Não é a primeira vez que os tucanos (os políticos do PSDB)
ensaiam desembarcar de um governo prestes a ser afastado, por denúncias de
corrupção, improbidade administrativa, obstrução a Justiça e outras coisas mais.
O partido que se constituiu à esquerda do velho PMDB, com a proposta de ser uma
agremiação socialdemocrata e dá um choque de modernidade ao capitalismo
brasileiro, tornou-se hoje uma caricatura grosseira (e medonho), de um agrupamento de oligarcas, com um fino verniz
de sofisticação, dotado de um apetite despudorado por cargos, recursos e zonas
de influência na política governamental brasileira.
0 álter- ego desse partido é
hoje o Banco Itaú que, aliás, financiou a compra da reeleição de FHC,
segunda a amante do ex-presidente tucano. E que tem sido amplamente
beneficiado pelo governo. Que o diga o
negócio do Nióbio, em Minas Gerais, quando o playboy era governador e seu primo
(hoje preso,) presidente da Cemig. Criado para ser um partido de centro-esquerda no espectro
político do país, o PSDB tornou-se o partido do mercado financeiro,auferindo
seus parlamentares muitos benefício dessa espécie de “advocacia administrativa”
da banca no Congresso nacional.
Quando se apresentou a possibilidade do “impeachment” de
Fernando Collor de Melo (de quem os tucanos herdaram a agenda política) , foram
eles os últimos a abandonarem o barco, juntamente com o ex-senador Marco
Maciel, que se autonomeou-se “funcionário da governabilidade”, naquele momento.
Na verdade, FHC estava prestes a ser nomeado por Collor Ministro das Relações
Exteriores. Quando se deram conta que era inevitável o afastamento de Fernando
Collor de Melo, saíram “a francesa”, bem devagarinho, do governo colorido.
Não é à toa a dança de rato que os tucanos estão fazendo
agora, com o sai-não-sai do governo temeroso.
Toda hora surge a data do desembarque, e a saída é adiada mais para
frente. Nesse momento, fala-se da espera pela denúncia contra Michel Temer na
iminência de ser formulada pelo STF/PGR, com base nos áudios da JBS. Estão
atrás de uma desculpa para ensaiar o desquite, enquanto vão ficando no governo,
mantendo os ministérios e seus foros privilegiados até o fim.
Não se iludam: essa turma não vai“largar o osso” assim tão
fácil. Até porque seus ministros estão na Lava-Jato e dificilmente terão alguma
chance de vitória nas próximas eleições. Os tucanos acham que podem mergulhar
na lama, com imunidades políticas. Sujar as mãos com luva de pelica. Estão
enganados. O seu tempo político está se esgotando rapidamente nessa curse
política, que perdura e se aprofunda.
Nem uma escaramuça será capaz de livrá-los da dubiedade, conivência com
este governo que está aí.
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE
O presidente do Supremo tribunal Eleitoral, Gilmar Mendes, pronunciou o seu voto de minerva para desempatar a votação da cassação da chapa Dilma-Temer, em favor do atual ocupante do Palácio do Planalto. Segundo ele, a sua decisão era para não aumentar ou aprofundar a crise política que o país vive, com as inúmeras denúncias contra Temer e as investigação abertas pela PGR e o STF contra ele, em razão das provas colhidas na delação premiada do grupo JBS. Conforme a palavra do ministro não cabe aos tribunais superiores resolver as crises políticas do país. Portanto, mesmo diante das “provas vivas” a favor da cassação da chapa, Mendes resolveu absolver Michel Temer. A esse gesto, a imprensa governista atribuiu o adjetivo de “histórico”, entendendo que o tribunal não deveria se envolver na crise política e garantir um mínimo de governabilidade ao atual dirigente do país.
Esta decisão pode ser chamada de tudo, menos de histórica. Ela confirma o padrão da atuação dos tribunais superiores de votarem a favor da situação dominante, nunca contra. Aquilo que parece independência ou neutralidade é partidarismo político puro. Na verdade Mendes já vinha declarando que votaria a favor de Michel Temer, antes da data do julgamento. Não foi, portanto, surpresa alguma que desse seu voto de minerva pela absolvição. Com isso, se confirma o que os juristas chamam da “alopoiesis” do sistema judicial brasileiro: a ingerência política sobre o Poder Judiciário. O que a decisão de Gilmar Mendes evidencia e confirma é essa ingerência. De resto já consabida pelos encontros do ministro com os conspiradores, em festas, eventos, conferências, almoços e convescotes. O presidente do TSE fez o que dele já se esperava, com a ajuda naturalmente do ministros nomeados pelo próprio Temer e com a influência do atual ministro da Justiça, ex-presidente do TSE.
