pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO.
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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Le Monde: O aumento da violência no campo tem a cara do golpe

AGRONEGÓCIO

O relatório  “Conflitos no Campo Brasil 2016” da CPT traz índices recordes e ainda mais preocupantes: aumentaram todos os tipos de conflito (maiores números dos últimos 10 anos, o de terra maior em 32 anos de documentação) e todas as formas de violência no campo em relação a 2015. Os assassinatos tiveram um aumento de 22%, menor índice de aumento em 2016, mas o maior número desde 2003. As agressões tiveram o maior índice de aumento: 206%
por: Ruben Siqueira
25 de maio de 2017
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A violência é uma marca da trajetória do Brasil, 517 anos do “descobrimento” neste sábado, 22 de abril. Está nos momentos históricos e no cotidiano do povo, na cidade e no campo. A propalada “cordialidade” do tipo brasileiro tornou-se uma construção ideológica que impede de enfrentá-la. Há, por exemplo, um muito popular noticiário de violência urbana feito por uma imprensa especializada, apelidada “mundo cão”, de jornais (e telejornais) que, como se diz, “se espremer sai sangue”… Já a violência rural, mesmo sendo constante, aparece pouco, até quando excede padrões, em determinados períodos, como o atual. A crise ampla que vivemos, sobretudo política, marcada pelo golpe que foi o impedimento da Presidenta Dilma pelo Congresso, com apoio do Judiciário e da mídia empresarial, combina corrupção generalizada com retrocessos constitucionais e perda de direitos sociais e impacta e agrava a tradicional conflitividade agrária. Confirma-se a tese de que em anos de mudanças políticas, tanto à “esquerda” quanto à direita, recrudescem os conflitos no campo e sua violência característica.
Criada há 42 anos para apoiar os camponeses e camponesas vítimas da violência no campo, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) mantém um Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno, que coleta informações e publica um relatório anual desta violência, com dados estatísticos e análises. O deste ano – “Conflitos no Campo Brasil 2016” –  lançado na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. A data, 17 de abril, lembra o Massacre de Eldorado dos Carajás, em que 21 trabalhadores rurais sem- terra foram mortos pela Polícia Militar do Pará em 1996. O relatório traz índices recordes e ainda mais preocupantes: aumentaram todos os tipos de conflito (maiores números dos últimos 10 anos, o de terra maior em 32 anos de documentação) e todas as formas de violência no campo em relação a 2015. Os assassinatos tiveram um aumento de 22%, menor índice de aumento em 2016, mas o maior número desde 2003. As agressões tiveram o maior índice de aumento: 206%.
Sob as sombras da violência
No texto analítico que escreveu para esta edição, Leonardo Boff aponta as “quatro sombras que pesam sobre nós e que originaram e originam a violência”. São elas o nosso passado colonial elitista e dependente da matriz; o genocídio indígena, que gerou o desrespeito e a discriminação social; a escravidão negra, “a mais nefasta de todas”, que estruturou a desigualdade social das maiores do mundo; e a capitalista Lei de Terras(1850), que excluiu os pobres e, preventivamente, os ex-escravos (Abolição, 1888) do acesso à terra e os entregou “ao arbítrio do grande latifúndio, submetidos a trabalhos sem garantias sociais”.
A terra sempre foi eixo do poder no Brasil, ainda hoje define quem tem e quem não tem o Estado a seu favor (ou contra). No momento atual crítico sem precedentes, ampliam-se e se aprofundam as consequências entrecruzadas destas sombras do passado. É o que significam os sucessivos golpes, culminados no impedimento da Presidenta Dilma e no “saco de maldades” sem fim, aberto pelo interino e ilegítimo Presidente Temer. Na verdade, já vinham de antes, a crise mundial chegando aqui, desfavorecendo as exportações de commodities, os “ajustes estruturais” da economia com impacto negativo nas políticas agrárias e agrícolas. Puseram-se todas as políticas ainda mais a serviço dos processos reciclados de acumulação ampliada do capital globalizado, aos quais associam-se como sempre as oligarquias nacionais corruptas e corruptoras do Estado. Para tanto, impunha-se e se impõe afastar quaisquer resquícios de soberania político-econômica e social e subtrair representatividade popular e direitos constitucionais, no que poderia ser chamado de hiper-neoliberalismo.
No campo isto tem se traduzido em mais violência, privada e pública, contra as povos, comunidades e pessoas e seu modo de viver e se relacionar com os bens da terra. Agora não mais só a terra de lavrar e/ou extrair a sobrevivência e a soberania alimentar, mas também a que contêm e protege água, floresta, minério, vento, biodiversidade, que o mercado absoluto reclama como acumulação primitiva de capital.
Dados alarmantes
Os números de 2016 documentados pela CPT revelam em proporções até certo ponto inéditas nos últimos anos, essa exacerbação da violência rural de sempre. Na Apresentação do relatório, a Diretoria e a Coordenação Executiva Nacional da CPT apontam os seguintes dados principais:
  • 61 assassinatos, mais de 5 por mês (entre as vítimas, 16 jovens de 15 a 29 anos, 01 adolescente e 06 mulheres). No quadro dos últimos 25 anos, número superior a esse só em 2003 [primeiro ano do governo Lula], com o registro de 73 assassinatos;
  • 1079 ocorrências de conflitos por terra (ações em que há algum tipo de violência – expulsão, despejo, assassinatos, tentativas de assassinato, ameaças de morte, prisões etc.). É o número mais elevado nos 32 anos de registros da CPT;
  • 1295 no total do conjunto dos conflitos por terra (soma de ocorrências, ocupações/retomadas, acampamentos) – média de 3,8 conflitos por dia. Número mais elevado desde 2006;
  • 172 conflitos pela água, número mais elevado desde quando a CPT iniciou o registro em separado destes conflitos em 2002;
  • 1536 conflitos no campo (soma de conflitos por terra, pela água e trabalhistas) – média de 4,2 conflitos por dia. Número mais elevado desde 2008.
As áreas de maior conflitividade continuam sendo as de expansão da fronteira, não só do carro-chefe agronegócio, mas também da mineração, dos projetos de energia (hidrelétricas, eólicas etc.) e de outras obras de infraestrutura, como as rodoviárias, ferroviárias, hídricas etc. Estão sobretudo na Amazônia e nos Cerrados. Os números revelam uma guerra não declarada, obscurecida pelo discurso do desenvolvimento, reduzido a crescimento econômico, que se impõe inquestionável como gerador de emprego e renda, bom para todos etc.
O desmatamento e as queimadas na Amazônia voltaram a crescer, e com eles a violência contra os povos da floresta. Lá ocorreram 57% dos conflitos, 54% das famílias envolvidas em conflitos por terra e 79% dos assassinatos (48). Quanto à área em disputa em 2016, a Amazônia Legal (inclui, além dos estados da região Norte, o Mato Grosso e parte do Maranhão) representou 96% do total do país, quase 23 milhões de hectares. Com apenas 12% da população brasileira, imagina-se a intensidade destes conflitos.
Já os Cerrados, com 14,9% da população rural do país, tiveram 24,1% do total das suas localidades envolvidas em conflitos, um índice de 1,67 (24,1 dividido por 14,9), o número destes sendo relativamente maior (67%) do que sua população. São dados do texto analítico dos conflitos na região, que consta no relatório, elaborado pelo Coletivo LEMTO-UFF (Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense). Nos Cerrados, o aumento da violência coincide com o início do Plano de Desenvolvimento Agropecuário do MATOPIBA, região que engloba a parte deste bioma dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, com cerca de 73 milhões de hectares e 6 milhões de habitantes. Trata-se da metade do que resta dos Cerrados em pé, de crucial importância para o ciclo hidrológico e a recarga das principais bacias hidrográficas do continente sul-americano. Boa parte ainda preservada porque sob controle de povos e comunidades tradicionais. O Tocantins, estado todo dentro do MATOPIBA, teve o maior aumento dos conflitos por terra, 313%, de 24 em 2015 para 99 em 2016. O Maranhão, o mais conflagrado do país, 196 ocorrências.
