domingo, 25 de setembro de 2016

Michel Zaidan Filho: Para que serve o direito?





Estive, nesta semana que passou, no 1. Congresso Jurídico da Faculdade de Limoeiro. O conclave dedicado ao tema dos Direitos Humanos e o cumprimento dos tratados internacionais pelas nações, contou com a participação de Juízes, Promotores de justiça, Advogados e até de um ex-ministro e ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa. Duas coisas me chamaram muito a atenção nesse encontro: primeiro, a discussão do papel do Ministério Público no cumprimento dos Direitos Humanos; segundo o momento muito delicado em que se encontram no mundo, na América Latina e no Brasil, os direitos humanos e do cidadão.

Tive a pachorra de aguardar até às 21:00 as falas dos ilustres palestrantes que me antecederam, nesta noite (dia 21). E fiquei curioso como ex-integrantes da PG estadual, discursavam sobre a autonomia e a liberdade do Ministério Público, no novo ordenamento jurídico, seu papel de fiscal da cidadania, garantidor de direitos etc. E me lembrava das autoridades públicas (do PSB) que governam Pernambuco. Como pode haver autonomia e liberdade de um Poder, quando seus membros são indicados ou nomeados por quem deve ser fiscalizado e responsabilizado civil e penalmente, quando ocorrem casos clamorosos de denúncia de improbidade administrativa, gestão temerária ou corrupção? - Em tese, a separação dos poderes deveria garantir a independência de cada um em relação ao outro. Infelizmente, não é assim que acontece na prática corriqueira de procuradores e magistrados em relação ao Poder Executivo. 

Muitas vezes, este último encontra inúmeras maneiras de cooptar ou neutralizar as atribuições legais do Ministério Público ou da Procuradoria do Estado: desde o poder de nomeação para altos cargos, seja na magistratura, seja no MP, até os mimos da infinidade de gratificações dispensados a esses, tudo concorre para que a função precípua de controlar e fiscalizar as ações administrativas do gestor termine por restar como letra morta e decretar a impunidade dos ilícitos na administração pública. Casos de nepotismos, de favorecimento a terceiros em grandes obras públicas, superfaturamento no pagamento de desapropriações, subpreço na venda de terrenos públicos etc. tudo isso passa como fatos corriqueiros e banais do dia-a-dia da administração pública, e nenhuma providencia é tomada para averiguar ou responsabilizar os gestores envolvidos nesses casos. Mais graves são as consequências eleitorais dessa clamorosa omissão: estes mesmos gestores caminham placidamente para uma campanha eleitoral, como se não devesse que prestar o mínimo esclarecimento à opinião pública, em face da passividade daquele outro Poder que deveria, sim, ter cumprido com a sua missão constitucional. Quem perde é a cidadania, iludida com a purpurina e o glamour da propaganda enganosa do gestor público.

O segundo ponto que mereceu a minha atenção foi mais interessante. Depois de uma exposição didática da evolução do Direito e a crise que se abriu com a virada linguística na filosofia do Direito, conduzindo a uma perspectiva nominalista da Justiça e dos próprios direitos humanos, alguém pediu a palavra e perguntou pela situação dos direitos humanos na América Latina, sobretudo na Venezuela. Essa questão deu ensejo a uma análise mais ampla da situação extremamente delicada em que se encontram os DD.HH. no mundo de hoje. Depois que a agenda da política externa norte-americana de "guerra ao terror" dominou a política externa da União Européia e convenceu os governos europeus a integrarem a frente de guerra no Oriente Médio e Ásia Central, num triste processo de "libanização" de vários estados considerados inimigos dos EE.UU., o cumprimento dos tratados internacionais de Direitos Humanos passaram a ser cumpridos "À la carte", como disse a Anistia Internacional. 

Os governos beligerantes, liderados pelos EE.UU., passaram a submeter esses tratados a razões de Estado, nem sempre coincidentes com os interesses da Humanidade ou de seus concidadãos. A face mais visível desse horizonte incerto para os DD.HH. é o que vem ocorrendo na América Latina, com uma sucessão de golpes parlamentares contra governos constitucionais e legítimos, em benefício da execução de uma agenda econômica neo-liberal e pró-mercado (Paraguai, Honduras, Brasil). Naturalmente, esse movimento não é alheio aos interesses da política externa norte-americana, que voltou a fazer acordos bilaterais com vários países latino-americanos e a tentar enfraquecer o processo de integração regional, liderado pelos governos de centro-esquerda. 

E aí chegamos ao Brasil: nunca se viu uma ameaça de retrocesso tão grande, como a que estamos assistindo nesse momento: o desmonte e a deslegitimação do SUS, as propostas indecorosas de reduzir e simplificar a grade curricular do ensino médio (retirando ou flexibilizando o ensino da filosofia, sociologia etc.), o ataque às políticas de transferência de renda para a população mais pobre, a privatizando do que resta do patrimônio nacional e - mais grave - a imposição de uma Estado de exceção "episódico" que caminha a passos largos para se torna explícito e permanente.

Continuam as manobras de um certo poder judiciário (ativista) para intervir arbitrariamente no processo político brasileiro, com prisões espetaculares, conduções coercitivas, divulgação de trechos de delações, com um único objetivo: alijar determinados atores políticos do jogo eleitoral. E tudo com a cumplicidade da mídia golpista e imoral, absolutamente sem controle democrático, que nós temos nesse país.Temos de convir que os principais responsáveis pelas fiscalização das leis e de seu cumprimento vêm colaborando ativamente para o seu fim e a mais absoluta insegurança jurídica que este país já experimentou. Em que Tribunal da História, responderão essas pessoas por esses atos de lesa-cidadania e lesa-pátria?

