quarta-feira, 10 de maio de 2017

Homenageada em exposição, Conceição Evaristo encara a escrita como ato político


Homenageada em exposição, Conceição Evaristo encara a escrita como ato político
A escritora mineira Conceição Evaristo, 70 (Foto: Richner Allan/Divulgação Itaú Cultural)

Autora mineira quer chamar atenção para a produção de mulheres negras e romper com o imaginário de que os lugares reservados a elas são sempre de ‘subalternidade’


Na infância, durante as aulas de redação na escola, Conceição Evaristo escrevia por prazer. Na adolescência, o fazia para tentar escapar do cotidiano duro e entender o mundo que a cercava. Hoje, aos 70 anos, escreve motivada, também, por algum grau de vingança.
“A minha história pessoal e a história da minha coletividade são marcadas por interdições. E a escrita me liberta, me coloca num espaço em que eu normalmente não estaria, que não é comum às mulheres negras”, diz à reportagem da CULT às vésperas da abertura de uma exposição em sua homenagem no Itaú Cultural, em São Paulo.
A escritora mineira, nascida e criada na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, tem seis livros publicados, quatro deles custeados integral ou parcialmente pelo próprio bolso: Ponciá Vivêncio(2003), Becos de memória (2006), Poemas de recordação e outros movimentos (2008) eInsubmissas lágrimas de mulheres (2011).
Isso porque Evaristo encara seu ofício como um ato político do qual “não tem como se esquivar”. Entende a importância de colocar em circulação suas “escrevivências” em um país que ainda reluta para reconhecer a legitimidade literária de vozes excluídas dos centros econômicos e sociais – como Carolina Maria de Jesus, por exemplo.
Recentemente, durante um evento em homenagem à Carolina na Academia Carioca de Letras, o escritor e professor Ivan Cavalcanti Proença afirmou que o livro Quarto de despejo (1960) não pode ser considerado literatura, em si, mas um “documento sócio-econômico e cultural”.
“Existe esse racismo estrutural na sociedade brasileira em que certas categorias são vistas como competentes para tudo, e outras são competentes para algumas coisas”, afirma. “Na dança, você vai ver mulheres negras sambistas, mas dificilmente uma bailarina negra. Na música, até vai encontrar muitos cantores negros, mas dificilmente um maestro. Na literatura também é assim.”
Em seus romances, contos e poemas, Evaristo coloca a mulher negra no centro da cena – processo que, se um dia foi bastante natural, hoje aparece como uma opção consciente da autora. São personagens complexas e cheias de conflitos, filhas, tias, esposas e especialmente mães, papel pouco atribuído a mulheres negras no percurso da literatura canônica brasileira, já que a elas geralmente restam dois tipos de estereótipos, segundo a autora: o da mulher negra “perigosa”, objeto de constante desejo sexual; ou o da mulher negra “abnegada”, que faz tudo pelo senhor da Casa Grande.
“A literatura brasileira canônica torna as mulheres negras infecundas. Estou falando de personagens principais como Rita Baiana, Bertoleza [de O cortiço], Gabriela [de Grabriela, cravo e canela]”, critica a autora. “Será que com essa falta de imaginário a sociedade brasileira não estaria negando a presença de mulheres africanas, das culturas africanas na formação da nação? Isso tem sido uma pergunta para mim.”
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Evaristo vive hoje em Maricá, no Rio de Janeiro. Com a atenção, ainda que tardia, que vem recebendo desde que venceu o prêmio Jabuti, em 2016 com o livro de contos Olhos D’água (2014) – e agora com a exposição -, a autora espera chamar atenção para a produção literária de outras mulheres negras.
“Elas cozinham, passam, tomam conta dos filhos delas e dos outros, fazem faculdades, são médicas, arquitetas, filósofas, escritoras, bailarinas”, diz. “Que essa ocupação sirva para ajudar a quebrar com esse imaginário de que as mulheres negras estão sempre nos lugares da subalternidade.”
Ocupação Conceição Evaristo

Onde: Itaú Cultural, av. Paulista, 149
Quando: até 18/06
Quanto: grátis

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