terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Gullar sempre se interessou em surpreender o múltiplo", escreveu Alcides Villaça na Cult 210


Ferreira Gullar morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro
Ferreira Gullar durante a FLIP, em 2010 (Foto: Divulgação)
Ferreira Gullar durante a FLIP, em 2010 (Foto: Divulgação)
Redação
Aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor brasileiro, Ferreira Gullar, morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro. O autor estava internado há cerca de vinte dias no Hospital Copa D’Or, no Rio, devido a problemas respiratórios, segundo a Folha de S.Paulo
Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, Gullar começa a se dedicar à poesia a partir de 1943 e lança, então, Um pouco acima do chão, em 1949 e A luta corporal, em 1953. “A poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação, indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas”, escreve o professor Alcides Villaça na CULT 210 sobre a poética do autor.
“O poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático”, afirmou. O poeta e jornalista Álvaro Alves de Faria escreveu em sua conta no Twitter que, com a morte de Gullar,  morre também “parte da poesia brasileira”.
Em 1959, Gullar publica no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil o Manifesto Neoconcretista, também assinado por Ligia Clark, Ligia Pape, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. O documento lançou as bases para o neoconcretismo, que defendeu a busca da experimentação de múltiplas linguagens. Com ele, Gullar deu o ponto de partida em sua trajetória teórica e crítica no campo das artes visuais.
Perseguido durante a ditadura militar, escreveu uma de suas principais obras, Poema sujo, durante o exílio em Buenos Aires, em 1976, “obra prima de Gullar”, segundo Villaça. “Lê­-lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional”, escreveu.
Leia o texto de Alcides Villaça, publicado na CULT 210, na íntegra:
A poesia de Ferreira Gullar, com suas várias vozes, tem muitos pontos altos e alguns controversos, em provocadora vitalidade. A essa obra não faltam lutas pela expressão, radicalismo estético, epifanias líricas e incisivas adoções políticas: é difícil que um mesmo leitor goste de tudo, embora sempre lhe seja possível compreender a grandeza do conjunto. Vista de forma panorâmica em seus mais de sessenta anos de atividade, a melhor poesia de Gullar pode ser reconhecida, desde A luta corporal (1954), na somatória de alguns procedimentos básicos, muito marcados e mesmo obsessivos: o poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático. O que move o poeta é uma desconfiança básica diante do que não o surpreenda; em outras palavras, a qualidade do espanto parece ser o termômetro poético com que Gullar avalia as matérias que converte em poesia. Vale tentar reconhecer a variação dessas matérias, bem como a dos recursos aplicados em sua expressão.
Gullar sempre buscou traduzir a experiência vertiginosa e aprofundada que, como tempo íntimo, parece correr contra o outro, o da sequência mecanizada dos acontecimentos. Nas diferentes qualidades desses tempos – nas suas diferentes velocidades – ele vai encontrando uma poderosa fonte poética. Há a ação do passado sobre o presente e vice­‑versa, há o seu ser emergente e o desafiante ser do outro, há a presença do longínquo no que está perto e a deste naquele, há o variado pulsar da vida no confronto com as sombras da morte. O desafio aceito pela arte surge para o poeta como uma contínua tradução entre esses tempos. A qualificação diversificada desse fluir, de suas várias velocidades, prende­‑se à diversidade dos acontecimentos (que têm pesos diferentes), dos estratos sociais (com funções e direitos diferentes), das pessoas singulares (com desejos e interesses diferentes). Está nesse modo múltiplo de existência de tudo a razão de surpresa do poeta, de sua obsessão em escavar a qualidade de cada experiência.
Em A luta corporal (1954) a experiência fundamental está em submeter a linguagem a várias provas de expressão, para assim corresponder às várias expectativas do jovem dentro da vida e diante da arte. Num mesmo livro, o moço poeta se vale da velocidade interna das modulações de estilo, que são muito mais que exercícios de expressão: figuram perspectivas abertas (ou fechadas) para a vida, ângulos que vão da convenção literária já canonizada para a destruição da linguagem e o desventrar físico dos signos. É, de fato, uma luta, mais que uma promessa: é um grande livro de poesia. Já está clara, nele, a importância da corporeidade buscada pelo poeta. Ela vale tanto para as palavras, das quais se cobra um canto vivo e radical, como para a pessoa mesma do poeta, em cujo corpo confluem o tempo da vida e o da morte, emergência dos desejos instintivos combatendo a força implacável do apodrecimento. Estará sempre presente a sugestiva imagem do galo altivo que bate as asas e canta com esplendor, sem saber que está destinado, como tudo, à morte. A razão mesma de cantar, modulada em toda a sua trajetória poética, move muitos poemas de Gullar. Perguntado há algum tempo, num evento, sobre sua razão de poetar, respondeu algo próximo disto: “Eu preciso do poema porque tenho a necessidade de um segundo corpo”.
Necessária sempre, a poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas. A vanguarda construtivista, que chegou por breve momento a compartilhar parcialmente com os poetas concretos, foi subitamente abandonada pelo empenho numa arte politicamente engajada, de esquerda, atraída pelas referências diretas da realidade nacional e pela análise marxista. A princípio dócil a esquemas didáticos, essa nova luta corporal soube por vezes vencer a facilidade de um diagnóstico já elaborado, surgindo como percepção vital. Num poema como “Uma fotografia aérea”, por exemplo, de Dentro da noite veloz (1975), a perspectiva da visão do alto, colhida por uma câmera num avião, não impede o indivíduo de reconhecer­‑se lá embaixo, em sua casa, em outro tempo: fotografia e poema espantam­‑se mutuamente, conjuminados agora numa mesma tecelagem dos fios que unem o observador da foto, adulto crítico imaginando­‑se menino sob aquele telhado, ao retrato social de sua antiga São Luís. Uma coisa está em outra: será este o princípio poético que irá reger a complexidade espaço­‑temporal da obra­‑prima de Gullar, que é o Poema sujo (1976).