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

sábado, 24 de setembro de 2016

Rodrigo Vianna: A carta de despedida que desancou a Globo

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LEALDADE
pubicada depois das eleições presidenciais de 2006
Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar — ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.
Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: “você não vai aguentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros”. Aguentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos — sim — bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.
Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: “olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás”.
Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política – da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.
Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.
Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!
Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: “o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto”.
Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior.
Na reta final do primeiro turno, os “aloprados do PT” aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui.
Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: “por que não vamos repercutir a matéria da “IstoÉ“, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira?”
Por que isso, por que aquilo… Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?
Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de “petistas” e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do “governo anterior”, acharam que ninguém ia achar estranho?
Faltando seis dias para o primeiro turno, o “petista” Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud! Deve haver uma explicação psicanalática para jornalismo tão seletivo!
Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as “suspeitas”, e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente… A mensagem era clara. Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição.
Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos.
Também nãoo vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo. E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devessemos fazer; seria o fim da picada…).
O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!
Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!
Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulancias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do “dossiê”. Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas?
E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, voces sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas “desagradáveis”. A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar.
E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores…
E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos. Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa — as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder.
Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu!
Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite?
Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN?
O JN levou um furo, foi isso?
Um colega nosso, aqui da Globo ouviu a fita e botou no site pessoal dele… Mas, a Globo não pôs no ar… O portal “G-1″ botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a “CartaCapital” ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era.
Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo?
Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente.
E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da “CartaCapital”. Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!
Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista “Quatro Rodas” dá matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks tem a brilhante ideia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que voces acham? Os metalurgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim!
Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição…
De resto, esté difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de “pretos e pardos”. Voces já viram isso no ar? Sinto vergonha…
A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como “concubinas” ou “amásias”. Nunca usamos esses termos!
Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de “turcos” pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos?
Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de “Parada dos Pederastas”. Francamente, não tenho mais estômago.
Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?
Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de voces.
Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado.
Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições.
Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo:
“(…)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança”.
Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas… Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo — sim — no Brasil.
E vejam o vocabulário: “lealdade e confiança”. Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da “lealdade”.
Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou.
Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi “leal” com o público. Nem com os jornalistas.Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia!
João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno:
“Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando”.
Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!
Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na “geladeira”. Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação — especialmente em São Paulo.
Boa parte dos seus “colaboradores” (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas — “colaboradores”, essa é boa… Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.
Mas, isso tudo tem pouca importância.
Grave mesmo é a tela da Globo — no Jornalismo, especialmente — não refletir a diversidade social e política brasileira. Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente?
Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho?
Depois, não sabem porque os protestantes crescem…
Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!
Mas, essa é também uma carta de despedida, sentimental.
Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais.
Foram quase doze anos de Globo.
Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha — nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil.
Havia o João Paulada — o faz-tudo da Redação.
Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces…
Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo.
Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós — nas ruas, no Metrô, na padaria.
Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação. Estacionamentos eram externos (não havia “vallet park”, nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.
Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agencia de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano.
Mas, há as pessoas. Essas valem a pena.
Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas…
1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem “lealdade”; parecem “poderosos chefões” falando com seus seguidores… Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.
2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades.
Saudades das equipes na rua — UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo.
Saudades dos editores — que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais.
Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem — acho que fui leal com as pautas de voces e (bem menos) com os horários!
Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica — sempre leais.
Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter – com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).
Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui.
Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.
Um beijo a todos.
Rodrigo Vianna

O xadrez político das eleições de 2016, no Recife: Por enquanto, Datafolha confirma um segundo turno no Recife. Qual o caminho do PSDB e do DEM?

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José Luiz Gomes


Alguns articulistas da imprensa local questionaram bastante se teria sido prudente a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aqui no Recife, para apoiar a candidatura do petista João Paulo à Prefeitura da Cidade do Recife nessas eleições municipais. Argumentavam eles que, pelo fato de o juiz Sérgio Moro ter aceito as denúncias contra o ex-presidente - um fato que alcançou ampla repercussão naqueles "canais competentes" - isso poderia trazer alguns prejuízos para o candidato, em vez de alavancar a sua campanha. É mesmo difícil precisar os efeitos desse assassinato de imagem de que estão sendo vítimas tanto o PT quanto o seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Nesses momentos bicudos - de instabilidade política e insegurança judicial - a setores da mídia foram delegados o papel de julgar e condenar os indivíduos, mesmo sem provas. Estamos num tribunal de exceção, de consequências funestas para o país. Para se condenar alguém basta um certo procurador sentar-se e, no seu computador, preparar um Power Point. Não precisa mais do que isso. Como ele mesmo afirmou, bastam suas idiossincrasias, traduzidas como convicções. 

A mais recente pesquisa do Datafolha sobre as intenção de votos aqui no Recife, confirmam os dados então apresentados por uma pesquisa anterior, realizada pelo Instituto Maurício de Nassau, com ligeiras variações que podem ser creditadas à questões pontuais, como metodologia, universo pesquisado, período de realização da pesquisa. Nada muito relevante. O relevante mesmo é que os dois institutos convergem para resultados semelhantes, o que nos permitem olhar com mais clareza sobre essa tal radiografia das eleições municipais do Recife. Até o momento, por exemplo, confirmar-se a possibilidade concreta de um segundo turno nessas eleições, polarizada entre os candidatos Geraldo Júlio(PSB)(38%) e João Paulo(PT)(29%). Neste contexto, começam as especulações em torno do posicionamento de candidaturas como a de Daniel Coelho(PSDB) e Priscila Krause(DEM). Por razões de natureza ideológica, seria "natural" que eles tenderiam a apoiar Geraldo Júlio(PSB) num eventual segundo turno.  

Mas, a julgar pelo andar da carruagem política, essa tendência "natural", hoje, poderia não ser confirmada, em razão de uma série de motivos. A relação de Geraldo Júlio com o núcleo duro tucano que gravita em torno da candidatura de Daniel Coelho estão profundamente azedadas. Alguns candidatos tucanos à Casa de José Mariano construíram suas plataformas eleitorais em torno de uma oposição aberta à gestão da Prefeitura da Cidade do Recife, como é o caso do vereador André Regis. Quem talvez reunisse capital político para arrumar o meio de campo e reconstruir pontes seria o ex-prefeito do município de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes, mas este já tem problemas demais para eleger o seu sucessor no município, Heraldo Selva(PSB) - que não vai bem nas pesquisas - além do seu filho, Betinho, no Cabo de Santo Agostinho, que também encontra dificuldades com os números. 

Na realidade, as relações entre o PSDB e o PSB, no Estado, nunca estiveram tão ruins. O governador Paulo Câmara(PSB), por exemplo, tem se queixado do tratamento do Governo Federal, em particular de um determinado ministro tucano. Em política, como bem afirma o comunista da chapa amarela, quando se deseja, é possível se dar nó em água. Mas, a rigor, essa costura entre tucanos e "socialistas" não seria assim tão simples. Quando Sérgio Guerra era vivo, ele regia a orquestra tucana conforme seus desejos e vontades. Depois de sua morte, as aves tucanas formaram vários bandos, cada qual agindo consoante diretrizes próprias. A afirmação de uma candidatura tucana à Prefeitura da Cidade do Recife, por exemplo, quando algumas aves já faziam ninho na gestão de Geraldo Júlio, é um claro indício do tamanho dessas divergências. 

O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao caso do DEM, cuja candidatura de Priscila Krause representou um verdadeiro "divisor de águas" na relação entre "socialistas" e democratas. A relação entre os dois grêmios partidários estão profundamente estremecidas tanto no plano estadual quanto no plano municipal. Na condição de Deputada Estadual, a representante dos Democratas exerceu uma das mais ferrenhas oposição à gestão do governador Paulo Câmara, criticando e denunciando os possíveis equívocos de sua administração. Apesar das arestas, o governador Paulo Câmara pediu para o seu secretário de Educação prestigiar a posse do ministro Mendonça Filho no MEC, num gesto de quem não deseja ver os canais de diálogos completamente obstruídos, embora tenha pedido todos os cargos indicados pelo partido. 

