pub-5238575981085443 CONTEXTO POLÍTICO. : Crônicas do Cotidiano: "O arquiteto do Recife é o capital".
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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Crônicas do Cotidiano: "O arquiteto do Recife é o capital".



Quando, na década de 20\30 c0meçaram no país as primeiras iniciativas de criação de instituições que se propunham à preservar monumentos históricos, o antropólogo Gilberto Freyre ficou com a incumbência de apontar aqueles monumentos que deveriam ser preservados na região Nordeste. Muito identificado com a economia colonial açucareira, Gilberto acabou priorizando o patrimônio material ligado à aristocracia açucareira nordestina, fato pelo qual receberia algumas ponderações críticas. Por essa mesma época, durante os governos intervencionistas da ditadura do Estado Novo, sobretudo através da trincheira do Diário de Pernambuco, Gilberto e amigos como Manuel Bandeira e Aníbal Fernandes se posicionariam contra as medidas de corte marcadamente higienistas adotadas pelo interventor Agamenon Magalhães contra os mocambos e palafitas do Recife. O projeto do Estado Novo trazia o nome de Liga Contra os Mocambos. 

Já no Conselho Diretor da Fundação Joaquim Nabuco, Gilberto manteve tal preocupação com a preservação de sítios e monumentos históricos, tornando a instituição uma espécie de referência em relação a esse assunto, com seus membros ocupando espaços institucionais relevantes e decisivos na tomada de decisões sobre o tema. A instituição ainda manteve um papel importante na discussão do destino do espaço onde funciona o Hospital da Tamarineira, entre outros fatores porque aquela instituição esteve muito ligada ao psiquiatra Ulisses Pernambucano de Mello, primo de Gilberto, um dos predecessores do embrião das reflexões que culminariam, algum tempo depois e com a sua linha de atuação sensivelmente repensada, na proposta de criação do então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. 

Entre os amigos mais próximos de Gilberto à época, estavam antropólogos e psiquiatras, o que levou o grupo a pensar, em princípio, sobre uma instituição voltada para a pesquisa sobre o tratamento de doenças psicossomáticas e o transe nos rituais dos cultos de religiões de matriz africana no Brasil, projeto muito bem conduzido pelo antropólogo Waldemar Valente. Por algum motivo, possivelmente político, Gilberto percebeu que talvez esse não fosse o caminho mais viável, propondo, quando deputado federal constituinte, a criação do IJNPS. O mais interessante a observar aqui é que, por ocasião das discussões acerca do destino do Hospital da Tamarineira, um grafiteiro escreveu - ou vaticinou? - num muro próximo uma frase emblemática, mas que traduz o que ocorre hoje no Recife: O arquiteto do Recife é o capital. O mais grave, conforme já enfatizamos por aqui, é que se trata de uma lógica ou uma dinâmica que funciona assim independentemente de quem esteja ocupando o Palácio Capibaribe, seja de esquerda ou de direita. 

Fizemos essa introdução para repercutir uma matéria do Marco Zero, repercutida na Blog do Magno Martins, sobre a destinação do casarão da família Lundgren, localizado entre os bairros de Tamarineira, que, pelo andar da carruagem, deverá ceder espaço para a construção de três espigões de luxo, sem uma preocupação efetiva com a preservação ambiental do seu entorno, cercado de árvores, jardins e fruteiras. O casarão é conhecido como Mansão Harley Lundgren. Ali residiram Robert Bruce Harley e Erenita Helena Cavalcanti Lundgren. Os primeiros Lundgren construíram casarões imponentes em cidades como Paulista, em Pernambuco,  e Rio Tinto, na Paraíba, onde funcionavam suas fábricas de tecido. Hoje há uma grande discussão sobre o destino desses imóveis, assim como a "memória" que deveria ser preservada, discussão que levantamos em nosso terceiro romance. 

Nossos textos, mesmo os de narrativas literárias, são carregados de informações históricas e críticas políticas, daí a importância de lê-los para se conhecer a "verdadeira" História. É curioso como essas oligarquias industriais, embora tivessem construídos esses casarões próximos às duas indústrias, mantinham sempre suas mansões no Recife, caso dos Lundgren, caso do "coronel" Othon Bezerra de Mello, da fábrica da Macaxeira. Os Lundgren, em Paulista, tinham hábitos curiosos. Um deles era tomar o primeiro banho do dia, logo pela manhã, no interior da fábrica. Numa dessas greves, os operários cortaram o fornecimento de água para o banho matinal dos Lundgren, obrigando os cupinchas a se encarregaram da tarefa de transportarem água para satisfazer o hábito do herdeiro do comendador Herman Lundgren. Nunca mais ele voltou à cidade. Talvez tenha procurado refúgio no casarão do Recife. 

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