quarta-feira, 8 de março de 2017

Crônicas do cotidiano: Uma melancia na cabeça. Não para "aparecer", mas para "sobreviver".


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José Luiz Gomes


Creio que em 2012, o sociólogo alemão Ulrick Beck deixou seus afazeres como professor titular da London Scholl of Economics e veio fazer uma visita ao Brasil, no contexto do seus estudos sobre a Sociedade de Risco e as mudanças que se processavam com o mundo do trabalho, notadamente na Europa. Mudanças, diga-se, radicais, pois os europeus enfrentavam uma verdadeira erosão e desregulamentação dos empregos formais. Beck ficou "encantado" com os mecanismos pelos quais os brasileiros enfrentavam o desemprego e, numa longa entrevista ao jornal Folha de São Paulo, lançou a tese da "Brasilização do Ocidente", enfatizando, inclusive alguns aspectos relacionados à nossa "democracia da economia informal" como mais um adendo no qual os europeus deveriam se espelhar. Aqui ele fazia referência à diversidade de gênero e raça que se dedicavam ao mercado informal, numa aparente remissão à tese da democracia racial levantada pelo sociólogo Gilberto Freyre.  Já naquela época, o também sociólogo Anthony Giddens, seu chefe de departamento naquela universidade inglesa, apontava alguns "furos" nas conclusões do colega Ulrick Beck. 

Apesar de nosso entusiasmo inicial com esta tese, as leituras críticas subsequentes foram aprimorando as nossas conclusões. Num desses feriados, tive a oportunidades de voltar ao Mercado de São José, aqui no Recife, que, no seu entorno concentra uma infinidade de atividades relacionadas à economia informal. Não raro tomo iniciativas do tipo, uma vez que estudo esse tema deste os primeiros anos de faculdade. Finalmente encontrei um homem com uma melancia na cabeça. Só que ele não o fazia para "aparecer", como poderia supor o saudoso Liedo Maranhão, mas para "sobreviver". Incrível sua desenvoltura, com um balaio na cabeça, portando melancias inteiras e alguns pedaços, gentilmente oferecidos ao público. Uma pena que não consegui fotografá-lo para ilustrar essa crônica.

Um dos maiores estudiosos do mundo do trabalho no Brasil é o sociólogo Ricardo Antunes, decano da Unicamp. Conheci-o quando estudava o PT - partido de quem ele já era um crítico à época - notadamente no que concerne aos seus estudos sobre o novo-sindicalismo e a fundação do Partido dos Trabalhadores. Outro dia tive a oportunidade de revê-lo, através de um artigo publicado no jornal Le Monde Diplomatique, onde ele observava que talvez nunca tenha existido um momento tão delicado para os trabalhadores. Estamos observando uma conjunção de fatores extremamente perniciosa à classe trabalhadora, como o agravamento do desemprego estrutural, pior recessão de todos os tempos, desregulamentação e assédio sobre a CLT - que é a constituição dos trabalhadores -, e os sindicatos e centrais sindicais "paralisados" diante de um governo de corte autoritário e a ausência de condições políticas favoráveis à defesa de interesses da categoria. No plano da economia informal, sobre como estão se virando aqueles excluídos dos empregos formais, o quadro é ainda mais desolador. 

Quem produziu uma boa síntese sobre o assunto foi o jornalista Cid Benjamim, de quem já publicamos alguns artigos por aqui. Os comentários de Cid nas redes sociais, envolvendo assuntos relacionados à política, a economia - e até futebol - alcançam grandes repercussões entre os internautas. Cid publica seus artigos em jornais do Sudeste que, normalmente, vetam a sua reprodução. Na opinião de Cid, com a qual concordamos, estamos diante de uma barbárie à vista: 

No Brasil, mais de 40% da mão de obra ativa está na informalidade. Em geral, são pessoas pobres e pouco informadas. Somente uma ínfima parcela delas contribui como trabalhador autônomo.

Pois bem, a proposta de reforma de Michel Temer, ao extinguir a aposentadoria por idade e exigir tempo de contribuição, em vez de tempo de trabalho, para a aposentadoria, na prática tira desse pessoal a possibilidade de se aposentar.

Assim, além de um imenso saco de maldades trazidos por essa reforma de Temer e sua turminha braba, ela exclui da Previdência quase a totalidade dos trabalhadores informais - que são quase a metade do total de trabalhadores. Em vez de receberem aposentadorias miseráveis, como agora, eles passarão a não receber nada. Terão que trabalhar até morrer, literalmente.

É um ataque frontal a qualquer veleidade de construção de uma nação civilizada.

Enquanto isso, a grande questão para parte da esquerda parece ser apoiar ou não golpistas para as presidências da Câmara e do Senado, conseguindo assim meia dúzia de cargos comissionados para seus amigos.
É de doer. 


Prometo que vou encaminhar essas conclusões ao professor Ulrick Beck. Se ele não for daqueles acadêmicos pavões - o que é muito comum na academia - e tiver alguma humildade, poderá chegar à conclusão de que a sua tese não teria apenas um furo, mais uma tábua de pirulitos completa, daquelas usadas pelos que se dedicam à economia informal. Essa descoberta, no entanto, não desmerece o trabalho realizado pelo sociólogo alemão, que dedicou parte de sua vida acadêmica a esses estudos, o que ele insere numa espécie de "segunda modernidade". Isso, de fato, dá um bom debate, pois se considerarmos as observações do sociólogo francês, Michel Maffesoli, o Brasil não passou pela transição da modernidade, indo direto para a pós-modernidade. 

A princípio pode-se entender um certo "entusiasmo" de Ulrick Beck em sua visita ao país. Não nos consta se ele chegou a visitar o Recife, mas, se o fizesse, poderia ficar impressionado com as habilidades dos nossos peregrinos do mercado informal, o que, na cidade, possui uma longa tradição histórica. Ali pelo entorno do Mercado de São José, esses peregrinos conseguem vender iogurtes, com prazo de validade vencido, sob o calor das 11:00 horas da manhã, sem nenhum tipo de higiene ou acondicionamento adequado. A vigilância da Prefeitura do Recife até atua no sentido de disciplinar esse comércio, mas os fiscais também possuem seu momento de folga para o almoço, por vezes estendido com a sesta. Com uma incrível capacidade de mobilidade, os camelôs aproveitam essas "brechas". 

A tese da democracia racial - atribuída ao sociólogo Gilberto Freyre - foi completamente rechaçada ao longo dos anos, chegando-se à conclusão inevitável de um racismo no Brasil e, pior, de caráter institucional. Não temos dúvidas de que o mesmo raciocínio se aplica ao outro "encantamento" de Ulrick Beck, que se entusiasmou com o fato de que negros, pardos, brancos, homens e mulheres se "harmonizavam" nessas atividades. Qualquer levantamento apontaria que os negros são maioria nessa atividade. Aliás, a origem dessa atividade está intrinsecamente ligada à etnia negra. Alguns estudos apontam que este comércio teve origem, aqui no Brasil, através dos escravos de ganho, que comercializavam alguns produtos para os seus senhores. 

P.S.: Contexto Político: Acerca dos problemas sociais acarretados pela Reforma da Previdência ora em estudo no Legislativo, aconselhamos a leitura do artigo do professor Michel Zaidan Filho, aqui publicado no dia de ontem.



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