Com a "nova" correlação de forças formada após o "impeachment" da ex-presidente Dilma Rousseff, o DEM parece ter renovado suas expectativas de atuação política na quadra local. Se, por um lado, para esses dois grêmios partidários não será nada fácil reconstruir o caminho de volta ao palanque de Geraldo Júlio, num eventual segundo turno, por outro, a possibilidade de migração para um possível apoio ao nome de João Paulo, por razões bem conhecidas, seria bastante improvável, mesmo se considerarmos o fato de a dinâmica das competições locais não corresponderem,  necessariamente, ao que ocorre na capital federal. Nestes momentos, fala mais alto o jogo pesado da competição eleitoral, a expectativa de poder, a ocupação de espaços na máquina.  

P.S.: Do Realpolitik: Hoje saiu mais uma pesquisa do Instituto Maurício de Nassau, encomendada pelo grupo JC. Nesta pesquisa, Geraldo Júlio aparece com 33% das intenções de voto, ao passo que o candidato do PT, João Paulo, pontua em 25%. Em nada essa nova pesquisa interfere na possibilidade, cada vez mais concreta, de um possível segundo turno nas eleições do Recife. Por enquanto, o quadro parece inalterado. Sobre os possíveis "efeitos" da presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no palanque de João Paulo, positivo ou negativo, nada foi aferido.

Li alguns comentários do cientista político Roberto Numeriano sobre as próximas eleições municipais do Recife. Interessante suas considerações sobre uma possível estratégia do PT, quem sabe com o objetivo de angariar os votos de setores da classe média, adotando uma prática, digamos assim, "contida" em relação ao golpe parlamentar recentemente ocorrido no país e de como seus opositores se identificam com este projeto. Também não teria sido apontado pelo PT a "carona" dos amarelos em relação às obras federais no Estado, o que poderia ter alavancado a penetração de Geraldo Júlio na periferia, o que se explica pelo seu ligeiro crescimento, embora não o suficiente para liquidar a fatura ainda no primeiro turno. Se o PT usou uma estratégia equivocada, pode ter perdido espaço na periferia, além de não ter penetrado nos redutos de classe média. Se estamos certos, o PT foi infeliz em conquistar os votos daqueles que bradam pelo "Fora, Temer", democratas que não são necessariamente petistas. Alguém lembrou que, nas duas eleições vencidas por João Paulo, os redutos de classe média foram importantes para essas vitórias. É possível que a decisão de reconquistá-los - ou não amedrontá-los - nessas eleições tenha sido uma posição baseada nesse background. Vale as ponderações do cientista político Roberto Numeriano. Uma outra ponderação importante diz respeito ao candidato tucano, Daniel Coelho, que parece ter atingido o seu "teto", aí pela casa dos 13% do eleitorado recifense. Cumpre o papel de levar a eleição para um segundo turno, mas deve assistir ao embate de camarote, possivelmente torcendo, mesmo que a contragosto, pelo "socialista" Geraldo Júlio. A julgar por sua performance nas eleições de 2012 - levando aquelas eleições para um segundo turno, para desespero do governador Eduardo Campos, que desejava a fatura liquidada logo no primeiro turno - havia a expectativa de que o tucano de ovo de cuco pudesse "surpreender" neste pleito, mas isso não ocorreu. Ainda não foi desta vez que ele "polarizou" o jogo aqui no Estado. 

O xadrez político das eleições de 2016, no Recife: Por enquanto, Datafolha confirma um segundo turno no Recife. Qual o caminho do PSDB e do DEM?

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José Luiz Gomes


Alguns articulistas da imprensa local questionaram bastante se teria sido prudente a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aqui no Recife, para apoiar a candidatura do petista João Paulo à Prefeitura da Cidade do Recife nessas eleições municipais. Argumentavam eles que, pelo fato de o juiz Sérgio Moro ter aceito as denúncias contra o ex-presidente - um fato que alcançou ampla repercussão naqueles "canais competentes" - isso poderia trazer alguns prejuízos para o candidato, em vez de alavancar a sua campanha. É mesmo difícil precisar os efeitos desse assassinato de imagem de que estão sendo vítimas tanto o PT quanto o seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. Nesses momentos bicudos - de instabilidade política e insegurança judicial - a setores da mídia foram delegados o papel de julgar e condenar os indivíduos, mesmo sem provas. Estamos num tribunal de exceção, de consequências funestas para o país. Para se condenar alguém basta um certo procurador sentar-se e, no seu computador, preparar um Power Point. Não precisa mais do que isso. Como ele mesmo afirmou, bastam suas idiossincrasias, traduzidas como convicções. 

A mais recente pesquisa do Datafolha sobre as intenção de votos aqui no Recife, confirmam os dados então apresentados por uma pesquisa anterior, realizada pelo Instituto Maurício de Nassau, com ligeiras variações que podem ser creditadas à questões pontuais, como metodologia, universo pesquisado, período de realização da pesquisa. Nada muito relevante. O relevante mesmo é que os dois institutos convergem para resultados semelhantes, o que nos permitem olhar com mais clareza sobre essa tal radiografia das eleições municipais do Recife. Até o momento, por exemplo, confirmar-se a possibilidade concreta de um segundo turno nessas eleições, polarizada entre os candidatos Geraldo Júlio(PSB)(38%) e João Paulo(PT)(29%). Neste contexto, começam as especulações em torno do posicionamento de candidaturas como a de Daniel Coelho(PSDB) e Priscila Krause(DEM). Por razões de natureza ideológica, seria "natural" que eles tenderiam a apoiar Geraldo Júlio(PSB) num eventual segundo turno.  

Mas, a julgar pelo andar da carruagem política, essa tendência "natural", hoje, poderia não ser confirmada, em razão de uma série de motivos. A relação de Geraldo Júlio com o núcleo duro tucano que gravita em torno da candidatura de Daniel Coelho estão profundamente azedadas. Alguns candidatos tucanos à Casa de José Mariano construíram suas plataformas eleitorais em torno de uma oposição aberta à gestão da Prefeitura da Cidade do Recife, como é o caso do vereador André Regis. Quem talvez reunisse capital político para arrumar o meio de campo e reconstruir pontes seria o ex-prefeito do município de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes, mas este já tem problemas demais para eleger o seu sucessor no município, Heraldo Selva(PSB) - que não vai bem nas pesquisas - além do seu filho, Betinho, no Cabo de Santo Agostinho, que também encontra dificuldades com os números. 

Na realidade, as relações entre o PSDB e o PSB, no Estado, nunca estiveram tão ruins. O governador Paulo Câmara(PSB), por exemplo, tem se queixado do tratamento do Governo Federal, em particular de um determinado ministro tucano. Em política, como bem afirma o comunista da chapa amarela, quando se deseja, é possível se dar nó em água. Mas, a rigor, essa costura entre tucanos e "socialistas" não seria assim tão simples. Quando Sérgio Guerra era vivo, ele regia a orquestra tucana conforme seus desejos e vontades. Depois de sua morte, as aves tucanas formaram vários bandos, cada qual agindo consoante diretrizes próprias. A afirmação de uma candidatura tucana à Prefeitura da Cidade do Recife, por exemplo, quando algumas aves já faziam ninho na gestão de Geraldo Júlio, é um claro indício do tamanho dessas divergências. 

