quinta-feira, 29 de agosto de 2013

José Luiz Gomes: A razão das hostilidades aos médicos cubanos no Brasil




                                   O Brasil, na realidade, tem muitos intérpretes. Alguns deles, como Gilberto Freyre, Caio Prado e Sérgio Buarque de Holanda, cada um a partir de um paradigma de análise social específico, se tornariam famosos ao se debruçarem sobre a empresa de entender o país. Mas, a constelação de grandes intérpretes da realidade social brasileira é bem mais ampla, permitindo o ingresso, certamente, de um Roberto DaMatta, de um Celso Furtado, de um Darcy Ribeiro, de um Josué de Castro, observando que não há um rigor absoluto nessa listagem, fazendo justiça às possíveis ausências.  Antes de falecer, o professor Manuel Correia de Andrade organizava um seminário na UFPE com o objetivo de debater exatamente a obra desses grandes intérpretes da nacionalidade. Uma iniciativa bastante interessante, mas que se foi com o autor de A Terra e o Homem no Nordeste.
                                   Entre outras razões, a partir das suas escolhas metodológicas, torna-se perfeitamente possível observar de onde esses autores lançaram seus olhares sobre a nossa realidade, se a partir dos sobrados e casas grandes ou a partir das senzalas, mocambos e palafitas. Josué de Castro, por exemplo, arregaçou a camisa e foi conhecer a realidade dos alagados do Recife, dos bairros de Afogados, Pina, do Coque, da Ilha de Deus, experiência que o tornaram um dos maiores conhecedores do problema da fome no mundo.
                                   Outro dia, um leitor, fazendo uma observação sobre um artigo nosso, publicado num site nacional, mencionou que eu estava se referindo ao cansativo tema dos 512 anos de atraso do país. Em certa medida ele tem razão, se considerarmos que, desses 512 anos, aproximadamente 385 anos foram de um regime escravocrata e o restante está relacionado às suas consequências nefastas para a sociedade brasileira, traduzida no racismo, na intolerância, na histórica injustiça social. O Brasil é um país que insiste em manter os seus muros, quando deveria construir pontes que nos aproximassem, enquanto uma nação, e não como um arremedo de convivência entre a sua elite e o seu povo, com escaramuças cotidianas indisfarçáveis.
                                   O resultado é que somos um país sem identidade, sem um projeto de nação, do eterno de vir. Um país do futuro, mas que, na realidade, já encruou. Possuímos um sistema político secularmente hegemonizado por oligarquias ou grupelhos que apenas defendem seus interesses no interior do Estado. Uma democracia representativa capenga, eivadas de vícios solenemente conhecidos de todos os brasileiros. Um país extremamente polarizado, hierarquizado, desigual e, em virtude de tudo isso, necessariamente com um viés susceptível ao autoritarismo. Praticamente não há diálogo entre o andar de cima e o andar de baixo.
                                   Sempre que o andar de baixo vai às ruas, seus atos são tipicamente tratados como de “vandalismo” ou de “baderna”, sem sequer entrar no mérito de suas reivindicações. A elite utiliza com maestria seus “aparelhos” para reprimir a violência disfuncional, ou seja, aquela que atenta contra seus interesses cristalizados. Na chamada grande mídia, nenhuma indignação contra os pretos, putas e pobres eliminados diariamente numa espécie de “cordão sanitário” para proteger a “dinâmica” da nossa organização social. A chamada violência funcional, fundamental para preservar os interesses e privilégios da burguesia.
                                   Isso cria problemas para ambas as partes: temos uma elite insensível, preconceituosa, que só admite o Estado atuando de acordos com os seus interesses. Uma intelectualidade forjada nos estratos de classe média, média alta, cooptável, perfeitamente integrada à burocracia e aos negócios de Estado. Alguns deles até levantando - apenas como discurso - bandeiras de esquerda, mas muito bem acomodados em gabinetes de alguma repartição pública, com ar-condicionado e cafezinhos, articulando suas redes. Afinal, como já observou um digníssimo sociólogo, nossa intelectualidade sente um fetiche irresistível pelo Estado.
                                   Remeto a essas observações para analisar o mérito das recentes vaias e xingamentos dirigidos aos médicos cubanos, na cidade de Fortaleza, orquestradas por uma galera de médicas patricinhas (ou seriam coxinhas) formadas em nossas universidades públicas, mas que prestaram juramento ao capital.