Longe de ter contribuído para afastar a crise política, a decisão do TSE só fez aumentá-la. Ao se omitir diante das clamorosas denúncias apresentadas publicamente contra Temer, o TSE ajuda a piorar o “cabo de guerra” entre o atual grupo no poder e a sociedade civil brasileira. Antes de acabar o conflito, a decisão só contribui para exacerbar a crise e desacreditar os tribunais e seus ministros. Entramos numa perigosa zona de turbulência onde as supostas “razões de estado” se sobrepõem a lei, ao direito e a Constituição. E permite uma sobrevida ao grupo para que conspirem no Congresso e fora dele, para salvar esse “mandato tampão”. No fundo, o que querem é tempo para levarem adiante a tarefa impopular e antinacional de desconstrução de direitos do cidadão brasileiro. Afinal, foram postos no governo com esse mandato imperativo. E tem que realiza-lo, custe o que custar.
O próximo passo parece ser a articulação no Congresso para barrar a investigação e uma eventual denúncia do STF e da PGR contra Michel Temer. Vai ser um “vale-tudo”, com ofertas extraordinárias e promessas mirabolantes para comprar votos a favor do indigitado dirigente. É de se saber se a oposição – que parece não está unida neste momento – as centrais sindicais, os movimentos sociais e o povo brasileiro vão assistir calados a esse deprimente espetáculo de garantir fôlego a um governo sem legitimidade, sem apoio popular, gerente de interesses econômicos e multinacionais, para que ele acabe o trabalho de destruição dos direitos e garantias criados pela Constituição de 1988.
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE.
QUANDO FOI PERGUNTADO sobre sua experiência na área da segurança pública, o novo ministro da Justiça de Temer disse que ela se limitava ao fato de ter sido assaltado. Para dar aquela incrementada no currículo, afirmou também ser sobrinho de duas senhoras que já foram vítimas da violência urbana. Essa declaração dada sem nenhum constrangimento mostra que Torquato Jardim vive numa realidade paralela e, portanto, está em sintonia com o quadro atual da democracia brasileira.
Com essas credenciais, Torquato passa a ocupar a vaga deixada por Serraglio que, não sabemos se já foi assaltado, mas é integrante de um grupo políticocom vasta experiência em assaltar os cofres públicos. Diferente de Torquato, Serraglio não teve carreira de destaque na área jurídica – muito menos na política – e a única coisa que o credenciava ao cargo era o fato de ser homem forte de Cunha que, segundo Renan Calheiros, “manda no governo Temer de dentro da prisão”. Temer resolveu tirar Serraglio do cargo justamente na semana em que foram publicadas conversas de Aécio criticando a fraqueza do ex-ministro, a quem chamou de “um bosta do caralho” por não conseguir domar a Lava Jato. Para evitar que Serraglio voltasse para a Câmara e fizesse com que seu suplente Rocha Loures (PMDB-PR), o Homem da Mala, perdesse o foro privilegiado, Temer tentou empurrá-lo para o Ministério da Transparência. Mas, por algum motivo ainda desconhecido, a manobra não foi bem sucedida. Serraglio negou o convite e reassumiu seu mandato na Câmara. Agora, Loures – o homem que Temer considera ser “da sua mais estrita confiança”– foi preso e pode virar o mais novo delator da praça. E tudo o que Temer não precisava agora é de outro amigo “falastrão”.
Como se nada estivesse acontecendo, o presidente ilegítimo foi a São Paulo para se reunir com empresários, grandes investidores nacionais e estrangeiros. Diferentemente das reuniões clandestinas que costuma ter com empresários na calada da noite, o jantar aconteceu às claras no Hotel Hyatt. Temer sequer lembrou da crise política e, segundo o Valor, ninguém ali estava interessado nela mesmo:
“Convidados ouvidos pelo Valor disseram que, para a maioria, saber das perspectivas de continuidade das reformas foi mais importante do que eventuais informações sobre as denúncias que envolvem Temer”
Não importa que as pesquisas indiquem que a grande maioria da população seja contra as reformas e deseje a convocação de eleições diretas. Temer tomou o poder com apoio maciço da FIESP e do mercado e é para eles que irá prestar contas. Um presidente de uma empresa estrangeira chegou a bater o martelo: “Se o governo conseguir aprovar a reforma trabalhista, ninguém mais tira ele da Presidência. Porque tudo o que se quer é que as reformas sejam aprovadas”.