O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao caso do DEM, cuja candidatura de Priscila Krause representou um verdadeiro "divisor de águas" na relação entre "socialistas" e Democratas. A relação entre os dois grêmios partidários estão profundamente estremecidas tanto no plano estadual quanto no plano municipal. Na condição de Deputada Estadual, a representante dos Democratas exerceu uma das mais ferrenhas oposição à gestão do governador Paulo Câmara, criticando e denunciando os possíveis equívocos de sua administração. Apesar das arestas, o governador Paulo Câmara pediu para o seu secretário de Educação prestigiar a posse do ministro Mendonça Filho no MEC, num gesto de quem não deseja ver os canais de diálogos completamente obstruídos, embora tenha pedido todos os cargos indicados pelo partido. 

Com a "nova" correlação de forças formada após o "impeachment" da ex-presidente Dilma Rousseff, o DEM parece ter renovado suas expectativas de atuação política na quadra local. Se, por um lado, para esses dois grêmios partidários não será nada fácil reconstruir o caminho de volta ao palanque de Geraldo Júlio, num eventual segundo turno, por outro, a possibilidade de migração para um possível apoio ao nome de João Paulo, por razões bem conhecidas, seria bastante improvável, mesmo se considerarmos o fato de a dinâmica das competições locais não corresponderem,  necessariamente, ao que ocorre na capital federal.  

P.S.: Do Realpolitik: Hoje saiu mais uma pesquisa do Instituto Maurício de Nassau, encomendada pelo grupo JC. Nesta pesquisa, Geraldo Júlio aparece com 33% das intenções de voto, ao passo que o candidato do PT, João Paulo, pontua em 25%. Em nada essa nova pesquisa interfere na possibilidade, cada vez mais concreta, de um possível segundo turno nas eleições do Recife. Por enquanto, o quadro parece inalterado. Sobre os possíveis "efeitos" da presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no palanque de João Paulo, positivo ou negativo, nada foi aferido.

Li alguns comentários do cientista político Roberto Numeriano sobre as próximas eleições municipais do Recife. Interessante suas considerações sobre uma possível estratégia do PT, quem sabe com o objetivo de angariar os votos de setores da classe média, adotando uma prática, digamos assim, "contida" em relação ao golpe parlamentar recentemente ocorrido no país e de como seus opositores se identificam com este projeto. Também não teria sido apontado pelo PT a "carona" dos amarelos em relação às obras federais no Estado, o que poderia ter alavancado a penetração de Geraldo Júlio na periferia, o que se explica pelo seu ligeiro crescimento, embora não o suficiente para liquidar a fatura ainda no primeiro turno. Se o PT usou uma estratégia equivocada, pode ter perdido espaço na periferia, além de não ter penetrado nos redutos de classe média. Se estamos certos, o PT foi infeliz em conquistar os votos daqueles que bradam pelo "Fora, Temer", democratas que não são necessariamente petistas. Alguém lembrou que, nas duas eleições vencidas por João Paulo, os redutos de classe média foram importantes para essas vitórias. É possível que a decisão de reconquistá-los - ou não amedrontá-los - nessas eleições tenha sido uma posição baseada nesse background. Vale as ponderações do cientista político Roberto Numeriano. Uma outra ponderação importante diz respeito ao candidato tucano, Daniel Coelho, que parece ter atingido o seu "teto", aí pela casa dos 13% do eleitorado recifense. Cumpre o papel de levar a eleição para um segundo turno, mas deve assistir ao embate de camarote, possivelmente torcendo, mesmo que a contragosto, pelo "socialista" Geraldo Júlio. Ressalto aqui, por outro lado, aquilo que os blogueiros independentes já estão chamando de Operação Boca de Urna, ou seja, uma série de medidas tomadas pelo PIG e por setores do judiciário com o propósito explícito de desgastar, ainda mais, as forças do campo progressista, impedindo-as de esboçar uma reação já a partir deste momento. Momento aliás único, pois existe uma possibilidade concreta de "mudanças das regras do jogo da democracia representativa". Para quem derrubou uma presidente legitimamente eleita, sem crime de responsabilidade, tudo torna-se possível. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Drops político para reflexão: O retrocesso no projeto de reforma do ensino médio

o governo, através de medida provisória, a ser aprovada em até 120 dias, propõe uma mini reforma do ensino médio, flexibilizando o conteúdo da grade curricular das disciplinas obrigatórias (filosofia, artes, sociologia etc.) e mantendo 5 áreas: linguagem, matemática, ciências humanas, ciências naturais e ciências biológicas, defendendo que os estados tenham autonomia em que conteúdo programático focar. Em troca, oferece o aumento da carga horária e acena com a possibilidade de escola de ensino integral. É precisar atentar, com muito cuidado, para o perfil aligeirado de um ensino médio que perde em amplitude e base humanista (e crítico) para um ensino voltado à formação profissional/ou especializado nesse ou naquele ramo do saber. Isto numa fase em que os alunos ainda não tenham a autonomia (e o conhecimento) necessário para fazer opções. Neste caso, a reforma elimina a possibilidade de formação de uma mentalidade cosmopolita e crítica em prol de uma ilusória empregabilidade, num mundo cada vez mais complexo e hostil ao mundo do trabalho. Não era de se esperar outra coisa de um ministro como esse.

