segunda-feira, 20 de julho de 2015

Crônicas do cotidiano: A saudade no Museu do Homem do Nordeste






José Luiz Gomes



O Museu do Homem do Nordeste foi inaugurado em 1979, através de uma exposição concebida a quatro mãos, pelo sociólogo Gilberto Freyre e pelo museólogo Aécio de Oliveira. Para alguns analistas, no seu aspecto museológico, tratava-se de uma exposição inovadora, um verdadeiro divisor de águas no campo da museologia. Com acervo provenientes de três outros museus - o Museu de Antropologia, do então do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais(IJNPS); o de Arte Popular, então ligado à Prefeitura do Recife; e o Museu do Açúcar, do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool - obteve-se uma "síntese", ou uma unidade imagético-discursiva, que, nas palavras do sociólogo, em nada corrompeu seu objetivo inicial, o de criação um museu que, de fato, representasse a cultural do homem desta região, em suas múltiplas dimensões, o que se constitui, até os nossos dias, uma missão das mais complexas. 

Outro dia, numa conversa com um colega, lembrávamos que Gilberto Freyre foi um precursor de "quase tudo". Da Escola dos Annales Francesa, fundada por Lucien Febvre e Marcc Bloch, em 1929; dos estudos sociológicos da alimentação, o que lhes rendeu uma rusga com o também sociólogo pernambucano, Josué de Castro; e, até mais recentemente, da própria imprensa brasileira, conforme advoga Suellen Napoleão, em livro recente, onde discute a importância histórica de Freyre para a inovação da imprensa nacional,  a partir da primeira metade do século XX. No campo museológico, sua produção teórica também já suscitou interesses de estudos acadêmicos, além do seu envolvimento direto, via IJNPS, depois Fundação Joaquim Nabuco, na organização de encontros emblemáticos da categoria. 

O museólogo Aécio de Oliveira era uma espécie de "gilbertólogo", um grupo de estudiosos, de diversas áreas do conhecimento, que gravitavam sob o guarda chuva da influência intelectual do mestre de Apipucos. Além dele, poderíamos citar os nomes dos historiadores José Antonio Gonsalves de Mello, Frederico Pernambucano de Mello, dos antropólogos Raul Lody e René Ribeiro, do teatrólogo Rubem Rocha Filho, do escritor José Lins do Rego, do biblioteconomista Édson Neri da Fonseca, seu biógrafo oficial. A lista de intelectuais que sofreram diretamente sua influência é grande. Acolhedor e com uma inteligência privilegiada, entre um licor e outro de pitanga, o autor de Casa Grande & Senzala, através desses discípulo, consolidava sua estratégia de consagração.   

Aluno de Franz Boas, em sua época de estudos nos Estados Unidos, o autor de Casa Grande & Senzala teria sido bastante influenciado pelas ideias do antropólogo francês sobre "um museu do homem americano". Há um livro do filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, com o sugestivo título de "Além do Bem e do Mal", onde ele afirma que toda palavra é uma máscara e todo discurso é uma fraude. A verdadeira intenção de um discurso não está naquilo que ele revela, mas naquilo que ele omite. E aquilo que ele omite é a verdadeira razão de ser do discurso, a real intenção do ator que está por trás do discurso. Neste caso, as visibilidades e dizibilidades passam a ter um caráter bastante relativo. (ou não, Gilles Deleuze?). Essa máxima do filósofo alemão também se aplica ao discurso expositivo do Museu do Homem do Nordeste como, aliás, a qualquer instituição museológica.

Sempre afirmamos que Gilberto Freyre era um homem de perfil conservador, a despeito de sua militância na "Nova Esquerda" e sua contraposição ao Estado Novo em Pernambuco. A leitura do livro de Diego Fernandes Freire, Contando o Passado, Tecendo a Saudade nos deixaram ainda mais convencidos disso. Conforme afirmamos em outros momentos, suas pregações religiosas nas periferias da cidade do Recife não passaram de arroubos da juventude. Sua indisposição com o Estado Novo, na pessoa de Agamenon Magalhães, onde chegou a ser preso, já então, podia se configurar como disputas de oligarquias locais pelos nacos do poder estatal. Enquanto Gilberto deixava claro suas ligações com a aristocracia açucareira do Estado, Agamenon Magalhães era um ilustre representante das oligarquias pecuaristas e algodoeiras, notadamente concentradas no Sertão. 

Como "pano de fundo", até existiam alguns questões pontuais, mas, conforme informamos, eram apenas pontuais, como as divergências entre ambos acerca do destino das palafitas dos alagados do Recife, onde o ilustre morador do bairro de Apipucos mantinha posições bem mais humanitárias e progressistas, enquanto o ex-professor do tradicional Ginásio Pernambucano já esboçava, incipientemente, o caráter higienista que passariam a nortear as intervenções urbanas no Recife, desde então.  

Quando voltou dos seus estudos em universidades americanas, então, esse perfil de Gilberto Freyre consolidou-se de vez. Em discurso no Colégio Americana Batista, onde seu pai havia sido professor e ele acabava de ser homenageado, já esboçava um contraponto à onda inovadora que sacudia o mundo - patrocinada pelo ideário da burguesia - e propunha uma volta às raízes, ao tradicionalismo, possivelmente identificada com uma sociedade agrária, patrimonial, de costumes conservadores. A amizade com o escritor José Lins do Rego, sobre quem exerceu forte influência, lhes facultou a possibilidade de fundir seu conceito de tempo tríbio, reunindo passado, presente e futuro, numa viagem pelos engenhos da família do escritor paraibano, revivendo um pouco de sua infância de menino de engenho. Gilberto Freyre costumava passar as férias num engenho de propriedade de sua família, em São Severino dos Ramos. 

