segunda-feira, 31 de julho de 2017

Editorial: Os ovos da serpente


Machado
Práticas de cunho fascista já são verificadas em nosso cotidiano social. Em certa medida, o fascismo já está entre nós, se considerarmos os constantes ataques sofridos por grupos sociais minoritários no país, nos últimos anos. Outro dia, o editor deste blog foi virulentamente atacado nas redes sociais por partidários de um grupo de direita aqui do Estado, apenas por ter publicado um artigo sobre o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Tive a curiosidade de observar a página e, para a nossa surpresa, lá estava a apologia explícita a atores políticos emblemáticos do regime militar instaurado no país com o golpe civil-militar de 1964, acusados de tortura e outros crimes. O mais surpreendente, no entanto, é a presença de jovens nesses movimentos, alguns deles sem a menor noção do que ocorreu no país por aqueles idos. A onda "fascista" - que, nesta crise institucional encontra  um terreno bastante fértil para o seu crescimento -, parece turvar o raciocínio dessa gente. Quem quiser que se atreva a fazer algum questionamento a este cidadão quando de sua presença na capital pernambucana.  
Esta semana, o deputado entrou em rota de colisão com alguns veículos de comunicação impressa que avaliaram sua performance nas redes sociais. Ele naturalmente, em sua réplica, provocou as polêmicas de sempre. O fato concreto é que, com o apoio de abnegados seguidores, o deputado Jair Bolsonaro vai muito bem nas redes sociais. Também ali, uma vez que em todas as pesquisas de intenção de votos realizadas até o momento, igualmente, ele tem aparecido muito bem. Como se sabe, Jair Bolsonaro surfa em ondas favoráveis, como o desprestígio de políticos tradicionais; a crise institucional aliada à crise econômica; uma plataforma política direitista, com ingredientes perigosos, com os quais ele se identifica, como o combate duro á violência. Não deve ser por acaso que ele está ali, entre os primeiros colocados na corrida presidencial de 2018, somente abaixo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje um político completamente encrencado com os rolos da Operação Lava Jato. O juiz Sérgio Moro aceitou mais uma denúncia contra ele, desta vez envolvendo as reformas do sítio de Atibaia. 
É profundamente lamentável que o nosso sistema político tenha atingido este estágio tão deplorável, o que o torna incapaz de interditar atores políticos com este perfil. Outro dia, pelas redes sociais, alguém estava comentando que o "Fenômeno Bolsonaro" não se resume tão somente a este personagem da política nacional, mas se estende aos seus familiares, hoje muito bem colocados nas pesquisas para o Governo de São Paulo, assim como para representar aquele Estado na Câmara Alta. Os filhos do deputado aparecem muito bem nas pesquisas. O arguto sociólogo português, Boaventura de Souza Santos, fez outro dia uma das previsões das mais preocupantes, ou seja, a que sugere a possibilidade de referendarmos, através das urnas, um regime fascista, elegendo um candidato com esta plataforma.
De fato, não se pode nutrir muitas expectativas em torno de num sistema político necrosado como o nosso, que direciona suas ações consoantes os interesses e motivações mais vis, absolutamente dissociada do interesse público. Embora, segundo pesquisa recente, mais de 80% da população advogue que os deputados devem votar a favor da aceitação da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer, sabe-se que os operadores do Palácio do Planalto já consideram essa denúncia enterrada. A charge do cartunista Renato Machado - publicada no dia de hoje no jornal Folha de São Paulo e aqui reproduzida - ilustra bem essa nossa preocupação. Na realidade, todo o sistema político brasileiro está na frigideira. O problema é que não sabemos qual será o ponto certo dessa fritura ou se ela, de fato, algum dia acordará, uma vez cessaram as mobilizações de ruas e os famosos panelaços, gentilmente financiados pela elite para apear do poder uma presidente legitimamente eleita, sob o argumento, pasmem, de combater a corrupção.    

Seminário: O CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA

 
Programação
(14/08) Segunda-Feira, 14h-18h, Auditório da AdufepeMesa 1: Os impactos da Revolução Russa na América Latina e no Brasil
Análise do processo da Revolução Russa seguido de observações sobre os impactos e a recepção de suas influências nas realidades latino-americana e brasileira nas primeiras décadas do século 20.José Spinelli Lindoso
Ciências Sociais/UFRNJefferson Lopes
História/UFCGMichel Zaidan Filho
História/UFPE
(15/08) Terça-Feira, 14h-18h, Auditório da AdufepeMesa 2: Artes, cinema e Revolução Russa
Inovações e desenvolvimento da Revolução Russa no campo da estética, das artes e também do cinema, do período pré-revolucionário à consolidação do stalinismo.Cid Vasconcelos
Comunicação Social/UFPEJordi Carmona Hurtado
Filosofia/UFCG
(16/08) Quarta-feira, 14h-18h, Auditório da AdufepeMesa 3: Revolução Russa, Revolução Permanente e os Anarquistas
A Revolução Russa, a teoria da revolução permanente e o papel e a crítica dos anarquistas ao seu desenvolvimento contraditório.Ariston Flávio Miranda
Direito/UFPECarlos Gouveia de Omena
Administração/FAMAFelipe Gallindo
História/UFPE
(17/08) Quinta-feira, 14h-18h, Auditório da AdufepeMesa 4: As repercussões da Revolução Russa na vida e obra de Lenin, Gramsci e Trotski
Análise histórica e teórica dos impactos recíprocos entre a eclosão e o desenvolvimento da Revolução Russa e o evolver das obras de importantes intelectuais críticos marxistas.Luciana Aliaga
Ciências Sociais/UFPBMauricio Gonçalves
Sociologia/UFPETiago Bernardon
História/UFPB
(18/08) Sexta-feira, 14h-18h, Auditório da AdufepeMesa 5: As repercussões da Revolução Russa na vida e obra de Rosa, Benjamin e Mészáros
Análise histórica e teórica dos impactos recíprocos entre a eclosão e o desenvolvimento da Revolução Russa e o evolver das obras de importantes intelectuais críticos marxistas.Cristina Paniago
Serviço Social/UFALLuciano Mendonça
História/UFCGMarcos André de Barros
Sociologia/UFRPE


