mais comum serem considerados perversos e sedentos de poder. Há uma atração para um conto de moralidade grosseira. Podemos discordar, por exemplo, das conclusões do historiador Orlando Figes sem questionar a seriedade da sua pesquisa, mas a sua afirmação em A Tragédia de um Povoii que “o ódio e a indiferença ao sofrimento humano estavam, em diversos graus, enraizados nas mentes de todos os líderes bolcheviques” é simplesmente absurda (e o seu fascínio desaprovador pelos seus casacos de couro não deixa de ser curioso).

No campo oposto, existem algumas pessoas verdadeiramente crentes, como a minúscula e grotesca Sociedade Estalineiii. No entanto, para a maior parte das pessoas que vêm na Revolução um motivo para celebrar, a questão é: qual a data a partir da qual devemos começar o luto? Se uma tradição emancipatória foi quebrada, quando foi a rutura? 1921? 1924? 1928? 1930? Que combinação de fatores explica a degeneração? A carnificina da guerra civil? As intervenções aliadas, incluindo, com entusiasmo, do lado dos pogromistasiv antissemitas? O fracasso das revoluções na Europa?

O que é partilhado é uma sensação de rutura, de quebra e perda, onde o liberalismo e a direita veem inevitabilidade. "Muitas vezes se diz que «o germe de todo o estalinismo estava no bolchevismo desde o início»,” escreveu, em 1937, o dissidente bolchevique Victor Serge. "Bem, não tenho objeção. Apenas que o bolchevismo também continha muitos outros germes, uma massa de outros germes, e as pessoas que viveram o entusiasmo dos primeiros anos da primeira revolução socialista vitoriosa não devem esquecê-lo. Julgar o homem vivo pelos germes da morte que a autópsia revela no cadáver – e que ele pode ter carregado nele desde o seu nascimento – é uma atitude sensata?"

Esta excelente citação tornou-se um cliché do socialismo anti-estalinista. O que por vezes escapa aos seus entusiastas é que Serge iliba o bolchevismo de conduzir inevitavelmente ao estalinismo, mas não de toda a responsabilidade. Qualquer movimento que evite a hagiografia, que avalie criticamente as suas próprias tradições, é saudável e confiante. Isso significa ter em conta não apenas a guerra civil e o isolamento forçado do regime, a fome, o colapso industrial, agrícola e social, mas também a degeneração política dentro dos bolcheviques, nos duros meses e anos depois de assumirem o poder.

Quaisquer que sejam as lições e inspirações que a Revolução oferece, presenciam-se com frequência situações um pouco ridículas que passam pela recusa de avaliar tudo isto de forma rigorosa e pelo desejo de tratar o partido de Lénine em 1917 como o paradigma para hoje. Nas discussões de alguns grupos radicais, podemos inclusive identificar claramente a influência dos tons excêntricos e do vocabulário da literatura socialista traduzida há um século atrás. Isto não significa que seja dada à Revolução demasiado importância, mas sim que a importância lhe é atribuída pelas razões erradas. Não é necessária uma reconstituição lisonjeira: isso não é fidelidade. Quaisquer que sejam as particularidades da Rússia de 1917, a Revolução serve hoje não só pela reflexão analítica que oferece mas também enquanto horizonte, pelo simples facto, trágico e momentâneo, de que as coisas foram diferentes um dia e que, portanto, poderão um dia voltar a ser diferentes. É o que a liga às indignidades, à violência, à desigualdade e à opressão de hoje e àquilo que elas produzem, tal como em circunstâncias muito diferentes fizeram há um século: uma necessidade de uma reconfiguração radical.

Voltemos agora à questão inicial: por que é que a Revolução importa? Por causa do que estava certo nela, e por causa daquilo que correu mal. Ela importa porque mostra a necessidade não apenas da esperança, mas do pessimismo adequado, e da interação dos dois. Sem esperança, o impulso milenar, não há nenhum impulso para derrubar um mundo repulsivo. Sem pessimismo, uma avaliação sincera das dificuldades que se enfrenta, as necessidades podem ser facilmente reformuladas como virtudes.

Foi assim que, após a morte de Lénine, se deu em 1924 a adoção por parte do partido bolchevique da teoria de Estaline do "socialismo num só país". Isso contrariou um longo compromisso com o internacionalismo, fecundado na certeza de que a Revolução russa não poderia sobreviver isoladamente. O fracasso das revoluções europeias esteve na base desta evolução – foi uma mudança suscitada pelo desespero. Mas anunciar, e inclusivamente celebrar, um socialismo em autarcia foi uma catástrofe. Um pessimismo racional teria sido menos prejudicial do que esta “má” esperança.

A Revolução também importa porque foi, como podemos dizer de forma adequada, milenar. Os seus oponentes acusam frequentemente o socialismo de ser uma religião. A acusação é, obviamente, hipócrita: o anticomunismo é de forma igualmente frequente fundido com o fervor sectário do exorcismo. E, mais importante, não é uma fraqueza que, a par e dando fôlego às suas análises, os partidários de 1917 tenham sido guiados por um impulso utópico, a fome de um mundo novo e melhor, para se tornarem pessoas capazes de habitá-lo.