Os ideólogos do agronegócio insistem em exaltar a importância maior da tecnologia e do conhecimento científico e a concomitante perda de importância da terra. Ao contrário, o texto citado do Coletivo LEMTO afirma que “é impossível a produção agrícola sem as condições metabólicas de produção-reprodução da vida – terra, água, fotossíntese-flora-fauna. Enfim, não se planta sem acesso a água, sem acesso ao Sol (à fotossíntese) e essa energia gratuita é ainda maior em países tropicais, o que, sem dúvida, ajuda a explicar a reprodução há mais de 500 anos desse bloco de poder de acumulação em sua subordinação voluntária ao sistema mundo capitalista moderno-colonial. Assim, concentração fundiária (latifúndio) implica não somente a concentração de uma área, mas também maior acesso à energia solar e a água.” E pela tradição que se recicla e se reproduz conforme as nuances históricas desta trajetória brasileira, a questão agrária e sua violência característica também se refaz, modernamente, para infelicidade camponesa e nacional, com seus reflexos nas cidades.
No período recente, têm sido os camponeses posseiros (possuem a terra sem título de propriedade) e os povos e comunidades tradicionais, em quase todas as regiões do país, as principais vítimas da violência rural. A partir de 2009, os dados relativos a eles ultrapassam os relativos aos sem-terra. Reflexo, por um lado, da confluência entre retrocessos na política agrária dos governos de coalizão do PT (redução à quase paralisação da reforma agrária e do reconhecimento das terras indígenas e territórios tradicionais) e o recuo das ocupações de terra e acampamentos de luta pela reforma agrária. Por outro lado, consequência do diversificado avanço recolonizado dos empreendimentos privados e públicos sobre os recursos naturais presentes nos territórios de posse imemorial destes povos e comunidades.
O golpe e os golpes no campo
Ao impedimento golpista da Presidenta Dilma em 31 de agosto de 2016, por um Congresso dos mais conservadores, com o apoio do Judiciário e da mídia, seguiu-se uma avalanche de ataques aos direitos dos pobres e da classe média, a população que trabalha, paga impostos e sustenta o Estado. Sete meses e meio depois, ao confirmarem-se as apressadas alterações legais em curso, inclusive na Constituição de 1988, chamada “Cidadã”, somadas às já sancionadas, estará desmontado o que restava de social no Estado brasileiro e reinará absoluta a plutocracia, em níveis semelhantes ao do período colonial. Fica a certeza de que o golpe foi engendrado justamente para isto, possível só por um governo ilegítimo, corrupto, sem votos e sem programa aprovado nas urnas. Dada a centralidade da terra (leia-se agronegócio e neo-extrativismo) para o poder, o impacto deste desmonte no campo tem sido devastador.
A publicação da CPT traz um estudo liderado pelo professor Marco Mitidiero Jr, da UFPB, que mostra, com base no monitoramento minucioso do comportamento legislativo e executivo (e judiciário, acrescentaríamos) no referente ao campo, a intensificação dos ataques aos direitos dos povos para beneficiar os interesses ruralistas, a partir do golpe de agosto. No centro, a Bancada Ruralista de 207 deputados e dois dos principais ministros – os ruralistas da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o “sojeiro” Blairo Maggi, e da Justiça, Omar Serraglio. Em 2016 foram 11 novos projetos e propostas de legislação e 29 Decretos-Leis, totalizando 40 ações contra os povos e comunidades do campo, das águas e das florestas.
Na Apresentação do relatório consta uma síntese destes principais ataques, como se fosse um “programa de governo” consubstanciado:
  • na série de Medidas Provisórias, Projetos de Lei, Propostas de Emendas Constitucionais e Decretos que afetam diretamente povos e comunidades do campo e na nomeação de pessoas para altos cargos abertamente contrárias aos direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e de outras comunidades camponesas;
  • na extinção de ministérios e autarquias que deviam se preocupar com os direitos humanos; e na diminuição de recursos e de pessoal para órgãos responsáveis por garantir algumas políticas sociais, como Funai, Incra, Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho, e outros;
  • em mandados judiciais que enquadraram os movimentos sociais (de modo mais explícito o MST) como organização criminosa nos termos da lei 12.850/2013, como se viu em Goiás;
  • em procedimentos judiciais, como no seringal Capatará no Acre, em que o mandado de reintegração de posse de 2.000 hectares se estendeu para aproximadamente 7.000; e em outros casos na identificação policial de cada família expulsa ou despejada de áreas ocupadas;
  • na atribuição às vítimas das agressões e violências a responsabilidade pelo conflito. Lideranças indígenas foram indiciadas judicialmente, no conflito em Caarapó, MS, onde um índio foi assassinado e outros cinco saíram feridos;
  • na tentativa de desqualificação das vítimas. “[Os] trabalhadores são, em sua maioria, viciados em álcool e em drogas ilícitas, de modo que […] gastam todo o dinheiro do salário, perdem seus documentos e não voltam para o trabalho, quando não muito praticam crimes”, esta é uma ilustrativa sentença proferida, em 2016, por uma Juíza do Trabalho de Santa Catarina contra a atuação dos fiscais do trabalho que resgataram 156 vítimas em condições análogas a trabalho escravo;
  • na polêmica em torno à divulgação da Lista Suja do Trabalho Escravo em que a preocupação maior é como proteger os responsáveis pela exploração do trabalho em condições análogas ao trabalho escravo, não as pessoas que sofrem a exploração.
Entre outros destacaríamos, dada a gravidade das consequências: o PL 4059/2012, da bancada ruralista com apoio do governo golpista, que trata da venda irrestrita de terras a estrangeiros; o substitutivo do deputado ruralista Mauro Pereira (PMDB/RS) ao PL 3729/04, que cria a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, praticamente retirando o ambiental do licenciamento, à semelhança do que fez o Código Florestal com as florestas; a privatização das águas, bem público essencial; a retirada da ANVISA e do IBAMA do controle sobre os agrotóxicos, dos quais a agricultura brasileira já é a maior consumidora mundial; e os cortes na Previdência Rural, que levará miséria ainda maior ao campo.
Soluções estão nas lutas
Difícil imaginar que as soluções para quadro tão tenebroso possam vir de quem é parte central dos problemas. Dizia Paulo Freire que quem inaugura a violência é quem violenta e que só os oprimidos têm futuro, porque almejam a liberdade, enquanto os opressores só tem a reprodução do seu presente de opressão. São premissas que nos levam a buscar as soluções para este quadro histórico e presentemente exasperado de conflitos agrários, entre os violentados do campo não entre os violentadores.
A despeito dos ideólogos do agronegócio para quem a questão agrária brasileira está resolvida pelas modernas empresas-latifúndios, com base na tecnologia e na média e grande propriedades, estruturalmente apoiadas pelo Estado, os dados apresentados pela CPT atestam a sua irresolução, reiteração e reciclagem em pleno século XXI. Atrás um imenso rastro de sangue.
Impõe-se ressignificada e revalorizada contemporaneamente a reforma agrária como solução, o que a CPT vem dizendo desde 2009 (“Por outra compreensão e ressignificação da reforma agrária”) e a CNBB desde 2013 (“A Igreja e a questão agrária no século XXI”). Ela continua como um instrumento nas mãos do Estado para a democratização sócio-político-econômica da terra e da nação brasileira, mas que se imponha pela força da sociedade, em torno dos movimentos populares de luta pela conquista e defesa da terra e dos territórios. E precisa agregar as dimensões não só distributiva e produtiva, mas também da soberania alimentar, do “cuidado da casa comum” (Papa Francisco) – frentes às crises ambiental, climática, hídrica e energética – e a dimensão étnico-cultural. Algo que depende de um projeto nacional que não temos mais, se já tivemos… É mais que urgente construí-lo, para sairmos da barafunda em que nos metemos/meteram.
Ao final do citado texto de Leonardo Boff no relatório, ele sugere algumas implicações desta reforma agrária:“(…) um programa de fortalecimento da agricultura familiar, orgânica e ecológica e dos assentamentos de reforma agrária; uma política de promoção de uma nova matriz científica e tecnológica; educação para o meio rural [do campo, diríamos]; uma política pública de crédito rural; associativismo e cooperativismo; rede de proteção social; soberania e segurança alimentar e especialmente desenvolver o bio-regionalismo aproveitando os bens e serviços de cada região, a fim de se garantir a sustentabilidade das populações aí residentes; por fim, a cultura e o lazer que conferem plenitude à vida”.
Com isto tem a ganhar todo o povo brasileiro, não apenas uma elite diminuta e predatória, que nunca se locupleta. Resgata-se a dignidade das vítimas e seus familiares, reconhece-se a importância da imensa população rural, bem maior do que dizem as enviesadas estatísticas oficiais, descomprimem-se as inseguras e inviáveis metrópoles, em tudo colaborando para o bem-estar e a paz no país e a sobrevivência da humanidade e do planeta.