Quem também estava despreocupado com o lamaçal na qual Temer está mergulhado era o nosso ilustríssimo prefeito João Doria Jr. Ele, que se mostrou revoltado com a corrupção logo após a divulgação dos áudios da delação da JBS que complicam Temer, não parecia nem um pouco preocupado e fez o que faz de melhor: intermediar a relação entre governo e empresários.
“Temer mostrou-se interessado em ouvir os empresários após seu discurso de cerca de 15 minutos. O prefeito de São Paulo, João Doria, decidiu, então, assumir, o papel de “mestre de cerimônias” e provocar os empresários a falar. ‘Puxa a fila e fala sobre isso’, disse Doria a um executivo que tentava elogiar o trabalho da equipe econômica.”
Enquanto trata moradores em situação de rua como lixo a ser varrido e multiplica as cracolândias pela capital paulista, o homem que diz representar o novo na política busca estreitar os laços entre o empresariado/mercado e o governo das velhas raposas da politicagem. Apostando na desgraça da classe política, Doria vai se apresentar nas eleições de 2018 como um cidadão revoltado com a corrupção, apesar de continuar sendo um bajulador de empresários e de políticos corruptos.
No último dia 17, Doria foi a Nova York receber da Câmara do Comércio Brasil-EUA o prêmio de Personalidade do Ano. O Homem da Mala atravessou o oceano para prestigiar a pataquada do seu aliado político, enquanto pipocavam as denúncias contra ele no Brasil. Loures é amigo de Doria e sempre foi habitué dos eventos promovidos pela empresa de lobby do prefeito.
O Homem da Mala abraça João Doria Jr em evento da Lide. (Foto: Reprodução/Facebook Rodrigo Rocha Loures)
Também vivendo uma vida louca numa realidade paralela, Michel Temer apareceu no Twitter, como se nada estivesse acontecendo, para fazer um anúncio histórico à nação:
Com o crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre em relação ao último do ano passado, Temer quer passar a ideia de que finalmente colocou a economia nos trilhos. O crescimento foi mascarado pela agropecuária, que teve um crescimento de 13% graças à safra recorde de grãos. Diferentemente do ano passado, em 2017 o clima ajudou e a produção de milho e soja teve amaior alta dos últimos 20 anos– o que não irá se repetir nos próximos trimestres.
O presidente comemora o “fim da recessão” fingindo não saber que oconsumo das famílias continua caindo e o desemprego aumentando. Ou seja, o país está perdendo de 7 a 1 e ele está gritando “É TETRAAAA!”Aécio é outro que segue convicto numa realidade paralela. Enquanto diversos áudios de suas conversas nada republicanas são divulgados, o mineiro aparece nas redes trabalhando normalmente.
Nem parece que seus parentes foram presos e ele só não está na cadeia porque ainda desfruta de foro privilegiado.
Mas Aécio tem ido além. Em uma das conversas interceptadas, o senador usou as expressões “motoqueiros malucos” e “passeio de moto”. A conversa é claramente cifrada e nem o tucano mais fanático acreditaria que o assunto principal é moto. Para a PGR e a PF, os “motoqueiros malucos” são os delatores, enquanto “passeio de moto” significa delação. Mas o mineirinho tem apostado firme na realidade paralela e enviou para STF quatro fotos que provariam que aquela foi apenas uma conversa entre amigos motociclistas.
Então ficamos assim: todo brasileiro tem currículo para ser ministro da Justiça. Doria não tem nada a ver com a velha política. O Brasil saiu da recessão. E Aécio não rouba, só faz motocross.
(Publicado originalmente no site do Intercept Brasil)
Falar da felicidade se torna um desafio quando muita gente tenta transformá-la em uma bobagem, uma caretice, um assunto do passado
Faz tempo que ando pensando na felicidade como categoria ética. Longe da felicidade publicitária, da felicidade das mercadorias, me parece necessário manter esse conceito em cena devolvendo-lhe ao campo da análise crítica contra a ordem da ingenuidade onde ele foi lançado. Justamente porque o tema da felicidade foi capturado na ordem das produções discursivas, falar da felicidade se torna um desafio quando muita gente tenta transformá-la em uma bobagem, uma caretice, um assunto do passado.