Todas estas razões são pertinentes e cruciais. Mas, mesmo todas juntas, continuam a não chegar. Continua a haver aquele momento glaciar, a sensação de um excesso indescritível. Uma e outra vez, nas aspirações da Revolução, nas suas circunstâncias apocalípticas, nos seus erros e vitórias, as palavras falham. Eles falham nas cartas escritas de forma quase macarrónica enviadas pelos soldados para a imprensa à medida que o ano passava, lamentando-se que a sua Revolução de fevereiro tivesse sido apocalíptica sem criar uma renovação efetiva. Elas falham nos panfletos ambíguos dos bolcheviques em julho de 1917, quando tentavam pôr um travão nas ruas inquietas. Elas falham espetacularmente quando o partido compreendeu que o seu apelo para evitar as manifestações nas ruas, que já estava preparado para ser divulgado em papel, seria amplamente ignorado. E, por isso, a meio da noite, para evitar o embaraço, essas linhas são simplesmente apagadas e o Pravdav vai para as ruas no dia 4 de julho com um espaço vazio no centro da primeira página.

Este não foi o primeiro silêncio impresso da esquerda russa. Quase 60 anos antes da Revolução, o escritor radical Nikolay Chernyshevsky publicou Que Fazer?, um longo romance político que gerou um forte impacto no movimento socialista, especialmente em Lénine, que, em 1902, deu o mesmo nome à sua obra sobre organização política. A descrição de Chernyshevsky do momento crítico, um eixo da história para as possibilidades de futuro, culmina com duas linhas de reticências. Os leitores informados entenderiam que, por trás das reticências extensas, estava a revolução. Assim, Chernyshevsky evitou a censura, mas há também algo de religioso, de escatológico, nesta descrição, feita pelo filho ateu de um sacerdote. A teologia apofântica é aquela que se concentra no que não pode ser dito de Deus: um revolucionarismo apofântico, sem vergonha de ir para lá das palavras.

Virginia Woolf escreveu em Orlando que, na Rússia, "as frases são muitas vezes deixadas inacabadas devido à dúvida relativamente à melhor forma de as terminar". Obviamente que isto é um floreado literário, uma visão comum e romantizada do essencialismo russo. No entanto, a formulação parece ser profética para esta história russa em particular. Os pontos de Chernyshevsky descrevem a própria Revolução. O espaço em branco no Pravda contém a tática. As coisas que não se conseguem dizer não são, de modo algum, tudo o que há de estranho nesta história, mas são centrais para ela.

Elas são a chave para o porquê de a Revolução importar. Porque aquilo relativamente ao qual não podemos falar podemos, pelo contrário, experienciar. É por isso que a hesitação para responder vem acompanhada de um desejo ansioso. Não de dizer, mas de fazer e ser. Não de lutar e falhar quando explicamos ou falamos sobre outubro, mas de ser parte de um.

Outubro: A história da Revolução Russa, de China Miéville, foi publicado pela editora Verso.

Artigo de China Miéville, publicado em The Guardian. Tradução de Samuel Cardoso para esquerda.net

