quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Crônicas do cotidiano: Gilberto Freyre e Josué de Castro num encontro na Ilha de Deus






José Luiz Gomes da Silva


Quando se discute a questão da alimentação, sobretudo se tomarmos como referência a região do Nordeste brasileiro, há divergências substantivas entre o médico Josué de Castro e o sociólogo Gilberto Freyre. O tema é bastante polêmico e, parte a parte, em dados momentos de suas conclusões, um estudioso dessa polêmica ficaria, no mínimo dividido, caso não se deixasse levar pelas suas simpatias por este ou aquele autor. Quem nos dá a honra de ler nossas crônicas aqui pelo blog, sabe que somos, naturalmente, suspeitos para deixarmos de assumir uma posição. No campo do estudo sobre alimentação, Gilberto Freyre apresenta-se como mais um precursor, antecipando-se a outros estudos encaminhados, inclusive, por profissionais de outras formações como nutricionistas e médicos. 

Gilberto acerta ao apontar situações como o regime escravocrata, a monocultura da cana-de-açúcar, os grandes latifúndios, assim como a introdução da farinha de mandioca, pouco nutritiva, como base da alimentação nordestina, em substituição da farinha de trigo dos colonizadores, como fatores que poderiam contribuir para uma alimentação carente de alguns nutrientes importantes. Nossa alimentação "mestiça - como resultado da relação entre as três raças - de fato, excluía vegetais, legumes, ovos, leite e algumas fontes proteicas necessárias a uma boa alimentação. Ao apontar os senhores de engenhos e os escravos da região como os mais bem alimentados, entretanto, ele comete o equívoco de confundir comer muito com comer bem, sobretudo em relação aos escravos, conforme alfineta Josué de Castro. Errou feio ao sugerir também que a região canavieira era uma das mais bem nutridas do país, mito completamente rechaçados pelos estudos de José de Castro.

O curioso é que esta polêmica entre ambos é longa, tendo réplicas e tréplicas abusadas de ambos aos autores. Teria sido iniciada com os primeiros trabalhos de Josué de Castro, acerca da alimentação de grupos de operários do Recife, estudos de livre-docência do sociólogo da fome. Depois se estenderia pela demarcação de "campo" - como Gilberto advertindo Josué a não se imiscuir a assuntos relacionados à sociologia ou antropologia, assim Josué devolvendo, que um sociólogo não estaria habilitado a utilizar determinados conceitos, como o de albuminóides e proteínas, onde Freyre, de acordo com Josué, demonstrava absoluta ignorância do termo e que, portanto, não poderia ser levado a sério. O fato concreto é que, enquanto Freyre aponta as causas "naturais" das possíveis carências alimentares, Josué de Castro deduz que ela pode ser o resultado de engrenagens sociais perversas, alimentadas - permita-me o trocadilho - pelas relações estabelecidas entre os homens. Josué de Castro, como bem observara Manuel Correia de Andrade, empresta ao fenômeno da fome um status político. 

Mas, todo esse introito vem a respeito dos nossos mocambos dos bairros alagados do Recife. Aqui, ambos parecem estabelecer uma "trégua" embora não tenha lido nada do sociólogo Gilberto Freyre sobre a alimentação dos habitantes das palafitas do Recife, enquanto Josué de Castro tomou esse tema até como incursão literária, ao escrever um poema para o homem-caranguejo. Outro dia, escrevemos por aqui um artigo sobre o direito à cidade. Ali, lembrávamos das divergências sobre os mocambos do Recife, envolvendo o sociólogo Gilberto Freyre e o interventor Agamenon Magalhães. Ao defender as palafitas do Recife da sanha higienista de Agamenon Magalhães, Gilberto enfatizava as soluções ecologicamente corretas utilizadas por aquela população empobrecida - em sua maioria oriunda das usinas da zona da mata do Estado - assim como a proximidade com a sua fonte principal de alimentação, os crustáceos. 

Possivelmente em razão da influência de Gilberto Freyre, outro intelectual que iria demonstrar uma profunda simpatia pelos mocambos do Recife foi o escritor paraibano, José Lins do Rego. Em seu processo de recifinização, lá estavam os mocambos, além do Pátio do Carmo, da Av. Encruzilhada, da Rua da Aurora e, possivelmente, dos quebra nos becos dos bairros de boemia e prostituição do Recife Antigo. Sobre a relação de Josué de Castro com esses bairros alagados no Recife, creio ser desnecessário acrescentar alguma coisa. De acordo com relatos de amigos, sempre que voltava ao Recife, atolava os pés na lama para conversar com os homens e mulheres caranguejos. Um homem que conheceu o mundo, ministrou aulas na Sorbonne, morou em Paris, morreu de saudade dos Afogados, do píer do Pina, dos ribeirinhos da Ilha de Deus.





Na Web,  em termos de acessos, perdemos apenas para o próprio site do médico Josué de Castro. Desta vez, ganhamos da Wikipedia. Obrigado aos leitores.



www.josuedecastro.com.br/

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Josué de Castro – Wikipédia, a enciclopédia livre

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Josué Apolônio de Castro (Recife, 5 de setembro de 1908 - Paris, 24 de setembro de 1973), mais conhecido como Josué de Castro, foi um influente médico, ...

  

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