NOME COMPLETO (Sem abreviações)

Charge! Machado via Folha de São Paulo

Machado

domingo, 30 de julho de 2017

Michel Zaidan Filho: Sobre A(as) Revoluç(oes)ão




A historiografia brasileira é pródiga em descobrir revoluções. Talvez, pelo fato de que nós nunca tivemos um evento digno de ser chamado de "Revolução", os autores falem tanto de revolução. Existe até mesmo um livro com o título: "Revoluções do Brasil Contemporâneo". Revoluções, no plural. Outros mais modestos falam de revoltas, sedições, insurreições etc. E até os golpistas preferem chamar os golpes de revoluções. Embora seja sempre possível descobrir grandes mudanças e transformações encobertas pela fachada de "pardieiros políticos". São as conhecidas "revoluções pelo alto", ou seja, as revoluções sem revolução", como diz Gramsci, ao tratar do caso da Itália no século XIX. País de capitalismo tardio - como a Itália - nossas "revoluções" são de fachada, de superestruturas jurídicas e políticas, não são "revoluções" propriamente ditas, enquanto processos sociais de longa duração, como queria Sérgio Buarque de Holanda. Ou são "revoluções" das classes dominantes, que atendem aos seus interesses.

Quando se trata de movimentos políticos do povo, da arraia miúda, são indisciplinas, sublevações da ordem e dos bons costumes. A isso é preciso acrescentar a "mitologia pernambucana" do estado-nação": o Brasil nasceu aqui, no marco zero, em Olinda ou nos Montes Guararapes etc. A produção de uma memória histórica a serviço da ordem, da identidade nacional, do espírito de coesão e unidade. Nisso nossos historiadores do "Instituto Histórico e Geográfico" são bons. Fabricadores de mitos, epopeias e legendas que, glorificando os feitos do passado, legitimam o presente, a dominação social do presente, abolindo as diferenças, as desigualdades.

Esse preâmbulo foi escrito para que pudesse falar do aniversário da chamada "Revolução de 1817" em Pernambuco, efeméride que já ganhou até cartazes do obscuro e incompetente governador do Estado. Neste ponto, temos de convir que a "revolução" tornou-se, há muito tempo, um campo semântico que pode ser ressignificado de acordo com os interesses do historiador ou de seus patrocinadores. Como mais um campo semântico, o evento que se quer revolucionário se presta as mais variadas formas de utilização, inclusive a da oligarquia pernambucana ora representada pela família Campos. Afinal, que "Revolução" foi essa, que já ganhou até um dia durante o ano para ser come morada?

Vamos situar a "Revolução de 1817" no marco histórico das rebeliões do período colonial contra a dominação portuguesa no Brasil e do moderno constitucionalismo liberal anglo-saxão. A importância desse evento, para além das festividades cívicas, está relacionada com a proto-história tanto da busca da autonomia política, por parte de uma província colonial, como pela instauração de um regime político contratualista entre Estado e Sociedade. Sem entrar na consideração do gesto desassombrado e corajoso dos que pagaram com a vida por terem participado da insurreição, mais importa chamar a atenção para o cadinho das inúmeras revoltas e insurreições que tomaram conta da nossa história colonial, ora só com a participação das elites ora com a participação de escravos e a população em geral.


Movimentos guiados pela ideia de autonomia e emancipação do jugo colonial lusitano e sua opressiva política fiscalista e arrecadadora, numa fase de empobrecimento da economia portuguesa, causada pelas emigração do campo para as cidades e a aventura ultramarina portuguesa. É quando a metrópole vai se tornando um mero entreposto entre as colonias do além-mar e a Inglaterra. A ação predatória da Coroa vai se intensificando sobre as possessões coloniais e vai suscitando mais revoltas e descontentamentos. O século XIX será palco de inúmeras sublevações no Brasil, beneficiando-se dos influxos externos, como a revolução americana, a revolução francesa, a revolução de quarenta e oito etc. Como já foi sobejamento demonstrado, havia uma influencia do pensamento liberal e constitucionalista nas Igrejas, mosteiros e outras corporações aqui na colonia portuguesa. A presença de autores e de obras políticas e jurídicas que anunciavam a nova era contratualista e liberal influenciou muito a mentalidade daqueles que animaram os movimentos de ruptura do pacto colonial, antevendo a instalação de um país livre e constitucional. Leia-se, por exemplo, o livro "O Diabo na livraria do Cônego" , onde se encontra a lista de livros e autores europeus lidos pelos mineiros da "inconfidência" . Era de se esperar que a infusão desse pensamento liberal produzisse seus frutos na abafada colonia de Portugal. E produziram.