Le Monde: Água e agronegócio: uma relação a ser mais bem examinada


Quando se analisa o aumento no volume das exportações brasileiras de soja, carne e açúcar e, consequentemente, constata-se o aumento do volume de água embutido nessa produção, conclui-se que é necessário pensar sobre os possíveis impactos ambientais que a exportação de produtos primários e semimanufaturados pode estar tendo sobre nossos recursos hídricos
Por: Osvaldo Aly Junior
2 de junho de 2017
12_bernardo
As cadeias produtivas da agricultura e das agroindústrias têm cada vez mais impactado os recursos naturais em nosso país. Recentemente a água tem se tornado objeto de atenção por conta de diferentes impactos e disputas (muitas vezes não explícitas) relacionadas com a mercantilização das águas doces, que envolve a manutenção dos ecossistemas, a agricultura de alimentos e de exportação, o setor urbano e industrial e a necessidade de garantir a segurança hídrica da população.
Pelo menos quatro fatores merecem ser destacados por terem contribuído para esse quadro atual de avanço do agronegócio1 sobre a água superficial e subterrânea: (i) a crise da produção de proteína animal, em razão da doença da vaca louca na Europa e nos Estados Unidos; (ii) a urbanização e a mudança de hábitos alimentares em países do Oriente Médio e da Ásia (com destaque para a China); (iii) a elevação da demanda mundial de soja e etanol; (iv) a necessidade de o Brasil obter moedas internacionais para fazer frente aos custos das importações e pagamento da conta serviços.
A doença da vaca louca, no final dos anos 1990, que dizimou boa parte do rebanho bovino principalmente na Europa, foi resultado da adição, na ração, de uma farinha composta por sangue e ossos de animais abatidos. A proibição dessa prática, somada à falta de áreas para a criação em pasto, elevou a importação de soja, com o consequente aumento dos custos de produção, o que desencadeou a transferência da produção de bovinos para fora do continente. Essas foram as principais causas do aumento da produção de soja e bovinos no Brasil.
Para que se tenha uma ideia do peso desse setor em nossa balança comercial, em 2016 a exportação de proteínas animais (carne bovina, suína e aves) representou 20% do total das exportações brasileiras (mais de US$ 14 bilhões), ficando a soja com 5,8% (US$ 4,04 bilhões) do total das exportações.
A Revolução Verde,2 dispondo de vultosos financiamentos internacionais, vendeu a ideia de que o problema da segurança alimentar seria resolvido pela simples adoção de um pacote de tecnologias. Ela permitiu a intensificação da produção para atender à demanda do abastecimento do mercado interno e permitiu exportar commodities da agropecuária. Contudo, em vários países isso trouxe consequências ambientais trágicas, esgotando e contaminando os recursos hídricos com agrotóxicos.
O caso da Arábia Saudita é emblemático. No intento de se tornar um grande exportador de trigo, o país esgotou um importante aquífero que proveu segurança hídrica para sua população durante milênios. Entre 1987 e 2015, o país entrou numa viagem sem retorno, chegou a ser o sexto maior exportador mundial de trigo e em 2016 não plantou um pé de trigo. Como resultado, elevou ainda mais sua dependência da importação de alimentos e iniciou a dessalinização da água do mar para garantir o consumo humano. Outro caso é o sistema de irrigação da amêndoa e do pistache adotado na Califórnia, com níveis de desperdício sem precedentes, levando ao afundamento (subsidência) dos terrenos.
A indústria alimentar vem promovendo erosão genética e uniformização do padrão alimentar mundial com um custo energético, hídrico e ambiental elevado. A base desse sistema, a montante, é a indústria petrolífera, que controla o setor produtor de agrotóxicos, adubos e sementes, e, a jusante, a indústria alimentar, que tenta impor um padrão alimentar de tipo europeu e norte-americano para todo o globo. Cada vez mais o que se come nas grandes cidades ao redor do mundo é a mesma base alimentar. Esse sistema produtivo é responsável pela perda de 30% de todos os alimentos que se produz, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
Essa uniformização da alimentação e da produção em países tropicais desloca, marginaliza e mina a base alimentar local. Um bom exemplo vem da China, com a introdução da carne bovina na dieta. Esse país também deslocou parte de sua produção e abastecimento de proteínas animal (frango, suínos e bovinos) e vegetal (soja) para a África e a América do Sul. O mesmo ocorreu com a carne de frango nos países árabes. Mais recentemente, na Ásia, os recorrentes surtos de gripe aviária aumentaram a importação de carne de frango.
Esses sistemas de alta produtividade, intensivos no consumo de recursos naturais, são grandes demandadores de recursos hídricos, sejam eles superficiais ou subterrâneos. Essa forma de fazer agricultura, juntamente com o processo de urbanização3 da população, aumenta as batalhas pelo acesso, controle e consumo de água, gerando disputas inexistentes até então.
Para ter uma ideia, enquanto desde 1950 a população mundial triplicou, a demanda por água cresceu seis vezes. No Canadá, entre 1972 e 1991, a população cresceu 3%, e o consumo de água, 80%, segundo a ONU. Na Alemanha, um cidadão consome nove vezes mais água que um da Índia, ou seja, o bem-estar nas sociedades de consumo desenvolvidas está associado à elevação do consumo de água e à disputa pela água entre os usos tradicionais e os novos usos.
No Brasil, esse avanço da produção e da exportação de produtos primários ou semimanufaturados promoveu o deslocamento e a substituição de antigas lavouras e de pastagens pela soja, o milho, a cana-de-açúcar e o algodão, avançando sobre as áreas do cerrado e empurrando o gado em direção à floresta amazônica, juntamente com o cultivo de soja.
Nessa conjuntura de aumento da demanda internacional por commodities agrícolas e obtenção de moeda internacional, no segundo governo FHC foi retomado um conjunto de políticas para elevar os volumes de produção por meio do fomento à produção, da modernização de parte do setor da agricultura familiar via crédito subsidiado, da renovação do parque de máquinas e implementos, da assistência técnica e do apoio à comercialização e à exportação. Essa política teve sua continuidade nos governos Lula e Dilma.