Lembro, antes de mais nada, o impacto a um tempo estético e político que causou a edição desse poema­‑livro entre nós, em plena Ditadura Militar. Era uma explosão doída e libertária das memórias mais vivas de um sujeito exilado e ameaçado, explosão a um tempo viril e pungente, lírica e dramática, aberta aos mais variados ritmos e andamentos. Soava, para muitos, como a reconquista da linguagem que liberta o indivíduo, repondo­‑o no centro de sua própria história, como sujeito dela, compartilhada numa plataforma social. É quando a arte efetivamente traduz “uma parte na outra parte”, isto é, faz convergirem a verticalidade íntima e a horizontalidade coletiva, em que cada um reconhece no autorretrato do poeta traços de seu próprio rosto. E por que sujo? A matéria compósita da memória é trazida em bruto, vomitada, defecada, sem a feição das coisas límpidas: não pode ser asséptica uma linguagem animada pela vivacidade dos brutos espantos, da memória das palafitas, da carniça do Matadouro, das bananas podres na quitanda do pai, do apodrecimento das peras na fruteira, da sexualidade reprimida. No entanto, não se trata de vomitar palavras ao modo de certas passagens surrealistas dos anos 50: há também, no Poema sujo, princípios recorrentes de composição disciplinada, que acabam por nortear o torvelinho da memória. Lê­‑lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional. Ocorre no Poema sujo um desdobramento básico do sujeito: há aquele que se cola à imanência dos fatos lembrados e há aquele que, instalado no presente da elaboração poética, interpreta e realinha esses fatos. O efeito na leitura é o de ir e vir do sensorial ao reflexivo, do afeto recolhido à avaliação das palavras. Vencendo a antiga dicotomia de luz ou sombra, fogo ou escuro, Gullar agora considera que “uma coisa está em outra”, forma dialética de encarar a composição das diferenças como uma legítima manifestação vital. Quando “uma coisa está em outra”, nenhuma se pertence completamente, nem é possível se ver a si mesma senão como parte – que presume uma outra parte, que participa, no mecanismo de um ‘traduzir­‑se” que leva uma ao encontro da outra. Veja­‑se como o poema “Traduzir­‑se”, do livro seguinte, Na vertigem do dia (1980), constitui uma feliz expressão desse anseio de fazer convergir lírica e sociedade. Visto de perto, esse anseio parece estar presente nos títulos mesmos de vários livros do poeta. Brincando, mas não muito, pode­‑se lembrar que essa poesia traça uma luta corporal dentro da noite veloz ou na vertigem do dia, compõe um poema sujo com barulhos e muitas vozes, em alguma parte alguma.
Nos dois últimos livros, Muitas vozes (1999) e Em alguma parte alguma (2010), Gullar tem feito predominar a instância lírica, ao que tudo indica libertando­‑se de vez do peso ostensivo da poesia política/partidária que marcou significativamente sua obra. Mas, de qualquer modo, a luta continua: trata­‑se agora de arrostar o tempo da velhice, tempo já profundamente gravado no corpo e no espírito com o peso que lhe dá a nova gravidade. Tudo se faz, aliás, em consonância com o movimento orgânico desde sempre encetado pela poesia de Gullar. Nunca teriam sido antes tão fortes como em Muitas vozes as homenagens de Gullar à vida, no que ela tem de multiplicativo, porque complexa, e de belo, porque intensa. Não me refiro apenas à qualidade estética, presente desde a juventude; refiro­‑me à força vivencial que escapa da melancolia e da nostalgia, frequentes nesse estágio da vida, para render comovido tributo tanto ao acúmulo das experiências já vividas como ao sempre intenso desejo de outras novas: “Tive um sonho conclusivo:/ sonhei que a vida era um sonho/ e quando a vida acabava/ o sonhador acordava/ vivo” (“A Augusto Willemsen”). Tanto mais brilha a vida quanto mais se espelha contra o morrer. Assim também pode ocorrer com as palavras: aprendem a depurar­‑se mais e mais quanto mais entendem do silêncio a que se estão furtando. A luz voraz que consome “nossos mortos/ acima da cidade” está também “zunindo feito dínamo/ naquelas manhãs velozes” (“Manhã”). Não à toa, diante da fotografia de Mallarmé, Gullar busca na pose cristalizada do poeta já meio que um busto o olhar vivo, o desejo oculto de imortalidade.
Já o título de Em alguma parte alguma reelabora a referida tradução gullariana, em que uma parte supõe a outra. O jogo se radicaliza: a parte está e não está ao mesmo tempo em si e na outra, o tempo determinado é também tempo nenhum. E Gullar, octogenário, continua a investigar o mundo com reflexão e algum espanto. As imagens da vida se fazem cada vez mais luminosas, a cidade vibra em todos os seus apelos, e se a investigação sobre a morte ameaça alçar­‑se a um plano rarefeito, o poeta faz com que a poesia possa gravitar, por exemplo, numa “Reflexão sobre o osso da minha perna”, quando constata que a parte (sempre a parte) do osso é a que mais dura, ao passo que “a parte mais efêmera/ de mim/ é esta consciência de que existo”. Assim também, diante do mofo “do fundo das gavetas/ de dentro das pastas” Gullar faz ver que “É apenas/ uma mínima parte/ do incalculável arquivo morto/ esta que reacende agora/ à leitura do olhar/ e em mim/ ganha voz/ por um momento”. A luz e o fogo, mais do que antigos, querem eternizar­‑se na voz do poeta. Suas percepções seguem muito vivas, e parecem ter encontrado num definitivo e assumido estatuto lírico a vocação primitiva do jovem poeta que já brigava consigo, com o mundo e com as palavras desde os anos 50. Atar as pontas da vida é um compromisso que costumam estabelecer os que postulam a maturação conclusiva.
(Publicado originalmente no site da revista Cult)

    segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

    STF afasta Renan Calheiros da Presidência do Senado Federal

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    O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, acatou uma consulta do partido Rede Sustentabilidade e concedeu liminar afastando o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros(PMDB), de suas funções. Semana passada Renan Calheiros havia se tornado réu naquela corte, acusado de crime de peculato o que, juridicamente, tornava-se incompatível com o exercício do cargo. O caso ainda será analisado com mais calma pelos demais integrantes daquela corte, mas, a rigor, a liminar do ministro Marco Aurélio de Mello pode ser confirmada, uma vez que há um conflito aberto entre o STF e o poder legislativo, representado aqui pelo Senado Federal. 

    Com já disse em outras ocasiões, mas não custa repetir, nosso sistema político é mais sujo do que pau de galinheiro. Na realidade, o senhor Renan Calheiros, a rigor, nunca reuniu as mínimas condições de estar presidindo aquela Casa, assim como Eduardo Cunha, que presidia a Câmara Federal. Renan responde a diversos processos, pelos mais diferentes motivos. Como brinca o cientista político pernambucano, Michel Zaidan Filho, até aquela sua cabeleira é falsa, posto que o implante capilar pode ter sido custeado com dinheiro do erário. Creio que somente num país como o nosso fatos dessa natureza tornam-se possíveis. O líder do Governo Temer naquela Casa, senador Romero Jucá, é outro que responde a 07 processos, inclusive na Lava Jato, mas o seu chefe considera a coisa mais natural do mundo que ele articule os pleitos governamentais junto aos seus pares naquela instância legislativa.

    Acabei de ler uma entrevista com o ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins, onde, entre outras coisas, ele volta a falar nas grandes reformas que os governos da coalizão petista não conseguiram realizar. Entre elas, a reforma política e a que tratava de democratização da mídia. Quanto àquela que ficaria afeita à sua pasta, segundo ele, foi feito o dever de casa, embora não tenha avançado por injunções políticas conhecidas. A reforma política foi outra que não avançou nos governos da coalizão petista. Paga-se um preço alto até hoje por isso. Em certa medida, o PT muito mais que assimilou o status quo político do que tentou mudá-lo.  


    Charge!Aroeira via Facebook

    Editorial: O que é mesmo a elite brasileira?


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    Recentemente, realizamos alguns estudos sobre a democracia brasileira. O objetivo, baseado em grandes teóricos do assunto, tinha como fulcro entender como retrocedemos. Em 2013, os institutos que medem a saúde da democracia no mundo apontavam o Brasil como uma democracia em processo de consolidação. Três anos depois, amargamos esse retrocesso proporcionado por um golpe institucional urdido por diversos atores, entre os quais setores da elite, do judiciário, da classe politica e da mídia, articulados com grandes corporações financeiras. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Lula, Franklin Martins, concedeu uma longa entrevista num encontro promovido pela CUT. A entrevista, como era de se esperar, repercute bastante nas redes sociais. Há, ali, uma série de posicionamentos importantes para entendermos o momento atual vivido pelo país. Não é preciso concordar com tudo que ele diz, mas, a rigor, suas reflexões nos ajudam bastante neste debate.

    Vamos começar pelos pontos com os quais divergimos. Não acreditamos, como ele afirma, que este golpe foi o resultado de um oportunismo político. É como se setores golpistas canalizassem a insatisfação de grupos sociais que se colocavam contra o Governo Dilma, que era um governo fraco e tíbio. Circunstâncias e oportunismo, naturalmente, compõem o cardápio da maioria dessa classe política brasileira, sobretudo se acrescentarmos o fato de que, entre os acertos, estava em jogo o andamento da Operação La Jato. Mas, pelo que pudemos analisar, essas urdiduras foram forjadas em estertores mais consistentes, numa espécie de "onda conservadora" que sacode todo o planeta. E olha que não embarco aqui em nenhuma teoria conspiratória. São os fatos mesmos que nos levam a concluir pelo enunciado. 

    Cada leitor abstrai das entrevistas aquilo que melhor lhe convém. Franklin, por exemplo, é bastante feliz em alguns momentos da entrevista, como naquele em que fala nas "reformas" que, tanto em 1964 ou em 2016, estiveram na raiz do golpe. Embora o Golpe de 1964 tenha sido dado com um certo "atraso" - posto que planejado 10 anos antes - o seu estopim foi o anúncio das reformas de base preconizadas pelo Governo João Goulart. Em 2016, foram as reformas sociais em curso, que tirou 40 milhões de brasileiros da extrema pobreza, que provocou a ira dos setores conservadores de nossa sociedade. As políticas sociais de corte inclusivo nas áreas de saúde, habitação e educação - que nunca colocou tantos pobres, negros e índios no circuito das instituições públicas de ensino superior  -incomodou bastante àqueles que gostariam de ver as enormes injustiças sociais do país como algo "natural" e, portanto, que deveria ser mantido "cristalizado". 

    Aqui, o jornalista abre um parêntese para fala um pouco sobre a torpeza de nossa elite: Nos últimos meses fui obrigado a repensar muitas coisas. A elite brasileira despreza a democracia. É um grupo de predadores. A nossa elite, na verdade, não é uma elite". Particularmente, teríamos alguns adjetivos aqui para ajudar o nosso jornalista, mas não vamos polemizar. Trata-se de uma elite de imaginário escravista, antidemocrática, insensível, para quem a injustiça social faz parte do seu show e não precisa ser combatida. Lula estava certo quando afirmava que, nos últimos 500 anos, ele teria sido o único a tentar mexer nesses padrões de relações. A nossa elite sente um prazer mórbido de se afirmar nessas "diferenças". Você sabe com quem está falando?

    A relação dessa elite com os valores da democracia é tão espúria que, quando eles perdem dentro das regras do jogo, eles puxam o tapetão. Foi assim em 1964, está sendo assim em 2016. Será assim sempre, o que talvez tenha levado o historiador Sérgio Buarque de Holanda a concluir que a democracia entre nós nunca passou de um grande mal-entendido. Muito improvável que valores como a "impessoalidade", por exemplo, possa subsistir num país do homem cordial, do "favor", do tapinhas nas costas. Por vias distintas, outros nomes da intelectualidade brasileira também chegariam a essas mesmas conclusões, a exemplo de Gilberto Freyre, que mantinha divergências pontuais com Sérgio Buarque. Sérgio, que assinou a lista de fundação do Partido dos Trabalhadores, parecia bastante incomodado com este fato. Freyre, talvez nem tanto assim...


    domingo, 4 de dezembro de 2016

    Editorial:Os "coxinhas" voltam às ruas neste domingo. O que eles desejam?