* Ruben Siqueira é CPT Bahia e Coordenação Executiva Nacional da CPT, graduado em Filosofia e Pedagogia e Mestre em Ciências Sociais.
(Publicado originalmente no site do jornal Le Monde Diplomatique)

Charge! Duke em O Dia

Editorial: O massacre de Pau D'Árco






Num futuro que esperamos que não esteja tão distante assim, os cientistas sociais poderão constatar, entre as inúmeras consequências desse golpe institucional ora em curso no país, um recrudescimento dos conflitos agrários, com um expressivo crescimento do número de mortes de trabalhadores rurais. Esta última chacina - ocorrida na localidade de Pau D'Árco, sudeste do Estado do Pará - ceifou a vida de 10 camponeses, num possível confronto até agora muito pouco esclarecido, uma vez que as armas apresentadas como sendo dos camponeses se prestavam apenas para matar passarinhos, além de alguns corpos terem sido atingidos por trás, descaracterizando o suposto confronto. Não temos ainda informações mais precisas sobre o assunto, mas, se forem verificados tiros na nuca, a hipótese de confronto fica completamente descartada. 

Uma hipótese que já pode ser confirmada, porém, sem a necessidade de ser submetida à banca, é a de que esses fatos guardam uma relação direta com este momento político nublado que estamos vivendo, com o fortalecimento da bancada escravocrata, do agronegócio e, possivelmente, da bala. O retrocesso institucional que estamos presenciando é algo assustador - como a proibição da divulgação da lista negra do trabalho escravo; a suspensão das demarcações de terras quilombolas; o sucateamento de entidades como a FUNAI; e uma revisão sobre as terras consideradas como de reservas ambientais. O raciocínio dessa gente é simples: índio não produz soja, índio não explora madeiras de lei, não cria gado de corte, não produz energia. Há uma grande cobiça sobre essas terras. No dizer de um desses grileiros com assento no parlamento, é muita terra para pouco índio. Aplica-se aqui a lógica do capital. Isso não se constitui nenhuma surpresa num processo de desmonte do Estado de bem-estar social. 

Assim como ocorre nas favelas e no sistema prisional brasileiro - por falar nisso, fomos informados que um dos nossos textos sobre o sistema prisional foi utilizado com grande sucesso numa aula de um curso de direito, na última quarta-feira - os assassinatos no campo se constituem numa espécie de crônica de uma morte anunciada, de acordo com a Pastoral da Terra, ligada à Igreja Católica. Trata-se de um problema estrutural, de um país que não conseguiu fazer sua reforma agrária. Convém aqui fazer o registro de que, nem nos governos de orientação mais progressista, conseguimos avançar significativamente neste quesito. Eis aqui uma das reformas capitais para o país, mas interditada pela força e pela insensibilidade de nossa elite escravista. 

Como disse antes, esse freio de arrumação na hode golpista precisa ser muito bem canalizado pelas forças progressistas, no sentido de retomarmos o rumo da redemocratização do país. Em desespero para manter-se no poder, Michel Temer acena até mesmo para possíveis aliados que podem se tornar ainda mais perigosos para a saúde da nossa democracia, já frágil, do que propriamente seus assessores e apoiadores de outrora, que continuam minguando. Convém construir essas pontes com bastante equilíbrio, inclusive convencendo-o sobre a necessidade de uma renúncia imediata, o que encurtaria o sofrimento de todos os brasileiros. Embora ele tenha se mantido irredutível até o momento, não é possível que não se der conta que a sua permanência no poder vai se tornando algo inadministrável. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Publisher: All the president's men


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A thorough investigative journalism work by two young Washington Post reporters culminated in the resignation of US President Richard Nixon. Later, the episode would win the screens with the film "All the Men of the President". I will not go into the details of the Watergate scandal here, because they are too well known, and have reported to them more than once on the blog. But today, observing the stampede of the men of confidence of President Michel Temer (PMDB) of the Planalto Palace, I had to remember this movie. Of his special advisers, only one remains in office. 04 of them have already asked for exemption, alleging the most different reasons, but some also entangled in denunciations of behavior incompatible with what is expected of a public man.