Posso imaginar o que representou para o escritor esse reconhecimento de "terreno". As comidas típicas; o dedo de prosa nos alpendres das Casas Grandes; os vastos partidos de cana a perder de vista; as várzeas com seus riachos de águas cristalinas; as jovens mucamas de bumbuns empinados, sedutoras de sua puberdade, no balanço gostoso do lava e enxagua nas nascentes do Rio Paraíba. Quando vamos à região do Brejo Paraibano, não há programa melhor do que conhecer os antigos engenhos do apogeu do ciclo econômico da cana-de-açúcar, hoje dedicados à produção de rapadura e cachaça. O Museu do Homem do Nordeste, durante o período em que essa exposição passou pelo seu circuito expositivo, foi um pouco isso, ou seja, um espaço constitutivo da "saudade". Saudade da carruagem, do carro de boi, dos apetrechos de preparação do açúcar, de todos os elementos ligados ao simbolismo dos engenhos, da Casa Grande, da Senzala. A senzala, registre-se, sempre sob o olhar da Casa Grande. 


Uma senzala amaciada e adocicada, como desejava o mestre de Apipucos, ou dócil e útil, como informava Michel Foucault. Na exposição anterior, não havia o espaço do contraditório, do conflito de classes. Era um discurso "harmonioso", "linear", exaltativo da "brasilidade nordestina". Nada que colocasse em dúvida o controle da Casa Grande sobre os súditos. Um discurso expositivo sem os elementos da resistência negra à escravidão; sem a insurgência dos movimentos messiânicos; sem o banditismo rural da década de 30/40. Embora essas ausências não possam ser explicadas pelas mesmas razões apresentadas pelo professor Durval Muniz, no hoje já um livro clássico, A Invenção do Nordeste e Outros Mitos. 

Enfim, nenhuma referência imagética-discursiva que se contrapusesse ao establishment ou a status quo da época. Aquele discurso expositivo, portanto, deve ser lido não pelo que ele informava, mas, sobretudo pelo que ocultava, conforme recomendava o filósofo Nietzsche. Em 2008, depois de 04 anos de intervenções, entretanto,  o circuito expositivo do Museu do Homem do Nordeste reabre ao público com uma nova exposição, denominada "Nordeste: Territórios Plurais, Culturais, Direitos Coletivos". Entre outros aspectos, fez-se uma tentava de resgatar a dizibilidade e visibilidade de frações identitárias antes simplesmente ignoradas.

Essa unidade imagético-discursiva sobre uma região, notadamente, como se poderia supor, gerou muitas controvérsias, seja a partir de olhares de atores do campo museológico, assim como outros atores, que externaram suas opiniões orientados unicamente pela intuição ou pelos valores estéticos constitutivos de um determinado espaço, a partir dos "constrangimentos" impostos, para usarmos uma expressão bourdieuniana, do atores "legitimadores". Gilberto Freyre, então, certamente é o intelectual mais legitimador desse conceito de recorte regional chamado "Nordeste". A série de artigos encaminhados e publicados pelo Diário de Pernambuco, ainda na sua época de estudante nos Estados Unidos, para alguns, é a certidão de nascimento do conceito de uma região. Pode até haver algum exagero aqui, mas há quem avalie esse trabalho até mesmo como superior ao livro Casa Grande & Senzala. 

As reações do público à presença de uma bandeira do Movimento dos Sem Terra no circuito expositivo do Museu do Homem do Nordeste, embora não possa ser desconsiderada as reticências de classe, carrega, igualmente, uma série de outros fatores. MST é o Nordeste da reforma agrária, da inclusão e da justiça social, não aquele Nordeste tradicional, dos grandes partidos de cana a perder de vista; do patriarcado rural; do coronel José Paulino, que tudo via, que em tudo mandava, que o peão do eito tremia de medo apenas com a sua presença. Nosso imaginário social está imbricado dessas referências. Se entende, agora melhor, o sentimento de saudade esboçado por um número expressivo de visitantes do circuito expositivo do MUHNE. É que aquele "outro Nordeste" demorará alguns anos para povoar nossos imaginários. E olha que nem é precisa ler Gilbert Durand para entender isso. Muitos dos nossos visitantes vem aqui, na realidade, para "matar a saudade". Não é muito incomum, as expressões do tipo: "na minha época tinha um determinado objeto que gostaria muito de mostrar para os meus netos".

P.S.: Há, aqui, uma pequena observação a ser feita consoante ao uso do termo gilbertólogos, ainda no terceiro parágrafo. No texto, o termo foi usado indistintamente para definir os "orientandos" ou especialistas no obra do mestre de Apipucos. Na realidade, embora a fronteira seja tênue, o adjetivo identifica estudiosos e especialistas na obra de Gilberto Freyre. O termo "banditismo rural", embora empregado largamente por alguns estudiosos do cangaço, na visão de outros tantos estudiosos, sobretudo do campo acadêmico, também não seria, digamos assim, politicamente correto. 
   


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