Assim, nos últimos dezenove anos, tivemos o fortalecimento econômico e político do setor ruralista de tal forma que se convenceram diferentes segmentos da sociedade de que a finalidade do agronegócio é o bem de todos. Com isso, conseguiu-se o apoio de parte da esquerda na mudança promovida no Código Florestal. Esse setor, após o golpe de 2016, apresentou um conjunto de propostas regressivas, como mudar a legislação trabalhista no meio rural, afrouxar o licenciamento ambiental, travar a definição de trabalho escravo, suspender a demarcação dos territórios indígenas e quilombolas, retomar a exploração de minérios na região amazônica, entre outras.
A postura revela que os ganhos do agronegócio têm forte dependência da dilapidação dos recursos humanos e naturais. Dessa maneira, terra, água e mão de obra oferecidas a preços baixos distorcem as decisões relacionadas com a produção agrícola e com a exportação de alimentos e ficam expostas nas propostas de alteração da legislação apresentada por esse setor a fim de aumentar os impactos ambientais do agronegócio exportador.
Esse aparente consenso em torno da importância do agronegócio para o país gerou uma postura um tanto passiva nas diferentes esferas do governo e fica bem marcado nos conflitos e disputas pelo acesso à água, como ocorre na Bacia do São Francisco, na atual crise hídrica do Distrito Federal.
Nosso país, em função de sua formação geográfica, ambiental e do regime de chuvas, consegue obter duas colheitas anuais em lavouras de sequeiro (não irrigadas). Isso explica por que até o presente somos o país com a menor taxa de áreas irrigadas na América Latina: apenas 16%.
Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, o número de estabelecimentos agropecuários que irrigam seus cultivos é de 329 mil, num universo de 4,5 milhões. Esses estabelecimentos constituem 7% da área agrícola do país (4,5 milhões de hectares); seu volume representa 16% do total e gera 35% do valor comercializado pela agricultura brasileira. Entretanto, as perdas na irrigação são muito altas, não apenas no Brasil. A FAO estima que, no mundo, cerca de 70% do volume de água ofertado nos perímetros irrigados se perde por evaporação ou percolação. A redução de 10% desse volume permitiria abastecer metade da população mundial.
É importante esclarecer que a água é vital para a produção agrícola e a criação animal. A questão está na quantidade consumida. O nó é que, quanto maior a produtividade e a velocidade de desenvolvimento da planta, maior o consumo de água. Até recentemente esse tema não fazia parte da agenda daqueles que trabalham com o melhoramento das plantas.
Para ter uma ideia do que representa esse consumo, empregando-se a metodologia da pegada hídrica,4 para produzir 1 tonelada de legumes, trigo, soja e gado bovino, o consumo de água é, respectivamente, 1 milhão de litros, 1,45 milhão de litros, 1,8 milhão de litros e entre 15 milhões e 42,5 milhões de litros. Outra análise para avaliar a eficiência do consumo de água é a renda gerada em dólar por quilograma vendido – no caso dos legumes, a média é de US$ 0,50; para o trigo, US$ 0,08; e, para a carne bovina, US$ 0,005.
Quando se analisa o aumento no volume das exportações brasileiras de soja, carne e açúcar e, consequentemente, constata-se o aumento do volume de água embutido nessa produção, conclui-se que é necessário pensar sobre os possíveis impactos ambientais que a exportação de produtos primários e semimanufaturados pode estar tendo sobre nossos recursos hídricos. Entre 1997 e 2005, o volume de água empregado na produção e exportação apenas nesses três produtos saltou de 27,1 bilhões de litros para 460,1 bilhões de litros.
O avanço do desmatamento da Amazônia, a pressão agroexportadora e as mudanças climáticas colocam em risco essas vantagens comparativas naturais, já que a previsão é o aumento de períodos maiores de seca e crise hídrica para nossa população. Esse quadro elevará a demanda das águas superficiais e subterrâneas e poderá afetar a vida dos rios perenes e dos ecossistemas, já que são as águas subterrâneas que perenizam o leito dos rios e são exploradas quase sem controle pelos órgãos estaduais.
No caso do São Francisco, essa situação é preocupante, pois o aumento da captação de águas subterrâneas para irrigação de lavouras no norte de Minas (fruticultura) e no oeste baiano (soja e algodão, principalmente) tem como fonte o Aquífero Urucuia. Esse aquífero, no período das secas, é responsável por mais de 80% do volume de água do Rio São Francisco. Também é aí que ocorre a derivação de suas águas para o semiárido. Ou seja, existem diferentes tipos de uso, e é a pressão da sociedade civil que leva os órgãos gestores a agir.
Recentemente, a crise de abastecimento de água no Distrito Federal tem levantado a mesma questão sobre os diferentes tipos de uso e quem vai pagar a conta da falta de água. Em São Paulo, a crise hídrica dos anos 2013-2015 atingiu pelo menos 78 cidades do interior, cujo abastecimento de água depende dos mananciais superficiais, o que acende uma luz para os processos de uso e ocupação do solo nessas bacias hidrográficas tomadas pelas culturas do eucalipto e da cana-de-açúcar, que promovem o avanço desordenado sobre a captação de águas subterrâneas.
É importante ressaltar que, do total da chuva precipitada, 80% é perdida para a atmosfera pela evapotranspiração, 10,8% vai para os aquíferos e 9,2% escorre superficialmente. Dessa maneira, as práticas conservacionistas mostram-se extremamente relevantes para garantir o armazenamento de água para a planta, a manutenção da vazão dos rios e a promoção da recarga dos aquíferos.
Ao mesmo tempo, além do aumento considerável no consumo de água, o desmatamento da Amazônia pela expansão da soja e criação de gado bovino coloca em risco o mecanismo de formação das chuvas de interior, produto dos chamados rios voadores formados pela evapotranspiração da floresta que é levada pelos ventos para os Andes e de lá desce e precipita nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Esse processo terá impacto não apenas sobre a vida humana, mas também sobre os ecossistemas e toda a economia.
Por entender que a água é um bem comum, e não uma mercadoria, e para discutir processos de gestão democrática e se contrapor à apropriação privada e predadora pelos diferentes setores exportadores de commodities, entre eles o agronegócio, um conjunto de organizações da sociedade civil decidiu organizar o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama) 2018, a ser realizado em março, em Brasília.
*Osvaldo Aly Junior, engenheiro agrônomo, membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), doutorando em Gestão de Águas Subterrâneas no IGc-USP, é pesquisador do Nupedor/Uniara-SP.