A felicidade é assunto do campo da ética. Em Aristóteles ela representa o máximo da virtude. Feliz acima de tudo é quem pratica a filosofia, mas na vida em geral, aquele que vive uma vida justa já pode ser feliz. Uma vida justa é uma vida boa, vivida com dignidade. Aquele que alcança um meio termo entre extremos e faltas sempre falsos, sempre destrutivos, sempre irreais, é alguém que pode se dizer feliz. A felicidade não é inalcançável, ela é busca bem prática que conduz a vida.
Hoje, depois de uma aula sobre o tema, uma aula crítica e analítica, daquelas que revoltam os ressentidos e fortalecem os corajosos, uma pessoa que se anunciou tendo mais de 80 anos, me abraçou e me disse, “sua aula me deixou feliz”. Eu também fiquei feliz.
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Fico pensando no que o termo felicidade pode ainda nos dizer, quando, por meio de uma deturpação conceitual, localizamos a felicidade nas mercadorias, quando a confundimos com fantasias e propagandas.
A felicidade sempre foi uma ideia e uma prática complexas. Sua complexidade remete a uma instabilidade inevitável. Em nossos dias, as pessoas falam muito da felicidade porque a desejam. E se a desejam é porque, de algum modo, podemos dizer que sonham com ela. Mas não podem pegá-la, comprá-la, obtê-la simplesmente e justamente porque ela não é uma coisa. Por isso, a ideia de felicidade não combina com a ideia de mercadoria. Como ideia, a felicidade é aberta e produz aberturas. Ela não cabe nas coisas, nem nas mais ricas, nem nas mais bonitas. Porque quando a felicidade está, ela é como a morte, as coisas, assim como a vida, já não estão.
Há, no entanto, coisas que nos lembram ou nos iludem da ideia de felicidade, mas sempre o fazem como um ideal ou um simulacro. Ninguém pode ser feliz plenamente, mas sempre pode buscar ser feliz em uma medida muito abstrata que, no entanto, nos conecta à outras utopias. Não é sem sabedoria que, em vez de pensarmos em uma única felicidade, começamos há muito tempo a pensar em felicidades no plural. Se não se pode ser feliz no todo, que se seja em lugares, em setores da vida. Que se realize a felicidade relativa, contra uma felicidade absoluta. Abaixo os absolutos, diz todo pensamento razoável.
Felicidades mil é o que desejamos àqueles que amamos. É um voto, apenas, um voto de fé que em tudo se confunde com a postura ética de quem deseja o bem ao outro. Felicidade, lembremos os filósofos antigos, era o sumo bem, o bem maior, o Bem com letra maiúscula. Uma coisa para inspirar, para fazer suportar as dores e sofrimentos da vida comum.
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A felicidade também se tornou complicada porque ela se apresenta como algo cada vez mais distante de nós. Inventamos uma felicidade idealizada demais. Não conseguimos saber muito bem porque ela some do nosso alcance, e esse distanciamento nos parece cada vez mais assustador. Ao mesmo tempo, ele torna a felicidade sempre mais misteriosa. Nesse contexto, a felicidade parece ser apenas uma questão de sorte, uma dádiva (não que isso deva ser jogado fora) e não uma construção social que depende de muitos jogos de linguagem, de saber e de poder.
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A felicidade sempre ficou no meio do caminho entre o desejo que temos dela e a impossibilidade de realizá-la na prática. A idealização da felicidade – culpa da própria má elaboração da ideia – levou a neuroses: viver coisas prazerosas, que trazem alguma felicidade, como se fossem desprazeres que geram infelicidades. Verdade que não podemos separar as felicidades dos prazeres e simplificar de tal forma que felicidade e prazer se tornem sinônimos. O prazer é tão complexo com a felicidade e não merece ser reduzido a ela, ainda que sempre possamos buscar analogias entre eles.