We even try to soften in writing, but, here for us, what special advice, in? On the floor of the political carriage, one knows very well what was the specialty of these people. Jose Yunes, Rodrigo Rocha Loures - the man in the suitcase - Tadeu Fellippeli, arrested on charges of having benefited from misappropriated funds in the renovation of the Mané Garrinha stadium in Brasília; And, finally, Sandro Mabel. There is a kind of curse on the third floor of the Alvorada Palace, but the curse is widespread there. Fellippeli's arrest further complicates the already agonizing Michel Temer government. The government is over and even the pretenses of normality today can not disguise the agenda that begins to be built with sectors of the opposition in order to build a political bridge possible until the 2018 elections. The radical reform of Social Security, for example, to relieve All Brazilian workers, have no chance of moving forward. At least not as was thought by the Temer Government.

This political opportunity to build a democratic bridge until the 2018 elections can not be lost. I quite liked the attitude of the opposition yesterday, asphyxiating the pattern of improbable normality that was tried to pass in the legislative houses. The political system needs, rather, a solution to the crisis that has arisen in the Executive, after the recordings that took President Michel Temer in a situation that is not in keeping with his position. It is correct the reasoning of the president of the OAB, in affirming that it matters little the quality of the recordings realized by the entrepreneur Joesley Batista. What is at stake is the un Republican relationship maintained by Mr. Michel Temer with this citizen. Speaking of OAB, there is great expectation about what will be the behavior of Mr. Rodrigo Maia, when confronted with the request for impeachment prompted by the order. There are already twelve, but the OAB comes with a symbolic and political capital that can not be despised.

There are those who report that the President of the Chamber of Deputies, Rodrigo Maia, son-in-law of the Angora cat, sees in this political crisis a rare opportunity to hold the helm until the 2018 presidential elections. Play now for the audience, play now in order to do Pass by a faithful squire of President Michel Temer. No name that was directly or indirectly involved with the coup plotters that drove President Dilma Rousseff to be trusted at this time. Perhaps the best solution is even a direct election - albeit unlikely if we analyze the correlation of forces at stake - by setting the streets as the major deliberative instance of solving this impasse. What is the supposed modesty about constitutional rules when it is known that she was violently attacked by the agents of that government on duty? Calling for new direct elections would ultimately be a way of pulling out the apparatus that keeps our political system breathing precariously - not to let it die, but instead - to return it to the recovery room.

Publisher: Great hit, Raul Jungmann?


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President Michel Temer (PMDB) has just repealed the decree authorizing the presence of the Armed Forces in the federal capital, under the guise of the Guarantee of Law and Order, which was originally scheduled to expire on 31 May. The political scene has been aggravated by the presence of military forces in Brasilia, which is under a political impasse that has not yet been resolved, after the compromising audiences between the president and the owner of the J & F group, Joesley Batista, have leaked. As our political system is generally quite fragile, it could not escape this rule when it comes to dampening the bumps or seismic quakes frequent in the plain. And you see that these bumps are absurdly frequent, if we look carefully at our Incipient democratic experience.

Starting with the inability of our elites to accept the rules of the democratic game, marked by many uncertainties as to its results. Not even in the more progressive governments were their privileges attained, but even so, the simple recognition of the exercise of citizenship downstairs would suffice for their more recent "unrest", culminating in these rearrangements of conservative forces, Who appropriated a legitimate mandate, won at the polls, with 54 million votes of Brazilian voters. If, at that moment, the economic problems bothered, today they add to them political instability and a bad crisis of governability. Among the commitments of this "new" arrangement that assumed power, a radical neoliberal agenda, frankly favorable to the dictatorship of capital, undermines the constitutional rights and guarantees of the citizen, culminating in a complete destruction of the welfare state.

Remaining of the deep sleep that produced the monster of democratic retrogression, at some point the population would react to these maneuvers, for the absolute absence of any other institutional alternatives, since the parliament and the judiciary are also compromised by the wheels that grind our representative democracy. We are not here defending breaches or damages to the public patrimony, but noting the fact that, with popular mobilizations alone, this picture can be reversed. It is necessary that the population demonstrate their dissatisfaction and disapproval to the measures and reforms that are being discussed in the parliament. These mobilizations fulfill the role of "sensitizing" part of this political system, especially those strata that depend on the popular vote to maintain their positions. Care must be taken, however, not to accommodate the opponents of democracy, who can see in the excesses good reasons for a hardening of the regime.

Every time I read or listen to a statement by Defense Minister Raul Jungmann, I feel something dubious in the air, which should keep people of democratic convictions in mind. At first, what is known - at the level of the official justifications - is that President Michel Temer would have called for the presence of the Armed Forces from the finding that there were not enough regular police to contain the possible disturbances caused by black Bloc infiltrated among the popular protesters. After stating that it was a great success to call the military, Mr. Raul Jungmann, in an interview with a radio station here in Recife, tried to justify the call of the military, under arguments not very convincing. I am going to report to you, Mr. Raul Jungmann, a comic strip from the dark days of 1964, which ought to stand by those Brazilians who, in fact, have some commitment to democracy:

"Although linked to ARENA, Pedro Aleixo was the only civilian who, during a ministerial meeting, manifested himself in a civic and vehement way against the agency of Institutional Act No. 05. Vice de Costa e Silva, because of his impediment, it was natural that Aleixo took over, but the military kept him under house arrest until the post was extinguished, carrying out a coup within the coup. Instigated to pronounce on the subject, Aleixo would leave a celebrated phrase about those days, that were foreshadowed, as fact "I do not trust the guard at the corner." The rest of the story is known to everyone, "he said.

Publisher: O massacre of Pau D'Árco





In a future that we hope will not be so far away, social scientists will be able to see, among the innumerable consequences of this institutional coup in the country, a resurgence of agrarian conflicts, with a significant increase in the number of deaths of rural workers. This last slaughter, which took place in the town of Pau D'Árco in the southeast of the State of Pará, reaped the lives of ten peasants, in a possible confrontation that has not been fully explained, since the arms presented as peasants lent themselves only to kill Birds, and some bodies were struck from behind, disfiguring the supposed confrontation. We do not yet have more precise information on the subject, but if gunshots are found on the back of the head, the confrontation scenario is completely ruled out.

