sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Editorial: O prestígio dos partidos políticos




Benett
No dia de ontem, 16, por ocasião de um seminário comemorativo aos 100 anos da Revolução Russa, tivemos a oportunidade de rever o amigo Carlos Omena, que reside no Maranhão há algum tempo, mas concluiu seu mestrado na UFPE, juntamente com este editor. Por uma questão de reprogramação do seminário, a palestra de Carlos, antes prevista para o dia de ontem, ocorrera na segunda-feira, 14, dia do início dos trabalhos. Uma pena, porque perdi a oportunidade de ouvir um grande especialista no assunto. É sempre uma grata satisfação para este editor revê os grandes amigos. Na mesa, outro grande amigo, o professor Michel Zaidan, que discutiu a recepção das ideias anarquistas aqui no Brasil, com uma profusão de dados e informações surpreendentes, com nomes, obras e correntes anarquistas, assim como as convergências e divergências entre eles, suscitando, certamente, um grande interesse da plateia sobre o tema. Há quem diga que, se os marxistas tivessem tido  mais humildade e ouvissem os anarquistas, talvez o processo revolucionário russo não tivesse tomado aquele rumo, solapando seus pressupostos e princípios iniciais. 


Neste momento de obscurantismo político e hegemonia do capital, conforme recomendou, em artigo recente, o sociólogo Michael Löwy, talvez seja mesmo o caso de aprendermos um pouco mais sobre as Lições de Outubro - conforme observava Trotsky - e juntarmos as bandeiras preta e vermelha para reorientarmos a estratégia que deverá ser adotada pelas forças do campo progressista, democrático e emancipatório, nesses tempos bicudos, de autoritarismo político e agenda neoliberal. Nesses "novos" tempos, as estratégias de enfrentamento adotadas no passado foram superadas e a sociedade civil continua naquele sono profundo - que já produziu o monstro - sem perspectiva de um despertar absolutamente necessário, diante de uma crise que se aprofunda a cada dia.
 
O aparelho de Estado, por exemplo, antes fulcro dos maiores embates entre marxistas e anarquistas daqueles tempos, hoje encontra-se completamente aprisionado e a serviço dos interesses corporativos engendrados pelo capital. O interesse coletivo e de construção da cidadania foi completamente relegado. As emendas parlamentares, por exemplo, que poderiam servir aos interesses da cidadania, transformaram-se me moedas de trocas políticas, sob o manto de interesses nada republicanos. Torra-se 2 bilhões para manter-se no poder e, na outra ponta, extingue-se programas como o das Farmácias Populares, deixando milhões de beneficiários à mingua, entregues à própria sorte. Numa reforma política casuística, prevê-se que 3 bilhões em recursos públicos serão destinados para a farra dos políticos, subvertendo-se a vontade dos eleitores, através de expedientes bem conhecidos.  Salvo melhor juízo, a ex-presidente Dilma Rousseff(PT) foi afastada sob a acusação - indevida - de algo que se aproximava de uma irresponsabilidade fiscal. Uma das maiores ameaças à estabilidade econômica proposta pelo Governo, curiosamente, é ele próprio, ao preservar-se no poder abusando dessas "farras', satisfazendo as necessidades fisiológicas dos aliados congressistas. 


O presidente Michel Temer(PMDB) é hoje um refém do chamado Centrão. Alguns atores políticos deste grupo já começam a esboçar uma reação velada ao Governo, afirmando estarem insatisfeitos com as oferendas e mimos. Sabe-se que o apetite dessa gente não conhece limites. Um dos alvos é o ministro Antônio Imbassahy, do PSDB, segundo afirmam, hoje muito mais preocupado em azeitar suas bases políticas baianas. Nas coxias, eles não relutam em afirmar que, mantidas essas condições, uma segunda denúncia contra o presidente seria facilmente acatada pela Câmara dos Deputados. Como observa o jornalista Josias de Souza, em seu blog, os acordos de natureza pouco republicana estão fechados entre eles. Neste suspiro de democracia representativa, somente os eleitores poderão demonstrar sua indignação, através do voto, repudiando esses acordos espúrios.


Esse arremedo de reforma política é uma grande piada. Indigna mesmo deste nome. Trata-se, na realidade, de uma manobra - mais uma entre outras tantas - com o propósito de beneficiar os grupos e atores conhecidos. Com o prestígio na sarjeta, a classe política sabe que precisa de grandes recursos materiais para solapar a vontade do eleitorado. Vão investir em campanhas políticas massivas, apoiada em forte aparato midiático, com o propósito de vender um produto com prazo de validade vencido. Está nas mãos dos eleitores, portanto, a capacidade de estabelecer uma clivagem necessária, depurativa, separando o joio do trigo. Não é somente aqui no Brasil que o prestígio dos partidos políticos anda baixo. É um fenômeno que ocorre em todos os quadrantes onde a democracia representativa ainda suspira. Essa proposta de reforma política que está aí, no entanto, visa tão somente favorecer os donos de alguns desses grêmios partidários, estando longe de estabelecer alguns pressupostos que poderiam contribuir para a melhoria da saúde de nossa representação partidária.   

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