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    Se o critério da ética fosse a condição exigida para o exercício de atividades políticas no país, certamente, estaríamos em maus lençóis, considerando essa leva atual de homens públicos que ocupam cargos relevantes na república. A começar, inclusive, pelos próprios integrantes do Governo do Michel Temer(PMDB), que sucedeu ao Governo da senhora Dilma Rousseff. Numa entrevista recente, ele se declarou nenhum pouco incomodado com o fato de o senador Romero Jucá(PMDB) assumir a liderança do seu governo no Senado Federal.Este cidadão responde a 07 processos, inclusive um deles envolvendo a Operação Lava Jato. Essas observações vem a propósito de um pedido do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, no sentido de afastamento imediato das funções de presidente do Senado Federal do senador Renan Calheiros, hoje réu por peculato no Supremo Tribunal Federal. Convém aqui fazer o registro de que este cidadão, que preside uma das mais altas esferas do poder legislativo brasileiro responde a 13 processos na justiça. 

    Nosso sistema político é mais sujo do que pau de galinheiro, mas é preciso respeitar os direitos de qualquer cidadão, do presidente do Senado Federal aos pretos e favelados, que são mais facilmente alcançados pela "justiça". Os processos aos quais responde o senador Renan Calheiros correm em suas diversas varas, onde, muito possivelmente, o amplo direito de defesa será assegurado dada a sua condição privilegiada, de um cidadão com poder econômico, político e capital simbólico. O que nos ocorre neste caso específico do pedido de afastamento imediato das suas funções como presidente do Senado Federal, é que ele tornou-se réu, a partir de ontem, no STF. No nosso modesto entendimento, parece haver aqui as condições "legais" para o seu afastamento do cargo. Em regimes de exceção como este que estamos vivendo, o direito passa a ter um caráter "relativo" ou de "conveniência", consoante os atores envolvidos. 

    Há dois juristas brasileiros pelos quais nutro um grande respeito, sobretudo em razão de suas cruzadas em defesa da legalidade e do Estado Democrático de Direito no Brasil, hoje bastante assediado pelos golpistas de turno. Trata-se dos juristas Pedro Serrano e Wadih Damous. Este último é um ex-presidente da OAB nacional e hoje é suplente de deputado pelo PT. Dois ex-governadores do Estado do Rio de Janeiro foram presos recentemente: Anthony Garotinho e Sérgio Cabral. De acordo como Wadih, trata-se de duas prisões ilegais e, portanto, arbitrárias. A prisão de Garotinho foi revogada por uma juíza do STE, exatamente por entendê-la irregular, uma vez que a justificativa estaria relacionada ao cometimento de crime eleitoral, onde a pena de prisão não se aplicaria. Sérgio Cabral continua atrás das grades e, segundo Wadih, também de forma irregular, uma vez que a prisão se deu sem o processo devidamente instaurado. 

    (Conteúdo exclusivo, liberado apenas para os assinantes do blog)

    Michel Zaidan Filho: O poder dos juízes

                                                          


    Acabei a leitura de uma tese doutoral sobre o controle da jurisdição constitucional pelos magistrados. Esta é uma tese que, apesar de cada vez mais atual, não é nem simples nem unanimemente aceita. Sua origem mais remota está na obra dos “pais fundadores” da Constituição norte-americana. Ou seja, a ideia de que a soberania popular – expressa através de seus representantes – precisa ter limites (a tirania da maioria). E este limite tem que está fora do Poder Legislativo e do Poder Executivo, portanto, no Poder Judiciário. É o que se conhece como “review Justice”. Vem daí a supremacia constitucional da Corte. Mas há outra fonte do poder do juízes que é o controle da jurisdição constitucional, de Hans Kelsen, em seu debate com Carl Schmidt. O controle concentrado de constitucionalidade das leis e fatos jurídicos ganhou reputação e se generalizou, depois da segunda guerra mundial, com o modelo preconizado por Kelsen e corporificado na figura de um Tribunal Constitucional alemão.

    A primeira recepção brasileira do controle concentrado de constitucionalidade foi na Constituição de 1891, copiada ou adaptada por Rui Barbosa do modelo americano. Aqui caberia um parênteses sobre até que ponto pode-se tomar a engenharia institucional americana como padrão ou modelo de constitucionalismo moderno. Haja vista que até   um estudioso do Direito Constitucional norte-americano admite a necessidade de adaptação desse modelo, levando em conta os valores, a cultura e as singularidades de cada povo ou nação. De toda maneira, seguimos a tradição americana na relação entre os poderes e na necessidade de se colocar esse controle fora do âmbito dos dois outros poderes (Legislativo e o Executivo). A questão central, no entanto, seria perguntar se esse sistema de freios e contrapesos aqui no Brasil tem funcionado a contento, ou seja, qual o grau de autonomia, independência, imparcialidade da Suprema Corte diante dos fatos jurídicos. 

    Aqui temos de admitir que o nosso judicial é alopoiético, para usar a expressão do alemão Luhmman. Isto é, não possui autonomia diante do sistema político, é vulnerável a pressões e a interferência dos outros poderes. Daí se dizer que são cortes políticas, antes de qualquer coisa, e pior: sem legitimidade para dizer das leis ou feitos legais. E o que dizer da presumida, pretensa “imparcialidade” dos juízes? Está o excelente artigo, recém publicado, do advogado da União, Douglas Carvalho (hoje lotado na UnB), para desmascarar esse grande impostura. Pior, sua subserviência aos ditadores de turno, desde Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, os generais de 64 e agora aos mentores do golpe parlamentar contra a Presidente Dilma. Sempre é possível se arrancar algum parecer ou sentença, de juízes complacentes ou acovardados, para justificar atos de violência contra a Constituição.


    A propósito, é de se ver qual será o posicionamento da alta magistratura – como Corte Constitucional – quando nela chegar uma ação direta de inconstitucionalidade contra a PEC dos gastos públicos, tal a quantidade de ilegalidades e inconstitucionalidades que ela contém. Mesmo que o chamado “efeito vinculante” das decisões desse tribunal não obriguem o Legislativo a acatar a decisão, será muito instrutivo acompanhar a posição dos excelsos ministros na consideração das ofensas a “cláusulas pétreas” do texto constitucional (como a separação de poderes e o voto secreto). E o que dizer do “ativismo judicial” ou da “judicialização das relações sociais”? – Uma mera mudança de atitude dos ministros diante de uma mudança da ideologia constitucional brasileira? – Ou uma tomada clara, aberta de posição por parte dos juízes em favor de um dos partidos (de interesses) em litígio no Brasil? 

