A jornalista Malu Gaspar, de O Globo, vem realizando um trabalho verdadeiramente jornalístico, dentro daquela concepção orwelliana, que define a atividade onde se diz tudo o que algumas pessoas não gostariam que fosse dito. O mais é publicidade, segundo o autor de 1984. Essas pessoas incomodadas com o que a jornalista anda afirmando ou escrevendo estão nos altos escalões do nosso Executivo, do Legislativo ou do Judiciário ou até mesmo na esfera empresarial\financeira, a exemplo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Certamente, vem colecionado indisposições com esses senhores. A Polícia Federal teria encontrado, nas conversas do ex-banqueiro com um publicitário, falas comprometedoras que podem ate ser traduzidas como ameaças dirigidas a jornalista, possivelmente num momento em que ele ainda não havia sido detido.
Na realidade, salvo melhor juízo, muito mais do que o escândalo financeiro, essas ameaças, no caso anterior dirigida a uma ex-empregada do banqueiro, foi o que levou o STF a decretar a sua prisão imediata. Aqui em Pernambuco, num estado forjado pelo poder político de velhas oligarquias familiares, isso sempre foi um grande problema, mesmo numa época em que gozávamos de maior liberdade de expressão. O homem público pernambucano, salvo raras exceções, considera a crítica legítima como ofensa e usa todos os dispositivos de Estado para perseguir seus críticos. Ele é o Estado ou o aparelho de Estado é uma extensão do seu quintal. É a cultura das capitanias hereditárias, do familismo amoral.
Muita gente aqui na província já foi vítima dessa sanha, que não conhece limites éticos e, na realidade, esconde interesse obscuros, capitaneados por essas lideranças políticas, traduzidos em nacos explorados na máquina pública, raramente de forma republicana ou para atender demandas coletivas. Este foi o grande problema encontrado na aldeia italiana estudada pelo cientista político americano Edward Banfield, em séculos passados, mas que continua atualíssima quando tomamos como referência o caso pernambucano. Temos em nosso poder cópia de um conjunto de correspondências trocadas entre um cidadão afilhado que desejava vender uma coleção pessoal e pedia a interferência de um ator político com forte capilaridade na esfera pública. Coisa para deixar Banfield, que foi ex-professor de Harvard, se revirando na tumba. Nossa solidariedade a jornalista Malu Gaspar.

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