One hypothesis that can be confirmed, however, without the need to be submitted to banking, is that these facts are directly related to this cloudy political moment that we are experiencing, with the strengthening of the slaveholding, agribusiness and, possibly, , Of the bullet. The institutional setback we are witnessing is frightening - such as the ban on the blacklisting of slave labor; The suspension of demarcations of quilombola lands; The scrapping of entities such as FUNAI; And a review of land considered as environmental reserves. The reasoning of these people is simple: Indian does not produce soy, Indian does not exploit hardwoods, does not breed cattle, does not produce energy. There is great greed about these lands. In the words of one of these grileiros with seat in the parliament, is much earth for little Indian. The logic of capital applies here. This is no surprise in a process of dismantling the welfare state.

Just as in the favelas and the Brazilian prison system - by the way, we were informed that one of our texts on the prison system was used with great success in a class of law course, last Wednesday - the murders in the countryside were Constitute a kind of chronicle of an announced death, according to the Pastoral of the Earth, linked to the Catholic Church. It is a structural problem, of a country that failed to carry out its agrarian reform. It should be noted here that even in the most progressive governments, we have made significant progress in this respect. Here is one of the capital reforms for the country, but interdicted by the strength and insensitivity of our slave elite.

As I said before, this curfew in the coup plot must be very well channeled by progressive forces, in order to return to the path of redemocratization. In desperation to stay in power, Michel Temer even beckons to possible allies who may become even more dangerous to the health of democracy, already fragile, than its former advisors and supporters, who continue to wane. It is advisable to construct these bridges with enough balance, including convincing him of the need for an immediate resignation, which would shorten the suffering of all Brazilians. Although he has remained irreducible so far, it is not possible that he does not realize that his permanence in power is becoming something unmanageable.

Editorial: Grande acerto, Raul Jungmann?

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O ainda presidente Michel Temer(PMDB) acaba de revogar o decreto que autorizava a presença das Forças Armadas na capital federal, sustentada sob o pretexto da Garantia da Lei e da Ordem, anteriormente previsto para expirar apenas no dia 31 deste mês. O cenário político agravou-se bastante com a presença de forças militares em Brasília, que vive sob um impasse político ainda não equacionado, depois que vazaram os áudios comprometedores entre o presidente e o dono do grupo J&F, Joesley Batista. Como o nosso sistema político é, de um modo geral, bastante frágil, não poderia fugir a essa regra quando se trata de amortecer os solavancos ou abalos sísmicos frequentes na planície.E olha que esses solavancos são absurdamente frequentes, se analisarmos com cuidado a  nossa incipiente experiência democrática. 

A começar pela incapacidade de nossas elites em aceitarem as regras do jogo democrático, marcado por muitas incertezas quanto aos seus resultados. Nem mesmo nos governos de orientação mais progressista seus privilégios foram atingidos, mas, mesmo assim, o simples reconhecimento do exercício de cidadania ao andar de baixo já seria suficiente para a sua "inquietação" mais recente, o que culminou nesses rearranjo de forças conservadoras, que apropriou-se de um mandato legítimo, conquistado nas urnas, com 54 milhões de votos dos eleitores brasileiros. Se, naquele momento, os problemas econômicos incomodavam, hoje soma-se a eles a instabilidade política e uma baita crise de governabilidade. Entre os compromissos desse "novo" arranjo que assumiu o poder, uma agenda de orientação neoliberal radical, francamente favorável à ditadura do capital, solapando direitos e garantias constitucionais do cidadão, culminando com uma completa destruição do Estado de bem-estar social. 

Refeita do sono profundo que produziu o monstro do retrocesso democrático, em algum momento a população reagiria a essas manobras, pela absoluta ausência de quaisquer outras alternativa institucionais, uma vez que o parlamente e o judiciário estão também comprometidos pela engrenagem que mói nossa democracia representativa. Não estamos aqui defendendo quebradeiras ou danos ao patrimônio público, mas constatando o fato de que, apenas com mobilizações populares esse quadro pode ser revertido. É preciso que a população demonstre sua insatisfação e desaprovação às medidas e reformas que estão sendo discutidas no parlamento. Essas mobilizações cumprem o papel de "sensibilizar" parte deste sistema político, notadamente aqueles estratos que dependem do voto popular para manterem seus cargos. Convém tomar cuidados, entretanto, para não municiar os adversários da democracia, que podem enxergar nos excessos boas razões para um endurecimento do regime.


Todas as vezes em que leio ou escuto algum pronunciamento do ministro da Defesa, Raul Jungmann, sinto algo dúbio no ar, o que deve deixar atentos as pessoas de convicções democráticas deste país. Num primeiro momento, o que se sabe - a nível das justificativas oficiais - é que o senhor presidente Michel Temer teria convocado a presença das Forças Armadas a partir da constatação de que não havia policiais regulares em número insuficiente para conter os possíveis distúrbios provocados por black bloc infiltrados entre os manifestantes populares. Depois de afirmar que foi um grande acerto a convocação dos militares, o senhor Raul Jungmann, em entrevista a uma rádio aqui do Recife, tentou justificar a convocação dos militares, sob argumentos não muito convincentes. Vou relatar para ti, senhor Raul Jungmann, uma historieta dos dias sombrios de 1964, que deve por de orelha em pé aqueles brasileiros que, de fato, possuem algum compromisso com a democracia:  

"Embora ligado à ARENA, Pedro Aleixo foi o único civil que, durante reunião ministerial, se manifestou de forma cívica e veemente contra o arbítrio do Ato Institucional n°05. Vice de Costa e Silva, em razão do impedimento deste, era natural que Aleixo tomasse posse, mas os militares o mantiveram em prisão domiciliar até o cargo ser extinto, protagonizando um Golpe dentro do Golpe. Instigado a pronunciar-se sobre o assunto, Aleixo deixaria uma frase célebre sobre aqueles dias, que se prenunciavam, como de fato foram, sombrios para as instituições democráticas brasileiras. Perguntado pelo Ministro da Justiça se não confiava no discernimento do presidente, respondeu: “eu não confio é no guarda da esquina”. O resto da história todos já conhecem." 

Charge!Aroeira

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Cortes em verba hospitalar e demolições na cracolândia mostram o que Dória entende por saúde pública.


Helena Borges
SE HAVIA ALGUMA dúvida de que João Doria não encarava saúde como uma prioridade, esta semana ela foi sanada. Ao usar força bruta policial para literalmente destruir a cracolândia do centro de São Paulo, o prefeito da capital paulista ignorou duas considerações fundamentais sobre a dependência de crack, ou qualquer outro tipo de droga: a questão é de saúde, e não de segurança. Não é atacando locais de consumo e venda que se resolve o problema. Para confirmar o nível de preocupação do prefeito sobre saúde pública, na sequência, ele mandou reduzir a verba de postos de saúde e hospitais em 7,2%. No início do ano, já havia mandado congelar 25% da receita da secretaria municipal de saúde.
“Não há possibilidade de a Cracolândia voltar”, afirmou o prefeito após a destruição da área, no fim de semana. Além de ferir pessoas durante a ação, seja por brutalidade policial ou simplesmente derrubando paredes por sobre elas, o prefeito não completou nem mesmo a “missão” a que se propôs: acabar com a feira de drogas.
23 05 2017 Sao Paulo SP Brasil -  Com a retirada do viciados em crack da região da Luz centro .  Outros locais como Praça Princesa Isabel é a nova" Cracolandia" com centenas de usuarios de droga na cidade e tamebém em outros locais do centro. Foto Alan White/Fotos Publicas
Próxima à região da Luz, onde foi realizada a megaoperação do fim de semana, a Praça Princesa Isabel é um dos pontos onde surgem novas cracolândias.