A conhecida "Revolução de 1817", estudada por Amaro Quintas, Isabel Marson, Carlos Guilherme Mota e outros, foi um desses episódios da produtividade das idéias liberais e autonomistas em nosso passado colonial. Num momento crítico de constituição ou não da Monarquia portuguesa no Brasil. Caso tivesse vingado aquele movimento, o futuro de nosso país seria dominado por um conjunto de pequenas repúblicas, inviabilizando o projeto lusitano de construir um grande reinado na América do Sul. Frise-se que a dura repressão que se abateu sobre o movimento teve caráter preventivo e exemplar, com o objetivo de dissuadir outras tentativas provinciais de autonomia e constitucionalização.


Vem dai, certamente, a característica unionista e monárquica - autoritária - que ganhou o império brasileiro, sob a dinastia dos Orleans e Bragança. Caso tivesse triunfado a experiência pernambucana, dificilmente o projeto unionista e monárquico da casa de Bragança teria vencido. A excelência dos argumentos liberais e constitucionais de um Frei Caneca, imortalizada nas páginas do "Tifis pernambucano" ficaram para a História das Idéias Políticas, enquanto prosperou uma modalidade de Monarquia Constitucional" avessa a qualquer tentativa de federalismo e descentralização. O empréstimo da fantasia de um "Poder Moderador", tomado de Benjamin Constant na França, mal disfarçou o sempre presente poder interveniente do Imperador, fazendo e desfazendo os gabinetes, sob o pretexto de crise institucional.

É possível que os eventos ocorridos em Pernambuco tenham alertado Dom João Sexto e seus descendentes sobre a necessidade de uma intervenção militar rápida e eficiente, como foi feita em Minas Gerais, para preparar o caminho até a Monarquia Brasileira. Como se recorda, as rebeliões, insurreições e revoltas continuaram século dezenove a dentro, em várias províncias do reino português além-mar. Mas o tratamento impiedoso dado aos revoltosos da capitania de Pernambuco foi o sinal de que os colonizadores não tolerariam a difusão do pensamento liberal e constitucionalista entre nós, até um príncipe lusitano resolver "fazer" a independência da colonia e instaurar a sua modalidade de monarquia constitucional, autoritária, centralizadora e escravagista. Por tudo isso, as idéias dos inconfidentes de 1817 em Pernambuco merecem ser lembradas, estudadas e compreendidas no seu devido contexto histórico.


Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

Editorial: As planilhas de Joesley Batista

Capa edição 997 home  (Foto: Época )
Aqueles leitores mais atentos - e menos radicais - que se permitem ao menos uma passada de olhos pelo noticiário da "grande imprensa", já devem ter percebido que o prestígio do presidente Michel Temer(PMDB) por aqui está mais baixo do que poleiro de pato. Não acreditamos que isso possa mudar o placar da votação que ocorrerá na Câmara dos Deputados, na próxima semana, onde deverá ser apreciado pelos parlamentares um pedido formulado pela PGR no sentido de que ele seja investigado pelo STF. Infelizmente, o nosso sistema político não reúne as condições de apear atores políticos nessas condições. A clivagem moral ali é praticamente nula, num jogo corporativo, de chantagens e oferecimento de benesses que os atuais ocupantes do poder sabem jogar muito bem.
É curioso observar que, ao que se sabe, não se conhece algum movimento do Planalto no sentido de frear essa sanha da imprensa que, até bem pouco tempo, emprestou todo o seu apoio às artimanhas golpistas que culminaram com o afastamento da ex-presidente da República, Dilma Rousseff. Também não se é ingênuo o bastante para acreditar que essa mesma imprensa esteja sendo movida por algum prurido republicano ou ético. Há outros tantos interesses em jogo, cada qual mais cabeludo do que o outro, nenhum deles assim de orientação republicana. O que se prenuncia é que o ator político Michel Temer talvez tenha perdido as condições de implementar esse "projeto" patrocinado por essas forças, nem tão ocultas assim, como diria o ex-presidente Jânio Quadros. Apenas isso.
De acordo com a matéria da Revista Época, dos Marinhos, a JBS abasteceu a Procuradoria-Geral da República com provas robustas sobre os estertores das relações promíscuas entre o poder público, o campo político e a iniciativa provada. À exemplo da Odebrecht, há, ali, uma espécie de planilha onde se configura os "por dentro" e "por fora" de propinas pagas à classe política, inclusive o atual mandatário do país. O editorial da Folha de São Paulo, por sua vez, chega à conclusão de que os indícios são muito fortes contra o presidente Michel Temer(PMDB). Apesar de não manter um departamento de propinas institucionalmente organizado, o grupo J&F, assim como a Construtora Odebrecht, também não se descuidava desse setor, disponibilizando uma equipe de executivos quase que dedicados exclusivamente a essas relações com o poder público.
As delações premiadas dos executivos e sócios da Construtora Odebrecht produziram um tsunami na política brasileira. Até então, por mais que soubéssemos que no país existia uma espécie de corrupção endêmica, poderíamos  imaginar que ela atingisse, naquelas proporções, os poderes de nossa podre república. Na realidade, aquele fenômeno que já se observava no contexto dos regimes ditos democratas - onde as corporações assumiam o poder antes atribuído ao povo - isso já existia no Brasil há algumas décadas. É o Brasil sempre inovando, diriam alguns. Infelizmente, em última análise, num país chamado Brasil, essas provas hoje apresentadas pelo Grupo J&F - amplamente divulgadas pela revista Época - podem não alterar, em nada, o resultado desse jogo de cartas previamente marcadas. Somente aqui mesmo.  