Michel Zaidan Filho, Prof. Titular da UFPE, em sua timiline da rede Facebook

Reforma de Temer legaliza o "apartheid educacional" no Brasil


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POR GAUDÊNCIO FRIGOTTO, filósofo e educador, professor do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A reforma de ensino médio proposta pelo bloco de poder que tomou o Estado brasileiro por um processo golpista, jurídico, parlamentar e midiático, liquida a dura conquista do ensino médio como educação básica universal para a grande maioria de jovens e adultos, cerca de 85% dos que frequentam a escola pública. Uma agressão frontal à constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes da Educação Nacional que garantem a universalidade do ensino médio como etapa final de educação básica.
Os proponentes da reforma, especialistas analfabetos sociais e doutores em prepotência, autoritarismo e segregação social, são por sua estreiteza de pensamento e por condição de classe, incapazes de entender o que significa educação básica. E o que é pior, se entende não a querem para todos.
Com efeito, por rezarem e serem co-autores da cartilha dos intelectuais do Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, etc., seus compromissos não são com direito universal à educação básica, pois a consideram um serviço que tem que se ajustar às demandas do mercado. Este, uma espécie de um deus que define quem merece ser por ele considerado num tempo histórico de desemprego estrutural.  O ajuste ou a austeridade que se aplica à classe trabalhadora brasileira, da cidade e do campo, pelas reformas da previdência, reforma trabalhista e congelamento por vinte anos na ampliação do investimento na educação e saúde públicas, tem que chegar à escola pública, espaço onde seus filhos estudam.
A reforma do ensino médio que se quer impor por Medida Provisória segue figurino da década de 1990 quando MEC era dirigido por Paulo Renato de Souza no Governo Fernando Henrique Cardoso. Não por acaso Maria Helena Guimarães é a que de fato toca o barco do MEC. Também não por acaso que o espaço da mídia empresarial golpista é dado a figuras desta década.
Uma reforma que retrocede ao obscurantismo de autores como Desttut de Tracy que defendia, ao final do século XIX, ser da própria natureza e, portanto, independente da vontade dos homens, a existência de uma escola rica em conhecimento, cultura, etc., para os que tinham tempo de estudar e se destinavam a dirigir no futuro e outra escola rápida, pragmática, para os que não tinham muito tempo para ficar na escola e se destinavam (por natureza) ao duro ofício do trabalho.
Neste sentido é uma reforma que anula Lei Nº. 1.821 de 12 de março de 1953. Que dispõe sobre o regime de equivalência dos cursos de grau médio para efeito de matrícula nos curso superiores e cria novamente, com outra nomenclatura, o direcionamento compulsório à universidade. Um direcionamento que camufla o fato de que para a maioria da classe trabalhadora seu destino são as carreiras de menor prestigio social e de valor econômico.
Também retrocede e torna, e de forma pior, a reforma do ensino médio da ditadura civil militar que postulava a profissionalização compulsória do ensino profissional neste nível de ensino. Piora porque aquela reforma visava a todos e esta só visa os filhos da classe trabalhadora que estudam na escola pública.  Uma reforma que legaliza o apartheid social na educação no Brasil.
O argumento de que há excesso de disciplinas esconde o que querem tirar do currículo – filosofia, sociologia e diminuir a carga de história, geografia, etc. E o medíocre e fetichista argumento que hoje o aluno é digital e não agüenta uma escola conteudista mascara o que realmente o aluno desta, uma escola degradada em seus espaços, sem laboratórios, sem auditórios de arte e cultura, sem espaços de esporte e lazer e com professores esfacelados em seus tempos trabalhando em duas ou três escolas em três turnos para comporem um salário que não lhes permite ter satisfeitas as suas necessidades básicas.  Um professorado que de forma crescente adoece. Os alunos do Movimento Ocupa Escolas não pediram mais aparelhos digitais, estes eles têm nos seus cotidianos. Pediram justamente condições dignas para estudar e sentir-se bem no espaço escolar.
Por fim, uma traição aos alunos filhos dos trabalhadores, ao achar que deixando que eles escolham parte do currículo vai ajuda-los na vida. Um abominável descompromisso  geracional e um cinismo covarde, pois seus filhos e netos estudam  nas escolas onde, na acepção de  Desttut de  Tracy  estudam os que estão destinados a dirigir  a sociedade.  Um reforma que legaliza a existência de uma escola diferença para cada classe social. Justo estes  intelectuais que em seus escritos negam a existência das classes sociais.
Quando se junta prepotência do autoritarismo, arrogância, obscurantismo e desprezo aos direitos da educação básica plena e igual para todos os jovens, o seu futuro terá  como horizonte a insegurança e a vida em suspenso.

(Texto publicado originalmente no site Tijolaço, aqui publicado com a autorização do autor)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A propaganda enganosa como estratégia dos "negócios do vento"

Le Monde: Eduardo Galeano, a voz da fraternidade


Despertar o espírito de libertação, contar pequenas histórias que ajudam a enxergar a grande, sensibilizar sobre as razões para chorar e as razões para rir de nossa realidade comum: esses foram os objetivos de Eduardo Galeano. Da evocação da cultura popular à celebração dos horizontes a expandir, o escritor uruguaio en
por Sébastien Lapaque