    Seria muito cômodo e simples analisar essa mudança de postura como resultado da crise de representação do Poder Legislativo, assaltado por uma miríade de corporações. Infelizmente, é mais do que isso. O atual ativismo judicial brasileiro não é prova da autonomia, independência ou imparcialidade dos ministros do STF; ao contrário é prova provada de sua tomada de posição. E não necessariamente a serviço da Constituição, da Legalidade, dos Direitos e Garantias individuais.

    Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

    USP lança banco de dados sobre a obra de Guimarães Rosa


    No ar há uma semana, o acervo já conta com 4.079 títulos entre livros, teses e dissertações que analisam os escritos do autor mineiro
    (Foto: divulgação)
    Escritor mineiro João Guimarães Rosa (Foto: divulgação)
    Paulo Henrique Pompermaier
    Em 2008, durante um seminário dedicado ao centenário de Guimarães Rosa em Berlim, Sandra Vasconcelos, professora titular da USP, notou que havia uma grande demanda pela produção bibliográfica sobre a obra do autor mineiro, até então organizada de maneira difusa apenas em publicações impressas. Nasceu daí o projeto de um banco de dados online que pudesse reunir este tipo de material em uma só plataforma, facilitando o trabalho de pesquisadores interessados na vida e na obra de Guimarães.
    No ar há uma semana, o acervo digital já conta com 4.079 títulos entre livros, prefácios, textos de periódicos, teses, dissertações, registros de eventos e textos da web. Um acervo bibliográfico que pode crescer indefinidamente, segundo Vasconcelos, supervisora acadêmica do banco de dados e curadora do Arquivo João Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.
    “A ideia é que ele tenha uma atualização permanente, como deveria acontecer com todo banco de dados, que não serve para muita coisa se estiver congelado no tempo”, afirma a professora. “Ninguém pode dizer que a totalidade dos estudos sobre Guimarães esteja contida ali [no acervo digital da USP], mas na medida em que soubermos de novas publicações, elas serão incorporadas ao nosso banco de dados.”
    Segundo Vasconcelos, a ferramenta é útil tanto para estudantes quanto para pesquisadores mais experientes, já que a busca bibliográfica é o ponto de partida para qualquer trabalho acadêmico. O acervo não disponibiliza as obras em si, apenas os títulos bibliográficos. “Cada pesquisador que souber ou quiser procurar uma informação específica de bibliografia de Guimarães Rosa terá, agora, essa ferramenta”.

    (Publicado originalmente no site da revista Cult)

      Le Monde: Labirintos do Golpe (no Golpe)


      A fragmentação dos trabalhadores e a decomposição de classe só tem se acentuado através das últimas décadas, num processo que ainda não chegou ao fim. Os projetos atrelados ao recente golpe no Brasil radicalizam, aceleram e aprofundam políticas que se direcionavam, com contradições, mas sempre no mesmo sentido.
      por Leo Vinicius


      Protesto Fora Temer realizado em setembro, em Florianópolis


      Neste momento boa parte da esquerda discute se o "golpe dentro do golpe" estaria finalmente em andamento. Ou seja, se as denúncias de Marcelo Calero seriam a deixa para uma fração dos grupos que se aliaram para derrubar Dilma Rousseff iniciarem um processo para derrubada de Temer e assim ganharem mais espaço no governo. Junto a isso há uma possível disputa entre o Legislativo e o Ministério Público (dois poderes que majoritariamente participaram ativamente do golpe), com o último tentando ampliar seu poder através das "Dez Medidas" (ideologicamente chamado "pacote anticorrupção").
      Surpreendentemente surgem propostas originadas numa fração da esquerda fora da órbita do PT, para irmos às ruas pela pauta anticorrupção, seguindo a onda de chamados de grupos de direita, ou até mesmo aderindo a esses chamados. Com nuances nessas propostas, as quais não discutirei aqui, na mais extrema as divisões ideológicas (direita e esquerda) e as divisões de classe são subsumidas na indignação moral do cidadão médio. Difícil não enxergar em tal proposta o partido da nação em cólera, expressão síntese da própria definição de fascismo dada por Maurice Bardèche, um dos seus principais teóricos no pós-guerra.
      É nesse labirinto do golpe, e do golpe dentro do golpe, que nos encontramos agora, procurando uma saída.

      O sentido da luta e o sentido do luto

      Escrevo a partir do ponto de vista de alguém inserido numa experiência coletiva que tem sido forjada desde maio deste ano, em Florianópolis, buscando uma saída à esquerda. Se naquele mês o "Fora Temer" significava para nós, e para quem o bradava na época, se opor ao programa de corte de direitos sociais que vinham com o golpe, em setembro já tínhamos claro que a direita se apropriaria desse mote quando lhe conviesse. E como o piloto pouco importava mas sim para onde ia o vôo, concluímos que deveríamos focar nos ataques concretos aos direitos. A tramitação da PEC 241 em outubro trouxe esse foco. Agora, a tendência da apropriação pela direita do "Fora Temer" está se concretizando (mas obviamente esse significante possui outro significado para a direita, sintetizando desejos e motivações outros que não a defesa e ampliação de direitos sociais).
      Pode-se dizer que esse "nós" de que falo em Florianópolis, começou a ser constituído em maio com o Ocupa MinC e simultaneamente com a reunião de indivíduos que passaram a se organizar contra o golpe aos direitos sociais em curso, mas que não se identificavam com a forma dos atos puxados pela Frente Brasil Popular. Com perfil jovem, tratava-se de trotskistas heterodoxos, anarquistas, libertários, desanarquizados, marxistas de algum modo ou de outro, sem rótulos etc. Em junho essa confluência deu origem à Rede Fora Temer - Floripa.
      Simbólico não enche barriga, mas a RFT- Floripa convocou aqueles que foram os maiores atos de rua do país na semana de consumação do golpe (votação no Senado do impeachment) e na semana posterior, em termos proporcionais à população de cada cidade. No dia 6 de setembro a manifestação convocada pela RFT-Floripa se constituiu na maior já realizada pela esquerda na cidade, reunindo quase 6% da população do município, sendo monitorada em tempo real pelo governador. Sem carros de som,  foi essa esquerda insatisfeita com as formas de organização e ação das burocracias sindicais e da Frente Brasil Popular (a Frente Povo Sem Medo praticamente inexiste em Florianópolis) que esteve à frente nas semanas de consumação do golpe, com todo o espectro da esquerda - incluindo as organizações da Frente Brasil Popular - aderindo ao chamado e forma de organização da RFT-Floripa,.
      Apenas poucos meses antes, esses indivíduos que formaram a RFT-Floripa compareciam aos atos convocados pela Frente Brasil Popular. Insatisfeitos com a forma e os resultados, passam a se organizar autonomamente contra o golpe aos direitos, tornando-se uma força importante na esquerda  da cidade. Organizar-se autonomamente, no entanto, não significa negar o Outro, mas estabelecer uma nova relação com o Outro. Embora as tensões sempre tenham existido em relação às práticas e formas de organização das burocracias sindicais, ao contrário do que uma parte da extrema-esquerda propaga, para construirmos caminhos à esquerda não precisamos fazer o luto do PT. Simplesmente buscamos construir a luta.
      O grande paradoxo dos diferentes discursos de que seria necessário à esquerda fazer um luto do PT, é que em geral eles acabam por afirmar implicitamente um PT ainda vivo mas que bloquearia um avanço histórico. Se o PT está morto, da perspectiva de que seu projeto falhou e sua influência na sociedade se tornou pífia, qual é a esquerda viva então para fazer luto do PT? Qual esquerda não está em condição similar num momento de plena hegemonia da direita? Se por outro lado o PT ainda está vivo, ainda é um ator político em campo, solicitar o luto é apenas uma forma de negar e se desviar da tarefa de lidar com ele. Quando não um discurso para disputa de bases.
      Do ponto de vista da prática no campo da esquerda, o sentido de luto do PT desaparece. A questão que se coloca é apenas a do sentido da luta. Creio que essa foi uma lição que poderíamos tirar da nossa experiência em 2016 em Florianópolis. Fazer luto do PT simplesmente nunca esteve em pauta, nunca fez sentido e nunca nos impediu de nos organizarmos autonomamente a qualquer organização política.