Charge! Jean Galvão via Folha de São Paulo

Jean Galvão

sábado, 29 de julho de 2017

Charge! Machado via Folha de São Paulo

Machado

Hoje é dia de dá os parabéns ao professor Michel Zaidan Filho

 
No último dia 21, estivemos juntos num debate na Fundação Joaquim Nabuco. Nessas ocasiões, cumpre a quem convida fazer as saudações de praxe ao palestrante convidado. Naquele momento, comuniquei aos ouvintes que seria dispensável comentar sobre a trajetória intelectual do professor titular da Universidade Federal de Pernambuco - mais precisamente do Centro de Filosofia e Ciências Humanas daquela universidade, como ele costuma observar. No entanto, enfatizei alguns traços de caráter do professor, como a rigidez nos princípios, a lealdade, o senso de justiça, a solidariedade, o republicanismo e a notável coragem cívica, uma característica das mais importantes nesses momentos de crise institucional que o país atravessa. Parabéns ao professor e amigo de todas as horas.

Editorial: O xadrez político das eleições de 2018, em Pernambuco: Ninguém se perde no caminho de volta. Será?


A partir da esq., o governador Geraldo Alckmin (PSDB) em Mauá (SP), ao lado do candidato Átila Jacomussi (PSB) e do vice-governador Márcio França (PSB)


José Luiz Gomes da Silva
Cientista Político
 
 
Ninguém pode afirmar que o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin(PSDB), não seja um abnegado político em defesa de seu projeto mais ambicioso, ou seja, o de  ocupar a cadeira de Presidente da República. Nos últimos anos, Alckmin não tem medido esforços no sentido de alcançar este objetivo. Nas eleições municipais de 2016, por exemplo, estruturou uma espécie de cinturão eleitoral em zonas estratégicas do Estado de São Paulo, elegendo aliados em cidades com contingentes eleitorais superiores a um milhão de votos. Um dado absolutamente relevante para qualquer postulante ao Palácio do Planalto. Nos últimos meses, percebendo a chapa esquentar, transformou o Palácio dos Bandeirantes num comitê eleitoral, recebendo para conversar animais políticos de todos os quadrantes.

No apogeu da crise envolvendo o presidente Michel Temer, seu partido, o PSDB, chegou a cogitar da possibilidade de largar a nau governista. Alckmin percebeu, no entanto, que seria necessário realizar a manobra, mas com o cuidado de preservar o projeto presidencial do partido que, neste caso, confunde-se com ele próprio. Um dos atores mais importantes na construção de um consenso político de transição, porém, seria o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia(DEM). Rodrigo Maia emitia alguns sinais de que poderia não respeitar alguns acordos assumidos, costurando alianças que poderiam viabilizar o seu projeto de continuar como inquilino do Alvorado por um período superior ao negociado durante a crise institucional. Essa desconfiança acendeu a luz amarela no staff de Alckmin, que abandonou o entusiasmo com este projeto.

Um outro fator que preocupa o governador paulista diz respeito a uma cria política sua, o atual prefeito da cidade, João Dória Junior(PSDB). Neste momento da política nacional, o perfil do prefeito parece cativar mais os eleitores, desapontados com o processo político, comandado por velhas raposas. A princípio, esta movimentação em torno do seu nome deve ter surpreendido o próprio Dória. Hoje, no entanto, o prefeito admite concretamente a possibilidade de uma candidatura, com o apoio expressivo de aves emplumadas do próprio ninho tucano. Ainda não se sabe como eles vão se arranjar. Dória deve  sua ainda incipiente carreira política ao padrinho Alckmin. Se Alckmin vencer a briga interna, as coisas se acomodam naturalmente. Se for o contrário, aí o bicho pega. Podem apostar. As movimentações do governador, portanto, explicam-se pelas contingências políticas que atropelaram alguns calendários.

No sistema político brasileiro, as decisões tomadas pelos grêmios partidários no plano nacional, não se refletem necessariamente nas quadras estaduais. A política de alianças é um excelente exemplo do que estamos afirmando. Nos seus primórdios, quando ainda se poderia dizer que o PT era um partido disciplinado, orgânico, cujas decisões tomadas no plano nacional eram acatadas pelos diretórios estaduais, nem assim, escapou de algumas ciladas aliancistas em quadras estaduais e municipais que se contrapunham radicalmente às decisões tomadas pelo partido no plano nacional. Hoje, então, diante da decomposição ideológica dos grêmios partidários, é que os acordos fechados pela cúpula dos partidos tendem ainda mais a não se materializarem nos arranjos políticos estaduais.

