quinta-feira, 21 de abril de 2016

A ficha começa a cair para os ingênuos apoiadores do golpe


Não se passaram sequer 48 horas. No domingo, dia 17, por 342 votos, a Câmara dos Deputados aprovou o envio ao Senado do processo de impeachment da Presidente Dilma. A sucessão de falas sem nenhuma conexão com o motivo do processo ( crime de responsabilidade fiscal ), ao lado de repetidas citações de Deus e alusões à família, aos filhos, às esposas, às cidades de origem dos deputados e muitas outras coisas mais, aos poucos isso tudo foi gerando desde então matérias e mais matérias, centenas de comentários de jornalistas, blogueiros, juristas e intelectuais pelo país todo, tratando do absurdo que se passara na tarde e noite daquele domingo.

O pior, porém, ainda estaria por vir. A Deputada Raquel Muniz, de Minas Gerais, com base em Montes Claros, no norte do estado, ao expor seu voto SIM, a favor do impeachment, criticou a corrupção e disse que os caminhos contra a mesma seriam aqueles que o Prefeito da mesma cidade estaria desenvolvendo no município. Por coincidência, tratava-se do seu marido. Pois bem, na manhã seguinte o marido e Prefeito homenageado, do PSB, foi preso pela Polícia Federal por denúncia de atos de corrupção na gestão da rede hospitalar na cidade, por favorecimento de hospitais privados de seu grupo econômico.

Pergunta-se, ante o espanto de todo o país ao saber disso: Quantos mais não emitiram seus votos, além do Presidente que conduziu a sessão, já réu no STF, também já envolvidos com atos de corrupção, dentro e fora da Lava Jato?

A mídia revelou também na segunda e na terça-feira o conteúdo de delações premiadas de Nestor Cerveró e outros, um dos quais de sobrenome ” Luz”, que citam Renan Calheiros e o próprio Vice-Presidente Michel Temmer, presidente do PMDB há anos e, certamente, peça chave nas negociações para a nomeação de seus representantes nas Diretorias da Petrobras envolvidas em corrupção. Difícil imaginar, muito difícil mesmo, que ele não soube de nada nem da razão da indicação dos apadrinhados do seu partido.

Bem, frente a tal escândalo, se houve negligência de Lula, Dilma e do PT para impedir tais atos, é difícil imaginarmos que o PMDB, e Temer, seu presidente, também não teriam sido negligentes com a atuação dos nomes que o PMDB indicou. Gente, como aqueles nomes associados ao PT, com contas de milhões de dólares no exterior. Ou será que todos os indicados, de todos os partidos, roubaram na surdina, em causa própria, sem que os seus respectivos partidos recebessem de cada um a prestação de contas de seus atos na empresa? Se fosse um filme seria sem dúvida ” Missão Impossível”.

Foram nomeados e não foram acompanhados? Como explicar tamanho desinteresse na atuação dos nomeados? É óbvio que não se trata de desleixo.

Por isso, enquanto Cunha é réu, Renan, Temer e outros são citados pelos delatores, com detalhes de cifras e arranjos feitos, enquanto Dilma não aparece em nenhuma planilha, reunião ou delação, grande parte da população começa a perceber que foi traída, que não há legitimidade alguma em se transferir o governo da nação, sem os votos do povo, para Temer, sem falar nos rumores de que Cunha seria premiado com o arquivamento de seu processo, pelos serviços prestados ao impeachment de Dilma. O governo enfrenta problemas, vários, com causas internas e externas, até por seus próprios erros, mas isso não é passaporte para o processo de impeachment da Presidente.

A estrada para os defensores do golpe não está, por isso, ainda, pavimentada, sem buracos, lombadas ou desvios até o destino final, o Palácio do Planalto, sem um voto sequer do povo. Podem ficar pelo meio do caminho, caso cresça a percepção do golpe que praticaram contra a democracia, de que só novas eleições gerais podem restaurar a legitimidade do governo e do parlamento, dessa vez, sem dinheiro sujo, privado, de caixa 2,3 ou mais.

A vigilância constante do eleitor é a segurança para que evitemos a eleição de corruptos, despreparados e falsos profetas. Olho neles, dia após dia, nas ruas, nas mídias e redes sociais.

Paulo Rubem Santiago é presidente da Fundação Joaquim Nabuco

(Artigo publicado originalmente na Plataforma de Esquerda, aqui reproduzido com autorização do autor)

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