      Construindo hegemonia, mas qual?

      Nossa história, da esquerda em Florianópolis e da Rede Fora Temer - Floripa, continua neste momento com as ocupações de escolas e universidades contra a PEC 241 (agora PEC 55) e contra a reforma do ensino médio. Concentradas no Paraná, além de obrigarem o governo golpista a se reportar a elas, as ocupações foram históricas na dimensão e sem dúvida na luta mais importante da esquerda brasileira em 2016. Riqueza de formação, de debate, de ação direta de alunos criando por vezes outro ambiente, conteúdo e formas escolares. Na grande Florianópolis tivemos seis estabelecimentos de ensino ocupados, mas a maioria sem paralisação das aulas. Como em outros estados, aqui também membros do MBL e jovens direitistas formaram protomilícias para desafiarem as ocupações ou tentarem impedi-las.
      Assim como no resto do país as ocupações em Florianópolis estão em refluxo. Por coincidência é nesse momento de refluxo que começa a ser desencadeado o golpe dentro do golpe, com a grande imprensa sacrificando Temer e com grupos de direita convocando manifestações contra a corrupção para darem a legitimidade social necessária à queda.
      Se por um lado grupos como o MBL lutaram e lutam pela desocupação das escolas, por outro, passam a convocar manifestações que enfraquecem o governo Temer. Sobre o sentido dessa dupla atuação, creio que o comentário Gabriel de Barcelos em uma rede social foi bastante lúcido:

      Por que será que hoje a única força da esquerda que incomoda a direita são as ocupações? O "desocupa" vem sendo o centro da ação deles, definido inclusive no Congresso do MBL. Por que a defesa da ordem estabelecida no Governo Temer se dá de maneira tão firme entre eles na desocupação das escolas/universidades, mas não completamente na manifestação de agora, diante dos últimos acontecimentos?
      Não acredito que se trate apenas de uma visão liberal sobre educação e direitos sociais. Penso que o ataque às ocupações é a necessidade de vencer a disputa da instabilidade de Temer. Ao assumirem o protagonismo (e para isso contam com amplo aparato nas mídias tradicionais e na internet) deste ataque a Temer, eles voltam a tomar a dianteira na disputa de um processo que eles até agora protagonizaram, desde a campanha pelo impeachment.


      Como espaço de formação política, de difusão de informação sobre a PEC 55, de criação coletiva de outra escola, as ocupações são/eram um espaço e um momento rico de construção de hegemonia da esquerda. E podemos entender hegemonia aqui no mesmo sentido das interpretações gramscianas que aportaram no Brasil e tiveram espaço dentro do PT. Hegemonia como ação pedagógica que constrói uma outra visão de mundo, para além do senso comum; hegemonia relacionada assim ao campo cultural e à atuação na sociedade civil, e não no campo político em sentido estrito e na ocupação do Estado.
      O foco do PT na via eleitoral e em ocupar cargos no Estado esteve obviamente em contradição com a construção de hegemonia. Via de regra se trabalha com o senso comum para ganhar votos, reforçando-o portanto. Ao mesmo tempo o deslocamento para o Estado esvazia a presença na sociedade civil. Paradoxalmente aqueles na esquerda - e que por vezes possuem forte identidade antipetista - que pretendem se valer primordialmente da bandeira anticorrupção para ir às ruas neste momento, seguindo a agenda do golpe no golpe dirigida pela grande mídia - a qual aciona o liga/desliga da pauta anticorrupção conforme o seu interesse de classe do momento - , escolhem assim reforçar um senso comum na esperança de atrair público. Nesses dois casos, o PT e o antipetismo de origem na esquerda formam os dois lados de uma mesma moeda, no qual a construção de uma hegemonia de esquerda não se faz presente, assim como a autonomia de classe. Se no primeiro caso, o do PT, não havia e não há autonomia em relação às formas políticas burguesas (Estado e suas instituições), no segundo caso não há autonomia em relação às pautas, tempos e agenda da direita. Na melhor das hipóteses, nesse último caso, reforça-se a hegemonia da direita, colocando parte da esquerda a reboque. E a reboque de uma grande mídia que já demonstrou toda sua capacidade de controle dos meios de significação e ressignificação de manifestações. A autonomia, que é autonomia de classe, está em outro lugar, como por exemplo nas ocupações das escolas.
      Para além disso, ir para as ruas por uma pauta anticorrupção nessa conjuntura específica tem como consequência direta apoiar o projeto das "Dez Medidas" do Ministério Público. Projeto esse que mesmo um liberal sincero seria contra, por ampliar os poderes do aparato repressivo estatal sobre os indivíduos, e sabemos bem contra quem esse peso recai com maior frequência. Embalado no nome "anticorrupção", esse projeto passa imune por uma parte da esquerda que aderiu aos senso comum talvez para se sentir parte de um movimento de massa, pós-ideológico, pós-classe, de unidade nacional, que muito lembra elementos de situações históricas a que já nos reportamos.