1 Não é objeto do presente artigo, mas o mesmo vale para a produção de commodities minerais.
2 Nome dado ao pacote tecnológico que envolve melhoramento genético, uso intensivo de agrotóxicos e adubação, mais a mecanização. A Revolução Verde trouxe como resultado aumento da produção e da produtividade de uma série de produtos, porém acentuou os impactos dessas atividades sobre o ambiente.
3 Para ter uma ideia da disputa pela água entre consumo urbano e rural, na Califórnia, cuja maioria do território está localizada em regiões semiáridas, do total do consumo urbano, 50% se destina à rega dos jardins.

4 Pegada hídrica é o volume total de água doce utilizado para produzir os bens e serviços consumidos pelo indivíduo, comunidade ou produzidos pelas empresas. Ele avalia seu uso de forma direta e indireta.
(Publicado originalmente no site do jornal Le Monde Diplomatique Brasil)

Charge! Mor via Folha de São Paulo

Mor

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O xadrez político das eleições estaduais de 2018 em Pernambuco: A festa de Tonca


José Luiz Gomes da Silva

Há alguns dias atrás andou circulando pela TV local inserções da propaganda partidária dos Democratas. Ali, o ministro da Educação, Mendonça Filho(DEM), ocupa praticamente todo o tempo disponível, enfatizando-se, notadamente, as realizações do MEC no Estado de Pernambuco. A despeito dos inúmeros afazeres na capital federal, Mendonça Filho não tem se descuidado da província, onde faz política há décadas. Convênios e liberações de recursos são assinados por aqui até nos finais de semana. Os movimentos de Mendonça indicam que ele não apenas está na arena, mas que teria projetos para as eleições de 2018, quiçá, até, pretensões majoritárias. O conjunto de forças políticas que denominamos aqui de "Conspiração Macambirense", onde estão reunidos os principais atores que fazem oposição ao Governo Paulo Câmara(PSB), continua afinando a orquestra e se reuniu mais uma vez neste último final de semana, na festa de aniversário do escritor Antônio Campos, em Gravatá.
Alguns dos principais nomes desse grupo politico, como é o caso do deputado Ricardo Teobaldo(Podemos), Sílvio Costa Filho(PRB), Armando Monteiro(PTB), Bruno Araújo(PSDB) estiveram prestigiando o aniversário do ex-candidato a prefeito da cidade Olinda. Logo após ter sido derrotado nas urnas pelo professor Lupércio, do Solidariedade, Antônio Campos externou sua insatisfação com setores do PSB, que não apenas não o apoiaram, como teriam urdido contra ele. Antônio Campos aponta vários indícios dessas tessituras contra a sua candidatura, mas creio que o anúncio de nomes diretamente ligados ao Palácio do Campo das Princesas - para ocuparem postos chaves no secretariado do prefeito eleito - parece mesmo dissiparem as dúvidas quanto ao "corpo mole". Assim como ocorre hoje no plano federal, onde casos de política estão se transformando em casos de polícia, Antônio Campos fez denúncias graves sobre fatos ocorridos naquelas eleições, como  um possível monitoramento dos seus passos durante o pleito, por integrantes da Casa Militar do Governo do Estado.
Por aqui, sempre aconselhamos Tonca a voltar a escrever e cuidar do seu escritório de advocacia. Possivelmente teria menos dores de cabeça. Mas, logo depois do anúncio do resultado daquelas eleições, Tonca informou que continuaria na arena política, honrando a tradição familiar dos Campos e dos Arraes. Desde então, realizou um périplo pelo país, estabelecendo contatos com políticos de diferentes matizes ideológicas e partidárias. A se concluir pela festa realizada em Gravatá, parece que acabou fazendo a opção de filiar-se ao Podemos, onde cogita-se que deverá ocupar um papel relevante no plano nacional, no interior dessa nova agremiação política. Mas, o mais interessante desse movimento político é que, a julgar pelos convivas - que não foram apenas degustar as guloseimas de São João - Tonca passa a integrar a "Conspiração Macambirense".
Como dissemos antes, difícil prever como as coisas irão se "acomodar" nesse tabuleiro oposicionista, que poderá integrar polos distintos da política nacional e pernambucana, como os Democratas, de um lado, e até mesmo o Partido dos Trabalhadores, do outro. Existem aqueles aspirantes consolidados, como é o caso do senador Armando Monteiro(PTB), mas já se fala até mesmo de um "governo paralelo" aqui no Estado, liderado pelo ministro das Cidades, Bruno Araújo, do PSDB, presente à festança do escritor Antônio Campos. No momento, o grupo ainda mantém um padrão de coesão que faculta construir algum "consenso" estratégico sobre o próximo pleito no Estado. Até mesmo "inúmeras" candidaturas oposicionistas podem ser entendidas como parte do plano para apear Paulo Câmara do Palácio do Campo das Princesas.

Não raro, as circunstâncias políticas podem ser determinantes. O governador Paulo Câmara, além de ostentar índices acachapantes de popularidade, cometeu alguns equívocos políticos que podem ser relevantes em seu projeto de continuar como inquilino do Palácio do Campo das Princesas. Um desses equívocos foi o apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que o aproximou, perigosamente, de um presidente moribundo e permitiu que o PMDB local ampliasse os espaços no seu governo. Soma-se isso alguns problemas estruturais na área de segurança pública, cujos índices de violência assustam. Aqui retrocedemos para patamares de 10 anos atrás, quando foi criado o Pacto pela Vida. Há uma média de 16 assassinatos por dia, centenas de assaltos a ônibus mensalmente e o Estado tornou-se o campeão nacional na modalidade de assaltos à carro-forte. Ou seja, a oposição tem vários flancos abertos para construir sua estratégia de campanha. É questão apenas de um entendimentos entre eles.

P.S. Do Contexto Político: O mais provável é que o escritor Antonio Campos tente uma vaga à Câmara Federal ou à Assembléia Legislativa do Estado, colocando os "Campos" em palanques opostos em Pernambuco. Apesar de um bom trânsito com o senador Armando Monteiro e a família Sílvio Costa, caciques e militantes da legenda petista veem com desconfiança a possibilidade de integrar um palanque com atores políticos dos Democratas. Marília Arraes(PT) costura uma carreira solo, quem sabe com o objetivo de sisputar o Governo do Estado nas próximas eleições, mas seus movimentos não encontram respaldo entre alguns integrantes da legenda petista no Estado. A lógica dos Democratas parece ser mesmo no sentido de fortalecer a legenda em Pernambuco. Nas últimas eleições municipais, mesmo diante das adversidades, lançaram uma candidatura própria ao Palácio Antonio Farias. Não surpreenderia se repetissem a estratégia nas próximas eleições estaduais.    