Na prática, na vida cotidiana, os menos neuróticos, digamos assim – aqueles que conseguem perceber a diferença entre felicidade idealizada e prazer material – tentam apegar-se aos chamados pequenos prazeres sempre ligados ao bem-estar doméstico, à modesta vida cotidiana. Vivemos uma época em que as utopias estão mesmo abaladas, talvez tenhamos de fato perdido o nexo com os idealismos, mas as idealizações e as fantasias estão, paradoxalmente em alta. É como se a nossa incapacidade de sonhar nos tivesse lançado em estados delirantes. A fantasia do cotidiano feliz por meio de casas bem decoradas, dos corpos esteticamente tratados, das roupas esteticamente corretas, que são também politicamente corretas tem se tornado uma espécie de verdade que atinge o cotidiano real e o virtual. Uma selfie felizinha tornou-se uma imagem da vida…
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Vivemos uma felicidade fantasiosa em tempos de desespero. Parece a única que restou. No entanto, o desespero é o contrário da felicidade que exige a nossa extrema capacidade de esperar por ela e de construir seu caminho (em termos cognitivos, a felicidade do conhecimento é o método). Se esperamos sentados não encontramos a felicidade, porque ela não nos busca. É por demais cultural para para sobreviver sozinha na natureza. Para encontrá-la é preciso projetá-la na imaginação, mas a imaginação sofre de colonização na era da publicidade e precisa ser liberada de amarras discursivas e teóricas. Portanto, o desafio é poder imaginar para além do do que está estabelecido.
De fato, a felicidade implica capacidade de sonhar com uma vida melhor – a ideia de prosperidade, não pode ser descartada do desejo do ser humano que vive e trabalha – e de agir em nome dessa potencialidade. Quando perdemos a capacidade de sonhar – de imaginar o melhor – podemos, com facilidade, passar a delirar. Mas o que é um delírio? É uma narrativa explicativa do mundo que nasce da deturpação do sonho. Há no delírio algo de ficção: poderia ser uma obra de arte, mas é apenas uma doença.
A hipótese que podemos levantar tendo isso em vista é que estamos nos realizando em delírios que caracterizam uma época infeliz, justamente pela impossibilidade de lutar pelo sonho e pela utopia.
Enquanto esquecemos a felicidade filosófica, ou a deixamos pra depois em nome da felicidade falsa das mercadorias transmitidas publicitariamente, nos relacionamos com muitas infelicidades que vem se ajustar no sistema delirante explicativo do mundo.
A infelicidade do nosso tempo é feita de todo tipo de desespero: preconceitos baseados em afetos tais como ódio, medo e inveja tomam conta. Nexos entre o autoritarismo e o fascismo de nossos dias se tornam visíveis nas fobias que proliferam e deixam em pânico os mais sensíveis.
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Preconceitos fazem parte de uma vida infeliz. É verdade que eles fazem parte da vida na qual há preconceitos de todo tipo, sempre desproporcionais em relação às diferenças, à singularidade. Uma vida que se autoquestiona eticamente, é aquela que tenta entender e superar preconceitos. Em geral, nessa superação, encontramos com a novidade da singularidade. É ela, essa condição diferente e única própria de cada pessoa, que devemos respeitar universalmente.
Em um aspecto profundo é o autoquestionamento ético que, ao nos ajudar a superar preconceitos, nos leva à felicidade.
Gostaria de propor, portanto, que pensássemos se não é a falta de questionamento sobre o que fazemos e sentimos, e sobre o que pensamos, sobre o que acreditamos, que nos leva à infelicidade. A infelicidade não seria, nesse sentido, um estado de irreflexão?
Ora, a felicidade é um estado da alma consquistado em diálogo com o mundo ao nosso redor. Diálogo é o que há de mais complexo, porque implica a presença da diferença. A presença das singularidades que respeitam e promovem singularidades. Ora, não há diálogo com o mesmo. Diálogo é um termo que implica sempre o outro. Diálogo, portanto, não é apenas uma prática isolada da linguagem. É uma postura ética que necessita do convívio, do ato de viver junto.
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Toda época tem os seus delírios e as suas infelicidades, e eu me atrevo a sugerir que pensemos sobre os principais delírios de nossa época: o delírio sexual do qual fazem parte a misoginia (da qual a transfobia é parte) e a homofobia, o delírio racial que encontra sua expressão no racismo, o delírio de classe que encontra sua expressão no dogma capitalista. Mas sobre eles falarei em um próximo post.