Em Montevidéu, capital da República Oriental do Uruguai, instalada na margem norte do Rio da Prata, Eduardo Galeano (1940-2015) tinha entre seus hábitos frequentar o Café Brasileiro, não distante da catedral onde fora batizado o misterioso Isidore Ducasse, autoproclamado conde de Lautréamont, em 16 de novembro de 1847. Nos primeiros anos do século XXI, tive frequentemente a oportunidade de seguir as pistas do autor dos Cantos de Maldoror no labirinto das ruas da cidade fundada em 1726 por colonos espanhóis receosos da cobiça dos portugueses, desejosos de estender sua colônia brasileira. Na época dessas deambulações austrais, eu pensava em Jules Laforgue e em Jules Supervielle, dois poetas de língua francesa também nascidos em Montevidéu. Com um exemplar do L’Homme de la Pampa1 enfiado no bolso, meus passos me levavam inevitavelmente para o Café Brasileiro, na Rua Ituzaingó, onde eu esperava entrever Eduardo Galeano, o homem que tinha publicado em 1971 Las venas abiertas de América Latina, um livro que, traduzido no mundo inteiro, se tornou o breviário da emancipação na América do Sul. As veias abertas2 é a história da pilhagem metódica do continente iniciada no fim do século XV e continuada sem interrupção desde então, apesar dos ciclos de colonizações e descolonizações.
No entanto, não foi graças a esse livro que eu descobri o escritor uruguaio, que não recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por razões inexplicáveis – ou por razões muito claras, e sim com Futebol ao sol e à sombra, traduzido na França em 1998 e acompanhado de um ensaio do filósofo Jean-Claude Michéa, “Os intelectuais, o povo e a bola redonda”.3 Uma celebração lírica da arte de chutar para o gol, tecida com reflexões sobre os efeitos do tempo: “A história do futebol é uma triste viagem, do prazer ao dever. À medida que o esporte se transformou em indústria, ele baniu a beleza que nasce do prazer de jogar. Neste mundo de fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável”.
Numa tarde de fevereiro, muito clara e muito azul, enfim encontrei Eduardo Galeano em Montevidéu. Um amigo de Buenos Aires tinha me dado seu número de telefone. De cada lado do Rio da Prata, escritores, intelectuais e artistas davam a sensação de viver no seio de uma pequena república fraternal. De um amigo a outro, rapidamente se podia conhecer todos. “Venha amanhã às 15 horas”, tinha simplesmente me indicado o escritor. Eu havia preparado perguntas demais em minha caderneta, mas ele dedicou tempo de responder a todas. Essa gentileza é o Uruguai...
Por minha culpa, a conversa começou de forma desajeitada. Eu falava a Eduardo Galeano sobre Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales, Hugo Chávez e José Mujica, então presidente da República do Uruguai, que encontrei dois dias antes em Garzón, uma pequena cidade da província de Maldonado. “Pepe” tinha me dado a mais viva impressão e eu tentava dizer algumas palavras a respeito dele para o autor de O livro dos abraços,4bela sequência de instantâneos fazendo o elogio do abrazo, “esse gesto amigável tão frequente na América Latina, que faz você abraçar qualquer pessoa que tenha prazer em encontrar ou tristeza de deixar, qualquer ser humano ao qual você deseje manifestar o impulso fraterno do seu coração”. O prazer, a tristeza, o impulso fraterno... Deveria ter me atido a essas pedras angulares da obra de Galeano. Ele tinha sido um grande jornalista e um imenso ensaísta político, autor de diversos textos teóricos e críticos. Mas no fim de sua vida seus combates passados não o interessavam tanto quanto antes. Demorei um pouco a perceber isso, emocionado demais por estar sentado diante de um dos principais atores das lutas pela dignidade dos povos da América Latina, apressado demais para evocar com ele seus engajamentos na época da ditadura militar no Uruguai (1973-1985), enquanto ele vivia na Espanha, depois de ter deixado a Argentina, onde tinha se exilado, e a qual também conheceria, em 1976, um golpe de Estado.
Sobre a mesa entre nós, estavam As veias abertas da América Latina e Futebol ao sol e à sombra. Eu podia sentir muito bem que ele estava irritado por lhe falarem somente desses dois livros. Teria eu esquecido que ele também havia escrito Dias e noites de amor e de guerra,5 Os nascimentosAs caras e as máscaras,O século do vento6 e De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso?7 Em cinco décadas de escrita, do início dos anos 1960 ao início dos anos 2010, Galeano publicou cerca de trinta obras em registros muito variados, com uma predileção pelas formas literárias que pudessem celebrar as felicidades frágeis: prosas poéticas, histórias curtas, estilhaços de memória, “palavras vagabundas”, fragmentos sem ordem e sem continuação. “Somos feitos de tempo. Somos suas vozes e seus pés. Os pés do tempo andam nos nossos passos. Cedo ou tarde, os ventos irão apagar os rastros. Todo mundo sabe disso. Travessa do nada, rastros de ninguém? As vozes do tempo contam a viagem.”8 Pela anedota, é divertido lembrar que o presidente venezuelano Hugo Chávez ofereceu As veias abertas a seu homólogo Barack Obama, em 18 de abril de 2009, na ocasião de um encontro das Américas em Trinidad e Tobago. Mas apenas pela anedota. Pois sempre chega o momento em que nos esquecemos da anedota para voltarmos à poesia: apenas ela autoriza a passagem da sombra à luz. Política e militante, podendo tratar de aspectos muito sombrios da realidade, a obra de Galeano sabe também, e principalmente, evocar a alegria radiosa dos povos da América.
Em Montevidéu, o escritor de olhar azul profundo me lembrou de que o real sobre o qual ele queria testemunhar livro após livro não tinha nada a ver com o real falsificado que agitava os mercados financeiros. “O caráter tão rico, tão contraditório e tão diverso da América Latina, esta terra desprezada, aparece nos aspectos não visíveis da realidade, longe do círculo no qual fechamos hoje a política e a economia. Mas esses aspectos invisíveis da experiência humana são a própria realidade... Quando empresto minha voz aos sem-voz, não me refugio fora do real. A realidade continua sendo minha fonte principal de inspiração, com suas alegrias e suas penas, suas tempestades e claridades. Conto pequenas histórias que têm como vocação ajudar a ver a Grande História. Como em um mosaico, quadrados coloridos colocados lado a lado acabam compondo um quadro da realidade. Eu vejo o Universo inteiro através das histórias minúsculas, como olhamos um quarto através do buraco da fechadura. É um jeito de revelar aos meus leitores a possibilidade de viver a plenos pulmões, com toda a energia possível. As razões de chorar são infinitas. Mas as de rir também existem. É importante guardar ao mesmo tempo a capacidade de celebrar a realidade e a coragem de denunciá-la.”
Essa arte inigualável de despertar o espírito de liberdade adormecido no coração dos homens se elucida principalmente em As palavras andantes, uma compilação de contos acompanhados de xilogravuras do artista brasileiro José Francisco Borges – pois Galeano, que fez sem cessar um trabalho de pedagogia para os humildes, gostava que seus livros fossem ilustrados com desenhos. As pequenas histórias do escritor dão conta de um mundo que ainda não saiu da inocência – daí sua fragilidade diante dos predadores de qualquer natureza. Nativo de um continente tecido de sonhos, fábulas e lendas, onde os homens, as mulheres e as crianças apreciam que lhes contem histórias em voz alta, o escritor atende às suas expectativas abrindo as janelas para um mundo interior no qual evoluem personagens fabulosos.
Ao lê-las, descobrimos a sobrevivência de uma autêntica cultura popular das terras do Sul, as quais o capitalismo sangrou depois de lhes ter aberto as veias. Lá, o bem e o mal, a lembrança e o esquecimento são coisas simples e claras; e os pobres vivem em um mundo bem mais verdadeiro que os ricos. Encontramos esse sentimento na literatura de cordel do Nordeste brasileiro, chamada assim por causa da corda na qual esses libretos de poesia popular ficam pendurados com pregadores de roupa, nas feiras. Adotando um estilo que restitui o charme da coisa falada, o escritor destacou uma cultura popular que a televisão não tinha conseguido esmagar, o que nos permite escutá-lo escrever. “A mulher habitada sabe quando e sabe o quê. Ela sabe quando graças àquilo que lhe dizem a lua e seu corpo. Ela sabe o que graças àquilo que lhe dizem os sonhos. Se ela sonha com tecido ou cerâmica, terá uma menina. Se ela sonha com metais, chapéus ou ovos, terá um menino.”
Galeano não considerava a palavra “utopia” um palavrão. Desse “não lugar” onde os homens inventam sem parar uma esperança comum de justiça, de amor e de paz, nós não devemos zombar, mas desejar sua chegada. Ele o lembra em As veias abertas: “Tudo nos é proibido, exceto cruzar os braços? A pobreza não está escrita nas estrelas, o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. Correm anos de revolução, tempos de redenção. As classes dominantes põem as barbas de molho e, ao mesmo tempo, anunciam o inferno para todos. Em certo sentido, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem – a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta”. Existe outro mundo escondido sob este mundo; a justiça é possível aqui e agora. Depois de deixar Galeano, esqueci a catástrofe ecológica e os interesses do tempo. Para me lembrar do escritor uruguaio – recordar –, repasso simplesmente de cor, releio Janela para a utopia:9 “Ela está no horizonte [...] Me aproximo dois passos, ela se distancia dois passos. Avanço dez passos e o horizonte foge dez passos mais longe. Posso continuar avançando, nunca irei alcançá-la. Para que serve a utopia? Ela serve para isto: caminhar”.10
Se Galeano nos tiver ensinado apenas isso, já será muito.

Sébastien Lapaque
*Sébastien Lapaque é escritor. Sua última obra é Théorie de Rio de Janeiro [Teoria do Rio de Janeiro], Actes Sud, Arles, 2014.