Foto: Alan White/Fotos Publicas
Em vez de dar fim à cracolândia, a operação fez com que ela se espalhasse pela cidade. Neste momento, “minicracolândias” estão sendo criadas ou expandidas em São Paulo. E o pior: as novas concentrações se encontram em pontos onde a estrutura de apoio aos usuários não é forte como era no centro, em lugares onde não há assistência social regular ou nem mesmo presença de ONGs que apoiam as famílias envolvidas.
Movimento semelhante foi observado em 2012, quando a gestão do então prefeito Gilberto Kassab (PSD) organizou junto ao governo Geraldo Alckmin (PSDB) a “Operação Cracolândia”. Já naquele momento, o crescimento de pontos de venda alternativos foi criticado como consequência da ação policial.
“Precisa e cirúrgica para evitar violência”
E qual a saída novamente apontada por Doria, frente à dispersão da cracolândia central? “Assim como na Luz, a ação será precisa e cirúrgica para evitar violência”, afirmou o prefeito. O ataque orquestrado no fim de semanaà região da Luz, que o prefeito qualifica como cirúrgico e preciso, foi alvo de críticas feitas por organizações de saúde, de defesa dos direitos humanos e por parte do Ministério Público e da Defensoria Pública. Um documento sobre a operação será entregue à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Abaixo, é possível verificar como a operação foi tudo, menos uma ação “precisa e cirúrgica para evitar violência”:

Para completar, Doria ainda ordenou a internação compulsória de usuários presos durante a operação. Triste coincidência: em 18 de maio completaram-se 30 anos da Carta da Bauru, documento assinado pelos participantes do II Congresso dos Trabalhadores em Saúde Mental. A carta definiu as diretrizes da luta antimanicomial e que trouxe as questões da Reforma Psiquiátrica Brasileira para seu devido campo: a saúde.
Na carta, profissionais de saúde mental recusavam “o papel de agente da exclusão e da violência institucionalizadas, que desrespeitam os mínimos direitos da pessoa humana”. Em um relatório sobre saúde mental no mundo, de 2001, a Organização Mundial de Saúde incluiu a dependência de drogas e do álcool na lista de transtornos mentais que devem ser tratados sob o prisma da saúde pública.
Em comemoração aos 30 anos da carta, o Grupo de Trabalho de Saúde Mental e Liberdade da Pastoral Carcerária lançou uma nota criticando ações de internação compulsória, como a que viria a ser adotada pelo prefeito paulistano. Dois dias depois, a ação de Doria mostrou que as mesmas posturas criticadas há 30 anos continuam mais do que atuais, conforme criticou o Conselho Federal de Psicologia:
“Esse ‘novo programa’ repete fórmulas ultrapassadas, inadequadas e ineficientes do ponto de vista da saúde mental. Repete o ‘Programa Recomeço’, do governo estadual, e a ‘Operação Sufoco’, da gestão municipal. As três iniciativas têm como princípios o tratamento por internação, inclusive involuntária, em parceria com comunidades terapêuticas mantidas por entidades confessionais, não sendo coincidência o nome ‘Redenção’.”

Foto do topo: Operação policial na Cracolândia, em fevereiro de 2017, já utilizava de truculência policial.

(Publicado originalmente no site do Intercept Brasil)

13 pontos para embasar qualquer análise de conjuntura


O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.
por: Maurício Abdalla
24 de maio de 2017
Crédito da Imagem: Mídia Ninja/cc
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1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.
2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.
3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.
4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.
5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.
6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.
7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.
8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.
9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.
10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.
11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.
12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.
13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.



Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo.
(Publicado originalmente no site do jornal Le Monde Diplomatique Brasil)

A zumbificação da política brasilleira


A zumbificação da política brasileira
'Arranha-céus', de Robert e Shana ParkeHarrison, 2000 (Reprodução)
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A estética zumbi caracteriza a nossa época: ao corpo devorado pelo desespero podemos dar o nome genérico de democracia