Drops político para reflexão: Um presidente acuado





"Acuado, o sistema político se auto-protege como pode. Um aliado do ex-presidente José Sarney, João Alberto Souza(PMDB-MA), Presidente do Conselho de Ética do Senado Federal, acaba de salvar o pescoço do senador Aécio Neves(PSDB), rejeitando uma representação que existia contra ele, acusando-o de quebra do decoro parlamentar. Doloroso foi assistir pela televisão a sua defesa do senador tucano, afirmando que ele foi vítima de uma "armação". Essa manobra faz parte de um acordão político maior, que implica na permanência dos tucanos no Governo Temer, assim como o apoio do partido nas tessituras que visam rejeitar, na Câmara dos Deputados, o pedido de investigação do presidente Michel Temer, acusado do crime de corrupção passiva. Não se sabe até que ponto os políticos vão segurar as pontas desses acordos de bastidores, arcando com o ônus do desgaste popular. As acusações contra o presidente se avolumam, crescem as insatisfações populares e fica cada vez mais difícil ir rejeitando esses pedidos de investigações, assim como ignorar os pleitos de impeachment encaminhados à Câmara dos Deputados. Setores fortes da engrenagem golpista - não por algum pudor republicano ou democrático, que isso eles nunca tiveram - já abandonaram a carruagem política do Planalto. Não se enganem, porém, com um provável afastamento de Michel Temer. Isso não significaria, necessariamente, o resgate da soberania popular. A engrenagem golpista deverá moer por alguns anos pela frente."

(José Luiz Gomes, cientista político, em editorial publicado aqui no blog)

Crise das esquerdas é também uma crise de utopias, diz sociólogo

                                           


Crise das esquerdas é também uma crise de utopias, diz sociólogo
Arte sobre foto de Jared Wingate (Reprodução/Arte Revista CULT)


 
 