Publicado há 50 anos, Cem anos de solidão fez de Macondo expressão simbólica da América Latina
Gabriel García Márquez em retrato de 2010 (Foto: Miguel Tovar/Ap Photo)
Principal obra de Gabriel García Márquez e uma das mais importantes da literatura latino-americana foi lançada no dia 30 de maio de 1967
Gabriel García Márquez tinha 40 anos quando foi publicado, no dia 30 de maio de 1967, Cem anos de solidão. Morava no México há seis anos, com a mulher, Mercedes Bacha García, e o filho. Não fazia muito sucesso como escritor e jornalista. Entregou à Mercedes toda a sua economia de cinco mil dólares para passar os quatorze meses seguintes elaborando a obra. O livro não vinha, o dinheiro não dava. Carro, joias e utensílios foram penhorados.
Quando concluiu a obra, não tinha dinheiro para enviar os originais para seu editor. Enviou apenas metade do romance. Depois da publicação, rapidamente se tornou Gabriel García Márquez, um dos grandes nomes da literatura latino-americana. O romance já vendeu Cem anos mais de 50 milhões de exemplares mundialmente e foi traduzido para 36 línguas.
Atrás dessa figura mítica, no entanto, na intimidade de sua ‘máfia de amigos’, o escritor Eric Nepomuceno guarda a imagem de um homem tímido, “um amigo afetuoso, com um humor caribenho luminoso, um andar de bailarino, um sorriso triste, uma fé inabalável na vida. Uma memória invulnerável, uma alegria de viver, uma inteligência singular”.
O escritor brasileiro, responsável pela tradução de nove títulos de Márquez para o português, também diz que, para compor uma versão brasileira do colombiano, foi muito importante recorrer às lembranças de suas frequentes conversas na mesa redonda da copa da casa de García Márquez. Quando fazia as traduções do espanhol, “o mais difícil era encontrar o tom, a melodia, a sonoridade da sua excelente carpintaria literária. E a saída foi, sempre, lembrar da voz dele”, relembra.
Antropófago de primeira, García Márquez mastigou, através da saga de sucessivas gerações do clã dos Buendía, a história da civilização ocidental em Cem anos de solidão. Recorrendo, para tanto, a textos bíblicos, descobertas do Renascimento, das grandes navegações, das lutas de independência do século 19 e das ditaduras, como relembra o professor de letras da UFSCar Wilson Alves-Bezerra.
Gabo uniu, a todo esse tecido cultural ocidental, uma visão aguda que expunha as veias latinas. Frente à normalidade do mágico, o espanto de uma suposta cultura autóctone que não conhece o gelo, o imã, a dentadura. Seja pelo fascínio fantástico, pelo momento histórico, pela militância política, Cem anos de solidão assentou o povoado ficcional de Macondo no imaginário ocidental.
É o que a professora de história da UFMG, Adriane Vidal, denomina de macondismo. Na suas palavras “interpretar a América Latina por meio da narrativa expressa no romance, o que transformou Macondo em expressão simbólica da América Latina, promovendo paralelos entre a pequena cidade ficcional e a história do subcontinente”.
Gabriel García Márquez com a primeira edição de ‘Cem anos de solidão’, em 1975 (Foto: Isabel Steva Hernandez/Divulgação)
Da América Latina para o mundo
Márquez atingiu essa grandeza pois “Cem anos de solidão foi a culminação de um processo de internacionalização do romance latino-americano”, na opinião de Alves-Bezerra. Na esteira de outros autores latinos que já estavam ganhando projeção mundial na década de 1960, como Carlos Fuentes, Borges, Vargas Llosa, Cortázar, Cem anos de solidão surge como o “o primeiro best seller do nosso continente”, afirma o professor.
Foi um sucesso instantâneo. A primeira tiragem, de dez mil exemplares, esgotou-se em quinze dias. Veio a segunda edição, com a mesma tiragem e o mesmo destino. Márquez, que até então nunca vendera mais de dois mil exemplares de um livro, despontou rápido como um “acontecimento estético e político que contribuiu para mostrar a singularidade e a importância da produção literária latino-americana para o mundo”, de acordo com o professor de história da América Latina da USP Julio Pimentel Pinto.