Em todo caso, Geraldo Alckmin, depois de receber no Palácio Bandeirantes o presidente Michel Temer - numa espécie de política do jato, com o objetivo de apaziguar o ânimo da bancada tucana paulista que ameaçava debandar da base aliada - abriu espaço em sua agenda para conversar com as lideranças de dois grêmios partidários: o DEM e o PSB. Os democratas são velhos aliados dos tucanos, mas, no momento, cogita da possibilidade de uma aliança com os dissidentes do PSB, liderados pelo senador Fernando Bezerra Coelho, do PSB de Pernambuco. A composição do PSDB com o PSB, no entanto, traz alguns complicadores, como a relativa autonomia e aspirações dos tucanos aqui da província, como uma postulação ao Governo Estadual, nas eleições de 2018, com o hoje ministro das Cidades, Bruno Araújo, que já advertiu os lideres nacionais a respeitarem as decisões do partido na quadra estadual.

Por aqui, Bruno Araújo compõe com o grupo que denominamos de "Conspiração Macambirense', ou seja, o conjunto de forças que se articulam em torno de uma oposição ao Governo Estadual. Não se sabe ainda muito bem como eles vão se arranjar em termos de candidaturas, mas desponta como líder do grupo o senador Armando Monteiro, do PTB. Por outro lado, é inegável que alguns atores políticos que, a princípio, integram a "Conspiração", se movimentem como potenciais candidatos, como é o caso do próprio Bruno, assim como o Ministro da Educação, Mendonça Filho(DEM).

A grande questão que se impõe é que, ao fechar um acordo com os tucanos no plano nacional, os socialistas impõem alguns condições, como o apoio dos tucanos ao projeto de reeleição do governador Paulo Câmara(PSB-PE) e o apoio ao nome de Márcio França, atual vice de Alckmin, em seu projeto de tornar-se governador de São Paulo, em 2018. Essa imposição respingaria, naturalmente, numa reavaliação dos tucanos sobre o cenário das próximas eleições estaduais em Pernambuco. Num passado recente, os tucanos aqui da província compunham com o PSB. Fechado o acordo no plano nacional, eles teriam que refazer um caminho de volta ao ninho das pombinhas socialistas. Diz o adágio popular que ninguém se perde no caminho de volta. Será?  

P.S.: Contexto Político: Nas últimas eleições municipais, em função de projetos que não se coadunaram com o gestão do prefeito Geraldo Júlio(PSB), tanto o PSDB quanto o DEM lançaram candidatos à Prefeitura da Cidade do Recife. O fato acabou também respingando num estremecimento da relação que estes partidos mantinham no Governo Paulo Câmara. O governador, movido pela solidariedade ao amigo prefeito, pediu de volta os cargos que esses partidos ocupavam na máquina estadual, sinalizando para um evidente rompimento. A ruptura com estes dois partidos - aliado a alguns fatos da cena política nacional, como é o caso do impeachment da presidente Dilma Rousseff - permitiu ao PMDB do Deputado Jarbas Vasconcelos ampliar sua capilaridade no condomínio governista, mesmo ressentindo-se de uma densidade eleitoral que justifique seu status na máquina. Nas coxias, é dada como certa, uma das vagas concorrente ao Senado Federal na chapa governista a Jarbas Vasconcelos. Comenta-se que o governador, hoje, sinaliza com a volta dessas agremiações partidárias à aliança. Um outro complicador é o rumo a ser tomado pelo grupo Coelho, liderado pelo senador Fernando Bezerra Coelho, de longe, a personalidade política mais cobiçada da província na atualidade. Como se sabe, ele tem várias opções políticas, inclusive um voo solo. A romaria de políticos do PSB à festa de casamento do seu filho, Miguel Coelho, prefeito de Petrolina, é um indicador do risco de se perder o seu apoio nas próximas eleições estaduais. Superadas as questões de ordem ideológicas - que hoje definem cada vez menos os rumos dos atores políticos - depois de uma declaração do líder dos Democratas, Rodrigo Maia(DEM), no sentido de descartar um apoio do partido ao projeto presidencial dos tucanos, ampliaram-se as possibilidades de um acordo entre o grupo dissidente dos socialistas, liderados por Fernando Bezerra Coelho - e os Democratas. Numa conversa entre o ministro Fernando Filho e ACM Neto, prefeito de Salvador, falou-se abertamente sobre a dissidência na hoste socialista. O fato, naturalmente, reflete-se na política local, onde essa ala dos Coelhos já entabula conversas com outras lideranças políticas de cidades vértices do Triângulo das Bermudas, de olho nas eleições estaduais de 2018. É uma ingenuidade dos socialistas tupiniquins imaginarem que poderão conter as mágoas dos Coelhos com caravanas e canapés. A cenoura precisa ser bastante suculenta.




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Editorial: A rejeição da denúncia contra o presidente Michel Temer


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Conforme já confidenciamos aos leitores, apenas 1/3 daquilo que escrevemos é publicando aqui pelo blog. No dia de ontem, por exemplo, escrevemos um longo editoral sobre o recém-lançado Programa de Demissão Voluntária, do Governo Federal. Optamos por não publicá-lo e encaminhá-lo diretamente aos assinantes do blog. Hoje, ficamos divididos entre as movimentações do futuro candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin(PSDB), e os resultados do trabalho realizado pelos operadores do Planalto no sentido de evitar que seja aceita a denúncia formulada pela PGR contra o presidente Michel Temer(PMDB). Este último, um trabalho arrojado e profissional - embora sem pruridos republicanos - desenvolvido pela tropa de choque do presidente - quando não ele mesmo à frente - já que estamos tratando com um profissional da política. Aquela política que se aproxima mais da lógica da Ética das Consequências, de matriz maquiavelina, como bem se sabe. 