A esquerda perdeu seu ideal utópico. Para o sociólogo e psicanalista Carlos Muanis, a emergência global da direita coincide com um momento em que a esquerda encontra-se “órfã” de utopias e, consequentemente, alheia a demandas sociais. “Enquanto a esquerda não entender o buraco teórico, utópico e o distanciamento em que acabou se metendo em relação à sociedade, fica difícil repensar o que fazer”, afirma.
Apontar possíveis saídas para tamanho impasse é justamente o objetivo do livro Crise das esquerdas, cujo lançamento acontece nesta sexta (23), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. A obra reúne intelectuais e ativistas como Renato Janine Ribeiro, Ruy Fausto, Guilherme Boulos e Cícero Araújo em ensaios e entrevistas que refletem sobre os caminhos da esquerda no Brasil e no mundo.
Em entrevista à CULT, Carlos Muanis, um dos organizadores da edição junto do cientista político Aldo Fornazieri, explica por que a crise das esquerdas é também uma crise de utopias. “O fundamental é constatar essa incapacidade da esquerda de formular e entender o momento pelo qual o mundo está passando.”
CULT – Como você definiria a crise das esquerdas?
Carlos Muanis – Eu diria que é uma crise múltipla, com várias sombras e luzes, mas também uma crise que indica um campo de oportunidades. É uma crise de utopia. Nós perdemos esse ideal utópico. Somos órfãos das utopias na medida em que nos distanciamos brutalmente de algumas demandas da sociedade, que são novas e que estão aí. Ou seja, perdemos o imaginário da politica, que se deslocou para um campo mais conservador, mais pragmático. Principalmente a esquerda democrática precisa pensar no significado desse descolamento dela com a sociedade, com a ação política. É claro que não é uma crise só da esquerda, eu diria que é ampla, se você olhar o mundo, Europa, Estados Unidos, China, Rússia, Ásia, Oriente Médio, os conflitos todos, verá que há uma crise sistêmica, quase civilizatória. Estamos em uma espécie de labirinto, tentando lidar com uma série de desafios. Mas o fundamental é constatar essa incapacidade da esquerda de formular e entender o momento pelo qual o mundo está passando. Esse é o grande desafio que se tem. Enquanto a esquerda não entender o buraco teórico, utópico, o distanciamento em que ela acabou se metendo em relação à sociedade, fica difícil repensar o que fazer.
Como resgatar esse ideal utópico?
O elemento a ser acrescentado é a recuperação da ideia do processo de construção de uma nova sociedade. De uma nova esquerda, dos novos desafios, uma nova visão de mundo, uma nova visão de humanismo, defender esses valores cada vez mais. Não abrir mão em nome de nada, em nome de pragmatismo nenhum. Eu sei que o jogo político pressupõe alianças e negociações constantes, mas cabe à esquerda ter essa âncora de pensamento. Só assim ela sai do labirinto, sendo possível analisar os impasses vividos nas alianças em cada país, em cada circunstância, e criar uma nova pedagogia de ação política.
O sociólogo Carlos Muanis, organizador do livro 'Crise das esquerdas' (Foto CDN / Divulgação)
O sociólogo Carlos Muanis, organizador do livro ‘Crise das esquerdas’ (Foto CDN / Divulgação)
Essa crise mundial está também relacionada com essa orfandade das utopias?
Eu acho que sim. É uma mistura dessa orfandade com políticas desastrosas. Se você analisar a ascensão do neoconservadorismo das últimas décadas vai ver que, gradativamente, as questões socais foram perdendo espaço na medida em que hoje há um sistema financeiro que é absolutamente dominado pelas grandes instituições, a chamada desregulamentação absoluta do grande capital. Não estou dizendo que isso seja culpa exclusiva da esquerda, mas é um processo simultâneo. Ao mesmo tempo que veio uma crise de horizonte veio também um sistema que foi esmagando esses setores sociais.
Em que sentido os últimos acontecimentos políticos brasileiros fazem parte desse processo sistêmico de desestruturação global?
Nós estamos em um processo globalizado em todos os sentidos. Os caminhos dos processos de corrupção e desvios são internacionais, não estão mais circunscritos a um país. E aí sofremos o desgaste da ação política desastrosa do PT, que acabou incorporando esse sistema como parte da sua ação política. Nós não somos uma ilha, vamos ter que olhar o mundo também, analisar os processos que estão acontecendo em outros lugares e ver o que se pode aproveitar em relação a isso. Já passou da hora do PT fazer uma reflexão, uma autocrítica de todo esse processo desses anos todos. Isso faria bem para a esquerda e para o país na medida em que o primeiro governo do Lula chegou a encantar o mundo inteiro como uma nova força política alternativa. A derrota da esquerda no Brasil não deixa de ser a derrota da esperança que se criou no restante do mundo, da esquerda mundial que viu naquele momento uma oportunidade de ouro de fazer um avanço substantivo aqui no Brasil. É preciso ter coragem para continuar avançando; repensar, olhar o que aconteceu, abrir espaço para o novo.
Até que ponto essa crise, no Brasil, relaciona-se com o governo do PT?
Relaciona-se e muito na medida em que o PT cresce com uma bandeira de luta contra a desigualdade muito fincada nos valores de uma ética política, e no decorrer do processo não foi isso o que se verificou. Não se pode menosprezar a inclusão social que o PT fez durante seus governos, os programas sociais, não se pode menosprezar isso, ao contrário. Mas o partido foi aos poucos se encastelando nos gabinetes de poder, e em pouco tempo acabou compondo com os chamados financiadores de campanha, os que financiam a política do Brasil, que são os grandes grupos de interesse – e pagou o preço caro que todo mundo está vendo agora. O problema do Brasil é que a esquerda está muito vinculada ao PT, e é preciso dar uma guinada para poder ganhar de novo a confiança do eleitorado, já que a esquerda ficou associada aos esquemas de corrupção desse sistema que ela se elegeu prometendo combater. Trata-se de conciliar isso. Como reestruturar um novo pensamento, novas alternativas, incorporando os movimentos sociais novos, as periferias que não querem saber de partido, que se organizam de outra forma, que não veem nos partidos mais a sua representação. Como é que você dialoga com isso estabelecendo uma nova ética do relacionamento público e privado, ou seja, o combate à corrupção sórdida, essa praga mundial. Os partidos não vão mais representar a sociedade como antes, eles serão parte do processo mas não se esgota nisso.
Como a esquerda pode repensar suas estratégias políticas nesse cenário de distanciamento e perda de utopias?
Não há resposta simples, concreta e clara sobre isso, mas ela deve abranger os principais temas em debate hoje pela sociedade, a começar pela questão ambiental (hoje só quem dá ênfase a isso são ONGs), a igualdade de gênero, a questão racial, a questão da sustentabilidade como um todo e fundamentalmente a questão democrática. A esquerda vai se reconstruir na medida em que jogar na radicalização da democracia. Esse é o grande desafio que a esquerda tem hoje. Olhar em que medida as políticas públicas e as formulações ideológicas apontam para essa radicalização democrática, ou seja, transformar a democracia na nossa casa comum. O Brasil, por exemplo, é um país que ainda continua com um índice de desigualdade brutal, uma desigualdade que eu diria epidêmica ainda, se imaginar, por exemplo, índices como saneamento. Como é que você pode pensar em algo que não seja um fortalecimento de uma democracia substantiva? Por aí há uma pista para a ação política.

(Publicado originalmente no site da revista Cult)

 
 

O destino adiado de Aécio e os sinais de um grande acordo nacional.




Matheus Pichonelli
 
 
 