Ilustração: Daniel Kondo

1          Jules Supervielle, L’Homme de la Pampa [O homem dos pampas], Gallimard, Paris, 1923.
2          Eduardo Galeano, Les Veines ouvertes de l’Amérique latine. Une contre-histoire [As veias abertas da América Latina. Uma contra-história], Plon, Paris, 1981.
3          Eduardo Galeano, Le Football, ombre et lumière [Futebol ao sol e à sombra], Lux, Montreal, 2014 (1. ed.: 1998); Jean-Claude Michéa, Les Intellectuels, le peuple et le ballon rond[Os intelectuais, o povo e a bola redonda], Climats, Castelnau-le-Lez, 1998.
4          Eduardo Galeano, Le Livre des étreintes [O livro dos abraços], Lux, 2012.
5          Eduardo Galeano, Jours et nuits d’amour et de guerre [Dias e noites de amor e de guerra], Paris, Albin Michel, 1987.
6          Todos os três reunidos com o título Mémoire du feu [Memória do fogo], Lux, 2013.
7          Eduardo Galeano, Sens dessus dessous. L’école du monde à l’envers [De pernas pro ar – A escola do mundo ao avesso], Homnisphères, Paris, 2004. Ler também “De cima para baixo”, Le Monde Diplomatique, set. 2004.
8          Eduardo Galeano, Les Voix du temps [As vozes do tempo], Lux, 2011.
9          Eduardo Galeano e José Francisco Borges, Paroles vagabondes [As palavras andantes], Lux, 2010.
10       A frase é do diretor de cinema argentino Fernando Birri, mas foi tornada célebre por Galeano
04 de Julho de 2016
Palavras chave: Eduardo GaleanopolíticapoesialiteraturaUruguaiAmérica Latina

(Publicado originalmente no site do jornal Le Monde Diplomatique Brasil)

Uma leitura da Carta ao Pai, de Kafka.