 
Um conjunto de forças tramou contra o governo da presidente Dilma Rousseff e ela se recusou a fazer esse jogo. Resiliente, aguardou pacientemente o desfecho da trama que foi urdida contra ela. Outro dia, escrevemos um longo editorial sobre as benesses recebidas pela bancada ruralista neste governo. É a parte que lhes cabe deste latifúndio golpista, com a licença poética do poema Morte e Vida Severina, do poeta pernambucano, João Cabral de Mello Neto. No entanto, a participação desta bancada em todos os momentos da trama do golpe institucional parece ser mesmo maior do que dimensionamos, ao lermos o artigo de Miguel Stédile, publicado aqui no blog. Vale a pena a leitura, em razão de o artigo trazer informações importantes sobre o "financiamento" do golpe institucional ora em curso no país. 

 
De acordo com cálculos da tropa de choque do presidente Michel Temer, a rejeição da denúncia formulada pela Procuradoria-Geral da República contra ele são favas contadas. Contadas minuciosamente, segundo dizem, num computador instalado no gabinete do ministro Eliseu Padilha, fiel escudeiro de Michel Temer. Os dados informam que, pelo menos 260 deputados deverão votar contra a aceitação da denúncia. Não satisfeita com o placar, a tropa de choque ainda tentar cooptar o voto de alguns indecisos, que somam não mais do que cinco dezenas de deputados. Animal político azeitado, o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, já aproveita para praticar aquele esporte que ele mais gosta: surfar de acordo com as ondas e nunca contra elas. Voltou a emitir sinais de que trabalha em defesa do presidente Michel Temer. 
 

O momento institucional do país é bastante delicado. Caso esta denúncia contra o ex-presidente não seja aceita, as demais terão chances ainda menores de serem aceitas. Esta é uma conclusão dos bastidores da política e não apenas uma intenção da troca de choque do presidente. Para convencer os indecisos, o presidente usou a caneta como pôde, em certa medida, contradizendo-se até às medidas de austeridades adotadas pelo seu próprio governo. Para a liberação das emendas de deputados dispostos a votarem com o governo, a lógica da racionalidade no gasto de receitas da União não foram levadas em conta. Nossa política desceu ao fundo do poço. Chega a ser folclórica as "justificativas" apresentadas pelos beneficiários dessas emendas, quando questionados pelos repórteres. 

Charge! Benett via Folha de São Paulo

Benett

terça-feira, 25 de julho de 2017

Charge! Aroeira

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Nem pop, nem tech, o Agro é corrupto


Ao invés de perguntar a Deus como foi parar ali, Michel Temer deveria perguntar à Confederação Nacional da Agricultura ou aos seus associados

Miguel Stédile *
Ayrton Vignola/Estadão Conteúdo
Ao invés de perguntar a Deus como foi parar ali, Michel Temer deveria perguntar à Confederação Nacional da Agricultura ou aos seus associados. O setor do agronegócio esteve entre os setores mais ativos para o financiamento da campanha pelo Impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, desde inflar patinhos amarelos a pagar os trabalhos do publicitário particular de Temer, Elsinho Mouco, como o próprio marqueteiro confessou.
 
As relações entre o Agronegócio e a quadrilha que se instalou no Palácio da Alvorada são íntimas. Como é público e conhecido, além de encontros na madrugada para acertarem a mesada para Eduardo Cunha, Michel Temer e Joesley Batista, da JBS, também compartilharam jatinhos e, principalmente, propinas. Em troca, a JBS receberia a intervenção do governo para facilitar seus negócios.
 
Um dos canais para a recepção da propina era a empresa de engenharia e arquitetura Argeplan, de propriedade do coronel aposentado da Polícia Militar João Batista Lima Filho. Em 2016, O Movimento Sem Terra ocupou a Fazenda Esmeralda, em Duartina (SP), conhecida em toda região como propriedade de Temer, mas registrada em nome de Lima Filho. Não seria a área destino da lavagem de dinheiro da corrupção?
 
Mas Temer não está sozinho na sua amizade. Um em cada 3 deputados foi financiado pelos irmãos Batista em suas campanhas eleitorais, num total de 166 integrantes da Bancada da Friboi. Ao menos oficialmente, em financiamentos registrados. Junto a eles, 28 senadores. Entre os Partidos, o PP é campeão de financiamentos pela JBS. Não à toa, a Operação Carne Fraca apontou corrupção na fiscalização pelo Ministério da Agricultura, justo na área de frigoríficos, e num Ministério cujo domínio tem sido dividido entre o PP e o PMDB nos últimos 18 anos. E a própria delação dos irmãos Batista confessa que a empresa foi beneficada com compra de votos para aprovação de isenção de tributos pela Câmara.
 
A JBS também um bom exemplo do quanto o Agro é “tech”, suas empresas estão afundadas em denúncias de trabalho escravo, precarização do trabalho e desrespeito as leis trabalhistas. Coincidentemente, outra bandeira do governo Temer, acabar com os direitos com a reforma trabalhista. O parãmetro de tecnologia da JBS certamente devem ser as senzalas do século XIX.
 