O país viu um pouco de tudo desde o início da hecatombe política provocada pela Lava Jato. Só não viu ainda tucano algemado – fato raro desde que os primeiros portugueses pisaram por aqui. Na terça-feira (20) havia expectativa e apreensão diante da análise da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal sobre a situação do senador afastado, e ainda na cúpula decisória do PSDB, Aécio Neves (MG).
Não deviam ser poucos os algozes que guardaram bebidas e rojões para a ocasião; menos ainda os que temiam as consequências políticas de um revés judicial.
Um tucano encarcerado depois de mobilizar multidões por mudanças nos estatutos da ética alimentaria a sanha condenatória que tomou as redes e o país.
A eventual prisão do ex-futuro presidente da República serviria como uma espécie de desforra a quem até ontem era acusado ou incitado a explicar a manutenção do monopólio da corrupção no Brasil. Um tucano encarcerado pouco depois de mobilizar multidões e formadores de opinião por mudanças nos estatutos da ética, dos bons modos e da boa gestão alimentaria a sanha condenatória que tomou as redes e o país, cada vez mais parecido com uma caixa de comentários de portais.
A cena só não minimizaria o apetite multipartidário pelo tal grande acordo nacional que unificou adversários políticos nos discursos contra juízes, procuradores e delatores. O apetite parece bem escondido, mas de vez em quando aparece em discursos como o do líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini, segundo quem os acusadores de Aécio confundem obstrução de Justiça e crime continuado com “fazer política”.
A sincronia pode ser avaliada pela contestação, por parte do governador tucano do Mato Grosso do Sul, da homologação de delações da JBS pelo ministro do STF Edson Fachin. Seria a brecha para melar outros depoimentos e abrir caminho para o chamado acordão. Não faltarão apoiadores nem mesmo no Judiciário, onde já há magistrados revoltados e dedicados a redefinir os limites das investigações (invejosos dirão que o limite é um conceito de proximidade entre amigos e inimigos).
No caso de Aécio, fazer política provavelmente se confunde com o desejo manifesto na conversa gravada com Joesley Batista antes de pedir (e receber) dinheiro ao dono da JBS: era preciso trocar o ministro da Justiça porque “aí mexia na PF”.
“Vai vim um inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não (têm) o cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, 2 mil delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né?”, descreveu.
RIO DE JANEIRO,RJ,18.05.2017:OPERAÇÃO-LAVA-JATO-AÉCIO - Agentes da Polícia Federal são vistos deixando apartamento do senador Aécio Neves em Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), durante operação da força-tarefa da Lava Jato deflagrada na manhã desta quinta-feira (18). A operação teria tido início após a delação do dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, que entregou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma gravação do senador Aécio Neves pedindo a ele R$ 2 milhões. (Foto: Alessandro Buzas/Futura Press/Folhapress)

Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão na residência de Aécio Neves no Rio de Janeiro, em mais uma fase da Operação Lava Jato, no dia 18 de maio.

Foto: Alessandro Buzas/Futura Press/Folhapress
Com base nas delações dos executivos da JBS, a Procuradoria-Geral da República denunciou o senador por corrupção passiva e obstrução e Justiça. Pediu a perda da “função pública” e o pagamento, junto da irmã, Andrea Neves, de R$ 6 milhões como indenização de danos morais e materiais à União.
O tucano denunciado e sob risco é a versão mais recente do herdeiro político de Tancredo Neves. Como deputado e governador, ele era citado como um político diplomático e habilidoso. Chegou a ser elogiado até mesmo pela então candidata petista Dilma Rousseff durante um ato de campanha em Minas Gerais em 2010, que o chamou de “governador exemplar” com quem mantinha “a melhor relação possível”.
Quatro anos depois, Aécio saiu da campanha derrotada à Presidência disposto a interditar o governo Dilma, então adversária declarada. Adotou tom beligerante, incentivou as manifestações pró-impeachment e levou ao Tribunal Superior Eleitoral as ações contra a chapa vitoriosa que, por pouco, não dragaram o governo do qual passaria a fazer parte.
Uma vez detido, o que a boa memória do ex-governador teria a dizer sobre os colegas que o deixaram ferido na estrada?
Esse lado tão estourado quanto atrapalhado do senador agora afastado levou parte dos interessados a acompanhar com apreensão a sessão da 1ª Turma do STF. Uma vez detido, o que a boa memória do ex-governador, conforme a definição das colunas de bastidores, teria a dizer sobre os colegas que o deixaram ferido na estrada?
O adiamento da decisão sobre sua possível prisão, somado à concessão de prisão domiciliar à sua irmã e seu primo, aquele que deveria morrer antes da delação, foi interpretado como indicativo de vitória no STF, que dirá em breve se o caso deve ser apreciado na 1ª Turma ou no Plenário. Até lá, todos ganham tempo, inclusive o PSDB, que por ora não corre o risco de decidir sobre o comando da sigla com o comandante algemado.
BELO HORIZOINTE, MG, 18.05.2017: ANDREA-NEVES - A irmã do senador Aécio Neves, Andrea Neves, chega ao Instituto Médico Legal após ser presa em nova fase da Operação Lava Jato. (Foto: Pedro Silveira/Folhapress)

A irmã do senador Aécio Neves, Andrea Neves, chega ao IML após ser presa na Operação Lava Jato, no dia 18 de maio.

Foto: Foto: Pedro Silveira/Folhapress
“É bom que ele esteja mais tranquilo e tome uma decisão tirando esse peso da irmã”, despistou o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).
O adiamento, por outro lado, prolonga a agonia de quem não parece chegar a um acordo sobre permanecer ou não no governo, apoiar ou não as reformas, ignorar ou não a condição de sua liderança principal.
A indefinição ajuda a levar incerteza até mesmo onde o trator governista parecia intocável. Pois, no mesmo dia em que Aécio e o PSDB tiveram os destinos adiados, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado rejeitou, com o voto de um tucano, o relatório de um outro tucano sobre a reforma trabalhista. A exposição do racha acontecia enquanto o presidente vestia a fantasia de chefe de Estado na Rússia, mas era citado, por aqui, como chefe de organização criminosa pelo dono da JBS e como detentor das digitais em evidências de corrupção passiva no inquérito da PF.
O timing da Justiça nem sempre é o mesmo da política, embora às vezes se esforcem por se encontrar. Aliviado ou não, Aécio já cumpre na prática sua espécie de exílio particular. De governador respeitado por adversários a opositor irresponsável, sua última faceta é a de um tucano acuado com um longo passado pela frente.
Foto em destaque: Aécio Neves durante o processo de impeachment no Senado, em agosto de 2016
 
(Publicado originalmente no site do Intercept Brasil)