Dia desses, vi meu primeiro filme de zumbis. Embora me interesse pelo imaginário de vampiros e lobisomens, confesso que não assistia filmes de zumbis por medo, por pensar que era um terror meio trash que me faria mal. Bom, vamos tentar elaborar essa questão que coloco inicialmente como algo pessoal. Alguém pode dizer que estou disfarçando um preconceito, mas não é bem assim. Quer dizer, talvez seja, mas vou relutar até o fim, porque se eu tiver algum preconceito, sentirei vergonha do meu preconceito.
Aproveito aqui para fazer um parêntese ainda nesse tom. Uma certa dose de vergonha, sobretudo no que diz respeito à vida pública, não é de todo ruim. A vergonha pode parecer um sentimento conservador, mas me parece também um sentimento inevitável, como a inveja. Mesmo que não seja uma coisa boa, a gente sente coisas desse tipo, da vergonha e da inveja. E não é por sentir coisas assim que elas se tornam boas. Tudo é mais complexo. É verdade que a vergonha é um tipo de sentimento que serve de mediação a outros. Eu sinto vergonha de ter medo, por exemplo, porque no fundo, no imaginário, a coragem é mais valorizada, ou sinto vergonha de ter ciúme ou raiva porque, igualmente, o ciúme e a raiva me desvalorizam diante de outros que não admiram esses sentimentos. A vergonha sinaliza para os valores de um época. Que nos tocam a todos e revelam um certo senso do que é “comum”.
Não estou fazendo o elogio da vergonha, apenas dizendo que eu sinto vergonha de ter preconceitos. E de ter preconceitos estéticos, como esse que talvez tenha me levado a não assistir filmes de zumbis.
Assisti a meu primeiro filme de zumbis e fiquei com uma sensação péssima. Em Extermínio 2 não restou aquele último sobrevivente que em todo cinema distópico dá um último sinal de esperança na comunidade humana, na vida possível e até mesmo na promessa de uma felicidade que há de vir. Na mesma noite, além do mal estar difuso, tive um pesadelo com redes sociais em que o foco era a solidão inevitável do mundo atual e a transformação de pessoas humanas em bonecos da Disney.
O filme parecia fechado nele mesmo, mas o que aparece no cinema é sempre um pouco espelho da realidade. E foi então que percebi que eu não estava com medo do filme de zumbis porque fosse humor trash, ou coisa de mau gosto (o mau gosto é um dos meus objetos de análise assim como o “bom gosto”, quem vai esquecer do “esteticamente correto” que nos controla hoje?), mas porque alguma verdade bem desagradável podia aparecer. E essa verdade apareceu.
A zumbificação do mundo
De que verdade estou falando? A verdade da zumbificação do mundo. Cada época tem os monstros que merece, digamos assim. Toda imagem em cada época revela energias psicológicas, morais e políticas que são sua verdade mais inerente. Ou seja, aquilo que aparece mesmo quando não devia aparecer, quando seria melhor que não aparecesse. Se nos séculos 19 e 20 os vampiros fizeram sucesso, no século 21 os zumbis tomaram a cena e os vampiros parecem cada vez mais antiquados.
O que tem um zumbi que o vampiro ou qualquer outro monstro mais clássico, por assim dizer, não tem? Uma determinada relação com o tempo. Vampiros viviam entre o dia e a noite, se moviam lentamente, precisavam enganar suas vítimas com gestos e simulações que exigiam de um tempo para acontecer. Vampiros se transformavam em morcegos. Eram ligados à animalidade e, desse modo, com a vida. Assim também acontecia com os lobisomens. Qualquer vampiro atravessa os séculos e seu tempo é medido em séculos. Por isso, a narrativa do vampiro é longa e sempre sobra alguém para o futuro.
Já o filme de zumbi mostra uma vida vivida como morte, dia e noite já não importam. O corpo do zumbi não tem saúde nem vitalidade e nenhum sangue o alimenta. O corpo zumbi atua sem esperança alguma. Os vampiros sobreviveram na época romântica como a tristeza de mortos que viviam como vivos, ou, melhor ainda, como seres límbicos, larvares entre a vida e a morte. Já o zumbi é sem futuro e, por isso, vive sem esperança alguma, no mais completo desespero. Por isso, sem grandes metamorfoses, as pessoas se tornam zumbis em vinte segundos, sem chance de retorno, sem qualquer expectativa de salvação.
Kierkegaard, autor cristão e romântico do século 19, escreveu um livro chamado A doença para a morte, no qual fala sobre o desespero. O desespero seria justamente a “doença para a morte” ou, se pensarmos bem, a vida vivida como uma doença na qual não se pode esperar mais nada.
Chegamos nesse lugar com o projeto-programa neoliberal. Adequado para o surgimento e para a sustentação da experiência zumbi.
Se a racionalidade técnica é a racionalidade da dominação, como diziam Adorno e Horkheimer em sua Dialética do Iluminismo, entende-se por que o tipo de susto zumbi é diferente do susto do vampiro. Vimos aliás, essa mutação na história do cinema. Da lentidão sepulcral de Nosferatu aos voos rasantes de Deixa ela entrar (2009), também o vampiro se tornou mais ágil. Até os vampiros sofrem de zumbificação. Dessa mudança no movimento que implica a velocidade das máquinas e das conexões digitais.
O susto zumbi é rápido porque não há tempo há perder. Ele é instantâneo como os movimentos da câmera que nos mostra o mundo zumbi. De repente, é estranho, mas ninguém sente mais susto algum ao ver um filme de terror tão intensamente pavoroso. O terror se tornou literal, vemos atores e espectadores anestesiados de tanto pavor. A coisa toda ficou naturalizada.
A política zumbi
A estética zumbi caracteriza a nossa época. E a ela corresponde uma política zumbi.
Michel (para) Temer é, na sabedoria iconográfica popular, um vampirão, como dizem há tempos. Porém, com a demonstração do apodrecimento generalizado dos personagens políticos, entramos com força na era dos zumbis políticos. Não espanta que a sabedoria iconográfica da internet tenha configurados Aécios e outros como personagens caricatos desse processo de zumbificação da política.
Desesperados por dinheiro, por poder, adoecidos para a morte, de dentro dela, todos correm para o alvo que é o corpo vivo ainda saudável, não para sobreviver nele, mas para puxá-lo para dentro da morte sem esperança, nem expectativa. A zumbificação acontece no tempo dos zumbis que é também o tempo digital, no qual tudo é instantâneo, no qual não há tempo para a salvação. O niilismo é a última verdade.
Ao corpo devorado pelo desespero podemos dar o nome genérico de democracia. Por isso, a pergunta urgente é: como produzir democracia e qual seria a sua chance, a sua qualidade, em tempos de zumbificação geral?
(Publicado originalmente no site da revista Cult)

Charge! Mor via Folha de São Paulo

Mor

terça-feira, 23 de maio de 2017

Charge! Benett

Publisher: The ingenuity of Mr. Michel Temer





We are plunged into a gigantic political impasse, with no prospect of a short-term solution. What we can think of right now is the need to build secure bridges for the future. In this muted political environment, a favorable environment is created, including the aggravation of the problems inherent in an institutional coup now underway in the country. Crisis of governability, political and institutional crisis, economic crisis, crisis of credibility. In a television program, a political scientist pointed out that research indicates that 30% of the Brazilian population is susceptible to an authoritarian solution. Perhaps he did not even need to report this, if we paid attention to the posters circulating in the demonstrations of the "coxinhas" all over the country.

Before the show was Dias Dias Eram Assim, TV Globo conducted a survey where it was found that a significant contingent of our population has no idea what the military dictatorship was in place in the country with the civil-military coup of 1964. Not really It is possible to believe that the people who imposed those posters - some with very serious mistakes of Portuguese language - can, in fact, have an idea of ​​what those days were. A co-worker reported that a relative of his was arrested for inquiries simply because he was wearing red pants on the sands of Copacabana. The citizen was gay. He was a guerrilla, at best, of freedom of sexual choice. This is not surprising, considering the fact that during the popular demonstrations of the June Days the open inquiry against the participants, called the "Black Bloc Inquiry", called for the "indictment" even of a Russian anarchist, Mikhail Bakunin, Caught in the phone cramps.

Michel Temer, even in the face of the facts that indicate and recommend his immediate departure from the country's executive branch, clings to the position, negotiating with the leaders of allied parties at one end, and in the A legal battle that must be fought with the Federal Supreme Court, where he is investigating against his conspiracies as President of the Republic. Strictly speaking, part of the political system is paralyzed, and those reforms that were presented as a matter of urgency, now rest quietly in a shower of water, awaiting the course of political events. Some parties have already disembarked from the allied base, but the so-called hard core, ie the DEM and the PSDB remain awaiting the confirmation, by the full STF, of the green light of the progress of investigations against the president. Even the competence of the minister Édson Fachin is being questioned by his defense lawyers, since the JBF roll involves other operations that Fachin would not have "competence" to judge. They want to know, even, how the lottery took place. I have no doubt - just like the reader - that they would like another name to be drawn, if you understand us.