Os interesses da JBS e do setor do agronegócio com a aprovação de isenções tributárias e das reformas é fundamental para superarmos o discurso predominante da mídia que só encerga corruptos, mas transforma os corruptores em sujeitos ocultos. Como se a corrupção fosse um ato individual e auto-suficiente de um político, ignorando que em sua origem está o setor empresarial em busca de transgredir as leis e a economia. Faltou pouco para os irmãos Batista se apresentarem como vítimas da ganância de Temer e companhia, enquanto fraudavam concorrências, burlavam fiscalizações e desrespeitavam a lei.
 
A corrupção nem de longe é o único crime associado a Temer e ao agronegócio. Seu braço direito, o Ministro da Casa Civil Eliseu Padilha é adepto de outra característica típica do agronegócio, a grilagem de terras. Em bom português: fraudar documentos para roubar propriedades de terra. Padilha é acusado de grilagem tanto no Rio Grande do Sul, onde se apoderou de uma área valorizada para a construção de parques eólicos, como também no Mato Grosso, onde é acusado pelo Ministério Público de desmatar 19 mil hectares no Parque Estadual Serra Ricardo Franco.
 
Outro ícone do agronegócio, Blairo Maggi, rei da soja, ocupa o Ministério da Agricultura. Recentemente, com a apreensão de um avião carregado de cocaína, a imprensa supôs que a soja não é o único produto de exportação da Fazenda Itamarati.
 
Além dos bolsos dos integrantes do governo, as propinas do agronegócio tem outro destino certo: a pauta do Congresso Nacional. Sob medida aos interesses de seus Ministros e de seus financiadores, Temer enviou as Mps 756, 758 e 759 que produzem uma série de retrocessos na estrutura agrária brasileira e fazem a festa de grileiros e outros contraventores. A frente da aprovação destas medidas, está outro campeão do agronegócio, da grilagem e do Governo Temer: o senador Romero Jucá, de Roraima.
 
Com um governo com relações tão carnais com o agronegócio e o crime, não é a toa que os fazendeiros sintam-se blindados e protegidos, ou melhor, impunes. Não apenas em violar a política e a economia, mas em desprezar a própria vida humana. No primeiro ano do golpe, os indíces da violência no campo retrocederam aos números de 13 anos atrás. Os assassinatos no campo saltaram para 61 vítimas, incluindo 13 jovens, 6 mulheres, 13 indígenas e 4 quilombolas. “Quilombolas, indígenas, gays e sem terras” são tudo o que não presta, segundo o Deputado federal Luiz Carlos Heinze, um dos papagaios de piratas postados fielmente ao lado de Temer em seu pronunciamento após a denúncia da PGR.
 
Como se sabe, não foi deus, mas o “grande acordo nacional… com STF com tudo”, nas palavras de Jucá, que levou Temer ao governo. E sua saída, manifestada nos desejos de milhares de brasileiros deve resultar não apenas em novas eleições diretas, mas numa limpeza da quadrilha agro-corrupta que se instalou nos poderes legislativos e executivo. O Fora Temer deve ter como consequências, tanto a devolução ao poder soberano do povo para escolher o Presidente da República, como o próximo mandatário precisa imediatamente revogar todas as medidas provisórias criadas a preço de propina e corrupção para favorecer o agronegócio. Deve também retirar definitivamente o Ministério da Agricultura e importantes ferramentas do Estado como a Companhia Nacional do Abastecimento da mão da camarilha do agronegócio. E para que a sociedade brasileira seja definitivamente sanada da ação criminosa do agronegócio nos poderes legislativos e executivos é necessário uma profunda reforma política que acabe definitivamente com o propinoduto chamado “financiamento privado de campanhas”. O Fora Temer só será efetivo se for for Fora também para quem lhe colocou ali: os patinhos da FIESP, os boizinhos da JBS e os cifrõeszinhos do capital financeiro que sustenta a ambos.
(Publicado originalmente no site do Portal Carta Maior)

O mais perigoso dos líderes


O mais perigoso dos líderes
O ex-presidente Lula, condenado a 9 anos de prisão nesta quarta (12) pelo juiz Sérgio Moro (Arte Revista CULT/Sérgio Lima)

Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.
Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.
Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.
Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Entrará Rodrigo Maia em seu lugar para confirmar a trilha do rebaixamento, deixando claro que não é de democracia, nem de dignidade que se trata, ou qualquer desses valores que contavam na época em que política era algo fundamental. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.
Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.
Anti-Temer
Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os Direitos trabalhistasvazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.
Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.
neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.
O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.
Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.
Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.
O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem acompreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.
Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.
Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.
O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…
A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas.
(Publicado originalmente no site da revista Cult)

Cantor na festa de aniversário da gestão Temer, Sérgio Reis é o líder em emendas pagas pelo Governo


George Marques
QUANDO O PRESIDENTE MICHEL Temer comemorou um ano de gestão, no último 13 de maio, um grupo de políticos, entre eles deputados e ministros, festejou com ele em um refinado restaurante italiano de Brasília, o Trattoria do Rosário. Na ocasião, a voz rouca do cantor e deputado Sérgio Reis (PRB/SP) entoou o clássico sertanejo “O menino da porteira” para aplausos do presidente. Na Câmara, o deputado também anda tendo motivos para comemorar: ele foi o que mais teve emendas pagas este ano pelo governo. Foram R$ 8,4 milhões no total, segundo levantamento feito por The Intercept Brasil com base nos dados do site Siga Brasil.