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Largando o pai, de quem se queixa, a quem recrimina, Kafka teria de confrontar-se, sozinho e sem álibis
por Filipe Pereirinha
Aparentemente, a Carta ao pai parece desmentir a afirmação lacaniana de que “uma carta chega sempre ao seu destino”, uma vez que ela não chegou efetivamente a ser enviada e, como tal, o pai também não pôde recebê-la de fato.
No essencial, essa carta é uma longa e detalhada resposta a uma pergunta que o pai, certo dia, lhe teria feito. Kafka inicia a carta retomando a questão atribuída ao pai: “perguntaste-me, há pouco tempo, por que razão afirmo ter medo de ti”. Está assim dado o mote: como se este “medo” fosse a causa e o centro (móvel) que atrai e em torno do qual vai girando a argumentação de Kafka.
É ele mesmo quem o afirma desde o princípio: a resposta que não foi capaz de dar no momento certo, não sabendo na altura o que dizer – justamente por causa do medo que sentia em relação ao pai – aparece agora sob a forma escrita. A escrita mostra assim aquilo que não foi possível dizer de viva voz. O impossível de dizer transmuda-se em causa de desejo: o desejo de responder por escrito à pergunta do pai.
Neste aspecto, a escrita constitui uma outra resposta ao Veredicto paterno, isto é, à condenação proferida por este no conto homônimo em relação ao filho: “condeno-te a morrer afogado!” Em vez de correr loucamente em direção à água, isto é, ao suicídio, tal como acontece com o protagonista desse conto, que corre como se fosse movido unicamente pela força desta frase imperativa e condenatória do pai, Kafka experimenta aqui uma outra solução: a escrita como resposta não suicida.
Por mais que a Carta ao pai seja longa e difícil de resumir, é possível, em meu entender, destacar nela pelo menos duas grandes vertentes, separadas e unidas ao mesmo tempo por um eixo comum. Na sua maior parte, ela é composta por uma série de recriminações que Kafka dirige ao pai, como se este fosse o grande culpado dos seus problemas, em particular os que dizem respeito ao relacionamento com os outros, nomeadamente com as mulheres da sua vida, bem como da imagem de si próprio, do seu corpo ou até mesmo da relação, cada vez menos pacífica, com a escrita, como é de resto evidente numa das últimas notas dos Diários, escrita em 1923: “Sempre com mais medo de escrever. É incompreensível”.  Mesmo se Kafka modera por vezes a crítica ao pai, reconhecendo que talvez ele não seja o único culpado e que uma parte da culpa resida em si mesmo, o tom recriminatório é o que domina substancialmente em grande parte do texto nesta primeira vertente. De tal forma que aquilo que sobressai é a ideia de que o pai funciona, para Kafka, essencialmente como um sintoma; como algo, digamos, que faz sintoma, que não o deixa dormir nem, quando acorda, viver em paz.
Dizer que o pai é um sintoma pode significar pelo menos duas coisas diferentes: ou que o sintoma é ainda, em última análise, um dos nomes do pai ou, pelo contrário, que o pai é somente um dos nomes do sintoma. Ou seja: o pai é apenas um caso particular de uma função mais geral. O que pode enganar é aquilo que vemos – ou lemos – em primeiro lugar é o que, porventura, é secundário.
Porém, há uma dobra, uma viragem no texto que é preciso ter em conta. É já quase no fim daCarta ao pai. Como se recebesse do Outro a sua própria mensagem de forma invertida, como diria Lacan, Kafka escreve o seguinte: “Ao teres uma panorâmica geral da justificação do medo que tenho de ti, podias responder o seguinte”. Aquilo que se segue é uma objeção, ponto por ponto, ao raciocínio que Kafka expusera em detalhe ao longo da carta. Uma objeção que desemboca no seguinte: “A isso respondo que, antes de mais toda esta resposta […] não parte de ti mas de mim”.
Na verdade, este pai, a quem o autor endereça as suas recriminações, a quem dá a oportunidade de objetar, a quem responde de novo, não será finalmente um sintoma, êxtimo, de si mesmo, isto é, algo que é a sua coisa mais familiar (íntima) e estranha ao mesmo tempo? Talvez por isso a carta – que foi escrita e reescrita – não tenha sido nunca enviada, uma vez que o remetente coincidia, afinal, com o seu destinatário. O pai é um outro nome do sintoma-Kafka.
Há um sonho de Kafka, aliás, dos muitos que ele anotou nos seus Diários, que pode eventualmente ajudar-nos a precisar ainda melhor o que está em causa. “Sonhei há pouco tempo: vivíamos no Graben, perto do Café Continental. Um regimento virou da Herrengasse a caminho da estação. O meu pai: ‘Eis uma coisa para se contemplar, enquanto se pode’; e arroja-se para o peitoril […] e com os braços abertos estendeu-se lá fora na borda larga mas muito inclinada da janela. Eu agarrei-o por duas casas por onde passa o cinto do roupão. Cheio de maldade, ele ainda se debruça mais, eu faço toda a força para o agarrar. Penso em como seria bom se conseguisse amarrar os pés com cordas que se segurassem a qualquer coisa para que o meu pai não me pudesse arrastar. Mas para fazer isso eu teria de largar o meu pai, pelo menos durante uns instantes, e isso é impossível. O sono – o meu sono em especial – não consegue suportar toda esta tensão e eu acordo.”
Falando à maneira de Hamlet, poderíamos formular o impasse kafkiano com que este sonho nos confronta do seguinte modo: largar ou não largar o pai? Ou ainda: ser ou não ser… largado? O fato de o sonho desembocar numa tensão insuportável, que faz acordar o sonhador, parece constituir a prova de que ele se aproxima de algo real, no sentido lacaniano do termo, isto é, impossível (e o termo é de Kafka), como se o desejo de largar o pai, deixando-o à sua sorte, ficasse impossivelmente preso num outro desejo: o de não o largar. Mas por quê? O que leva Kafka a queixar-se tanto do pai, como testemunha em particular a carta que lhe é dirigida, e, ao mesmo tempo, considerar que seria impossível largá-lo? Dizendo de outro modo: o que leva Kafka a guardar para si a carta que deveria ter sido enviada ao pai, ou seja, a não largar da mão essa carta(da)?
Num texto escrito a 18 de dezembro de 1910, Kafka procurou esclarecer a difícil relação que mantinha com as cartas, tanto as que enviava quanto as que recebia, nos seguintes termos: “se não fosse absolutamente certo que a razão por que deixo cartas […] sem as abrir durante um tempo é apenas fraqueza e covardia, que hesitaria tanto em abrir uma carta como hesitaria em abrir a porta de um quarto onde um homem estivesse, talvez já impaciente à minha espera, poderia explicar-se muito melhor que era por profundidade que deixava ficar as cartas. Ou seja, supondo que sou um homem profundo, tenho então de tentar estender o mais possível tudo o que se relacione com a carta, portanto, tenho de a abrir devagar, lê-la devagar e várias vezes, pensar durante muito tempo, fazer uma cópia a limpo depois de muitos rascunhos, e finalmente hesitar ainda em pô-la no correio. Tudo isto posso eu fazer, só que receber de repente uma carta não se pode evitar. Ora é precisamente isto que eu atraso com um artifício, não a abro durante muito tempo, ela está em cima da mesa, à minha frente, oferece-se a mim continuamente, recebo-a continuamente, mas não a aceito”.
Não só estamos perante uma antecipação do que vai acontecer mais tarde relativamente à carta (não enviada) ao pai – talvez porque o próprio remetente, Kafka, não a queria receber, sabendo que era ele o seu verdadeiro destinatário, “o homem impaciente atrás da porta” –, como, ao mesmo tempo, perante uma espécie de “instinto de defesa”, como Kafka dirá a 31 de janeiro de 1922, numa passagem dos Diários: “[…] há em mim um instinto de defesa que não permite que eu tenha o mais pequeno grau de bem-estar duradouro e despedaça irremediavelmente a cama de casal, por exemplo, mesmo antes de ela estar pronta”. Instinto de defesa em relação a quê? O que ficaria desnudado ou se revelaria finalmente se, porventura, o filho tivesse largado o pai, ao contrário do que acontece no sonho?
Largando o pai, de quem se queixa, a quem recrimina, Kafka teria de confrontar-se, sozinho esem álibis, não apenas com sua própria morte, mas, antes disso, às suas dificuldades mais básicas ao nível do real do gozo, não só o gozo próprio, de um corpo que se rebela, mas também do difícil, se não mesmo impossível, relacionamento com o Outro sexo. Como escrevia Kafka em 1916, no dia 6 de julho: “Impossível viver com F. Intolerável viver com alguém. Não lamento isto; lamento a minha impossibilidade de viver sozinho”. Ou, em 10 de abril de 1922: “Quando era rapaz eu desconhecia e não estava interessado em assuntos sexuais (e assim teria ficado durante muito tempo se eles não tivessem sido lançados sobre mim) tal como hoje estou, digamos, desinteressado pela teoria da relatividade”.
A relação ambivalente de Kafka com o pai está bem manifesta na seguinte passagem: “A escrever cartas no quarto dos meus pais – as formas que o meu declínio assume são inconcebíveis! Este pensamento ultimamente, que em criança fui derrotado pelo meu pai e que por ambição nunca fui capaz de sair do campo de batalha durante todos estes anos apesar das contínuas derrotas que sofro…”.
Por que não abandona ele o campo de batalha? Não se dará o caso de estar não apenas vencido (continuamente), mas já morto e não o saber? Eis o que parece confirmar o próprio Kafka, como se tivesse atravessado a sua fantasia fundamental, a 23 de janeiro de 1922: “A minha vida é o hesitar antes do nascimento”. Tal como as personagens dos seus romances estão condenadas, por exemplo, a errar em vão, a transformar-se em estranhos insetos ou a morrer como cães, o próprio Kafka parece condenado a não ter nascido. Não se trata apenas de ocupar o lugar do morto ou dos mortos, mas, mais do que isso, de aproximar-se de uma zona onde, como diz Édipo em Colono, seria preferível não ter nascido. E, nesse caso, toda a obra é vã, como nos lembra o testamento de Kafka para que a mesma fosse destruída.
Em jeito de balanço de uma vida, em 17 de janeiro de 1922, ele escrevia o seguinte: “Um momento de pensamento: resigna-te (aprende, quarentão) a ficar contente no momento (sim, já foste capaz de o fazer). Sim, no momento, o terrível momento, não é terrível, o medo que tens do futuro é que o faz assim. E também, olha para trás, para ele. Que fizeste como dom do teu sexo? É um fracasso, no fim é tudo o que vão dizer. Mas poderia ter sido facilmente um sucesso. Uma ninharia, de fato tão pequena que não se via, decidiu entre o fracasso e o sucesso. Por que estás surpreendido? Foi assim nas grandes batalhas da história do mundo. Ninharias decidem sobre ninharias”.
Estaria, pela minha parte, tentado a dizer, em jeito de conclusão, que o real é isso: ninharias decidindo ninharias. Ninharias sem lei. Acasos que fazem série, que nos tramam. E é por isso, talvez, que, em certa medida, somos todos kafkianosTodos tramados, embora cada qual à sua maneira, pelos acasos de um real sem lei.
E não será, finalmente, porque se defendem dessa ausência de lei (desse nonsense do real) que muitas personagens kafkianas, incluindo o próprio Kafka, não param de se torturar a si mesmas ou de gravar na própria carne, como acontece por exemplo na Colônia penal, uma lei insensata e que parece ter sido feita à medida de cada um?
Deste ponto de vista, não se trata de compreender a verdade de Kafka, muito menos da obra, por meio da sua relação problemática com o pai, mesmo se podemos facilmente cair na armadilha, mas antes ver nesta relação o nome e o modo de uma “defesa contra o real sem lei e sem sentido”. Um real de que as maiores criações de Kafka se aproximaram de tal modo que, para nós, elas se tornaram no seu nome próprio: o nome próprio de um certo real. É por isso que, muitas vezes, quando nos falta um nome ajustado para aquilo que queremos nomear, mas que não conseguimos, nos ocorre dizer: kafkiano.

(Publicado originalmente no site da Revista Cult)