      Onde estará o fundo do poço?

      Se o programa do golpe tiver sucesso (PEC 55, reforma da previdência, reforma trabalhista que vem sendo feita via Judiciário, entre inúmeras outras medidas), a tarefa da esquerda será se reconstruir a partir dessa realidade. Qual seja, a de uma massa da população em situação muito mais precarizada, tanto em termos de renda, de serviços públicos, de benefícios sociais.
      Ainda vivemos um processo, em nível mundial, de reação ao último grande ciclo de lutas da classe trabalhadora (iniciado em meados dos anos 1960 e terminado em início dos anos 1980). As lutas que colocaram em crise o fordismo tiveram como resposta, por exemplo, a descentralização da produção, a financeirização, terceirizações, entre outras formas de fuga da insubordinação do trabalhador por parte do capital.
      A fragmentação dos trabalhadores e a decomposição de classe só tem se acentuado através das últimas décadas, num processo que ainda não chegou ao fim. Os projetos atrelados ao recente golpe no Brasil radicalizam, aceleram e aprofundam políticas que se direcionavam, com contradições, mas sempre no mesmo sentido. Quanto mais se ampliam a fragmentação dos trabalhadores através de mudanças na estrutura produtiva e sua decomposição como classe, maior a correlação de força em favor do capital e a amplitude de seus ataques aos direitos sociais e trabalhistas.
      A base material do avanço conservador que assistimos no Brasil está relacionada a mudanças na estrutura produtiva, no mundo do trabalho, que rompem com as solidariedades de outrora, constituídas à esquerda, através do sindicalismo por exemplo. No tecido urbano, à precarização do trabalho e da vida as Igrejas Neopentecostais souberam fornecer um vínculo, redes de solidariedade e suporte material (e imaterial) que a esquerda não soube, não conseguiu ou não tentou fornecer.
      Mente aquele que, aqui ou em outro lugar do mundo, consegue visualizar neste momento uma recomposição da classe trabalhadora. Mas se a esquerda no Brasil quer ser relevante novamente um dia, deve começar desde agora a pensar em constituir formas práticas de redes de solidariedade que sirvam de suporte à vida cada vez mais precarizada e de cada vez mais pessoas, principalmente se o programa do golpe for bem sucedido.

      Leo Vinicius
      Leo Vinicius é tecnologista da Fundacentro, Doutor em Sociologia Política


      FOTO: Bruno Henrique / Mídia NINJA (CC-BY-SA)
      28 de Novembro de 2016
      Palavras chave: Temergolpepec55impeachmentprotestoCalero

      Charge!Aroeira via Facebook

      sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

      Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana em tópicos: Descendo a Sierra Maestra... em triunfo!





      José Luiz Gomes


      A guerrilha da Sierra Maestra durou exatos 02 anos e um mês. Começou em dezembro de 1956 e terminou em primeiro de janeiro de 1959, com a vitória dos revolucionários comandados por Fidel Castro, que chegou em triunfo à Havana, a capital de Cuba. Como disse antes, foram organizadas várias expedições militares de tropas leais à ditadura de Fulgêncio Batista àquela área, todas derrotadas pelas forças comandadas por Fidel Castro. Há alguns lances curiosos em todo esse processo, mas relatá-los, certamente, ocuparia todo o espaço deste artigo.O fato é que, mesmo enfrentando muitas adversidades - como traições, por exemplos - os guerrilheiros souberam superar essas dificuldades e lograram êxito sobre as tropas oficiais.

      Certa vez um repórter perguntou ao presidente Fidel Castro se ele teria se arrependido de alguma medida tomada na presidência do país. Ele informou ao repórter que não se arrependia nenhum milímetro de suas atitudes à frente do governo revolucionário de Cuba. Faço essa observação em relação aos problemas de dissidência que ocorreram no grupo acerca dos rumos tomados pela revolução. Aliás, essas discordâncias de rumo, a rigor, já poderiam ser observadas ainda durante o momento da guerrilha da Sierra Maestra. Che questionava bastante Fidel Castro acerca dos acordos mantidos com os líderes guerrilheiros urbanos, com o propósito de costurar sua liderança no movimento. Célia Sánchez também conversava bastante com Fidel sobre as diretrizes políticas que os revolucionários deveriam adotar. Era uma interlocutora privilegiada do líder cubano.

      Vamos deixar essa questão das dissidências para um capítulo a parte, até porque pretendemos abordar o caso emblemático do professor Huber Matos, que integrava o grupo da luta armada da guerrilha rural e, pouco tempo depois do êxito da revolução, abriu uma forte dissidência entre eles, sendo determinada a sua prisão. Reportar-se a este caso é importante, não pela repercussão alcançada, naturalmente, em países como os Estados Unidos, mas para conhecermos os limites impostos a uma experiência política singular ,como tem sido a experiência política cubana, que alcançou resultados espetaculares no que concerne ao combate ao analfabetismo, à desnutrição infantil, ao sistema educacional e de saúde, reformas urbanas e rural, mas não conseguiu enfrentar muito bem lidar com a questão das liberdades individuais e coletivas. Como diria o filósofo político italiano Norberto Bobbio, conciliar justiça social e liberdades individuais e coletivas ainda é uma equação a ser resolvido pelos sistemas políticos atuais.  

      Outro dado, levantado pelo professor Fernando Magalhães, em postagem de sua página da rede Facebook, são as experiências socialistas em países de economia atrasadas e periféricas, assim como isoladas. Marx dizia que as melhores condições para o desenvolvimento de uma experiência política socialista deveriam se encontrar entre as economias capitalistas avançadas e, de preferência, que o processo fosse universal e não localizado num só país. Teria mais chances de êxito. Entre os revolucionários russos, Trotsk se afinava bastante com esta tese. As práticas terroristas e o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e, posteriormente o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas sufocaram bastante a economia da ilha caribenha. Quando vivo, Hugo Chaves estabeleceu boas relações comerciais com o governo cubano, assim como o Brasil, nos governos de coalizão petista, procurava estreitar as relações comerciais com aquele país. 

