ERA LULA/DILMA: CRESCIMENTO MODESTO,
MAS COM POLÍTICA DE TRANSFERÊNCIA DE
RENDA.
José Luiz Gomes escreve
As
políticas públicas de combate à pobreza sempre foi um tema recorrente nos estudos
do economista Marcelo Neri, atual presidente do IPEA e Ministro da Secretaria
Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Como sua
preocupação sempre foi mais metodológica – como ele mesmo afirma – pode-se
atribuir a ele uma “inversão” na análise do tema da pobreza no Brasil, algo que
lhes conferiu algumas dores de cabeça na academia e o prêmio da ANPOCS daquele
ano como a melhor tese de doutoramento, dissipando todas as dúvidas existentes
sobre a sua capacidade. Na realidade, como se trata de indicadores bastante
confluentes, educação, políticas afirmativas, transferência de renda, nova
classe média, desigualdades regionais acabaram-se tornando, igualmente, objeto
de suas análises.
É
necessário definir, com bastante clareza, os indicadores que nos permitem informar
se uma política pública está ou não sendo eficiente, eficaz, inclusive
identificando quais os segmentos sociais que delas estão se beneficiando
prioritariamente, embora não possamos perder de vista que tais políticas devem
atender satisfatoriamente às expectativas de toda a sociedade. Recentemente,
outro economista, Márcio Pochmann, que também já dirigiu o IPEA e é muito
ligado ao PT – ou precisamente a Lula – em poucas palavras, depois de advogar
os acertos das políticas de transferência de renda da Era Lula/Dilma – acabou
concluindo, curto e grosso, que, no Brasil, está se aplicando uma inversão da
lógica robinhoodeana, ou seja, os tributos cobrados dos mais pobres estão
financiando os juros dos mais ricos.
Sobre
as políticas públicas da Era Lula/Dilma é importante afirmar – algo já
identificado pelos últimos dados do IDH - onde foram identificados avanços
significativos – que, apesar de o nosso crescimento está abaixo de outros
países do clube do BRICS, ele é mais substantivo, uma vez que ataca os
problemas da desigualdade e da extrema pobreza. É um crescimento lento, mas
socialmente justo. O caso da educação, por exemplo, isoladamente o indicador
que mais contribuiu para “frear” nosso IDH – é emblemático. Apesar de ocuparmos
uma posição ainda vergonhosa entre os 67 países do Programme for International
Studant Assessment (Pisa), 54º lugar, há indícios a serem comemoradas. Em 1990,
16% da gurizada da educação básica estava fora da escola e hoje esse número é
de apenas 2%.
Trouxemos
esses elementos para comentar sobre a agenda proposta pelos movimentos de rua
do último mês de junho. Além da necessidade de um enfrentamento radical do
problema da corrupção, a agenda das ruas propõe uma aplicação dos recursos em
áreas estratégicas como educação, saúde, mobilidade urbana etc. Como, depois do
impacto inicial, os governantes de plantão fizeram ouvidos de mouco, o
descalabro continua tanto no que concerne à endêmica corrupção, como em relação
à aplicação dos recursos públicos. Até recentemente, o Governo Federal
queixou-se sobre a inexistência de uma determinada cifra para investir em saúde
e, logo em seguida, alguém postou nas redes sociais que tal cifra correspondia,
exatamente, às despesas com publicidade.
Há
governos sustentados unicamente em torno dessa pirotecnia midiática, pagando
rios de dinheiro em publicidade, que nos colocam, ilusoriamente, no melhor dos
mundos e sua popularidade nas alturas. Quando surgem os dados sobre os
indicadores sociais, a realidade se apresenta bem diferente do que aquela
concebida nos escritórios das agências de publicidade pagas com os proventos da
Viúva. Um exemplo típico é um dos Estados do Nordeste – famoso por sua política
de segurança pública – onde, metodologicamente, joga-se todas as cartas na
diminuição do número de homicídios por causas violentas e, deliberadamente,
exclui-se das estatísticas outras modalidades de crimes em ascendência em todo
o Brasil, como o latrocínio.
Outro
equívoco, este ainda mais grave, é o uso indevido do aparato de segurança
pública para reprimir movimentos sociais legítimos, um passo para a retomada de
ações dignas do período de exceção, como já vem ocorrendo no Rio de Janeiro,
inclusive com chacinas e “desaparecimentos”
de cidadãos abordados pela força policial, como foi o caso de Amarildo, que
maculou profundamente a imagem do governador Sérgio Cabral. Acreditamos que ele
não mais irá se recuperar desse tombo. São situações que evidenciam o acerto
das observações do sloveno Slavoj Zizek sobre a tendência cada vez mais
autoritária do exercício do poder político.
Observa-se
um uso abusivo do termo “competência”. O que seria, afinal, um gestor público
competente? Sempre que invoco esse termo são inevitáveis as lembranças dos
trabalhos do sociólogo suiço Philippe Perrenoud, indicando, cabalisticamente,
as competências necessárias que precisam ser desenvolvidas pelos mestres e educandos.
Houve uma época em que os professores, a exemplo, dos evangélicos mais
radicais, andavam com esses livros à semelhança de uma bíblia sagrada. Ali
estavam as competências que os alunos precisavam desenvolver. Nem mais, nem
menos. Alguém tomou o cuidado de realizar um estudo sobre a epistemologia do
termo “competência” e logo verificou que todas aquelas “competências” advogadas
por Perrenoud estavam a serviço do processo acumulativo do capital. Nenhuma
delas voltadas para as subjetividades dos alunos ou ao mundo dos trabalhadores.
Portanto,
quando algum governante falar de meritocracia ou competência, orientado por um vocabulário
tecnicista-instrumental, desconfie. Essas palavrinhas, muito bem-utilizadas
pelos marqueteiros, podem fazer um estrago danado ao encobrir intenções
inconfessáveis ou vieses igualmente danosos aos interesses de natureza
republicana. Elegeu-se o atual prefeito
do Recife em torno dessa mesma tese, e a gestão da prefeitura municipal
continua “engessada”. Para completar, agora envolta em possíveis
irregularidades, como o acúmulo, pelo prefeito, de dois salários: o de técnico
do Tribunal de Contas do Estado e o de prefeito propriamente dito.
Essa
“desatenção” com as questões ambientais
parece estar sendo muito bem assimilada pelos governos neo-socialistas
do PSB. Em Fortaleza, cidade administrada pelo partido, essa lógica vem se
repetindo. A derrubada de árvores do Parque do Cocó – para construção de uma
obra de mobilidade urbana – são exemplos dessa tendência. Este último, em razão
da mobilização da população, enfrenta batalhas judiciais, mas até a
Guarda-Municipal foi utilizada, inconstitucionalmente, para retirar os
manifestantes que ali se encontravam. Outro dia li um alerta de um biólogo
informando que a construção de mais um porto na cidade de Goiana, Mata Norte do
Estado de Pernambuco, representará a possibilidade concreta de ataques de tubarões
no litoral sul do Estado da Paraíba, precisamente nas praias de Pitimbu,
Tambaba e Jacumã, onde nunca houve registro de ataques.
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