Um ranking feito por TIB mostra que os dez deputados com mais emendas pagas em 2017 receberam um total de R$ 72,5 milhões. A maioria deles é intimamente alinhado às pautas do governo e defende categoricamente Temer pelos corredores do Congresso Nacional. Ainda de acordo com o levantamento, só em 2017 já foram liberados cerca de R$ 1,5 bilhão de reais a 737 deputados com e sem mandato.
Na liderança da lista, Sérgio Reis teve um total de sete emendas pagas pelo governo neste ano. Em fevereiro, houve um pagamento de R$ 252.607,99 destinado a apoio e manutenção de unidades de saúde para o estado de São Paulo. Para o mesmo fim, outras quatro emendas totalizando R$ 2.965.541,91 foram liberadas em março. Em junho, o valor das emendas do deputado cresce, e o governo paga mais duas que, somadas, chegam a R$ 5.188.383,49 também para a área da saúde. Ao todo, nos seis primeiros meses deste ano, o total foi de exatos R$ 8.406.533,39 executados.
O governo vem sofrendo duras críticas pela liberação desenfreada de grandes recursos no mês mais grave da crise política, quando o Planalto se via ameaçado: ou atendia aos interesses dos deputados ou poderia não conseguir maioria para rejeitar a denúncia de corrupção contra o presidente, com votação prevista para a próxima semana, em 2 de agosto.
As emendas parlamentares individuais são dotações inseridas no Orçamento da União que abastecem os redutos eleitorais dos parlamentares com recursos para obras públicas. Em ano pré-eleitoral, são essenciais para que os políticos beneficiem suas bases nos estados. TIB mostrou recentemente que até o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso no complexo de Pinhais, em Curitiba, também foi agraciado com a liberação de recursos de mais de R$ 1,6 milhão.

Para quem a banda toca, afinal?

Apesar de todo o agrado por parte do governo e mesmo já tendo elogiado Temer num passado recente, o cantor tem se aproximado muito nos últimos tempos do aspirante ao Planalto Álvaro Dias (PV-PR), árduo crítico da atual gestão, que chegou a pedir a renúncia do presidente após a divulgação das gravações comprometedoras feitas pelo dono da JBS, Joesley Batista. Sérgio Reis figura como “indeciso” no site 342agora, criado para acompanhar o posicionamento dos congressistas sobre a continuidade da denúncia criminal contra Temer.
A reportagem entrou em contato com o deputado Sérgio Reis para entender a aplicação dos recursos, mas o deputado ainda não se manifestou.
Entre os dez deputados mais bem pagos com emendas parlamentares em 2017, a maioria faz parte da tropa de choque de Temer. Em segundo lugar, está o líder do PMDB na Câmara Baleia Rossi (SP), com R$ 7.660.534,74. Em seguida, Alexandre Serfiotis (PMDB-RJ), que recebeu R$ 7.553.345,51. Partiu de Rossi a iniciativa de que o PMDB fechasse questão contra a continuidade da denúncia contra Temer. Ele também sugeriu que Zveiter fosse retirado da CCJapós apresentação do parecer contra Temer.
Os deputados Laerte Bessa (PR/DF) e Paulo Maluf (PP/SP), membros da CCJ e que votaram contra o andamento da denúncia de corrupção contra Temer, receberam respectivamente R$ 7.039.886 e R$ 6.768.072, ocupando os sétimo e oitavo lugares do ranking. De acordo com o 342agora, todos se manifestaram contrários à continuidade da investigação contra Temer.
Coube a Paulo Maluf contar sobre as qualidades até então desconhecidas de Temer aos presentes que acompanham a sessão na CCJ.  “Conheço Temer há 35 anos e, em 35 anos de convivência, não dá para a gente se enganar. Temer é um homem honesto, probo, correto e decente que está sendo acusado de maneira absolutamente imprópria”, profetizou.



O deputado Paulo Maluf, que já foi condenado à prisão na França e figurou na lista da interpol, diz que Temer é homem "honesto e probo".
O cargo que Bessa ocupou na CCJ era anteriormente de Jorginho Melo (PR/SC), retirado pelo partido por ter uma posição favorável à continuidade da denúncia. Manobras, promessa de cargos e liberação de emendas a aliadosajudaram o governo a garantir uma vitória montada na artificialidade parlamentar.
Bessa entrou na comissão sem nem sequer saber o nome dos colegas: se enrolou para citar o sobrenome do relator, Sérgio Zveiter, chamando-o de “Velter”, e do deputado Wadih Damous (PT/RJ) de “Uadi Vadus”. “Não é muito estranho uma denúncia nessa hora em que o Brasil começa a ver uma luz no fim do túnel?”, questionou, mostrando por que foi escalado para a CCJ.
(Publicado originalmente no site do Intercept Brasil)
Foto em destaque: Sérgio Reis canta ao lado de sua mulher Angela Marcia, durante sessão solene no plenário da Câmara em 2015.