      Os compromissos sociais assumidos pelos revolucionários foram rigorosamente cumpridos, como a implantação de um amplo programa de alfabetização da população, a reforma agrária e urbana, assistência à saúde e melhorias profundas no sistema educacional. Praticamente não há analfabetos em Cuba. De acordo com dados da UNICEF, Cuba é o único país latino americano e do caribe que erradicou por completo a desnutrição infantil. A UNESCO reconhece o sistema educacional cubano como um dos melhores do mundo. Também não existem crianças em situação de rua em Cuba, o que deixava o comandante Fidel bastante orgulhoso. Certa vez uma publicação americana observou que universitárias cubanas estavam se prostituindo. Em sua réplica, o comandante Fidel teria dito: talvez fosse o caso da publicação observar que, em Cuba, até as prostitutas possuem curso superior.


      P.S.: Do Contexto Político: Quando o assunto é revolução cubana...



      https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_Cubana
      Revolução Cubana foi um movimento armado e guerrilheiro que culminou com a destituição do ditador Fulgencio Batista de Cuba no dia 1 de janeiro de ...
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      quarta-feira, 30 de novembro de 2016

      Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana em tópicos: Célia Sánchez, a flor mais autóctone da Revolução"








      José Luiz Gomes



      Cumpre aqui fazer um registro - mais um - acerca das enormes controvérsias sobre o número exato de guerrilheiros que embarcaram no iate Granma, assim como o número deles que sobreviveram ao naufrágio do iate já em território cubano. Certa vez, até alguém que se apresentava como agente da CIA andou nos corrigindo. Os agentes da CIA normalmente não se apresentam, mas, enfim... Os números que mais se aproximam da realidade dão conta de que 49 revolucionários embarcaram no México e apenas 15 deles sobreviveram ao tiroteio intenso infligido pelas tropas leais ao ditador Fulgêncio Batista, que os aguardavam previamente. Numa manobra com o propósito de desmobilizar o movimento insurgente, a ditadura divulgou a noticia de que Fidel Castro teria sido um dos que tombaram. Os dados que apresento é uma média dos melhores trabalhos que li a esse respeito. Mas, como afirmo, há controvérsias. acabei de ler um texto onde se diz que 79 futuros guerrilheiros embarcaram no México e apenas 12 deles sobreviveram. 

      Um outro registro, este mais importante, é sobre o papel de Célia Sánchez na Revolução Cubana. Célia era filha de um médico de província e ingressou na militância política logo na juventude, integrando o Partido do Povo Cubano, ao qual também era filiado o então jovem estudante de direito da Universidade de Havana, Fidel Castro Ruz. O partido atuava numa linha institucional, nos limites pequeno-burguês. Fidel estava entre aqueles que defendiam que o partido tivesse uma atuação, de fato, mais popular, junto aos camponeses e movimentos sociais. Quando foi decretada uma ditadura militar no país, liderada pelo sargento Fulgêncio Batista, ele decidiu que era chegada a hora de pegar em armas para lutar contra o regime. Conforme já comentamos por aqui, a primeira grande ação dos insurgentes contra a ditadura militar foi o ataque ao Quartel de Moncada, que resultou na morte de dezenas deles, mas reservaria um grande simbologismo na luta contra a ditadura. O julgamento de Fidel Castro foi realizado num hospital onde estava internado, discretamente, exatamente para evitar a repercussão dos fatos. Como observava Fidel, era um grande feito a população cubana saber que existiam pessoas dispostas a pegarem em armas para derrubar a ditadura.

      Célia Sánchez não estava nesta tentativa frustrada de tomar de assalto o Quartel de Moncada. Se o leitor, no entanto, verificar a estatística dos mortos, irá observar a presença de muitas mulheres entre os insurgentes. Célia foi uma das pessoas mais importantes em todo o processo revolucionário que culminou com a derrubada da ditadura cubana. Poderia ter ido ao México com Fidel, mas foi aconselhada a ficar em Cuba, onde desempenharia um papel estratégico na guerrilha urbana. Aliás, Célia, conhecida como Norma ou Aly, seria o elo de ligação entre a guerrilha urbana e a guerrilha rural que se instalaria na Sierra Maestra. Mesmo quando ela resolveu atuar como guerrilheira na Sierra Maestra, ainda assim continuou sendo o elo de ligação entre as guerrilhas, o que levou o aparato de segurança da ditadura a decidir assassiná-la, intenção que nunca materializou-se. 

      Nas "horas vagas", quando não estava em batalha, Célia tornou-se uma espécie de memória da guerrilha, anotando tudo, guardando tudo, fotografando tudo. Dizia ela que, um dia, aquilo se tornaria muito importante. De fato, sim. Juntamente com os diários de Che Guevara, as anotações de Célia se constituiriam nos registros mais fidedignos da guerrilha instalada na Sierra Maestra. Acompanhava Fidel em tudo, tornou-se sua amiga íntima, possivelmente uma namorada, como sugere alguns. Logo após Célia, outras tantas mulheres se integrariam à guerrilha rural.Com a vitória da Revolução, Célia tornou-se uma heroína para o povo cubano. Vários logradouros públicos recebem o seu nome na ilha caribenha. São justas as homenagens àquela que foi a eterna "companheira" do líder Fidel Castro. 

      Comenta-se que Célia gostava muito de cultivar flores. Em razão disso, Fidel a tratava como "A flor mais autóctone da Revolução". Um dos presidentes do Centro de Estudos Martianos que nos foge à memória - enfatizava que " Para medir quem foi esta nossa irmã, basta sublinhar que é impossível escrever a história de Fidel sem relacioná-la à vida de Célia Sánchez."


      P.S.Do Contexto Político: Na web, só perdemos para a wikipedia. 


      https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_Cubana

      Revolução Cubana foi um movimento armado e guerrilheiro que culminou com a destituição do ditador Fulgencio Batista de Cuba no dia 1 de janeiro de ...
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      Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana e tópicos: Célia Sánchez ...

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      3 min atrás - Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana e tópicos: Célia Sánchez, a flor mais autóctone da Revolução" José Luiz Gomes Cumpre aqui fazer um registro ...

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