O cenário político da década de 1960 é, na opinião da professora Adriane Vidal, outro motivo fundamental para sua celebração mundial. “A consagração desse livro se deve, em grande medida, ao papel da rede intelectual latino-americana de esquerda que vinha se formando desde 1960. Além de sua qualidade literária, o sucesso se explica por ter sido publicado em uma época de grande efervescência política e literária na América Latina”, afirma. O boom da literatura, os movimentos revolucionários, os exílios políticos e as denúncias sobre violações de diretos humanos em vários países que viviam sob ditaduras militares são alguns elementos do cenário descrito pela professora.
Eric Nepomuceno diz que “o número de pessoas que compraram esse livro formaria uma população suficiente para integrar um dos vinte países mais habitados do mundo”. Tal é sua importância vital, pois “mais do que entender as nossas comarcas, [Cem anos de solidão] nos ajuda a entender a vida”, complementa o escritor.
Nepomuceno acredita que o colombiano ficava sempre entre a política e o humano: “Não há uma mísera e solitária linha panfletária no que ele escreveu. Não há um cisco de militância política. E, no entanto, sua obra é toda política. Militante, claro. Mas, isso sim: militante da vida”.
Gabriel García Márquez no México, em outubro de 1965, enquanto escrevia ‘Cem anos de solidão’ (Foto: Guillermo Angulo/Harry Ransom Center/Reprodução)
Raça condenada a cem anos de solidão
O titubear entre o fabular e o político já se percebia no discurso de Gabriel García Márquez ao ganhar o Nobel em 1982. “Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este é o cerne da nossa solidão”, disse na ocasião.
Essa sofisticada estrutura literária, permeada por um projeto político, é uma das características da obra, diz o professor Julio Pimentel. “Em Cem anos certamente predomina a busca da redenção histórica e, em mais de um sentido, uma espécie de exorcismo ou superação do passado, a partir da interpretação da teia de dominações a que a América Latina esteve historicamente submetida”, comenta.
Para Alvez-Bezerra, da UFSCar, a obra se apropria de forma ambígua do olhar do outro: “O livro de García Márquez oferece a imagem de uma América selvagem e exótica, na medida de um imaginário estabelecido há séculos, pelos cronistas dos séculos 15 e 16. A América povoada por culturas excêntricas e natureza exuberante”.
Esta seria, na visão do pesquisador, a dubiedade do livro: “A beleza é apropriar-se ironicamente deste olhar do Outro; a miséria é que, apesar da ironia, seu substrato é o reforço do mesmo estereótipo”. Foram esses seus movimentos narrativos na tentativa de delinear um projeto utópico. Um mundo, como Márquez apontou no Nobel, “onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra”.
Meio século de solidão centenária
A grandeza narrativa de Cem anos consiste no encantamento e magnificação que a oralidade atinge, diz Alvez-Bezerra. “Um dos grandes achados de García Márquez é lançar mão do contador de histórias na sua literatura”, afirma. Assim, usa mecanismos típicos da oralidade para remexer a realidade latino-americana, seu patriarcalismo, seus ditadores, sua natureza selvagem e suas culturas ancestrais.
É no entrecruzar de uma história comum à realidade latino-americana e das fábulas que lhe eram transmitidas oralmente que surge Cem anos de solidão. “A história da América Latina foi sistematicamente o eixo central de sua narrativa. Uma história que, em vários momentos, cruza com a sua própria história de vida, como as histórias que sua vó e seu pai lhe cantavam na infância”, como analisa a professora Vidal.
Essa minúcia no olhar, a “capacidade amazônica de armazenar informações de um curioso em tempo integral”, é uma das particularidades do colombiano que marcaram Eric Nepomuceno. Ele relembra, por exemplo, como García Márquez conseguiu escrever um artigo cheio de detalhes do enterro de um amigo, sem, no entanto, presenciá-lo, apenas ouvindo e indagando Nepomuceno, que cobrira o enterro como correspondente estrangeiro.
Após 50 anos de sua publicação, Cem anos de solidão continua sendo uma história que encanta os leitores por sua qualidade literária, sofisticação de estrutura, construção refinada dos personagens, diz Alvez-Bezerra. Além dos temas “mais amplos e universais de que o livro trata”, como o peso do passado, o sonho do futuro.
Márquez, que dizia se basear na realidade para compor seus livros, continua vivo “enquanto permanecer nosso lugar subalterno e o interesse no olhar estrangeiro que nos funda”, afirma o professor. Vivo e cíclico como sua história, em que está registrada, linha a linha, “o que ele achava do mundo e seus absurdos”, na opinião de Nepomuceno.