It is difficult to build a consensus on a 'minimum agenda', which would at least allow the functioning of the institutions. With the possibility of a possible resignation of the President, it is also known that the requests for impeachment filed with the President Of the Chamber of Deputies, Rodrigo Maia (DEM), will have difficulties to be accepted. A man is sought in the Brazilian Legislative Power with moral stature, public spirit and leadership capacity to lead a transition until the elections of 2018.It is difficult for the We can try someone from "outside", a former president, a former magistrate, someone who approaches the profile described above.There are also those who see difficulties in the approval of the PEC of Miro Teixeira , Which calls for immediate elections to be called in. I do not see why some people advocate any difficulties here, since hardly the clamor of the streets could leave R to be heard at this time, although he understands that, by the constitutional regiment, the election would have to be indirect.

Here in the province of Pernambuco, the picture is also very unstable, since Pernambuco was temporized with 05 ministries in the Temer Government. Roberto Freire (PPS) handed over the job, I believe, taking advantage of the "deja" because he should not be very well as Minister of Culture. Raul Jungmann, also of the PPS, remains in charge of the Ministry of Defense not to be unemployed. He is a substitute and the chances of assuming the title of deputy are remote. Bruno Araújo (PSDB), the last of the vote for the annulment of Dilma Rousseff's warrant - which cried out against corruption in the governments of the PT coalition - even wrote a resignation letter, but decided to file it on the advice of the party. Fernando Bezerra Coelho Filho, although the PSB has disembarked from the government, remains as Minister of Mines and Energy. Apparently, there is no inconsistency here, since its indication to the Was virtually wrested by his father, Senator Fernando Bezerra Coelho (PSB). The Minister of Education, Mendonça Filho (DEM), is one of those allies of the first order. He will be one of the last to leave the governing ship. 

On Monday, the newspaper Folha de São Paulo brought a long interview with President Michel Temer. These are very clever questions, but it is well known that with the support of his lawyers, advisors, and supporters, he would certainly know how to stand out from embarrassment. Michel Temer is one of those great foxes of Brazilian politics. Rumor has it that he has prepared the fry of President Dilma Rousseff since 2014, when she was elected for the second term. In the sharpness of the political crisis that took over her government, as one of the last resources, Dilma indicated that fox to try in order in the henhouse of the allied base. Well. In the interview he gave to the Frias family newspaper, there, to many, when asked about the receipt of someone investigated, in the official residence of Jaburu, late at night, without appointment, with this person kept those dialogues little republican, the president Says a naive person. Everything but that, Michel Temer.

Crônicas do cotidiano: Fundação Joaquim Nabuco, uma pequena notável nos trópicos.



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José Luiz Gomes


Quando contava ainda com 17 anos de idade, o sociólogo Gilberto Freyre deixou a província pernambucana para estudar nos Estados Unidos, onde concluiu um mestrado com uma dissertação sobre a vida social no Brasil em meados do século XIX, que se tornaria o embrião do clássico Casa Grande & Senzala, publicado em 1933, um ano depois de Menino de Engenho, do amigo José Lins do Rego. Depois de 05 anos nos Estados Unidos, Gilberto retornou a Pernambuco, onde recebeu uma homenagem no Colégio Americano Batista, cujo pai, Alfredo Freyre, havia sido um dos fundadores. A relação do pai de Gilberto Freyre com este colégio ia muito além do "apenas um professor". Na realidade, Alfredo Freyre era catedrático de Ciência Política da Faculdade de Direito do Recife. 

Por ocasião da homenagem, o então jovem sociólogo leu um discurso contundente em defesa das tradições e da cultura regional, de certa forma se contrapondo à Semana de Arte Moderna, por demais receptiva às mudanças impostas pela burguesia de então. Não se vê em seu discurso, porém, algo que se aproxime hoje do conceito de xenofobismo. Exalta-se, isto sim, os valores da cultura regional no concerto das nações. Como já dissemos em outras ocasiões, Gilberto foi uma espécie de precursor de "quase tudo". Neste caso, talvez pudéssemos aproximá-lo aqui, já então, do conceito de glocalização, muito em voga nos debates mais recentes sobre a globalização. E, quem sabe, na condição, também, de um precursor. 

Na condição de Deputado Constituinte, no final da década de 40, Gilberto Freyre cria o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, que se transformaria posteriormente em Fundação Joaquim Nabuco. A despeito de seus estudos nos Estados Unidos, onde, a princípio, poder-se-ia falar numa carreira acadêmica sem solavancos, a Fundação Joaquim Nabuco nunca teve um grande reconhecimento naquele país. A condição de "pequena notável" ou de uma "instituição de excelência nos trópicos' seria muito mais um reconhecimento do continente europeu, tendo como porta de entrada sobretudo Portugal, país onde o mestre de Apipucos gozava de grande prestígio intelectual, notadamente em razão de suas posições políticas e teóricas, identificadas com um colonialismo assimilativo, do tipo não segregacionista, o que levaria o Governo Português a financiar uma série de palestras do escritor nas colônias portuguesas nos continentes africano e asiático, quando esses países organizavam suas guerras de libertação colonial. Convém aqui deixar registrado que isso ocorreu na época do salazarismo. Gilberto flertava com vários intelectuais ligados ao regime. 

Nos seus primeiros anos de existência, a Instituição realizou algumas pesquisas importantes que ajudaram bastante a construir o seu conceito de instituição de excelência. Uma delas, inclusive, a que tratava da poluição dos rios provocadas pela monocultura da cana de açúcar na região da Zona da Mata pernambucana, produziu alguns estremecimentos na relação dos usineiros do Estado com um intelectual orgânico da açucarocracia local, numa expressão atribuída a Tobias Barreto. Não me recordo se nessa pesquisa em particular ou noutro texto, também é atribuído ao mestre de Apipucos o uso, pela primeira vez, do termo meio-ambiente sustentável. Essas rusgas seriam definitivamente sanadas em 1979, quando foi criado o Museu do Homem do Nordeste, que deu uma sobrevida a essas oligarquias e permitiu a Gilberto Freyre uma espécie de reconciliação com suas origens. Como se vê, o reconhecimento internacional da Fundação Joaquim Nabuco se deu ainda na década de 40, a partir de bases sólidas, de um trabalho muito bem construído, e não apenas a partir de uma estratégia de marketing, comunicação institucional, políticas do "guarda-chuva" ou coisas do gênero. 

Nos nossos estudos com o objetivo de contribuir com o debate sobre o PDI institucional, observamos, lá pelo final da década de 50, alguns movimentos curiosos no tocante às políticas institucionais. Produzimos 167 páginas para este debate, mas elas nunca foram apresentadas, pela absoluta impossibilidade de exequibilidade política, como viemos a constatar logo em seguida. Se Michel Temer, do alto de sua longa vida pública, ainda é capaz de cometer suas ingenuidades, imagina esse escriba, que até bem pouco tempo, ainda pensava em 'mudar o mundo'. Mas, se isso serve de algum alento, como diria o professor Robinson Cavalcanti, isso dá um doutorado ou um possível texto a ser publicado. 

Charge!Aroeira

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